Dez

alguns corações tem memória de elefante

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Agosto, 2023

 

Era o aniversário de Kássia, hoje a leonina completaria 19 primaveras inteiras! E Suzane se esforçou ao máximo para não se esquecer. Acordou pela manhã dando de cara com os milhões de alerta pregados nas paredes de seu quarto. Post-its vermelhos com letras grandes desenhadas em caixa alta.

“Dia 13 de agosto, aniversário da sua namorada, Kássia de Luna.”

Deparou-se com um retrato das duas, uma fotografia tirada por um dos seus pais onde, Suze estava sentada em sua bike no calçadão da praia e Kass a abraçava por trás, envolvendo e pousando o rosto em seu ombro direito. O sorriso da mesma era imenso, exalando a mais pura felicidade. Era um momento único, bonito e tão feliz.

Suzane pode sentir seu coração dar batidas fortes no peito, chegando a tremer sua caixa torácica. Estava irrevogavelmente apaixonada por aquela garota. Como poderia esquecê-la? Kássia era singular o suficiente para tornar-se inesquecível.

O dia pareceu ter 72 duas horas, considerando a maneira lenta que os ponteiros do relógio na sala de aula, em cima da lousa, pulavam de número em número tão devagar. Suzane só queria que anoitecesse, mas ainda eram 11h15min da manhã! Ela precisava desesperadamente das 19h onde se encontraria com sua garota no Jim’s Club, a única discoteca de Calisto, com todo o estilo vintage que uma alma da década passada necessita. Iriam de casal, seus pais, Mical e Luciano, Suzane e Kássia. Encomendaram um bolo para celebrar e dançariam pelo menos até as 10h da noite.

Assim que retornou para casa, correu até seu quarto para embrulhar o presente que daria a ela. Escreveu uma cartinha com direito a desenho de corações e colagem das milhares de fotos que já tiraram juntas. Havia ficado uma graça, se tornou uma namorada clichê, com direito a cartinhas. Era uma criativa apaixonada nata.

Depois da décima vez que seu pai, Ítalo, lhe chamou para almoçar, ela cedeu a fome e devorou um prato de macarronada com bastante molho bolonhesa. Ficou a tarde toda ouvindo música enquanto ajeitava seu quarto. Até que finalmente pode vestir-se com o belo traje que havia separado para essa noite tão especial. Um vestido cor azul pastel, com poá de bolinhas pretas a mesma cor do cinto e sapatilhas que calçava. O colar e brinco de pérolas ajudaram a compor o look da década de 80. Se virou como pode com seu cabelo, fazendo um topete bem fixado com spray e perdendo metade no topo deixando bem volumoso. Para finalizar, caprichou no batom vermelho e pensou que ela poderia ser facilmente a Marilyn Monroe.

— Está na hora, querida, vamos? — Leonardo a chamou do pé da escada.

— Já estou indo, papai! — Respondeu ansiosa, o coração estava na boca. Agarrou a caixa com embrulho cor laranja e impressões de conchas do mar.

Suzane foi até o carro de seus pais que prontamente dirigiram até a discoteca. Pagaram por suas entradas e foram direto para a mesa que haviam reservado. Kass chegou alguns minutos depois, extremamente linda usando a fantasia idêntica ao Elvis Presley. Suze riu, era hilario e extremamente intrigante.

As duas se avistaram e foi inevitável correrem na direção uma da outra e se abraçarem com força.

— Feliz aniversário, K. — Desejou.

— Você está linda, babe. — Elogiou a namorada.

— E você está tão charmosa. — Suze sorriu, fazendo a namorada dar uma voltinha exibindo o look.

O presente ficou para outra hora, Black or White do Michael Jackson começou a tocar e Kássia achou a canção irresistível demais. Sua garota estava usando um vestido rodado e o que mais queria era rodopiá-la por todo o salão de chão de vinil. Perderam-se naquele globo de luzes neon que salpicavam em todas as direções, logo estavam o grupinho de 6 pessoas dançando e soando naquela muvuca.

Would it be a sin? If I can’t help, falling in love with you?[1] — Kássia cantarolou em seu ouvido, quando dançaram lentamente a canção de Elvis.

Cantaram parabéns para Kass e nem se preocuparam em comer uma fatia do bolo. As músicas seguintes voltaram a ficar animadas, portanto, Mical e Luciano desafiavam os Carolino na pista de dança, divertiam-se entre si, enquanto as garotas tomavam um drink sem álcool no bar.

