Oito
grite quem você é e seja livre
Março, 2023
— Agora é sério, ela tá muito atrasada! — Implicou Mical, servindo o namorado e a melhor amiga com mais refrigerante. — Será que vamos levar um bolo de novo? Não seria nenhuma novidade, né? Como dizem, nada novo sob o sol.
Kássia não gostava quando Mical a importunava assim a respeito de Suzane, mas ele não estava de todo errado, considerando que era a terceira tentativa de tentar apresentar a garota aos seus amigos e ela falhava em comparecer.
Da primeira vez marcaram de ir em um parque de diversões e tiveram que se divertir sem a companhia da mesma que acabou não vindo. Depois resolveram curtir um dia de praia juntos, mas aí um dos pais da menina ligou, desmarcou tudo em cima da hora. E agora, convidaram-na para finalmente conhecer o vagão onde vivem e poderia finalmente fazer a apresentação das duas pessoas mais importantes de sua vida.
— Ela vai vir, Mical, não enche! — Disse Kássia, sua perna não parava quieta e suas unhas estavam roídas até a carne, tamanha era sua ansiedade.
— Não conte tanto com isso. — Mostrou a língua para a melhor amiga, provocando-a.
— Acho que eu deveria ir embora, talvez Suzane não se sinta confortável com a ideia de eu estar aqui. — Disse Luciano, o namorado do garoto de fios cor púrpura.
— Não, Lu, fica tranquilo. — Kássia o tranquilizou e subitamente se pôs de pé. — Quer saber, eu vou até a casa dos Carolinos e-
Sua fala foi interrompida por batidas suaves na lateral da ferraria, a porta estava aberta já aguardando a chegada da moça, houve um silêncio e o som do mato lá fora virou trilha sonora da tão almejada presença de Suzane Carolino. Sapos coaxavam, grilos cantavam e o vento passava suavemente pelo recinto, foi diante desse cenário mágico que o coração de Kássia mais uma vez quase explodiu ao ver a delicada garota parada diante da porta. Trajando um vestidinho florido, usando coturno, com sacolas nas mãos e um rosto imensamente vermelho de vergonha.
— Desculpe-me pelo atraso. Eu trouxe Doritos e sorvete! — Ergueu as sacolas para evidenciar. — Oi, K.
— Você veio! — Kássia abriu o maior sorriso do mundo, transbordando orgulho e antes que pudesse alcançá-la, Mical correu na frente agarrando a mocinha em um abraço desengonçado.
— Eu tô tão feliz por conhecer a namorada da minha irmãzinha! — Berrou no seu jeito exagerado de ser. Fazendo o casal de, até então amigas, ficarem super envergonhadas. — Vem, larga mão disso de timidez que aqui todo mundo é farinha do mesmo saco. E olha, se você trouxe Doritos e sorvete, eu já te amo. Vem, entra, entra…
O rapaz a puxava para o centro da sala.
— Oi, Suze. — Cumprimentou o garoto sentado no sofá marrom-claro cheio de buracos, a mencionada apenas acenou tímida. Luciano tinha o cabelo raspado, algumas tatuagens no braço e aparentemente era bem alto e gordo. — Kass falou muito de você.
— Esse é o meu namorado, o Luciano. Ele é lindo, né? Fala sério. — Mica tagarelou ao mesmo tempo que ia guiando a mocinha pela casinha humilde e minúscula. — A gente é pobre, sim, mas é bem limpinho, te garanto. A Kássia mesmo tomou o maior banho demorado só para te ver. Fica à vontade, viu? — Mical finalmente soltou a menina para pegar as sacolas com os comes tragos e organizar tudo na mesa de centro da sala junto com o restante da comida.
Suze olhou tudo rapidamente, por se tratar de um vagão fechado era deveras grande, o resultado foi satisfatório como um apartamento. Os fundos se tornaram dois quartos, um para cada morador. O meio ficou sendo a sala compartilhada com cozinha no estilo americano, ao lado um mini banheiro e conectado à porta de entrada havia uma varandinha charmosa. A casinha era realmente aconchegante, os moradores fizeram questão de dar um toque especial a tudo. As paredes de ferro ganharam cor, enfeitaram de maneira dividida, havia o toque especial da surfista e o oceano, mas também era possível perceber o estilo gótico de Mica. Algo como bandeiras de corais e almofadas de morcego.
— Não liga para ele, sério. — Kássia estava morrendo de vergonha.
— Tá tudo bem, ele é legal, bem como você disse. — Garantiu Suze que se afundou no pufe ao lado da surfista.
Como de costume, suas mãos buscaram conforto uma na outra, entrelaçando os dedos e unindo as palmas. A mão quente de Kass contra a palma fria de Suzane era o contraste perfeito, lhes enchia de calmaria.
— Estou tão feliz por você vir. — Segredou, sorrindo grandão.
— Eu também. — Confessou Suze.
