CAPÍTULO SEIS

Campos Elísios

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Há um livro de história que conta sobre Anmak e cita as tantas vezes que a península foi atacada. Também conta sobre seu desenvolvimento, o acordo do Conde Vollard I com o imperador Dom Pedro II, do primeiro habitante até a primeira vila e posteriormente a evolução gradual. Anmak possui uma singularidade, seus habitantes vieram para cá de livre e espontânea vontade, encantados com as histórias e propostas que Tyrone contava sobre sua ilha em território brasileiro.

A família Vollard é de suma importância para a corte real de Dom Pedro II, por isso conseguira tão facilmente a confiança e permissão para gerenciar o local. A nossa ilha é sobretudo marcada pela diversidade de pessoas vindas de todos os cantos do mundo, e a melhor parte é que os Vollard não compactuavam com a escravidão, portanto, Anmak era um refúgio para alforriados que, finalmente libertos, puderam dar início a uma vida digna.

Em sua história ressaltamos o orgulho pelo nosso tesouro: nossas plantas medicinais, que prometiam a cura de diversas doenças. E se tudo desse certo, expandira-se para outras pessoas lá fora. Mas quando o inimigo escolhe nos atacar, compromete tudo, até mesmo a chance dessas plantas salvarem as pessoas.

Tantas vezes, muitos de nossos heróis e habitantes saíram machucados e até mesmo mortos, mas em nenhum dos livros que li na escola contou a verdade sobre o Conde que se sacrifica pelo seu povo.

Enquanto sigo-o pelos cômodos extensos da casa e igualmente cheios de beleza, sofisticação e arte; olho para suas costas largas sustentando sua postura invejável e sinto orgulho do meu Conde. E, ao mesmo tempo, meu lado curioso me devora. Eu queria descobrir a verdade sobre o que aconteceu com ele. E quando vejo Ryu com sua mão mutilada, penso se a coincidência não se refere a uma desgraça em comum.

O Conde me guia até seu escritório e é como se encontrasse-me em um paraíso particular bastante familiar, havia estantes enormes que cobriam todas as paredes e estavam transbordando livros. E para mim aquele era o único tesouro que me chamava a atenção naquela sala, mas certamente não era o que chamava a atenção do meu senhorio.

— Tenho uma missão para você, Icarus. Muito importante. Tem algo que as pessoas não sabem sobre mim, e tenho certeza que posso confiar meu segredo a você. — Heinrich começou a dizer, me forcei a não olhar para os livros e sim para ele. — Eu sou um escritor. Na verdade, sou muitas coisas, não me limito quando se trata de criatividade. Eu já pintei, já esculpi, mas agora não me resta mais tantas opções. Não há nada que eu possa fazer com maestria tendo as minhas mãos tão defeituosas quanto os meus olhos.

Ele caminhou até uma das escrivaninhas do aposento, parou diante dela e tocou suavemente uma espécie de máquina com teclas. Era verde, com a palavra Underwood gravada na cor dourada.

— Já viu uma máquina de escrever antes? — Ele perguntou mirando sua atenção em mim.

— Não, senhor. Para que serve? — Minha curiosidade começou a aparecer.

— A máquina datilográfica é um equipamento mecânico equipado com teclas que, quando acionadas, movimentam tipos, que imprimem letras, números e símbolos no papel, facilitando e dando maior agilidade ao processo de escrita. — O Conde parecia um tanto animado em falar sobre isso. Achei a máquina fantástica, não precisamos escrever tudo na mão. — Essa é uma das mais recentes fabricadas com um mecanismo muito melhor. Infelizmente não é de todo perfeita, temos que datilografar “às cegas”, porque o mecanismo tampa o papel e não é possível ver o que digitamos.

— Parece fantástico, senhor. — Fui sincero exibindo até empolgação na minha voz. — Basta colocar o papel e apertar as teclas?

Tomei a liberdade de me aproximar, realmente tinha todas as letras do nosso alfabeto. Ele deve ter reparado que despertou minha curiosidade.

— Exatamente. Essa é uma das coisas que quero continuar fazendo, mas que só é possível de se realizar com sua ajuda. — Ele pontuou. — Preciso que você seja meu datilógrafo.

Uau.

Eu seria um datilógrafo.

— É claro que aceito, meu senhor. — Ele não perguntou se eu queria, mas já estou deixando claro.

Heinrich esboçou um sorriso pequeno, apenas esticando os lábios. Pelo visto é difícil ver ele sorrir sincero. Mas já está ótimo, é um começo excelente.

— No entanto, é preciso que tenha mente aberta para o que gosto de ler e escrever. — Disse, indo até uma das estantes de livros. — É por isso que contratei um jovem, você ainda não está alienado como os de idade. Acredito eu, mas posso estar enganado.

