CAPÍTULO DOIS
As Pendências da sua Alma
Nos domingos a feira ganhava vida, pessoas de todos os cantos do mundo perambulavam para lá e para cá. Havia mais vendas, mais opções de produtos, mais diversidade de pessoas e a alegria circulava por entre os clientes. Tudo tão agradável, uma mistura de séculos e saberes que estávamos prontos para compartilhar uns com os outros. Mas novamente, fugi do meu principal objetivo para ir atrás de outro.
Não conseguia acreditar que mais uma vez estava no lugar que mais amava em Paris para fazer o que mais detestava, falar com uma cigana, pronta para dizer o que quero ouvir em troca de dinheiro.
No entanto, para nossa decepção, a tenda de Madame Moira havia desaparecido como se nunca tivesse existido, no lugar onde ela se encontrava agora havia um conjunto de barraquinhas que davam vida a uma venda de livros usados.
Parecia até que fora um devaneio.
Acreditaria que tudo foi invenção da minha cabeça se minha amiga não insistisse tanto em ir atrás da verdade. Sobretudo, minha avó era a prova viva de que de fato estivemos ali, diante dela. A feira ainda estava acontecendo, logo ela deveria estar ali.
Já estava prestes a voltar para casa, se não fosse pela insistência de Adèle em buscar informações sobre a Madame. Me encontrava pálida, pensando que tudo isso havia sido um devaneio insano. Foi quando minha amiga conseguiu o que queria. Caminhou até mim com um sorriso imenso no rosto.
— Consegui! — Balançou um pedaço de papel diante de meus olhos. — O telefone de Madame Moira. Agora é com você.
Peguei o papel e encarei aqueles números, uma combinação tão familiar… Mamãe costumava dizer que eu tinha olhos de águia, sempre tão observadora, batia os olhos e como num passe de mágica tudo ficava bem claro para mim, talvez por causa dessa habilidade eu seja tão boa na profissão que escolhi.
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Dia treze de outubro de dois mil e oitenta e nove. O dia que cheguei nessa vida. O dia que Antônia me pariu e Eduardo me recebeu com todo seu amor e histórias para contar.
Aquela sensação familiar se apossou de meu coração enquanto encarava os números, dando mais atenção do que deveria a esse detalhe tão superficial. São apenas algarismos, ou deveria ser.
E de fato, a terra parecia estar fora de eixo, as coisas das quais sabia que havia explicação científica era passado, tudo agora parecia derivar de uma fantasia.
Os números de Madame Moira correspondiam à data em que nasci.
Não era coincidência demais?
Após isso, Adèle e eu voltamos para casa e durante todo o percurso dissemos poucas palavras uma à outra. Na verdade, estava um tanto em choque ainda. Minha vida estava se virando de cabeça para baixo. Mas pelo menos pude sentir alívio, por saber que Madame Moira é real, não havia inventado aquilo.
Levou algumas horas para que finalmente criasse coragem de discar aqueles números, trancada no meu loft no centro da grande Paris. Ali, onde passo a maior parte dos meus dias e noites quando não estava viajando a trabalho, atualmente tentava me convencer de que não estava louca.
Tentava deixar aquela emoção dentro de mim me guiar para aquela decisão de procurar a cartomante para resolver essa pendência com o meu passado.
Minha mão estava trêmula de forma que mal conseguia tocar nos botões do ecrã, poderia simplesmente pedir para que minha assistente virtual o fizesse, mas queria discar eu mesma, para ter certeza da realidade de toda essa situação.
E para minha completa perda de sanidade, o telefone foi atendido no primeiro toque.
— Estava esperando sua ligação, Icarus Campelo. — Disse ela, Madame Moira, tão assustadoramente mágica como era.
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Domingo, 15 de Janeiro de 2113
Aproximadamente às 20h
Rue de Bellechasse, Paris, França
Juro, estou tentando ignorar a imensa vontade de dar meia volta e correr de volta para a vida usual que costumava ter antes do meu caminho cruzar-se com aquela tenda. Mas aqui estou, indo em direção a ela, uma vidente disfarçada de destino, Madame Moira.
