Quatro

é possível eternizar pessoas em nossos corações

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Abril, 2003 à Agosto, 2022

 

Nem todos os bebês nasciam do amor. Infelizmente, sinto lhes informar o óbvio, a maioria deles não nasce do ato bonito de unir um corpo ao outro, se amar de corpo e alma, fazer amor e blá, blá… não, quem dera pudesse lhes afirmar. Talvez mais da metade da humanidade tenha nascido do mais conhecido “acidente”, alguns imprevistos se tornam queridos, mas outros são bastante indesejáveis.

Noêmia de Luna jamais amaria a vida que crescia dentro de si, foi um terrível azar e ela seria a única a arcar com as consequências. Morava no subúrbio de Calix onde nasceu pobre e morreria pobre, afogada na miséria. Tratava de sua mãe sozinha, seus irmãos mais velhos a abandonaram. Quando engravidou, o pai da criança não aceitou o bebê e sua mãe a implorou para que não abortasse. Só estava mantendo aquela gestação por sua mãe, que fazia de tudo para ajudá-la na fase tão indesejada.

Mesmo grávida, a jovem moça não parou de se prostituir, dizia ser o único meio de ganhar a vida e obviamente acabava com sua existência usando drogas dos piores tipos. Consequentemente o bebê nasceu prematuro e para o alívio da Vovó Daise, veio saudável.

A avó registrou a neta sem pai e com menos de um dia de vida, ela já não tinha mãe. Noêmia não poupou tempo, não daria conta de um bebê. Fugiu de casa e abandonou definitivamente sua mãe e a filha recém-nascida.

Kássia poderia ter crescido sem pais, contudo era extremamente feliz com sua avozinha. Se tornou seu orgulho, era ótima na escola, tão calma e obediente; fascinava-se com qualquer descoberta, falava coisas tão complexas que sua avó ficava atordoada e ria e ria. Era boa com matemática, qualquer coisa com números era fichinha.

Infelizmente suas vidas eram um tanto complicadas. A velha senhora já não aguentava trabalhar, encontrou refúgio em seus dotes culinários, fazendo doces e salgados para vender. Mesmo com pouca idade, sua neta já trabalhava, vendendo na rua tudo que era produzido pela avó.

Com apenas sete anos, Kássia passava por baixo da roleta do metrô e ficava escondida em meio aos adultos da estação de embarque. Segurava a caixinha cheia de doces para vender. Torcendo para que ninguém viesse lhe machucar, como sua avó tanto lhe alertava.

E vendia, às vezes bem, muitas vezes mal. Alguns se encantavam pelos produtos, outros por sua humildade, isso quando não sentiam pena. Para dificultar, haviam os garotos mais velhos e maldosos que pisavam nos doces, batiam na menina e levavam seu dinheiro. No entanto, Kássia nunca se deixou abalar, sua avó sempre a acolhia dizendo tudo ficaria bem, Deus os abençoaria em dobro. E sua netinha acreditava, saindo sorridente no dia seguinte para tentar vender novamente os doces que lhe garantiriam o pão de cada dia.

Em casa, sua avó ficava responsável por vender os salgados, o pão de queijo da Dona Deise era o melhor da região, trazia consigo toda a sua herança por nascer e crescer nas terras de Minas Gerais.

Como eram conhecidas na vizinha, eram constantemente abençoadas com doações; na escola algumas professoras a ajudavam, via que seu cérebro brilhante lhe daria um futuro que mudaria suas vidas. Contudo, a puberdade se tornou mais árdua, a avó adoeceu e agora dependia da neta até para ir ao banheiro. Kássia não pensou duas vezes, largou os estudos e começou a vender os doces que, agora, ela mesma tinha que fazer enquanto, ao mesmo tempo, distribuía por aí seus currículos sem nenhuma formação, conhecimento e muito menos experiência.

Foi nessa época dolorosa e conturbada que fez sua primeira amizade.

Mical Conegundes estava perdide não apenas no mundo, mas também dentro de seu próprio corpo. Não se identificava com o sexo feminino, qual havia nascido. Sua família estava consciente disso conforme demonstrava seu descontentamento na tentativa de usar roupas que disfarçassem seus traços femininos. Não sabia se definir, por isso se identificava com pronomes neutros, que não lhe taxassem nem de menino, tão pouco menina. Mica era apenas uma pessoa.