— Vamos para algum lugar onde possamos ficar sozinhas. — Convidou Suze e recebeu uma resposta afirmativa. Terminaram os drinks coloridos, avisaram estarem de partida e deixaram a discoteca.

Suas pernas estavam cansadas demais para continuarem de pé, resolveram se despedir de seus amigos para caminharem pelas ruas frescas de Calisto rumando a torre que as pertenciam. Suzane levava o presente consigo na intenção de presentear a namorada no alto do farol onde se conheceram.

Subiram as escadas de ferro com cuidado e quando no topo, estenderam a manta que deixaram propositalmente ali, sentaram-se de pernas cruzadas, de frente para a outra.

A lua estava imensa naquela noite, era lua cheia, ela brilhava tanto que sua luz prateada as iluminava.

— Para você. — Disse Suzane, finalmente presenteando a namorada.

Animadamente, Kássia pode rasgar o embrulho e abrir a caixa, era um daqueles smartwatch com várias funcionalidades. Como era deveras atlética achou o presente genial, Suze a conhecia tão bem.

— E ainda tem a funcionalidade de calculadora, mesmo que você não precise de uma, já que veio com a matemática embutida no cérebro. — Brincou com a namorada.

— Obrigada, meu bem, eu amei muito. — Kássia foi logo prendendo a pulseira no pulso. Sorriu ao ver que Suze já havia colocado uma foto das duas como papel de parede.

— Mas a cartinha, por favor, leia sozinha, quando estiver em sua cama. — Sugeriu, com as bochechas queimando de timidez.

Kass deu risada da namorada mais concordou prontamente. Finalmente puderam unir seus lábios naquela noite, trocaram selares suaves com Suze sussurrando felicitações a sua amada o tempo todo, enchendo-a com o amor que transbordava de seu peito.

Elas encaravam a noite, de mãos dadas, sentindo suas palmas soarem uma contra a outra.

— Eu queria tanto ter uma memória de elefante… — Sussurrou Suzane. — Para nunca me esquecer da sensação da sua mão segurando a minha.

— Meu bem, acho que nunca te contei essa teoria, mas… alguns corações têm memória de elefante. — Segredou Kássia, dando selares suaves nas têmporas de Suze. — Portanto, não se preocupe, nada será esquecido. E se você se esquecer, eu te faço lembrar, posso segurar suas mãos todos os santos dias.

Suze sorriu aliviada, lágrimas beiravam seus olhos.

— Eu quero isso, Kass. Nós. — Sussurrou com o nó lhe apertando a garganta. — Quero me lembrar disso quando eu acordar.

— Suze… você vai se lembrar, o que te faz pensar que iria esquecer? — Kássia sorriu, ajeitando os fios de cabelo da moça, que se soltavam do penteado. — Isso… Nós. É real. Você tem isso. Mas se você precisar, eu posso colapsar o universo para a gente ficar presa num loop, vivendo o mesmo dia para sempre. — Suzane deu risada. — Mas espero que você não queira isso, pois desejo tanto viver uma vida inteira com você. Cada um dos dias que estivermos fadadas. Quero envelhecer ao seu lado!

O coração de Suzane ficou tão apertado, ela era uma grande mentirosa e isso não parecia nenhum pouco justo. Não poderia passar daquela noite. Não mais… mas simplesmente não conseguiu dizer. Ela não podia. Seus lábios estavam selados e não permitiam que a voz saísse. Sentia que se contasse, perderia a melhor pessoa que havia conhecido.

— Quando eu ficar velha e se por acaso eu tiver amnesia, ainda vai me amar? — Perguntou, só para acalmar seu coração.

Sua namorada a olhou com as orbes brilhantes e o sorriso lindo, ela não precisava responder. Suzane já sabia a resposta, mesmo assim ouviu-a verbalmente:

— É claro que sim. Eu te faria se apaixonar por mim todos os dias. E não seria uma tarefa difícil, porque você tem coração de memória de elefante. — Constatou, espalhando beijinhos sobre as sardinhas no rosto da sua namorada.

Suzane deu risada e concordou freneticamente.

Kássia tinha toda a razão.

 


 

[1] “Seria um pecado? Se eu não consigo evitar, me apaixonar por você?” frase da canção ‘Can’t Help Falling Love’ do cantor Elvis Presley.

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