Dezesseis

o verdadeiro amor ainda estava por vir

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Janeiro, 2032

 

Dizem que o ser humano só conhece o verdadeiro amor quando se tem um filho. Que esse sentimento é transformador, muda tudo! É certamente a afeição mais forte que irá conhecer. Isso, pensando que a pessoa que escolheram para amar, era esse grande amor. Suzane e Kássia não imaginavam que havia algo muito maior…

Sabiam que o processo de adoção era longo e muito demorado, por isso, não foi difícil tomar a decisão de se registrarem para adoção pouco após se casarem. Anos gradualmente se passaram e aproveitaram esse tempo para viver a magia do casamento, curtindo seus filhos de quatro patas enquanto se adaptava à realidade das condições de Suze.

Era uma manhã de domingo, Suzane havia acordado e não se recordava de nada. Constatou os fatos importantes, dando-se conta de que aquela era sua casa, sua esposa e seus bichinhos. Optou por ficar mais reclusa, sentou-se na mesa da varanda e enquanto assistia sua esposa surfando, desenhava as joias recém-encomendadas na joalheria. Foi quando o celular de Kass tocou, obrigando Suzane a levá-lo até a beira da praia para entregar a dona.

Kássia saiu do mar pingando água salgada, aceitou a ligação imediatamente ao constatar do que se tratava e colocou no viva voz.

— Recebemos uma bebê de 3 aninhos, infelizmente ela perdeu os pais num acidente e os avós a indicaram para a adoção. — Contou a assistente social. — Ela está em Calix… Venham buscar a filha de vocês.

Mesmo sem compreender tudo ao certo, mesmo que não lhe fizesse sentido algum naquele momento, o coração de Suzane quase saiu pela boca. As duas se agarraram com força, impactadas com a realidade que finalmente haviam lhes alcançado. Seriam mães.

Imediatamente se dirigiram para Calix, fazendo Kássia reviver todo seu passado tão doloroso. Ela pode enxergar toda a sua linha do tempo e consequentemente deparou-se com sua evolução. Não poderia negar, tinha uma história de vida incrível. Das ruas, fugindo para sobreviver com tão pouco, para uma contadora incrível com um emprego bem remunerado em um banco. Como poderia sentir menos que o mais puro orgulho de si mesma?

Não se arrependia de nada do que lhe aconteceu, porque até as coisas mais tristes e ruins, foram o que a transformaram na mulher sensacional que é hoje. Sua história era extremamente valiosa e poderia compartilhá-la com sua filha.

Chegaram à casa do casal de idosos que fizeram questão de conhecer as mães de suas netas, eles ansiavam por manter contado e o parentesco com o bebezinho, o que não foi um problema para o casal.

Suzane estava inquieta, cheia de ansiedade e sobretudo sufocada por medo. Estava passando por um blackout justamente no dia mais importante de suas vidas. Receava que não tivesse capacidade de criar uma criança, de ser uma boa mãe… Já havia provado a si mesma e a todos que tinha capacidade de viver uma vida normal. Mas criar um ser humano… naquele momento parecia loucura.

— Você vai conseguir, querida. — Kássia apertou sua mão enquanto eram guiadas pelos avós da criança até o quartinho onde a assistente social brincava com ela, aguardando o momento. — Suze, você cuida tão bem de mim, mesmo sob sua condição. Acredito e confio em você cegamente. Nós podemos fazer isso, amor.

Com o apoio de Kass se sentia muito mais confiante, respirou fundo e engoliu seus receios terminando a caminhada até o tão esperado encontro. Quando pararam diante da porta do quarto aberto, se depararam com uma criatura pequena, fofa e indefesa, sentadinha na cama com as perninhas gordinhas esparramadas, brincava com uma bonequinha e dava risadinhas gostosas.

Os olhinhos miúdos cor de terra miraram as figuras inusitadas que surgiram no recinto, apontou o pequeno indicador cheio de dobrinhas e deu risada, exibindo seus poucos e perfeitos dentinhos de leite.

Kássia teve seus olhos invadidos por lágrimas enquanto Suzane conseguiu ouvir seus próprios batimentos cardíacos. A assistente pegou a criança no colo e a levou até sua nova família. O bebezinho jogou o corpinho na direção de Suze com os bracinhos estendidos, sua mãe apenas a agarrou com carinho. Com sua filha no colo, todos os seus problemas pareciam tão minúsculos. Suzane não teve mais medo, ela era mãe. Ela tinha o dever absoluto de amar e proteger, não duvidou da sua capacidade nem por um minuto.

A menininha não as estranhou, parecia coisa do destino.

Suzane e Kássia conheceram o verdadeiro amor e ele tinha nome: Talitha.

Estavam mais que completas, portanto, transbordaram.

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