CAPÍTULO CINCO

Os seus olhos e as suas mãos

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Eu tinha segredos que não podia contar para ninguém. Mas isso é algo que todo mundo tem. Todos escondem algo dentro de si. Até mesmo aquele que caminha entre as pessoas com a expressão mais inocente possível – talvez esses, os ingênuos, sejam os piores.

Os meus segredos são algo do qual me envergonho, se trata de um fato absolutamente abominável. Se os contar para alguém, certamente morrerei. Seria enforcado ou decapitado vivo em praça pública. As pessoas gritaram “ele precisa morrer! Ele precisa morrer por que deseja homens.

Para você, querido diário, posso contar minhas verdades.

Desde que me entendo por gente venho sonhando com um homem.

Os sonhos nunca são os mesmos, estamos sempre em momentos aleatórios, mas sinto prazer quando seus olhos estão sob meu corpo e suas mãos me tocam de um jeito que sei que o pertenço.

Ele me olha como se me amasse de um jeito inexplicável. A verdade soa em cada palavra que ele me diz. E acreditando, me apaixono por ele toda as vezes que o vejo.

É algo maior do que o meu ser.

Singular. Inevitável.

Embora sonhasse com um homem que me deixava sexualmente louco e impuro, ainda assim, desejava algumas garotas do meu vilarejo. Era só algo comum, como: eu a beijaria. Não sentia nenhuma atração sexual ainda, mas não me arregaria em deitar com uma.

Entretanto, ao contrário dos sentimentos que posso sentir por mulheres, nenhuma delas me deixam tão quente quanto o homem nos meus sonhos.

Compreender esses sonhos e os sentimentos que ele me traz está fora da minha capacidade, não há nenhuma explicação justa para justificar o desejo que sinto quando tenho esses sonhos. Aqui em Anmak, nunca olhei para um homem e o desejei. Nunca. Já até beijei uma menina e achei bom. Mas nenhum homem me despertou essa vontade. Contudo, a exceção se resumia aos sonhos que me visitavam.

Eu sou um pecado.

Hoje, tenho propriedade emocional para assumir isso sem me auto mutilar internamente, mas houve épocas que esses sonhos e esses fatos me fizeram questionar meu amor por mim mesmo. O que resultou em pensamentos que me envergonho ainda mais de lhe contar. Por causa dessa insana vontade dentro de mim, por várias vezes cogitei tirar minha própria vida. Seria menos sôfrego para minha família do que me verem sendo executado em público.

Isso queimaria não só a minha reputação como a de meus pais e irmãs. Era algo que não queria, sujar o nome deles, pelos meus desejos sexuais imundos.

Contudo, hoje estou muito bem resolvido. Compreendi que não precisava contar meus segredos para ninguém. Eles morreriam comigo assim como os meus desejos.

“Prometo com todo meu coração que nunca vou sair do seu lado. Se um de nós morrer, então morremos juntos”, às vezes o meu consolo vinha em sonhos. Mas não podia me dar ao luxo de acreditar em sua promessa, não havia ninguém ao meu lado fisicamente para me dar a mão quando cortarem minha cabeça.

E estava convicto que quando minha hora chegasse, naturalmente como todos são destinados a morrer, me lembraria das palavras do homem dos meus sonhos.

Não posso negar que não gosto de ser um pecador. No início, fiquei assustado. Depois, sonhar com ele tornou-se uma de minhas necessidades. Quando acordava de um sonho, rijo, no meio da noite; permanecia imóvel sobre a cama, com vergonha de me tocar para aliviar a tensão no meu íntimo. Encarava o teto, visualizando seus olhos e sua voz suave. O calor passava e eu voltava a ser quem era. Um menino pobre, mas com uma família cheia de amor e que trabalha muito para sobreviver. E que jamais deveria falar sobre isso.

Nem todos os sonhos eram eróticos, também sonhava com momentos pacíficos. Era como um livro de romance, apesar de que só tenha lido um em toda minha vida. Sabia que o que vivia em meus sonhos era o verdadeiro amor – embora qualquer um que ouvisse isso fosse contradizer alegando ser pecado.