Mente aberta? Alienado? Não entendo o que ele está dizendo. Mas suponho que seja normal não entender tudo que ele fala.

— O senhor pode me confiar qualquer segredo. — Deixei claro, eu era muito bom nisso, na verdade. — E sobre o que meu senhor gosta de escrever? Que histórias conta em seus livros? — Curioso, perguntei.

O Conde agora deu um sorrisinho sarcástico e fitou a prateleira.

— Eu escrevo sobre o amor. Mais especificamente romances. Mas não quaisquer novelas como os quais está acostumado.

— Na verdade, não estou acostumado com nenhum tipo de romance, meu senhor. Quer dizer, já li um único livro na vida, o qual sequer sei o nome. — Contei para ele.

— Ótimo! Antes de escrever, você vai ler para mim. Eu passava horas lendo e relendo os meus livros, após ficar cego, isso nunca mais aconteceu. Sinto falta de pertencer a outros mundos e histórias apenas lendo. — O Conde dizia tudo com tanta diferença, ele não é como as outras pessoas que já conheci, é diferente.

— Vou ler para você, senhor. Talvez eu tropece em algumas palavras, mas darei meu melhor.

Me encontrava tão ansioso para isso. Tem noção de quantos livros poderei ler por causa dele? Agora mais do que nunca, estava convicto que naquele dia no laboratório o Conde me salvou.

— Primeiramente quero te apresentar minha casa e depois podemos começar alguma leitura. — Ele disse já saindo do escritório e eu no seu encalço.

Ele me mostrou tantas coisas. Mais empolgado em me falar sobre cada obra de arte presente em sua casa. Elogiando seus artistas favoritos como Leonardo da Vinci, Van Gogh, Sandro Botticelli, Donatello, Michelangelo, Rafael Sanzio e dentre outros que não consegui gravar o nome.

Mostrou-me seu quarto e até o quarto de sua filha, Jane. Um nome muito familiar para mim, mas que achei bem bonito igualzinho ela, que possuía uma pintura ao lado de seu pai no corredor de quartos. Também me apresentou o ateliê da falecida Condessa. O nome dela era Gina e até que ele conseguiu falar dela sem parecer desconfortável. Posteriormente, me levou até a cozinha onde Dalva passa a maior parte do tempo, após fomos para fora da casa onde conheci os jardins, as plantações, e as casas dos criados no fundo do terreno. Uma casinha simpática é de Dalva e Caetano, a outra é do Ryu.

Depois ele me esperou lá embaixo e subi a pedreira. Minha santinha… Eu vi tudo! Toda a nossa ilha e o mar infinito que a circula, se eu apertar bem os olhos consigo ver também a silhueta de Florianópolis lá no horizonte.

Após descer, caminhamos um pouco pelo bosque e ele me apresentou outro lago em sua propriedade, um ainda maior do que aquele na entrada de sua casa.

Quando o sol começou a se pôr, tivemos que voltar para o casarão. Dalva já havia preparado nosso banho, Ryu me ajudou, mas fiquei morrendo de vergonha de ficar pelado perto de um desconhecido. Por isso, ele me deixou sozinho e me lavei no ofurô. Era a primeira vez que tomava um banho tão bom assim, lá em casa ficávamos em pé na bacia e jogávamos a água. Era rápido, simples e frio. Mas aqui, posso relaxar dentro da banheira gigante e aproveitar ao máximo toda a água morna.

Quando acabei de me deliciar com o banho, me vesti para o jantar assim como me foi designado. Sozinho, fui até a sala de jantar, Ryu me instruiu assim. Só podíamos jantar quando o Conde terminava sua refeição, até isso acontecer, ficávamos a disposição dele.

A mesa estava composta por uma simples organização e apenas um prato. Criados não comem com seus senhores e sim na cozinha após a refeição deles.

O Conde veio, se sentou e Dalva começou a servi-lo. Enquanto isso, fiquei parado ao lado de Ryu na posição de servo.

— Dalva, coloque mais um prato à mesa. — De repente o Conde disse. — Quero que Icarus coma comigo.

Meu corpo petrificou inteiro e vi o choque no rosto dos outros dois ali presentes. Me senti desconfortável, afinal eles eram criados como eu. Não me sentia merecedor de comer com o Conde e se eu era digno, eles também são.

— Sim, Milorde.

Dalva foi até a cozinha pegar o meu prato e Ryu me deu um leve empurrãozinho. Eu o olhei em choque e ele sussurrou: “vai”. Tremendo inteiro, aproximei-me da mesa.

— Onde gostaria que me sentasse, senhor? — Perguntei para ter certeza que estou fazendo suas vontades direitinho.

