Treze

a escuridão nunca mais fará parte do seu coração

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Seu pai dirigiu até a linha ferroviária de Calisto, Suzane observava a paisagem ao seu redor, composta por árvores de grande porte que ladeavam a estrada.

Calisto é uma das cidades mais bonitas e bem preservadas das redondezas. Aparentemente parece ter saído de um conto de fadas, as ruelas íngremes e estreitas de paralelepípedos, as casas tortuosas de enxaimel e caminhos ribeirinhos exuberantes contribuem para o fascínio desta vila litorânea encantadora. Oferece aos turistas e aos moradores uma visão do passado medieval, uma ótima escolha para os amantes da história e possui uma das melhores arquiteturas já vistas. Começando as explorações pelo centro da cidade, onde possui edifícios do século XIII. As galerias de artes e o farol da antiga fábrica de açúcar, é certamente imperdível, uma série de monumentos históricos podia deixar os turistas encantados por horas.

Estar ali é poder admirar a Catedral por sua arquitetura gótica e belos vitrais, fazer compras nas muitas lojas cheias de lembranças extravagantes, assados e creperias. Calisto foi premiada com a designação de Cidade de Arte e História em 1986 e ainda é o lar de inúmeros artistas, marceneiros, joalheiros, sopradores de vidro e encadernadores que apresentam suas obras hoje. Até explorar o porto à beira do rio ou dar um passeio nas praças públicas não deixa ninguém desapontado.

Particularmente, Suzane amava a cidade onde morava. A sensação deliciosa de caminhar por outro século, mesmo estando no futuro, é certamente um jeito fácil de pertencer a um livro.

Perdida em pensamentos, a garota apertou os braços contra si em um abraço de apoio, estava deveras nervosa pelo que faria assim que chegasse ao seu destino.

— Querida? — Ítalo chamou sua atenção, só então percebeu haverem chegado ao destino e, no horizonte, do outro lado do vilarejo, tinha a visão do Farol Lehna e o vasto oceano que a beira. — Quer que eu te espere?

— Não vai ser preciso. — Garantiu ao seu pai, levando sua mão trêmula até a maçaneta para abrir a porta.

— Me ligue se precisar. — Deu o aviso costumeiro.

— Obrigada, pai Ita.

Não poderia negar, estava tão tensa. Mais do que nunca precisava se agarrar a todas as lembranças que viu e reviu antes de vir parar aqui, preparando-se para esse momento como se estuda para uma prova.

Suzane saiu para o clima fresco do lado de fora, uma brisa suave beijou suas bochechas e o cheiro de terra molhada lhe fez sorrir mesmo que fraco. Encarou os vagões do trem abandonado, cujo ali fazia-se morada do seu grande amor. Depois de tudo que seus pais lhe contaram, precisou criar muita coragem para vir até aqui e encarar a situação de uma vez por todas.

Todas as consequências dos seus erros.

O problema é que não se sentia tão arrependida quanto deveria. Um lado dentro de si, não podia compungir-se de ter vivido algo tão sincero e se apaixonado. Por outro lado, sabia que mentir para quem a amava tanto, era muito sério. Kássia estava machucada, talvez confusa e a culpa era toda sua.

O carro de seu pai se afastou e o barulho do cascalho sendo pressionado pelo pneu foi ficando cada segundo mais longe, com mais uma respiração profunda, criou coragem e deu os primeiros passos na direção da entrada do vagão. A porta se abriu, fazendo-a se sobressaltar e dali saiu um ser desconhecido.

Era Mical, o melhor amigo de Kássia, de fios tingidos de roxo e roupas góticas, mas obviamente, Suzane não se lembrava dele com tanto afinco.

— E aí, Suze. — Sorriu gengival para si, o rapaz possuía uma mochila enorme nas costas. — Veio ver a Kass?

Assentiu timidamente como resposta, o tempo todo abraçando seu próprio corpo.

— Ela está lá nos fundos, vai lá. — O rapaz segurou a porta de ferro pesada para que Suze entrasse, assim que estava do lado de dentro a porta fechou atrás de si. — A gente se vê. — Ouviu a despedida abafada.

Entendeu que Mical estava de partida e assim se encontrou sozinha no recinto de baixa iluminação, uma pequena sala extremamente simples estava diante de si e com apenas alguns passos estava perante a porta improvisada do quarto de Kássia. Sabia que era o quarto dela, pois seu nome estava cravado ali, com um velho adesivo impresso em fonte cômica. Bateu suavemente e esperou a resposta do outro lado, cujo veio de imediato:

— Desde quando você bate na porta, mané. Entra logo, Mical. Esqueceu alguma coisa, foi? — Kass respondeu, do jeito brincalhão que fala com seu melhor amigo.

Suzane sorriu com o jeito marrento da sua namorada e avançou para dentro do recinto, surpreendendo a surfista esparramada sobre a cama, cujo trajava apenas um shortinho de dormir e top cobrindo os seios. A visão fez as bochechas da mais nova ficarem rosadas.

— Oi. — Disse, baixo e envergonhada.

— Suze, o que está fazendo aqui? Quer dizer, eu não esperava. Iria à sua casa hoje à noite para… — Se interrompeu, era tudo muito recente, ainda doía.

— Meus pais me contaram o que aconteceu… — Era tão difícil que precisou fechar os olhos com muita força, apenas deixou as palavras fluírem para fora de si. — Sinto muito, Kássia. Me perdoa. Tentei te contar várias vezes, mas não consegui…

Silêncio.

— E por que não conseguiu?

— Algo dentro de mim temia. — Seu queixo tremeu, segurou o choro com todas as forças.