Não vejo como profanação, não me condeno ao inferno por amar alguém com todo meu coração e ser retribuído na mesma intensidade. Mas isso estava além da compreensão das pessoas, estava convicto. Esse amor, tão puro e verdadeiro, capaz de o gênero ser somente um detalhe, está além do que a humanidade é capaz de amar.

Alguns seres humanos não foram feitos para suportar todas as nuances do amor, por isso eles repreendem aquilo que não são capazes de compreender e tão pouco sentir.

Humanos são deficientes de afeto e respeito. E isso são coisas que nunca vão mudar. Sempre terá essa negação dentro de alguém. E nós, que somos capazes de amar e respeitar, que não nascemos com defeitos, temos que sobreviver.

“Eu estou te esperando, mon amour”, ele dizia. E como poderia não desejar atender? Parecia impossível ignorar os sentimentos que ele me transmitia. “Quando você abrir os olhos, vou estar aqui”, ele me ama. Não sei de que dimensão esse homem é, talvez apenas um fruto da minha imaginação, mas não posso negar que a coincidência dos olhos semelhantes ao do homem que recentemente conheci.

Quando vi o Conde no jardim, não associei aos meus sonhos de imediato. O medo de ser pego não me permitiu, apesar de ter sentido um calafrio na minha alma. Mas na enfermaria – mesmo que a circunstância não tenha me dado tempo para raciocinar – reconheci seus olhos e alguns traços de sua face.

O rosto dos meus sonhos ganhou forma. As mãos que me tocavam pecaminosas em minhas fantasias, tornaram-se reais.

E agora que estou sozinho no escuro da noite, posso assumir esses fatos que me assombram com força. Estou em choque, paralisado.

Isso significa que eu sonhava com o Conde Heinrich antes mesmo de o conhecer? Certamente não posso compreender a complexidade da minha mente. Seria um fato inumano? Inexplicável ou talvez até mesmo espiritual?

Fato é que, em todas as versões que sonhei com um homem, todas as características físicas dele eram similares. Ou seja, o mesmo homem em diversas versões e ramificações de tempo, vestimentas, locais e tratamentos.

Tinha um que até mesmo me chamava de Petit e me elogiava por usar um vestido. Nos sonhos, nunca, nunca mesmo via meu próprio corpo por completo. Portanto, não sabia quando eu era homem ou mulher. Só sabia que em alguma dimensão dos meus sonhos, um homem estava esperando por mim.

Um homem como o Conde estava esperando-me acordar. Quem é esse homem e onde ele está?

Parece que essa resposta está longe demais de mim e me preocupo com a minha atual realidade, um homem de carne e osso que está verdadeira e fisicamente próximo de mim.

Tão próximo que… poderei o tocar.

Mas não o farei, a não ser que eu deseje a morte.

Por mal conseguir fechar os olhos durante a noite, me levantei cedo naquele dia. Tinha algumas últimas horas com a minha família, por isso, da forma mais silenciosa possível, cozinhei o café da manhã favorito de minha mãe. Pães de batata, geleia de morango, café passado na hora, castanhas e frutas. E Chimarrão para meu pai, que gosta de algo forte logo cedo.

Mamãe vai sentir tanta minha falta, pior que isso, quem roubaria ervas para neutralizar as dores da vovó? Não era justo ser tirado da minha família, mas eis que isso aconteceu e agora não tinha escapatória. Em algumas horas, eu subiria a colina e ocuparia meu cargo de criado do Conde de Anmak.

E isso tudo ainda parece um sonho.

Mesmo que eu não fosse parar em um navio das forças armadas de Anmak, iria para mansão do Conde, onde também seria afastado da minha família. Contudo, sabia que poderia os ver, considerando que já conhecemos pessoas que trabalham lá e elas ainda vem à cidade fazer seus afazeres. Um alívio!

Meu destino mudou, fez a curva na estrada remota que eu tomava e cruzou-me ao caminho do senhor que todos temem.

