Epílogo
são as noites mais escuras que exibem as estrelas mais brilhantes
31 de Dezembro de 2037
Kássia ajustou o telescópio até conseguir a posição perfeita para contemplar o brilho da estrela Talitha, a menininha diante de si se colocou sobre a ponta dos dedos dos seus pequenos pés para olhar através das lentes.
— Conseguiu vê-la, querida? — Suzane perguntou curiosa. — É a estrela que te nomeou.
— É tão brilhante mãe, tão linda. — Disse a menina extremamente empolgada.
— Como você. — Kássia afirmou, concordando com as palavras de sua filha.
Essa estrela pertence à constelação da Ursa Maior e para a felicidade de todos é perfeitamente visível a olho nu.
Suzane encarou sua família com o coração explodindo de alegria, Talitha veio para os completar, adotada aos 3 aninhos, chegou para concretizar o amor que Kássia e ela sentem uma pela outra. As tornando uma família perfeita, juntamente da cadela cor caramelo, chamada Lyra e um gatinho pra lá de preguiçoso.
Era uma típica noite de início de verão e hoje é a passagem do ano velho para o novo, e para Suzane, como todos os dias, uma nova chance de acordar e se apaixonar por sua família de novo e de novo. Não podia negar, estava morrendo de medo de fechar os olhos e dormir. Nem sempre se conformava com o fato de que se esqueceria dos melhores momentos com as pessoas que amava devido ao aneurisma.
— Os fogos já vão começar. — Avisou e pegou a garotinha no colo.
Estavam no alto do Farol Lehna para assistir com privilégios ao show que preencheria o céu e anunciaria o novo ano. Kássia a abraçou por trás, ficando junto de sua família e sussurrando ao pé de seu ouvido o quanto amava sua esposa.
E o espetáculo aconteceu, arrancando sorrisos felizes da família. Quando acabou, desceram cuidadosamente da torre e caminharam descalços pela praia. Kássia correu para mergulhar no mar e aproveitar as ondas violentas que se formavam pela noite, enquanto Suzane corria pela areia na companhia de Talitha e Lyra, se contentavam em apenas molhar os pés nas ondas que se quebravam na beira da praia.
— Filha, uma estrela-cadente! — Apontou para o céu e a menina por pouco perdeu o fenômeno. — Faça um pedido! Faça um pedido!
Suzane se abaixou para ficar na altura da garotinha e deram as mãos ao mesmo tempo que fechavam os olhos e faziam seus pedidos particulares. Quando suas pálpebras se abriram novamente, riram e se abraçaram com força. Depois encararam o céu, contemplando tantas estrelas que o enfeitavam nesta noite.
— Mãe Suze, hoje é um daqueles dias em que você está com medo de dormir e se esquecer de tudo? — Talitha quebrou o silêncio quando observou as lágrimas que beiravam os olhos miúdos de sua mãe.
Suzane apenas assentiu suavemente, sendo posteriormente abraçada por sua filha.
— Você não precisa ter medo, vou estar aqui quando acordar para te contar todas as coisas incríveis que vivemos ontem. — Acariciou as bochechas de sua mãe e limpou as lágrimas que não deveriam estar ali. — Mamãe Kássia e eu te amamos. Sempre vamos te amar.
— Mais do que o universo?
— Mais do que todo o universo inteirinho. — Sua garotinha disse animada. — Ainda faltam muitos bilhões de anos para o Sol morrer, mãe. Fica tranquila.
A mãe da garotinha riu. Ninguém seria esquecido. A Terra estava viva e podia desfrutar de cada batimento cardíaco e todos os segundinhos que ainda tinham por aqui.
Suzane percebeu que era feliz, tão feliz que sua condição se resumia a absolutamente nada. Ela não tinha mais medo de ser esquecida. Não tinha temor de dormir e ter sua memória apagada. Pois assim como uma fênix ressurge das cinzas, o amor a restaura a cada manhã. O brilho das estrelas, refletido nos olhos do fruto dos seus sentimentos por Kássia, enchia seu coração de esperança. Afinal, são as noites mais escuras que exibem as estrelas mais brilhantes.
FIM
“Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo,
mas com tamanha intensidade que se petrifica
e nenhuma força o resgata.”
— Carlos Drummond de Andrade
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