CAPÍTULO NOVE

Volte para meu maldito túmulo

1 0

7 de Janeiro de 1899
Casarão do Conde
Anmak, Florianópolis, Santa Catarina
HEINRICH VOLLARD

A casa estava escura e me identifico com a escuridão enquanto falho miseravelmente em combater meus próprios demônios.

Sozinho em meu escritório, as lembranças dolorosas daqueles dias me assombram. Vejo-me preso lá, nas memórias que jamais morreram e que sempre foram revividas pela minha mente. Trazia-me a sensação real daquele momento, como se sete anos não tivessem se passado.

Você já viu alguém que ama morrer na sua frente e não poder fazer nada? De todo meu coração, desejo que não tenhas que passar por isso. Por que foi naquele dia, que morri também, com meu filho, minha esposa e meus empregados inocentes. Cada segundo que os torturavam, era como se arrancassem uma parte essencial de mim. E ver o brilho em seus olhos ser apagado, foi como se o médico ditasse a hora da minha morte.

A culpa é como um monstro pendurando-se nas suas costas e obrigando-me a carregá-lo para sempre. E o fato de não estarem fisicamente comigo me faz pensar nos erros que cometi com eles e com Anmak. Às vezes o fardo se torna mais leve, mas nunca, nunca mesmo irá sumir. E não permito que eles se vão. Mantenho minha família aqui dentro de mim.

Mortos, mas vivos, em mim. É assim que tornamos alguém que amamos, eterno.

Quando eles se foram pensei que nunca mais iria sorrir, o simples fato de dar um sorriso me incomodava imensamente, como se eu não merecesse mais me sentir assim, não era justo.

Tudo mudou quando senti ele ali, no jardim – como no sonho que tive anos atrás, ainda jovem. Inicialmente fiquei em choque, os outros dois homens conversando ao meu lado e eu sentindo meu corpo petrificar. No entanto, segurei minhas emoções acentuadas e foquei no que estava acontecendo.

Por tantos anos, Icarus foi minha luz, nos meus piores momentos, dias e situações, era seu rosto na minha mente que me dava forças. E agora que finalmente o senti ali, não ser capaz de enxergá-lo parecia um tipo de castigo.

Contudo, aquele mesmo relógio que a cartomante me deu, o objeto que me acompanhou até hoje, era a lembrança constante de que era real. Não havia delirado por todo esse tempo, alguém previu que sim, ele chegaria. E essa pessoa sabia do meu sonho secreto diante de um delírio febril de morte, portanto… era verdade.

E quando menos esperava aconteceu.

Ele chegou.

E agora, como tolo, o deixei esvair por entre meus dedos.

Céus, o perdi. O deixei ir…

E me arrependo amargamente.

Sentado na poltrona da escrivaninha do meu escritório, penso em Icarus, assim como tenho feito nos últimos meses. Penso nele e no que aconteceu, em nós dois e essa loucura impulsiva que cometi.

Enquanto ele estava nas minhas mãos, lá na praia, só nós dois, tudo parecia em perfeita ordem no mundo. Após anos sonhando com um desconhecido que prometia encontrar, finalmente o tinha em meus braços e embora não pudesse de fato o ver, ele estava ali, me fazendo sentir como se eu fosse um homem completo e vivo.

Icarus me mostrou o quanto ainda posso ser amado, o quão forte meu coração é capaz de bater em pura vida… Parece que ele tirou uma parte da culpa de cima de mim, me senti mais leve. Pude enxergar nitidamente, mesmo diante do fato irreversível de ser cego. Icarus me levou para sua superfície e pude ver acima das nuvens cinzas de meu céu escuro, enxerguei um lindo céu azul com pôr do sol e um anjo ao meu lado. Pelo curto período de tempo que permiti, ele me mostrou coisas incríveis.

E talvez tudo isso tenha feito-me hesitar, amedrontado como um cão farejando terreno desconhecido. Tão assustado, vacilando como se não fosse um homem bem vivido como sou, após passar anos acreditando que não era capaz de me sentir assim novamente: feliz.