Pode não ser um posto fácil e com certeza não será, afinal o Conde pode me designar a ser qualquer função, até mesmo ser assassino, basta ordenar. Sobretudo, nada me faltará. Nem comida, nem roupa ou dinheiro. Disso tinha absoluta certeza. Era um emprego que muitas pessoas dariam tudo para ter.

Uma vida da qual nada me faltaria parecia uma imaginação, um sonho. Me fazia pensar logo cedo que, enquanto nada me faltava, faltaria para a minha família, eles perderiam a minha ajuda financeira em casa.

Entretanto, não podia desistir por esse fato. Eles vão ficar bem, embora fosse mais provável que morrêssemos de saudades. Afinal, nunca me afastei por tanto tempo deles. Por mais que estivéssemos felizes pela decisão do nosso Conde, no fundo dos olhos de cada um, podia enxergar a dor de me deixar partir.

“Vai valer a pena”, foi papai quem disse, após chorar e se conformar com o meu destino.

É claro que estava ansioso e cheio de expectativas, afinal finalmente tive uma boa oportunidade. Era o momento de finalmente crescer, e se desse meu melhor poderia ter um futuro completamente divergente dos meus pais. Eu seria alguém com uma profissão, poderia abandonar a cidade pequena e viver na cidade grande. Poderia trabalhar vestindo roupas formais, conhecer pessoas importantes, ser reconhecido e sobretudo, não passar fome. Posso ajudar meus pais, posso viver tranquilamente, sem ter um trabalho que me esgota o corpo e a alma.

— Ocê’tá lindo, meu doce. — Mamãe disse, suas mãos pequenas e grossas deslizaram por meus ombros, ajeitando o tecido da camisa de botões.

Todas as memórias que tenho da mamãe, são doces. Ela é a mulher mais gentil que já conheci, sou grato por puxar seu sorriso lindo e verdadeiro. A admirava com todas as minhas forças, sempre me lembro do quanto ela trabalhou, mesmo que Lady Balfour fosse gentil, o trabalho da mansão por si só era árduo demais. E essa mulher, tão guerreira, nunca reclamou. É por isso que entendo quando os olhos do papai brilham tanto para ela, é orgulho. E é exatamente isso que sinto por ela até transbordar.

Olhei no espelho e sorri, até meu dentinho torto na frente estava mais branco. Enchi meu pulmão de ar, confiante de que sim, estava tudo perfeito. Isso iria o agradar.

— Obrigado, mamãe.

Passei a mão pela lateral do meu corpo até minha coxa, também ajustando o tecido, sentindo a textura macia da qual me surpreendia. Afinal, todas as minhas roupas usuais eram feias, manchadas, rasgadas, velhas e pavorosas.

É a primeira vez na vida que uso uma camisa de botões, feita de algodão, e principalmente, uma camisa branca. Papai usou essa mesma camisa quando se casou com a mamãe e só, ela esteve guardada por todo esse tempo. Até finalmente chegar a ocasião perfeita na qual, eu, poderia usar a camisa de botões da nossa família.

Estou verdadeiramente lindo, nem o espelho quebrado e manchado poderia omitir a minha beleza. Posso ser pobre, mas estava certo de que era muito bonito. Ingrid havia penteado meu cabelo para o lado fazendo um topete perfeito fixado com uma pomada de cabelo – coisa que nunca compramos antes na vida – e ela comprou com o próprio dinheiro que ganha no laboratório para poder me deixar bonito. Minha família estava fazendo o que podia para eu parecer agradável, sendo o Conde tão importante. Estava cruzando os dedos para dar tudo certo.

“É uma oportunidade única, querido. Seja educado, mostre o quanto esperto é, e principalmente, o quanto disposto está a aprender”, auxiliou-me Ivana que tinha mais experiência em trabalhar com pessoas de alta classe. “Lady Balfour vai ficar feliz por você”, minha irmã me lembrou e de fato ela ficaria.

Lady Balfour tinha um amor imenso por mim, desde que era moleque, sempre ia ajudar minha mãe a trabalhar na casa e ela me mimava. Tanto que ela me presenteou com esse par de sapatos engraxados – feitos de couro de verdade –, o sapato mais lindo que já vi na minha vida. E agora seria bem usado para que minha aparência agrade ao Conde.

