CAPÍTULO CATORZE

Fizestes de mim arte

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Segunda, 13 de Março de 1899
Aproximadamente às 14h
Casarão do Conde de Anmak

Gosto de pensar que treze é meu número da sorte, pois nasci nesse dia, em uma deliciosa manhã de primavera, uma quinta tranquila. Vovó especula que esse número é de má sorte, principalmente se caísse em uma sexta.

No entanto, penso que o contrário de azar é sorte, por isso me considero sortudo. Embora antes do Conde, nada de grandioso tivesse me acontecido. Mesmo antes, considerava-me afortunado pelas coisas mais simples; como minha família, meu cachorro, o privilégio de aprender a ler e escrever, a dádiva de aproveitar o mar. A saúde da minha família. Ou o simples fato de poder admirar os livros na vitrine da pequena e charmosa livraria da nossa cidadezinha.

Acredito que a coisa mais fortuna que me aconteceu, de verdade mesmo, foi encontrar meu Heinrich, ser salvo por ele e o servir como seu criado.

Logo, concluo, jamais me arrependerei do erro que cometi em roubar aqueles medicamentos para a minha avó, exceto pelo fato de que sem eles, vovó pioraria. E foi exatamente isso que aconteceu.

— Preciso falar com você. — Cheguei até o escritório do Conde com a carta de Iraci em mãos, trêmulo, pasmo. Com medo.

Sequer havia percebido a minha falta de educação quando entrei disparado para dentro do recinto e o interrompi. No entanto, não tinha tempo para me redimir, por isso fui direito ao ponto.

— Minha avó, e-ela p-piorou. — Eu estava tremendo tanto que não conseguia falar sem gaguejar.

Heinrich segurou minhas mãos e as apertou para transparecer algum tipo de conforto.

— Icarus, pelo céu, respire. — Ele pediu assustado, seus olhos até se arregalaram, apenas por ouvir minha respiração afobada pelo nervosismo tremendo que me dominava. Sem pestanejar, inalo e exalo o ar de meus pulmões com calma, tentando conter meu desespero capaz de fazer-me colapsar em breve. — Agora me explique. O que aconteceu? — Pediu-me com toda a sua doçura, qual me encantava e acalmava ao mesmo tempo.

Que Heinrich tem um poder imenso sobre mim, não me restavam dúvidas. Mas é nessa hora que sou realmente grato por isso, quando sinto gradualmente a calmaria me abraçar. Ao menos o suficiente para conseguir relatar-lhe o ocorrido.

— Vovó tem sérios problemas respiratórios, mas não temos dinheiro para comprar o medicamento indicado. Nesse momento ela está tendo uma crise muito forte. É por isso que eu roubava as plantinhas da área restrita, senhor… — Meu olho queimava de tanta vontade de chorar e o timbre da minha voz falhava devido ao nó que apertava minha garganta. — Aquelas plantas, ainda desconhecidas, tinham alguma propriedade que acalmava as crises de minha avó. Foi a nossa curandeira que descobriu isso, lembra da Dona Madalena? Muitas vezes foi acusada de bruxaria, mas era só uma curandeira muito talentosa. Ela morreu no ano passado. Quando fazia o chá para vovó, ela ficava boa por semanas.

Vovó é tão importante para mim que não sei explicar. Ela me criou junto dos meus pais, tão carinhosa e paciente comigo, me ensinou a cozinhar e costurar. Amava tanto a minha avó, não consigo assistir seu sofrimento de mãos atadas.

Mamãe conta uma história de quando eu era menino e peguei uma virose que quase me matou, foi uma pandemia severa em Anmak. fiquei de cama por meses, definhando, pouco a pouco. Parecia que não tinha jeito, meu pai até perdeu as esperanças. Contudo, minha vovó moveu céus e terra para me salvar. Quando todos pensaram que eu morreria junto a todas aquelas crianças, ela conseguiu; e até mesmo levou o tratamento natural para os demais doentes do vilarejo. Era a minha vez de retribuir.

— Icarus, mantenha a calma. Diga-me em que posso ajudar. — O olhar penoso do Conde me mostrava sua compaixão, sim, ele ajudaria minha família, acredito na bondade do meu senhor.

— Por favor, senhor… Me deixe pegar um pouco daquelas plantinhas, por favor, por favor. Desconte em meu salário, faça o que quiser, mas me deixe levar um bocado para minha avozinha. — A essa altura, já tinha me ajoelhado diante dele para o implorar.

Heinrich me observou com cuidado e por fim se levantou pegando seu bastão e me ajudando a reerguer. Olhando em seu rosto, pude sentir esperança e me alegrei aliviado quando percebi que me ajudaria.

— Vamos, sua avó não pode esperar.

E assim Heinrich fez mais do que havia lhe pedido, nós fomos até a área restrita, peguei as plantas que vovó precisava. Por sorte, Gilliard não estava presente, portanto não tive que lidar com sua existência detestável. No entanto, tenho certeza que ele não vai gostar nenhum pouco de saber que eu estive lá, metendo as mãos nas plantinhas sagradas. Na sequência, Heinrich foi até a pequena farmácia da nossa cidadezinha e comprou com seu próprio dinheiro os medicamentos que minha avó precisava.

Ele os levou pessoalmente, de forma sigilosa para não chamar atenção. Vovó estava de cama, sofrendo com a tosse forte que a fazia quase desmaiar, sua voz ficava falha pelo esforço imenso que seu corpo faz para tossir tanto e consequentemente ficava extremamente fraca. Heinrich viu como o chá a acalmou, ficou impressionado com a qualidade do tesouro que temos na nossa ilha.

— Lucien precisa estudar isso, posso trazê-lo aqui para diagnosticar a Dona Elvira? — Pediu, olhando para meu pai. Lucien é um dos biólogos que trabalha no laboratório de Anmak.

— É claru que pode, sinhô. — Meu pai autorizou de bom grado. — Num sei nem como agradice o sinhô, que Deus proteja ocê. Espero que isso o ajude de arguma maneira.

— Vai ajudar. Qualquer informação de como essas plantas podem ser usadas, é bem-vinda. — Explicou o Conde, depois sorriu pequeno para mim, esperançoso. — Era o sonho do meu pai que as plantas de Anmak tivessem propriedades para evoluir a medicina.

— Vocês vão descobrir, meu senhor. — Garanti a ele, me contendo para não colocar a minha mão sobre a sua que repousava sobre sua coxa.

