CAPÍTULO QUATRO
O Conde que vos ordena
26 de Novembro de 1898
Aproximadamente às 9h
Laboratórios de Ciências Biológicas
Anmak, Florianópolis, Santa Catarina
ICARUS CAMPELO
— Abra seus olhos. Icarus?
A voz tornava a insistir e a sua tonalidade alternava gradualmente revelando sua verdadeira natureza. Não era a voz de um homem assim como soava na minha mente, ecoando entre a realidade e o devaneio da escuridão em que me encontrava.
— Icarus Campelo! — A voz ficou mais brava quando senti um sacode rude no meu corpo. — Você só se mete em confusão, moleque. Abra os olhos agora, você está encrencado!
Estou?
Era Ingrid, minha irmã mais velha.
Gemi de dor assim que senti um ponto da minha cabeça latejar, automaticamente levei minha mão até o local e pressionei com força demais, o ponto dolorido fincou e dessa vez meu grunhido veio com um sobressalto quando de vez me sentei num solavanco e encarei meus dedos sujos de sangue.
Droga.
Tudo me atingiu como flash, principalmente quando meus olhos varreram o local onde me encontro e além de encontrar Ingrid com uma expressão ácida, totalmente brava, também encontro o olhar de Gilliard Cesarini, trajando seu uniforme de costume. Azul, amarelo com detalhes dourados e o brasão da nossa península, bordado na farda. Estou diante do General das Forças Armadas de Anmak.
De fato, estava encrencado.
“Dá próxima vez, não irei perdoar”, ele havia me alertado, mas fui pego de novo e a expressão dele era a pior possível, ele não se esqueceu do que disse e pior que isso, iria o cumprir.
— Até que enfim! Achei que a pancada tinha esfarelado seu cérebro de vez! — Minha irmã me deu um beliscão no braço e choraminguei tristonho, massageando o local imediatamente. Em seguida, Ingrid segurou meu rosto e analisou o machucado. No fundo, ela estava preocupada, sei disso, mas isso não excluía o fato de que estava arrasada comigo.
Do outro lado da sala um jovem soldado me olhava atento, extremamente preocupado, talvez com remorso. Presumo que ele seja o responsável pelo ferimento na minha cabeça.
— Você quase rachou o crânio do meu irmão! — Ela bradou irritada indo na direção do guarda, Gilliard a impediu no meio do caminho segurando seu pulso, posteriormente ela o olhou igualmente irritada.
Ingrid era claramente conhecida por ter pavio curto.
— Ele é novo e sinceramente, não o culpo, o Soldado Elon estava fazendo o seu trabalho. Por deus, Srta. Ingrid, não menospreze os erros do seu irmão. — Gilliard caminhou até mim irritadiço e me encarou colérico. — Icarus invadiu a área restrita pela terceira vez e, exclusivamente hoje, o Conde está aqui, visitando o Laboratório. Está claro que o soldado o viu como uma ameaça à qual ele realmente estava aparentando ser.
Merda, o Conde estava visitando a área restrita? É por isso que havia mais guardas que o habitual.
— Escuta aqui, o meu irmão não é uma ameaça para ninguém! — Ingrid foi logo me defendendo e agora ela ia para cima do Gilliard apontando um dedo contra seu peitoral e encarando-o, cara a cara. Minha irmã está desafiando uma autoridade, meu deus, não tem como esse dia ficar pior? — Icarus não fez nada de mal para ninguém, ele só estava-
— Roubando, senhorita. Ele só estava roubando os bens da nossa península. Pisando em solo restrito e sobretudo colocando a segurança do Conde de Anmak em risco! — Gilliard bradou de volta e Ingrid baixou a guarda, não tinha mais argumentos para me defender e ela não deveria sequer estar tentando.
Eu estava mesmo roubando, mas por uma boa causa. Sou um menino bonzinho, se fiz isso, acredite em mim, foi porque realmente precisava.
— M-me d-desculpe- — O soldado gago pelo nervosismo foi quem quebrou o clima tenso, mas seu chefe ergueu uma palma sinalizando para ele parar.
