Três

talvez o Farol de Lehna tenha alma e um destino

1 0
Junho, 2011

 

Mas por que as estrelas morrem? Suzane se perguntava mentalmente, saíram da aula de ciências com a deixa e agora marchavam com a escola pela cidade, uma excursão com os alunos do jardim de infância pela cidade litorânea de Calisto. Os alunos estavam visitando os pontos marcantes e turísticos da cidade, as crianças animadas andavam em fila indiana com a professora na frente e as ajudantes ao lado certificando-se que nenhum catarrento deixaria a fila e causaria um acidente indesejado.

O trânsito de Calisto é tranquilo e seguro, os carros eram conduzidos cautelosamente, sem pressa, seguindo corretamente as paradas obrigatórias nas faixas de pedestres para as criancinhas atravessarem a rua. Cantavam a música do ‘bom capitão’ a toda altura e as pessoas sorriam ao ouvi-los tão animadinhos. Música à qual estão crescendo escutando, a maioria são filhos de pescadores que estão sempre cantarolando a canção, logo aprenderam a cantá-la e até mesmo se tornou as primeiras palavras de alguns quando bebês.

“O bom capitão, o bom capitão traz para casa um quilo de tubarão.”

“O bom pescador é um bom capitão, oh, oh, oh, a maré vem então.”

A nossa pequena protagonista marchava com seus coleguinhas, uma ruga se formava no meio da sua testa, embora fosse extremamente jovem para tê-las, mas é devido às sobrancelhas unidas em preocupação com a possibilidade recém descoberta. Suzane está triste porque descobriu que um dia o nosso sol morrera, e em sua opinião, se o sol morresse seria o fim do universo todinho. Frustrada, ela tentava memorizar o que havia ouvido na aula de ciências, pois queria anotar tudinho na primeira oportunidade e como tem dificuldade para escrever rápido, não conseguia acompanhar.

— Um dia o sol vai morrer… — A garotinha que tropeçava a cada dez passos, repetia a informação constantemente, bem baixinho; enquanto sua mãozinha apertava a alça da mochila que carregava nas costas e a outra seguia firme segurando a merendeira.

E novamente aquele grupinho idiota de garotas perfeitas e deveras desobedientes riam de si, fazendo piadinhas de mal gosto as quais Suzane não estava nenhum pouco a fim de ouvir. Seus pensamentos naquele momento eram mais importantes do que qualquer coisa. O sol era muito, mas muito mais importante do que aqueles mini projetos de Barbie.

De repente, a fila parou e a menina sem perceber trombou com um coleguinha da frente que a olhou feio e lhe deu um beliscão que fez seus olhos marejarem, “olha por onde anda, sua retardada”, disse rude. Todo mundo a chama assim, só porque ela esquece as coisas às vezes, além de ter dificuldade para aprender qualquer coisa e precisar de mais atenção da professora, prejudicando os seus colegas.

Sabia que não era esperta como os outros, sua cabecinha se cansa fácil e é mais lenta do que o comum. É por isso que quando Suzane acorda com dor de cabeça forte, acaba achando que é bom não ter que ir pra escola cheia de gente chata. Os adultos costumam dizer que as crianças são inocentes, não tem maldade, mas discordava totalmente, alguns de seus coleguinhas são muito cruéis e a fazem ficar muito triste.

Suzane odeia ficar triste.

Olhou para sua frente e sua boca se abriu enquanto os olhos subiam por toda a extensão do farol cor bege e desbotado pelo tempo, tão alto que um ‘uau’ escapou de sua boca. Impressionante! Como pode uma simples torre ser tão legal?