Alguns dias perto dele e todo o muro que construí desabou-se, me vi nu – literalmente, devo ressaltar. Nós ficamos nus, foi perfeito, na nossa sintonia e tempo, diante dos fatos incomuns que nos uniram. Nos entregamos e enquanto tinha meu anjo salvador em meus braços, delirando de prazer, só consigo pensar no que eles fariam com Icarus se descobrissem. Ou pior que isso, o quanto impotente eu ficaria, cego e trêmulo, se fossemos atacados e ele machucado.

Eu não poderia defendê-lo. Mais uma vez, diante de uma pessoa que eu amo, ficarei de mãos atadas e o assistiria morrer.

Isso é mais do que consigo suportar.

Você já amou tanto alguém que tinha um medo absurdo de perdê-lo? Como se seu coração fosse parar se isso acontecesse? Você se sentiria um nada sem essa pessoa? Sua existência iria embora com ele?

E não consigo lidar com isso.

As possibilidades ameaçadoras da minha vida.

Não consigo sequer imaginar a possibilidade dele ser machucado.

Meus fantasmas invadem meu coração e me fazem chorar de pesar, torturando-me com meus erros, meu passado doloroso e as consequências de amar Icarus, meu amor proibido.

Doeu. 

Doeu quando ele se quebrou ali, diante de mim. Quando transformei seu coração em caquinhos, e tão determinado, temendo por sua morte, mantive minhas palavras e pose firme. Almejando que ele se convencesse das mentiras que saíram por minha boca. E consegui, realmente o convenci de que eu era um monstro e não mereço nada tão belo e bom como ele.

Dédalos deu asas de cera para Ícaro, avisou dos riscos ao usá-las, mencionou as consequências. Nessa história ele o leva até o céu, vê a cera derreter e o assiste, em seguida, cair bruscamente. Esquecendo-se de que também usava asas de cera…

Naquele momento, enquanto destruía nossos corações, precisei de ser forte, pois a vontade que tinha de me render as minhas emoções era grande. E meus sentimentos nada mais são do que armadilhas para nós dois.

Após o que fiz, encontrei-me ainda pior.

Me vi diante de um impasse.

Percebi que viver sem Icarus já me era impossível.

Dédalos nadava contra a correnteza, tentava a todo custo alcançar Ícaro para o salvá-lo.

Meu coração clamava por libertação. E isso era algo que somente ele poderia me conceder, para que em seguida pudesse amá-lo como merece.

Precisava da alegria do meu menino, precisava da sua presença radiante, meu coração tinha a necessidade incontrolável de amá-lo. Depois do que vivemos, falamos e descobrimos, parecia impossível voltar para minha vida escura. Minha alma clamava por luz.

Eu preciso de sua cor em meu mundo tão cinza.

Icarus era meu quadro, uma arte pura, ele veio para me dar todas as cores que não posso mais enxergar.

Minha esposa morreu sabendo que nunca foi amada de verdade; amava Gina, sim, amava, mas não se compara aos sentimentos que tenho por Icarus. Por ela era mais carinho, amizade e respeito; mas pelo Icarus, meu deus, não tenho capacidade de descrever.

Gina e eu fomos um casamento arranjado por interesses, não nos casamos por amor, tão pouco vivemos o amor e nem permanecemos casados por isso. Mas tínhamos uma relação amigável invejável, embora ela odiasse saber que em algum lugar do mundo podia de fato existir uma pessoa que poderia possuir todo meu coração.

Fomos casados por vinte e dois anos e por todos esses anos, Gina acordou e dormiu ao meu lado sabendo que a qualquer momento, se essa pessoa aparecesse, ela me perderia.

No fundo do meu ser, lamento.

Lamento por não ter tido a chance de ser amada como merecia. Se tem algo que ela não falhou, foi como minha mulher, mãe dos meus filhos e a Condessa de Anmak.

E agora, estou vivo, embora em condições difíceis, permaneço vivo e me apaixonando por um garoto de dezoito anos.

Enquanto o Natal e meu aniversário se passavam com Jane, Raul e até Liana animando a casa, só conseguia pensar na falta de Icarus ali e em como tudo estaria melhor com sua presença. Senti falta até do cachorro bagunceiro que veio na mala com ele. Icarus é o tipo de pessoa que parece fazer questão de comemorar essas coisas e eu já estava fazendo questão de ter sua companhia única, no entanto, meu orgulho não me permitia.