A curiosidade nos leva a caminhos dos quais possamos nos arrepender amargamente, mas neste momento não consigo me arrepender. Não até ter as respostas, consequências e arrependimentos das escolhas que fiz.
Caminhei pela estreita rua observando atentamente, procurando as referências que a Madame me passou pelo telefone. Não foi difícil achar. Exatamente como ela havia me explicado entre a loja de souvenires e um hotel havia uma porta aleatória de madeira antiquada, cravada com um símbolo, o encontro da lua e do sol. Aqui é a onde a Madame se esconde, onde só quem ouve sobre ela consegue chegar, já que seus clientes eram limitados, não podia simplesmente panfletar seu trabalho por aí. Os ciganos nunca foram muito bem aceitos na bela cidade de Paris, chegando até mesmo, anos e anos atrás, serem expulsos. Portanto, imagino que a maior parte dos clientes da Madame Moira sejam turistas.
Assim que me aproximei da porta enigmática, ela se abriu revelando a figura da jovem moça conhecida por seu dom de ler a alma das pessoas que a tocam. Fato é que não podia dizer que a filha da puta era assustadora, por que céus, ela é muito bonita. Madame Moira tem uma beleza inumana, capaz de ferir com a autoestima de qualquer mulher próxima a ela.
Seus cabelos são escuros e salpicados de fios grisalhos – que com toda certeza não é uma característica de idade e sim natural. Era volumoso, desalinhado e sem forma, caindo por suas costas até a altura da sua lombar. Não é necessário comentar novamente sobre a cor única e enigmática de seus olhos, capazes até mudar de cor. E o desenho de seus olhos são tão delicado, dando-lhe um olhar feminino sensível. Sua pele é cheia de efélides que enfeitam-na como um detalhe indispensável.
Ela usava vestidos que lhe apertavam seus seios com um espartilho por cima, como as mulheres de sei lá quantas décadas atrás usavam. Quando a conheci, seu vestido era púrpura combinando com o cenário da sua tenda, hoje está usando azul-marinho. Ela simplesmente não parece pertencer ao nosso mundo. Sem falar no ouro que parece carregar como assessórios. Não se poupava de luxo, suas joias reluziam como o brilho de seus olhos absurdamente claros.
Nada relacionado a ela condizia com nosso atual tempo, era um fato para se acostumar. Atualmente, na modernidade, tudo era feito de vidro e cristais, combinando com branco, um neon aqui e ali, tudo imensamente tecnológico, limpo e moderno. Enquanto ela, com seus tons pesados e madeira para todos os lados, parecia ter vindo diretamente do século dezoito.
Seus olhos friamente claros demais, sorriram para mim, como um convite direito.
Venha e desvendarei a sua alma de cima a baixo.
Sentia como se ela pudesse simplesmente ditar meus segredos mais profundos, apenas com o simples gesto de encarar meus olhos.
— Não é preciso ser vidente para saber que essas olheiras em seu rosto, são nitidamente resultados de uma noite atormentada pelo passado em formato de sonhos. — Disse-me simplesmente, uma bela recepção, não acha? Assustadora como ela é. — Sabia que voltaria. Entre, fique à vontade.
Não conseguia lhe dirigir a palavra pelo simples fato de temer tudo e quaisquer palavras que pudessem sair como resposta de sua boca.
— Não precisa ter medo de mim, Julieta. Só sou uma mulher tão comum quanto qualquer outra desse século, exceto pelo fato de não ter papas na língua e obviamente um estilo não muito agradável. — Riu baixinho, sentando-se na poltrona vermelha no centro da minúscula sala. — Por favor, sente-se.
Indicou o sofá verde-musgo de frente a sua poltrona, havia chá e biscoitos sobre a mesa de centro. Mas estava fascinada demais pelo recinto em que me encontrava, tudo era muitíssimo antiquado, um museu particular, como a casa dos meus pais. Tão belo, tão antigo. Cada móvel, cada enfeite, cada detalhe. Madame Moira por si própria era um museu.
Meu ser atraia velharia, como diz a minha avó. E bem como meus pais também eram atraídos.