— Você não deve desculpas, Elon. Inclusive, está dispensado, volte para seu posto imediatamente. — Gilliard disse, firmemente.
O soldado curvou-se e antes de deixar a pequena sala da enfermaria me olhou penoso, como se mostrasse o quanto arrependido estava por agredir um menino inocente.
Quando o soldado sai, Gilliard volta a me encarar e se tem uma coisa que ele é bom, é em persuadir, me borro de medo só com esse olhar maldoso dele. Não é só por ser o General, mas ele tinha perfeita e esculpido o semblante rude. Seus olhos exalam insensibilidade. Até seu cabelo negro e levemente grisalho, junto a barba espessa que contornava seu maxilar rígido, o corpo robusto… formava o visual de alguém que lhe queria o mais distante possível de si.
— Não posso deixar passar novamente, Icarus. Você vai precisar pagar por seus delitos. — Esclareceu o líder.
— Senhor, me desculpe, eu só estava-
— Pegando ervas para sua avó doente? Esse seu discurso está ultrapassado, já conheço de cor e sorteado, Campelo. Você pensa que está enganado quem? — Sua voz aumentava de volume e até Ingrid estremecia amedrontada num canto da sala. — E você? Acaso tem algum envolvimento com esse ladrãozinho do seu irmão?
Arregalo meus olhos grandemente e dessa vez é a minha vez de proteger a minha irmã.
— Não, não senhor. Ingrid não sabia, ela não tem nada a ver com isso. Eu juro! — Falei até mesmo ofegante de medo, não era justo que ela fosse incluída quando não tinha nenhum envolvimento.
Minha irmã trabalhava no laboratório de pesquisa de Anmak, mas como uma criada, apenas limpando o local. Ela não tinha como e nem autorização para me colocar aqui dentro para realizar os meus furtos. E mesmo que pudesse jamais pediria isso para ela.
— É bom que seja verdade. — Disse ele, em seguida me encarou novamente, sua expressão dura, estava muito pensativo. Provavelmente planeando meu destino, cujo para minha infelicidade, estava em suas mãos. A minha punição. — Ingrid, despeça-se de seu irmão, ele vai trabalhar nos navios do exército de agora em diante.
O pior destino a qual eu pudesse ser submetido.
Minha irmã mais velha esboçou uma expressão de espanto, nunca mais veria minha família. Nunca. As lágrimas invadiram meus olhos com força e Ingrid compartilhava o mesmo olhar comigo. E antes que pudéssemos dizer qualquer coisa a porta se abriu e uma figura misteriosa se fez presente.
Ele.
O Conde de Anmak.
Heinrich Vollard.
Usando um terno preto impecável, totalmente enigmático; suas mãos são cobertas por luvas de couro a quais já me são familiares; em sua mão direita havia um bastão prata com a cabeça de um tigre na ponta – o felino possuía olhos vermelhos como rubi que brilhavam enquanto ele manuseava o objeto que auxiliava-o a andar.
Fato é que ninguém vê o Conde, absolutamente ninguém, desde a invasão de Campos Elísios, sete anos atrás.
Ele é aquele que dá medo em todos, mas contraditoriamente também é o que cuida dos que o temem. O nosso Conde se sacrifica por nós e transforma a península num lugar cada dia melhor. Nesse quesito não podemos questionar, na verdade, somos gratos, por isso sequer cobramos suas aparições em eventos importantes e respeitamos sua escolha.
Mas agora ele estava ali, diante de mim, o homem que desde criança apenas ouvi falar, tudo que sabia eram especulações que o povo bem dita. E aqui está, o temido Conde, usando seu impecável terno preto o qual é praticamente sua assinatura – dizem que usa o preto pelo seu eterno luto desde a última batalha tão cruel, onde sua esposa foi assassinada.
Poucos os viram e poucos o vê. Mas todos são imensamente gratos a ele, embora pregassem ser um homem pétreo.
Nunca me esqueceria da primeira vez que o vi. O momento me vem à mente, para minha surpresa não era essa na qual nos encontramos presente.