Demorei a dormir nessa noite, apavorado, ansioso, desejando o amanhecer. Felizmente o álcool do vinho me obrigou a fechar os olhos, e até nos meus sonhos me esforçava para não me arrepender da decisão um pouco egoísta de voltar atrás e viver isso com Icarus.

Quando amanheceu, acordei cedo, me vesti e até mesmo me preocupei em parecer bonito, por esse motivo peço a Dalva para ajeitar meu cabelo e me borrifar perfume. Fui para o escritório aguardar Ryu e me recusei a tomar o café da manhã, tamanha era minha ansiedade.

— Papai? — Jane entrou no escritório com Raul no seu encalço. — Estou indo até à cidade, precisa de alguma coisa?

— Não, querida. Mas talvez tenhamos novidades quando voltar. — Contei para ela dando um sorriso mínimo. — Ryu foi buscar Icarus.

— O datilógrafo? — Raul também estava ciente.

— Ele mesmo, decidi seguir em frente com os meus projetos e também ouvi os conselhos de meu amigo Fabien. O casarão agora terá a proteção necessária para não sofrermos mais medo. — Os olhos da minha menina brilharam de emoção, embora sempre longe, sabia o quanto ela queria ver o seu velho pai feliz novamente.

— Essa é a melhor notícia de todos os tempos! — Seu sorriso belo era maravilhoso, deu a volta na mesa e veio me abraçar, como quando era pequenina e vivia grudada em mim. — Vou comprar algo para ele. Quero me dar bem com essa pessoa que tem ajudado tanto o meu pai.

— Ele certamente vai adorar, filha. — Disse com certeza, ainda me lembro da euforia de Icarus quando suas roupas novas chegaram e ele experimentou cada uma quase chorando de felicidade por ganhar vestes novas pela primeira vez na vida. Míseras roupagens deixaram meu menino no êxtase da felicidade.

Assim, Jane e o noivo saíram para cumprir seus afazeres enquanto eu esperava que Icarus relevasse a carta um tanto formal, imaginasse minhas verdadeiras intenções e voltasse para mim, onde me redimiria do jeito certo.

Não podia escrever uma carta com palavras as quais meu coração realmente queria contar. Corríamos o risco certeiro da sua família lê-la, por isso precisei ser cuidadoso. Já havia sido imensamente difícil escrever aquilo, Ryu não é bom em escrever e mesmo que eu consiga formar as palavras às cegas, também tem o risco de escrever tudo errado e torto.

Me sentia tão arrependido que doía e tentava não pensar na possibilidade dele não voltar. Ansioso, aguardei, contando os segundos para colar nossos lábios novamente e expressar todo meu arrependimento.

Quando a porta do meu escritório se abriu, fiquei de pé num pulo e encarei atentamente naquela direção, tentando distinguir as silhuetas. Mas havia apenas um borrão cujo as cores das roupas já conhecia.

Ryu.

Só ele estava ali.

— Ele não veio. — Disse e engoliu seco.

Senti um nó se formar gradualmente na minha garganta.

Em resposta, Ryu caminhou até minha mesa e entregou a carta que havia me empenhado tanto para escrever, meio amassada e com o lacre aberto.

Icarus não voltou para mim.

Parece que sou eu quem está tendo o coração massacrado agora. Nunca tive uma decepção amorosa antes, e a culpa é minha, causei isso a nós dois. Merecia seu desgosto, sua mágoa e até mesmo o seu ódio.

O que eu esperava? Que ele voltasse correndo depois do que lhe disse? Após deixá-lo pensar que usei o seu corpo como se ele fosse uma meretriz? E permitir que meses de dor, inseguranças e negatividade devorassem seu coração. Sou homem o suficiente para reconhecer os meus erros, e este era um dos grandes.

Se pudesse voltar atrás, não escolheria aquelas palavras. Meu menino não as merecia.

— Milorde, sinto muito. Icarus está profundamente magoado. — Ryu disse na tentativa falha de me consolar ou justificar o óbvio.

— Está tudo bem, talvez tenha sido melhor assim. — Confessei, mesmo que me doesse por dentro.

Não queria acreditar que era o fim, mas como ter esperanças quando lhe arrancaram tudo? Os acontecimentos que nos quebraram, foram devido as minhas intenção de protegê-lo. E agora ele está devidamente protegido como tanto almejei. Por Deus, eu sou um velho, Icarus é tão jovem, não deveria perder seu tempo comigo.

