CAPÍTULO DOZE
Segredos comprometidos
Você já esteve diante de um momento onde sabia que não deveria estar ali?
Aquele famoso ditado: hora e local errado. O caminho que cruzou sem querer e mudou o seu destino para sempre. A escolha mal pensada. O erro cometido em um momento de impulso. Enquanto aperto a pedra de Bayo em minha mão e assisto minha irmã beijar um homem casado, é assim que me sinto.
Como se não devesse estar ali.
Como se esse segredo não devesse me ser revelado.
E como gostaria de não ter visto, Ingrid. Queria não tê-la seguido, nem visto os dois amantes aos beijos intensos. Arrependo-me de ter brigado com o meu Conde, o deixado sozinho e consequentemente vindo parar diante dessa situação.
Como queria ser menos impulsivo.
E mesmo sabendo do erro, é ali que permaneço, em choque. Tentando entender os motivos que levaram minha irmã a se relacionar com esse homem.
— O tapa foi por mentir para mim, mas o beijo é por eu não resistir. — É o que minha irmã diz quando o beijo acaba. — Estou apaixonada por você. Quero ficar com você, Gilliard. Não consegue entender o quanto dói ver você com ela?
Ingrid… Tudo que consigo sentir é uma grande decepção. Além de pena, visto que ele claramente jamais cumpriria essas promessas.
Cesarini é um homem muito bem casado, sua esposa se chama Brina, ela tentou ter um bebê várias vezes, mas nenhuma gravidez vingou. Lembro disso porque minha avó era parteira antes de ficar doente, por isso, quando ela contava para minha mãe, eu estava por perto para ouvir. Vovó já fez partos memoráveis em Anmak, mas os de Brina conta-se serem verdadeiramente tristes, os bebês nasciam sem vida ou às vezes a gravidez não passava dos primeiros meses.
Muitos surraram que ela é uma mulher com o ventre amaldiçoado, mas são apenas palavras de pessoas insensíveis para machucá-la. Parecia que uma desgraça fora lançada sobre sua vida e a pobre moça fosse destinada a nunca ser mãe. Gilliard nunca a deixou adotar uma criança, sendo assim, a família de ambos resumia-se aos dois.
Brina também é professora, ela dá aulas para as crianças do vilarejo, nos ensina a ler, escrever, desenhar e colorir. E como me lembro do quão doce ela é como uma professora, muito atenciosa e carinhosa. Como se todas aquelas crianças fossem seus filhos.
E agora descubro que ele se aproveita de alguém da minha família. Antes, já não gostava dele por ter o ego inflado apenas por trajar uma farda de General, andando por aí como se fosse o dono do mundo, com seu jeito grosso e impiedoso que me faz querer distância. E agora gosto ainda menos por estar desvirtuando minha irmã.
Mesmo que ela esteja facultando, ainda sim, é errado da parte dele que é um homem casado e deveria respeitar sua mulher. Logo, não cedendo aos caprichos de uma garota qualquer, como é o papel que Ingrid tem feito.
Minha irmã não está raciocinando direito. Se envolver com um homem casado é praticamente um crime para o povo. Ela nunca será respeitada, na verdade, será apedrejada para sempre e exposta como lixo. Ingrid nunca vai se casar, homem algum gostaria de ter uma mulher desvirtuada. E o único trabalho que poderiam lhe oferecer, é uma vaga no prostíbulo.
Suas escolhas e atitudes quebraram sua honra para sempre. Para todos ela se tornaria uma prostituta.
Não quero nem imaginar a decepção no rosto dos nossos pais.
— Você disse que ia deixá-la para ficar comigo e me aparece de mãos dadas com ela no festival! Dá-me sua palavra e, em seguida, a quebra sem pensar duas vezes! Que merda, Gilliard! — Ingrid estava enraivada e apaixonada.
E sobretudo, certamente enganada.
— Querida, você sabe que não é tão simples assim. Estou tentando fazer as coisas do jeito certo. Tenha paciência. — Disse o General, acariciando o rosto da mesma para conquistá-la com sua lábia.
— É muito simples me levar para sua cama, não é, General? Dá seu jeito, não temos tempo para esperar, se livra dessa idiota. — Ingrid era ácida, jamais ouvi minha irmã falar assim antes. Não parecia ser a pessoa que conheço.
Fico magoado, ela sequer me contou sobre isso. Se tivesse me falado sobre o Gilliard, teria aconselhado, teria lhe mostrado que é um tremendo erro.
Enquanto os dois discutiam baixo, vejo uma mulher surgir no fim da rua, ela caminha observando tudo, como se procurasse alguém. Usando um vestido cor de pêssego estampado com flores brancas, com seus fios de seu cabelo loiro presos num coque chique e as pérolas em seu pescoço, reconheço Brina.