E o Conde é tão, tão bonito que parecia uma miragem. Seus fios de cabelo são intensamente escuros, dois feixes de fios brancos partem das entradas de sua testa e se unem aos demais sedosos, brilhantes e belos. O cabelo é grande, alcança sua nuca e é perfeitamente penteados para trás, bem fixados para que nenhum fiozinho escape e fique desalinhado. Certamente as mullets eram seu charme, uma gracinha com as pontinhas fazendo uma voltinha charmosa. Seu rosto parecia ter sido esculpido pelo artista mais talentoso do mundo, os traços eram perfeitos e as rugas eram poucas, uma beleza nunca vista antes, com uma simetria maravilhosa. E a barba por fazer, era como uma pintura em seu rosto, dando-lhe uma aparência vigorosa tão incrível. A sua pele não era clara, possuía um tom bronzeado apaixonante que em contraste com seus olhos miúdos de cor escura, assumia um equilíbrio de tirar o fôlego.
Esculpido minuciosamente, como um deus.
Se me dissessem que ele é o homem mais lindo do mundo, eu acreditaria.
Seus olhos enigmáticos pararam sobre os meus e juro que naquele momento ele lia minha alma inteira. Mas a surpresa que domina meu coração é muito maior, realmente já vi seus olhos antes e foram incontáveis vezes.
A primeira certeza é que o vi em meus sonhos.
E a segunda certeza é que a meia-hora atrás, era ele quem estava no jardim…
— Irmão, não deveria estar aqui. Estou resolvendo o problema que esse garoto causou, não há com o que se preocupar. — Gilliard foi logo dizendo assim que ele entrou na sala.
— Sei que são seus assuntos, mas estou curioso. Por conseguinte, fiz o guarda lá fora me contar tudo que está acontecendo e, acredite, ele me deu cada detalhe com muita facilidade. — Ele relatou, revelando finalmente a sua voz grossa e cheia de seriedade. Até meu último fio de cabelo se arrepiou. — Não julga que aquele garoto lá fora é inexperiente demais para um cargo tão importante?
— De fato, já que ele está começando agora, mas têm futuro, lhe garanto. Afinal, entendo do meu exército. — Gilliard respondeu, pouco rude, mas já deixando claro que isso dizia respeito a ele.
O Conde esboçou um sorriso quadrado um tanto sarcástico, exibindo uma fileira de dentes perfeitos e pouco amarelados. Seguidamente, assentiu, dando por fim esse assunto e claramente não se envolvendo onde não lhe diz respeito.
— Mas se me permite me meter na situação diante de nós, trabalhar nos navios do exército, irmão? É um destino um tanto cruel para um garoto com pouca experiência e habilidade. — Ele me olhou a fundo, analisando agora o meu porte físico que era o pior possível para um trabalho tão pesado. Eu era baixo, magrelo, desnutrido e sem nenhum músculo firme sequer. — Talvez ele me seja útil, e nada mais justo que ele pague a mim, pelo que me roubou. Se não se importar que decida seu castigo.
— Certamente que não, irmão. Se ele lhe for útil, faça o que quiser, contando que o mantenha ocupado para que não me atormente mais. — O General respondeu duro e o Conde se aproximou de mim, sorrindo ladino com seus lábios finos, tão perfeitos.
— Tenho algumas perguntas para você, Icarus.
Aí, minha santinha.
Ele sabe meu nome e a forma com que pronúncia faz meus pensamentos se resultarem em pó.
Meu destino estava nas mãos dele agora…
Contudo, antes de contar-te como meu destino mudou totalmente de rota e cruzou-se com o Conde da península que vivo, preciso te contar como vim parar aqui…
[algumas horas antes]
Sempre penso em coisas que me transmitissem paz, antes de abrir os olhos para um novo dia. E hoje não foi diferente.
Imaginei meus pés pequenos, meus dedos gordinhos se afundando na areia da praia, a sensação de aconchego. Quando penso na minha doce infância me lembro do oceano. Para começar uma história, bem diz o Conde – o rei dos livros e das estórias – que nós devemos começar pelo começo.