— Na verdade, ele disse que se o senhor o deseja de volta, que vá por si mesmo falar com ele. — Contou-me Ryu, e isso me fez abrir um sorriso mínimo.

Pestinha mimado. Moleque orgulhoso. Meu Icarus.

Foi como receber uma dose de esperança em meu coração perdido na escuridão.

Podia compreender os motivos para pedir que eu vá pessoalmente até ele. E sinceramente, Icarus estava certo e tenho vergonha de pensar na quantidade de erros que estava cometendo com ele.

Culpo minha falta de experiência com relacionamentos, já que nunca vivi nada do tipo. Nesse quesito nós dois estávamos quites. Não tinha experiência com o amor, não sabia como tratar bem uma pessoa e prova disso foram as palavras que escolhi. Só queria que Icarus fosse embora e com a garantia que me esqueceria. Na tentativa de convencê-lo, exagerei, errei feio e quebrei seu coração.

E agora, para reconquistá-lo teria que me esforçar e muito.

Ansioso, sinto meu coração ficar apertado. Será que devo insistir nisso quando essa situação pode claramente nos trazer imensos problemas?

— A irmã de Icarus vai se casar amanhã. Ivana. Ele me convidou para o casamento. — Informou-me Ryu.

— Você tem minha permissão para ir. — Disse de imediato, os dois se tornaram amigos, não há motivos para impedir isso.

— Talvez o senhor devesse me acompanhar. — Sugeriu Ryu e neguei de imediato.

— Não, ainda não me sinto bem em aparecer em público, não quero tirar a atenção do casamento da irmã dele, mas irei pensar, Ryu. — Disse-lhe um pouco desanimado. Sem esperanças.

— Senhor, não desista agora. Sei que Icarus quer muito voltar para nós, coloque-se no lugar dele e vai entendê-lo. — Por fim, o japonês me deixou sozinho e fiquei ali, pensando e repensando o que deveria fazer.

Penso em Gina. Sei que o fato de existir alguém que pudesse me tirar dela, a deixava triste. Mas uma coisa que tenho certeza sobre minha falecida esposa, ela me desejava felicidade, mesmo que não fosse em seus braços. E desejava-me tanto que se o garoto dos meus sonhos tivesse aparecido com ela em vida, por si só teria me deixado para que eu fosse feliz com ele.

E assim, ciente de que esse é o certo, quando chegar o dia, vou com Ryu para o casamento. Vou atrás do meu grande amor.

Eu vou até você, Icarus.

Quando senti sua presença, mesmo que de longe e sem de fato vê-lo, fiquei fraco. Meio tonto, Ryu precisou me dar atenção, preocupado. Porque senti uma força enorme batendo contra meu coração.

Tum-tum-tum.

Você estava certo.

Era a realidade chegando até mim em um baque.

Senti sua falta, definitivamente.

Estou morrendo de saudades do meu garoto.

Mas sobretudo, eu finalmente descobri:

Eu ainda estou vivo.

E ainda posso amar.

7 de Janeiro de 1899
Capela da Praia do Coral
Anmak, Florianópolis, Santa Catarina
ICARUS CAMPELO

Ingrid é a mais velha, depois dela veio Ivana, em seguida eu. Ivana é a nossa primeira irmã a se casar. E casou bem, com um homem de trabalho bom, ela mesma já trabalha bem para Lorde Balfour no hospital e sobretudo, está encantada pelo noivo que teve a sorte de escolher e se apaixonar. No entanto, não foi a primeira a ficar noiva.

Meus pais arrumaram um casamento para Ingrid quando ela tinha dezesseis. Naquela época o rapaz trabalhava como pescador, mas seu pai era dono do jornal da cidade que herdaria em breve. Minha irmã até que gostou dele, um moço bonito e respeitoso. Porém, poucos dias antes do casamento, ele se apaixonou por uma moça que conheceu num desembarque em uma terra qualquer e voltou com uma nova noiva.

Ingrid ficou devastada, até meus pais ficaram, era uma vergonha para ela e nossa família. Muito chateada por não poder se casar e sobretudo por ser trocada, implorou para nossos pais para que não tentassem mais arrumar um marido para ela.

