Cinco

somos eternos no coração de quem nos ama verdadeiramente!

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Setembro, 2022

 

Deu a última tragada no cigarro e jogou a fumaça aos céus, suspirou deixando a bituca cair no chão e então esfregou a sola de sua bota contra o concreto, dando fim o fogo que queimava lentamente. Analisou sua última tatuagem feita, aquela que fez em nome de sua falecida avó, uma rosa no antebraço – já se fazia um mês e a cicatrização estava ótima.

Lá fora a tardezinha caia, foi para dentro do vagão onde mora, usou o banheiro, viu que Mical ainda não havia chegado, então lhe deixou um recado dizendo que havia assado um bolo de laranja – favorito do melhor amigo – e o informou sua localização para que não se preocupasse. Saiu de casa sobre seu skate, carregando consigo sua prancha. Como era de costume, Kass seguiu em direção à torre da praia.

Passava o fim de suas tardes pós-jornada de trabalho pegando ondas, para depois descansar no alto do farol, onde possuía total privacidade. Tinha um amor tão grande pelo surfe e toda sua rotina costumeira que lhe enchia a alma. Além disso, ela estava mesmo ansiosa para conferir o bilhete de hoje. Quando se deu conta, responder os post-its presos com adesivos fofinhos havia se tornado parte essencial da sua rotina. Sorria ao ler cada um deles, mesmo que fossem em sua maioria tristes.

Qualquer coisa era bem-vinda para fazê-la esquecer-se das cicatrizes que carrega em vida. A rejeição dos seus pais, o abandono da sua mãe, o falecimento de sua querida avó que a criou, isso sem citar sua luta diária contra o racismo e estereótipos impostos pela sociedade. Tudo que tinha era seu melhor amigo e o vagão abandonado onde vivem.

Entre cigarros, tatuagens e pouco dinheiro, Kássia resolveu que queria terminar a escola. Pois gostava de estudar e de ser uma mulher inteligente, só largou a escola para cuidar da avó que tanto amava. Além disso, ela havia feito uma promessa e estava muito interessada em cumpri-la.

Era tudo que tinha, afinal. Seu cérebro intelectual, tatuagens com significados e cigarros tranquilizantes acompanhados da jura distante de planear largá-los… não era muito, mas era o suficiente para ser feliz.

Após pegar algumas ondas, Kássia deixou a prancha e o skate escondidos num canto da praia e subiu a escada de ferro até o topo da construção.

Todos os recentes anoiteceres, após passar o fim da tarde surfando, subia o farol. Em sua mochila trazia consigo seus cadernos de estudo, um lampião, seu radinho a pilha e alguns snacks para enganar a fome. Dessa altura é perfeito para ter privacidade e ainda poder contemplar o céu maravilhoso, principalmente porque na direção do mar é mais escuro, as luzes da cidade não interferem na luminosidade das estrelas, sendo assim torna tudo mais visível e bonito. Era inspirador e a fazia acreditar que conseguiria realizar todos os seus sonhos, afinal ela estava estudando debaixo das estrelas.

Antes de começar seus estudos, viu o bilhete do dia:

“Todos nós seremos esquecidos… não, eu não estou falando sobre a morte. Apenas o fato irreversível que seremos esquecidos. Acho que, se você procurar, dá para encontrar a felicidade dentro da nossa própria alma, enquanto as pessoas teimam em procurar fora. O primeiro amor é o próprio, sem ele como poderíamos encontrar o verdadeiro? Por isso, me entrego completamente a quem sou, que eu seja a minha própria luz, assim como sou a minha escuridão. Que eu aprenda a me pertencer. Quando tudo acabar… eu estarei comigo mesmo. Além do fim, flutuando entre as nuvens…”

Se pegou refletindo sobre aquilo por longos minutos, acendeu um cigarro e tragou ainda mirando aquelas palavras.

Muitas pessoas não têm medo da morte e sim de serem esquecidas. Kássia nunca havia pensado nisso. É óbvio… quando ela morresse ninguém se lembraria de si. Talvez Mica, ou Conchinha – sua gata desaparecida. Retornou para casa certo dia e descobriu que a pequena felina decidiu apenas não retornar. Até sua gata havia a abandonado.