E começo por aqui…
Nasci e cresci próximo do mar, em uma península singela da qual chamamos de Anmak, localizada no litoral do estado brasileiro de Florianópolis. Embora todos fossem dolorosamente pobres demais, vivíamos bem e de forma harmoniosa. Subindo a colina encontravam-se os ricos, donos de navios dos quais lhes davam a capacidade de exportar e importar, tornando-se os mais bem sucedidos.
Pobreza nunca foi sinônimo de tristeza para os habitantes de Anmak, afinal, tudo aqui é uma calmaria pacífica, pelo menos vem sendo nos últimos sete anos. O vento carrega cheiros, traz consigo o gosto da água salgada e a brisa fresca. Gosto dos sabores, gosto da maré, da cor do céu e dos pés em contato com a areia quente.
Se eu puder fazer um pedido em meu último dia de vida, pediria para visitar a Praia do Coral novamente, para repousar meus pés cansados sobre a areia fina e aquecida pelo sol. Seguidamente, assistiria o sol se pôr, como tantas vezes tive o privilégio de assistir. E se isso, esse pequeno detalhe, não remete a estar vivo, então desconheço o que de fato é viver. Se isso não se resume à felicidade, jamais serei conhecedor desse estado de espírito.
Mamãe nos acordava cedo quando era dia do papai voltar do mar, e ele vinha lá do horizonte onde se faz o encontro de céu e oceano. Papai vinha acenando da proa do barco junto de todos seus companheiros de embarcação. Ingrid me colocava sobre seus ombros – embora fosse gorducho, ela o fazia –, assim eu não era engolido pelas pessoas ao nosso redor e podia ver o imenso barco se aproximando.
“Acene, Icarus, papai está chegando”, dizia minha irmã mais velha. Eu ria e acenava para o nosso papai, nós e todos os vizinhos que possuíam familiares no mar, ficávamos ali no cais esperando a embarcação que traria os homens de volta, após a longa jornada de trabalho.
Meu pai passava um mês no mar, voltava por algumas semanas e logo tinha que embarcar para longe novamente. Às vezes, mamãe chora quando dorme com medo do papai não voltar. E quando tem tempestade ela passa a noite ajoelhada, pedindo ao Homem do Céu para proteger meu pai. Eu também peço para o Homem do Céu e meu pai sempre volta.
Papai era filho de pescador, e o mesmo destinou-se a ser. Mas não tinha vontade nenhuma de seguir o legado dos homens da minha família. A verdade é que nunca soube o que seria, mas sabia que não seria um pescador. Meu pai disse que está tudo bem, nem todo homem nasce para desbravar oceano, cada um constituí seu destino e ele sabia perfeitamente que este não era o meu. O mar, para mim, sempre foi algo para se admirar de longe, banhar na beira e só.
Contudo, embora tenha lhe dito, não é sobre isso que desejo falar. Minha infância foi boa, foi tranquila e meus pais se esforçaram para tal. Mesmo que papai ficasse tão longe às vezes. E mesmo que tantas vezes o povo de Anmak estivesse sob ameaça, pelos inimigos que insistem em atacar nossa ilha e nos tirar o que mais temos de preciso. Ainda com esse detalhe difícil, tive uma infância boa.
Minha vida sempre foi monótona demais, mas diante dessa rotina constante, não éramos engolidos pelo enfado, porque não permitimos. Estávamos sempre alegrando uns aos outros, essa companhia tão calorosa nos mantinha vivos e felizes, prontos para enfrentar nossos dias de mesmices.
Pois, como disse, cresci de modo difícil, mas cresci bem. Meu primeiro emprego foi aos dez anos, ajudante de ferreiro. Passava o dia todo derretendo diante do fogo árduo da fornalha enquanto o Seu Manuel derretia o ferro e dava forma para ele.
E assim fui por muito tempo, de emprego em emprego. Fui ajudante de tudo quanto é gente na nossa península, do ferreiro ao padeiro, do construtor até o jornaleiro; ajudando minha família e consequentemente permitindo que papai trabalhasse menos, assim ele ficava mais conosco, embora em suas folgas arranjasse sempre um trabalho avulso para cobrir o outro do qual descansava.
