CAPÍTULO DEZOITO
Verdades e Finais
Domingo, 16 de Abril de 1899
Praça XVII de Abril
Ilha Anjou, Rio de Janeiro, Brasil
Tem um lugar perto da escola de Anmak – não muito longe da nossa casa –, onde há jardins realmente charmosos. É para esse lugar, mais fresco pela sombra das árvores, que íamos nos refugiar dos dias calorentos de verão.
Eu odiava os dias de sol escaldante, gostava mesmo era da primavera, quando o tempo era fresco e quente na medida certa. Tudo passava a ter uma cor acentuada, exalando perfumes e inspirando a todos. Na primavera todos os dias são tão alegres.
Nesse maravilhoso jardim que citei, domado pela flora, Ingrid e Ivana – minhas irmãs mais velhas –, costumavam levar-me ao anoitecer, quando combinavam de acampar com suas amigas. Eu era um sucesso entre tantas garotas, o menininho fofo com uma janelinha grande na boca – após ter pedido os dois dentes superiores frontais. As meninas me mimavam à beça e sempre davam-me presentinhos, como doces e carrinhos.
Sinceramente, era maravilhoso receber tanto cuidado e atenção. Me sentia um verdadeiro bebê, conforme elas me viam.
Lá, fazíamos uma cabaninha apertada de lençóis nos dias mais quentes da nossa península, um piquenique com as poucas coisas que cada um trazia de sua casa. Contávamos histórias, riamos e dormíamos agarrados.
Lembro-me como se fossem ontem, todas as vezes que me recordo dessa memória, sinto um calor no meu coração. Eram os melhores dias da minha vida, embora odiasse o mormaço que o sol deixa quando se põe.
Quando a noite caía, nós sequestrávamos vaga-lumes e prendíamos os pobrezinhos dentro de um pote de vidro. Assim tornavam-se nossas lamparinas e junto das estrelas sobre nossas cabeças, brilhavam; iluminando nossa noite. Amava observá-los tão de perto, vendo a bundinha acender e apagar em um loop constante.
Sempre acordava antes de todo mundo e soltava-os de volta para a natureza, de onde nunca deveriam ter sido retirados. Felizes, eles voavam para longe de nós, ainda piscando graciosamente e desapareciam em meio às flores.
Sinto-me como um vaga-lume, preso em um pote sendo levado para uma realidade à qual não deveria pertencer-me.
E concluo, nunca deveria ter saído de Anmak.
Se você soubesse quando e como iria morrer, evitaria que isso acontecesse?
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— Você está pálido, está tudo bem? O que aconteceu, Icarus? Lady Balfour está preocupada… Icarus? — O Conde me chamava, enquanto apertava mais aquele livro em meus braços, só conseguia olhar em seus olhos procurando algum tipo de conforto, de chão, de lógica.
Foi tudo muito rápido, muito estranho. Num segundo estava aqui, vivendo a minha vida e, em outro, a cigana estava me dizendo que estou morto e que não pertenço a esse tempo. Sou um Eco e… Minha santinha, realmente não tenho condições de raciocinar agora.
— O pulso dele está fraco, deixe-me levá-lo até a cafeteria, um pouco de água com açúcar pode fazer bem. — Lorde Fabien disse e pegou-me no colo para carregar até o local citado.
Quando em minha vida imaginei ser carregado pelo Lorde Balfour? Minha nossa senhora do colapso, o que está acontecendo?
Pisquei meus olhos com força e até pensei em me beliscar para acordar, imaginando que tudo isso não passava de um sonho maluco. Contudo, eu estava realmente preso, não conseguia me mexer como se uma força maior prendesse meu corpo.
“Estou bem…”, balbucio e minha voz quase não sai de tão afastada pelo meu estado. Na realidade, não saiu, mas posso jurar que disse.
Fui sentado em um dos sofás estofados, Fabien tocou meu pulso novamente e observou meus olhos, enquanto isso o Conde solicitava água com açúcar e realmente não consegui me mexer direito por um bom tempo. É como se tivesse perdido o controle do meu corpo.