— E aqui temos o Farol de Lehna. — Apresentou-lhes a professora, indicando a enorme torre beira-mar. — Foi uma parte importante na evolução da nossa cidade. Seu nome foi em homenagem à esposa do fundador da fábrica de açúcar, ele a prestigiou por ser a sua ideia de fundar a fábrica, embora ela não trabalhasse na mesma. A produção de açúcar tornou-se um dos polos da indústria de alimentos, o que mudou totalmente a economia da nossa região. A fábrica não existe mais, mas o Farol foi deixado como símbolo principal da nossa cidade e marco, sendo o processo de industrialização e um acelerado processo de urbanização. — Explicou a professora de frente para as crianças admiradas com o farol. Assim que a apresentação terminou, começaram a caminhar em direção à praia local, prontos para realizarem o piquenique que haviam combinado.

Às crianças fizeram uma roda, as ajudantes estenderam as mantas e as perninhas ficaram cruzadas em posição de ioga quando eles se sentaram e abriram a lancheira recheada de gostosuras para se dividir com os outros. Tão animados, gargalhando e conversando tão distraídos que ninguém deu falta de Suze e as pequenas réplicas de Meninas Malvadas[1].

Suzane ainda se encontrava paralisada, nem se dando conta de que seus colegas já não estavam mais a seu redor. Tão sonhadora como sempre foi, olhava para o farol com seus olhinhos brilhando imensamente.

— Queria tanto subir lá em cima! — Falou baixinho para si mesma apertando a alça da merendeira da Tinker Bell[2]. Sentia aquela sensação enorme crescendo dentro de si, a ansiedade, doida pra descobrir como é lá em cima.

— A boboca tá apaixonada por uma torre, essa é boa! — Disse a líder das Plásticas[3]. Maxine é a que mais odeia Suzane, não se sabe por quê. Foi então que lhe ocorreu uma ideia em sua cabeça desafiadora, ela sempre bolava os melhores desafios e havia finalmente encontrado um perfeito para a mais bobinha da turma. — Eu te desafio a subir lá em cima, Suzane Carolino.

A desafiada virou o rosto para encarar Maxine com desdém, deveria pensar que Suzane é tola para fazer isso, só pode. Ora, tinha plena noção do perigo.

— Não sou burra como você pensa, sua idiota. — Suzane contestou e um biquinho nervoso se formou em seus lábios. — Eu vou contar pra tia.

— Você é uma fofoqueira mesmo. — Maxine retrucou irritada e deu um empurrão na garotinha que cambaleou um pouco.

Como sempre, Suzane teve medo – embora seus punhos tenham se fechado em defesa e a vontade de empurrar a Maxine de volta fosse grande. Entretanto, não devolveu o golpe, contrário disso, deu um passo para trás. Odiava brigas e não queria se machucar. Já bastava sempre tropeçar e ralar seus joelhos – pelo menos amava os band-aid coloridos que papai Leonardo lhe colocava.

— Deixa, Maxine, ela não é corajosa. — Disse uma das seguidoras da mesma.

Bastava! Suzane subitamente se encontrou fula da vida. Estava cansada de ser a fracote da sua classe, seu pai havia lhe dito que ela é corajosa e tudo que quisesse poderia conseguir com esforço. Determinada, deu as costas para as garotas, que riam de si, jogou sua merendeira no chão e caminhou em passos duros até a escadinha enferrujada do farol.

As meninas sussurraram surpresas, para seguidamente gritarem palavras duvidosas. A coragem e Suzane eram apenas um naquele momento. E foi subindo, com suas mãozinhas pequenas agarrando a escada, sua respiração ofegante e o suor escorrendo por seu rosto. Quando chegou na metade fez algo que jamais deveria ter feito naquele momento, olhou para baixo e consequentemente ficou tonta e quase soltou a escada.

— Professora, a Suzane está lá em cima! — Uma garotinha sentada na roda do piquenique viu.

A professora gritou em pânico vendo a garota agarrada à escada, estagnada na metade da torre de 20 metros de altura. E aí a confusão começou de vez, as crianças se levantaram em estado eufórico por verem sua colega de classe lá no alto.

A pobre educadora não podia nem gritar para que descesse, não estava em condições, de longe notava-se que Suzane estava passando mal. A situação era extremamente grave e uma das ajudantes discou o número da emergência imediatamente.

