Catorze
memórias de amor pelas ruas de Amsterdã
Setembro, 2027
Suzane estava presa na joalheria devido às grandes demandas que recebiam, desde que começou a trabalhar no negócio do seu pai, percebeu que esta era sua vocação. Era claro que dependia de uma colinha, qual era um diário que lhe explicava todos os processos para que assim pudesse repeti-los durante o trabalho. E era incrível como suas mãos sabiam exatamente o que fazer, como se de alguma forma seu subconsciente tivesse memoriado os processos – mesmo perante suas condições.
Joias são souvenirs especiais, que protagonizam grandes memórias e podem atravessar gerações, era esse significado que faziam a garota amar totalmente cada detalhezinho do seu trabalho. É um processo árduo e muito complexo que requer bastante cuidado, mas graças aos avanços tecnológicos que se misturam à prática artesanal, tornava o processo mais rápido e pouco mais fácil, permitindo uma produção em larga escala que, ainda assim, confere delicadeza às peças.
A melhor parte era ver a alegria no rosto dos seus clientes, satisfeitos com a beleza e delicadeza das peças únicas produzidas individualmente para cada um deles. É claro que haviam coleções da marca de seu pai, mas a grande demanda era por joias desenhadas singularmente para cada pessoa-história.
Suzane terminava um anel de noivado dando um acabamento polido que deixava a joia lisa e brilhante – quase como um espelho. Assim que finalizado, o anel ganhou o aconchego da caixinha onde seria guardado antes de habitar um dedo, ela colocou um pequeno folheto com os cuidados necessários para sua conservação.
— Papai, o anel do Sr. Tavares ficou pronto. — Informou ao mesmo, enquanto deixava o produto no estoque etiquetado para entregar. — Vou pedir para a Luiza informá-lo.
Luiza é a secretária da joalheria, responsável pelo atendimento aos clientes, finanças e todas as demais brocarias.
— Perfeito, querida, fez um ótimo trabalho! — Elogiou Ítalo, dando um beijo casto no topo da cabeleira loira de sua filha. — Ei, Kass está te esperando no café.
— Sério? Marcamos algo? Poxa, eu ainda tenho tanto trabalho… — Suspirou cansada. Não gostava de deixar as demandas se acumularem.
— Não, não, querida, por favor, vá passar um tempo com ela. Você já trabalhou tanto que mal a viu esses dias. Deixa que dou conta de tudo por aqui. — Garantiu a mesma, acariciando suas costas enquanto a guiava para fora da oficina.
— Mas papai… — Protestou, soltando os ombros.
— Suzane, vá com a sua namorada. Está tudo bem parar um pouco filha, descansar faz parte do processo. — Ítalo a tranquilizou.
— Ok! Você ganhou! — Suzane ergueu as mãos em rendição. — Te amo.
— Te amo, filhote. — Trocaram beijos no rosto e ela se apressou em ir até o banheiro dos funcionários para pegar sua bolsa.
Despediu-se de Luiza após informá-la sobre a peça pronta e deixou a loja para atravessar a rua até a Cafeteria da Marta, onde Kássia lhe esperava usando um dos típicos terninhos do seu trabalho, sentada em uma das mesinhas charmosas e próxima a um jardim de rosas. Ela estava estagiando em um escritório de contabilidade, já cursando o último ano de faculdade e fazendo alguns freelancers de contadora.
Suzane se aproximou cautelosamente como um gato, já que sua namorada estava distraída demais com seu notebook, a surpreendeu com um abraço, circulando seus braços ao redor dos seus ombros e apertando-a enquanto enchia seu pescoço de beijos.
— Que cheirosa! — Constatou ao pé do ouvido da moça. — Oi, meu amor.
— Oi, gatinha, que saudades. — Respondeu virando o rosto para alcançar os lábios da namorada com os seus.
A vida adulta lhe cobrava demais, impossibilitando as amantes de se encontrarem com tanta frequência quanto antes. Agora só visitaram a torre uma vez no mês e mesmo assim passavam poucas horas, já que trabalhar e fazer faculdade ocupava todo o tempo de Kássia. E enquanto isso Suzane se afogava de trabalho na joalheria, tentando manter sua mente funcionando o máximo possível, isso garantia que talvez ela perdesse menos as suas memórias.
— Quer um café? — Perguntou Kass enquanto a namorada ocupava a cadeira a sua frente. — Você tá com carinha de cansada, cafeína lhe cairia bem.
— Um cappuccino seria bom. — Concordou Suze, enquanto se acomodava.
Fizeram o pedido e passaram os próximos 30 minutos colocando os acontecimentos em dia, contavam de sua rotina de trabalhos e afins. A essa altura, Kássia e Mical já não moravam mais no vagão. Dividiam novamente o aluguel de um apartamento já que suas condições financeiras melhoraram consideravelmente. Mical acabou abrindo sua própria loja de eletrônicos e planejava muito em breve mudar-se para Rio Vermelho, onde a expectativas de clientes – e consequentemente retorno financeiro – seria muito maior do que em Calisto. Ele e Luciano continuam juntos.