A pedra praticamente vibra em minha mão e sinto um desespero sem igual. “Não se meta, Icarus. Fique onde está”, podia ouvir a minha consciência gritando.
Não se meta. Não se meta. Não se meta.
Meu coração ficou acelerado e me encolhi trêmulo escondido entre os arbustos de uma varandinha. Não se exponha. Deixe Ingrid se ferrar. Esse é o destino que ela escolheu. Não se ferre também por conta dela. Uma única vez na vida, Icarus, faça a coisa certa.
Diante da luta interna que travo, cheguei a dar um solavanco, quase me levantando e correndo até Ingrid. Por pouco ignorando meus instintos. Quase cometendo o maior erro da minha vida. É como se eu soubesse que me daria mal caso o General me descobrisse ali.
Com Brina se aproximando, minha escolha foi tomada.
Sinto muito, Ingrid.
Será que foi a coisa certa a se fazer?
No entanto, quando penso que tudo vai ruir, Gilliard sai do beco. Sozinho. Na sequência, dá de cara com a sua mulher. Solto meus ombros, aliviado, olho para a pedra em minha mão e começo a acreditar de fato em seu poder. Se eu tivesse saído para salvar a pele dos dois, entraria em problemas sérios com o General, que não iria gostar nenhum pouco do fato de eu desvendar seu segredo. E quem sabe meu burburinho teria atraído Brina e por fim ela se depararia com a verdade. Não que não queira que ela saiba, mas isso nos meteria em problemas ainda maiores, pois acredito fortemente que a Srta. Cesarini teria a melhor das reações e tão pouco permaneceria calada a respeito.
— Onde você estava, querido? — A professora da escola primária quis saber.
— Pensei ter visto alguém, só estava checando o perímetro. — O mentiroso respondeu.
Naquele momento, me senti péssimo pela Srta. Cesarini, ela não merecia tal humilhação. Queria poder lhe contar que está sendo enganada, se tinha uma coisa que eu não aprovava é o adultério. Se duas pessoas sobem ao altar e juram fidelidade um ao outro, quebrar isso parecia extremamente errado.
Aliviado pelo rumo que as coisas tomaram – embora Ingrid esteja errada, não queria que se ferrasse –, permaneço estático vendo-os caminhar de volta para a feira, mas em determinado momento, juro que Gilliard olhou na minha direção. Não acredito que tenha me visto, mas aposto que sabia que tinha alguém ali, afinal ele é alguém das forças armadas, treinado para isso.
Agora encontro-me preocupado, não sei o que me inquieta mais, eu ou a minha irmã.
Quando o General some com sua esposa, me levanto e corro até o beco vazio, imaginando que Ingrid tenha escapado pela rua de trás. Dito e feito, assim que viro a esquina avisto-a caminhando calmamente de volta para o festival. Apresso o passo para alcançá-la. E dessa vez ignoro a voz da consciência na minha cabeça, deslizo a pedra para dentro do bolso da minha calça e deixo-a de lado. Agora é entre mim e minha irmã mais velha.
— Ingrid? — Chamo e ela finalmente me ouve e se vira na minha direção, surpresa.
— Icarus? O que está fazendo aqui? — Vai logo perguntando, suspeita.
— Você ficou maluca de vez? O que foi aquilo lá atrás? — Minha expressão era de choque e ela também chocada olhou para os cantos ao nosso redor e certificou-se de que não havia ninguém próximo o suficiente para ouvir isso.
— O que você pensa que viu? — Ela perguntou, se fazendo de boba.
— Não penso, vi você se atracando com um homem casado. É claro que vi. Não sou tão bobo como você pensa. E vocês estavam arriscando muito tão expostos assim, a esposa dele estava-
— Cala a boca! — Ingrid bradou brava, sigilosamente se aproximou do meu rosto, sua face esculpia raiva. — Eu deveria imaginar, você é um fofoqueiro mesmo, sempre se metendo onde não é chamado. Desde pequeno me dando trabalho, se metendo no meu caminho. Que inferno, Icarus!
— Ingrid… — Meu sussurro saiu num fio triste, meus ombros caíram em pura mágoa e decepção.
— O que foi? Você acha que vou ficar para sempre bancando a boa irmã enquanto você se esbanjar de luxo na casa do Conde? — Riu debochada, olhando-me com desdém. — Estou cansada de limpar chão, Icarus. E se você não pode fazer nada, saia o meu caminho e deixe que me vire do meu jeito.
Ingrid tem raiva de mim? Inveja talvez? Não tenho culpa se nada de incrível aconteceu na vida dela. Já vi pessoas ambiciosas como Ingrid se ferrarem feio.