Minha mente estava nublada e muito cansada.
A todo instante, olhava ao nosso redor, temendo ver aquela mulher novamente. Não que estivesse com medo dela e sim por sua presença ser forte demais para mim.
Na minha cabeça ela era meu anjo da guarda, mas agora penso que é algo muito mais importante. Estou muito curioso sobre ela, mas, ao mesmo tempo, não quero vê-la novamente.
Se eu estiver certo… Conforme sou guiado pelo meu coração, tudo aponta para a coisa mais insana da minha vida…
Pelo visto, as vozes estavam certas, a razão deixaria de fazer parte da minha vida por um bom tempo.
Queria tocar a pedra que Bayo me deu com todas as minhas forças agora, na esperança de que me protegesse e afastasse de qualquer coisa ruim.
— Ele está em choque. — Concluiu Fabien. — Já vai passar. É como uma crise.
“Estou bem…”, tento dizer novamente, só queria confortar meu Conde, é que sua expressão apavorada faz meu coração se apertar. Contudo, parece que ninguém consegue ouvir.
— Ele vai ficar bem? Quanto tempo isso dura? — O Conde indagou preocupado.
— Sim, ele vai ficar bem, Conde. Apenas espere alguns minutos. — Garantiu nosso médico. Mas com a dor que estava sentindo no meu peito, os calafrios percorrendo meu corpo, parecia que não ia passar facilmente. — Não é grave como os que já presenciei, é apenas uma instabilidade emocional.
Senti algo molhado sendo pressionado contra minha testa, a essa altura estava deitado contra o peitoral do Conde e Lady Balfour colocava o pano molhado em mim para controlar minha temperatura. Do outro lado da mesa, Carlinhos, olhava-me completamente assustado, pobrezinho. Eu estava consciente, meu corpo é que não responde às minhas ordens.
Lorde Balfour continuou observando-me, finalmente reparando no que tanto aperto num abraço imensamente protetor.
— O que tem aí, Icarus? — Tocou o livro, mas eu o segurava firme, protegendo meu segredo com a minha vida, por isso ele não conseguiu pegá-lo e não se esforçou para tal.
— Parece um livro. — Lady Balfour concluiu.
Aos poucos senti minhas emoções ficarem calmas e fui afrouxando o aperto do livro que abraçava. Pisquei meus olhos devagar, não tenho ideia do que aconteceu, mas sinto-me fraco, aéreo. Como se minha alma escapasse de meu corpo. As dores e calafrios passaram, deixando apenas minha boca seca.
— Água. — Foi a primeira coisa que pedi, o Conde imediatamente pegou o copo de água para mim e ajudou-me a beber o líquido refrescante que definitivamente fez-me sentir melhor.
Só consigo pensar naquela mulher. De uma forma inexplicável a reconheci, ela era definitivamente eu, tamanha é nossa semelhança espiritual. E mais incrível ainda, sua expressão pacífica passava-me calmaria, era como se ela indicasse algo e se estiver certo, foi ela quem realmente levou-me até a Madame Moira.
Seus olhos, seu cabelo, o sorriso… Já a vi tantas vezes em minha mente, nos meus sonhos. E isso me faz ficar arrepiado. É algo mais forte do que posso imaginar.
É claro que a mulher em questão tinha traços diferentes, mais suaves e mais delicados por ser do sexo feminino. Mas ainda assim reconhecia-me em seu ser. Seu cabelo é mais ondulado e comprido, a pele tem um tom mais escuro que a minha, definitivamente não pertencia a essa vida, essa época, esse lugar…
E pela minha experiência lendo livros, ela definitivamente não era um fantasma e acredito que louco ainda não sou.
Não me pergunte como posso concluir isso com tanta convicção, apenas era nítido dentro de mim. Minha intuição, a voz do meu coração… chame do que quiser.