— Aqui, perto de mim. — Ele apontou para a cadeira em questão e imediatamente ocupei meu lugar, Dalva colocou o prato e talheres diante de mim e os encarei um a um. Uma colher, um garfo e uma faca. É muito utensílio para só comer uma refeição. Não sabia usar tudo isso. — Você precisa aprender as etiquetas. Nós vamos jantar com pessoas importantes, Icarus. E vai me acompanhar em meus afazeres.

Ah, entendi. Ele estava certo, não sabia sobre as etiquetas dos ricos. Mas o que mais me preocupou, não foi o fato de comer com educação, e sim o fato de que terei que estar diante de assuntos importantes e pessoas importantes acompanhando o Conde. Definitivamente não me acho apto para isso. Contudo, não tinha como me opor. Esse é meu trabalho.

— Sim, senhor. Irei me esforçar para aprender.

— Observe-me e repita. Se não der certo contrataremos uma professora de etiqueta. — Disse o Conde e seguidamente Dalva servia meu prato, hoje ela cozinhou Eisbein[1]e aparentava estar delicioso.

Ao favor do Conde, havia os talheres posicionados em uma ordem padrão, portanto ele sabia muito bem onde estava cada coisa e conseguia comer com tranquilidade. Já faz um tempo que não tem mais sua visão cem por cento, concluo que está acostumado com certas coisas, como o fato de conseguir comer. E como bem entendi, ele não perdeu completamente sua visão, por isso conseguia andar sem um guia e através de borrões perceber as coisas à sua volta. O que era um alívio de certa forma, mas não amenizava o fato de que ainda assim, eram condições difíceis.

No fim das contas, não foi difícil comer com etiqueta, parecia tranquilo imitar os movimentos dele. Quando terminamos nós fomos para o escritório onde o Conde sentou-se sobre o sofá e pediu para Ryu colocar uma cadeira de frente para ele, onde me sentei. Heinrich descalçou seus pés e os colocou sobre o sofá ficando plenamente confortável. Ryu o serviu com uma taça de vinho e na sequência se retirou.

— Icarus, vá até a terceira estante e escolha um livro. — Pediu o Conde, rapidamente me levantei e fui o bloco que indicou.

Meu olhar vagou por cada um dos livros, todos me chamavam a atenção, por isso minuciosamente corri o olhar por algum detalhe que me prendesse ainda mais. Por fim, encantei-me por um de capa azul, parecia ser revestido por camurça, era macio e gostoso de passar a mão. Ao abri-lo, me deparei com um nome interessante escrito na contracapa.

— Se chama “A Verdade Sobre Nós”. — Informei-o, indo me sentar e tentando a ler sobre essa tal verdade.

O Conde sorriu sem mostrar os dentes.

— É sério? Não acredito que escolheu justo esse, é um dos meus favoritos. — Ele disse e fiquei orgulhoso por isso. — Estou ansioso, comece logo a ler.

E comecei. A história começa com um casal jurando guardar segredo sobre algo ainda implícito, em seguida contava sobre o pesadelo que um menino teve com a mãe. Ele acordou chorando o seu irmão mais velho veio lhe acudir. E veio o impacto para mim, de maneira implícita o livro parecia indicar um possível romance entre os dois irmãos. De início, ignorei esse fato surpreendente, entretanto, de acordo com que lia ia ficando mais nítido. O Conde apenas bebericava o vinho, ouvindo-me, sem julgar aqueles fatos.

Era uma história proibida, um livro que muito provavelmente não deverá ser vendido para qualquer um. Um conto sobre incesto, sobre sexo entre dois homens. Eu nunca em toda minha existência pensei que poderia ler algo assim. Como alguém pode escrever sobre algo que pode condená-lo à morte?

Indo contra meus princípios, continuei lendo, mais pela curiosidade do que pelos meus fundamentos, confesso. Queria saber o que iria acontecer. Precisava constatar se os dois garotos se tocaram, eles se entregaram a esses sentimentos profanos?

A cena dos dois no banheiro me fez engolir seco, completamente desacreditado. E quando me dei por mim, estava paralisado, havia até mesmo parado de ler.

— Por que parou? Está chocado demais para continuar ou… — O Conde sorriu malicioso apenas esticando seus lábios e entendi o que quis dizer com o final da sua fala.

— N-não… É que… isso é errado. — Disse-lhe meio gago de nervosismo. — Me perdoe, senhor. Mas não posso continuar lendo isso. Eles são irmãos.

O Conde colocou a taça vazia na mesinha ao seu lado.

— E se não fossem?

— Continua sendo errado. Eles são homens. — Respondi, mas estava realmente arrependido das minhas palavras, não era assim que eu pensava e o Conde percebeu. Só estava ditando o que tanto ouvi as pessoas dizerem.

— Ninguém deveria dizer que amar uma pessoa é errado, Icarus. — O Conde falou e suas mãos vieram na minha direção e ele pegou o livro rispidamente, fechando-o. —  Quando estiver aberto para o verdadeiro amor, retomaremos a ler. Mas enquanto você acreditar nas mentiras que as pessoas desalmadas pregam lá fora, não posso permitir que leia sobre o amor.