É para isso que ela está com o General? Por que ele tem dinheiro, vida boa e influência. Minha irmã é mais baixa do que eu imaginava.
— É melhor você fingir que nunca viu aquilo, Icarus, ou as coisas vão ficar feias para você. Não vou medir esforços para te derrubar se você tentar me atrapalhar, entendeu? — O dedo indicador de Ingrid estava esticado contra mim, ameaçando-me. Ela pressionava-o contra meu peitoral enquanto falava. Meus olhos se encheram de lágrimas na mesma hora, a atitude da minha irmã foi como uma facada que nunca esperei levar. — Ninguém vai estragar o que tem entre mim e Gilliard! Ninguém vai ficar no meu caminho!
— Você acha mesmo que ele vai largar a Srta. Cesarini para ficar com você? Presta atenção, Ingrid! — Minha voz está trêmula, mas não deixo de dizer o que preciso. — Ele só está usando o seu corpo. Te desvirtuando. Depois vai te expor como uma promíscua, sua vida já era. Ingrid, acorda para a realidade!
Ela riu alto, debochando e revirando os olhos. Ingrid me olhou como nunca. Eu estava diante de outra pessoa, esta não é a minha irmã. Não é mesmo. Se for, ela se tornou um monstro.
— Fica fora do meu caminho, Icarus! Você não sabe de nada. — E por fim me empurra, após praticamente cuspir suas palavras na minha cara. Observo suas costas enquanto, enraivada, caminha para longe e me deixa plantado em choque, com o baque de realidade me revelada.
Levou um tempo para me sentir no controle das minhas emoções e ações novamente, comecei caminhando devagar até alcançar a feira, perambulei confuso sem saber para aonde ir, tentando achar meu Conde.
Quem me encontrou foi Ryu que levou-me até o nosso senhorio que estava à minha procura, visto que nós já íamos embora. Não havia me dado conta que havíamos passado a tarde toda ali, logo seria noite e a festa de verão provavelmente continuaria. No entanto, meu senhor não ficaria para a farra.
Quando finalmente vejo Heinrich, ele está prestes a subir na carruagem. Sem pensar corro até ele com meus olhos lacrimejados e o abraço com tanta força que o ouço soltar um arfar dolorido; meu rosto se choca contra seu peitoral e finalmente as lágrimas silenciosas saem, sendo seguidamente absorvidas por sua roupa e sintonizadas aos soluços altos.
— Pequeno Icarus. — Ele diz o apelido fofo do qual tem me chamado. Aos poucos sinto seu corpo ceder, mesmo preocupado, ele me abraça.
Nunca briguei nessa seriedade com uma irmã minha, quando tínhamos as típicas brigas casuais entre irmãos resolvíamos em questão de minutos e eram sempre por motivos bestas. Mas é diferente agora, sinto que o que aconteceu foi muito mais sério.
Nossos laços de amor se desfizeram feito pó.
— Icarus, alguém te machucou? — Ouço a voz de Liana que me faz carinhos nas costas e não quero falar. Se eu abrir a boca, aí sim, vou chorar feito um bebê.
Foi um choque tão grande que doía meu coração, Ingrid era tudo para mim, a melhor irmã do mundo e agora tudo se resume a cacos de um vaso que se quebrou. É como se meu amor por ela, de repente, tivesse diminuído.
— Vamos para casa, lá conversarei com ele melhor. — Disse o Conde já decido. E graças a deus, realmente não aguentava mais nenhum segundo nesta feira.
Me ajudaram a subir na carruagem e fiquei sentado ao lado de Heinrich durante todo o trajeto, todo mundo em um silêncio doloroso, respeitando minha dor. Talvez me julguem como dramático, mas realmente nunca havia recebido tantos sentimentos negativos de alguém da minha família.
De repente, minha irmã não era mais aquela doce pessoa que admirava.
E sim, admirava tanto ela, ainda mais após ter sido abandonada pelo seu primeiro noivo e ter conquistado a confiança dos nossos pais para decidir seu destino por si mesma. Nem todas as mulheres conseguem esse privilégio e Ingrid conseguiu, por fim acabou usando sua liberdade da maneira mais desonrosa possível.
Algumas lágrimas iam e vinham e minha cabeça doía tanto, eram muitos pensamentos para recapitular. Desde as palavras proféticas de Bayo, minha irmã e o General, e depois é claro, a punhalada de Ingrid.
Quando chegamos no casarão, recebo abraços de Ryu e Liana. Dalva aperta minhas bochechas e diz que vai fazer uma sobremesa no jantar para me alegrar. Acabo dizendo para o Conde que quero ajudar Dalva, cozinhar me acalma e com certeza ajudaria a ordenar meus pensamentos.