E eles a apoiaram, envergonhados pelo que fizeram-na passar, mesmo que fosse honroso para uma moça se casar cedo, sabiam que haviam cruzado um limite com Ingrid. Assim, ela os conseguiu convencer com a ideia maluca de juntar dinheiro para sair de Anmak e ganhar a vida lá fora.

Não sei como ela conseguiu, mas assim tem sido. Agora, as coisas parecem fora da linha, Ingrid tem vinte e dois anos e Ivana – cujo está se casando – tem vinte. Minha irmã entra bela na igreja, usando seu vestido branco com detalhes lilases e flores por toda a simples capelinha da praia. Nós da família ficamos sensíveis e emocionados. Exceto, Ingrid. A observo enquanto ela não esboça nem sequer um mísero sorriso.

Ela não é assim e até o casamento esteve bem interativa com toda organização, mas agora há sombras sobre a face da filha mais velha dos Campelo. É quando percebo que tem algo errado com Ingrid. Algo que, por enquanto, não temos conhecimento.

Após casar minha primeira irmã, os convidados tomaram suas charretes, partimos para a nova casa de Ivana e seu marido. Vamos festejar e comemorar, em seguida deixaremos os recém-casados sozinhos.

Antes que cogite deixar a igreja, me esbarro com Ryu que veio na minha direção, apressado.

— Ryu, você veio. — Disse animado, abraçando meu amigo.

Ele segurou meu pulso após nosso abraço e encarou-me firmemente quando disse:

— Ele está aqui, vá até à sala nos fundos da capela. Te dou cobertura.

Fiquei alguns minutos observando Ryu tentando entender o significado das suas palavras. Quando compreendo, perco o fôlego, ao mesmo tempo que meu primeiro pensamento é em relutar e não ir. No entanto, me vem ao coração a saudade que sinto dele e do que significa o simples fato de vir atrás de mim.

O Conde veio aqui. Ele veio por mim. Conforme determinei minha condição, caso ele quisesse meus serviços de volta.

E ele veio!

— Diz para mamãe que vou na carroça com você. — Falei antes de sair correndo até os fundos da capela onde, uma porta de madeira forte nos conduzia para uma sala particular que também dava acesso a outra entrada, pelos fundos da capela.

Quando chego diante da porta, estanquei-me ofegante, meu coração estava disparado, super acelerado, obriguei-o a se acalmar, respirando devagar e assumi uma expressão mais séria. Não podia simplesmente ignorar o fato de que ele destruiu meu coração e me fez sentir como um ser humano imundo.

Assim, entro no recinto pouco iluminado, um único vitral é o que traz a luz fraca lá de fora e forma desenhos coloridos no chão, onde é refletida. O vejo, sobretudo sinto o seu cheiro marcante, a loção forte deixou a pequena salinha inundada. Novamente, perco os sentidos enquanto fecho a porta e encosto-me contra a madeira fria. Meu Conde virou-se na minha direção e como sempre, estava perfeitamente impecável.

Lindo, tão lindo que me derreti internamente feito manteiga. Meu homem. Quando vejo-o sinto como se tivesse em um dos meus sonhos, e quando ele me toca tenho certeza que nós dois somos mais que reais, somos destinados.

Em tão pouco tempo meu Conde se tornou tudo para mim. Sentia ali, no lado esquerdo do meu peito, tão palpável, o meu amor por ele.

— Icarus… — Heinrich sussurrou sentido, até deu um passo impulsivo para frente, mas parou, receoso. E graças a deus por isso, pois não tenho estruturas para resistir aos seus toques.

— Você veio. — Constatei, ainda acuado e bem longe dele. Mantive-me encostado à porta fechada, receoso com a minha capacidade de atuar nesse momento sensível. A minha respiração estava desregulada, eram emoções demais para se sentir.

O amor nada mais é que um mapa. Você precisa aprender a lê-lo para descobrir como encontrar o tesouro.

— Você me pediu. E reconheço suas intenções, cometi muitos erros com você, Icarus, e estou profundamente arrependido. — Libertou as palavras com sua voz rouca e fraca, o Conde também lidava com suas emoções internas.

— Não pedi. — O corrigi. — Apenas determinei minhas condições, mas não esperava que fosse acatá-las. O senhor foi bem firme quando me mandou embora. — Falar disso me causa uma dor tão aguda.