Mas esse vai em vem em empregos, tornou-me ágil e inteligente, aprendia rápido e fazia tudo que me designavam com maestria, destacando-me por isso. Entretanto, mesmo me esforçando tanto, não era o suficiente para poupar-me da demissão.
E foi assim… Até então.
Os Campelo me criaram dessa forma, trabalhador e valorizador dos resultados de seu esforço. Carinhoso, simples, menino de coração grande e puro, tão família. Feliz, com o pouco que tem. Aprecio isso, por eles terem me passado tamanha pureza.
Mas confessar sermos felizes, não quer dizer que não passamos por perrengues, pois sobrevivemos a vários. Exatamente, sobreviver, era um dia após o outro com a imensa possibilidade de morrer de fome, de frio, assassinados por uma invasão, ou até mesmo, de frustração.
Mamãe já orou tanto ao Homem do Céu pedindo por algo bom na nossa vida que, ainda naquela primavera Ele finalmente decidiu atender, de tanta insistência. Embora tenha demorado um bocado, finalmente aconteceu…
Dia 26 de Novembro de 1898, era sábado, fazia sol, o céu não possuía nenhuma única nuvem. Nunca vou me esquecer, mamãe e Ingrid certamente nunca se esqueceram dessa data também.
Afinal, foi o dia que o Conde me contratou.
Se puder te adiantar, digo-te que não imaginava que aquele ato tão comum, quanto o de ir até à área restrita e pegar algumas ervas – das quais não tenho autorização – fossem mudar minha vida para sempre.
E se for realmente sincero, nem em meus sonhos mais secretos imaginaria o que estava mesmo a me esperar.
Dizem que livros clichês pregam sobre o amor, suponho que minha história não vai ser diferente. Tudo começa com miséria, mas termina com amor. Se pudesse dizer ao Icarus de dezoito anos o que o esperava naquele dia, ele jamais acreditaria.
Icarus Campelo de dezoito anos, você não sabe o que lhe foi reservado e se ao menos imaginasse, enlouqueceria. O que tenho a te dizer de todo o coração é: aproveite cada momento como se fosse o último, viva sem medo, tenha coragem e firmeza. Icarus Campelo, quando o amor bater na sua porta, por favor, abra-a e entregue-se. Não encontrará nada mais verdadeiro do que viveu na Colina da Península Anmak.
Mesmo desprovido de riqueza, a formosa Lady Selene Balfour – a mulher para quem mamãe trabalha – já dizia que eu tinha classe para morrer em berço de rico, por causa da minha beleza que não passava despercebida e da educação que meus pais fizeram questão em me dar.
Aos dezoito anos, eu era um jovem garoto comum. Não sou perfeito, além do que já citei anteriormente, também tenho os dentes frontais tortos, sou cheio de manchas estranhas nas costas, mas mesmo assim o povo me acha bonito.
“Se fosse mulher suas irmãs estariam ferradas, você roubaria todos os homens que batessem na sua porta”, diziam as amigas de mamãe. Eu tinha o cabelo mais claro, enrolado e era o único da família com a cor olhos mais claros, é um verde intenso e sutil, como oliva. Para eles isso era beleza.
Cresci sendo o único filho homem de uma família com quatro mulheres e dizem que nasci mais bonito do que todas as minhas irmãs. Embora, eu não concorde com isso, para mim elas são as mulheres mais lindas que já vi na vida. Mamãe é a mais bela de todas. A nossa rainha.
Somos cinco ao todo, eu sou o terceiro filho. E ainda tem o cachorro, chamado por Costelinha – ele invadiu o barco para se esconder, papai o encontrou e o trouxe para casa. Estava tão desnutrido que só se via as costelas, e assim derivou seu nome. Podíamos ser pobres, mas éramos felizes e, principalmente, havia amor em cada cantinho da nossa velha casinha.
Como contei, meus pais sempre trabalharam muito para criar a gente, minhas irmãs e eu também começamos a batalhar cedo. E mesmo que fosse sôfrego, de noite quando todos nós chegávamos exaustos em casa, tomávamos banho e comíamos em volta da lareira. Depois, dormíamos juntos, um do lado do outro, às vezes até mesmo de mãos dadas. E assim… é como se tudo valesse a pena. Todo o esforço doloroso, como se tudo fizesse sentido porque estávamos nos braços um do outro.