Fiquei atônito. Primeiramente por ele estar certo e segundo por me encontrar ufano demais para confessar que não concordava com nenhuma palavra que saiu da minha boca. Fiquei com tanta vergonha. Inicialmente tive medo de concordar com os sentimentos e atitudes dos irmãos e o Conde vexar de mim, mas agora, percebo meu engano. Diferente do povo lá fora, o Conde não pensava assim daquela história. Pelos céus, se ele fosse contra jamais teria um livro desses em sua casa e esse mesmo livro jamais seria um dos seus favoritos.

Como você é burro, Icarus Campello.

A história surpreendia-me sim. E muito, não minto. Controvérsia, me despertava um sentimento tão… excitante. Uma curiosidade imensa. Além de que, até onde li, era verdade… Como irmãos ou como pessoas, os dois se amavam como jamais vi ninguém se amar nessa intensidade, de forma tão natural e verdadeira.

Todavia, eu não conseguia assumir. Não podia expressar o que acredito e acho que isso decepcionou o meu Conde. Me faltava muita coragem e sobretudo me entorpecia de medo, e se isso fosse um teste? Se eu estiver enganado? Confundindo tudo? Ele é o Conde de Anmak e poderia ordenar a minha morte agora!

— Vá dormir. — Ele disse rudemente, por fim.

— Sinto muito. — Falei tristonho, já me levantando. — Boa noite, meu senhor.

Caminhei em passos pensativos até a porta e antes de atravessar o batente o ouvi dizer:

— E por um momento, achei que você fosse como eu, Icarus Campelo. Mas me enganei. — Havia pesar em seu sussurro.

Inerte, caminhei até o meu próprio quarto completamente magoado comigo mesmo por decepcioná-lo. Vesti meu pijama e deitei-me remotamente, encarei o teto pouco iluminado pela lamparina que mantive acessa ao lado da minha cama, ainda pensando em tudo que aconteceu no meu primeiro dia de trabalho.

Minha cabeça foi bombardeada por pensamentos e sentimentos, analisando cada momento que vivi hoje. E logo veio o medo de dormir sozinho, longe das minhas irmãs. Senti-me tão pequeno naquele momento. Eu estava tão triste por tê-lo decepcionado.

Encontrei-me esforçando ao máximo para não chorar. Não queria continuar sendo tão fraco e tão medroso. Não podia e nem queria ser assim.

O que seria ser como ele? O que o meu Conde esperava de mim? Um mero garoto vindo de uma família mais humilde, tradicional e simples. O que esperava que dissesse depois de coincidentemente pedir-me para ler um livro onde dois homens fazem sexo.

Acho que detesto acasos.

E aqueles sentimentos voltaram com força. Os que neguei por todos esses anos. De me odiar por sonhar e desejar um homem.

As coincidências me deixaram apavorado. Se alguém escreveu aquilo, isso quer dizer que… Sim! Em algum lugar, alguém era como eu. E isso poderia ser considerado normal.

As coisas começaram a ficar mais claras na minha mente. Ser como ele? Quer dizer que… o Conde gostava do que estava escrito ali. O fato de dois homens se amarem? E era isso que ele esperava de mim? Que também aceitasse que o amor existe para dois homens.

De uma coisa estava certo, não poderia falar daquele livro para ninguém e não preciso de uma ordem do Conde para saber disso.

Mas o sentimento de arrependimento veio e senti vontade de sair correndo para lhe dizer que sim, sou como ele, não vejo problema em ler sobre dois homens que se amam com tanto fervor. E cheguei a pular para fora da cama, corri até a porta, assim que abri deparei-me com Ryu prestes a bater.

— Que susto! — Ele disse e finalmente acordei do meu impulso. — Credo, você é vidente, é?

— Ahn, não… Só estava indo pegar água. — Menti.

Às vezes, sou bom em mentir, portanto, soou como verdade.

— Deixei uma jarra na sua escrivaninha, não viu?

Ops.

— Não tinha visto. Mas… O que você está fazendo aqui? — Perguntei quando finalmente reparei que já era madrugada e o Ryu está aqui, acordado.

— Bom… me lembrei da minha primeira noite aqui e em como estava assustado ao dormir sozinho. Pensei se você não precisaria de companhia. É que o Conde disse que sua família é grande… Imagino que não seja fácil ficar sozinho. — Por fim, finalmente reparei que ele carregava um travesseiro e um cobertor.

— Ryu… Você é uma pessoa muito gentil. — Sorri grandão. — É claro que quero companhia, não ia conseguir dormir sozinho.

— Fico com você até se adaptar, está bem? — Ele sorriu e lhe dei espaço para ele entrar.

