CAPÍTULO DEZ
Tempestades de verão
8 de Janeiro de 1899
Anmak, Florianópolis, Santa Catarina
Ingrid me acordou cedo.
— Vamos à praia antes de você ir. — Ela sugeriu e de imediato assenti em concordância, dando-lhe um sorriso cúmplice. — Como nos velhos tempos.
— Como nos velhos tempos. — Sussurro para não incomodar nossas irmãs adormecidas.
De todas as minhas irmãs, sou o mais próximo da mais velha. Escapadas até a Praia do Coral antes que o dia sequer tenha clareado, eram típicas entre nós dois. Só assim podíamos confiar que as paredes não ouviram o que gostaríamos de compartilhar um com o outro. Nossos segredos, tão simples e bobos, ficavam ali, junto das ondas do mar que os levavam embora.
Às quatro da manhã, quando o céu ainda estava escuro, Ingrid e eu saímos às espreitas. Como dois gatos, deixamos ligeiramente a nossa casa, passo por passo, sem fazer barulho. Usando nossos casacos de frio, visto que uma súbita ventania resolveu se manifestar em pleno verão, anunciando que em breve teríamos chuvas. Corremos pelas ruas pé de moleque[1] em disparada como sempre fazíamos, animados, cheios de alegria e soltando risadinhas.
Nós dois éramos confidentes, sempre contávamos tudo um ao outro. Admiro minha amizade com minhas irmãs, me dou muito bem com todas elas, mas o que tem entre mim e Ingrid, é diferente.
E sim, eu contaria tudo para minha irmã mais velha…
Exceto sobre o Conde.
E obviamente meus sonhos eróticos, enigmáticos e apaixonantes também não eram revelados. Quer dizer, não exatamente, pois já contei para Ingrid que sonhei com meu grande amor, ela acha bonito, mas é claro que pensa que se trata de uma menina.
Sou inteligente o suficiente para saber que não era confiável contar um segredo tão arriscado para minha irmã – mesmo sendo do meu sangue –, tinha plena consciência que Ingrid iria contra isso. Era demais.
A verdade é que ninguém nesse mundo pode compreender o que eu e o Conde sentimos. E não podíamos esperar que fossemos compreendidos, não quando se tratava do envolvimento de dois homens. Embora não fosse um assunto muito abordado, por não haver necessidade e nem aconteciam casos públicos, as leis eram severamente claras.
Se fizeres, morrerás.
E acredite, já vi pessoas que infringem as leis serem punidas e é terrivelmente cruel. Embora as punições em praça pública diferissem, eram por motivos considerados justos; como assassinatos, roubos, fraudes ou coisas piores. Umas ou outras eram injustas na minha visão, como seria no meu caso, que é amor. Não era justo ser punido ou morto por amar alguém.
Decidido e sem possibilidades de retroceder, vou levar meus segredos para o túmulo. Meus pecados só diziam respeito a mim mesmo. E se fosse prestar contas com alguém, só aceitaria o Homem do Céu.
Chegamos à praia e levo comigo a certeza de que, da minha boca nada do que aconteceu sairá. Falo isso porque Ingrid é esperta demais, sei que percebeu que algo aconteceu. Nessas últimas semanas ela tem me analisado demais, esperei que fosse me chamar para conversar. Só não sei por que demorou tanto.
Nós dois nos sentamos na areia próxima da maré que, gradualmente, baixava, conforme o dia nascia e as ondas se quebrando na praia perdiam a força.
Tinha uma coisa que amávamos fazer: colecionar conchas. A essa altura, quando a maré baixa, a praia vira uma mina de pedras preciosas. As conchas coloridas de diversos tamanhos e formas estão dispostas sobre a areia molhada da praia e é possível catar aquelas que não tem moradores dentro. É tão lindo que resolvemos colecionar algumas.
— Você é uma caixinha de surpresas, irmãozinho. — Ela disse, olhando-me desconfiada. — Aposto minha concha favorita que aconteceu algo no alto daquela colina que abalou suas estruturas.
Para descontrair dei risada, no fundo, nervoso pela análise afinca que Ingrid fez.
— Sério? Pareço alguém com o coração partido? — Brinquei, Ingrid sabe perfeitamente o sentimento de ser magoada, considerando que já passou por isso.
— Absolutamente. Meu faro não falha. — Ela apostou, sua mão acabou por segurar a minha e ela me olhou nos olhos. — É difícil com você longe, sabia? Você me dá forças, gosto da sua companhia e dos nossos momentos tão únicos. Costumava estar mais por dentro do que acontecia contigo. Mas nesses últimos dias sinto como se nós fossemos estranhos. Tive medo até mesmo de chegar em você e perguntar o que estava acontecendo.