Sinto como se ela fosse uma parte essencial de mim e que sua aparição não era em vão. Não, nada disso é um acaso. Esse livro, tão intrigante, tinha algo a me dizer. Aquela mulher tem algo para me contar. Essa viagem era meu destino, por mais que esteja desejando nunca ter colocado meus pés no Rio de Janeiro.
— Icarus, querido, se sente bem? — Lady Balfour segurava uma de minhas mãos e questionou com gentileza. — Sabia que não deveria ter entrado naquele lugar. Queria ter impedido, mas você foi mais rápido.
— Onde ele foi? — O Conde ainda não tinha ideia e preferia não lhe contar.
— Na cartomante. — Lady Balfour é mais rápida. — Ele estava na tenda da cartomante.
Vejo o rosto de Heinrich ficar branco de tão chocado. Ele olha-me ainda mais assustado. Nós dois queríamos ir lá, mas não era para ser assim. Eu sozinho. Contudo, não consigo arrepender-me. Foi inevitável, quando dei por mim, já estava diante daquele ser poderoso. Foi tão rápido que é difícil dizer o que realmente aconteceu.
Sem sombras de dúvidas, era algo muito soberano. A única coisa que posso jurar a mim mesmo é ter ouvido aquelas vozes, falado com a madame e sobretudo, vi a minha versão do futuro.
— O que ela disse? Ela te assustou? Te feriu? Icarus, eu te disse para não acreditar nela! — O Conde disparou e apenas respirei fundo.
Precisava proteger esse livro com a minha vida, pelo menos até compreender o que está acontecendo. Inicialmente isso me faz concluir que não posso contar nada para Heinrich. Não por enquanto. Ele não vai acreditar, vai dizer que estou louco, vai jogar o livro fora.
Sinceramente, não sei o que dizer para ele.
— Eu só… Não sei. Não sei o que aconteceu. Só fiquei tonto e me senti estranho. Já estava me sentindo assim antes de entrar lá. — Falei devagar, minha voz saia bem baixinho.
— Isso é verdade. — Lady Balfour confirmou os fatos.
— Mas ela não fez nada, juro. Acabei não perguntando nada para ela, por não me sentir bem.
— Está tudo bem agora, querido. — Lady Balfour me confortou acariciando minha mão, Carlinhos continuava olhando-me assustado, por isso lhe dei um sorriso simples e ele devolveu, bonzinho como é.
— Assim que chegarmos em Anmak, gostaria que visitasse o hospital, Icarus. Vamos verificar algumas coisas, ver se está tudo bem. — O Lorde sugeriu, dando-me a entender que não tinha escolha, teria que ir.
— Acho uma boa ideia, querido. — Lady Balfour concordou, trocando um olhar com o marido.
Assenti devagar e o Conde parecia bravo, mantendo sua expressão carrancuda. No entanto, isso é tudo que posso dizer diante dessa confusão, mesmo que ele ainda estivesse imensamente preocupado comigo. Sua fisionomia dizia tudo.
Apenas troquei olhares calmos com ele, bebi mais água e respirei fundo como Fabien me auxiliou. Em poucos minutos me senti muito bem, como se nada tivesse acontecido. Não tinha como não voltar a minha atual realidade, ainda mais recebendo mais atenção do que precisava, com tantas pessoas nos observando.
— O que aconteceu? Por favor, me conta. — Heinrich perguntou na primeira oportunidade que tivemos a sós, quando o casal que nos acompanhava foi até a balconista acertar a conta da cafeteria.
— Não foi nada, só fiquei… Hmmm… Emocionado. E, ganhei esse livro também. — Menti e com certeza Heinrich é esperto para reparar nisso.
— Tem certeza que está tudo bem? Icarus, não tenha medo de me contar nada. Sabe que pode confiar em mim. — Sinto muito, mas não poderia contar o que realmente aconteceu lá dentro para Heinrich, ele sempre diz para não acreditar nessas coisas. E só preciso do seu apoio e não o contrário. — Não deveria aceitar nada vindo dela.