Com minha avó mais calma e tossindo menos, o Conde e eu começamos a conversar um pouco com ela que, até mesmo, pediu para tocar o rosto de Heinrich, impressionada com a beleza do nosso Conde. Os dois riram por horas contando histórias de suas vidas, era bom vê-los se dando tão bem.

— Eu judei sua mãe a te traze ao mundo, seu Conde. — Vovó começou a contar, toda sorridente encarando Heinrich. — Um bebê grande e forte. Aquele foi um dia dos bom. O primeo fio do Conde de Anmak, um dos meus primeio partos. E agora, aqui tá ele. Me salvano.

— A senhora já fez muito pelas mulheres de Anmak, lembro de vê-la fazendo os partos dos meus próprios filhos. — Disse Heinrich, todo encantador, segurando a mãozinha da minha vovó que o olhava apaixonada.

Vovó foi uma das primeiras habitantes de Anmak, o próprio Conde Vollard I convidou-a para viver aqui, onde ela conheceu meu avô e assim Anmak virou terra de Campelos. Minha velhinha é meu maior orgulho.

— Brigadu, seu Conde, sempre soube que o seu coraçaum era bom por demais. Muito agradicida, homem bonito. Que o Homem do Céu cuide do sinhô. — Vovó disse toda emocionada, quase chorando e segurando as mãos dele. Ela ficaria bem. — Mais o sinhô bem que pudia abaixar os presu do remédio, em?

E isso arrancou uma risada das boas do meu Heinrich. Mas minha avó estava falando realmente sério.

— Eu farei isso, senhora. Por você. — Todo educado, o Conde beijou as mãos de minha avó. E recebeu um sorriso doce da velhinha.

Heinrich arrasa com o coração da maior idade. Incrível.

Após tanto conversar, a noite finalmente caiu e tivemos que nos despedir da minha família, aliviados, pois vovó estava em paz. Nela, dei um abraço apertado do jeito que ela gosta, fazendo-a ficar alegre. Se tem uma coisa pela qual sou conhecido, é por transmitir uma energia positiva para todos ao meu redor. E quando Icarus Campelo não transmite esse vigor, é por que tem alguma coisa errada.

Quando fui despedir de minhas irmãs, Ingrid me puxou para um canto, indo até o quarto vazio de nossa casa. De início estranhei e até pensei em não ir, mas lhe dei a chance de falar.

— Eu quero te pedir desculpas por aquele dia. Fiquei muito irritada com a possibilidade de estragar tudo com o homem que gosto. É que você nem sempre é confiável, dá sempre com a língua nos dentes. — Foi o que ela disse.

Ah, mas se ela acredita que um simples pedido de desculpas carregado por suas alegações de que sou fofoqueiro iria me fazer perdoá-la, estava extremamente enganada. Não sou tão bobo como pensa. O que ela fez foi sério demais e se quiser minha confiança de volta, vai precisar de muito esforço.

— É melhor que a gente se afaste mesmo, não quero ser culpado se algo ruim acontecer. Seu amante já deixou bem claro com suas ameaças. E se você não confia em mim, não quero saber absolutamente nada sobre sua vida. — Disse firme e azedo, soando um tanto insensível. — Foi você quem me traiu, Ingrid. Me arrumou um problema imenso com o General, sabendo que ele me odeia. De vocês dois, quero distância. Então, me faça um grande favor, esqueça que existo, pois farei o mesmo em relação a vocês.

Nós praticamente estávamos aos sussurros para que ninguém ouvisse a conversa. E conforme ouvia minha resposta, mas rude era sua expressão, acho que ela não esperava isso. Eu também não esperava que minha irmã se tornasse uma desgraçada. Ingrid não vale um centavo.

— Tudo bem, vá em frente com o seu orgulho. O que nós dois tínhamos acabou mesmo. Não preciso de você, Icarus! — Eu realmente não estava acostumado com esse lado acetoso de Ingrid. É surpreendente. Mas me mantive firme, mostrando que não iria me derrubar.

Para completar, ela fez algo que realmente partiu o último pedacinho de amor nutria por sua pessoa. Ingrid retirou a pulseira de conchinhas que havia lhe dado quando ainda era menininho. Era um dos presentes mais sinceros que havia feito e presenteado em toda minha vida.

— Joga isso no lixo! — Ela bravejou, ríspida.

Peguei a pulseira, segurando-a com cuidado e observando a beleza das conchinhas combinando com as miçangas que havia feito com tanto carinho. Sinceramente, dói muito, mas me sinto tão aliviado por me devolver. Guardo-a com cuidado em meu bolso e sorrio sínico para minha irmã mais velha.

— Boa sorte, espero que não venha me procurar quando tudo der errado para você. — Digo rudemente e por fim deixo-a sozinha, voltando para sala onde encontro o Conde e finalmente vamos embora.

Quando subimos nos cavalos e dispomos a cavalgar de volta para o casarão, ele me pergunta se estava tudo bem e com certeza afirmo que sim.

Ingrid não é problema meu, não há mais nada com o que me preocupar, dela quero distância. É melhor assim. Guardo nossos momentos bons no meu coração e sigo em frente sabendo que ela nunca mais será a mesma.

Quando chegamos ao casarão, finalmente encontramos alívio de saber que a vovó está bem.

Acabou que esse dia fez o Conde refletir sobre o pedido da minha avó, de fato, muitas coisas eram caras em Anmak, principalmente por serem importadas. Mesmo assim, ele se esforçou para conseguir parcerias melhores e consequentemente baixar o preço dos medicamentos que muitos precisam. Tornando mais acessível.

Meu Conde é tão incrível.

Como gratidão pela contribuição implícita da minha avó – em relação às pesquisas botânicas –, ele passou a comprar os medicamentos que ela precisava, por isso toda semana minha família recebia um estoque para usar. Para expressar sua gratidão, fomos convidados para um almoço em família na minha antiga casinha.

Mamãe obviamente esbanjou em cozinhar a melhor comida que conseguia fazer para surpreender o Conde de Anmak. E fico tão contente de ver meu Heinrich tão feliz e se dando tão bem com a minha família.

Exceto por Ingrid que finge que nem existo, mas prefiro assim, já que se revelou uma verdadeira cobra. Não me deixei abalar, estava muito feliz por estar com minha família e meus amigos do casarão.