Mas voltando, a Lady Balfour é como uma tia para mim, sempre dizia que eu tinha futuro e que era um menino encantador. E subitamente aqui estou, subindo a colina da nossa península para atuar em um trabalho digno.

Eles chegaram meio-dia em ponto, desceram o morro em um coche escuro e luxuoso, de cavalos negros e fortes. Foi um banho de lágrimas, sorrisos sinceros, te amo e acenos da porta de casa.

— Vai cum homi do céu, meu menino. Num si esqueci que eu existo, Icarus. Num si esqueci que tu saíste de mim. — Suplicava minha mãe e respondia-lhe que não ia esquecer. Jamais me esqueceria, voltaria sempre que possível para vê-los.

— Boa sorte, Icarus! — Minhas irmãs mais novas disseram em coro.

Entrei no coche e me ajoelhei no banco traseiro, podendo acenar para minha família pela pequena janelinha de trás. Esses eram os Campelo. Ingrid, Ivana, eu, Irene, Iraci. Filhos de Jorge Campelo – o pescador – e Cecília – a cozinheira de Lady Balfour. O vira-lata caramelo Costelinha e é claro a minha avozinha, Dona Elvira, também faziam parte de nós. Ali, deixava a minha família que estaria sempre dentro do meu coração onde quer que eu vá.

— Nós te amamos! — Disseram em conjunto.

— Eu também amo muito vocês! — Segurei a medalha que papai me deu, com força, apertando o pingente com formato oval. Era do meu avô paterno, meu pai confidenciou-me, por ser o primeiro filho a sair de casa. Disse que isso vai me proteger.

Embora tenha a sensação estranha de que ele já tivesse me dado essa medalha antes.

Ignorando a familiaridade, a sege começou a se movimentar e dessa vez, eu estava subindo a colina sem parar na casa de Lady Balfour. Subia o mais alto que qualquer um tenha subido. Fui até o destino final. O topo.

A casa do nosso Conde.

Os cavalos batiam os cascos no caminho apedrejado, fizeram uma última curva acentuada e finalmente pude ver o casarão escondido por entre as árvores. A casa coloquial é linda, enorme. Com varanda extensa, beirais, colunas e de cor bege clara, com detalhes amarelos e ferro elegantes nos beirais. Rodeada por um bosque muito atrativo, gosto de como toda a natureza aqui em cima parece mais acentuada. As cores, a luz e até a terra tem cheiro diferente. A primeira coisa que senti vontade de fazer, foi subir a pedreira próxima à casa, ouvi dizer que lá de cima se vê o mar infinito. Mas também gosto do jardim extenso cheio de flores, arbustos e um lago grande o suficiente para ter um deck.

Me perdi na paisagem ao meu redor, olhando curioso pela janelinha da carroça e quando paramos e o cocheiro abriu a portinha para mim, deparo-me com a escadaria de mármore. Subindo cada degrau com o olhar, deparei-me com ele no topo. Me esperando.

Trajando seu típico terno preto, segurando a cabeça do tigre em seu bastão, uma mão no bolso olhando para o além, aguardava-me. Ao seu lado esquerdo uma senhora singela e ao lado direito um homem bonito e de descendência asiática, tudo isso para me receber. Não mereço tanta consideração.

— Seja bem-vindo ao Casarão do Conde de Anmak. — O cocheiro disse dando-me passagem. Inicialmente, estranho ser tratado tão bem.

Receoso, desço os dois degraus de escadinha que colocou para mim e paro envergonhado.

— O senhor pode me dar a minha mala? — Pedi sem graça.

— Não tem que se preocupar com isso, vá ao encontro ao Conde. — Me auxiliou e apenas concordei com um aceno tímido, minhas pernas tremiam tanto.

Como posso ficar diante dele depois de sonhar com suas mãos por meu corpo durante tantos anos?

Ignorando esse fato tão peculiar, subi os degraus tentando não fraquejar e cair. Assim que pisei na varanda, parei diante dele.

