Prefácio
Para todos aqueles que
já foram esquecidos.
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as memórias se entrelaçam
através de corações que se amam
Suzane Carolino
28 de Dezembro, 2037
Ocasionalmente, você não sabe se está sonhando ou se aquilo está realmente acontecendo. Às vezes, é difícil distinguir a realidade de um devaneio. Nossas mentes são capazes de projetar filmes cheios de detalhes tão realísticos.
É verão, sei disso porque antes mesmo de abrir os olhos senti o sol beijar a minha pele e queimar, essa certamente é uma das minhas sensações favoritas. Ouço as ondas quebrando-se suavemente contra a costa e esse som me fazia sorrir feito uma boba. Meus braços estão lado a lado do meu corpo estendido em cima de uma canga, meus dedos se arrastaram pelo tecido até encontrar o que tanto almejava: areia. Fechei minhas mãos em punho contra o chão, apanhando e apertando o máximo que pude daquela textura arenosa, para depois deixar escorrer suavemente por entre meus dedos. A sensação nostálgica me faz acreditar que isso é um sonho.
Estou suando, meu deus, é mesmo verão. Sorri bem grande, abrindo os olhos para o céu e deixando os raios me cegarem. Sentei-me animada, dando de cara com uma das coisas que mais amo no mundo: o mar.
Azul, tudo é tão azul. Estou na praia e ela é o meu jardim, considerando que se eu olhar para trás consigo avistar a minha casa – ao menos imagino que seja minha, se considerar a pintura cor de pêssego, a rede na varanda, as luzes solares penduradas no beiral do telhadinho. Dava para acreditar que eu acordava e via o oceano todos os dias?
Algumas coisas soam tão familiares, me sinto como se pertencesse a tudo isso. E talvez… isso realmente seja parte de mim. Meus sonhos são partes significantes do meu ser – ou ao menos, acredito que seja, na grande parte das vezes que os tenho.
O mar estava um pouco agitado, quebrava-se em ondas contra o rochedo – e gosto de assistir a essa cena. Respiro a maresia e isso faz a minha alma se acender, estou em paz. De repente, sou surpreendida pelo latido de uma cadela vira-lata cor de caramelo que corre na minha direção e pula no meu colo, mal tenho tempo de raciocinar e inevitavelmente ela lambe todo meu rosto. Não pude resistir, amassei sua cara com apertos e lhe dei todo o carinho sem nem mesmo saber qual é o seu nome. A cadela me olhava com olhos brilhantes, como se me conhecesse.
Foi quando ouvi uma risadinha fina e fofa. Não deu tempo de olhar para trás, um corpinho pequeno debruçou-se em minhas costas e bracinhos extremamente finos rodearam meus ombros. Seu rosto apareceu em meu campo de visão, quando tombou sua cabeça em minha espádua esquerda.
— A Lyra te deixou toda babada! — Constatou, rindo alto. Era uma menina – julgo que sua idade seja sete anos. — Quero abrir o presente que me deu com você.
— É seu aniversário? — Indaguei, confusa.
A menina riu.
— Sim, mamãe Suze, é meu aniversário de oito anos!
“Mamãe”, isso me fez arregalar os olhos. Eu sou mãe…
Após me soltar, ela se afastou rapidamente para pegar algo e seguidamente se sentou no espaço ao meu lado, cruzou as perninhas com o presente diante de si, apoiado em suas coxas. A pequena mãozinha tão delicada desfez o laço lilás da caixa com cuidado, podia-se ver a excitação nítida em seu rosto. Ela não via a hora de descobrir o que estava em seu interior. Quase sinto a expectativa dela dentro de mim, como um déjà vu.
E quando finalmente tira a tampa da caixa… meu coração bate mais forte e a sensação familiar dentro de mim fica ainda mais presente. Suas mãozinhas de unhas pintadas de cor rosa-bebê tiram dali seu presente, era uma daquelas garrafas que compramos de souvenir quando visitamos a praia, dentro dela havia a réplica perfeita de Calisto, com o mar, o rochedo, a miniatura do Farol Lehna e a nossa casa.
— Mãe, é tão lindo. Eu amei. — A menina sorriu gigante em aprovação, exibindo a falta de seus dentes de leite frontais que haviam acabado de cair. — Essa é a nossa casa.
Possivelmente, eu estava mais encantada do que ela com o presente, parecia ser um lembrete para mim mesma.
No interior daquela garrafa há toda uma história, como uma cena de teatro, há um momento como cenário. Certamente pode-se eternizar uma memória. Animada, a garotinha pousou delicadamente a garrafa sobre a areia e se pôs de pé, abanando os requisitos que grudaram no seu traseiro.
— Vem Ly, vamos fazer ‘tibum’! — Soltou-me e começou a correr pela areia na direção da água, imediatamente a cadela entendeu o que significava e deixou-me para acompanhar sua pequena dona. As duas se jogaram no mar, era uma alegria que só. Me peguei gargalhando da maneira que Lyra pulava em suas costas para fazê-la cair na água.
A garotinha possuía um longo cabelo escuro caindo em ondas perfeitas em suas costas, embora estivesse um pouco bagunçado; sua pele brilhava em dourado devido as constantes exposições ao sol; ela trajava um maiô fúcsia estampado com margaridas. Lá de longe, ela olhou para mim e sorriu, disse algo que de início não compreendi, mas acho que foi como: “é verão, eu posso nadar até a noite vir”.
Inesperadamente, senti uma mão firme apertar a minha e quando virei o rosto, ela estava sentada ao meu lado, tão perto que pude ver as cores dos seus olhos. Eram escuros e brilhantes como a noite, tão delicados – como se todos os raios solares se reunissem para os iluminar.
E aquele simples olhar que sustentou o meu, me deu a certeza definitiva… isso não é um sonho. E essa é a mulher que eu amo.
Finalmente soube… Finalmente me lembrei…
O tempo muda e com o céu fechado vem o mar tempestuoso que traz as minhas memórias, elas estão voltando para mim através das ondas selvagens e a cada toque na areia, uma conchinha é abandonada, quando juntas se completam como um quebra-cabeça. E quando a última peça se encaixar, o sol vence, seus raios penetram por entre as nuvens densas, a chuva vai embora e só nos resta um belo típico dia de 40 graus Celsius.
Sim, me lembro de tudo com clareza agora, minha amada.
Minha.
Minha garota.
Foram os verões que nos trouxeram até aqui.
A arte na garrafa conta uma história. Mais especificamente, a minha história de amor. E se virar a página, os dias ensolarados te guiarão por esse conto, como capítulos. E basta deitar-se sobre a areia numa típica tarde de semana… siga o sol enquanto ele se move com o tempo. Cada anoitecer guarda mil memórias. Está escrito na areia. Observe e leia…
Todas as nossas noites de verão.
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