E com o anúncio de Mical, Kássia se pegou pensando em finalmente comprar sua casa própria, por estar determinada a continuar vivendo em Calisto.
— Quero que conheça um lugar. — Anunciou para Suze, suas mãos suavam de ansiedade e isso a obrigou a limpá-las na saia lápis que trajava. — Vem comigo?
Suzane ergueu uma sobrancelha, intrigada com o mistério, mas prontamente assentiu. As duas se levantaram e deixaram o café após pagar a conta, pediram um táxi até um bairro charmoso e à beira-mar de Calisto. Pararam de frente para uma linda casa, bem grande e cheia de verde, e o melhor, era de frente para o mar e bem pertinho do farol.
— O que estamos fazendo aqui? — Suzane questionou, enquanto saia do veículo e já observava tudo.
Kássia olhou para ela e simplesmente tirou as chaves de sua bolsa de ombro.
Suzane escancarou os olhos, compreendendo o que aquilo significava.
— Você…? — Murmurou ainda em dúvida.
— Comprei uma casa! — Anunciou por fim. — É claro que ainda tem muitas parcelas para pagar. Mas, Suze, eu comprei uma casa! Meu Deus, eu tenho uma casa!
— AI, MEU DEUS! — Suzane arregalou os olhos e correu para abraçar a namorada, rodopiaram no meio da rua em um abraço desengonçado. — K, você merece tanto.
Kássia só possuía 23 anos e Suzane 22, mas com todas as suas economias e o dinheiro que tem entrado agora com o estágio e os freelancers, deram-lhe a oportunidade de financiar uma casa. É claro que não seria fácil quitar essa dívida, mas só de pagar uma parcela de algo que era seu ao invés de um aluguel, já era muito maravilhoso.
— Vem comigo! — Puxou Suze pela mão e atravessaram o pequeno quintal com garagem para entrarem na casa.
— Nossa, é tão lindo! É muito grande. — Suze constava tudo admirada.
Era uma propriedade para apaixonados por sol, mar e natureza. Possuía uma atmosfera descontraída, integrando as áreas internas e externas, de modo que o entorno paisagístico passou a fazer parte da residência. A varanda coberta de frente para a praia é o espaço principal de convivência. A presença maciça de madeira como principal material de acabamento deu uma aparência bem praiana à casa, sendo que juntamente com a ampla utilização de vidro a construção ficou totalmente integrada à paisagem.
O projeto teve o mérito de não derrubar uma árvore sequer.
Na área de lazer havia uma piscina revestida de pastilhas e piso em deck, assim como uma churrasqueira. As plantas nativas que melhor se adaptam à região compunham seu jardim, o que atraia convidados especiais como tucanos e macacos. Era a casa dos sonhos e Kássia conseguiu conquistar isso.
Abriram a porta de correr que dava para a varanda com acesso à praia e encararam a vista do oceano de mãos dadas. Era lindo, mesmo que estivessem acostumadas com a paisagem.
— Quer ir molhar os pés comigo? — Kass convidou.
— Sim! — Suze concordou animadamente e já se dispôs a remover suas sandálias.
Kássia precisou se livrar do scarpin de salto baixo e a meia-calça que usava. Unindo suas mãos novamente, caminharam até a areia quente até alcançar a água fria. Pararam bem na beira, sentindo as ondas suaves que iam e vinham, além de ouvir o barulhinho delicioso da espuma se desfazendo.
— Suzane? — Chamou sutilmente.
— Sim? — Virou o rosto para encarar a namorada.
— Você gostou da casa? — Era uma pergunta óbvia, mas queria ouvir a resposta mesmo assim.
— Eu amei, Kass. Estou muito feliz pela sua conquista. — Sorriu, acariciando seu polegar no topo da mão de pele macia.
— Suzane, quero que essa seja a nossa casa. — Disse Kássia olhando-a com afinco para não perder a expressão de confusão e surpresa que surgiu no seu rosto. Kássia se abaixou até se ajoelhar na água salgada e tirou do bolso da saia uma caixinha de veludo.
— Ai, meu deus do céu, Kássia de Luna! — Suzane exclamou, levando as mãos ao rosto e tapando a boca em choque.
— Suzane Carolino, passe o resto da sua vida se apaixonando por mim todos os dias. — Kássia estava com a voz emaranhada de emoção enquanto abria a caixinha para exibir a joia que seu sogro havia confeccionado mais uma vez para o momento importante. — Seja a minha esposa. Mãe dos nossos filhos. Dona de uma casa na praia. Seja para sempre minha, porque eu já sou sua.