— Suzaneeee? — Mical gritou cantarolando, vindo da minúscula cozinha composta por um pequeno frigobar e uma bancada de madeira com armários alocados na parte debaixo. — Você joga videogame?
— Nunca toquei numa manete. — Confidenciou ao erguer as mãos em defesa.
— Suze, como assim? Você é aqueles jovens com alma de velho e que fazem questão de viver no século passado? — Indagou Luciano, fazendo todos rirem.
— É mais ou menos isso!
— Uma vibe mais Bella Swan[1] e tudo mais. — Referenciou Mica.
— Hmmm, não é para tanto. — Disse Suzane, semicerrando os olhos em expressão analítica e fazendo Kássia suspirar diante tanta fofura.
— Nah, preocupa não, cola em mim que eu te ensino TUDO! — Garantiu Mica, se tinha uma coisa que ele gostava era de ensinar como usar tecnologia e principalmente as suas trapaças exclusivas em jogos eletrônicos.
— Você só vai ensiná-la a ser uma grande estelionatária! — Bradou Luciano fazendo o namorado rir da escolha de palavras tão inusitadas.
— Que porra é estelionatária!? — Mical gritou dando uma gargalhada super exagerada. — Meu namorado é um baita Aurélio[2]!
Perto de seu irmão postiço, Kássia não tinha outra alternativa senão assisti-lo exercer seu jeitinho exagerado que particularmente adorava. Mas melhor ainda era vê-los criarem vínculos com a garota que gosta.
E bem, era a vez de Mical aprovar a namorada da sua irmã mais nova e o selo de aprovação foi carimbado com sucesso.
— Ei, Suze, qualquer dia desses a gente vai pegar estrada para Rio Vermelho, veremos uma amiga minha DJ tocando numa das baladas mais animadas do país. Juro, é incrível! O nome dela é Ives Ortega, joga no Google pra você ver a fuça linda que essa japonesa tem. — Tagarelou Mica. — Você topa?
Suze atritou as mãos uma contra a outra, nervosa com a proposta.
— Eu não sei se meus pais vão deixar… — Era uma boa desculpa.
— Sem essa, guria! Eles podem ir com a gente, se eles forem legais como a Kass disse, vai ajudar a beça na diversão. — Para Mical tudo era simples e descomplicado.
— Ah, tudo bem, a gente combina com eles. — Sorriu para o rapaz de cabeleira roxa. — Ei, Mica, você mesmo tingiu seu cabelo?
— É claro, tudo que você puder fazer sem gastar dinheiro, faça você mesmo. É o nosso lema, não é grandona? — Mica cutucou a melhor amiga que concordou ainda concentrada no jogo de corrida que estavam jogando na tv. — Que foi? Você tá afim de pintar o seu? Olha eu topo, mas não dou garantia dos serviços. Kass, se o cabelo da sua mina cair, a culpa é todinha dela.
— Suzane ficaria bonita até careca. — Kass soltou, o que fez a citada arregalar os olhos e mudar de pálida para rubra.
Luciano e o namorado murmuraram um ‘hmmmm’ alongado e suspeito.
— Ok, ok, chega! — Kássia pausou o jogo e se colocou de pé. — Suze, vamos lá em cima, não é igual o farol, mas é tão lindo quanto.
A garota imediatamente concordou, assentindo de leve e tendo sua mão pega pela amiga que a guiou para fora do vagão.
— Isso mesmo, vão se engolir em particular, eu sinto a tensão entre vocês daqui! Façam-me o favor de se pegarem logo! Obrigado, de nada. — Ouviram os gritos de Mical ficarem cada vez mais longe. — Ah, e prazer em te conhecer também loirinha. A gente marca para tingir o cabelo, mas se você magoar a minha irmãzinha, eu te deixo careca sem nem precisar pintar seu cabelo!
A garota ameaçada gargalhou.
![]()
Suzane estava deitada sobre as coxas de Kássia enquanto sentia seus dedos deslizarem por entre seus fios e fazer um carinho gostoso em seu couro cabeludo. Contemplavam a noite estrelada sobre suas cabeças enquanto sentiam a brisa fresca da noite. Havia o cheiro doce de dama-da-noite, alguns arbustos da espécie de flores beiravam os trilhos e ritualmente se abriam ao anoitecer, deixando seu perfume exalar, o que consequentemente atraiam alguns morcegos inofensivos que se tornavam responsáveis pela polinização da planta. Além disso, havia a vista extraordinária das luzes da cidade, dava pra ver a baía iluminada e a silhueta escura da torre onde se encontravam. Pensaram se não seria bonito se um dia esse farol voltasse a ser aceso. Já o oceano, de tão longe, era apenas um breu.
Estava frio e Suzane não sabia se sua pele estava arrepiada devido à temperatura ou devido aos toques diretos de Kássia. Apostava na última alternativa com todas as forças.