— Suzane, respire fundo, não abra os olhos, querida. Mantenha-se firme. — A professora auxiliava enquanto a via agarrada à escada, tremendo de medo.

A menina sentia que havia cometido a pior travessura de sua vida, seu pai sempre dizia que não podia participar de brincadeiras muito pesadas. Esforço físico foi completamente proibido e agora os sintomas da desobediência pesavam em seus ombros. O resultado foi uma dor de cabeça aguda que a fazia gemer de tanta dor, doía e doía muito, pior que sabão nos joelhos ralados enquanto banhava. Sua visão foi ficando turva e o barulho da sirene dos bombeiros ecoava pela baía de Calisto, chamando a atenção dos habitantes.

Em poucos minutos o local estava lotado de curiosos que assistiam à menina lá em cima, não demorou para o Dr. Carolino aparecer usando seu jaleco branco e o Sr. Carolino – o joalheiro – que desabou em desespero quando viu sua filhinha lá em cima.

As mãozinhas que agarravam a barra de ferro com firmeza já doíam, já não sentia seus bracinhos e as perninhas tremiam tanto, tanto. Quando pensou que fosse cair, Suzane sentiu as mãos firmes lhe apanhar.

— Peguei você! — Disse o bombeiro que a abraçou e garantiu que tudo ficaria bem, mas Suzane ainda tremia de medo e a dor na sua cabeça só aumentava a cada segundo. Assim que estava firme nos braços do homem, a garotinha que escalou o farol, desmaiou.

Graças a Deus, tudo na cidade era próximo, Suzane recebeu atendimento médico imediatamente. Foi levada para o hospital e quando acordou, seu pai estava em uma daquelas reuniões no laptop com os médicos dos Estados Unidos.

Suzane nasceu com uma doença e o acidente que sofreu ainda quando bebê desencadeou a situação para algo ainda mais grave. O aneurisma cerebral, ou aneurisma sacular, é uma dilatação formada na parede enfraquecida de uma artéria do cérebro. A pressão normal do sangue na artéria força essa região menos resistente e dá origem a uma espécie de bexiga que pode ir crescendo lenta e progressivamente. Os maiores riscos desse afrouxamento do tecido vascular são ruptura da artéria e hemorragia ou compressão de outras áreas do cérebro.

Aneurisma cerebral é uma doença grave. Apenas 2 de 3 pacientes diagnosticados resistem e cerca de metade dos que sobrevivem permanece com sequelas importantes que comprometem a qualidade de vida. Como no caso de Suzane. Um dos fatores que poderiam levar ao rompimento de um aneurisma é o esforço físico.

Para sua completa tristeza, seu quadro clínico havia piorado, a artéria do cérebro havia dilatado ainda mais. Seus papais ficaram extremamente decepcionados, mas a preocupação era ainda maior.

Suzane é apenas uma garotinha que estava fazendo travessuras de uma menina comum. Não era culpa dela. Afinal, quem iria imaginar que uma criança iria escalar uma torre?

Foi preciso viajar para o exterior para ver pessoalmente o médico que cuidava de seu caso, já que é extremamente delicado. Não pense que o tratamento foi fácil, o caso de Suzane é tão grave e incomum que seus pais lutaram na justiça para conseguir ajuda do governo com o tratamento. Mesmo assim, as dívidas são enormes e sabe-se lá como os Carolino vão conseguir um dia quitá-la. E faziam tudo pela sua melhoria, o que estiver ao alcance para melhorar a qualidade de vida de sua filha, fariam.

Suzane precisou fazer uma cirurgia para aliviar um pouco a pressão no cérebro e de alguma maneira diminuir a dilatação da artéria. Quanto mais intervenções, mais delicado e comprometido ficava seu cérebro. As operações nesse local são extremamente arriscadas e podem desencadear problemas ainda piores.

Assim como compromete ainda mais as suas memórias. Se antes elas já falharam, agora se agravou.