Ajudei-o a ajeitar as coisas no chão ao meu lado, queria que ele dormisse na minha cama e eu no chão, mas ele não aceitou. Por fim, bebi a água e nos deitamos novamente.

— Se quiser podemos conversar até ter sono. — Ryu, com toda sua gentileza, ofereceu. — Sinto falta de conversar sabe. O Conde não é de dialogar. Dalva não tem assuntos sem ser sobre a casa. Caetano… Bem, Caetano só fala de cavalos, ele ama cavalos… portanto, meio que estou te obrigando a ser meu amigo.

Nós rimos.

— Não é nenhum sacrifício, não tenho amigos, sabia? Na verdade, nunca precisei. Minhas irmãs e eu temos um relacionamento muito bom. Mas agora, acho que vou precisar de um amigo, já que estou longe delas. — Confessei.

— Então, amigos? — Ryu me ofereceu o seu braço sem mão e encarei um pouco assustado, antes que eu pensasse que estava ofendido, ele danou a rir. — Desculpa. Sério. Mas é engraçado, você ficou assustado. Eu sei que é assustador.

— Não… — Eu resmunguei todo envergonhado e por fim apertei a parte redonda com a pele cheia de cicatrizes grossas e balancei. — Eu não tenho medo. E me perdoe por parecer desrespeitoso.

— Você não foi, mas fico feliz de não ter nenhum problema com o meu cotoco. — Ele confessou. — Acredita que ainda posso sentir a minha mão? Ainda consigo mexer meus dedos, embora eles não estejam aqui. É como se eu tivesse uma mão fantasma.

— Ryu! Pelo amor de Deus! — Nós damos risada. — Mas… isso dói?

— Sim, tem vezes que sinto muita dor, vem em ondas com intensidades diferentes. Lorde Balfour disse que é normal. Por isso preciso desviar meus pensamentos para coisas que me acalmem, distraindo meu cérebro. — Contou, enquanto com seu braço mutilado erguido, encarava o topo redondo.

— E como você faz isso? Tem uma técnica?

— Costuma ajudar quando me encaro no espelho e vejo que realmente não tem nada ali. Basicamente, meu cérebro é incapaz de entender que perdi uma parte do meu corpo.

— Nossa… — Sibilei, sem palavras.

— Acho que nunca falei tudo isso para alguém. — Ryu riu sem graça.

— Eu não me importo, pode me dizer o que quiser. Acho que isso significa que somos amigos agora, não é?

— Definitivamente! Eu estou aqui falando à beça do meu cotoquinho, é obvio que somos amigos! — Ele me garantiu, damos mais risadas em concordância a essa decisão.

— Ok, entendi. Somos amigos.

— É isso aí.

Um início de amizade estranho, é claro que ainda estamos nos adaptando. Isso significa que temos que encarar o silêncio às vezes, mesmo assim tinha um sorriso feliz no meu rosto. Eu tenho um amigo agora e isso é bom.

Gostei de ouvir tão naturalmente como ele lida com a perca da sua mão. Com certeza não era fácil, tão pouco quando precisou se adaptar, mas a força de Ryu deixava-me orgulhoso.

— Fiquei curioso para saber como você chegou aqui. — Contei repentinamente.

— Eu gosto da minha história, de como conheci o Conde. Não foi muito diferente da sua, ele também me salvou de um destino muito ruim. — Ele começou a me contar.

Pelo visto o Conde deixou tudo bem claro sobre mim antes de chegar.

— Ah, é? E do que ele te salvou?

— De me tornar um escravo.

A resposta de Ryu me fez arregalar os olhos. Ele continuou:

— Quando eu era muito pequeno, meus pais vieram do Japão para fazer investimentos no Brasil. Nós éramos ricos, não me lembro bem que tipo de negócio que tinham. O problema é que fomos vítimas de um golpe que nos tornou muito pobres e presos num país que não sabíamos sequer o idioma. Um dia fomos despejados de onde nos refugiávamos, eu tinha oito anos. Eles me deixaram em uma casa de um senhor nobre, cresci ali, trabalhando desde cedo para essa família. Eu e mais dois meninos trabalhávamos feito mulas. Sofremos muito, comemos restos e éramos muito humilhados. Um dia, quando tinha dezesseis anos, tentei fugir. Mas fui pego. O senhorio me levou até o centro de Florianópolis e começou a me anunciar a preço de banana. O Conde estava passando e olhou para mim, ele me comprou e disse que não precisava me preocupar, agora estava livre. — Ryu suspirou, rindo baixinho. — Icarus, eu não tinha para onde ir. Não sabia o que fazer com aquela tal liberdade. Virei-me para ele e disse: servirei o senhor por todos os dias da minha liberdade. E ele respondeu que não precisava de mais um criado. Mas a Condessa me entendeu e disse que acharia algo para mim. Assim, vim para Anmak com eles. Céus, realmente amei esse lugar. E não me arrependo de trabalhar para eles. O Conde me deu uma vida que jamais teria se tivesse sido vendido para outra pessoa. Sou muito grato a ele e ao seu coração bondoso.

