Doze
lembre-se de todas as suas mentiras
Suzane acordou sobressaltada com o estalar do trovão que cortou o céu, fazendo feixes de luzes azuis iluminarem seu quarto. Sempre dormia de janelas abertas e por isso as cortinas chicoteavam com a ventania agressiva que invadia seu quarto, papéis voavam ao seu redor, post-its e fotos iam ao chão. Seu coração estava na boca, devido ao despertar apavorante. Uma tempestade repentina desabava no meio da noite, o relógio digital em sua escrivaninha informava-lhe a hora, 4h21m da madrugada.
Rapidamente jogou o fino lençol que se cobria para o lado e levou seus pés nus para o chão, em passos rápidos enfrentou o vento até alcançar a janela e empurrou suas abas para finalmente fechá-la. Puxou o tecido da cortina no intuito de fechá-las, fazendo um barulho irritante soar dos rodízios deslizando pelos trilhos. Ainda sobressaltada, virou-se para a desordem no chão de seu quarto e rapidamente se dispôs a recolher os papéis, anotações e fotografias.
Ela só não contava que cada um deles fosse, na verdade, uma memória.
“Eu tenho um aneurisma cerebral que me faz esquecer-me de tudo na maioria das vezes que acordo”, leu em um deles. Seu coração gelou, ficou completamente petrificado. Foi nesse momento que se deu conta do vazio em sua mente. O único nome que sabia era o seu próprio e de um tal de Ítalo…
Subitamente sentiu uma pontada de dor e abaixou-se em posição de cócoras, segurando sua cabeça com as duas mãos.
— E-eu… e-eu… não consigo, não tem nada na minha cabeça, NADA! — Disse a si mesma, mantendo sua voz num tom baixo. Como aconteceu tantas vezes, encontrou-se desesperada, deu tapas em sua testa na tentativa absurda de fazer sua mente funcionar e as memórias que definiam seu ser retornassem. — Não há nada, eu sou um vazio!
Suzane quis chorar e lágrimas de fato invadiram seus olhos, ergueu a cabeça e buscou por algo naquele quarto que lhe pertencia e foi quando viu uma lousa de giz branco e nela estava escrito com letras em caixa alta: LEIA SUAS MEMÓRIAS PELA MANHÃ. Foi quando compreendeu que todos aqueles papéis no chão eram suas recordações e necessitava delas para se dar conta de quem era.
Tudo estava uma tremenda bagunça, sua linha do tempo estava comprometida e cabia somente a ela, mesmo sem nenhuma noção, saber organizá-las.
Encontrou-se em estado de desespero e começou a juntar tudo com euforia, lendo e vendo cada foto que pegava. No fundo do seu ser, ela sabia que estava deixando algo muito importante escapar. Foi quando finalmente encontrou a foto de uma garota que exibia um belo cabelo afro e um sorrisão estampado no rosto. Parecia ser uma foto tirada por Suzane que estendia sua mão para a moça apoiada a um parapeito e, no fundo, o oceano era responsável por compor a paisagem. No horizonte, o sol estava se pondo e o céu mais parecia uma obra de arte salpicada de cores lindas.
Virou a foto e atrás da mesma estava escrito uma data, uma frase e um nome: Meu grande amor, Kássia de Luna.
Suzane pode sentir em cada pequena célula que compunha o seu ser, aquela era a pessoa que ela amava.
Aquela garota linda, é por quem deve se apaixonar todos os dias.
Junto à fotografia havia um post-it vermelho, estava amassado e quase descolando. Parecia um lembrete um tanto importante. Vermelho é certamente um sinal de alerta!
“Lembre-se do quanto você a magoou com suas mentiras”.
Precisava se lembrar…
Ela se esforçou tanto, andou em círculos até o sol nascer. Depois retornou para cama, exausta, com a cabeça pulsando de dor, abraçada naquela foto, chorando lágrimas grossas e quentes que encharcavam seu travesseiro. Vez ou outra buscava refúgio no sorriso da garota que gostaria de se recordar.
Lembre-se Suzane, por favor, lembre-se.
A garota voltou a dormir, seus olhos estavam cansados demais de tanto chorar.
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Aquela era uma manhã de um verão cruel. Lhe cortava como uma faca.
Era estio no universo de Suzane porque ela queria que sua vida fosse um constante dia ensolarado, principalmente quando acordava se lembrando de tudo. E esse é um desses dias. Uma tempestade se formava no fim do oceano, mas o sol estava lutando com todas as suas forças. Diante de uma catástrofe, há duas opções: 1) encarar da melhor maneira possível, ou, 2) deixar a tempestade tomar conta de tudo, como um furacão que passa varrendo a cidade.
A escolha de Suzane era óbvia, sempre escolheria o sol.
Encarou o anel de conchinha em seu dedo anelar, lembrava-se de tudo que havia acontecido nos três últimos dias de ‘blackout’, assim denominava seus episódios de esquecimento, pois, é como se tudo estivesse escuro e vazio dentro da sua mente. Sabe quando as luzes no palco se apagam dando fim a peça? Era bem assim que se sentia. É por isso que adorava tanto os dias de estio e detestava as tempestades.
Respirou fundo e sentou-se na cama segurando a cabeça entre os joelhos, seu quarto ainda estava uma tremenda bagunça, todas as suas memórias estavam desorganizadas como se de fato um tornado tivesse passado por ali. Eram 9h da manhã e garoava do lado de fora, mas ela precisava era dos raios ultravioletas. Aos poucos realinhou seus pensamentos, nessa última crise só se lembrou de seu pai Leonardo. Passou os dias no quarto, com medo, como um animal selvagem em uma gaiola após ter sido retirado da natureza. Lembrou-se de ver Kássia na porta de seu quarto e do olhar doloroso que carregava na face. No terceiro dia, ela renasceu, recobrando-se de tudo…
A foto estava amassada por ter sido apertada por sua mão que a segurou com força demais, algumas lágrimas tentaram borrá-la, estava caída ao lado de seu travesseiro. Suzane pegou a foto polaroid com todo o cuidado do mundo.
— Eu não vou te perder, Kass. — Disse para a garota linda sorrindo para si. — Estive te descobrindo por todos esses dias que passamos juntas. Já me apaixonei por você mais de 365 vezes e planejo continuar me apaixonando. Eu só preciso consertar os meus erros.
Deu um beijinho na garota da foto e imediatamente se pôs de pé, ligou seu notebook e conectou os alto-falantes espalhados pelo quarto. Suzane começou o dia dançando ao som das músicas que mais amava enquanto reorganizava seu quarto e todas as lembranças que a faziam se apaixonar todos os dias por Kássia de Luna.
Uma hora depois se reuniu com seus pais que estavam na cozinha e eles lhe contaram exatamente tudo o que aconteceu. Suzane percebeu ainda mais a gravidade da situação e não quis nem mesmo comer.
— Por favor, me levem até ela. Eu não vou perder a garota que eu amo.
E talvez, só talvez, os olhos de Ítalo e Leonardo marejaram ao deparar-se com o poder do amor esculpido em formato de sua filha. Naquele momento, seus corações quase explodiram de tanto orgulho.
Essa garota incrível e determinada, é filha dos Carolino, ela é uma Carolino! E essa é uma família tão feliz, amorosa, respeitosa e parceira quanto qualquer outra. Na verdade, é o tipo de família que dificilmente a gente vê por aí, mas é como as coisas deveriam ser… baseadas em amor e verdade.
Ítalo foi até o porta-chaves e alcançou as do carro, olhou para sua filha e disse:
— Filha, vamos lá reconquistar a sua garota.
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