Sete
por mais que a minha história não fosse bela, merecia ser contada
Janeiro, 2023
Os meses se passaram rápido, as garotas unidas pelo Farol Lehna se tornaram inseparáveis. Mesmo passando o Natal separadas, já que Suzane foi visitar os avós, no ano novo haviam decidido que nada as impediria de passá-lo juntas. A mais nova escapou de casa para escalar a torre e ver os fogos com sua mais nova amiga.
Nas férias escolares, Suzane costumava ficar mais ocupada ajudando o pai com a joalheria, por isso não se viram com tanta frequência, mas o pouco que compartilharam as aproximaram o suficiente. Além de que, os processos para forjar uma joia era incrível demais, Suze adorava participar de cada preciosidade criada pelas mãos talentosas de Ítalo.
Depois que se conheceram, Kássia nunca mais viu Suzane chorar e isso a deixava alegre. Sempre vinha de bicicleta carregando sua polaroid na bolsa e a surfista de skate levando consigo sua prancha e uma mochila pesada de livros para estudar. Se tornaram inseparáveis e pouco se importavam com o que era dito a seu respeito.
Estavam sentadas lado a lado no topo da torre, Suzane fingia ler uma HQ, quando seu real interesse mesmo era ficar encarando as expressões de Kássia, cujo estava severamente concentrada em um livro grosso de álgebra. Sua meta era concluir o supletivo do Ensino Médio, para isso estudava a distância, assim que alcançasse esse desígnio, iria se inscrever para a faculdade de Contabilidade. Por fim, havia decido que tinha vocação para os números e seu maior desejo era trabalhar com eles.
Suzane estava perdida em pensamentos, ponderando que se encarasse a garota o suficiente poderia memorizar seus traços para sempre. Os olhos de galáxia, a pele que brilhava devido ao bronzeamento diário, o cheiro fresco de maresia e baunilha que emanava dela, o cabelo afro trançado rende ao couro cabeludo ficava um charme com as trancinhas finas rodeando sua nuca, as tatuagens significativas eternizadas em sua pele – que até então lhe eram um segredo, mas o pouco que as viu sabia que eram carregadas de sentimentos –, até os poros visíveis de seu rosto lhe tornavam bonita.
Cada detalhe dessa mulher lhe tirava o fôlego. Se pegava completamente encantada cada vez que pensava nela. Seu coração até errava as batidas só de ouvir a voz dela. Havia uma vontade queimando dentro de si: contar a garota que gosta tudo que estava sentido. Amava-a em segredo já faziam muitos meses e por todo esse tempo, todos os dias, Suzane tinha mais certeza disso.
Era estranho, era novo e sobretudo uma sensação sublime. Suze só queria estar em sua presença, mesmo que fosse em silêncio. A arte no céu sobre suas cabeças e a trilha sonora do oceano tornava tudo ainda mais perfeito.
Enquanto a observava, Kássia percebeu que a mocinha não estava lendo coisa nenhuma, colocou sua mão por sobre a da garota, qual estava apoiada em cima do seu joelho direito, automaticamente seus dedos deslizaram para entre os dedos dela, encaixando-se como se fossem feitos para isso. As duas observaram suas mãos unidas e acharam lindo o contraste entre suas tonalidades de pele. Se completavam até assim.
— Kássia, meus pais querem te conhecer. — Soltou de repente, não poderia negar estar com medo de fazer o convite, pensando que era muito cedo para isso e a surfista poderia encarar isso de uma maneira negativa. Já havia prolongado esse encontro há tanto tempo, não queria mais perder nenhum segundo. Seus pais precisavam conhecer a pessoa que mais admirava.
Kass ergueu as sobrancelhas em sobressalto, não acreditando no que ouvia. Inicialmente cogitou não aceitar o convite, pois tinha tanta vergonha e dificuldade em se socializar. Se fosse honesta, era uma sem-teto e que à primeira vista poderia passar a impressão de alguém que não queria nada na vida. Como os senhores Carolino poderiam permitir que sua filha tivesse contato com alguém assim?