Quando alcançou a puberdade e começou a explorar seus direitos por liberdade, as pessoas do seu próprio sangue decidiram que elu não era mais merecedor de qualquer sentimento bom. Desprovendo-u de amor, respeito, abrigo e, por fim, família. Não era como se não esperasse por isso.

E foi essa opressão que fez Mica decidir que seria mais feliz vivendo nas ruas do que naquele lar que tanto lhe feria emocional e psicologicamente. Numa noite tempestuosa, fugiu de casa rumo a Calix, buscou abrigo nos túneis do metrô, onde por muito tempo obteve segurança vivendo nas ruas.

Certo dia, deparou-se com uma garota correndo pela chuva enquanto uma turma de pivetes a perseguia. Mical se viu em seu lugar, correndo para sobreviver, como na noite que deixou sua casa para viver a céu aberto. E o que mais odiava era agressão, a maneira desumana que, ironicamente, humanos tratam os outros.

A garota que corria desjeitosa pela linha férrea, segurava fortemente uma caixa em mãos, uma mochila nas costas e usava roupas gastas. Os rapazes a ameaçavam com canivetes. O esperado aconteceu, seu pé se enfiou debaixo de um dos trilhos e ela foi com tudo ao chão, seu queixo estalou com a batida, a caixa abriu-se e vários embrulhos coloridos se esparramaram.

Os moleques ainda não haviam alcançado, Mical viu quando ela se levantou e sem derramar nenhuma lágrima começou a catar os embrulhos, mais preocupada com isso do que com a possibilidade de ser surrada. O sangue escorria em abundância por seu pescoço e encharcava sua blusa. O trem estava a caminho, a buzina soou pouco distante.

— Caramba, você quer morrer! — Berrou, mas isso não atraiu a atenção da garota que catava aquelas coisas coloridas como se sua vida dependesse disso. Não restaram opções para Mical, que simplesmente saiu de dentro da gigante manilha onde se refugiava da chuva e se apressou para acudi-la. — Vaza daqui! O trem tá vindo!

— NÃO! — Kássia gritou entredentes, rosnando como um animal selvagem. Puxou-se agressivamente do agarro que Mica deu em sua mochila. Ela não deixaria seus doces por nada nesse mundo!

— Mas que merda! Vou me arrepender disso! — Bradou Mical.

Os pivetes se aproximaram. O trem estava a cada segundo mais perto. Mica não pensou duas vezes quando ergueu seu moletom e sacou a arma que carregava na cintura. Num súbito surto de coragem apontou para os merdas que vinham em sua direção.

— Fica longe, caralho! Eu vou atirar sem dó, seus desgraçados! — Gritou colérico.

Os rapazes frearam o passo imediatamente, começaram a xingar alguns palavrões e passaram a avançar de maneira mais cautelosa, um passo de cada vez, como quando se planeja acuar um bicho.

— Ei, gatinha, você não quer fazer isso. Será ainda pior. — Ameaçaram.

Mica rosnou de ódio, detestava ser taxado por garota, deu um passo à frente firmando a direção da arma, fazendo-os recuar um passo. Eles estavam mesmo duvidando da sua capacidade de atirar.

— EU NÃO SOU MENINA, OTÁRIO! — Berrou.

Estavam no meio do mato, onde ninguém passava, só havia os trilhos, árvores e alguns pássaros se escondendo da chuva no topo delas. Ninguém veria o que poderia ou não acontecer aqui. Já dizia seu pai: “Quem ajuda os outros só se ferra”, morreriam elu e a garota estabanada.

— Oh, wow, temos aqui uma garotinha que quer brincar de ser menino. Tenho algo bem grande entre as pernas para te ajudar a resolver isso. — Retrucou um dos moleques, fazendo-u rosnar de raiva.

Mical sentiu seu estômago embrulhar diante daquelas frases escrotas, num impulso colérico destravou a arma. Queria tanto atirar, seu maior desejo naquele momento era explodir os miolos desses otários.

— Deixa a gente em paz ou vou sapecar as suas bolas com tiros! — Enquanto os ameaçava, Kass terminava de catar os bombons que garantiam a sobrevivência sua e de sua avó.