Quando Ryu terminou, realmente me senti grato e feliz por sua história. Por saber que o Conde ajudou-o a ter um destino melhor, por hoje não ser mais um escravo e sim um trabalhador remunerado e livre. Também o entendia, quais as chances teria sozinho? Aqui ele tem uma oportunidade de ter uma vida de verdade.

— Eu fico feliz por isso, Ryu. Você merece, seu coração também é bom.

— Obrigado, Icarus. É uma pena que nem todos tenham corações tão bons quanto os nossos. — Disse Ryu. — Até me casei, sabia? Com a neta de Dalva. O nome dela é Liana. Eu nunca pensei que me casaria, sabia? Mas aqui estou.

Sorri por saber disso.

— E onde sua esposa está?

— Viajando com a filha do Conde. — Ele me contou.

— Ah! — Falei compreendendo. — Você se casou cedo, Ryu.

— Até que sim, eu tinha uns dezoito anos. Mas tem gente que se casa muito mais cedo que isso. Você, por exemplo, me surpreende por ainda não ter se casado. Seus pais não lhe arranjaram uma noiva? — Ryu quis saber.

— Eu tenho irmãs demais para que eles se preocupem com meu casamento. — Falei risonho. — Só por isso, ainda não me casei.

— Ah, está explicado.

— E, Ryu, você a ama?

— Amo. — Ele respondeu de imediato, transparecendo a certeza sobre esse sentimento. — Amo mais do que meu ser me permite.

— Isso é bonito. Espero um dia amar assim.

— Você nunca se apaixonou antes?

— Não.

— Quando você menos esperar, vai acontecer. — Ele me garantiu.

E apenas concordei, me esquecendo que ele sequer podia ver devido à escuridão no quarto. Após mais alguns minutos calados, brinquei:

— Eu te contaria como vim parar aqui se você já não soubesse.

Ele riu baixinho.

— É, já sei que você é um ladrãozinho. — Ele só estava brincando, por isso ri. — E guri, você teve sorte, os navios do exército são muito cruéis.

— Eu sei. O Conde também comprou a minha liberdade, de certa forma. Sinto que serei feliz aqui. — Confessei.

— Você vai. O Conde não é ruim, Icarus. Não é como as pessoas por aí dizem, sei bem o que pregam sobre ele e não é verdade. — Ryu o defendeu e acreditei nele. Eu também não confio cem por cento no que dizem. O Conde é como ele precisa ser, mas isso não quer dizer que seu coração não seja bom.

Ficamos um tempão calados depois disso, cada um com seus pensamentos. E voltei a pensar no que adveio para Ryu não ter sua mão. O que aconteceu para que o Conde perdesse seus olhos. E não pude evitar aproveitar a situação para descobrir.

— Ryu? — Chamei-o após um bom tempo em silêncio olhando para o breu.

— Oi?

— O que aconteceu com a sua mão? — Fui direto, talvez até mesmo um pouco desrespeitoso, mas ele não levou a mal, visto que não tinha nenhuma intenção maldosa na minha pergunta.

— Até que você demorou para perguntar. — Ele riu baixinho.

— Me desculpa, não pude me conter. Penso que isso tem a ver com o que aconteceu com o Conde, mas ele não quer me contar, disse que esse assunto é proibido. — Falei suspirando, cheio de curiosidade, mas era um interesse no sentido de preocupação. Medo de saber a veracidade por trás. — Ele só me disse que tem a ver com aquela última invasão, a guerra de Campos Elísios.

— Sim, foi quando aconteceu. Você pensa certo. Nossas cicatrizes são similares. Mas a verdade por trás é cruel demais para se ouvir. Posso te contar se prometer fingir que nunca ouviu isso dá minha boca. Se o Conde souber vai me detestar, como sabe, fomos proibidos de falar sobre isso. — Disse ele. Virei-me na cama, ficando mais perto da beirada para vê-lo.

— Prometo que o que me disser morrerá hoje aqui. — Fui sincero, jamais colocaria o Conde contra ele, deus me livre de colocá-lo em uma situação delicada com o Conde.

— Era um dia qualquer e subitamente eles invadiram. Na verdade, o General já previa um ataque quando meses antes viu o navio inimigo nos rodeando. Devido a isso, Gilliard finalmente foi buscar ajuda das nossas alianças na Europa, mas como sabemos, as viagens e cartas levam meses assim como os ataques são planejados por dias. Dessa vez, nos pegaram mais desprevenidos possíveis. Três dias após a partida do General, vieram de forma silenciosa e sorrateira. Naquela época o Conde tinha muitos empregados, pois vivia aqui com sua família e logo precisava de mais ajuda. Sua filha mais nova, Jane, estava viajando, portanto, não estava presente. Mas seu irmão mais velho, Juliano, estava aqui, assim como a Condessa Gina, assim como o Conde, assim como eu, minha esposa, os pais dela, Dalva e seu marido. Além de todos os outros empregados.