— As suas ordens, Milorde. — Foi a primeira vez que o chamei assim, preferia chamá-lo de senhor, mas Ingrid disse que é o correto. Minhas mãos estavam cruzadas atrás de minhas costas e me curvei prontamente, mantendo essa postura até que ele me designasse a deixá-la.

— Para você é ‘meu senhor’. — Ele disse, simplesmente. — Lhe daria boas-vindas se eu estivesse de bom humor, como não estou… Ryu, mostre-lhe o aposento de onde não deve sair sem autorização. Dalva, apresse-se em providenciar as vestimentas que lhe solicitei. Icarus estará sempre sobre minha companhia, não pode ser visto como um molambo.

— Sim, Milorde. — Os dois responderam em uníssono.

E eu fiquei paralisado pelos segundos seguintes que ele desapareceu casa adentro. Sem ar. Talvez sem chão, pela sua indiferença. Era esse tratamento que esperava e agora que o tenho, por que me deixa tão… Eu não sei. Talvez com dor?

O Conde me salvou ontem, mas agora, seria alvo de toda a frieza que há em seu ser.

— Venha, vou te mostrar o seu quarto. O Conde mandou arrumar tudinho para sua chegada. Você ficou com um bom aposento. — Disse o mais alto, de fios negros um pouco bagunçado, olhos extremamente puxados e escuros. Sua roupa era simples, porém de pano bom. Fato é que, tentei não encarar seu braço direito, ali lhe faltava uma mão. — A propósito, meu nome é Ryu Oshiro. Eu sou ajudante da Dalva. Se precisar de um amigo, ficarei grato por ser o seu.

Ryu sorriu, ele tinha uns dentões muito bonitos e parecia verdadeiramente gentil. Ao seu lado se colou o cocheiro que antes, deu um selar suave sobre os lábios da senhora, me fazendo entender ser casado com ela.

— E eu sou Dalva e esse é meu marido, Caetano. — Ela indicou o cocheiro que conduzia a carroça e tinha fios brancos iguais aos dela. — Sou basicamente tudo aqui nessa casa. A cozinheira, a governanta, tudo. Milorde não gosta de muitos empregados. — Explicou ela, dando-me a entender por que eram tão poucos empregados para uma casa tão grande e obviamente um senhorio tão importante.

Sem questionar, apenas acenei simples em entendimento, com medo de deixar soar minha própria voz.

— Você comeu antes de vir? — Dalva quis saber.

— Sim, senhora. — Respondi ainda baixo, não conseguia evitar, estava com vergonha. Na verdade, não comi o suficiente, nada descia pela minha garganta. Estava muito ansioso e não queria vomitar.

— Sendo assim, leve ele, Ryu. Vou pegar a fita para tirar as medidas e mandar fazer logo as suas roupas. — Disse ela já se retirando na companhia de Caetano.

Mas poxa, minha roupinha está tão bonita. Não é o suficiente? Não preciso de outras vestes. Porém, não podia questionar, eram ordens do Conde.

— Vem. — Ryu disse antes de pegar a única maleta que trouxe e me conduzir pela enorme casa do Conde.

Nunca na minha vida estive em uma casa tão bonita e tão grande. Era muito mais bonita do que a casa de Lady Balfour. Tudo estava impecável, as porcelanas, os móveis de madeira boa, os tapetes de pano chique e tão coloridos, as cortinas que caiam em cascata até o chão. Até o vidro das janelas é mais bonito. As flores espalhadas por cada cantinho tinham cores muito chamativas e pelo que percebi eram colhidas do próprio jardim frontal. A casa é devidamente iluminada e cada cantinho tem um quadro bonito ou uma escultura que sinceramente enchia meus olhos com tanta beleza.

— Nossa… Tudo aqui é tão bonito. — Acabei sussurrando todo bobo, observava tudinho enquanto andava com Ryu na minha frente.