O trem apontava na curva.

Kássia puxou Mical para fora dos trilhos e a locomotiva passou em alta velocidade buzinando e trazendo uma rajada de vento que sacudia suas roupas. Por sorte, os garotos pularam para o outro lado da linha, separando-os e fazendo Mica respirar em alívio, porque não havia uma bala sequer naquela maldita arma.

Antes de partir, roubou o revólver do seu tio que tinha o feito de caçar animais, por tê-lo acompanhado algumas vezes, sabia como usar uma, mas não tinha coragem de atirar em alguém. Matar e ferir não eram atitudes da sua índole, principalmente quando costumava pregar o oposto. Entretanto, a vida lhe obrigava a se defender quando preciso, Mica encontrou nessa arma uma maneira de intimidar as pessoas antes de se ferir, era uma chance de fugir.

— Você salvou a minha vida. — Ouviu a voz de Kássia constatar, enquanto sua alma voltava para o corpo.

— Merda, garota! — Vociferou, mas ao constatar o estado da mesma, suspirou em comoção. Ela parecia a própria ‘Carrie, a Estranha’[1], coitada. — Mas que droga… você tá sangrando muito.

— Isso não é nada! — Kássia deu de ombros, pouco preocupada com o machucado que havia feito. Aquilo, definitivamente, não era nada.

— Como assim não é nada? Você lascou o queixo no chão! Eu ouvi o barulho de longe! Vem, vamos cuidar disso… — Puxou-a pela alça da mochila.

Kass não protestou dessa vez, fez o trajeto pelos túneis do metrô até encontrarem uma porta de manutenção que nunca era visitada e deveria estar lacrada. Mas Mical apenas empurrou o metal pesado que arranhou o chão, entraram na pequena salinha cheirando a mofo e ferro enferrujado. No chão havia um colchão desmanchando-se, uma manta rasgada e algumas embalagens de comida industrializada largadas num canto. A garota de fios crespos entendeu de imediato que ali era a casa da pessoa que havia acabado de salvar sua vida.

— Meu nome é Mical, e… eu vivo aqui, sabe? Fugi de casa e tudo mais. — Contextualizou.

— Kássia. — Apresentou-se simplista.

— Senta aí, para sua sorte tenho um kit de primeiros socorros. — Mical indicou, já fuçando umas caixas velhas para encontrar o tal kit.

E foi assim que tudo começou…

Enquanto Mica a limpava e fazia-lhe um curativo, contaram suas histórias. Kássia não conseguia acreditar em quanta coragem foi preciso para abandonar tudo que tinha para viver nas ruas. Encontrou-se admirada por toda sua história e luta pessoal.

Já Mica achou a vida de Kass imensamente triste, mas encontrou alívio ao saber que ela tinha a avó que cuidou dela desde muito antes de seu nascimento.

Quando se deram conta já era tarde da noite. Haviam segredado muito um ao outre. Em poucas horas, sentiam-se como se conhecessem há pelo menos uns dez anos.

— Vem comigo, a vovó está me esperando. Lá em casa, tem uma pizza velha na geladeira. — Kássia convidou, enquanto jogava sua mochila nas costas e soltava resmungos baixos de dor. Suas mãos e joelhos também ficaram esfolados com a queda. Mas, honestamente, a dor que sentia não era nada comparada à gratidão de estar viva, ter feito uma amizade e ainda recuperado os doces.

— Você tem certeza? Não quero ser um incômodo para sua avó. — Mical se preocupou, visto não ter condições mentais de enfrentar mais um ser humano que a mataria internamente com seus julgamentos.

— Tenho certeza, Mica, juro, a minha avó é a melhor pessoa que você vai conhecer no mundo e ela ficará muito feliz de saber que você me ajudou. — Disse Kássia, oferecendo sua mão a elu para poderem partir.

Quando Mica aceitou o convite e o toque, soube que dali em diante estariam juntes para sempre.

Quando chegaram a casa da velha de Luna, encontraram-na imensamente preocupada com a demora no retorno da neta. Assustou-se quando viu o estrago no rosto da mesma.

— Pelo amor da minha santinha, Kássia! — Bradou preocupada. — O que fizeram com você?