Tudo o que a Madame maluca disse pode não ser verdade, eu estou convicto, mas a resposta estava mesmo nas minhas mãos, literalmente.
— Está tudo bem… Ei, amor… Não se preocupe, está tudo bem. Já passou. — Acaricio sua mão com carinho ao dizer baixinho para ninguém ouvir. Com minhas confirmações claras, Heinrich suspira conformado, escolhendo respeitar minha decisão.
No fundo, tenho certeza que a Madame não mentiu para mim. Mas estou dividido. Podia sentir no fundo da minha alma que era verdade assim como minha consciência dizia que tudo isso é uma grande mentira. Só teria certeza quando lesse o livro. Por isso, fico ansioso para voltar para o hotel, para casa, para Anmak.
Não demora para sairmos da cafeteria com a intenção de andar mais na feira e posteriormente voltar para casa. Se dependesse do Conde iríamos direto para o hotel, mas expliquei que estava tudo bem e que podíamos andar mais pelo local. Era nosso último dia aqui, tinha que valer a pena. Com a confirmação de Lorde Fabien em relação ao meu estado de saúde, o Conde sentiu-se seguro e concordou.
Foi quando me lembrei da última vez que vi a mulher de branco, ela estava de frente a uma vitrine quando me indicava algo. Não tinha como ler o nome da loja, estava escrito em francês, mas era algo como art sculpté e de fato me parecia interessante. A loja era pequena e um tanto charmosa.
— Podemos ir até aquela loja? — Peço ao Conde que observa na direção que o guio, obviamente ele não consegue distinguir do que estou falando.
— Vou com você. — Confirma ele, avisamos ao casal que nos acompanha e atravessamos a rua até o estabelecimento.
Assim que paro diante da vitrine com meu corpo refletindo no vidro e o objeto em questão ali exposto, minha mente é preenchida por imagens borradas. Vejo-me, de verdade, em diversos momentos e talvez vidas… com aquele lindo diário.
A primeira nota mental que tenho é de sua beleza única, “fait main” dizia a plaquinha, delicadamente e unicamente feito por um talentoso artesão se aventurando no Brasil. Nunca me apeguei a nada que não poderia ter, como minhas irmãs que babam pelos vestidos expostos em vitrines de ateliês da nossa cidadezinha. Chegavam a chorar por saber que nunca os teria.
Durante toda minha vida tive diários, mas não era sempre que podia comprar um novo, já que a prioridade era colocar comida na mesa. Agora, tenho meu dinheiro e posso ter o diário mais bonito do mundo, se eu quiser.
E aquele diário na vitrine, era uma prova de algo que nunca sonhei que poderia ter. Até o determinado momento que minha vida mudou. “Nada lhe faltará”, jurou-me o Conde quando encontrou-me e fez jus a sua promessa.
É o diário elegante de capa esculpida em madeira de verdade, estampado com uma fênix que brilhava reluzente por causa do verniz que recobria a matéria do qual foi feita, era tudo que um dia sonhei ter e tudo que jamais poderia ter se levasse em conta o meu passado.
A respiração quente dele bateu em meu pescoço e desviei meu olhar do objeto pelo qual me encontrava apaixonado e subindo o olhar pela vidraça da loja, encontrei seus olhos castanhos. Enigmáticos como sempre. Um mundo penetrante que poucos têm acesso.
É que toda vez que enxergo o fundo dos olhos do meu Heinrich, enxergo a sua alma.
— O que prendeste tanto sua atenção? — Ele quis saber.
Gostaria de contar a verdade para ele, acabo de encontrar algo que me pertence. Algo que é uma peça importante na minha vida. O diário onde, segundo minhas visões malucas e déjà vus, escreverei sobre nós dois.
— É um lindo diário, a capa é esculpida em madeira de verdade. Há uma fênix gravada de forma detalhada. É simplesmente lindo. — Respondi com controle, tentando não demonstrar minhas emoções excessivas. Aquele diário era o desejo mais profundo do meu coração.