Ele não se opõe, assim vou direito para cozinha. Durante o processo, acabei não conversando muito com Dalva e faço tudo direitinho para não decepcioná-la ao mesmo tempo que me perco em pensamentos.
Finalmente consigo alinhar tudo, o medo pelo que me foi profetizado, a dor de ser magoado. O que mais se sobressai é a mágoa, por isso após meu banho, vou murchinho para o jantar e fico aliviado quando Jane e Raul engatam um assunto com o Conde, ainda falando do festival. Conversei o mínimo e respondi quando me direcionaram a palavra. Quando terminamos estávamos cansados o bastante por causa da feira que esgotou nossas energias, Jane e Raul são os primeiros a deixarem a mesa e irem para seus próprios quartos.
Por fim, somos apenas eu e o Conde.
— Venha comigo até meu quarto. — Ele diz e fico tenso com a proposta.
Não que espere algo sexual e sim porque o Conde nos provoca isso naturalmente. Sem dizer uma única palavra apenas acato a sua ordem, seguindo-o pelos corredores do casarão, com medo do que isso significava. Durante o pequeno trajeto a tensão era tanta que não estava aguentando. Quando estávamos diante da porta do seu quarto parei e disse:
— Senhor, me desculpe pelo meu mau comportamento hoje. Não queria ser rebelde e nem malcriado. Me perdoe. — E isso o fez parar.
O Conde respirou fundo e se aproximou mais de mim, com uma mão enluvada enfiada no bolso de sua calça e a outra segurando o bastão, ele apenas assentiu firme.
— Está perdoado. — Concedeu facilmente, nossa senhora já estava pensando que ia levar umas palmadas ou algo do tipo. — Me perdoe por ter te machucado e sido tão grosso. E também por ter sido um babaca racista, coisa que abomino completamente. Na verdade, por isso devo desculpas ao Makalani, no entanto… Gostaria que soubesse do meu profundo arrependimento pela forma que os retratei.
Ergo as sobrancelhas surpreso.
— Está perdoado, senhor.
Fiquei aliviado por termos sido capazes de resolver tudo e nos livrar do sentimento horrível que estávamos sentindo antes. Não gosto de brigar com o meu Heinrich.
Houve alguns minutos de silêncio entre nós dois, depois ele tirou sua mão do bolso e, deixando o bastão de lado, tirou as luvas de suas mãos, as deixando nuas. O Conde faz isso quando vai me tocar, agora que já sei como suas mãos são, ele não tem receio de trazê-las até meu rosto e me fazer carinho. E gosto que seja assim, ter o privilégio de sentir sua pele. Aproveito a temperatura e textura, quente e macia. Só o seu toque tão sensível me faz querer chorar de novo.
— Vai me contar o que aconteceu? — É óbvio que ele perguntaria, mas era tão difícil para mim falar, sou tão sensível que já sinto o nó apertando minha garganta. Com o meu silêncio, segurou mais o meu rosto pelo maxilar e aproximou mais o seu para me encarar firme e o fazer olhar também. — Pequeno, se alguém te machucou, preciso saber. Realmente preciso.
Neguei freneticamente.
— Ninguém me machucou dessa maneira, senhor. — Garanti a ele e juro que senti seus ombros caírem em alívio. — Eu só briguei com Ingrid.
Se tratando disso, algo aparentemente tão bobo, ele não disse nada a respeito e deixou de lado, agradeci mentalmente por isso.
— E não gostei nenhum pouco de você se jogando nos braços de tantas pessoas, uh? Sou cego, mas não ingênuo, Icarus. Mongo é um homem bonito, muito musculoso, tem certeza que são só amigos? — O Conde me fez sorrir, ele estava com ciúmes mesmo. Eu achei adorável.
Coloco meus braços ao redor de seu pescoço e o abraço mais forte, colando nossos corpos enquanto sorrio imensamente.
— Você está com ciúmes de mim, senhor? Está achando que já namorei antes de você? — Mordi meu lábio e observei os seus, morrendo de saudades de beijá-lo. — Nunca namorei e você sabe disso. Eu só tenho olhos para você, meu senhor. Só você.
Heinrich parece gostar muito das minhas respostas e ele se aproxima mais e mais, devagar, com cautela, fazendo meu coração disparar. Ignorando o fato do quanto expostos nós estamos ao permanecer parados diante do corredor do casarão. Mas absolutamente não abstraindo o fato do quanto temos saudades um do outro.
Já era hora de um beijo acontecer, eu precisava disso. Depois de todo esse tempo que passamos juntos, com nossas escapadas na biblioteca, é difícil não me apaixonar mais, não o desejar mais. Acredito que evoluímos o suficiente para um beijo finalmente acontecer.