— Não vejo a hora do meu menino Icarus se casar. — Vovó soltou a pérola no meio do almoço, enquanto comíamos.

Heinrich lança uma olhadela desconfiada para mim e retribui igualmente preocupado. Obviamente, não podia mais contar com a ajuda de Ingrid para tirar essa ideia maluca da cabeça dos meus pais de me casar tão cedo. Logo, teria que fazer isso eu mesmo.

— Vovó, ficaria muito feliz se pudesse conhecer a minha futura noiva e comparecer ao meu casamento. Mas no momento estou estudando e me tornando um profissional, não tenho tempo para matrimônio. — Deixo claro e todos os olhares da mesa se direcionam para mim.

— É claru que pode casa, meu fio. Nada te impede de continua estudano. — Disse minha mãe. — A vida passa muito rápido, meu doce. Daqui a poco não sobra uma morça jovem no vilarejo pro’cê.

Eu definitivamente não estou preocupado em “sobrar uma moça jovem para mim”, se depender do que desejo, que elas todas se casem e sejam muito felizes

Céus, como os faria mudarem de ideia? Olhei para Heinrich suplicando por ajuda. Tenho certeza que ele não quer que me casem. Como poderia, afinal? Eu o amo, quero ficar com ele.

— Icaru tá certo, querida. Ele tem que te foco, nosso fio recebeu uma boa oportunidade, derxa o menino estuda. — Graças a Deus foi meu pai quem disse. — Muiê pa’ casa é o que num farta no mundo.

— Papai, é claro que isso não atrapalharia o Icarus, fico do lado da mamãe e da vovó. Chegou a vez do meu irmãozinho se casar. — É a cobra da Ingrid que diz.

— Muitas das minhas amigas querem casar com Icarus. — Irene contou o óbvio, isso é desde sempre, não que esteja me gabando, não estou. Mas as moças sempre tiveram seus olhos em mim.

No entanto, nunca tive meus olhos nelas.

Meu Deus, não se pode ser bonito em paz sem que alguém queira me levar para o altar?

— Icarus é homem, deveria escolher sua noiva sozinho, quando ele bem quiser. — Foi a mais nova, Iraci, quem disse. Oh, minha santinha, graças ao Homem do Céu que minha irmã mais nova existe e tem a mente mais madura do que todos nós juntos.

Mas neste momento, nem posso expressar o quanto fiquei satisfeito com a expressão defensora da minha irmã, considerando que estou fuzilando Ingrid com o olhar, ainda irritado com o que disse a pouco, com propósitos óbvios de me ferrar. Visto que melhor do que ninguém, ela sabia que não desejava me casar. Ela me retribuiu o ódio na mesma intensidade.

— Sendo assim, nossos pais deveriam se preocupar primeiro com o seu casamento, Ingrid. Já que é a mais velha de todas e continua solteira. — Devolvo à altura. Se quer me prejudicar, tem que aguentar ser derrubada também. — As pessoas sussurram coisas a seu respeito, irmã. — Me certifico de dizer a última palavra de forma bem ácida.

Um drinque de vinagre a nós dois, que reine a discórdia. Se ela pensa que vou abaixar a cabeça, está muito enganada. De anjo, só tenho a aparência. Mal sabes que estarei no inferno dançando valsa com o diabo. Nós vamos nos ver lá.

Afinal, o que disse não era mentira. Não era nem por ela ter um caso com o General, e sim porque até hoje Ingrid não se casou. O vilarejo já está especulando que ela é uma desvirtuada por isso os Campelo não a casaram com ninguém. E que seu antigo noivo que casou com outra, foi quem fez o trabalho de desvirginar a moça.

Tolos, mal imaginam a verdade por trás do rosto angelical dessa moça.

Ingrid suja o nome da nossa família. E ainda tem coragem de se meter na minha vida.

Na mesma hora, sua cara fecha, Ingrid fica vermelha de raiva e rebate:

— Cala a porcaria da boca, seu idiota! — Ela praticamente grita, batendo às duas mãos sobre a mesa o que fez todo mundo levar um susto.

— Ingrid! — Meu pai ralhou alto e irritado. — Isso é modo de se cumporta na frente do seu Conde? Mais respeito moça! Que boca suja é essa? E se quê sabe Icaru tem razão, já passou dora d’ocê casar.

— Nós temos um acordo, papai. — Ingrid rosnou, lembrando-o.

— Mas eu sou seu pai e sei o que é mio pro’cê. — Meu pai rebateu. — Já passo dos vinte ano e num caso. Até quando isso vai durar?

— Nois num podemo cunversa sobre isso mai tarde? Estamo com visita, homi. — Mamãe disse, assustada com tanto ódio sobre a mesa.

— Isso num tá certo, muié. Morça casa é cedo. — Meu pai sentou-se derrotado, sua expressão não era das boas. Ele estava preocupado com a reputação da sua filha. Entendia seus sentimentos. Vê-lo assim me deixava entristecido.

Não era comum vê-lo irritado com Ingrid, o fato de repreendê-la publicamente me deixou um tanto chocado. Talvez ela esteja dando trabalho para nossos pais e eles já estejam impacientes.

Heinrich raspou a garganta atraindo olhares para si, limpou a boca no guardanapo e bebeu um gole de água, para em seguida dizer:

— Está tudo bem, eu entendo. E bem, como senhorio de Icarus, também sou a favor que o casamento dele seja adiado. Ele está muito focado nos estudos agora, se sairá bem se continuar assim. Terá um futuro brilhante. — Graças a Deus, meu Conde quebrou todo o clima ruim gerado pela minha irmã mais velha.

O que não era de todo mentira, certo? Mamãe me lançou um olhar de orgulho e senti que sim, ela havia acreditado nele e por hora deixaria essa ideia de lado.

— Quiria por demais vê meu netin se casano… — Minha avó lamentou baixinho.

Sorri para ela, mostrando meu entusiasmo. Precisava convencê-la de que isso não era tão importante assim.

— Vovó, não se preocupe, a senhora verá. — O que eu não acreditava, certamente. Já que minha intenção de casar eram comparadas a zero. — Quem sabe me case logo, por amor, uh? Vocês sabem que sou desse tipo. Se conhecer uma mulher que faça meu coração dar as batidas erradas, me caso com ela imediatamente.