“Vamo, Icaru. A vó pioro, precisamo q’ocê faça aquilo de novo.” — Disse minha mãe, naquele dia. Levantei cedo, antes do galo cantar e fui.
Vovó Elvira estava muito, muito doente, mas tinha um chá em específico que fazia bem para ela. No entanto, essa erva não se encontrava em nenhum lugar acessível, senão na área restrita de Anmak, perto do vulcão inativo, onde se faz a construção do prédio que atua como laboratório dos cientistas. Eles vieram lá de fora para estudar nosso tesouro.
Coisas muito importantes acontecem ali, e os moradores não tem nenhuma informação sobre. Só sabíamos que naquele local – onde a terra é fértil o suficiente para gerar plantas desconhecidas – está a exótica flora que torna a nossa ilha tão preciosa.
O antigo Conde, Tyrone Vollard, fundou um laboratório de pesquisas quando a velha curandeira de nossa cidade descobriu um pouco do poder daquilo que eles tanto pesquisavam. Dona Madalena – a nossa curandeira, que Deus a tenha – usava uma das flores para fazer o chá que fazia a vovó sentir menos dores. Eu era responsável por pegar essas plantas, por ser jovem, esperto e rápido (às vezes). Tinha que roubá-las, já que ao tentar plantar as mudas não germinam, parece que apenas a terra da área restrita é capaz de fazê-la crescer.
Por isso, toda vez que nossa curandeira precisava, ia até lá para pegar o que quer que fosse necessário. Este tornou-se meu emprego sem remuneração do qual fazia porque realmente queria ajudar as pessoas. Pode-se dizer, de passagem, que cheguei a trabalhar de curandeiro também, ajudando a Madalena.
Se for sincero, não sentia como se tivesse furtando, mas qualquer um que visse, alegava que eu era um ladrão. Se sou ou não, não me importava, só interessava cuidar da vovó.
No entanto, naquele dia, não esperava que tudo fosse dar errado, mais errado do que já havia dado antes.
Nem mamãe esperava…
Já havia sido pego duas vezes antes e fui levado até o General que, nas duas vezes, pela minha pouca idade e inocência, me libertou. Mas agora, como prometido, ele não iria me perdoar.
Exceto pela intervenção de alguém superior a ele.
Depois que atravessei o buraco do muro, como sempre fazia, caminhei pelo jardim vazio procurando a florzinha amarela que precisava. De repente, ouvi vozes de pessoas se aproximando, desastrosamente subi em uma árvore e me escondi ali entre os galhos. Fiquei imóvel. Era Gilliard, acompanhado de um homem de jaleco branco – os típicos cientistas – e juntamente do homem de preto.
O homem de preto era ele, o Conde. Eu sabia que era por causa da descrição certeira da sua aparência que percorria a boca do nosso povo. E fiquei ainda mais petrificado.
Eles andavam devagar e falavam de investimentos no laboratório. Sinceramente, não prestei atenção na conversa, o medo de ser pego era muito maior.
Outrora, quando estavam passando pela árvore, juro que senti os olhos dele sobre mim, como se pudesse realmente sentir que estava ali. As folhas não podiam me cobrir totalmente, estava ciente disso.
Em sua mão esquerda – coberta pela camada de couro – havia um relógio de bolso muito antiquado que ele abria e fechava a tampa repetidamente, enquanto na mão esquerda segurava o típico bastão prata.
Podia ouvir o click da trava da tampinha do relógio daqui, quando fechava-a e o tranca simples era acionada. Nada dizia para suas companhias, apenas ouvia.
E, por deus…
Ele estava me olhando.
E seguidamente, seu olhar se direcionou para o objeto em sua mão e ele deixou deslizar para o chão, de propósito. O relógio caiu sobre a terra macia e eles se foram.