Mas o que me chamou demasiada atenção foi o relógio de bolso que estava sobre a estante de livros, não pude evitar, quando dei por mim, estava indo até ele.
— Como você-
— Não toque nisso! — Ela se levantou rapidamente quando estava prestes a pegar o objeto. — Sabia que lhe chamaria a atenção, mas é melhor não tocá-lo. Não agora. A não ser que queira que tudo venha a ruir novamente.
Não sabia seus motivos, mas podia sentir aquele calafrio que parecia me indicar que estava próxima demais de algo poderoso. Podia ouvir um ruído baixo, como se fossem as engrenagens do relógio, chamando-me. Por Deus!
Compreensiva, assenti minimamente sem a questionar, afinal não era para isso que estava aqui. De forma alguma quis ser mal-educada. Depois do que me aconteceu nos últimos dias, quem sou eu para contrariar Madame Moira.
Caminho cabisbaixa até o sofá onde ela me pedirá a pouco para me sentar, minha bolsa foi colocada sobre meu colo, estava trêmula. O que eu descobriria?
— Aceita chá? Não se preocupe, é apenas chá. — Provavelmente ela deduziu que eu suspeitaria que isso não fosse apenas chá, como bem deve estar nítido que não confio em nenhum fio de cabelo dela. Uma acusação grave contra ela, feio da minha parte, mas o que poderia fazer, afinal? Ela me dá arrepios pavorosos. — Quando é que nós passaremos a ter reencontros mais agradáveis, Icarus. — Ela resmungou baixo, só para si, rindo sem graça em seguida.
Fiz-me de tola e fingi que não ouvi, focando apenas em respondê-la:
— Estou bem assim, obrigada. Suponho ser melhor ir direto ao assunto. — As palavras escapavam rapidamente, evitando o contato visual com seus olhos. — Depois daquele dia, minha vida mudou completamente… É como se… Eu não me sentisse mais no meu mundo. Tudo isso é loucura demais, senhora. Os sonhos que me assombram… Só quero entender o que está acontecendo comigo.
A madame tomou um gole de chá enquanto me ouvia, posteriormente, calmamente devolveu a xícara ao pirex de porcelana, na sequência, depositou-o sobre a mesa para finalmente me olhar firme.
— Sua alma é um Eco, Srta. Evette. Tudo sobre você é um Eco absoluto. Nós costumamos dizer que almas como a sua possuem a marca do echo, significa que és uma alma com pendências. — Ela corrigiu sua postura, pegou a xícara e novamente levou até seus lábios. — Também significa que não terá paz nessa vida ou em qualquer outra enquanto não mudarmos o que aconteceu… Enquanto você não responder aos Ecos. Enquanto não evoluir, essa situação tornará a causar um desequilíbrio em sua jornada.
Essas eram as coisas mais absurdamente loucas que já havia ouvido em toda minha vida. Por alguns minutos me mantive calada, peneirando cada palavra. Não estava em posição de contradizer, ou negar tal realidade insana. Estava assustada demais para isso.
— Alguém precisava existir para que você viesse a existir, mas vejamos que é uma artimanha do tempo. Agora sua existência atual clama por algo que está faltando, algo que só vai recuperar se você voltar aonde perdeu isso. Pode parecer louco agora, mas juro que fará todo o sentido quando você estiver diante das respostas. — Ela continuou a dizer, de fato não tinha nenhum sentido. Desisti de entender, como minha amiga me disse: tem coisas que são complexas demais.
Tão complicadas que apenas existem, sem lógica, sem explicação. Precisamos apenas aceitá-las, insanas como são.
Havia um fato que eu não podia ignorar, os sonhos e visões que tive comprovam que o que sai da boca da vidente diante de mim, é verdade. E a odeio por isso.
— É difícil acreditar, você sabe disso, não sabe? Em outra vida, essa vida que citou, é essa que tenho sonhado. Esse nome que teima em me chamar. — Não era uma pergunta ou afirmação, era um fato. Em outra vida fui um homem chamado Icarus Campelo. Nessa vida, não sou um homem, entretanto minha alma é a mesma que a dele. — O que tenho que fazer? Como atender o chamado do Eco? Como resolver as pendências do meu passado? Seja qual for o feitiço que você despertou em mim, quero que pare.