— Alguns pivetes me perseguiram e eu acabei levando o maior tombo, vó. Mas não precisa se preocupar… — Foi então que puxou Mical que estava escondide atrás da porta. — Vovó quero que conheça um amige, Mical, foi quem me salvou.

Sua avó analisou o ser à sua frente, notando imediatamente que Mical vivia em uma situação precária. Suas roupas estavam imundas, o peso baixo, olheiras tomavam conta do seu rosto. Era alguém que estava lutando muito para sobreviver. Todavia, o principal era sua aura, a energia emanada pelo seu ser, vovó sabia que era uma boa pessoa.

— Entre, temos pizza velha.

Depois daquele convite, Mical nunca mais foi embora, se tornou um familiar de sangue para as duas pessoas que lhe acolheram. E finalmente a vida havia lhe surpreendido, pois jamais esperava que fosse encontrar um lar onde era amade e feliz.

Com a oportunidade de sair das ruas graças aos de Luna, Mical conseguiu arrumar emprego numa padaria onde passou a trabalhar arduamente para sobreviver e ajudar sua família adotiva.

Kássia arranjou um primeiro emprego como secretária de um consultório de dentista, trabalhava mais do que seu expediente pedia. Dinheiro extra significava que todos os medicamentos necessários para sua avó seriam comprados. Todo o esforço jamais era em vão, tudo para conseguir sustentar a si e sua avó, lidar com as despesas da casa e dos remédios. Mesmo com a ajuda de Mical, não podiam afrouxar, a vó dependia de ambos. Por muito tempo as coisas ficaram assim, até que estáveis…, no entanto, a dona Daise piorou e consequentemente seu corpo cansou de lutar, em pouco tempo faleceu.

Kássia de Luna estava de pé para o túmulo coberto por rosas-brancas, as lágrimas eram silenciosas e tímidas, desciam por suas bochechas quentes. Com cuidado, abaixou-se para depositar sua única rosa, a qual pudera comprar. Jamais poderia dizer que não teve pais, pois sua avó foi pai e mãe para si, valorizava cada segundo que pode desfrutar ao seu lado, usufruindo dos seus ensinamentos, aprendendo a ser uma mulher forte tal como ela havia sido.

— Eu prometo vovó, serei alguém que poderá se orgulhar. — Comprometeu-se diante de seu túmulo. — Nunca vou parar de lutar. Eu vou conquistar todos meus sonhos. Pois no dia que eu não acreditar mais em mim, estarei morta.

Kássia acreditava em seu potencial, sua força e sua capacidade de mudar de vida. Ela não desistiria de conquistar tudo que merecia.

Todo o dinheiro que haviam acumulado pagou o enterro e o caixão. Kass e Mica não tinham mais nada além de suas amizades, a única coisa verdadeira que lhe restavam. Agarram-se a existência um do outre e de mãos dadas seguiram em frente.

Lágrima alguma caia dos olhos de Mical, mas a dor interna era ainda pior. Prometeu que estaria com Kássia além do fim, afinal sua amiga era tudo para si, a família que nunca teve. Apertou o ombro da mesma com firmeza e disse com determinação:

— Vamos dar o fora daqui.

Não poderiam mais habitar a casa da vovó Daise, pois a mesma era herança dos seus filhos ingratos que a abandonaram. Cedo ou tarde seriam despejadas do local, portanto calhava saírem antes. A promessa era de algo melhor.

E se foram, deixaram todas as lembranças para trás. Saíram de Calix com destino a Calisto, uma proposta de emprego melhor os levou até ali. Mical é bom com computadores e precisava usar do seu talento para ganhar dinheiro, começou a trabalhar em uma loja de eletrônicos, consertando os dispositivos problemáticos. Kássia também conseguiu um emprego na nova cidade, se tornou caixa em um hortifruti.

Gradualmente, as coisas foram melhorando, Mical surpreendeu-se quando finalmente houve paz na guerra dentro de si. Havia se encontrado, sabia quem era. Como jamais havia se identificado com o sexo que nasceu, assim iniciou sua transição tornando-se alguém ainda mais lindo do que já era, simplesmente por ser livre. Mica se identificava como menino!

— É isso, eu sou homem e eu também gosto de homem. Coisa de doido, né? Vai entender… — Brincou, enquanto deixava sua irmã a parte de tudo.