Bem, Kass não se importa em ser lembrada, mas a pessoa que escreveu esse bilhete possivelmente se preocupava com os marcos de sua existência. Pegou uma caneta e um pedaço de papel rasgado para redigir sua resposta e deixá-la no lugar daquele bilhete que levaria consigo. Poderia dizer que os colecionava, levava cada um consigo os deixava em um lugar seguro: o mural do seu quarto.

Kássia escreveu: “Somos eternos no coração de quem nos ama verdadeiramente!”, não precisava responder mais do que isso, por mais que quisesse. Acreditava que todas as palavras que gostaria de dizer ao titular dos bilhetes não poderiam caber em um pedaço tão pequeno de papel. Por fim, o grudou na parede com o mesmo adesivo que estava no outro. Mesmo pensativa, começou a ler uma de suas enormes apostilas, mas logo se assustou com um barulho.

Olhou lá embaixo se inclinando contra o parapeito da torre, foi quando viu uma garota jogar a bicicleta no chão e começar a subir apressadamente a escada.

Ficou estagnada, o que deveria fazer? Possivelmente nada, afinal é só uma garota…

Logo percebeu que a mesma não conseguiria alcançar o topo, estava aos prantos, podia ouvir-se o choro. Sabia disso porque às vezes quando chora sente seu corpo mais fraco, jamais conseguiria subir aqueles degraus tão rapidamente. Se abaixou e debruçou-se contra a escada no momento exato que uma das mãos da garota escorregou, graças aos céus estava próxima do topo, Kássia segurou a outra mão com força, a garota direcionou um olhar penoso para si.

— Não me deixe cair! — Suplicou com voz trêmula.

— Não olhe para baixo. — Respondeu, mantendo o contato apertado. Se olhasse estragaria tudo, a garota iria ficar com medo e Kássia não tinha certeza se ia conseguir segurá-la.

Vendo que confiou em si, conseguiu puxá-la para cima. Se sentaram no chão, ambas com a respiração pesada, tentavam assimilar o que acabara de acontecer. A moça enxugou as lágrimas e respirou fundo, estava com o rosto inteiro vermelho, nariz úmido e os olhos inchados. Kássia preocupou-se com seu estado.

— M-me desculpe, e-eu não sabia que t-tinha alguém aqui… — Balbuciou atropelando as palavras e abraçou as pernas, escondendo o rosto nelas.

Ninguém subia o farol, Kássia estava convicta disso, nunca havia encontrado alguém diante de todos esses anos que frequentou esse lugar. Nada além de bilhetes…

— Não tem problema. Quer dizer…, ainda bem que eu estava aqui. — Respondeu baixo, em seguida o silêncio reinou por alguns segundos.

Foi quando seu cérebro ligou um mais um e percebeu que só podia ser ela… a pessoa dos bilhetes. Não conteve sua boca e soltou a pergunta:

— É você, não é?

Suze ergueu a cabeça e encontrou o olhar de Kássia que a encarou de sobrancelhas unidas. Para deixar mais evidente, ela esticou o braço e alcançou o bilhete, entregando-lhe a resposta.

As mãozinhas delicadas e trêmulas, pintadas uma unha de cada cor, pegaram o papel, aproximou-o lentamente do seu campo de visão para conseguir lê-lo na pouca luminosidade.

— Somos eternos no coração de quem nos ama verdadeiramente! — Suzane sorriu, fazia todo sentido. Era uma boa resposta, olhou para a pessoa que respondia seus bilhetes sem nem acreditar, impulsivamente a abraçou com força, explanando a alegria que dominava seu coração desesperado.

Kássia de Luna não entendeu nadinha, mas como poderia recusar um abraço tão sincero? Circulou seus braços ao redor da mesma e a deixou apoiar a cabeça em seu ombro, suspirou apertando-a. Há muito tempo não recebia um abraço, desde que sua avozinha morreu, visto que quase não tem tempo de ver Mical. Encarou aquela atitude como um, sim, ela é a garota dos bilhetes. Finalmente havia a encontrado.

— Você me deu esperanças… obrigada.

Sim, caro leitor, Kássia deu esperanças para Suzane.

Mas Suzane deu muito mais a Kássia…

O que posso adiantar é que, aquela foi a melhor noite de verão da vida de Kássia de Luna, foi ali que sua vida mudou para sempre.

Suas noites de verão nunca mais seriam as mesmas.

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