Agora foi Heinrich que ficou tenso, pude sentir isso com ele sentado ao meu lado, nem sequer precisei ver seu rosto. Pelo amor a minha santinha, quem acreditava nisso? Fato é que, não existia nenhuma mulher no mundo que pudesse me fazer sentir como Heinrich faz.

Quem me dera pudesse me casar com ele, por amor.

— Seria lindo por demai, meu doce. — Foi mamãe que me apoiou e o sorriso apaixonado da vovó me fez perceber que elas poderiam contar com isso.

Ingrid é óbvio que fechou a cara, invejosa como é.

Por fim, foi assim que o almoço terminou, mudamos de assunto e tudo ficou bem por hora. No entanto, Ingrid ainda estava irritadiça comigo, mesmo pouco me importando com ela, sabia que não ficaria por isso mesmo.

Voltamos para o casarão e pude sentir o quanto preocupado o Conde estava em relação à ameaça de um casamento para mim. A essa altura Ingrid deve estar fazendo a cabeça dos meus pais para eles me casarem logo.

— Não vou me casar, Heinrich. Disso você pode ter certeza. — Deixo claro. — Não existe ninguém no mundo que possa me fazer sentir o amor como você faz.

— Icarus, não tem como fugir. Você é jovem, seus pais não se cansarão até que você se case com alguém. — Ele responde com calma, como se estivesse aceitando esse fato.

Heinrich passou por isso, afinal. Foi obrigado casar-se com a Condessa Gina, embora ele gostasse de mim – mesmo que naquela época eu não fosse real.

Não vou viver uma vida assim!

Anos, casado com alguém que nunca vou amar de verdade, sendo obrigado a manter relações sexuais e gerar filhos para manter uma aparência ainda mais falsa do que o casamento? Amando a vida inteira outro homem e desejando estar com ele em cada segundo da minha existência. Não, me recuso a fazer parte de um círculo de mentiras.

Não me condenarei a isso, não tenho direito de nos machucar assim. A vida é curta, rápida e única. E se recebi a dádiva de nascer, mereço ser feliz com quem realmente amo.

— Não! Já disse que não quero me casar, senhor. Vou ficar com você até meu último dia de vida. Entendeu? — Olhei firme para seus olhos e Heinrich percebeu que eu havia tomado uma decisão e que não voltaria atrás.

Era isso. Eu e ele, para sempre.

Nada no mundo me faria mudar de ideia.

Meu Heinrich simplesmente assentiu, mas não quer dizer que acreditava. Era só uma sensação negativa, um medo nosso. Isso não vai acontecer. Quando um não quer, dois não brigam.

— Você não acredita em mim. — Pontuei minha observação, quando nada saiu da sua garganta.

— Icarus, não é algo do qual você possa fugir.

Pensando em como poderia deixá-lo seguro sobre a minha decisão, parados no meio da sala de estar vazia, seguro o rosto do meu Conde com carinho e pego sua mão um tanto grande e levo-a até o lado esquerdo do meu peitoral, a deixo ali, firme. Segurando-a para manter o toque, a fim de que sentisse meus batimentos acelerados.

— Eu juro, de todo coração, Heinrich Vollard. Não amarei ninguém como amo você. — Sussurro, com um nó apertando meu coração e lágrimas beirando meus olhos. — Mesmo que uma desgraça como essa aconteça, nunca deixarei de te amar.

Heinrich vacila quando ouve minha declaração, sua expressão cai, como se ele não tivesse forças para aguentar tamanha a imensidão dos meus sentimentos e abandono sua mão para segurar seu rosto e o erguer diante do meu.

— Você acredita nos meus mais sinceros sentimentos?

Ele não oscila, com firmeza me responde:

— Eu acredito, Icarus, acredito em você.

E me beija.

Sorrindo com nossas bocas coladas, me entrego ao momento, sentindo meu coração brilhar de paixão. Como se tudo no universo parasse para que nós dois pudéssemos desfrutar do simples fato de nos beijar.

Quando beijo Heinrich, sinto metade da minha alma dentro de si, reencontro metade do meu ser.

Eu sou Icarus Campelo, completo.

Meus pais até poderiam me arrumar uma noiva, mas para todas recusaria me casar e ficaria apenas com meu Conde, em segredo. Como tudo deve ser.

— Não importa o que aconteça, nós vamos dar um jeito. Sempre estarei com você, mon petit. — Ele disse, como fazia nos sonhos que tinha com ele.

E como todas as vezes, acreditei.

Quarta, 22 de Março de 1899
Aproximadamente às 16h
Casarão do Conde de Anmak

Não sabia explicar aquela vontade insana dentro de mim. Desde a última vez que tentamos fazer sexo – em que falhei miseravelmente por causa das consequências do que fizemos antes –, vejo e sinto Heinrich de outro modo.

Quando o observo seminu, tenho vontade de transar com ele.

Anseio por senti-lo dentro de mim e até mesmo de entrar dentro dele. Tudo mudou. Daquele dia em diante, não teve um segundo sequer que não tenha tentando me entregar, desejado, imaginado, me tocado pensando nisso e até mesmo me apaixonado por todos meus detalhes de frente ao espelho do meu quarto.

Logo após meus banhos diários, me colocava de frente ao espelho e me admirava nu. Obrigando-me a dizer pelo menos uma coisa que amava em mim, tentando sentir alguma segurança em relação ao meu corpo.

Meu Heinrich deixou claro que me ama como sou, ama primeiramente como sou por dentro e segundamente como sou por fora. Ele aprecia quando agarra minhas gordurinhas durante nossos amassos e as aperta com possessão, me fazendo entender que sou dele, sou lindo assim e todo meu corpo pertence a ele.

Me sentia como brasa, queimando lentamente. Meu próprio reflexo me deixava excitado, obrigando-me a todas as noites pós-banho, pegar a cadeira da minha escrivaninha, colocar frente ao espelho e tocar a parte quente e dura do meu corpo. Suava de tanto êxtase, gemia graciosamente o nome do meu homem, desmanchava-me de puro prazer. Era insano. Sobretudo, libertador conseguir me tocar assim, fazendo-me questionar por que nunca o fiz antes. Esse simples ritual, fazia-me sentir mais desejo por Heinrich.

E com essa evolução, me senti mais seguro, principalmente para tentar coisas novas. Dar novos passos com meu homem. E com isso, naturalmente veio à vontade imensa de o agradar.

Por esse motivo, naquela tarde de céu cinza, assim que levo os visitantes até a saída… corro de volta até o escritório. O Conde está sentado em sua escrivaninha e me ouve entrar.

