Onze

nós não devemos desistir daqueles que amamos

1 0
Setembro, 2023

 

Estrelas morrem. Até mesmo as mais belas.

Kássia repetia a frase de Osho constantemente, como um mantra que carrega tatuado em sua costela esquerda: “Certa escuridão é necessária para se ver as estrelas”, e de fato era. Prova-se isso pelo fato de que enxergou Suzane e seu coração estava coberto por escuridão quando se conheceram, mas isso não a impediu de enxergar todas as estrelas que habitavam em seu ser. A verdade é que uma trouxe a vida para o coração da outra, o amor se tornou oxigênio.

No entanto, ainda havia um pouco de escuridão quando se olhava para o oceano durante a noite. Kássia estava distraída demais para perceber…

“Porque é que as borboletas-azuis não são como vaga-lumes? Não brilham na escuridão.”, “Porque é que nós só enxergamos estrelas no escuro?”, Suzane desatava a fazer diversas perguntas.

Kássia não consegue responder todas, ironicamente, certas vezes é ela quem precisa de respostas… e agora, milhares de interrogações dominavam sua mente. Sufocando-a. Ela sabia que tinha algo de errado, mas preferiu confiar e manteve-se cega, surda e muda.

Suas frustrações deviam-se a terceira vez na semana que Suzane se esquecia de vir ao farol, o que era estranho, já que era um costume que insistia em manter.

Um ano juntas e havia algo de diferente. Tinha uma pulga atrás da orelha de Kássia, fazendo-a se coçar de preocupação, desceu da torre e com seu skate foi até a casa da família Carolino. A maioria das luzes estavam apagadas, mas reconheceu a janela do quarto de Suzane com as cortinas finas cor de areia e uma luz mais suave que vinha da sala. Decididamente, subiu os três degraus para a varandinha e bateu à porta, havia um silêncio absurdo no interior da residência.

Ouviu passos firmes, as luzes da sala e varanda foram acesas em simultâneo. Ítalo foi quem atendeu a porta, espantando-se ao encontrar a namorada de sua filha.

— Kássia? — O joalheiro estava com os olhos vermelhos, um sinal claro de que estava chorando. — Entra por favor.

A surfista aceitou o convite e atravessou para dentro da casa, assim que fechou a porta parou diante do joalheiro. Sentia uma angústia em seu coração, um nó na garganta, alguma coisa estava errada e sua alma teimava em alertá-la… e não é de hoje, nem de ontem… têm tempos.

— Sr. Carolino, está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? — Foi direto ao assunto.

— Suzane se esqueceu de novo, não é? — Ele a encarou com seus olhos transbordando lágrimas. Os pais da garota não sabiam a respeito do farol, jamais imaginariam que depois do incidente Suzane teria escalado a torre novamente, mas estavam cientes dos encontros diários na praia.

Mas, naquele momento, Ítalo se deu conta de algo: a namorada de sua filha agia como se não soubesse… e ela atua tão bem, como conseguia? Espera… ela realmente sabe?

— Kássia, ela te contou, não é? Suze nos disse que tinha te contado… — O homem pensava que a nora agia assim para proteger sua amada Suzane, para não a ferir ou deixá-la mais triste.

— D-do que está falando? — Kass realmente não sabia.

Diante disso, o Sr. Carolino deixou lágrimas silenciosas rolarem por sua face e serem pegas pela camada de barba em seu rosto, afetado demais abraçou a jovem a sua frente, já a consolando pelo que lhe aguardava, a mesma não soube como reagir.

— É melhor se sentar, querida. Não vai ser fácil. — Puxou-a pela mão até que estivessem no conforto do sofá da sala.

E com muita dificuldade ele lhe revelou tudo, desde o começo quando o bebezinho machucado foi abandonado diante de uma noite tempestuosa e deu entrada na emergência onde seu marido trabalhava. Contou o quanto, desde que nasceu, sua filha lutou bravamente para sobreviver e enfrentou cada grande dificuldade que surgiu em sua vida.

Ítalo revelou no que diz respeito a condição de sua filha. Sobre a sua memória não funcional.

A mente da surfista foi bombardeada por todas às vezes que sua namorada lhe deu um sinal de que havia algo errado.

“Todos nós seremos esquecidos… não, eu não estou falando sobre a morte.”

“Posso tirar uma foto sua? Eu quero te eternizar de todos os ângulos possíveis!”

“Para eternizar memórias!”

