Seis

é como se sentir vivo

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Novembro, 2022

 

Quando se mora no Brasil, é sempre verão. O mormaço daquela noite estava fazendo-as suar. Mas isso não importava, não quando estavam juntas.

Quanto mais Kássia passava as noites com Suzane no alto daquele farol, mais

tinha certeza de que a moça era tão única quanto uma estrela. Ela observava tagarelar sobre sua vida, ficava fascinada com o quanto incrível seu coração é.

Já Suzane estava maravilhada com os ensinamentos de Kássia, não é incrível a forma que ela vê o mundo? A maneira como ela é boa com os números é tão fascinante. Às vezes, ela anota tudo em seu caderno para não se esquecer de nada que ela tenha dito. Havia um universo inteiro dentro da garota que encontrou no topo do Farol Lehna.

— Posso tirar uma foto sua? — Pediu Suzane já se posicionando com sua polaroid em mãos.

Kássia riu baixo.

— Mais uma? — Questionou, mas sem deixar de sorrir para a câmera.

— Sim! Eu quero te eternizar de todos os ângulos possíveis! — Afirmou e apertou o botão que concretizaria a foto, só então se dando conta do que havia dito e isso fez suas bochechas queimarem.

— Beleza, eternize-me o quanto quiser. Que tal se eu ficar de costas para o mar, uh? Caramba, fala sério!? Sou uma modelo e tanto. — Kass brincou, enquanto ficava de pé e se apoiava no parapeito da torre para posar com o mar atrás de si.

Suze riu, concordando com a mesma já acostumada com seu hábito de tirar fotografias de tudo e todos que gosta. Kass achava interessante, era um dos motivos que a faziam adorá-la. Certa vez, quando questionou o motivo, Suzane sorriu grande e suspirou, respondendo: “Para eternizar memórias!”.

A resposta e principalmente o significado dela, tocou o coração de Kássia que achou isso peculiar e belo. De fato, é uma ótima forma de eternizar momentos importantes. Afinal, nem sempre podemos contar com nossas memórias, elas são facilmente destrutíveis.

— Você é definitivamente linda, Kássia! — Afirmou, quando se colocou de pé diante da mesma para fotografar seus melhores sorrisos, sem saber que eles eram todos para si.

 

Mais tarde naquela noite, seu pai Leonardo chegou do trabalho e ganhou permissão para entrar no seu quarto após bater à porta. Ele caminhou até a escrivaninha da filha onde a mesma organizava algumas recentes fotografias.

Já fazia algum tempo que Suzane contava sobre uma possível nova – e primeira – amizade que havia feito, o que deixava seus tutores eufóricos de curiosidade e alegria. Mas, mais intrigante ainda foi ouvir a pergunta proferida a si:

— Pai Leo, como você soube que estava apaixonado pelo Pai Ita? — Suzane foi direta, enquanto o médico fiscalizava as fotos que exibiam uma linda modelo de pele preta. Já sabia que aquela era Kássia, alguém que eles estavam ansiosos para conhecer.

— Wow, boa noite para você também, Suzane. — Brincou o doutor. — Primeiramente, que fotos lindas, filha. O sorriso da Kass é mesmo lindo, não é?

— Sim, eu me perco nisso toda vez que ela sorri para mim. — Suzane não tinha papas na língua, quando percebia já havia dito tudo que não deveria. Pelo menos, certos segredos ela conseguia manter. — Quer dizer, ela é minha amiga…

Leonardo ficou intrigado com a resposta da filha, para si era óbvio que ali nasceria muito mais que uma amizade.

— Bom, querida, acho que começou bem assim… quando éramos amigos e o sorriso dele fazia meu coração bater num ritmo diferente, sabe? Para me sentir completo e feliz, bastava estar com ele. E qualquer coisa que fizéssemos juntos, era tão especial que acabava se tornando uma lembrança espontânea. Foi quando o termo ‘amigos’, pareceu pequeno demais para o que sentíamos. — Contou espontaneamente para sua filha, afinal quando se tratava de seu marido, não conseguia disfarçar seus reais sentimentos. Apaixonar-se pelo joalheiro foi a melhor coisa que havia lhe acontecido, juntamente com a adoção de Suzane.

A menina encarou o pai com os olhos brilhantes e o coração inspirado pela história de amor dos dois. Será que era isso? Ela estava apaixonada por Kássia? Pois não era mais segredo para si que tudo o que Leonardo descreveu estava acontecendo consigo.

— Tenho tanto medo… — Suzane segredou, suspirando tristonha.

— Você não precisa se sentir assim, querida, pois não há nada que o amor não possa suportar. — Consolou a filha, lhe acariciando os fios claros. — E independente do que aconteça entre você e Kássia, nós sempre estaremos aqui para ti e esse é o sentimento mais sincero que conhecera em vida.

Suzane abriu um pequeno sorriso reconfortante e agarrou seu pai num abraço bem apertado, daqueles que traz calmaria pro coração. Ela não sentiu mais tanto medo, porque soube que sempre teria seus pais e eles sempre a amariam com todo o coração. Mas mesmo assim, ainda temia…

Será que Kássia suportaria todas as verdades que Suzane teimava em esconder?

Do outro lado da baía, Kass encarava o teto de ferro do seu quarto, enquanto sua mente se localizava no topo da Torre Lehna, com a garota que gostava. Estava mais que claro para si que seus sentimentos por ela eram intensos. A forma com que seu coração saltitava no peito só de pronunciar o nome dela, ou quando sua imagem surge na mente, a fazia ter certeza que o que sentia era maior do que o oceano inteiro.

Era como surfar em ondas imensas.

Era como se sentir viva.

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