— Tudo permaneceu como a falecida Condessa deixou. Conde Heinrich e ela eram fascinados pela arte, hoje em dia ele não liga muito, mas nós procuramos manter a essência. — Contou-me. — Eles possuem um gosto muito criativo. Que bom que você gosta, afinal vai viver aqui.

Assenti simples, dando um sorrisinho mínimo no final. Logo descemos por uma escadaria um pouco mais estreita que nos levou para um corredor vasto e escuro, a única iluminação vinha das lamparinas e nesse horário só havia uma acesa, dando pouca luminosidade, de forma que não conseguia ver o fim do corredor e nem para onde dava.

— Aqui é o seu quarto. Infelizmente, Dalva e Caetano moram lá nos fundos da propriedade, assim como eu.  — Isso quer dizer que ficaria sozinho pela primeira vez na vida. Isso me deixa receoso desde já.

Infelizmente, sou um menino um tanto medroso, talvez seja porque cresci em casa cheia e nunca sequer tive um quarto só meu. Ryu abriu a porta pesada de maneira e encontrei o quarto que mais parecia de alguém da realeza, na minha humilde opinião.

Na verdade, obviamente não era para tanto, mas comparado com a minha casa. Nossa. Era absurdo demais tudo isso só para mim.

Tinha uma cama de solteiro no canto com uma colcha tão bonita por cima, não tinha coragem de tocar de tanto conforto e luxo que exala. Uma estante – era meu sonho ter uma estante de livros –, um guarda-roupa grande e uma escrivaninha. Mas o melhor de tudo era a janela com a cortina azul-celeste combinando com a cama, e a vista, nossa senhora é tão bonita. Eu tenho uma bela visão do pomar de pêssegos atrás da casa, onde se estende diversos tipos de plantações. As paredes também tinham cor que combinava com os panos presentes, além de um espelho com moldura dourada, um quadro muito bonito no centro com a pintura de uma noite.

Tão bonito.

Ryu colocou minha mala em um canto e sorriu enquanto eu encarava tudo boquiaberta.

— Você gostou?

— Muito. — Respondi sincero. É óbvio que gostei. Minha amada santinha, tenho um quarto só para mim e é tão, tão bonito.

— Quer ajuda para arrumar suas coisas? — Ele se ofereceu, já acho o Ryu muito prestativo e simpático. Se continuar assim, julgo que ele estará certo sobre sermos amigos.

Uma coisa que aprecio nas pessoas é a gentileza.

— Muito obrigado, Sr. Oshiro, mas prefiro ajeitar tudo sozinho. — Falei educadamente o olhando e curvando em agradecimento. — Afinal, não posso sair daqui até que ele autorize.

— Pelo amor de deus, me chama de Ryu mesmo. — Ele disse como se Sr. Oshiro fosse uma ofensa. Ryu é jovem, deve ter quase a minha idade, mas mesmo assim, devo respeitá-lo. — E não se preocupa, o Conde não é tão ruim quanto parece. — Assegurou-me, mas não acredito. — Já vou indo, quando ele me autorizar te mostro o resto da casa.

E assim o Ryu se foi e fiquei sozinho. Após dar uma última boa olhada em cada cantinho do meu quarto – isso incluía passar as mãos nos panos só para ficar encantado com a textura e ficar encarando o quadro por longos minutos –, fui logo tratando de ajeitar minhas poucas coisinhas no guarda-roupa e por fim me sentar na cama entediado e cheio de ansiedade.

Fiquei uns minutos assim, só com meus pensamentos e não demorou para começar a me sentir um prisioneiro – mesmo que o quarto não se parecesse nem um pouco com uma prisão. Finalmente me lembrei do relógio de bolso que o Conde deixou cair e fiquei revirando-o na minha mão, observando seus detalhes e pensando porque diabos ele deixou isso cair quando aparentemente parecia estar olhando para minha presença ameaçadora.

Fico tão perdido em pensamentos que levo um susto quando a porta se abre e o próprio se materializa minha frente, num solavanco me coloco de pé já deslizando o relógio para dentro do meu bolso e colocando-me na posição de criado – a qual era com as mãos unidas atrás das minhas costas. Minha cabeça baixou automaticamente encarando meus pés, é que sua presença é um tanto intimidadora, faz meu corpo responder automaticamente a sua superioridade.