E talvez sejamos, por menor que tenha sido minha estadia com o Conde, me sentia extremamente diferente daquele Icarus que chegou ao casarão. Talvez, tenha me encontrado em meio a toda essa dor e decepção. Provavelmente, o Icarus cravado no fundo do meu ser tenha despertado. Ele está saindo da crisálida lentamente, como uma borboleta. Evoluindo.
Não entendo porque Ingrid se sentiu assim em relação a mim, já que as coisas foram sempre ótimas entre nós dois. Talvez fossem consequências dos segredos que nos repeliam de forma natural.
Olho-a e sorrio pequeno, nos abraçamos com amor, nos reencontramos ou quase isso. Queria contar-lhe o que realmente aconteceu na minha vida. Se Ingrid fosse a favor, ela iria querer matar o Conde depois do que me fez, mas se derreteria como eu, quando soubesse que ele passou por cima de suas próprias palavras e decisões, por mim.
— Continuo sendo o Icarus que você ama, Ingrid. Não há nada de diferente em mim. — Garanti a ela, esperando ver o conforto em seu rosto.
— Sei que sim, irmãozinho. E está tudo bem. Só queria que soubesse que ainda pode contar comigo para desabafar, ok? — Ela fala enquanto brinca com nossos dedos entrelaçados. — Como uma mulher esperta, sei bem que meu irmãozinho tem suspirando de amores. Mesmo que estivesse triste, percebi. Vai logo falando para sua irmã mais velha aqui. O que aconteceu naquele casarão?
Certo, agora ela me pegou.
E aqui vou com uma bela mentira. Ou talvez só omitindo os fatos. É melhor que tudo permaneça debaixo dos panos.
— Não aconteceu nada. Só gosto muito do meu trabalho, dos livros, de escrever. Estava muito feliz fazendo tudo isso, Ingrid. Quando o Conde me mandou para casa, meu coração se quebrou inteiro.
Será que é convincente?
— Icarus! — Ela me chama atenção e me olha desconfiada, como se fosse claro que é mentira. — Tem certeza que não tem uma garota envolvida? É importante que eu saiba.
Rio balançando a cabeça em negação. Embora a afirmação de que precisava saber, tenha me deixado com uma pulga atrás da orelha.
— Tudo bem. — Ela ri também, conformada. Ufa, escapei. — Mas olha, fiz aquele trato com nossos pais que ainda está de pé, Ivana já se casou, o que significa que o próximo a se casar, na ordem cronológica de nascimento dos filhos dos Campelo, é você.
Arregalei meus olhos, ficando tenso de imediato.
— Não me diz que…
— O papai e a mamãe estão lhe arranjando uma noiva? Ah, sim! Eles estão com toda certeza e a fila de pretendentes é grande, irmãozinho. Você é muito desejado aqui no vilarejo. — Para completar meu colapso interno ela diz isso. Estou paralisado. Meus pais querem me arranjar uma noiva… — Nossa avó quer ver o único neto homem dela se casar com uma boa moça antes de morrer.
— Droga! Só essa que me faltava.
Meus planos eram outros. Primeiro, meu futuro. E sobretudo, meu Conde. Sinceramente, não sentia a mínima vontade de me casar. E diante dessa informação, percebo que estou ferrado.
— Ei, relaxa irmãozinho, casar não é um monstro de sete cabeças. Vai ser bom para você e tenho certeza que vai ser uma boa moça, vou garantir que seja. Ao menos você, deve ser feliz em sua vida amorosa, de desastres já basta a minha. — Ingrid riu brincalhona, mal sabe o que realmente escondo. Por trás de suas palavras com conotação de brincadeira, sei que ela está sendo sincera.
— Muitas coisas boas estão me acontecendo agora, Ingrid, não tenho tempo para uma esposa, tão pouco uma noiva e os preparativos de um casamento. Gostaria de oferecer algo para minha mulher quando for o momento, mas não é agora.
E sobretudo, se for para me casar, que seja por amor e não por pressa. Meus pais querem netos, é óbvio, e definitivamente não estou preparado para ser pai ainda, tenho muito o que aprender sobre a vida, e, é claro, tenho irmãs o suficiente para encher a casa.
Ingrid concordou suavemente balançando a cabeça.
— Vou conversar com aqueles dois. Irene e Iraci são mais novas e podem ter um noivado mais extenso antes de se casarem. Talvez isso ocupe a cabeça deles. — E aqui estava minha irmã mais velha, salvando a minha pele.
— Obrigado, irmã. — Dou um beijo em sua bochecha. — Acho melhor irmos, daqui a pouco o Caetano chega e não quero me atrasar. — Preciso ver meu Conde logo, com esse pensamento me levanto de imediato, passando as mãos por meu traseiro e tirando a areia que grudou na minha calça.
Em seguida Ingrid também se põe de pé e voltamos juntos para casa. Ela está pronta para ir trabalhar e, eu, para voltar ao casarão, de onde jamais deveria ter saído.
Volto para meus segredos.
Para o meu amado.