— Não acho que seja maluquice, Mica. Você é livre, o amor não é sobre isso? — Kássia deu de ombros. Não se importava com nenhum rótulo, sua única preocupação era que Mical fosse extremamente feliz. — Agora, não demora a me apresentar esse tal Luciano, se ele for um tremendo babaca, vou moer ele no soco.

Mica deu risada, concordando em receber a aprovação da mais nova. Para a sorte de Luciano, ele era um amorzinho de pessoa e também estava passando pelo processo de transição, se identificava como um garoto trans. Foi quando Kássia entendeu tudo, os dois possuíam as mesmas cicatrizes, juntando-as encontraram conforto e carinho um no outro. O relacionamento deles se tornou uma referência de relacionamento para si.

O amor está acima da dor.

Amar alguém é amar seu coração.

Não diz respeito a cor, tão pouco se refere sexo ou o físico… é sobre a alma.

Poucos conseguem enxergar isso no decorrer da vida. Kássia pensou se não era triste morrer sem conhecer e viver o verdadeiro amor.

Pouco tempo depois que chegaram à nova cidade, descobriram o vagão fechado abandonado – quer dizer, Mical descobriu um dia, caminhando pela linha férrea abandonada com seu namorado, numa madrugada despretensiosa. Encontraram aquele cubículo e se abrigaram nele um pouco, até que uma lâmpada se acendeu em sua mente…

Teve a brilhante ideia de largar o aluguel caríssimo – num prédio caindo aos pedaços muito bem frequentado por marginais que, vês ou outra, invadiam seu apartamento para roubar suas coisas e vender para comprar drogas – e viver dentro de uma caixa de ferro abandonada nos antigos trilhos inutilizáveis de Calisto.

Voltou para casa correndo e tirou Kássia da cama para levá-la até o local.

— Você vai gostar, mana, confia em mim. — Dizia Mical quando atravessaram uma cerca arrebentada e caminharam na direção do destino brilhante. — É grande o suficiente pra nós, e pode ficar bem aconchegante se planejarmos direitinho. Já esquematizei o banheiro e a cozinha, talvez falte água e energia no começo, mas a gente dá um jeito.

— A gente sempre dá um jeito. — Concordou Kássia enquanto se aproximavam do vagão todo pichado e enferrujado.

Estava frio e o sol planeava nascer quando a surfista olhou para aquela caixa de ferro e enxergou o mesmo que seu melhor amigo.

O sorriso gengival de Mical se fazia presente, estava tão feliz com o novo lar, mesmo que não se encaixasse nos conceitos físicos de casa. Sinceramente, Kássia havia gostado, era melhor do que morar na rua ou continuar sendo sufocada pela nuvem de maconha debaixo da sua janela todos os dias e ainda ser frequentemente roubada. Se virariam muito bem na casa improvisada.

— Sinto que esse é o nosso lugar no mundo. — Sussurrou Mica, todo sonhador.

E de fato era uma casa meio estranha, mas perfeita para ambos.

Com o tempo o lugar que chamaram de lar foi ganhando forma, as coisas ficaram melhores com o dinheiro que poupavam do aluguel. Kássia voltou a estudar, Mical foi crescendo no trabalho. O vagão ia ganhando formato de casa, mesmo que fosse imenso conforme a casa tomava forma, tudo se tornou pequeno e apertado, mas tão organizado. Tinham até mesmo uma varanda agora, as coisas parecíamos finalmente em ordem.

O primeiro sonho de Kássia veio a se realizar, uma prancha de surfe. Era um presente simples, comprado baratinho na promoção de uma venda de garagem. Ora, não trabalhava também para isso? Nem tudo se resumia a despesas, também havia o fato de que esta é uma única vida e precisava vivê-la, no mínimo sendo feliz com pequenas coisas.

Se presenteou em seu aniversário de 19 anos, era de cor azul-céu, com desenhos de alguns corais bem coloridos. Mandou imprimir um adesivo com seu nome em uma fonte divertida e colou na prancha, nomeando-a sua de vez. “Ficou maneiro!”, foi o que Mica disse quando viu.