Era um lindo anel com zircônia topázio navete e zircônias cristal. Uma joia com muito brilho e charme! Perfeita para celebrar momentos especiais. Certamente, Suzane não precisava de um anel tão caro, ela sempre diria sim. Até mesmo para anéis de conchinha e recordando-se do primeiro anel que lhe foi oferecido, respondeu:
— Kássia, eu simplesmente te amo. Irrevogável, intenso e completamente. Eu te adoro. E sim, mil vezes, sim, eu aceito ser a sua esposa para sempre…
E como na primeira vez, agarrou-a para que ficasse de pé e beijou-a com intensidade, diante do mar e do céu laranja de uma tarde de verão como testemunhas. O brilhante anel foi colocado em seu dedo anelar juntamente ao de conchinha que nunca saiu dali.
Sentiram-se como se o universo inteiro estivesse dentro de seu ser.
![]()
Dali em diante, não quiseram esperar mais. Na mesma semana, Suzane e Kássia se mudaram para a nova casa. Um mês depois, disseram sim uma para a outra novamente, diante de todas as pessoas que amavam e sobretudo, perante o farol que marcaram seu grande amor. Se casaram numa cerimônia íntima e simplista na praia, ambas vestidas de branco, com um buquê cheiroso de dama-da-noite, onde Mical e Luciano foram padrinhos. Depois correram para seu jardim-praia onde realizaram um típico churrasco com a família, comemorando o casório.
Não esperavam poder viajar para comemorar o casamento, já que estavam endividadas com as parcelas da casa, mas foram surpreendidas com um presente de casamento vindo dos senhores Carolinos. Uma viagem com tudo pago para o Amsterdã, onde viveram a inesquecível lua de mel, com direito a passeios de barcos, restaurantes chiques e bebidas que as deixaram borbulhando de felicidade. Visitaram o museu de Van Gogh onde se depararam com obras como ‘Girassóis’ e ‘O Quarto’. Exploraram a casa de Anne Frank. Passearam por todos os parques mais almejados, como Vondelpark e Keukenhof. Desfrutaram das charmosas coffee shops. Viveram a Heineken Experience. E terminaram a viagem visitando o Flanar pelo bairro de Jordaan que é considerado um dos bairros mais bonitos da cidade de Amsterdã. Aproveitaram seu último dia de viagem para explorar as ruas da região e visitar lojas, galerias e cafés.
Havia sido uma experiência mágica, por onde passavam semeavam mais memórias do seu amor pelas ruas de Amsterdã.
Na noite antes de voltarem para casa, Kássia foi até a simpática varandinha do hotel que se hospedaram e conversou com sua amada avó, enquanto contemplava as estrelas. Relatou a ela tudo de tão mágico que estava vivendo. Sem acreditar que todos os seus sonhos se tornaram realidade. E havia tanto a agradecer a Senhora Daise que a amou assim que soube de sua vida naquele ventre que nunca a quis. Que implorou para que Kássia tivesse a oportunidade de viver. Que cuidou de si desde o segundo que foi concebida e cuidou mais ainda quando finalmente veio ao mundo. Devia sua vida a sua avó e jamais se esqueceria disso, graças a ela, Kass teve a oportunidade de viver, amar e ser irrevogavelmente feliz.
Kássia de Luna havia conseguido, sua promessa estava cumprida.
![]()
Poucos meses após o casamento, Kássia se formou na faculdade e o seu desempenho não passou despercebido, recebeu uma proposta irrecusável de emprego, onde trabalharia no Banco Central de Calisto. Enquanto isso, Suzane colhia os frutos do trabalho árduo na joalheria que expandiu o negócio para vendas online, agora as joias Carolino felicitavam clientes do mundo todo. Tudo isso trouxe grande felicidade financeira para o casal, que aproveitada cada oportunidade para antecipar as parcelas da casa e puderam até mesmo comprar um carro para a família.
Certo dia, passeando pela feira que acontecia todos os fins de semana na rua principal da cidade, se depararam com uma cadela cor caramelo tremendo de frio. Ela estava severamente doente e mesmo assim tentava proteger um filhote de gatinho que havia adotado. Um se assegurava ao outro para sobreviver. A cena tocou profundamente o coração das recém-casadas que não tiveram que pensar muito, adoraram os animaizinhos e os levaram imediatamente ao veterinário onde receberam o tratamento adequado.
Poucos dias depois, a casa das Carolino de Luna não era mais tão vazia e silenciosa, um gatilho serelepe e uma cadelinha caramelo corriam de um lado pro outro, arrancando risadas de suas tutoras. A caramelo recebeu o nome de Lyra enquanto o seu filhotinho era Francisco, mas seu nome mesmo ficou curtinho: Cisco.
Havia tanto amor naqueles pequenos seres. Se orgulharam, pois já eram uma família.
Gostou do capítulo?
Indique para um amigo
Compartilhar
Faça parte do Clube de Leitores da Raposa
Está gostando da leitura?
Deixe seu e-mail aqui embaixo.
Ao se inscrever, você concorda com a nossa Política de Privacidade.
Comentários