Quando chegar a hora, de uma coisa estou convicto. Não irei me casar. A minha alma já está emaranhada na alma do Conde de Anmak.
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Voltei para a casa no topo da colina e dessa vez Costelinha entraria pela porta da frente ao meu lado. Era incrível a sensação de já pertencer aquele lugar. Sempre pertenci. Como se por todo esse tempo a minha própria casa e família tivessem sido temporárias. Aqui é o meu lugar no mundo, sinto como se Ryu, Dalva, Caetano fossem a minha família. E sobretudo, ali está meu grande amor, meu Conde.
Nós devemos nos firmar onde nosso coração pertencer. É onde sei que serei feliz.
Dessa vez, não teve choro e nem tristeza, pelo contrário, meus pais ficaram alegres por mim. Foi como naquele dia, mas dessa vez, menos ansioso, consegui dormir pela noite, depois tive um momento a sós com minha irmã, nós finalizamos todas as minhas malas e desfrutei de um café delicioso que vovó e mamãe fizeram para mim.
Posteriormente, Caetano chegou, conforme combinei com o Conde ontem na capela, até ele estava feliz com a minha volta. Retornei para a casa da colina em paz, com uma sensação quentinha no meu coração. Quando a coche virou a curva acentuada e o Casarão reapareceu para mim, constatei o quanto havia sentido saudades e mais do que isso, o quanto sou parte daqui.
Os jardins floridos, o lago brilhante, o bosque, o pomar, os animais, as aves e insetos pelas redondezas. E principalmente, meu Conde na varanda esperando-me ao lado de várias pessoas. Fiquei tímido ao perceber que havia tanta gente nova no casarão. Quando Caetano parou, Ryu veio até mim com um sorrisão, desci do veículo animado, nós trocamos um abraço cheio de saudades e principalmente de alegria, pois eu voltei!
— Costelinha! Que saudades! — Meu melhor amigo foi logo acariciando o animal, que desta vez, o recebeu com lambidas, rabinho abanando e pulinhos de animação em revê-lo.
Seguidamente, Ryu e Caetano pegaram minhas coisas e finalmente a ansiedade apossou-se de mim, enquanto subia a escada conectada a varanda, meu coração acelerou fortemente. Havia pessoas desconhecidas ali e minha timidez resolveu dar as caras.
— Então, você é o Icarus. — A moça bonita disse, ela usava um vestido tão lindo, com o corpete apertando-lhe a cintura e os seios tomando forma; muito, muito bonita, como Lady Balfour. Seus olhos pequenos e desenhados com uma delicadeza surreal possuíam a cor escura como os do Conde. O cabelo perfeitamente preto contrastava com a pele clara. Ela é límpida e tão graciosa. Seu rosto é perfeito, mas mais do que isso, era-me extremamente familiar, acho que meu espanto deixou isso claro e percebo que o mesmo se passou para ela.
De onde poderia conhecer essa bela moça? Pelos traços do seu rosto, tinha certeza que poderia ser a filha do Conde, mas nunca a vi em Anmak. No entanto, conheci Juliano, recordo-me de encontrá-lo uma única vez – eu era muito jovem na época e estava na casa de Lady Balfour.
— Icarus, seja bem-vindo de volta ao casarão. Estamos muito felizes com o seu retorno. — O Conde disse dando-me as boas-vindas que não recebi na primeira vez que cheguei aqui.
Mas o que realmente me espantou foi o fato do Conde não estar vestido todo de preto. Ele usava um terno azul-marinho e uma camisa branca por baixo, mesmo que o terno ainda fosse escuro, era uma evolução imensa. O tom diferente o iluminou mais, lhe deu um ar de mais vivo. Eu gostei.
— Essa é a minha filha, Jane. — O Conde me apresentou e fiquei chocado ao saber, na mesma hora me curvei em cumprimento. Jane Vollard, a filha do Conde. — Este é seu noivo, futuro Conde, Raul Fortunato. E essa é Liana, esposa de Ryu.
Meu sorriso se abriu para todos e principalmente para Liana, finalmente conheci a esposa do Ryu e realmente ela é muito bonita, toda delicada e com vestes mais simples do que as de Jane, mas muito bonita. O mais encantador era sua pele cor de avelã, mesclada a manchas bem mais claras que se espalhavam por todo seu corpo. Não era nenhum pouco comum, talvez fosse alguma condição médica. Uma beleza única e selvagem – ela parecia uma onça pintada.
— Ryu falou muito sobre você. — Sorrio tímido para Liana quando ela me é apresentada, depois olho sorridente para todos. — É um prazer conhecê-los.
— Nós quem estamos gratos por te conhecer, Icarus. Todos tem falado muito bem da sua pessoa e de quanta alegria tem trago para nosso Conde. — Foi Raul que falou e só agora pude reparar em sua beleza chocante, nosso deus, que homem lindo. Tão lindo que até fiquei desnorteado. Ele é loiro dos olhos extremamente azuis e a pele salpicada de pontinhos.