É insano pensar que havia feito isso para que eu pudesse pegar o objeto. Não é como se meu instinto desconfiado e curioso, pudesse resistir. E assim que foi seguro, foi exatamente o que fiz. Desci da árvore e me abaixei para pegar o que ele deixou cair. Minhas mãos trêmulas acariciaram a tampa tirando a terra que o sujou.
Pela primeira vez na vida estava segurando uma coisa tão cara, e quando abri fiquei deslumbrado com a beleza. Podia ouvir as engrenagens funcionando devagar e por um momento pensei ter fantasiado na minha mente o rosto de uma mulher, mas não pude dar atenção, dado que ouvi um galho se partindo ao meio. Só deu tempo de deslizar o relógio para dentro do bolso da minha calça e no segundo seguinte senti uma pancada forte atrás da minha cabeça.
Desmaiei.
E foi assim que vim parar aqui.
Diante dele.
Aquele que ditaria meu destino, mais especificamente a minha condenação.
— Tenho algumas perguntas para você, Icarus. — Ele disse e ajustei minha postura na cama, embora meu corpo estivesse mole mais pelo desespero do que pela pancada que levei. — Mas antes, responda-me quando eu lhe dirigir a palavra. — Ele exigiu num tom rude.
— S-s-sim, sinhô. — Minha voz saiu trêmula demais e tão baixa que só senti mais medo, encolhendo meus ombros tensos.
— Fale mais alto. — Tornou a exigir. — Preciso ouvir sua voz.
Engoli seco e me concentrei, tinha que parar de ser medroso. Onde já se viu um ladrãozinho que tem medo até da própria sombra?
— Sim, senhor! — Dessa vez até as palavras saíram corretas e num tom que preencheu o lugar.
— Olhe para mim enquanto falo, Icarus. Pelo céu, você não tem educação? — O Conde parecia impaciente e rude.
Não havia sequer percebido que por todo esse tempo estava de cabeça baixa encarando minhas mãos em meu colo. Só para não olhar no rosto intimidador. Mas assim que ele falou, imediatamente ergui meu rosto para encarar o dele, se tem uma coisa da qual me orgulho é da educação que recebi.
— Tenho educação, sim, senhor.
O Conde esboçou um sorriso mínimo assentindo em satisfação.
— Ótimo, portanto, me responda, quantos anos você tem?
— Dezoito, senhor.
— Sabe escrever?
— Sim, senhor.
— Portanto, presumo que você também saiba ler?
— Sei sim, senhor. — Engoli seco antes de acrescentar. — É um dos meus passatempos favoritos, mas infelizmente não tenho muitas oportunidades de o fazer.
O Conde me encarou com firmeza e assentiu, acreditando em minhas palavras e talvez no fundo esteja satisfeito. Felizmente fui um dos privilegiados da minha família em relação aos estudos. Minha mãe, por exemplo, não sabe ler. Minhas duas irmãs mais velhas perderam anos de escola por causa dos ataques que sofremos, já eu e as duas mais novas conseguimos concluir os estudos.
Após responder suas três perguntas tão importantes para ditar meu destino, ele virou-se para Ingrid.
— Seu irmão é honesto?
— Sim, Milorde, ele não está mentindo. Embora o tenha conhecido em condições que contradizem isso, Icarus é um ser humano muito gentil. Cheio de carinho, esperteza, agilidade, inteligência e muita alegria. Ele é o mais inteligente da nossa família. — Ingrid falava de mim com orgulho e ela sorriu sinceramente para mim que retribui seu sorriso, muito feliz.
— Certo, se ele é tão prodígio como diz, está plenamente apto para a função que irei lhe designar. — O Conde concluiu, seus passos firmes voltaram-se na minha direção e ele caminhou, batendo aquele bastão no chão. Cada baque fazia meu coração saltar ainda mais amedrontado e um sopro frio arrepiava-me. Por fim, parou próximo ao meu corpo. — Você vem comigo. A partir de hoje você vai viver na colina e será meu criado. Sua função além de servir o seu Conde, é ser os meus olhos e as minhas mãos. — Ele disse simplesmente e finalmente se afastou de mim.
— Mas, irmão, confiará que um ladrão viva consigo? — O General Cesarini o lembrou do que eu realmente era diante deles.