Eles cercaram o casarão e nós ficamos encurralados como ratos assustados. Foram três dias, Icarus. Setenta e duas horas de horror. Todos nós fomos amarrados e sujeitos a todo tipo de humilhação e punição. Eles começaram violando as mulheres, mas deixaram a Condessa por último. Nem mesmo Dalva escapou. Eles as violentaram na nossa frente. Uma por uma, dez homens, um atrás do outro. Cada uma das criadas.

Uma delas foi a Liana, não éramos casados ainda. Ela tinha catorze anos na época. Era virgem. Eles a desvirtuaram na frente do pai e o avô, Caetano entrou em estado de choque, ele ficou paralisado sem piscar ou se mover pelo restante das horas que se passaram. Ela gritou muito e eu era muito próximo dela, vê-la sofrendo e não fazer nada me despertou uma raiva incontrolável, quando me dei conta, por impulso, consegui me livrar das cordas e dei um soco no imundo que estava em cima dela. Foi quando decapitaram a minha mão e me bateram por horas como se eu fosse um saco de batatas. Enquanto agonizava no chão, sangrando até a morte, a tortura continuou…

Ryu parou um pouco para suspirar fundo, seus olhos estavam vidrados no além, parecia que ele estava em transe, revivendo tudo enquanto contava. Sei que ele estava me poupando de muitos detalhes.

— Eles queriam que o Conde entregasse Anmak e tudo de precioso que ele tinha. Mas o Conde não podia e todos ali sabiam, sempre estivemos convictos. Assim, sofreríamos. Eles mataram Juliano na frente dos pais. Em seguida começaram a torturar a Condessa. Heinrich estava acabado, mas quando ela começou a gritar para pararem, ele não aguentou. Ele estava tão ferido após ser açoitado, suas costas estavam em carne viva e o sangue escorria sem parar, ele rastejou nu no chão para tentar alcançá-la, enquanto mais chibatadas eram proferidas, mas ele não desistiu. Quando alcançou a mão dela e segurou, cortaram a garganta da Condessa e quebraram as mãos dele. Em seguida, jogaram ácido em seus olhos. Ele implorou para morrer.

Foi quando o General chegou com reforços vindos do Reino Unido. Eles tinham armas de verdade, coisa que não tínhamos antes e assim aniquilaram cada um dos invasores. No entanto, isso não aliviou a alma do nosso Conde e nem trouxe todos que perdemos de volta. De todos nós, Heinrich foi o que mais foi humilhado, disposto a tortura física e psicológica. Ele implorava: punam a mim, mas não a eles. Queria ser punido em nosso lugar, mas não houve compaixão de nenhum dos invasores.

Quando acabou, ele recusou tratamento até que todos nós fossemos atendidos antes. Eu fui o primeiro a receber socorro, para mim eu já estava morto. Mas sobrevivi por um milagre.

E depois o Conde ordenou que o que aconteceu aqui não deveria chegar ao ouvido do povo. Não os detalhes, mas as mortes que aconteceram eram inevitáveis. Quando Jane soube e voltou, tudo que lhe restou foi o corpo ambulante de seu pai, afundado no que lhe fizeram. A alma do Conde morreu naquele dia.

Quando Ryu parou, meus olhos escorriam lágrimas. Meu choro era silencioso como um luto.

— Agora, sete anos se passaram, eu e os que restaram nos recusamos a abandonar o Conde e assim como ele, nós nos destinamos a viver aqui com os fantasmas daqueles dias de cativeiro. Mas diferente dele, nós nos agarramos um ao outro. Dalva, Caetano, Liana e eu.

Liana ficou grávida e eu me casei com ela para não desonrar seu nome. Assumir ela e a criança. Por que eu a amo. Ela se esforçou muito, mas não conseguia nem olhar para o bebê quando nasceu. Devido a isso, entreguei-o para a adoção lá em Florianópolis e nós dois juntamos os cacos um do outro e assim seguimos em frente. Ela odeia essa casa e de todos nós, é a que menos consegue lidar com as lembranças, por isso, quando Jane veio a levou consigo para estudar moda em Paris e ser a sua auxiliar. Ela está feliz, mas sentimos a falta um do outro.

Ryu fez uma pausa novamente.