Quero-o tanto que sinto medo. Um nó aperta minha garganta. A mulher havia me indicado o diário. Quero chorar até sentir que minha vida tinha voltado aos eixos. Entretanto, sei que não voltará. Sinto que tudo isso é algo muito maior e está apenas começando.
— Se você quer, isso poderá ser seu, pequeno. — O Conde disse.
— Eu sei, mas estou com medo. — Respondo-o com sinceridade demais.
— Você sabe que eu po-
— Pode me dar tudo que eu quiser. Sei sim, senhor. Não se preocupe, posso pagar. — Garanti ao mesmo. — Mas o medo que sinto… — Suspiro. — Não sei explicar.
Quando estamos diante de algo grande, é natural sentir medo. E situações que nos amedrontam servem para nós fazer desafiar a nós mesmos e nos tornar mais corajosos.
— Tudo bem, se o deseja não há nada que impeça de o ter… vamos pegá-lo. — Sorridente, o Conde e eu entramos juntos na lojinha charmosa.
O típico sininho tocou em seu interior indicando ao dono que um novo cliente havia chegado. Um senhor bem velhinho olhou para nós e sorriu fofo, veio em nossa direção com todo o francês que não sou capaz de compreender. Mas Heinrich fala por mim e seguidamente o velhinho pega o diário na vitrine e leva-o até o balcão onde embrulha-o cuidadosamente. Enquanto isso, vasculho meu bolso para pegar a quantia de dinheiro necessária para pagar pelo produto.
Quando termina o embrulho e entrego-lhe o dinheiro, ele me vê observando-o e pega uma de minhas mãos apoiadas no balcão, segura-a com sua mão trêmula e coloca o diário sobre minha palma. Ele olha no fundo dos meus olhos e diz:
— J’espère qu’ici vous pourrez écrire toute la vérité sur votre cœur. Puisse ce phénix brûler de mauvaises choses et qu’elles aboutissent à des cendres qui renaissent sous la forme du bonheur le plus pur.
Obviamente não entendo absolutamente nada, mas ele fala com tanto amor e carinho que sinto essa boa energia dentro de mim.
— Ele disse: Espero que aqui você possa escrever toda a verdade sobre seu coração. Que essa fênix queime as coisas ruins e que elas se resultem a cinzas que renasceram em forma da mais pura felicidade. — Heinrich me contou e isso me faz sorrir ainda mais. Eram belas palavras, muito significativas.
Eu escolho enfrentar. Encaro meus medos e lhe mostro os dentes.
— Diga-o que fico grato pelas belas palavras e que seu talento é encantador, agradeço imensamente. — Peço para Heinrich e assim que ele diz, o homem sorri todo contente.
Esse é um dos rostos que nunca me esquecerei, sabia que aquelas palavras ficariam cravadas na minha memória para sempre.
— Merci. — Agradeço timidamente enquanto saímos do estabelecimento.
Do lado de fora, meu olhar cai casualmente sobre a ponte do outro lado da rua e a vejo pela última vez naquele dia. Noto-a sem o sorriso que usualmente me dava. E se o brilho de seus olhos for uma indicação, está prestes a chorar. Meu coração bate descompassado, uma pessoa passa a sua frente e ela se torna a típica névoa que se desmancha em um borrão.
Por que a vejo? Teima em aparecer para mim?
— Espera! — Digo de repente, precisava falar com ela.
Porquê sinto-me desesperado quando a observo? É tão forte que fico tonto e trêmulo.
Inerte e sem perceber, atravessei a rua e depois a praça sem nem me certificar se a passagem estava livre, sentindo seus passos atrás de mim. A essa altura, eu não conseguia domar meu corpo, ele agia por conta própria, como se algo dentro de mim precisasse esvair para fora.