Jane e Raul terão filhos bonitos, assim como Liana e Ryu. Dava gosto de ver esses casais juntos.
— Obrigado, Sr. Fortunato. — Me curvei agradecendo, já sentindo minhas bochechas quentes.
Seguidamente, Dalva veio até mim, abraçando como minha avó faz, apertou-me e encheu-me de beijos nas bochechas. Nos poucos dias que fiquei aqui até ela se tornou mais próxima de mim.
— Menino, que saudade que fiquei de você. — Antes, Dalva não demonstrara tanto carinho físico, agora tenho certeza que sim, sou o netinho mimado dela e do Caetano. — Você já comeu? Fiz até aquela tortinha que você gosta tanto.
— A de morango com creme? — Perguntei desesperado, minha nossa senhora, os doces da Dalva não são deste mundo, vieram do céu de tão bom.
Saí de casa bem alimentado, mas tem um espacinho para torta aqui. Não vou recusar, não. O dia que Icarus Campelo recuar um doce, certamente está doente. Meu olhar foi direcionado para o Conde, juro que meus olhinhos estavam brilhando e ele entendeu o porquê. Queria autorização para ir comer.
— Você pode ir comer, Icarus. Não se preocupe, tem o dia livre hoje. Mas talvez Jane lhe perturbe um bocado. — O Conde falou.
— Pai, não fala assim. — A garota o olhou envergonhada e eu ri. — Posso ir comer com você, Icarus?
— É claro que sim, Milady. Liana quer vir também? — Perguntei já me sentindo mais à vontade com elas.
Assim, nós simplesmente fomos como se fossemos melhores amigos, a torta virou um piquenique no jardim do Conde, com costelinha correndo no jardim ao nosso redor, tentando pegar os beija-flores e borboletas em sua jornada diária de afazeres. O calor devorava nossas peles, o verão ganhava força a cada segundo. Viver no sul quer dizer que temos que lidar com as nuances de um país tropical, o clima extremo. Se é frio, então é frio demais, se está calor, quase não conseguimos suportar. Todavia, eu gostava da intensidade do sul do Brasil, só não posso dizer que o verão é meu clima favorito.
Mas, voltando às meninas, era incrível como tão rapidamente já estava me dando bem com elas, sem sentir nenhuma timidez como de usual. Não sei se é porque me dou muito bem com as minhas irmãs, mas quando me dei conta estávamos rindo à beça falando sobre todos os assuntos possíveis.
Primeiro Jane e Liana falaram sobre o que tinham aprendido sobre moda e costura lá em Paris – sinceramente, ficava mais animado em ouvir sobre uma das cidades europeias mais famosas, do que sobre os estudos. Jane fica na casa do noivo e quando ele não está fora passa um tempo juntos, podendo se apaixonar cada dia mais. Vai levar um tempo para eles se casarem e assumirem Anmak. Essa brecha me faz criar coragem e abusar da intimidade que conquistei em algumas horinhas para perguntar:
— Milady, se não for muita intromissão da minha parte, posso lhe perguntar por que está sempre tão longe de Anmak? — A olhei com cuidado para analisar suas expressões, enquanto isso cortei mais três fatias de torta. — Acaso não gosta daqui?
Jane me olhou firme por alguns longos segundos e até Liana ficou quieta, espero não ter estragado tudo. Seguidamente ela solta um longo suspiro.
— Não pertenço a esse lugar. E não sei te explicar. Mas… Vou tentar. — Assenti ansioso, enquanto me preparava para ouvir beberiquei o chá que estava na xícara em minha mão. — Quando eu era criança, meus pais visitaram seus amigos na Europa, meu sogro é um grande amigo de papai. Sair de Anmak me fez bem, mamãe percebeu que fiquei mais alegre. Antes disso, vivia desanimada pelos cantos. Por fim, eles entenderam meus sentimentos e me deixaram ir. O que foi ótimo. — Ela olhou para mim, para o bosque ao nosso redor, talvez imaginando como pudesse não gostar daqui. Heinrich e Gina realmente foram bons pais. Ainda são. — Verdadeiramente não entendo, Icarus. Talvez, no fundo do meu coração soubesse que estarmos destinados a coisas horríveis nesse lugar. E veja o que aconteceu com minha família. Se eu estivesse aqui… Teria sido enterrada ao lado da minha mãe e irmão. Gosto de concluir que foi meu coração que me guiou para longe, salvando-me.
Fazia todo o sentido para mim, depois de toda a coincidência de sonhos entre mim e o Conde, não duvido que a alma de Jane possa alertá-la sobre o perigo constante de viver em Anmak.
Fato é, que o destino não a destinou a essa crueldade que se passou aqui, gosto de pensar que ela é a esperança desse lugar. Jane e, obviamente, seu futuro marido. Embora, sem sombra de dúvidas, o povo de Anmak não vá ficar contente com o fato do futuro Conde sequer ser um descendente.