O amor, é um mistério. Meus sentimentos, tolos conforme meu coração, puxavam-me para ele, mesmo quando queria odiá-lo com todas as minhas forças.

— Então por que determinou isso? Se te magoei e se não queria que viesse, por que estou aqui? — O Conde me questionou, sua voz revelava sua mágoa.

Quanta dor eu posso suportar?

— Não disse que não queria que viesse. Só não esperava, o senhor nunca faz aparição. Mas se veio, fico feliz. Isso prova o meu valor, queria mesmo que o senhor quebrasse suas atitudes e palavras. Queria me sentir valorizado, depois de tanto tempo me arrastando feito lixo, conforme o senhor determinou que deveria me sentir!

Não peguei leve, não podia. Posso até entender os seus motivos, mas isso não deletava meus sentimentos, por isso me permiti ser egoísta. Às vezes nós precisamos ser egocêntricos, é o mínimo que possamos fazer por nós mesmos.

Um nó apertava minha garganta com uma força que minha voz saia sufocada, sinto meus olhos arderem. Eu choraria, era inevitável.

Meu coração estava pesado com o que ele me fez e implorava por libertação. O fato do Conde vir, não só provar meu valor, como demonstrar seu arrependimento e sobretudo o quanto me ama. O quão está disposto a lutar por nós, o que também significa que enxergou seus erros. É isso que eu mereço.

— Icarus, por favor, me perdoe. — Ele pediu, com a voz falhando, cheio de arrependimento. — Não mereço sua compaixão depois do que te fiz. Mas volte para mim, volte para nosso casarão, deixe-me consertar meus erros.

— Eu não deveria! — Tremi enraivado. — Sinceramente, careceria seguir em frente após o que me fez passar. Só perdão não basta, não apaga o que me fez. Quero que fique nítido quanta dor me fez sentir, eu achei que fosse morrer, seu desgraçado!

As lágrimas vieram feito uma avalanche e, vagarosamente, movido pelo rancor, me aproximei dele de forma intimidadora. A raiva me devorava lentamente, não pude evitar dar espaço para ela se expandir dentro de mim. Nunca imaginei que fosse capaz de sentir tanta negatividade em relação a ele.

— Com a minha família eu tenho tudo, Conde. Sou amado e valorizado. Trabalho, sim, feito um escravo para sobreviver. Mas não me falta amor. Não durmo sozinho. Portanto, diga-me, por qual razão deveria voltar para aquela casa onde tudo é tão triste? Onde você se mantém enterrado com sua família e seu passado? Onde o consorte dos meus sonhos, não é capaz de me amar como sou? O homem para qual me entreguei me fez achar por dias que eu era só uma vadia para usar? Me responda! Me diga a razão pela qual está aqui diante de mim, me implorando para voltar para seu maldito túmulo!

A essa altura, já estava encarando seu rosto, esmurrando seu peitoral e cuspindo tudo o que me sufocava. Quando estamos assim, nós dois, cara a cara, o Conde e o Criado deixam de existir para dar espaço a mais pura versão de Heinrich e Icarus.

— Por que sou egoísta o suficiente para lhe implorar que volte para meu maldito túmulo, Icarus! Porque escolhi arriscar, você vale a pena e eu estava tão errado. — Ele me segurou, também chorando. Foi assim que percebi o quanto também sofreu com a escolha que fez, o quanto se arrependeu por seu erro. Foi como se um tornado de realidade me atingisse, não sou o único sofrendo aqui.

E sim, compreendia suas dores, principalmente pelo o que ele passou. Mas não mereço sofrer também, só porque ele sofre, ou por que algo ruim aconteceu. A nossa vida segue em frente e só nos resta lembrar dos que se foram com uma memória boa, quentinha, guardado dentro de nós. Meu Conde merece ser feliz e seguir em frente.

— Se não queria que eu fosse vítima dos riscos de estar ao lado do Conde de Anmak, porque o senhor me machucou com aquelas mentiras? Por que me fez acreditar que uma noite tão linda quanto aquela que me entreguei para ti, foi uma mentira? Por quê? — Insisti, chorando e trêmulo.

Ele me encarou por um tempo, antes de finalmente conseguir falar. Só queria que fosse sincero comigo, independente da nossa diferença de classe social e idade.