— Icarus? Não ia preparar o jantar? — Ele questiona, confuso.

— O jantar pode esperar. — Digo aproximando-me de sua cadeira e o puxando um pouco para trás, dando mais espaço para me posicionar à sua frente.

O Conde deve estar sentindo as minhas intenções, com certeza está, já que se apoia melhor no encosto da cadeira estofada e me diz:

— O que você quer?

— Sua gala. — Repondo direto e firme, me colocando de joelhos na sequência.

Seguidamente, minhas mãos afobadas vão até sua calça e desabotoo tudo com rapidez, não tardando a trazê-lo para fora.

— Se vai me chupar, então faça direito, Icarus. Mostre do que sua boca é capaz. — Ele me provoca e o coloco em minha cavidade bucal, se tem uma coisa que gosto é de senti-lo enrijecer sobre minha língua enquanto o tomo devagarinho e o músculo ondula contra as partes sensíveis.

Meu Conde vê estrelas, não contendo seus gemidos roucos e sensíveis, agarrando a cadeira com tanta força que seus dedos ficaram esbranquiçados. Fecho as pálpebras com força para aproveitar tudo e sentindo meu próprio íntimo ficar sufocado na minha calça. Aproveito-o com vontade, deixando explícito todo o meu desenho insano.

Embora ele não possa me ver, sinto seu olhar queimando em mim, atiçando-me, um pedindo implícito para ir além. Quero dar o meu melhor e provar, sobretudo, do que sou capaz.

Faço como lemos nos livros, toco com maestria a parte que não cabe na minha boca e danço a pontinha da minha língua na fenda da parte inchada, tomando direto da fonte o manjar dos deuses, do qual, sinceramente, achava delicioso. Não tinha nenhum ponto negativo, era de fato bom.

— Ah, Icarus, mais fundo! Vamos você consegue! — Heinrich gemeu descomunal, forçando-me, apertando meus fios de cabelo com força e obrigando-me a tomá-lo por inteiro.

Não estava acostumado a tê-lo tão profundo, mas me esforcei aplicando o que tinha me ensinado, colocando a língua ao encontro do céu da minha boca, assim criando uma barreira segura, impedindo que ultrapassasse o limite. Isso lhe deu liberdade para mover o quadril, ele se mexe com vontade, empurrando contra minha língua e gemendo tão alto que fazia-me fisgar.

— Que boca maravilhosa! Você ficou tão bom nisso! — Como amo ouvir isso.

Só por ele inflar tanto meu ego, deixo-o escorregar uma única vez cavidade adentro. Porém é difícil demais, minha garganta se contrai inteira, Heinrich me força brutalmente, enquanto me estrangula. Tudo é muito rápido, meu homem é bonzinho e logo me liberta, sai inteiro da minha boca.

Um fio de saliva liga meus lábios a ele, rompendo-se quando tento recuperar a respiração, meu maxilar dói, mas nada disso importa quando ele está se tocando e gemendo loucamente, se contorcendo com tudo que lhe proporcionei.

— Estou vindo! Ah, Icarus! — Anuncia e prontamente volto a trabalhar dedicadamente.

Não demora para o fazer alcançar o limite abundantemente.

Falho em engolir, o que gerou uma sujeira imensa. Respingou em todo meu rosto, na calça e mão dele. E está escorrendo pelos cantos da minha boca. Mas esses são detalhes que pouco importam, visto que estamos imensamente satisfeitos.

Enquanto ainda se toca, fazendo as últimas gotas escorrerem, passo a língua na parte mais sensível, tomando-as para mim. Em resposta, ele tem espasmos fortes pós-orgasmo e sorri sacana, satisfeito.

— Meu deus, Icarus. Sensacional. — Ele me elogia. E sei que ama fazer isso, só para alimentar minha confiança. — Obrigado, meu amor.

— Estou todo sujo, mas valeu muito a pena, meu Conde. — Eu digo, apaixonado indo até seus lábios para buscar meu beijo de recompensa.

E ele me retribui com vontade, ainda respirando afobado na minha boca. Seguro seu rosto, encaro sua íris escura enquanto o ósculo suave acaba. Heinrich tem uma beleza inumana, tão bonito que não parece real. Às vezes, começo a pensar que tudo isso é um sonho. Minha imaginação cria esses cenários só para me iludir.

— Vou me limpar e, depois, o que você acha de irmos ao porão procurar pelos quadros? — Sugeri.

Nossa ida a Anjou estava se aproximando e com isso os planejamentos de nossa viagem foram se cumprindo. O barco já estava garantido, vamos passar cerca de duas semanas velejando, considerando que era possível ocorrer vários atrasos. Devido a isso, tínhamos que sair de Anmak com dias de antecedência. Tínhamos malas para organizar e sobretudo os quadros antigos – que Heinrich pintou a sete anos atrás, antes de ficar deficiente – para escolher e por fim determinar quais seriam leiloados em prol de ajudar o orfanato de Vivienne.

— É uma ótima ideia, pequeno. Encontro-te daqui a dez minutos, combinados? — Ele pergunta e seguidamente me dá uma mordidinha na bochecha. — Vou ficar com saudades do meu bebê.

Caio na risada o abraçando com força. Nunca fui tão grato a Caetano e Dalva por ficarem tanto tempo longe de casa. Esses dias têm feito tão bem para nós, temos aproveitado ao máximo nosso tempo sozinhos. Embora ainda não tivéssemos feito aquele sexo de novo. Entretanto, não se engane, estamos aproveitando muito do nosso jeitinho, com mãos bobas, bocas sedentas e corpo sob corpo.

— Vai ser só alguns minutinhos, meu amor. Prometo. Seu bobinho! — Digo risonho, antes de me afastar dele. — Consegue chegar ao porão sozinho?

— Consigo. Se eu não conseguir te encontro no corredor. — Ele diz, concordo e finalmente saio correndo até o lavabo para lavar meu rosto e me livrar do que me deixou sujo.

Em seguida acendo uma lamparina e caminho rumo ao porão, passando pelo meu quarto onde, o corredor em questão, nos leva para uma escadaria ainda mais escura e em seguida para uma porta pesada demais, até range quando a empurramos, fazendo um barulho assustador ecoar no porão. Parece um filme de terror e minhas suspeitas se confirmam quando encontro o porão abandonado cheio de poeira e teias de aranha.