Infelizmente, o Sr. Fortunato não sabe da nossa cultura, nossos investimentos, nossa ilha… Raul não tem uma vivência aqui e tão pouco Jane, o que teria era um ensinamento vindo do Conde. Ele precisará de esperteza e muito carisma para conquistar a confiança do povoado. Concluo que não será fácil. Ainda mais quando as pessoas amavam tanto Juliano e o Conde Heinrich.
— Em compensação, perder Juliano implicou que eu seria a próxima Condessa. Coisa que nunca desejei, nem sequer cogitei ser, entende? Eu não quero nem estou preparada. Mas a vida quis assim, Icarus. Não me restou escolha senão ir atrás de um ótimo marido, capaz de administrar com tanta maestria quanta a do meu pai e de Juliano, acredite, fui seletiva. Não poderia ser qualquer um. — Ela me contou sorrindo leve. — Cresci com Raul quando fui para Portugal e posteriormente nos mudamos para a França. Ele era um amigo muito próximo e admirável, irmão mais novo de três, ele não herdaria nada de importante de sua família. Não seria o senhorio das terras de seu pai. Ele era desprezado e menosprezado, foi quando reconheci seu valor. E bom, você já sabe. Apresentei-o para meu pai e isso o agradou. Agora eu e meu noivo estamos confinados a passar o resto de nossas vidas aqui, neste casarão, o lugar que me tirou tudo.
Podia sentir a dor através de suas palavras, Jane encarou a casa com os olhos começando a ficar avermelhados. Me senti péssimo por fazê-la relembrar essa dor, mas antes que lhe diga algo, ela balança a cabeça em negação, se recompõe e sorri.
— Mas confio em Raul, sei que vai fazer um ótimo trabalho. Vai proteger Anmak, afinal, ele serve ao exército, sabe como se defender. Isso significa que a minha esperança não está de todo morta. — Ela sorriu para mim, mostrando essa esperança. — Temos que seguir em frente.
Concordei com a mesma e por impulso segurei sua mão, apertando-a, encantado com sua determinação. É difícil ceder a nossa felicidade para fazer o que julgamos ser certo.
— Admiro sua coragem. Você é um exemplo de força para mim. Obrigado por compartilhar seus sentimentos profundos comigo, Milady. — Fui sincero e quando ela apertou minha mão de volta e sorriu, senti na minha alma que éramos melhores amigos, de muito, muito tempo. E foi Liana quem confirmou.
— Suponho que vocês se conhecem de outras vidas. — Ela brincou risonha, depois me cutucou com seu pé. — Não vá roubar minha melhor amiga!
Nós todos rimos, posteriormente fui abraçar Liana também, ela é um amor de pessoa. Sinto-me muito melhor no casarão com a presença delas. Já estava me preparando para ser enxerido novamente e perguntar sobre as manchas na pele de Liana, quando vejo Ryu nos observando de longe, esse danado deve estar doidinho para roubar a esposa de nós – visto que eles tem pouco tempo juntos, já que ela estuda fora.
— Hm, tem alguém planejando um assalto e se tem algo a ser roubado aqui é você, Srta. Oshiro. — Brinquei e as duas olharam na direção que eu estava indicando.
Liana deu um sorriso tímido, toda apaixonada.
— Vai dar atenção ao seu marido, já roubei você demais dele. — Disse Jane, a moça nos olhou rapidamente e num impulso se colocou de pé, disparou na direção do seu amado que a recebeu com um abraço de tirar seus pés do chão.
Meu coração se aqueceu na mesma hora, era lindo observar o amor. É tão inspirador que me dá vontade de escrever.
Será que eu e meu Conde um dia seremos assim?
Será que um dia nossa história se tornaria um livro proibido como aqueles que lemos?
— Você está com aquele olhar de quem está apaixonado. — Jane observou. — Por acaso alguma moça fisgou seu coração?
Balancei a cabeça ordenando meus pensamentos enquanto Ryu e Liana sumiram por uma trilha.
— Não, não. Apenas sou um admirador do amor. — Tentei me esquivar de sua observação. — Você e Raul, se amam assim?
— Acho que estamos no caminho certo, mas não chega a ser como aqueles dois. Talvez pelo fato de que ainda não nos casamos, tudo mudará quando nos entregarmos um para o outro. Sinto que isso vai acontecer. Antes ele era só um amigo, mas agora deixo meu olhar vagar por suas qualidades, defeitos e sua beleza, por isso me encontro apaixonada.
Isso era bom, pelo menos não seria um casamento sem amor, eles dois tem sentimentos um pelo outro e isso é muito importante. Casamentos arranjados por interesses tendem a nunca envolver sentimentos.
— Espero que vocês dois se amem perdidamente. — Desejei de coração, Jane sorriu grande.