— Me beije, Heinrich. — Pedi afoito, me colocando na pontinha dos pés para alcançar sua boca.
— Você me permite? — Ele foi todo cuidadoso em ter certeza.
— Absolutamente. — Confirmo, é o suficiente para prosseguir.
Ele vem com sede até meus lábios, colando-os com desejo, quase gemo só de alegria por finalmente matar a saudade de sua boca e me entrego mais ao ósculo a cada instante, sentindo nossos corpos se esquentarem enquanto a intensidade aumenta em níveis inimagináveis. Sua língua esbarrando na minha, nossa saliva se misturando, seu gosto me atiçando. E sua boca não para, assim como suas mãos que agarram meu corpo num abraço apertado, traçava um caminho de apertos da lateral do meu corpo até as minhas nádegas e quando ele enche suas mãos com a minha carne e aperta, céus… Gemi abafado sobre sua boca, sem conseguir me segurar.
O Conde chupa meu lábio inferior, o prende entre seus dentes e sua língua viscosa passa sobre eles. Depois sua boca desce até meu maxilar, uma trilha de beijos segue até meu pomo de Adão, minhas mãos vão imediatamente para seus fios que prendo entre meus dedos e guio sua cabeça mais e mais para baixo. Chupões molhados são depositados na pele do meu pescoço e me derreto com cada estalar que sua boca solta quando liberta minha derme. Sua respiração bate contra o rastro molhado de saliva e sinto algo fisgar entre minhas pernas com o combo intenso de sensações surreais. Reviro meus olhos e mexo minhas pernas apertando-as, devido à sensação incômoda e insana que me dominava.
Com um puxão, ele faz nossas virilhas se chocarem e também sinto o resultado do nosso beijo necessitado. Ele também está ficando excitado, talvez essa seja uma boa hora de ir para seu quarto. Estou prestes a sugerir isso quando o Conde volta e cala minha boca enterrando sua língua ali novamente…
— Meu Deus! — É uma afirmação um tanto surpresa que faz nós dois nos afastar com brutalidade, nosso olhar vai de encontro a pessoa paralisada ali no corredor nos vendo meio escondidos no escuro.
É Ryu.
Ferrou. Pegaram a gente no flagra, é isso. Já era. Tudo já era.
Minha vida acaba aqui…
Sinto meu coração disparar forte e acho que vou chorar de novo.
— R-ryu — Gaguejo pasmo, tapando meu rosto com as mãos e sentindo minhas bochechas pegarem fogo.
Isso não pode estar acontecendo!
— Por tudo que é sagrado, vocês precisam ser mais discretos! — Disse Ryu, meio bravo, vindo em nossa direção com determinação. — Qualquer um poderia ter visto ou ouvido isso!
E não é que eu estava cometendo o mesmo erro que a minha irmã, a diferença é que meu Heinrich é um homem viúvo e não me usa pelas costas de sua mulher. Se arriscar assim, comprometia nosso segredo e não só isso, colocava em risco nossas vidas.
— Desculpa, Ryu, vamos ser mais cuidadosos. Isso não vai se repetir. — Foi o Conde que se redimiu e fiquei surpreso.
Ele não está infartando com o fato de alguém nos descobrir? E, porque não? Não fazia sentido algum. Já estava pronto para me ajoelhar e implorar pelo silêncio de Ryu.
— Ryu sabe sobre nós. — Contou-me o Conde quando percebeu a confusão no meu rosto. — Não tem com o que se preocupar.
— Ele sabe? — Arregalo meus olhos para ele. Que capítulo dessa história eu perdi?
— Conversamos sobre isso em outro momento… Icarus, o General Cesarini está te esperando lá embaixo e parece bastante irritado. — Agora entendo porque Oshiro está tão nervoso depois da surpresa após o flagra.
Sinto um frio percorrer minha coluna vertical e arregalo meus olhos, assustado. General Cesarini. O que Gilliard queria comigo? Já podia sentir que era relacionado ao que aconteceu na feira hoje à tarde. Podia presumir tão nitidamente que estava em apuros.
— A essa hora? O que ele quer com Icarus? — O Conde perguntou curioso e me olhou com desconfiança. Em sua expressão podia ler claramente sua indagação. Qual foi o problema que me meti dessa vez?
— Milorde, realmente não sei, ele só disse que é urgente e exigiu falar com Icarus. — Ryu explicou calmamente.
— É melhor eu ver o que ele quer. — Respiro fundo e digo, seja o que for, tenho que lidar com isso.
— Vou com você. — O Conde diz e de imediato alcança seu bastão novamente e juntos seguimos até a sala de estar.