Heinrich já está lá dentro, tirando alguns lençóis de cima de alguns quadros. Não sei como conseguiu chegar até aqui com tanta facilidade e tralhas pelo caminho.

— Como você conseguiu? Quer dizer, você sempre acha tudo com facilidade. — Digo ao me aproximar e o ajudar com os lençóis.

— Acredite, tive muito tempo para mapear a casa mentalmente. No início não foi fácil, mas agora estou familiarizado com os borrões. — Ele me explicou e o deixei prosseguir: — Consigo distinguir algumas coisas, se elas tiverem cores fortes ou, claras, principalmente. Não vejo com a clareza necessária, mas consigo associar com minhas lembranças nítidas e principalmente com o mapeamento que fiz ao longo desses anos que me tornei praticamente cego.

— Você é tão esperto, senhor. — Sorrio imenso, uma das coisas que admiro em Heinrich é sua inteligência, seu talento nato, toda a criatividade de tirar o fôlego.

Aí, minha santinha, estou totalmente rendido a esse homem.

— Você acha, é? E devo confiar em você para escolher os três quadros que irei leiloar? — Quando sugeriu, meu queixo caiu, não por causa da seriedade do pedido e sim pelo fato de que os quadros dele estavam diante de mim.

Em cores, tons, vida e a mais sincera, pura e surreal habilidade de pintura. Heinrich era um artista, senão uma própria obra de arte.

Ele pintava telas incríveis, era pura vida. Heinrich era um apreciador da natureza, a forma que ele fotografava as cenas com tanta fidelidade. As cores vibravam. Davam vida à mais bela imagem. Não sabia dizer se a realidade era mais bonita ou a tela superava. Meio que ambos eram igualmente incríveis.

— O que foi? Ficou calado, de repente.

Definitivamente estava sem palavras. Até meu coração acelerou, era muita beleza, muito talento.

— Eu amei as montanhas, as flores e o vulcão. E o detalhe adorável da silhueta de Florianópolis. E acho que o mais encantador é a baleia, um tanto solitária, mas tão bonita. Certamente você soube expressar o tão singela é o casarão e sua construção antiquada. Você é tão atencioso, Heinrich. Através dos mínimos detalhes te vejo tão nitidamente. Mas… — Meu coração para, definitivamente tudo para, quando afasto as telas para ver o que tinha de ainda mais impressionante. — Heinrich…

— O quê? — Ele perguntou assustado, tateando o escuro a minha procura. E quando me encontra, aperta meu braço com firmeza, desconfiado das minhas palavras.

— A praia. Nossa praia. — Aponto, pegando o quadro em minhas mãos para ver de perto.

Eu estava tenso, tremendo diante do que estava em meus olhos com textura de tinta e cores incríveis. Ali estava o sonho dele, descrito fielmente, pincelado em uma tela. Eu, na árvore, embora pela distância não haja características do meu rosto, mas os fios de cabelos são claros, estou usando branco e me encontro parado debaixo da grande árvore da área restrita. No entanto, Heinrich pegou a árvore e colocou-a na nossa praia, fazendo o cenário perfeito da nossa história de amor. Estava nítido e desenhado, o sonho de uma noite febril, a vontade de me ter sem saber sequer quem sou.

Nunca foi uma invenção. Era verdade. Tudo que ele disse, tudo que compõe nossa história, é verdade!

— Sou eu. Seu Icarus. No seu sonho. — Meu maxilar treme e as lágrimas que encheram meus olhos cedem, escorrendo por minhas bochechas, uma atrás da outra transbordam por meus olhos. — Você me eternizou com tinha. Fizestes da minha mera existência, arte… — Balbuciei, desacreditado.

Eu sou uma arte. Minha santinha, ele me transformou em uma obra-prima. Mesmo quando possivelmente sequer tivesse vindo ao mundo. Eu já existia muito antes de nascer. Heinrich é a razão para eu existir. Ele me implorou. E aqui estou…

Se isso não é prova de que Deus e o destino existe, não sei mais para quem orar todas as noites.

— E-eu… — Ele não soube o que dizer naquele momento.

— Heinrich? — Chamo-o e tenho seu olhar sobre mim, ainda preocupado. Juro que dá para ouvir nossos corações, em meio ao caos da felicidade que me consome. — Eu te amo tanto.

Estava ali, diante dos meus olhos. A verdade sobre nós. Nesse dia não me restou mais dúvidas. Amo-o, de verdade, com todo meu coração, com toda minha alma. Amo seus defeitos e suas qualidades. O Conde sombrio assim como o cheio de luz.

Eu o amo.

Tão singular, tão eufórico.

Amo meu Heinrich, tanto que chega a doer no meu coração.

Dou-me conta que é dele que quero ser, quero ficar com ele e lutar por ele enquanto  estiver vivo. Não me importava se era um crime, se era errado, se nos mataria. Eu vou viver a minha verdade. A pureza de nossos sentimentos é indescritível. Faria de tudo por esse homem. Amo Heinrich por tudo que tem dentro dele e o que tem fora é só a cereja do bolo, a qual adoro igualmente.

Deixo o quadro de lado para abraçá-lo com força, sendo retribuído com a mesma intensidade. Não esperava que ele fosse desabar em lágrimas também, mas Heinrich chora de verdade. Chora sentido, me apertando com tanta força.

Havia dor.

Mas também havia felicidade.

— Eu queria tanto te ver, Icarus. Queria tanto ser inteiro. Pois é isso que você merece, um Heinrich inteiro. Mas eu… Sou só o resto de uma tempestade que destruiu tudo. Uma chuva torrencial de verão.

— Não, não, não. Não diz isso. Nunca mais. — Choro, negando e ordenando que pare de dizer isso. — Você não vê, Heinrich? És inteiro para mim. Meu amor, você é perfeito. Não importa o que tenha acontecido. Heinrich Vollard, você é a minha metade. Eu te amo. Eu te amo de verdade. Heinrich, eu te amo. — Segurei seu rosto, encarando profundamente seus olhos e disse com tanta certeza, esperando que pudesse por fim se convencer da única verdade dentro de mim.

Quando amamos, é por completo. Não tem como amar meia pessoa. Como poderia dizer que o amo e não compreender seus piores erros? Que tipo de amor seria, se eu só o amasse quando fosse bom? Eu o amo verdadeiramente, porque o amo quando está triste ou enraivado também. O amo quando todas suas cicatrizes sangram. Se isso não é amar, amor nunca existiu.