— Gosto de você, Icarus. Não conta para Liana, mas você vai dividir o mesmo lugar que ela no meu coração. — Seguidamente, Milady fez uma coisa adorável, ela me apontou seu dedo mindinho. — Melhores amigos para sempre?
Observei ela e o dedinho, alternando o olhar, minha pulsação acelerou de um jeito inexplicável. Melhores amigos para sempre? Meu coração se encheu de emoção e rapidamente estiquei meu dedo mindinho também e cruzei ele ao seu.
— Melhores amigos para sempre. — Repeti selando nossa união.
— Agora, tenho algo para você, mas vai demorar alguns dias para ficar pronto, preciso das suas medidas. — Disse já se levantando e sacudindo as migalhas de comida que caíram em seu vestido.
— Para mim?
— É, um presente. Vamos? Tenho que aproveitar que meu pai te deu folga. — Ela me estendeu sua mão e aceito sua ajuda para me levantar, seguidamente sigo-a de volta para casa.
Nós passamos de frente ao escritório onde Raul e o Conde papeiam animadamente e vamos direto para o quarto de Jane.
— Preciso tirar suas medidas. Estou lhe fazendo um fraque[2], em breve você e o papai irão conhecer pessoas importantes, vai precisar de uma veste a altura. — Contava Jane enquanto já pegava os panos que ela mesmo selecionou e a fita métrica junto de uma agenda onde anotava tudo. — É mais um presente para expressar minha gratidão pelo que tem feito por meu pai.
Fiquei paralisado naquele momento, olhando-a com meus olhos brilhantes de gratidão. É que ninguém nunca fez nada assim para mim, não era só pelo fato de que acompanharia o Conde e sim porque queria me presentear com algo único.
— O que foi? — Ela perguntou sorridente quando notou-me encarando-a cheio de emoção. — Você vai chorar?
Num impulso abraço-a com força e Milady me retribuiu com carinho. Não era nenhum pouco comum que um criado tivesse tanta intimidade física com um superior, por esse motivo sua retribuição me emocionava ainda mais.
— Obrigado, Milady. — Disse-lhe e ela assentiu meio emocionada. Toquei o pano de camurça azul, sentindo a textura deliciosa. — Nunca tive nada tão especial e tão luxuoso antes.
Ela sorriu emocionada e seguidamente colocamos a mão na massa. Os dias seguintes foram inteiramente com as minhas duas novas amigas, ajudei Liana e Milady a costurarem à beça enquanto o Conde estava ocupado com Raul e Ryu.
Vez ou outra Liana fugia para ficar com o marido, o que entendíamos perfeitamente e até mesmo aproveitávamos para fazer umas brincadeiras, só para ver suas bochechas ganharem cor e seu jeitinho todo envergonhado por ser tão tímida.
Em uma conversa particular, Jane me explicou que as manchinhas na derme da sua melhor amiga é uma doença de pele relacionada às células formadoras de melanina, quando morrem ou deixam de produzir o pigmento que dá cor da pele. Ao que me parece, a doença não a afeta muito, Liana não sente dor, ela só não pode se expor muito ao sol, pois sua pele é mais sensível.
Enquanto riamos e costurávamos do lado de dentro do casarão, lá fora as chuvas torrenciais de verão começaram a cair intensamente. Os dias se tornaram cinzas, mas a flora ao nosso redor tornou-se mais verde, o vento vinha com força e sem nenhuma piedade, obrigando-nos a esconder dentro de casa e manter as janelas fechadas. A chuva chicoteando o chão é tudo que ouvíamos lá de fora.
O oceano atlântico ao nosso redor trazia lufadas tão perigosas que a noite tornou-se assustadora. Enquanto dormia sozinho no meu quarto, podia ouvir o assobio alto da ventania. Em algum lugar alguma madeira batia contra outra enquanto a corrente passava empurrando-as, o som me causava arrepios.
Vovó Elvira costumava dizer que as chuvas de verão vêm disfarçadas de demônios, pensamos que vai aliviar o calor, mas na verdade são tempestades de grande intensidade que costumam causar sérios prejuízos, principalmente na agricultura.
Amedrontado, fechava meus olhos com força e rezava para o Homem do Céu. Tinha dificuldade para descansar devido ao temor que me possuía. Por várias noites seguidas – carregando minha lamparina –, me aventurei pelo casarão escuro enquanto todos dormiam.
Ia para o escritório do Conde e me perdia entre os livros que estavam à minha espera para serem devorados. E passava horas lendo as obras inusitadas, meus olhos chegavam a arder de sono pelo esforço ao ler. Difícil mesmo era me arrastar de volta para o quarto, onde desabava na cama e finalmente dormia pesadamente.
Por causa da chuva, Ryu passou a me acordar mais tarde, o que era bem melhor. Assim conseguia descansar. Com o Conde ocupado em cuidar do seu futuro herdeiro, continuei ajudando Milady durante o dia. Consequentemente, esse meio tempo nos deixou afastados, de forma que só o via durante o jantar.