Eu ainda estava bambo pelos beijos intensos e a surpresa de ser pego no flagra, minhas pernas pareciam gelatina e ainda tinha uma sensação incômoda no meio das minhas pernas. Aos poucos, quando descemos a escada e chegamos a sala, meu corpo volta ao normal. E ali está ele, Gilliard me esperando usando um dos seus belíssimos trajes de capitão.
Seu olhar frio cai sobre o meu e assim que me vê sua expressão se fecha ainda mais. De punhos cerrados, ele encara a mim e ao Conde sorrindo sarcástico.
— É claro, me esqueci que é o cachorrinho protegido pelo meu irmão. — Ralhou ácido. — Você não consegue resolver seus assuntos sozinho, Icarus?
— Não tenho nada para resolver com o senhor. — Falo no mesmo tom rude. E não tinha mesmo não.
— Eu quis vir, não é curioso receber sua visita a essa hora, irmão? Ainda mais sendo ela tão específica? Portanto, vamos ser objetivos, o que quer com o meu criado? Afinal, Icarus diz respeito a mim. — Disse o Conde com seu tom excepcionalmente sério.
Gilliard cerrou os dentes num sorriso ainda mais sarcástico e começou a caminhar em minha direção, dizendo:
— Esse pestinha fofoqueiro e intrometido adora ficar espiando os outros pelas costas. Você está sempre metendo o nariz onde não é chamado, não é, Icarus? — Cada passo de Gilliard na minha direção de uma batida falha do meu coração amedrontado. — Acho bom que mantenha sua língua bem quietinha dentro da sua boca, seu moleque intrometido.
Era isso, óbvio que é. O General estava com medo de eu expor sua traição para todos. Ele pensa que sou burro o suficiente de manchar a reputação da minha própria irmã. Se alguém iria conspurcar algo aqui seriam eles dois por si só, não precisam da minha ajuda.
E em seguida, a ficha caí, Gilliard não tinha como ter me visto, apenas ficou desconfiado. Isso me faz concluir, sem sombra de dúvidas, que Ingrid me dedurou. Mais uma vez naquele dia, sinto uma facada da minha irmã nas minhas costas.
O encarei firme, não temendo e nem recuando. Por mais medo que sentisse, ainda era corajoso o suficiente para enfrentá-lo.
— O senhor deveria ser mais discreto, General. Assim não teria de se preocupar que alguém possa descobrir seu segredinho obscuro! Qualquer pessoa poderia ter visto, considerando que cautela é algo que vocês dois desconhecem. Aliás, tenho algo para lhe dizer, deixe a minha irmã em paz, seu aproveitador! — Falei irritado o encarando nos olhos.
Gilliard me agarrou pelo colarinho, puxando meu corpo tão menor que o seu em sua direção, cuspindo todo seu ódio na minha cara.
— Como ousa me desafiar? Você não sabe do que sou capaz, seu moleque desgraçado! — Me ameaçou sacudindo meu corpo e na mesma hora o empurrei com força para me soltar.
— Tire suas mãos de mim, seu imundo! — Gritei o afastando, não aceitando que ele tente me agredir.
Gilliard estava fazendo uma tempestade num copo d’água, quem deveria estar preocupada em ser descoberta é Ingrid, visto que ela é a única que colherá as consequências. O que ele tinha a perder? Além de sua esposa, toda a culpa seria da minha irmã, ela quem ficará com a honra manchada enquanto Gilliard se glorificará em sua roda de amigos. Homens nunca levam a culpa do adultério, as mulheres é quem são sempre umas imundas. É isso que o povo diz. O que estava em jogo para ele que o fez vir até aqui para me ameaçar?
No mesmo instante Ryu apareceu para impedir qualquer atitude ameaçadora desse homem descontrolado.
— Basta! — Foi o Conde quem gritou se colocando na minha frente e enfrentando Gilliard. — Veio até a minha casa para insultar o meu criado diante de meus olhos?
— Nem você e nem ninguém poderá me impedir de dar o que esse garoto fofoqueiro merece! — Gilliard devolveu no mesmo tom. Desacatando seu irmão grosseiramente. — Talvez lhe caia bem perder um pedaço dessa língua enorme!
— Não diga mais uma palavra sequer contra meu criado ou não verá a luz do sol por alguns dias, irmão! — Heinrich gritou, super irritado com as ameaças horríveis. — Isso é abuso de autoridade e, sobretudo, você continua a desacatar o seu superior! Deveria ter vergonha de se chamar de General com esse tipo de atitude ridícula! — O Conde devolveu à altura, tremendo de raiva diante da face de seu irmão mais velho. — Se algo acontecer ao meu criado, garanto-lhe que me implorará por misericórdia!