Gosto dele com todas as minúcias, é isso que torna ele, tão ele. Meu Heinrich é tão perfeito para mim. Com ou sem seus olhos. Com ou sem cicatrizes. Com as mãos cobertas ou nuas. Com todos esses fantasmas dançando a nosso redor. Em seu corpo físico ou em pura alma. Só tem que ser ele, para que eu o ame.

Nos beijamos por horas e entre os intervalos conseguimos escolher os três quadros. Quanto a tela que ele me pintou, este presenteou-me, prometendo que um dia teríamos nossa própria casa e ali ficaria pendurado.

Era uma pena que o meu Heinrich não pudesse pintar novamente, realmente tinha talento para isso. Mas também era lindo ver todas as obras mais sinceras que já fez. A boa notícia é que esse quadro teria um destino, enfeitaria a parede de alguém e melhor que isso é garantir conforto para um órfão. Meu Conde estava imensamente alegre de doar suas obras para ajudar crianças carentes. Finalmente o mundo veria um pedacinho do seu talento.

Naquele dia, não nos tocamos sexualmente ao dormir. Apenas ficamos paralisados quando deitamos, apreciando a existência um do outro e perplexos com o universo, e o incrível acaso em que fomos colocados.

E ainda há quem diga que destino não existe.

[dias atuais]

Quinta, 23 de Março de 1899
Aproximadamente às 9h
Casarão do Conde de Anmak

Isso é real. Estou respirando, isso deve significar, definitivamente, que estou aqui. Com as palpitações aceleradas, à beira de um colapso ardente, a alma apaixonada que não consegue parar de admirar a obra de arte que é meu Heinrich. É que meu coração queima e glorifica numa luz intensa quando o vejo. Perco até o fôlego e preciso relembrar como é que faz para respirar.

Estou pronto para escrever sobre o verdadeiro amor.

Deixarei meu sopro vital fluir enquanto eternizo as palavras nas páginas amareladas. Minha alma incendeia, como o fogo que escapou de uma fogueira e incendiou a pobre floresta.

De repente, como se não fosse o suficiente o combo de sensações que explode dentro de mim nesse momento; meu corpo flutua quando ele se vira na minha direção, abrindo seu lindo sorriso que me deixa bobo.

— Sei que está aí, anjo. — Heinrich sorriu na minha direção, aquele belo e imenso sorriso quadrado. Já não me assustava o fato dele conseguir sentir a minha presença, fico até admirado por saber que sou eu.

— Você é tão bonito, senhor. — Suspiro, quase sem ar. — Não posso deixar de admirar sua beleza mesclada as cores do outono.

Ele usa um sobretudo marrom estampado com xadrez de mesmo tom bonito, o pano é grosso conforme é necessário para protegê-lo da brisa fresca. Seu cabelo está maior, o que deixava seu adorável mullet mais atraente e para completar a barba rasa sobre seu rosto fechava tudo com uma sensualidade de tirar o fôlego.

Meu Conde, fizestes constantemente meu coração disparar. Você faz o escritor dentro do meu ser desabrochar.

Não estou certo que ouviu o que lhe disse dessa distância, portanto, caminho até ele que ainda sorri para mim enquanto meu borrão diante de seus olhos se torna mais próximo e consequentemente mais nítido.

— Estou aqui. Estou pronto. — Confessei ao Conde assim que o encontrei por entre as árvores seminuas do pomar do casarão.

Hoje no café da manhã, logo após o dia que nos emocionamos ao encontrar os quadros do porão, ele me pediu para encontrá-lo aqui, pois tem algo a me dizer.

E a curiosidade me deixou insanamente desesperado, fazendo-me lavar as louças do café da manhã às pressas para finalmente correr para alcançar meu casaco azul e vir encontrá-lo. Dalva e Caetano estavam a caminho de volta para o casarão, portanto, essas eram nossas últimas horas sozinhos.

— Sim, você está. — Constatou por alto, meio inquieto. Inicialmente não pude compreender suas intenções. Ele parecia muito nervoso. — Quer fazer uma caminhada comigo? Faz tempo que não fazemos isso.

— O Senhor costuma evitar dias frios já que sente muita dor. — Quanto mais frio ficava, mais o clima fazia Heinrich sentir dor em suas cicatrizes, suas mãos e costas eram as que mais doíam. Ryu se queixa do mesmo, dizendo sentir isso em sua mão “fantasma”.

— Posso aguentar um pouco para ter esse momento com você. — Ele respondeu, sorrindo galanteador. Como sempre, não me surpreendia que fosse capaz de acelerar meu coração dessa maneira.

— Tudo bem, vamos caminhar. — Concordei e cruzei meu braço ao dele, assim era mais fácil de andarmos juntos.

Caminhamos em direção ao bosque onde poderíamos pegar a trilha até o segundo lago da propriedade, mais ao fundo e próximo à clareira. Alguns pássaros nos acompanhavam, pulando de galho em galho, fazendo um farfalhar suave soar quando algumas folhas secas desabavam por entre os galhos e até mesmo alguns gravetos descolavam da madeira e iam ao chão, espatifando-se.

Me entregar ao meu chamado de escritor, fazia-me ver o mundo com outros olhos. Uma visão apurada e ultra especial que me permitia narrar mentalmente os melhores detalhes. Nada passava despercebido por meus olhos famintos.

— Notei que tem escrito. — Heinrich pontuou, tentando puxar assunto.

Às vezes, esqueço o quanto observador ele pode ser, mesmo sem enxergar.

— Ah… sim, sim. Tenho encontrado inspiração para escrever meus próprios romances. — Revelo, animado. — Eu não sei, é como se…

— Se a sua alma tivesse encontrado algo do qual nasceu para fazer? — O Conde riu baixo, animado. — Sei muito bem como é esse sentimento. Fico tão feliz por você, meu pequeno. Você tem um dom.

— Será? Bem… não chamaria de dom ainda, é mais um passatempo. Um desabafo da minha alma. Ou uma visão detalhada do mundo. — Tento explicar.

— Não é um dom ver o mundo assim? Eu chamo isso de escritor, Icarus. Colocar seus sentimentos no papel é uma arte, uma dádiva.

É um bom ponto, concordo com ele. Mas ainda não me sinto assim, como se fosse um escritor. Só estou explorando o que tenho sentido. Me deixando levar.