Diante da ponte no centro da praça, parei no mesmo local onde ela estava, próxima às escadas que levavam para o cais, corri para o oceano. O sol estava quente sobre nossas cabeças, minha pele queimava-se, o mar estava calmo, transmitindo um soar suave. A brisa fresca dançou no topo da minha cabeça, balançando meus fios para lá e para cá.
Ela se foi.
Eu queria gritar, mas um nó apertou minha garganta. Tremendo, como nos dias de inverno. Como se meu coração estivesse petrificado por gelo.
Me pergunto, se eu não tivesse comprado aquele diário, teria sido feliz? Se não tivesse deixado Anmak e vindo até o Rio de Janeiro, minha vida ainda seria normal?
Contudo, não me arrependo das escolhas que fiz. Cada uma delas guiaram meus pés até os seus. E a certeza disso é quando sinto sua mão segurar firme meu braço e bruscamente ele traz meu corpo até o seu. Abraço meu Conde e finalmente o choro escapa pela minha garganta, um fio baixo e trêmulo de dor.
Sinto-me tão perdido, tão confuso e inevitavelmente com medo.
— Calma, pequeno. Eu estou aqui. Estamos indo para casa. — Acalma-me, sem questionar o que aconteceu. Como ele pode entender como me sinto? Estava agindo como um maluco.
Não me opus, deixei-me ser guiado e o trajeto foi silencioso demais.
Heinrich me levou para o hotel, ajudou-me a remover minhas roupas, colocou-me na banheira onde ali fiquei quietinho até a água esfriar. Seguidamente, fui me deitar e passei o dia todo assim. O Conde fez Fabien Balfour me diagnosticar novamente e apenas me recomendou descansar.
Meu senhorio precisou se virar para ajeitar nossas malas sozinho e ajudei como pude, visto que não conseguia nem mesmo fazer isso. E o tempo todo dizia que podia lhe contar o que estava sentindo. Contudo isso não era uma possibilidade, portanto, guardei tudo para mim mesmo.
A noite veio e com ela as nossas últimas horas na Ilha Anjou, o Conde decide ficar comigo e assim nós dois dormimos agarradinhos, ou ao menos ele dormiu, já que não tive paz de sequer fechar os olhos, quando tento vejo-a olhando para mim.
Agora sim estou com medo dessa mulher.
Curioso e sozinho, saio dos braços do Conde e deixo nossa cama quentinha para ir até a sala onde finalmente fico a sós com o livro e o abajur aceso ao meu lado. Cuidadosamente abro-o vendo que a capa é tão sensível e tímida, as folhas estão presas por uma costura muito interessante. Quem confeccionou esse livro, o fez a mão e com toda certeza para ser único.
Passo a palma pela textura meio áspera e ao abrir dou de cara com aquela carta escrita tão perfeitamente à mão. Abro-a com cuidado e finalmente deparo-me com a verdade que me espera.
A verdade sobre nós.
A verdade sobre mim, o Eco em minha alma.
A minha morte.
Por horas fiquei estático tentando enfiar na minha cabeça que já havia vivido essa vida e que uma pessoa – que sou eu em tantos anos à frente, voltou para o passado, regressando para esse século em meu próprio corpo, revivendo uma vida que já aconteceu e teve um final trágico.
Estou aqui, novamente, com o meu Heinrich, para corrigir nossos erros e evitar uma desgraça. E só acredito que isso está mesmo acontecendo quando abri o primeiro capítulo do livro e dou de cara com a narração perfeita da minha vida. Cada pensamento meu, cada decisão tomada, cada evento já ocorrido, estava perfeitamente narrado ali. Como se Deus tivesse de fato escrito o livro da minha vida.
É tão absurdo que não choro e nem reajo. Não conseguindo acreditar no que me é revelado. Nem o fato de saber que irei morrer de maneira tão cruel, me causa algum tipo de emoção.
Com os primeiros raios de sol atravessando as cortinas do hotel, finalmente dou-me conta que essa é a minha realidade e que algo muito ruim me espera em Anmak.