— Se esse garoto não se metesse onde não é chamado, não encontraria problemas! Mas já deixo avisado que não responderei por meus atos se ele tentar me prejudicar. — Gilliard teimava em me ameaçar. Pelo visto o nosso problema é pessoal, ele simplesmente não gosta de mim.
— Cale sua maldita boca e me respeite! Além de seu Conde, sou o seu irmão mais velho. Seu dever é me obedecer e servir. — O Conde o colocou em seu devido lugar. — Acha mesmo que Icarus tem tempo para sair por aí contando que descobriu sua nova amante? Até sua esposa está cansada de saber suas pérolas. Pobre Brina, insiste em acreditar que você é um homem bom! Nosso pai teria vergonha de um homem que transparece adultério para seu povo!
— Você adora incluir nosso pai nas nossas desavenças, não é, irmãozinho? O problema é que ele nunca se preocupou comigo enquanto estava vivo, quem dirá agora que está morto. — Gilliard sorriu cínico e por fim se afastou caminhando até a porta de saída. — Meu aviso está dado, Icarus. Não pense que meu irmão é capaz de me impedir, como bem vemos, ele mal consegue andar sem uma bengala, sequer enxerga um palmo à sua frente. Um completo inútil!
— Vai para o inferno, seu imbecil! — Gritei enquanto Ryu me segurou no mesmo momento, impedindo-me de correr até esse homem ridículo e lhe bofetear a cara.
Ele podia me xingar do que quisesse, mas não podia dizer essas coisas do meu Heinrich! Não podia mesmo. Um mentiroso, falso, nojento, puto. Se antes eu não gostava de Gilliard, agora o odeio, com toda a certeza. E se eu fosse forte o suficiente, destruiria a cara desse babaca.
— Icarus! Deixe-o. — O Conde disse, como se aquelas palavras não lhe afetassem em nada. — Ele só está de cabeça quente.
Ryu me soltou e foi quando me dei conta de que todo mundo havia presenteado o que aconteceu, certamente a alteração de voz trouxe quase todos até aqui. Na verdade, foram apenas Raul, Jane e Caetano que ainda estavam no casarão. Sabia que não precisava pedir para eles não contarem sobre minha irmã, ou isso comprometeria a mim. Já que a ameaça foi bem clara. Se uma fofoca surgir, serei eu o culpado e Gilliard virá acertar contas comigo.
E mesmo seguindo minha intuição naquele momento, fui dedurado e ameaçado por um erro que pertencia apenas a Ingrid e o General.
Parece que era meu destino ter o General Cesarini como meu inimigo.
— Ele já se foi, vamos todos voltar a dormir, por favor. — Foi Ryu que pediu, depois se direcionou até mim. — Fica tranquilo, já vi ele fazer isso antes. Vai ficar tudo bem. Nada vai lhe acontecer.
Com seu sorriso doce, Ryu me deu um abraço simples e em seguida todos fizeram o que foi pedido, deixando o Conde e eu sozinhos.
— Vamos, precisamos conversar. — E novamente naquela noite, segui o Conde até seu quarto e dessa vez entramos no aposento luxuoso.
Hoje foi um dia cheio de emoções, não queria ficar sozinho, por isso me sinto aliviado de estar aqui com ele. Sento-me sobre a cama de casal, meio de pernas bambas, assumo que tive muito medo quando fui agarrado violentamente. O Conde, guiado por seus instintos, veio na minha direção e se sentou ao meu lado.
— O que aconteceu, exatamente? — Ele quis saber, se referindo ao motivo do surto do seu irmão.
— Eu vi minha irmã na feira, precisava falar com ela, estava seguindo-a para a alcançar, foi quando vi Gilliard indo atrás dela. Fiquei escondido pensando que ela estava encrencada, mas não, ela o beijou. Depois, Brina apareceu no fim da rua e mesmo assim fiquei quieto. Quando Gilliard foi embora a tempo, antes de ser pego, ele não me viu. Mas corri para falar com Ingrid que me tratou muito mal, como nunca havia feito antes. Parece que Gilliard está acima de mim, para ela. — Respirei com calma, me sentindo extremamente triste. — Daí, ela também me ameaçou. E pelo visto me dedurou para o General.
Heinrich passou um de seus braços por meus ombros e me trouxe mais para perto, me abraçando com carinho, beijando o topo da minha cabeça e ficando ali para sentir o cheirinho do meu cabelo. O meu senhor sabe o quanto minha irmã é importante para mim, o quanto essa situação me entristeceu.
— Ele não vai te machucar, mas temos que tomar cuidado. — Alertou-me com seu tom sério, amedrontando-me. — Gilliard é complicado às vezes. Ele perde a cabeça muito fácil. Mas como diz o ditado, cão que late não morde.