— Na verdade, não sei, senhor. — Respondo, sinceramente.

— Bom, na verdade, precisaria ler para ter certeza. E eu, verdadeiramente, adoraria ler seu romance, Icarus. — Heinrich parou e virou-se para mim, ficando frente a frente. — Você me daria esse privilégio?

Agora ele me pegou de surpresa. Não pensei em compartilhar minha escrita com ninguém, nem mesmo com o Conde. Era uma possibilidade claro, mas…

— Não me sinto preparado ainda, senhor. Não que não queria te mostrar, o privilégio seria meu. É que… Eu não sei… — Respondo meio envergonhado, apertando minhas mãos unidas na frente do meu corpo.

— Você ainda não está preparado. — Heinrich complementou. — Entendo perfeitamente, Icarus. Eu sou um escritor também. Sei do processo e como se sente. E posso esperar o quanto for necessário.

Solto os ombros relaxando, não queria que ele me entendesse mal. Portanto, fico tranquilo por saber exatamente como me sinto. Na verdade, em relação a isso, fico fascinado por ele. Afinal, ele entende-me melhor que ninguém, ás vezes até melhor que mim mesmo. Heinrich tem uma compressão dos deuses em relação a qualquer coisa relacionada a mim.

— Obrigado, senhor.

— Não precisa agradecer. — O Conde sorri e em seguida solta os ombros num suspiro um tanto preocupado, deixando-me apreensivo. Parecia querer dizer algo e não estava conseguindo.

— O senhor me chamou aqui por alguma razão, não foi? Está estranho. Está tudo bem? Quer me dizer algo? — Disparei, tentando ajudá-lo seja no que for.

— Sim… E-eu… Eu quero dizer-te algumas coisas. — Heinrich finalmente confessa e fico paralisado. — Se lembra quando fui até a igreja atrás de você? — Perguntou-me cuidadosamente e apenas assenti, esquecendo-me das respostas verbais.

Como eu poderia me esquecer do dia que soube da minha extrema importância ao Conde de Anmak?

Sua mão enluvada veio até a minha, ele segurou ambas as minhas mãos para prosseguir:

— Muita coisa aconteceu, me sinto um novo homem, Icarus. Acordar com você em meus braços diariamente, tem me feito pensar muito sobre nós dois. Sobre você. Porém, vivemos diante de circunstâncias onde nosso amor não pode existir para a sociedade. Não existe amor no mundo para nós, mas eu… Eu… Eu…

Engoli seco, temendo suas palavras.

Ele? Ele?

Aí, minha santinha! Meu coração está batendo muito forte.

— Eu estou apaixonado por você, Icarus Campelo e esse amor é tão forte que… Só quero que saiba que nós dois não precisamos do mundo lá fora, só preciso de você aqui comigo. Não sou um monstro, Icarus. Sou um homem. Acredito que a minha idade não importa, tão pouco a sua. Estou apaixonado por quem você é. Pelo Icarus aqui dentro, já que não posso enxergar com nitidez do lado de fora. — Ele tocou meu coração, colocando sua mão sobre meu peitoral, enquanto parecia que eu iria desmaiar com tantos sentimentos intensos. — Sou um homem à moda antiga e… bem, não posso fazer de você meu marido. E sou um pouco velho para namorar. Portanto, só quero saber, Icarus, se você quer ser o meu amor? Se você quer ser o meu Icarus, o qual sonho desde que era um moleque. Por que, você é o homem com quem sonhei e pintei. Meus sonhos são tão reais quando acordo ao seu lado todos os dias, é onde quero estar até meu último suspiro. Icarus, é você. Não tenho mais razões para esconder o que sinto. Quero-te tanto.

Seus olhos focaram nos meus e naquele momento quis tanto que me enxergasse que não sei explicar. Mas eu queria, queria muito que visse a minha felicidade transbordando em meus olhos. Era como se aquele muro se quebrasse, o que se formou quando me mandou para casa e passei dias chorando por ele.

Aquele impulso se quebrou inteiro.

Nós limpamos e reconstruímos a bagunça que a tempestade de verão fez.

Sou um novo Icarus. E estou pronto para ser o Icarus dele.

Icarus Campelo está na praia, escalando a árvore, olhando para o oceano. Eu estou estendendo minha mão para ele. Como no sonho que me foi contato. E o desejo ferventemente na mesma intensidade.

— Minha santinha… — É a única coisa que sou capaz de expressar inicialmente, já que estou mudo. Estou completamente pasmo. Não consigo formular palavras. Perdi a habilidade de falar e pensar, meu deus.

Engolindo seco, levo alguns minutos para reordenar meus pensamentos e finalmente prosseguir:

— Heinrich, eu sempre fui seu. Sempre. Isso significa que sim. Eu quero ser o seu amor. Sim, quero imensa e definitivamente ser o seu Icarus. E quero o meu homem. Meu Heinrich vivo. Pelo simples fato de que também estou completamente apaixonado por você.

— Meu Deus, Icarus… — Ele disse e vi as lágrimas caindo de seus olhos. Por tudo que é sagrado, nunca me senti tão feliz assim antes. As coisas estavam acontecendo como tinham que acontecer. — Eu também te amo.

Sim, eu sei, meu Conde. Sempre soube, talvez já soubesse no dia que nos encontramos na área restrita. Sinto na minha alma, todos os dias, quando me olha, me toca, me beija e até fala comigo. Sei perfeitamente o quanto me ama. E eu te amo igual.

Com nossos corações disparados no peito, ele se aproxima do meu rosto e beija-me com vontade, sendo retribuído no mesmo instante, com tamanha intensidade que nos tirava o fôlego. E enquanto sua língua deslizava sobre a minha e minha barriga sofria com calafrios intensos, sinto que vou explodir de tanto amor.

É como se tudo ao nosso redor desabrochasse como a estação que eu tanto adorava. A primavera não vinha até nós, mas nós íamos até a nossa própria estação das flores.

Soube naquele momento, dentro de mim, que estava pronto para entregar-me novamente.

Estava pronto para fazer amor com meu Heinrich de novo.

Não havia mais inseguranças, mágoas ou consequências de nossos impulsos. Dessa vez havíamos percorrido o caminho certo. Um passo de cada vez. A paixão explorada com cautela.

Estávamos apaixonados.

Estamos prontos.

E quando o amor implora para queimar, só nos resta deixá-lo incendiar-nos.

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