— Você não precisa aceitar se não quiser, eu entendo. Eles te convidaram para um piquenique na praia nesse fim de semana. — Explicou, no fundo, torcia para a resposta ser positiva, queria muito que seus pais conhecessem sua melhor amiga, agora que havia finalmente feito uma. — Kass? — Chamou-a e os olhares desgrudaram de suas mãos unidas para mirarem os olhos uma da outra. — Quero muito que eles te conheçam.
Os lábios grossos de Kássia se abriram, ficando boquiaberta de tanta surpresa com a declaração. Seu coração absolutamente errou as batidas. Tudo parou, não pode mais ouvir a canção de Cássia Eller[1] que chiava do alto-falante estourado do seu rádio a pilha. Naquele momento, dentro daquela bolha, eram só as duas garotas com seus corações disparados, a respiração pesada e a certeza de que seus sentimentos uma pela outra eram imensos.
— Eu também quero conhecê-los, Suze. — Confessou por fim, ignorando todas as suas inseguranças, naquele momento tudo que ela queria era ver aquele sorriso enorme que se abriu no rosto da garota que gostava. E que sorriso, era como escancarar a janela numa manhã de verão. — Mais que isso, também quero que conheça meu melhor amigo, o Mical.
Suzane ficou ainda mais alegre, conhecer pessoas de seu círculo era um interesse comum entre ambas, necessitavam estreitar os laços e isso pareceu um conforto significante para os sentimentos que explodiam dentro do seu peito.
A data foi marcada e passaram os dias seguintes tão ansiosas que o tempo todo sentiam as borboletas que dançavam dentro de seus corpos.
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Era domingo de manhã quando a família Carolino se ajeitou na areia da praia com poucos banhistas. Estenderam um manto grande, fincaram o guarda-sol na areia e trajavam roupas praianas. Suzane estava com o coração a mil, ansiosa demais pelo tão esperado momento que apresentaria a garota que gosta aos seus pais. Arrumaram a cesta e algumas frutas em potinhos no centro do manto, ficaram ali sentados jogando conversa fora enquanto aguardavam a chegada da grande convidada.
Alguns minutos mais tarde ela surgiu na ponta da praia e caminhou com insegurança enquanto levava consigo sua prancha e a inseparável mochila em suas costas. Suze se levantou para encontrá-la no meio do caminho, correu para alcançá-la e se abraçaram em comprimento, era uma das poucas vezes que se encontravam fora do farol.
Kássia suava de nervosismo, assim que alcançaram os Carolino, fincou a prancha na areia e se aproximou tremendo, foi preciso enxugar o suor de suas mãos na bermuda que usava.
— Papais, essa é a Kássia. — Suzane foi logo apresentando e então apontou para o médico barbudo. — Esse é o pai Leonardo. — Depois apontou para o joalheiro. — E esse é o pai Ítalo.
Kássia achava incrível a família não convencional de Suzane, era raro ver famílias assim, havia muita coragem dentro daqueles homens que ignoraram a opinião e os ataques da sociedade para viverem suas vidas de maneira tão feliz. Sentia um orgulho imenso e se fosse sincera, teria que admitir que sonhava em ter uma família assim, com a Suze.
— É um prazer conhecê-los. — Kássia saudou, estendo sua mão, que foi apertada pelos dois.
— Você é ainda mais linda pessoalmente, Kass. — Disse Ítalo, animadamente. — Nossa Suzane fala de você o tempo todo!
Kass sentiu seu rosto inteiro ferver.
— Muito obrigada.
— Vem, senta aqui com a gente. — Ofereceu Leonardo, batendo no espaço vazio ao seu lado. Assim, Kássia prontamente o ocupou, ainda se sentindo extremamente tímida. — Ficamos muito felizes por aceitar o convite.
— Esperamos que você se sinta confortável, por isso fizemos um bolo de abacaxi com doce de leite, Suze falou que você adora. — Disse Ítalo, tirando a forma de bolo da gigante cesta de piquenique. — Somos muito gratos por sua amizade com nossa filha, o que pudermos fazer por você, será um prazer.
— Nossa… agradeço muito por isso, de verdade. — Kássia ficou impressionada. — A Suze é muito importante para mim.