— Mical é incrível. — Confessou. — É sério, me desculpa mesmo por ter me atrasado. Seu melhor amigo é uma pessoa sensacional e não quero que ele pense que fiz pouco caso. Ah! Eu também gostei do Luciano. São pessoas maravilhosas!
— Relaxa, ele não vai pensar isso. — Garantiu a ela. — Mas aconteceu alguma coisa? Você disfarça, mas sei que tem algo te incomodando.
Suzane torceu o nariz e levantou do colo da moça, sentando-se com as pernas cruzadas. Respirou fundo e cogitou se deveria ou não estragar o clima com seus dramas particulares.
— Ah, você sabe, o pessoal da escola é um saco. Eles já sabem sobre nossa amizade e agora além de lerda também sou sapatão. — Suspirou fundo, deixando aquilo sair. Já não bastava ter que repetir de ano duas vezes, por não conseguir ter um bom desempenho, tinha muita dificuldade em aprender. — Não que eu me importe em ser taxada de alguma coisa, só é chato ser incomodada, sabe? Eu realmente queria aproveitar meu tempo na escola para aprender, poxa…
Kássia a consolou, alisando suas costas. Entendia perfeitamente sua frustração. Também ficaria irritada se tivesse que enfrentar bullying constantemente, quando frequentou a escola passou pelo mesmo.
— Mical tem uma arma, é só me passar os nomes. — Disse Kássia com a voz mais séria possível, Suzane virou-se para si na mesma cor de um fantasma, com os olhos quase pulando para fora das órbitas.
— Kass, meu deus…
A surfista não aguentou segurar a risada e gargalhou alto.
— Calma, Suze, é brincadeira! Mical tem mesmo uma arma, mas eu jamais mataria ninguém. Quer dizer, eu gosto de você e Deus não me deu mais de 1,70 de altura à toa, não é? Então, se for preciso te defender, vou sim! — Deu de ombros.
Suzane se sentiu aliviada e abriu um sorriso cheio de orgulho por saber que era amada o suficiente para ser defendida pela grandalhona.
— Obrigada, K. Eu também gosto muito de você. — Ela viu a reação de suas palavras ficarem estampadas no rosto da surfista, que ficou completamente desconcertada.
Desviaram os olhares e mergulharam em alguns minutos de silêncio que se arrastaram, as duas permaneceram mudas enquanto encaravam o céu. Mas internamente, seus pensamentos eram tão altos quanto seus batimentos cardíacos. Mais que isso, havia uma sintonia, ambas perambulavam a ideia de confessar seus sentimentos ou partir direto para um beijo.
— Então… você é sapatão? — Kass quebrou o silêncio, depois da sua mente revirar esse pensamento mil vezes.
Suzane sentia o rosto pegar fogo.
— Eu… acho… que sim. Não sei. — Deu de ombros e desviou o olhar para o rosto alheio. — E você?
— Considerando tudo… é, eu acho que definitivamente sou uma sapatão! — Segredou de uma maneira engraçada, fazendo-as rir. — E foda-se! — Kass deu de ombros e subitamente se colocou de pé. — EI, FILHOS DA PUTA, EU GOSTO DE MULHER! — Berrou para a noite.
Suzane a encarou incrédula, sem compreender o que aquilo significava.
— EU SOU SAPATÃO! — A surfista riu e gritou mais alto.
Dentro do vagão, ouviu Luciano e Mical gritarem em comemoração.
— Experimente, é incrível! — Convidou esticando a mão para ajudar Suze a se levantar.
Ela não pensou muito e aceitou a ajuda, assim que estava de pé colocou as mãos na lateral de sua boca e se libertou:
— MEU NOME É SUZANE CAROLINO E EU COM CERTEZA SOU SAPATA! — Berrou para a noite, para as estrelas, o mar e principalmente para Kássia.
O que poderia dizer senão que foi libertador?
Kássia a encarou com orgulho, ela pensou: eu poderia beijá-la agora. E o teria feito se Mical e Luciano não tivessem se juntado no teto do vagão para gritar o quanto eram gays. As garotas acabaram ignorando o que tais confissões significavam para o relacionamento de ambas, mais que isso… o quanto isso mudava tudo! Mesmo assim, aquele momento ficou marcado, tornou-se libertador para o quarteto inusitado.
Foi um dia realmente divertido. Os domingos de tarde viraram um ritual, constantemente jogavam videogame, juntos.
Aquela noite ficaria em seus corações para sempre.
[1] Bella Swan é a protagonista dos livros e filmes da Saga Crepúsculo escrito pela autora Stephenie Meyer.
[2] Aurélio é dicionário da língua portuguesa.
Gostou do capítulo?
Indique para um amigo
Compartilhar
Faça parte do Clube de Leitores da Raposa
Está gostando da leitura?
Deixe seu e-mail aqui embaixo.
Ao se inscrever, você concorda com a nossa Política de Privacidade.
Comentários