— E o Conde, céus… Foi tão cruel a forma que esses anos se passaram para ele. Ele aceitou a dor e a solidão, Icarus. Por isso que ficamos tão surpresos quando de repente, ele te contratou e te designou a tarefa mais importante. Até o fato dele sentar com você para comer nos deixa impressionados. Desde aquele dia no laboratório, o Conde tem estado diferente, vivo, sabe? Você tem trago a vida de volta. Estamos muito felizes com a sua chegada ao Casarão.

E foi essa última parte que me fez desmoronar por dentro de vez.

Eu trouxe vida para ele e só o conheço a setenta e duas horas. Pergunto-me o que nos espera nos próximos dias?

Não fazia ideia, só estava convicto que faria de tudo para continuar sendo a pessoa que faz tão bem para o Conde. Depois de tudo que ele passou, ser alguém que ajuda-o a se sentir melhor é praticamente um privilégio divino.

— Ele é a pessoa com o coração mais incrível que já conheci, Icarus. Mesmo tão quebrado por dentro, ele ainda tem uma bondade indescritível. — Ryu falou por fim. — Mas agora vamos dormir, meu sono chegou. E, por favor, não conte para ninguém.

— Não vou, prometo. — Garanti de imediato. — Obrigado por me contar. Vejo o quanto falar disso é doloroso.

— Tem vezes que precisamos colocar os fantasmas para fora, ou eles nos sufocam. — Ryu disse e fez todo sentido para mim. — Boa noite, Icarus.

— Boa noite, Ryu.

E assim ele dormiu e fiquei acordado a noite inteira assistindo às cores do lado de fora da janela. Do azul índico ao laranja pêssego, até que por fim fosse um novo dia. Minha mente estava inquieta, alternando os pensamentos em tragédias, minha nova realidade, a cama desconhecida e os livros proibidos do meu senhor.

Quando Ryu acordou com o canto do galo, olhou para mim e teve certeza de que eu não havia conseguido dormir, mas me prometeu que dormiria comigo até que me adapatasse.

O dia se passou remoto, não sabia o que sentir com tudo que me foi contado. Não conseguia encarar o Conde sabendo que ele havia sofrido tanto. Queria ter o poder de viajar no tempo, para antes de Campos Elísios e salvar a todas essas pessoas inocentes.

Dessa vez, tomei o café da manhã com o Conde. Logo após, ele saiu com Caetano e Ryu ficou atarefado com Dalva. Pude caminhar pela propriedade, passei a maior parte do tempo na pedreira pensando em tudo que me foi revelado. Almocei quando Dalva me chamou, ela até comentou o quanto eu estava abatido. Disse-lhe que era saudade da minha família. Mas nem era.

Já Ryu me olhou desconfiado, me chamou num canto dizendo para não ficar pensando muito sobre aquilo, pois nada do tipo poderia acontecer novamente, eu estava seguro. No entanto, não tinha como garantir que uma invasão desse tipo não fosse se repetir, mas não contei sobre isso. Não era o que me preocupava.

Pela tarde, fiquei no meu quarto e escrevi uma carta para minha família contando sobre minha chegada. Só me dei conta de que já era noite quando Ryu me chamou para jantar com o Conde.

Assim, fui. E o jantar parecia um velório de tão silencioso.

— Você está triste. — Concluiu o Conde quando terminamos de comer. — Dalva disse que está com saudades de sua família. Mas não se entristeça tanto, Icarus. Permitirei que os visite, é só me pedir.

Sorri minimamente, grato por sua compreensão.

— Não se preocupe, senhor. Estou bem. Isso vai passar. Sei que o senhor me permitirá visitá-los. — Disse-lhe, todo compreensivo também. Ele acenou de leve e posteriormente se levantou da mesa, meio sem jeito, reparei. Parecia ter algo o incomodando, não dei espaço para seu desconforto e levantei-me também: — Senhor, podemos continuar lendo aquele livro? Pensei melhor, ontem eu menti. Me perdoe.

O Conde ergueu as sobrancelhas surpreso, eu realmente o surpreendi? Constatei que a tensão em seus ombros se desfazia quando os soltou e ficou mais relaxado.

— Você mentiu sobre a maneira que pensa sobre o que lemos? Eu já sabia, Icarus. Por isso deixei que você refletisse. Mas vamos combinar uma coisa, sem mentiras. Realmente não consigo tolerar isso e não quero lhe castigar por mentir. Se quer ser um bom criado, então não minta e tão pouco finja ser o que você não é. — Ele disse no seu jeito frio de sempre, mas era o tom comum de uma repreensão.

— Prometo-lhe, senhor. — Respondi com sinceridade. — Estou pronto para ler sobre o amor.

— Portanto, não vamos perder mais tempo.

[1] Eisbern: Joelho de Porco. O mais tradicional de todos os pratos alemães, é servido como ingrediente principal, assado por horas e acompanhado de especiarias. Também pode ser cozido ou à pururuca. É acompanhado de chucrute e batatas cozidas com bacon.

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