Os dois a olharam com os olhos brilhantes, as duas formavam uma bela amizade e melhor ainda, um belo casal, pois não eram tolos, já sabiam que elas gostavam uma da outra e não tinham coragem de confessar isso.
— Queremos te conhecer melhor, por favor, se sentir confortável, conte-nos a sua história, Kass. — Pediu Ítalo.
— A minha história? — Engoliu seco, com medo.
Como poderia contar que fora rejeitada por seus pais desde a sua concepção? Que vivia num vagão? Que largou a escola quando era mais nova… Não se gloriava da sua vida. Não a achava digna de ser contata.
Inesperadamente, Kass sentiu uma pequena mão fria pousar sobre a sua, as mãos de Suzane eram sempre frias, mas elas pareciam tão calorosas naquele momento. O simples toque acalmou seu coração em pânico e ao olhá-la soube que não tinha o que temer. A família Carolino jamais a julgaria e que por mais que sua história não fosse bela, merecia ser contada. Kássia se orgulhava de onde havia chegado e todas as suas conquistas, mesmo que parecessem pequenas. Portanto, não sentiu mais vergonha de si mesma, ali entre pessoas tão boas, sentiu que poderia ser quem ela verdadeiramente era.
— Bom, eu estou tentando passar no supletivo, quero cursar contabilidade. E… eu não tenho casa própria, tive que deixar a casa da minha avó quando ela morreu, aliás, foi ela quem me criou. Moro com meu melhor amigo em um vagão abandonado. E juro que estou tentando parar de fumar, sei o quanto isso faz mal. Não precisam ficar preocupados, nunca ofereci essa porcaria para a Suze. — Olhou para o médico da família, temendo ser julgada por isso, mas os dois apenas riram.
— Sabemos disso e confiamos em você. — Leonardo a confortou.
— Mas prossiga, vamos, vamos… estou curioso. — Induziu Ítalo, fazendo-a ficar impressionada, já que não considerava sua história nada intrigante.
E ela prontamente continuou:
— E como sabem, eu amo surfar, amo de verdade mesmo. Inclusive, tenho uma boa notícia, Suze. — Direcionou seu olhar para a menina que demonstrou interesse em ouvir. — Vou sair do hortifruti, consegui um emprego melhor, naquela escola de surfe, a ‘Filhos de Poseidon’, como assistente da instrutora de surfe aqui da praia. Vou dar aulas de surfe para crianças.
Kássia estava muito orgulhosa disso, havia conhecido Letícia a poucos dias enquanto surfavam e pegaram uma onda juntas, a surfista profissional viu talento em si e convidou-a para ser sua assistente nas aulas que sua escola de surfe oferece. É claro que Kássia teria que fazer um treinamento rápido antes, mas a instrutora garantiu que seria uma mão com açúcar.
— Meu deus, Kass, isso é maravilhoso! Você merece tanto! — Suzane a abraçou enquanto seus pais batiam palmas e comemoravam sua conquista.
— Ok, isso merece um brinde! — Disse Leonardo começando a distribuir copos de papel para todos brindarem com suco de maçã geladinho.
— Você é uma pessoa incrível, Kássia! Com certeza merece tudo de bom! — Disse Ítalo.
Não houve nenhum comentário negativo a respeito da sua história, se sentiu tão aliviada, era ótimo estar entre pessoas de mente madura e aberta. Acabou que a conversa ficou de lado, visto que estavam mais ansiosos em comemorar.
Naquele dia de sol quente, eles brindaram muito mais que o novo emprego da surfista, comemoraram a entrada permanente de Kássia de Luna em suas vidas. Ela se sentiu acolhida e amada por pessoas que nem conhecia direito. Aquelas horas que passaram se divertindo na praia se tornaram um marco, tornou Kássia ainda mais próxima de Suzane. Ao contrário de suas inseguranças, os Carolino amaram conhecê-la e ela pode até ensinar a Ítalo como surfar.
Desse dia em diante, passaram a incluí-la em tudo que faziam com a filha.
Não poderiam estar mais felizes.
[1] Cássia Eller foi uma cantora, compositora e multi-instrumentista brasileira.
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