Madame endireitou sua postura novamente e me olhou nos olhos, pela primeira vez não desviei o olhar.
— Para começar, eu não despertei nenhum feitiço, senhorita.
— Só responda logo o que realmente preciso saber. Estou enlouquecendo.
— Você precisa ir até esse eco que ecoa, precisa ir até lá para resolver essas pendências. Não será fácil, tão pouco simples, envolverá coisas, situações, escolhas, pessoas… Morte! E, provavelmente, não terão nenhum nexo. Talvez nunca lhe faça sentido.
Você consegue viver sem uma explicação?
Para todas as minhas perguntas quando criança havia uma resposta. O que é o sol? Do que ele é feito? Porque existe noite e dia? O que é cometa? O que é alma e vida? O que são células e moléculas? O que é tudo?
Para qualquer questionamento que fizesse, meus pais tinham uma resposta, uma explicação científica e verídica. E quando eles não sabiam, nós procuramos juntos, nos livros, na internet, mas achávamos essas respostas. No meu trabalho, também busco com fervor, até encaixar todo o quebra cabeça das histórias de amor que tento descobrir. Entretanto, pela primeira vez na vida, não teria resposta para a série de eventos que me ocorriam.
Para todas as interrogações há respostas científicas e além. Mas não havia explicação para isso que estava diante de mim. Não me restava saída a não ser confiar em Madame Moira e na intuição que queimava em meu coração. As coisas já não faziam sentido há muito tempo, a esse ponto já não consigo lutar contra.
Só me resta rendição e entregar-me ao que seja que o destino reservou para mim.
— E como? Como vou resolver essas pendências se nem sei do que se trata? — Questionei, desesperada.
— Querida, tenha calma. Estou aqui para te ajudar. Primeiramente, precisa respirar. Quando te toquei naquele dia, foi como destrancar uma porta dentro da sua alma. Uma porta que pode lhe desvendar toda a história… — Madame Moira abriu o bule de chá, o vapor quente esvaiu-se para fora. — Olhe… Através da água você verá…
Imediatamente fui até o objeto, podendo ver meu reflexo na água do chá, e surrealmente… Pequenas ondas deslizaram sobre a superfície do líquido e o rosto de um homem se tornou meu reflexo, havia detalhes sutis em sua aparência que lembrava-me a mim mesma.
Senti um arrepio profundo na minha alma. Quem era aquele rapaz? De fios meio-tom, olhos verdes, parecia um anjo.
Anjo, meu pai costumava me chamar assim.
— Quem é ele? — Sussurrei para mim mesma, quase inaudível.
— O que vê é você. — Ela respondeu, simplesmente.
Afastei-me um pouco, estava em choque. Ele era eu? Este é Icarus Campelo, quem foi queimado vivo em minha visão.
Sim, era ele, sou eu.
Estudando história, já ouvi e vi tantas coisas hilárias que não conseguia enlouquecer com tudo que me acontecia e era revelado. Na verdade, possuía uma calmaria intensa para resolver tudo isso que me assombra. Resolver o mistério.
Respirar, lenta e profundamente, é a única maneira que encontrei de não surtar de uma vez.
— Tudo virá em formato de devaneios, seus sonhos são a verdade que precisa saber, é o que te revelará as respostas pelas perguntas que me fizestes. Pode perceber que é como uma linha do tempo, como um livro, capítulos. Uma história. — Madame Moira se levantou e andou devagar até mim, ocupando o lugar vazio ao meu lado no sofá. Sua presença é intimidadora e, ao mesmo tempo, gloriosa. Estava convicta da possibilidade dela não ser um ser humano como qualquer outro. Uma sensação vinda dela me fazia acreditar nisso. — Você tem buscado histórias de amor para escrever e tocar o coração das pessoas, mas o Senhor Destino lhe reservou algo que você jamais esperou. Sua própria história de amor. — Madame sorriu mostrando-me todos os seus dentes. — Chegou a hora, querida. Desvende a sua alma, leia as entrelinhas da sua metade que lhe falta e tudo fará sentido. Se tudo isso está vindo à tona agora, é por que está preparada para desvendar a sua própria história.