Mas o meu Conde era, às vezes, mais esperto que eu, naquela semana que se passou desde que cheguei, ele finalmente encontrou o momento certo para falar a sós comigo. Perdido nas palavras de um livro que narra uma aventura de uma mulher perdida em outro universo e viajando em alto-mar, não percebi sua presença, até sentir alguém atrás de mim e em seguida uma mão tapando minha boca.
Nesse momento concluo que o Conde tem sorte de eu estar meio avoado, por que não pensaria duas vezes em golpear seja em quem for, antes que tenha tempo de pensar em me defender, sua voz rouca soou em meu ouvido, conforme colocou os lábios ali.
— Shhh, não faça movimentos bruscos, jovem Icarus. — Ele sussurrou, em seguida dando um beijo suave no ponto abaixo da minha orelha, o que me fez derreter inteiro. Colou seu corpo mais ao meu, sentia seu calor, suas mãos fortes me segurando. Após tanto tempo sem o meu homem, estava um poço de sensibilidade. — Então você se junta aos ratos enquanto seu senhor dorme, uh? Ao invés de queijo, você vem atrás de livros.
Atordoado, custei captar seus movimentos quando com agilidade virou-me na sua direção e nossos peitorais se chocaram com força. Ele ainda manteve sua mão grande na minha boca e graças a deus por isso, assim meu gritinho surpreso foi abafado. O Conde me olhava nos olhos bem de perto, como se ele quisesse enxergar-me além de sua capacidade.
Pergunto-me como ele anda pela casa escura sem fazer nenhum barulho? Bom o suficiente para me surpreender. A resposta é bem óbvia, aqui é sua casa. Ele conhece até do que foram feitas essas vigas, certamente caminhar no escuro com tamanha cautela, não lhe era um desafio.
Tentando raciocinar com clareza, volto para a realidade, estou nos braços do meu Conde.
— Senti tanta sua falta, pequeno. Há dias trocamos apenas algumas palavras. Icarus, Icarus, está falhando com o seu senhor. — Ele disse com sua pose de durão e neguei imediatamente, com desespero, balançando minha cabeça. — Ah, não? Pois saiba que não vou lhe perdoar, a não ser que pague caro por me deixar tão carente e necessitado.
Meu santo inferno, o Conde ferrava com a minha sanidade. Quase chorei. Seus dedos foram se afrouxando, mas sua mão que segurava minha cintura apertava fortemente minha carne, mostrando sua necessidade.
Pelos deuses, como eu poderia resistir?
No entanto, lutei para encontrar o orgulho dentro de mim enquanto sua boca se aproximava da minha. Nós tínhamos um acordo: não me entregarei novamente até que me conquiste do jeito certo. E ele finalmente parece se lembrar disso no último instante, já que sua boca parou a um milímetro da minha e nossos lábios se roçaram minimamente, compartilhando um beijo apenas pela respiração e queimando viva a lembrança de quando nossas almas se uniram pela boca em um primeiro beijo.
O Conde fechou os olhos com força, apertando meu corpo, enraivado. Seus lábios depositaram sutilmente um selar mínimo no cantinho esquerdo da minha boca, posteriormente, pressionou sua testa contra a minha enquanto nós dois tentávamos controlar nossas respirações ofegantes pelo momento intenso.
— Você ainda vai me matar, menino.
— Eu verdadeiramente pretendo, senhor. — Minhas mãos correram firmemente do seu peitoral até seus ombros onde gentilmente os apertei até chegar à sua nuca. — Te matar de amor, de desejo, de prazer… — Meus olhos devoravam os seus enquanto meu hálito quente batia contra seus lábios.
Em resposta, apertou-me ainda mais, agora empurrando meu corpo contra uma das estantes e mantendo-me preso numa emboscada, onde sou a presa que quer ser abatida.
— Icarus Campelo! — Rosnou baixo, tão irritado com minhas provocações. — Não teste o meu último fio de limite, meu autocontrole se resume a pó quando estou com você.
Minha santinha, como gostaria de pedir para não se controlar. Mas não me entregarei ao calor ardente de uma só vez novamente. Queria muito mais do só sexo com o meu senhor, quero-o inteiro. Desejo pertencer a ele de todas as maneiras possíveis.
— Vai ser mais difícil do que eu imaginava. — Falei baixinho, todo tristonho. O Conde acariciou meu rosto, agora segurando-o com suas duas mãos e fechei as pálpebras tombando um pouco minha cabeça contra uma das palmas aproveitando o contato. — Também senti sua falta, senhor.
— Você é tão meu, Icarus. Tão puro. — O Conde contornou o traço dos meus lábios grossos com a ponta de seu polegar, devagar fui abrindo os olhos para encontrar os dele.