Kássia usou as escadas laterais para subir no teto do vagão no intuito de conferir se as ondas estavam boas para surfe, ansiosa para começar os treinos. Do outro lado dos trilhos estava o centro de Calisto e podia-se ver um farol, diante dele estava o oceano repleto de ondas quebrando-se.

E foi assim, numa tarde qualquer, céu sem nuvens e um clima de mormaço que Kássia foi de skate até a pequena baía levando consigo sua prancha.

Primeiramente, tirou os sapatos e caminhou descalço sobre a areia, retirou suas roupas e permaneceu apenas de maiô, pisou na água salgada e sorriu com a sensação gélida. Não adiou mais e se jogou. O mar estava um pouco agitado, o céu imensamente azul era a visão mais linda da sua vida, os raios de sol estavam potentes, já queimavam sua pele desprovida de proteção. A água cintilava, permitiu se perder em sua calmaria. Seus olhos se encheram de lágrimas quando mergulhou de vez, pensando em sua avozinha que amava ouvir suas fantasias a respeito de conhecer o oceano e viajar pelo mundo.

As ondas não estavam muito violentas, o que lhe deu uma boa oportunidade para treinar os primeiros passos que viu numa aula do YouTube. E surfar era definitivamente acender uma fogueira em seu coração, ela se sentia viva enquanto deslizava sobre as ondas e caia feio na água, tomando o maior caldo. Ficou extremamente cansada e não havia sensação melhor que se sentir exausta depois de tanto se divertir.

Em menos de trinta minutos estava esgotada demais para continuar tentando pegar ondas, optou por passar mais um tempo só brincando sozinha na água, boiando na prancha, deitada de barriga para cima, onde permaneceu de olhos fechados sentindo a pele ser beijada pelos raios solares.

Quando lentamente o sol começou a se pôr e o clima começou a esfriar, deixou o mar e caminhou até a intrigante torre, atendeu a súbita vontade de a escalar só para ver como é lá de cima. Esse é um antigo farol de alguma fábrica, era usado para auxiliar a chegada das embarcações durante a noite, todavia a instituição já não existia há séculos. Destruíram o estabelecimento, mas deixaram essa relíquia, fato que ela é muito grata. Determinadamente, subiu degrau por degrau, conhecia alguém que poderia reforçar as escadas para si. Um lugar tão encantador como esse não poderia perder o acesso, de jeito nenhum. Já era decepcionante a prefeitura tê-lo desativado.

Quando Kass chegou ao topo, teve certeza que valeu a pena, a visão era ainda mais bonita daqui de cima. Via-se o adorado vagão do outro lado da baía, atrás de si as luzes da cidade pareciam esbeltas, mas nada se comparava àquele céu. Metade dele ainda era um degradê de laranja, rosa, roxo e o azul que se tornava anil, salpicado de estrelas ansiosas para serem contempladas.

E ali ficou por horas, deitada em sua própria toalha, admirando a obra de arte que se formava sobre o topo da terra. Aproveitou para tirar uma soneca, só para quando abrir os olhos, deparar-se com um céu mosqueado de luzinhas. E perdeu a hora ali, pensando no dever de casa, o futuro, seu trabalho, nas viagens que faria ao redor do mundo… Refletindo e até que… ela finalmente reparou que na parede do parapeito havia um bocado de post-its pregados com adesivos fofos. Suas mãos foram rápidas em apanhá-los. Um por um, ela foi lendo, mesmo que às vezes tivesse que forçar para entender a letra que melhorou com o tempo, conforme as datas lhe informavam.

Dava pra escrever o livro mais lindo do mundo com aqueles pensamentos de “SC”, não era fofo a forma que essa pessoa via o mundo? Kássia não pode evitar, quando percebeu, respondê-los se tornou sua principal motivação para vir até o farol todos os santos dias. Às vezes aproveitava até para pegar um bronze.

Hoje, havia escrito: “É possível eternizar pessoas em nossos corações, jamais direi novamente que não se pode viver para sempre.”, KL.

Kássia de Luna tinha certeza que nessa vida só amaria duas pessoas de verdade. E essas eram sua avó e seu melhor amigo. Por isso, no dia seguinte, fez uma tatuagem para sua avó, eternizando-a em sua própria pele.

 


 

[1] “Carrie, a Estranha” é uma adaptação cinematográfica da obra literária do autor Stephen King.

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