— Primeiro, por que sou burro quando se trata de amor. Segundo, por que tive tanto, tanto medo, Icarus. Depois daquela noite fui domado pelos meus medos e inseguranças, assombrado pelo meu passado e dor. Não aguentei, tive temor demais. Não vou suportar te perder como perdi Juliano e Gina. E terceiro, a estúpida alternativa que encontrei para conseguir te afastar… era te machucando. Arrependo-me imenso, Icarus. Muito. Por favor, me perdoe, te imploro. Mereço todo seu ódio, toda sua mágoa, mas se existe uma mínima possibilidade, me deixe consertar isso. Deixe-me amá-lo. — O Conde se ajoelhou perante mim e expôs seus sentimentos como se não fosse aquele homem impenetrável que conhecia.

Ele me fez ver todo o seu arrependimento e dor.

Eu o amo. Amo tanto que mesmo que tenha me quebrado, ainda continuo o amando e desejando. E só não me entrego a ele de novo aqui mesmo, porque tenho valor por mim. Manteria o acordo que fiz comigo mesmo.

— Senhor, por favor, levante-se. — Tentei o reerguer, mas o mesmo se manteve firme de joelhos.

— Só me levanto quando me der uma resposta. — Exigiu.

Ele estava bastante decidido, por isso me conformei. Respirei fundo e disse:

— Você não precisava ter feito aquilo comigo, se tivesse me contado o que estava acontecendo, teria o ajudado. É isso que as pessoas que se amam fazem. Se ajudam, se erguem juntas. Posso ser frágil, inocente, ingênuo e jovem, senhor, mas não sou de ferro, nem sou burro, tão pouco fraco, sei muito bem me defender sozinho. Acima de tudo, sou maduro, por que fui criado para ter a cabeça firme, isso implica que sei tomar as minhas decisões do que é bom ou não para mim. — Me ajoelho de frente para ele e o olho nos olhos ao segurar seu rosto com cuidado. — Ser seu criado não significa que poderá escolher por mim. Nunca mais faça isso.

— Reconheço isso agora, Icarus. Tive tempo para refletir e enxergo tudo isso. — Ele me garantiu. — Você não é tão fraco, tão pouco imaturo. Pensei que estava cometendo uma loucura impulsiva pelo seu primeiro amor, mas não, você estava muito ciente do que estava fazendo.

— Heinrich, talvez meus sentimentos não tenham ficado evidentes o suficiente, lhe disse que o amo, o quero. Seja como você for. Vivo ou morto. Inteiro ou em pedaços. — E novamente exponho meus sentimentos. Tinha certeza que naquela noite que me entreguei para ele isso ficou mais do que nítido, pensar que não tenha ficado me deixa chateado.

Comovido, ele tentou aproximar suas mãos do meu rosto, mas o impedi, me esquivando. Não vai ser mais assim. Cometi o erro de ser impulsivo e me entreguei a ele de todo meu corpo e alma, o resultado foi meu coração quebrado. Agora não permito submeter-me a isso novamente, nunca mais deixarei que alguém quebre meu coração assim.

Se o Conde me quisesse, teria que provar.

— Tive muito tempo para pensar. As possibilidades eram as de você vir ou não vir, e, eu ter que seguir em frente sabendo que ninguém mais me teria inteiro como você teve. Confesso que não acreditei na primeira possibilidade, mas aconteceu e já tomei minha decisão.

— E qual é a sua decisão? — Ele quis saber, ansioso, preocupado. Me dava um aperto no peito vê-lo assim.

— Voltarei a ser o seu criado, mas apenas isso. — Deixei claro. — Se quer o Icarus, o senhor terá que conquistá-lo como os homens apaixonados normalmente fazem. Não me entregarei para você de novo até que tenha certeza dos seus sentimentos por mim e sobretudo a certeza absoluta que me quer como sou. Do contrário, seremos Conde e criado, nada mais. Mas se for ficar comigo, também quero conhecer o Heinrich Vollard, o homem que não está morto. Do Conde nada me interessa, senão lhe servir.

— Aceito suas condições. — Respondeu-me de imediato, surpreendendo-me. — Aceito. Vou te mostrar que não sou um monstro, Icarus. Posso te amar.

Sei que pode, meu senhor, mas agora exijo provas. Preciso delas, para restaurar meu coração.

— Então prove, senhor. Prove-nos.

Indique para um amigo