Infelizmente, Suzane se esqueceu do fato de que um dia o sol morrerá, também se esqueceu do farol. Ela não se lembrava do que havia acontecido, mas a tristeza era nítida nos olhos de seus papais. Prometeu a si mesma que, seja o que tenha feito, jamais o faria novamente.

Mas acabou por também se esquecer disso.

Oito meses depois, recuperada e de volta à escola – agora conhecida como a garota que subiu o farol –, Suzane pedalava tranquilamente pelo calçadão beira-mar, quando avistou o farol e parou para fotografar em sua polaroid dada por seus pais em seu último aniversário. Sentiu uma sensação estranha em seu peito, tão gostosa. Quando se deu conta, estava deixando a bicicleta encostada ao murinho e subindo a escada até o topo da torre.

E dessa vez ela conseguiu chegar lá em cima, como se nada de ruim tivesse acontecido um dia. Ela apenas sabia que não podia olhar para baixo. É claro que escalar um lugar tão alto era imensamente trabalhoso e perigoso, mas Suze respirou fundo e subiu no seu tempo, parando para respirar e já ir contemplando a vista dali de cima.

Paraíso, ela estava no lugar mais alto do mundo, se sentiu a garota mais corajosa da cidade! Nunca viu ninguém subir até cá em cima, dava para ver tudinho, embora tivesse medo de chegar muito perto do parapeito. Tirou as ansiadas fotos. Registrou tudo que foi possível: o mar, as gaivotas, barcos no horizonte e a pintura natural do céu ao entardecer. Depois, pegou o bloquinho de post-its coloridos e sorriu lembrando de uma das falas de seus pais:

“É possível eternizar memórias ao escrevê-las, é como gravá-las em um pedaço de papel em forma de palavras e com a ajuda da tinta que gruda no ofício. E qualquer um poderá lê-las”, Suzane não sabia escrever palavras complexas e difíceis, mas mesmo assim o fez. Achava a ideia de eternizar memórias a coisa mais fascinante do mundo, principalmente porque era em um ato tão simples como escrever.

Pegou o bloquinho cor de pêssego que combinava com as cores do céu e finalmente escreveu sua primeira memória para o farol. Sorriu docemente quando se lembrou do que o padeiro lhe disse essa manhã quando foi comprar um bolinho de avelã: “a garota atrevida que subiu a Lehna”.

E assim assinou suas iniciais: SC, anotando a data em seguida, tudo com sua letra mais garranchosa e ilegível. Destacou o post-it e colou-o à parede de tijolos junto a um adesivo fofo. Admirou o resultado já imaginando o quanto ficaria lindo encher essa parede de post-its. Esperava que a cola fosse boa, para que assim eles ficassem para sempre grudados ali.

E foi assim que Suzane Carolino tomou o Farol Lehna para si, todas as tardezinhas após o almoço, lá estava a menina danada subindo a torre quando havia prometido que jamais o faria. Ah, se os senhores Carolino descobrissem!

Agora que você sabe que Suzane é uma menina desobediente, não conte a ninguém. Esse é o nosso segredo. Não se preocupe, “o que não te mata, te faz mais forte” e foi bem isso que o farol proporcionou a ela. Força para subir os degraus finos e enferrujados, apenas para lhe presentear com um abrigo no topo do seu paraíso, onde virou lugarzinho de refúgio e baú de memórias da menina.

Talvez o Farol de Lehna tenha alma, porque eu o chamaria de “o destino de Suzane Carolino”, pois não foi só a força e coragem que lhe trouxe – embora também fosse motivo da piora de sua doença. Essa torre deu a ela mais coisas do que lhe tirou, talvez fosse seu pedido particular de desculpas, mas não importava… se ela contribuiu para lhe tirar suas memórias, fez morada para outras que você só descobrirá se pular para o próximo capítulo.

 


 

[1] Mean Girls é um filme americano de 2004 muito popular, considerado um clássico cult.

[2] Tinker Bell é uma fada, personagem criada pela Disney e protagonista de uma série de filmes.

[3] Plásticas”, menção ao filme Menina Malvadas (Mean Girls).

Indique para um amigo