— Você sabe que vou dar um jeito nisso, além do mais, duvido que Icarus seja burro o suficiente para roubar debaixo do meu nariz. — Ele respondeu já abrindo a porta, mas parou e olhou para minha irmã. — Ingrid, leve seu irmão para casa e o prepare. Icarus, — seu rosto virou na minha direção — faça uma mala simples apenas com os seus itens indispensáveis, amanhã cedo uma carroça irá os buscar e o levará para o casarão. Sugiro que se despeça de sua família e não ouse tentar fugir, ou não pouparei da punição que realmente irá merecer.
— Sim, senhor. — Respondi sem pestanejar, afinal não estava em posição de ir contra as ordens e vontades do próprio Conde.
— Como quiser, Milorde. — Ressaltou Ingrid, trêmula.
— E ah, — o Conde a olhou novamente — enviarei uma carta para seus pais em breve, mas de início informe sua família que nada faltará para seu irmão, não é necessário que se preocupem.
E foi essa informação que, inicialmente, me fez ver que o Conde não era de todo tão ruim como pregavam. Ele ainda se preocupou com a dor e insegurança que minha família poderia sentir do momento em que eu fosse embora para o servir.
Por fim o Conde deixou a sala da enfermaria batendo o seu bastão firmemente contra o chão enquanto caminhava, isso era assustador.
O General Cesarini me lançou um olhar fatal antes de deixar a sala e ir atrás de seu irmão. Ingrid ainda estava em choque, me observando com os olhos esbugalhados.
— Você ainda consegue se safar, mesmo quando entra em problemas. — Ela disse meio avoada, piscou os olhos e finalmente se moveu. — Se isso não é sorte, desconheço o que é. — Ingrid soltou os ombros e respirou fundo. — Vamos para casa dar as boas novas, mamãe vai ficar arrasada.
E como ela ficaria. Entretanto, não havia mais nada que pudesse ser feito. No fundo, nós sempre tememos que isso aconteceria.
Sendo assim, apenas concordei e a segui para fora, imerso em pensamentos, ainda tentando digerir o que me aconteceu. Não vimos o Conde e nem o General enquanto deixávamos o laboratório. E eu não estava levando as ervas para a vovó, mas havia algo queimando em meu bolso.
O relógio.
Aliás, também não pude dar atenção a ele naquele momento, Ingrid me encheria de perguntas se o visse, poderia até pensar que roubei e como já estava encrencado o suficiente, escolhi o silêncio.
Durante todo o trajeto até a nossa casa, Ingrid e eu não trocamos uma palavra sequer. Montados no burrinho – o único meio de transporte que nossa família tem – comigo grudado em seu corpo abraçando-a fortemente, já imaginando que seria um dos meus últimos abraços. E mesmo que eu merecesse uma bronca vinda da sua parte, ela não me deu. O clima entre nós era verdadeiramente assustador.
Como temíamos, mamãe e vovó ficaram inconsoláveis. Até o Costelinha ficou triste. O clima na minha casa era de luto, piores do que os dias que papai partia para o mar. Era como se alguém tivesse morrido.
Ficamos sentados ali na sala por horas, calados, apenas sentindo a dor. Ninguém chorou, porém quando papai chegou em casa, foi ele quem derramou as lágrimas. O que surpreendeu todo mundo. “Meu menino”, ele chorou me abraçando.
Estavam tristes, mas no fundo aliviados, pois sabiam que era um bom emprego. Todavia, nos separar causaria uma dor enorme.
Sozinho, quando fui dormir, segurei o relógio com força. Sinto que ele me deu isso. Sei que deu. Creio que soubesse que estava ali na árvore.
Me separar da minha família me causava dor sim, não imaginava os meus dias longe deles, mas conseguia me visualizar vivendo com o Conde, servindo-o com todo meu coração. E não conseguia evitar a ansiedade de saber que em breve estaria com ele.
Heinrich Vollard.
Você me tira o sono, me causa ansiedade e me deixa bobo. Existe algo em você que me atrai. E o resultado de tantos sentimentos como estes, é o medo.
E foi assim que fui designado a me tornar o seu criado.
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