Parece um sonho, como aqueles que tive depois que me mandou embora. Fantasias que me torturavam. Toco o rosto do meu Conde também, e percebo que não, não é uma ilusão. Meu coração dispara fortemente e só consigo sentir alívio por estar aqui com ele.
— Eu sou. — Finalmente respondo. — E você, senhor? És tão meu quanto?
— Talvez eu seja até mais. — Confirma-me e fico surpreso, sinto meu sangue esquentar em minhas bochechas.
Envergonhado, abraço-o e escondo meu rosto em seu peitoral, sinto seu cheiro marcante pelo tecido do seu robe de seda, me perco em seu calor. O Conde apenas mantém o abraço apertado, fazendo-me carinhos enquanto sentimos um ao outro.
Desse dia em diante, todas as noites, depois que todos dormiam, o Conde e eu nos encontramos na biblioteca. Leio para ele aos sussurros e ficamos abraçados por horas, às vezes conversando, outrora segurando a risada, outras vezes apenas apreciando o silêncio da madrugada deliciosa em seus braços. Sem ultrapassar os limites que traçamos, sem nenhuma conotação sexual, apenas carinho e colóquios.
Nós fazíamos típicos jogos de perguntas, ele me perguntava algo, como, por exemplo, o meu sabor de bolo preferido e lhe respondia, na sequência ele precisava responder a mesma pergunta também. Tínhamos tantos detalhes em comum, mas também tantas coisas que não combinam. Mas sobretudo, até nossos desencaixes se encaixavam, o que me deixava mais apaixonado possível.
O Conde sempre me dava um beijinho na testa quando, às quatro da manhã, nos despedimos e separados cambaleamos até nossos próprios aposentos. Eu dormia com o coração quente e os pensamentos no paraíso que é desfrutar do amor do meu Conde.
Quando a chuva se foi e os dias de sol voltaram a tomar força, durante o dia mantive a rotina de acompanhar Lady Jane em seus afazeres, enquanto meu Conde e os outros homens da casa se mantinham ocupados com os assuntos importantes. Além de costurar com as meninas, também íamos até à cidade com frequência para comprar panos e linhas que tanto precisávamos.
Com tanta costura até Dalva ganhou um vestido novo. Mas a melhor sensação foi quando Jane terminou os ajustes finais no meu traje e pude prová-lo. Eu nunca na minha vida havia visto meu reflexo tão bonito como este dentro desse fraque. Quando Jane finalmente finalizou e entregou-me o presente, o embalei com carinho e levei para meu quarto onde passei horas admirando sua beleza.
Não via a hora de poder usá-lo, por isso estava ansioso para algo interessante acontecer logo. Infelizmente, o evento que estava por vir ainda não estava à altura de um traje tão elegante, mas certamente me deixou eufórico. Em uma dessas saídas até o centro, acabei notando que, na praça central do centro da nossa cidadezinha movimentada, os moradores erguiam as barraquinhas e ajeitavam o local.
— Milady, o festival de verão! Havia me esquecido totalmente! — Disse animado apontando para a praça que ganhava uma decoração de tons quentes, como laranja e vermelho.
— Esse ano o festival vai ser maravilhoso, vamos receber muitos visitantes. — Ela me contou também animada. — E dessa vez nosso temido Conde não vai poder escapar.
Olhei para ela cheio de esperança.
— Ele vem no festival? — Quase pulei de felicidade só com a pergunta. Geralmente, o Conde não faz aparições, pelo menos não frequenta uma comemoração da nossa península a sete anos.
Jane assentiu em concordância e finalmente dei pulinhos de alegria.
O festival de verão é quando o povoado de Anmak se junta em um evento um tanto cultural para exibir nossa cultura tão singular. É o momento perfeito para exibir a nossa arte, artesanato, culinária, nossos produtos e especiarias para visitantes que vem até aqui para fazer trocas. As pessoas trazem coisas incríveis para serem trocadas, como livros, objetos, espelhos, joias, coisas que nós de Anmak não possuímos com tanta facilidade.
Também é o momento ideal para selar novas alianças com as pessoas interessadas em nossa ilha. É simplesmente mágico, um festival encantador, cheio de alegria, dança, música e pessoas de diversos tipos, cores, formas. Tudo tão lindo que fico tonto de empolgação.
Preciso fazer alguns poemas, colares e pulseiras de conchas para trocar urgentemente!
Como não sou bom em nada e minha família só participa da barraca do peixe – por causa do meu pai que é pescador –, minhas irmãs e eu inventamos esse tipo de lembrancinha para conseguir algumas trocas.
— Acho que vou precisar de ajuda para escolher uma roupa bem bonita. — Falei para Jane e ela riu empolgadamente.
— Conte comigo! — Concordou com a mesma animação.
Podíamos sentir que esse festival prometia fortes emoções.
[1] Ruas “pé de moleque”: São os logradouros antigos que eram calçados com pedras brutas.
[2] Fraque é um traje de cerimônia.
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