— Suze, você pode me contar qualquer coisa. O que te fez pensar que eu não deveria saber? — Kássia questionou, um pouco magoada. — Sou sua namorada, acho que merecia ter conhecimento de algo tão grave.

— Eu sei. Falhei. Não consegui.

Kássia vestiu uma blusa aleatória jogada no chão próximo da sua cama e se aproximou cautelosamente da garota que amava, a mesmo foi sentido o calor da presença física a cada segundo mais próximo de si. Quando os corpos estavam diante um do outro, rente o suficiente para se tocarem, a mais velha levou sua mão até a bochecha macia de Suzane.

— Você pode me contar agora? — Quis saber, pois desejava entender seus sentimentos.

Suze respirou profundamente, assentindo ao balançar a cabeça de maneira suave e em concordância. Seu corpo inteiro tremia de nervosismo, sabia que não poderia mais guardar seus segredos para si. Seu coração desgovernado implorava por libertação.

— Uma vez na minha vida eu queria ser alguém normal, principalmente por você ser tão especial para mim. Toda vez que pensava em como você poderia reagir ao saber sobre a minha condição, me sentia com medo de perdê-la. — Abriu seus olhos lentamente para encarar as íris castanhas a sua frente, sentiu sua visão embaçar. — Sei perfeitamente que talvez não me deixaria pela minha condição, mas o que odiaria é saber que você poderia ficar comigo por dó, ou passar a me ver com outros olhos. Olhares que constantemente recebo… Os de pena. Se isso acontecesse, acabaria comigo, Kássia.

— Suzane. — Kássia a abraçou com todas as suas forças, na esperança de que pudesse compreender toda a imensidão do amor que sente por ela e que isso a confortasse. — Você está tão enganada, anjo.

Suze se agarrou a mulher que amava, ela era seu porto seguro. O seu farol. O seu destino. O seu constante verão.

— Você me ama? — Suzane quis saber, temendo que suas mentiras tivessem destruído seus sentimentos.

— Eu te amo mais do que meu coração suporta. — Kássia confessou, sorrindo apaixonada. — Nada dentro de mim mudou, bobinha.

— Também te amo, Kass. E todos os dias quando leio meus diários e vejo nossas fotos pela manhã, meu coração se lembra disso. — Confessou como a mais bela declaração de amor.

— Você se apaixona por mim todos os dias. — Kássia constatou, subitamente se afastou para fitar o rosto alheio. — É isso que me deixa ainda mais surpresa. Mesmo se esquecendo de mim todos os dias quando dorme, você acorda e se apaixona novamente. Fez isso por um ano inteiro, sem deixar que sua condição atrapalhasse nosso relacionamento.

Lágrimas escorriam pelos olhos miúdos de Suzane, que não sabia se sorria ou se chorava, só sabia que havia entrega naquele momento. Sua amada não a olhava com outros olhos, pelo contrário, havia muito mais brilho em seu olhar. Kássia a via por completo, como sempre a enxergou. Assim como o Pequeno Príncipe[1], havia encontrado a sua rosa, até mesmo a sua raposa, seus baobás e o seu próprio planeta. Talvez a verdade não seja tão assustadora quanto pensou que poderia ser, talvez seja, na verdade, o que faltava para se entregar completamente.

— Pude refletir desde que soube de tudo. E… posso lidar com isso, Suze! Eu quero ficar com você. E tive uma ideia para te ajudar com suas memórias… — Animadamente, Kássia se afastou para ir até sua escrivaninha, onde ali havia uma caixa que deveria ser embrulhada com papel de presente, mas que não foi possível pela chegada inesperada de sua namorada. — É para você. — Entregou para Suzane que fitou a caixa curiosa. — Um gravador de fitas K7. Sei que não é nada de mais, mas pensei se não seria bom que você pudesse gravar mensagens para si mesma, contando tudo aquilo que você precisa ouvir quando despertar pela manhã. Nós podemos viver o nosso amor, a nossa história… Não há nada que possa nos impedir disso, meu bem.

Suzane encarou o rosto da mulher à sua frente, ela soube no fundo da alma que havia sido presenteada, que era a garota mais sortuda do mundo. Kássia é a sua alma metade. Silenciada pelo gesto tão apaixonante, apenas cortou a distância entre seus corpos e a beijou profundamente.

— Enquanto eu existir, vou te amar. — Garantiu a Kássia.

— Desde que você apareceu na minha vida, não me sinto mais tão sozinha. Tão pouco abandonada. Nem mesmo uma aberração desleixada. Noto profundamente que sou quem sou, devo me orgulhar muito disso e que ninguém além de mim é capaz de enxergar a imensidão do meu ser. Tenho o seu amor e ele é tão verdadeiro que não deixa nenhuma outra via de ódio habitar em meu ser.

— Não pretendo te deixar, Kássia de Luna, portanto a escuridão nunca mais fará parte do seu coração.

— Você me faz existir de maneiras que eu julgava ser impossível, Suzane Carolino.

— E você me dá motivos para acordar, pegar as minhas memórias perdidas, relembrá-las e viver sem medo. — Suzane a abraçou ainda mais forte, espalhando beijos por toda a face alheia. — Quero tanto fazer amor com você.

E isso arrancou uma risada da mais velha.

— Então não vamos perder mais tempo.

E o beijo se tornou eufórico enquanto se despiram completamente uma para a outra. Mais uma vez o amor se concretizou, tomou forma enquanto seus corpos se uniam euforicamente e explodiram em sensações indescritíveis de paixão combinados ao prazer. Se amaram em segredo.

Estavam completas.

 


 

[1] O Pequeno Príncipe é uma obra literária do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry.

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