Um
todos nós seremos esquecidos
Setembro, 2022
Suzane pedalou tranquilamente, aproveitando ao máximo a brisa fresca vinda do Oceano Atlântico Sul. Seguia o costumeiro caminho beira-mar que a levaria até o seu farol. Sim, se achava no direito de chamá-lo de seu, já que desde criança o visitava pela tarde, beneficiando-se com a proximidade de sua casa.
Desceu da bicicleta para caminhar pelo caminho apedrejado e arenoso, logo a jogando de lado para se dispor a subir as escadas de ferro – suas mãos sempre ficam sujas de ferrugem. Basta não olhar para baixo e ela logo estaria no topo – é o que repetia constantemente para si mesma. Sim, pode acreditar, ela tem medo de altura, mas vale a pena o esforço e risco, uma vez que a visão lá em cima se parece muito com a descrição de paraíso.
O farol já não se acendia a anos, a entrada pelo seu interior era inacessível, a única maneira de escalá-lo era pelos finos degraus de ferro agarrados a sua estrutura do lado de fora. Tecnicamente, não era permitido subir, mas seguir as regras não era do feitio de algumas garotinhas curiosas como a nossa protagonista.
Muitas pessoas devem visitar o farol que já não se acende, considerando ser um dos pontos turísticos mais famosos da cidade, mas ainda assim, ele é especialmente de Suzane. E não se importava de dividir, principalmente quando alguém com boas intenções frequenta esse lugar; as escadas de barra de ferro não deveriam existir mais, porém alguém está sempre fortalecendo a estrutura, tornando o acesso à torre seguro. Suzane é grata por isso. Será que essa pessoa é a mesma que responde seus bilhetes? Bem, não tem como ela saber, já que nunca encontrou ninguém por aqui.
Sorriu ao encarar o céu e o oceano a sua frente se unindo em apenas um, poderia dizer que sua cor favorita é laranja pôr-do-sol, bem quando a tarde vai caindo e a noite surgindo e o céu fica salpicado de degradês em tons diferentes. Algo como azul-escuro, roxo, rosa e laranja. Abriu os braços encostando-se ao parapeito da torre e fechou os olhos suavemente. Esse era seu momento de paz, quando podia sorrir sem ter vergonha do seu sorriso repleto de dentes tortos; onde agradecia por ser adotada por pessoas tão boas; e ninguém faria piada de sua família; era seu momento de prece pela vida e o universo. E principalmente por todos os seus post-its em seu quarto e os diários que carregam todas as memórias cujo são seu porto-seguro logo pela manhã.
Desejou que esse ritual nunca tivesse fim, mesmo que um dia a vida lhe impedisse de visitar o farol que tanto ama. Sentou-se encostando no parapeito e pegou seu pequeno bloquinho, concretizando sua ida matinal até a estrutura imensa. Dessa vez, começou a escrever:
“Todos nós seremos esquecidos…”
Logo as lágrimas vieram, mas Suzane persistiu em escrever:
“Não, eu não estou falando sobre a morte. Apenas o fato irreversível que seremos esquecidos. Acho que, se você procurar, dá para encontrar a felicidade dentro da nossa própria alma, enquanto as pessoas teimam em procurar fora. O primeiro amor é o próprio, sem ele como poderíamos encontrar o verdadeiro? Por isso, me entrego completamente a quem sou, que eu seja a minha própria luz, assim como sou a minha escuridão. Que eu aprenda a me pertencer. Quando tudo acabar… eu estarei comigo mesmo. Além do fim, flutuando entre as nuvens…”
O fim é assim, apenas você. Suzane teve medo de que quando seus segredos viessem à tona ela perdesse tudo que mais amava. Cada dia que passava e a verdade permanecia oculta, mais aglomerado ficava dentro aquela caixinha de segredos. A qualquer momento iria se romper, explodindo e causando catástrofe onde os destroços alcançassem.
Abraçou seus joelhos e se permitiu chorar, deixando sua lástima tomar forma e voz. Não precisou se preocupar, afinal ninguém a ouviria daqui, portanto poderia lastimar-se o quão alto quisesse até toda aquela dor se dissipar de seu peito.
Depois de algumas horas, desceu da torre e costumeiramente pedalou de volta para casa, após mais um péssimo dia, onde foi empurrada contra armários e pessoas, ignorada, desprezada, humilhada e xingada. Apenas por ser filha adotiva de dois homens que resolveram viver juntos e ignorar a opinião da sociedade, pois a paixão que sentiam um pelo outro era muito mais forte do que qualquer julgamento. E por isso eles adotaram Suzane, um pedaço de amor, a união perfeita das suas metades.
Suzane ama seus pais mais do que tudo no universo. A sua família é tão perfeita que só conseguia se sentir cada dia mais grata pelo privilégio de chamar Leonardo e Ítalo de pai(s).
Para ela, era deveras triste que as pessoas sejam tão desprovidas de respeito e amor. Parecia que o único problema estava dentro delas, como se a maldade não pudesse ser ignorada, impedindo-os de alcançar a verdadeira felicidade. Como todas essas pessoas podiam viver sem amor?
O carinho de seus pais lhe transformava imensamente, quase como se pudesse apalpar. Ouvir seus ensinamentos era terno, eles faziam-na ver o mundo de uma maneira diferente. Isso a tornava única e fazia tudo ao seu redor ser tão bom que desejava o mesmo ao resto do mundo, ainda que não merecessem.
Suzane, não chore, o amor existe para todos, de todas as formas e sentidos.
Não chore, Suzane, não chore mais…
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