— Ryu disse que gostou do quarto. — Disse-me parando após dar três passos para dentro do recinto, parando próximo aos pés da cama.

— Gostei sim, meu senhor, não tenho palavras para lhe agradecer por tamanha comodidade. — Disse com a voz meio insegura ainda. — Toda a sua casa é muito bonita. — E eu ainda nem vi o restante.

— Não quero ouvir agradecimentos, disse que nada lhe faltaria. E você é meu criado e não um escravo. — Ele deixou claro e apenas assenti. Um minuto de silêncio se passou e nunca imaginei que o silêncio poderia ser tão desconfortável. — Eu disse que quero respostas quando lhe dirigir a palavra, Icarus.

Suas palavras foram tão rudes que fechei os olhos com força diante do meu erro.

— Perdoe-me, meu senhor. Ainda estou me adaptando a suas ordens, mas prometo que vou melhorar. — Tentei colocar o máximo de seriedade na minha voz para ele saber que estava mesmo me esforçando.

— Se esforce mais. — Ele disse se aproximando com aquela bendita bengala batendo contra o chão de madeira. — Seu esforço em me servir e obedecer, é o seu mais sincero obrigado.

— Sim, senhor. — Respondo de imediato, comecei a tremer e nem percebi.

O Conde estava próximo agora e eu podia ver seus sapatos e os meus, os dele são ainda mais belos. Um brilho esplêndido, o couro caro, muito bem polido. Meu olhar subiu por sua calça social e desviou para sua mão que apertava a cabeça do tigre do bastão com tanta força que muito provavelmente a ponta de seus dedos ficaram amareladas.

— Eu quero te tocar. — Ele disse de repente.

Me tocar? Primeiramente fiquei em choque e olhei para seu rosto com meus olhos arregalados. Tremi ainda mais. E por acaso ele estava me pedindo permissão?

— C-como d-desejar, senhor. — Dei mais um passo à frente, ficando ainda mais próximo e com isso sinalizando que ele tinha toda e qualquer autorização de fazer o que quiser comigo.

Quando ele me designou tornar o seu criado, automaticamente me coloquei à mercê dele. Eu acataria todas as suas ordens e vontades sem pestanejar.

Portanto, com a sua expressão ainda dura, o Conde deixou seu bastão de lado o apoiando na escrivaninha, seguidamente ele tirou suas luvas de couro e finalmente vi suas mãos.

Elas tremem, tremem muito o tempo todo.

Agora entendi, a luva escondia as cicatrizes profundas que estão sobre elas, além de disfarçar o tremor. Parece que foram queimadas, cortadas, não sei ao certo. Mas alguém machucou suas mãos e elas carregavam as cicatrizes horríveis do que lhe fizeram.

Tentei não encarar ao máximo, juro, mas por Deus, meu coração doeu tanto de saber que ele havia sido machucado tão cruelmente. E essas mesmas mãos machucadas, tão grandes de dedos longos e unhas curtinhas vieram na direção do meu rosto. E não tive medo do toque de sua pele mutilada, mas tive medo das reações que automaticamente poderia ter.

Tive medo dos meus sonhos se tornarem reais e pior ainda, os meus desejos.

Minha nossa senhora, vou colapsar.

Num respirar profundo, guardei todo o ar inspirado dentro dos meus pulmões e fiquei imóvel calado observando seu rosto tão familiar de perto.

Conde, por tudo que é mais sagrado, era você em meus sonhos. Era você!

Suas mãos gélidas, porém macias, tocaram meu rosto e ele tateou com cuidado passando o polegar pelos traços. Podia sentir as partes elevadas que estavam deformadas. Ele tocou o meu nariz, minhas pálpebras, o contorno de meus lábios – neste ele esboçou um sorriso mínimo que durou pouco –, meu maxilar. Tudo.

O Conde me leu.