Engoli seco encarando seus olhos, naquele momento estava pálida de tanto choque. Mas fazia sentido, podia sentir no fundo da minha alma.
Sou uma amante do amor, do passado, da história… E da forma mais insana possível, alguém, ou, o destino, havia me preparado para isso. Estava diante de mais uma tarefa do trabalho, contudo agora a diferença é que a história é minha. Ou foi um dia.
— Certamente não estou preparada coisa nenhuma, senhora. Mas não é como se isso pudesse evitar que eu vá atrás. Na verdade, esse sentimento é o que me faz mover céus e terras para descobrir. — Respondi sinceramente.
Daria meu melhor para compreender isso. Ela sabe e eu também sei.
— E é por isso que você é uma historiadora, Julieta. Pela sua coragem e sede por mistério. Mesmo que não possa compreender, você anseia tanto que as coisas simplesmente vêm até você. Sua dedicação move as descobertas a seu favor. — A cigana segurou minha mão com firmeza e dessa vez não tive medo e nem fui sugada para uma dimensão estranha. Nenhuma visão me ocorreu. Apenas um toque acolhedor. — Agora vá, descubra, desvende e escreva tudo. Faça um livro da história da sua alma e venha até mim novamente quando estiver preparada para partir.
— Partir? — Arregalei meus olhos em choque. — Partir para onde, Madame?
— Para o passado. Quando tudo mudou e começou ao mesmo tempo. Nós vamos nos encontrar novamente no dia dezesseis de abril de mil oitocentos e noventa e nove. Foi quando nos deparamos pela primeira vez, e te prometi que nos veríamos novamente, porque sou o próprio Destino e para mim o tempo nada mais é uma montanha para ser escalada…
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Dia após dia, acordei após sonhos e mais sonhos intensos que curiosamente tinham continuidade, como se lesse um capítulo de um livro cada vez que dormia. Acordava e ainda me sentia em um sonho, andando de um lado para o outro enquanto contava para as paredes que me cercam o que havia sonhado. Ditava com força e altura, sussurrava as partes mais estonteantes, enquanto minha assistente virtual transformava tudo em palavras, parágrafos e páginas de mais um livro de um romance temporal que me é desvendado.
Eu contava a história de Icarus Campello como se ele estivesse ali comigo, ouvindo tudo o que aconteceu consigo. Como se fossemos amigos. E sobretudo, como se isso fosse salvá-lo.
Havia um entusiasmo dentro de mim, cada vez que sonhava com minha suposta vida passada. Me sentia como meu próprio deus, assistindo o jovem Icarus viver sua vida em Anmak.
— Euli, pesquise sobre Anmak. Temo que esse será o destino da nossa próxima viagem. Provavelmente está situada no Sul do Brasil, se não estou enganada é em Santa Catarina. — Ditei enquanto ocupava a poltrona da minha escrivaninha.
— Senhora, não há nada sobre Anmak. Esse lugar não existe mais… Foi destruída a muitas décadas atrás, uma catástrofe natural, considerando que se trata de uma ilha tão pequena, consequentemente foi engolida pelo Oceano Atlântico. Mas… — A voz suavemente robótica lhe respondeu, soando pelo apartamento.
— Mas…? — Estimulei para ela continuar.
— Em Florianópolis existe um museu que poderá encontrar respostas sobre o que sobrou da Ilha Anmak.
Abri um sorriso de orelha a orelha, eu tinha que responder a um chamado. Meu coração de historiadora estava brilhante feito estrela no céu, uma aventura como nenhuma outra me esperava do outro lado do oceano, em outro continente.
Os olhos de Icarus me mostravam seu passado.
Seguia seus passos com cautela, atentando-me a cada mísero detalhe.
Ele me chamou com fervor.
Implorando-me.
E eu fui em sua direção.
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