Será mesmo? Posso dormir em paz sabendo que Gilliard está odiando-me com todas suas forças? Certamente não, tenho medo. Por Ingrid. Por mim. Por todos nós. E por aquele aviso que Bayo me deu.
É tanta coisa para raciocinar que não estava conseguindo pensar direito.
— Não confio nele. — Respondo calmamente. — E por que Diabos você deixa alguém como ele ser o General do seu povo? Ele deveria nos proteger e não ameaçar!
— Ah, isso é difícil, Icarus. — O Conde soltou um longo suspiro pesado. Parecia realmente complicado. — Meu irmão é ótimo no que faz. Gilliard sempre quis o meu lugar, mas não teve jeito, papai me queria aqui. Quando jovens, brigamos feio devido a sua ambição. Ele chegou a me machucar com uma faca, papai ficou com tanto ódio, mas quando passou, ele foi ouvido e nosso pai selou um acordo com Gilliard. Ele poderia ser o General, se provasse ser digno para tal. Meu irmão se candidatou para o exército e se dedicou com todas as suas forças, se tornou um dos melhores soldados daquela época, consequentemente, conquistou o posto de General de Anmak, impressionando nosso pai. Ele até mudou de sobrenome para não ser vinculado ao Conde de Anmak. Esse jeito estourado dele é desde sempre. De forma resumida, meu pai me fez prometer que Gilliard permaneceria no posto que ele conquistou. É uma rixa do passado. Sou o irmão mais velho. Destinado a ser Conde desde que nasci. Gilliard o filho mais novo e ambicioso. Um típico clichê.
Inveja, é como chamo isso. É exatamente o que Gilliard sente pelo meu senhor, uma ambição dolorosa por nunca estar à altura de ser o Conde de Anmak. E mesmo que ele tenha se esforçado para conquistar um título tão importante, ainda parecia ser uma ameaça para seu próprio irmão.
Saber que um dia ele machucou meu Conde, me deixava com ainda mais medo da sua capacidade.
— Não gosto dele. — Falei emburrado, fazendo um bico enorme e cruzando os braços.
Meu Conde riu negando com a cabeça, em seguida me abraçou novamente, mais forte, segurando meu rosto com delicadeza.
— Dorme comigo hoje, pequeno Icarus? — Ofereceu, para o alívio do meu coração assustado.
O olhei totalmente apaixonado, feliz pelo convite de sua parte. Pela primeira vez dormiria com ele, em seus braços, com seu corpo, seu cheiro. É claro que não havia possibilidade de recusar.
— Sim, durmo. Até todo dia, se você quiser! — Respondi empolgado e o Conde riu novamente. É tão bom arrancar essas risadas dele.
— Só tem uma coisinha. — Ele disse com uma expressão mais sapeca.
— Ah, tem? — Fiquei preocupado, já quase murchando.
— Sim. Não tenho uma camisola para te emprestar, terás que dormir sem roupas.
Mentiroso!
É claro que ele tem. Ou eu poderia muito bem ir pegar a minha, mas entendo sua intenção e proposta. Dormir pelado, juntos. Meu sorriso ficou enorme.
— Safado. — Acusei sério e dessa vez ele soltou uma risada ainda mais gostosa.
— Juro que não vou ultrapassar os limites. Lembro bem do nosso acordo.
— Hm. — Que pena, não é? — Está bem.
Proposta feita e aceita, o Conde se levanta para ir tirar suas roupas e evito olhá-lo quando fica nu, em seguida caminha até sua cama e se esconde debaixo das cobertas. Seguidamente é a minha vez de me despir e faço isso rapidamente.
Quando estou devidamente nu, caminho até sua cama, ocupando o lugar vazio que ele deixou. Mas quando me deito meio acanhado, me lembro que essa era a cama da Condessa e me sinto estranho ocupando seu lugar.
No entanto, Heinrich não me deixa perder tempo com esses pensamentos negativos e logo vem me abraçar, o que me causou um choque imenso de surpresa quando sua pele quentinha encontrou a minha num abraço. Nos ajeitamos na cama e seu peitoral se colou nas minhas costas, ele me apertou, abraçando. Seguidamente senti seus lábios em meu ombro, pescoço, dando beijinhos carinhosos; seu nariz acariciando meu couro cabeludo para sentir meu cheiro.
— Boa noite, pequeno Icarus.
— Boa noite, meu senhor.
E naquela noite sonhei conosco em outra dimensão, a qual eu já havia sonhado antes, fui para onde nos amávamos de frente para uma lareira e ele me chamava tão graciosamente de Petit.
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