Prólogo
Sua respiração tão suave estava audível, seus pulmões trabalhavam de maneira sútil – inspira pelo nariz, carinhosamente se expira por entre seus lábios avermelhados. As veias salientes pulsavam nos dorsos de seus braços e seguiam caminho até suas mãos. Gostava de admirar sua vitalidade, pulsando por baixo da pele. Vivo. Tão vivo quanto eu. Meu senhor repousava e eu fazia-lhe companhia, conforme gostava que fosse feito.
E sua existência é como um livro novo para mim, gosto de ler seus detalhes e entrelinhas, admirar a obra de arte que se faz viva diante de meus olhos. Cada nova página um novo saber. Meu coração enchia-se de um fervor absoluto, pois amava descobri-lo, como uma floresta desconhecida para se desbravar; um novo conto de mistério para se ler, oceanos incógnitos para descobrir e ilhas perdidas para se mapear. Precisa ir com cautela, mas não é impossível, seus detalhes me prendem a atenção; mas não acampe por muitos dias num só local, ou perderá a oportunidade de seguir adiante.
Gosto de seus olhos, uma vasta escuridão negra, um dia ei de te contar como me senti quando os vi pela primeira vez. Todas as sensações e mistérios dos quais fui envolvido. Não me arrependo de alcançar sua alma através de seus olhos.
Conde, havia mistério quando nos conhecemos e agora que seu rosto tem forma, há mais mistério ainda no jeito enigmático e frio do seu ser.
Embora eu saiba tão bem que és por dentro como uma lareira: caloroso, forte e certamente vivo.
E como se tivesse algum poder, ele sabia que meus olhos devoravam o seu ser, por isso, virou a atenção para mim, de forma que tal atitude ainda podia me surpreender. Seus sentidos aguçados sempre me impressionam.
— Icarus? — Ele me chamou com sua voz em tom grave – levemente rouca por ter se mantido tão calado por longos minutos – enquanto mirava a atenção para o fogo que devora com fome a madeira da lareira. A matéria-prima estalava e faíscas esvoaçantes subiam ao ar, tornando-se a cair ligeiramente quando eram totalmente consumidas, posteriormente deitavam-se sobre o fogo novamente, mas agora em formato de cinzas.
Como uma fênix, tornava a ressurgir, um atrás do outro.
— Sim, meu Conde. — Respondi prontamente, observando a mesma cena que ele.
— Conte-me sobre você. Mas dessa vez, conte-me direito. — Pediu, com mais clareza na voz, ordenou – se eu for sincero. — Conte-me a sua história até agora, Campelo. Até o momento em que nossos caminhos se cruzaram…
Embora não existisse nada de interessante na minha singela história, o Conde jurava que poderia lhe proporcionar algum fascínio. Convicto de que não era a primeira vez que lhe contava. Mas ele insistia em ouvir, repetidamente. Teimava, incansável.
Provável que pedisse tanto porque sabia que a minha história não se resumia apenas a essa que vivíamos. De alguma maneira ele podia sentir os meus segredos. Possivelmente, seus ecos se esbarram nos meus. Nossas vidas estavam cravadas em nossas almas, eis um fato impossível de se apagar.
A verdade é que, no fundo, nós nos lembramos com clareza de tudo já que vivemos, são coisas que pessoas comuns não podem enxergar, necessita-se de uma sensibilidade, uma visão capaz de penetrar nossos ossos.
Contudo, as regras eram claras, eu não podia revelar minhas origens a ninguém. Até mesmo o homem que amo poderia julgar-me como um bruxo, alegando que eu era um servo do diabo, quando, na verdade, só estava lutando pelo nosso destino com a incógnita inacreditável de viajar no tempo para mudar aquilo que não deveras se repetir. No entanto, não poderia lhe contar sobre os segredos de minha alma. É por isso que mais de duzentos anos depois, relato isso em palavras que em conjunto tornam-se páginas do nosso livro.
A nossa história, que só agora, após séculos e ecos, posso descrever o que de fato nos aconteceu. Mas esta é apenas uma de mil histórias que nós dois já vivemos…
Voltando a nossa atual realidade, quem sou eu para negar-te esse pedido tão almejado, no mesmo instante, dispus a lhe contar toda a minha vida novamente até chegar ali. Esbarrando-me nos limites do que era proibido ou não dizer.
Era como se ele esperasse que algum detalhe sórdido lhe fosse finalmente desvendado e se eu permitisse, oh Conde, haveria detalhes escondidos em meu coração o suficiente para lhe deixar espantado. Mas lhe poupo do fardo de carregar meus sentimentos. Minhas verdades são fardos limitados a minhas costas. Por isso, lhe conto, apenas o que me convém contar…
Na alta Colina da Península Anmak.
Aqui jaz a mansão do Conde.
Onde eu sou seus olhos e as suas mãos, nós dois escondemos todos os nossos segredos, por trás de paredes sólidas de madeira e concreto; carne, osso e coração. E ao redor de uma densa floresta de árvores que dançam com o vento… Pelos ecos que sussurram em nossos ouvidos, vindo de passados que ousamos tocar a pele nua um do outro…
Cá estamos nós dois. Nossas vírgulas, parágrafos e ponto final. Mas principalmente, nossos ecos audíveis e palpáveis. Conto-lhe a nossa história… Da qual tentei mudar o destino inúmeras vezes.
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