“Kass, me explique novamente sobre as estrelas…”

“Não acho que eu seja como o Sol, pois não vai levar bilhões de anos. Eu sou uma gigante estrela vermelha… Eu te amo, Kássia, por favor, não se esqueça de mim…”

“Eu queria tanto ter uma memória de elefante… Para nunca me esquecer da sensação da sua mão segurando a minha.”

Foi quando Kássia se deu conta que, sim, Suzane era uma gigante estrela vermelha.

Naquela noite, cerca de um ano atrás, quando Suze chegou chorando ao farol, ela tirou um cochilo pela tarde e acordou aos prantos ao se recordar do seu diagnóstico certeiro, o aneurisma cerebral que desencadeou quando ainda era muito pequena e isso lhe causava perda de memória recente. Por anos, ela e seus pais encontraram métodos de fazê-la não se esquecer das coisas mais importantes, usando post-its, fotografias e diários recheados de memórias que lia logo pela manhã. No entanto, com o passar do tempo a aneurisma foi piorando, comprometendo toda a memória de Suzane Carolino.

Tudo, tudinho… ela estava se esquecendo…

Toda vez que dormia, ela se esquecia de mais um pouco do que aconteceu antes. Não tem como prever, tem dias que ela acorda e têm boa parte de sua memória, mas há outros onde abre os olhos e não sabe onde está, sequer reconhece os dois homens ao seu redor.

É isso o que está acontecendo agora…

Com a grave situação, há três dias ela não se lembra de nada.

Kássia correu disparadamente até o quarto de Suzane, seu outro pai a mantinha em seus braços, ninando-a. A garota que estava protegida no aconchego dos braços do Dr. Leonardo apontou o dedo para o ser que surgiu em seu campo de visão, e então perguntou: “Papai, quem é essa?”.

Poderia tentar narrar o que Kássia sentiu, mas é quase impossível.

Imagine o que é ser esquecido pela pessoa que tanto ama?

No final, não era Suzane que seria esquecida, não, não. Todo esse tempo, era Kássia.

Suzane era eterna no coração e na memória da surfista que, mais uma vez, seria abandonada, como aconteceu com todos que passaram por sua vida. Ninguém nunca fica, o que a fez pensar que seria diferente com Suzane?

Refez o caminho de volta para a saída e ignorou os chamados de Ítalo, saiu atordoada da casa da família Carolino, sem nem sequer se despedir.

Por que ela não lhe contou antes? Por quê?

Não era nenhum pouco justo, não que a vida costume ser, não é mesmo? De maneira alguma podia compreender – nem que se esforçasse muito – os motivos que a levaram a esconder algo tão sério de si.

Por tanto tempo pensou que jamais seria capaz de amar alguém que não fosse sua avó e seu melhor amigo, mas Suzane era a única exceção. E isso estava rasgando-a de dentro para fora.

Kássia caiu na areia da praia e chorou encarando o céu estrelado.

Suzane se esqueceria de todas as noites de verão que viveram?

 

Ser esquecido doía. E como doía.

Kássia chorou, lamentou, pensou ter encontrado seu próprio fim. Mas ao respirar e ver uma estrela-cadente cortando o céu, foi subitamente devorada por esperança. Amava Suzane com todo seu coração e tudo que fizeram juntas era muito significativo.

Encarou o mural de bilhetes em seu quarto. Cada mensagem que Suzane havia deixado a ela. O tempo todo sua amada estava tentando tornar-se eterna em seu coração.

“Eu não posso acordar todos os dias e me apaixonar de novo pela beleza da minha namorada?”

“Quando eu ficar velha e se por acaso eu tiver amnesia, ainda vai me amar?”

Ela havia conseguido com sucesso. Aquelas fotos de polaroid e bilhetes escritos à mão, era um sinal que Suzane não queria esquecê-la. Ter essa certeza, era tudo que precisava para não desistir da garota que tanto amava.

Foi até a loja de conveniência beira-estrada, ao lado de um posto de gasolina, comprou um maço de cigarros e um gravador de fitas.

Kássia não deixaria Suzane esquecer-se de si.

Ela a amava o suficiente para lidar com seu cérebro imperfeito.

Porque nós não devemos desistir daqueles que amamos.

 

 

“Você desenhou estrelas ao redor das minhas cicatrizes,
mas agora estou sangrando”

— Cardigan, Taylor Swift

Indique para um amigo