Suas mãos desceram pelo meu pescoço devagar e gentilmente ele apertou meus ombros descendo as mãos por meus braços e hesitou pensando se deveria ou não tocar minhas mãos. Por fim ele não tocou, desse modo soltei o ar que guardei dentro de mim e voltei a respirar normalmente.

— Você é como imaginei que fosse. — Disse em tom neutro. Ele me imaginou? Céus. Depois de um longo suspiro ele tornou a falar: — Eu sou cego, Icarus.

Meu rosto se resultou em choque em uma mudança drástica, minha santinha… Espera, não há brincadeira na sua voz e expressão. Realmente está falando sério. Ele não podia me ver? Mas parecia poder, estava sempre com o olhar em minha direção, sempre sabendo onde estou e… Naquele dia no jardim, por Deus e tudo que é sagrado, ele me olhou! O Conde me viu!

— Mas… O senhor me viu… — O questionamento saiu de forma natural, minha voz entregava minha surpresa. — O senhor me viu no jardim. Eu sei que viu!

— Sou parcialmente cego. Não consigo ver tudo com clareza como você, cerca de oitenta por cento da minha visão foi comprometida. O que me resta é apenas um borrão. — Ele recuou um pouco, ficando diante da janela. — É por isso que te vejo, noto seu borrão, sua sombra, sua presença. Se eu chegar muito, muito perto, talvez veja um pouco mais, mas nunca com nitidez.

Meu coração doeu tanto. Tanto que fiquei sem palavras.

— Isso… — Ergueu suas mãos diante de seus olhos. — Tudo isso são as consequências de ser o Conde de Anmak.

Havia um tom amargo em sua voz, como se nesse momento ele odiasse ser quem era. Eu não podia negar, não tinha ideia do quanto difícil poderia ser um Conde. Mas estava começando a ver.

— Quem fez isso com o meu senhor? — Perguntei com minha voz trêmula, um nó sufocando minha garganta.

— Campos Elísios. — Respondeu apenas isso. — Mas não importa. Esse assunto é proibido nessa casa, nunca mais me faça essa pergunta novamente.

Por um momento, ele havia dado espaço para mim e me mostrou parcialmente suas cicatrizes, mas esse espaço se fechou novamente com rapidez e deu lugar ao Conde impenetrável que conhecemos.

— Como quiser, meu senhor. — Só me restava concordar.

— Você está aqui para ser meus olhos e as minhas mãos, Icarus. Será a minha sombra de agora em diante. — Ele começou a explicar. — Passei sete anos, imerso em um luto impiedoso, me martirizando, me punindo. Mas agora, quero voltar a viver ao menos um pouco. Ela me disse para fazer isso, pois a deixaria feliz. Sendo assim, é isso que vou fazer, por isso, você é a partir de agora muito importante para mim. Agora és as partes que me faltam. É o que me tiraram.

Engoli seco sentindo o peso do que me foi designado. Ser as mãos e os olhos do Conde, não seria uma tarefa fácil. Principalmente quando ele deixou isso claro de uma maneira tão emocional. Não tinha palavras para isso, apenas a certeza que daria o meu melhor por aquele homem.

— Senhor lhe dou a minha palavra que serei os seus olhos e as suas mãos com todo o meu coração.

— Sei que vai, por isso te tomei para mim. — O Conde disse indo até à escrivaninha onde deixou suas luvas, tateou a superfície de madeira até encontrá-las e as calçou, seguidamente pegou o bastão. — Te escolhi por que não sente pena de mim. E até mesmo diante do que me aconteceu, você não sentiu pena. Espero que se mantenha assim, no dia que me oferecer pesar, estará demitido.

Não havia reparado nisso até ele dizer, diante de tudo que vi e do pouco que sei, não senti pena hora alguma. Apenas tristeza e raiva pelo que lhe fizeram.

— Como quiser, senhor.

— A pena, Icarus, nada mais é que uma punição. Uma espécie de castigo para a alma de qualquer um que é alvo desse sentimento, e se tem uma coisa que realmente não tolero é prender a alma de alguém. — Logo ele começou a se afastar indo em direção a porta. — Venha, tenho muito a lhe ensinar.

E prontamente, o segui.

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