Infelizmente, precisaria de mais alguns dias para ler o livro, considerando que só consegui ler os três primeiros capítulos.
— Icarus? Mon ange? — O Conde acordou e veio à minha busca quando provavelmente não encontrou-me na cama. Limpo minhas lágrimas quais nem havia percebido que caíram. — Não dormiu?
— Não, estou muito ansioso para voltar para casa. — Minto, encontrando apenas essa desculpa. — Mas está tudo bem, só estava lendo e escrevendo um pouco.
O Conde ocupa o lugar ao meu lado no sofá e puxa-me para seu colo onde sento-me sobre suas coxas de imediato, deito minha cabeça em seu peitoral e sinto um alívio imenso por tê-lo ali. Entretanto, isso não resolveria minha realidade, tão pouco meus problemas. O pior era não poder compartilhar nada disso com ele, conforme a Julieta do futuro me auxiliou.
— Me dói tanto te ver assim, pequeno. Queria conseguir ler sua mente, assim saberia o que está acontecendo. — Ele diz, enquanto me faz carinhos. — Você me deixou tão preocupado, Icarus. Se é por causa de alguma pendência entre nós, por favor, diga-me.
Imediatamente, coloco-me de joelhos, de frente para seu corpo e entre suas pernas esticadas ao meu redor. Seguro seu rosto, olhando em seus olhos. Eu o perdoei.
— Você não queria me machucar, nunca teve a intenção. Foi horrível. Aconteceu. Nós somos adultos e às vezes homens brigam, não é? Disse-lhe que te perdoei, portanto, isso nunca será uma pendência entre nós. — Suspiro baixinho e levo minha boca até a sua, atiçando a saudade com um selinho molhadinho e suave. Depois volto a encarar seu rosto perfeito. — Não se sinta assim, senhor. Só estou com saudades da minha família. Vou ficar bem. — Tento confortá-lo, também não gosto de ver meu Conde assim.
— Obrigado por isso, não mereço sua compaixão. Mas estou feliz de não tê-lo perdido por causa da minha estúpida imaturidade. — Ele diz e apenas selo demoradamente seus lábios, calando-o. Isso acabou, não quero mais o ouvir falando tais coisas. — Acho que nunca mais vai querer viajar comigo. — Ele ri sem graça e também acabo rindo, meus dedos curtos penetrando entre seus fios de cabelo e deslizando pelas mullets, repetindo o processo num carinho gostosinho.
— Não diga isso, só pretendo evitar a Ilha Anjou. — Falo brincando, mas logo um pensamento me ocorreu e mudo de ideia. — Na verdade, pensando bem, virei sim, definitivamente não te deixarei sozinho com aquela tal de Vivienne, não.
O Conde ri à beça e ficamos um tempinho assim agarradinhos e conversando. É difícil não olhar para ele agora e pensar que nossos dias de vida poderiam estar contados caso não conseguisse nos salvar.
Quem é o nosso assassino? Como eu evitaria tudo isso? Era essa minha maior preocupação agora.
Sem tempo para pensar, apenas tento ignorar essa bomba de medos e interrogações que invadem meu ser, dedico-me a arrumar-me para a longa viagem que temos de volta para casa.
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[dezenove dias depois]
Segunda, 1º de Maio de 1899
Praia do Coral
Anmak, Florianópolis, Santa Catarina
Queima e teima. O medo dentro de mim.
Tic-tac, o relógio está correndo para nós.
— Estamos ancorando. — O Conde avisou, abraçando-me por trás enquanto nós dois encaramos o oceano pela janela do nosso quarto em Pégasos. — Chegamos em casa, pequeno.
— Sim, meu Conde, chegamos ao nosso destino final. — Digo baixo, como se não quisesse ser ouvido.
Sim, imagino o que será preciso para corrigir meus erros. A mulher do futuro tem razão, só não consigo entender como posso nos salvar terminando o que temos.
Qual o objetivo de tudo isso se acabamos separados?
Não faz sentido a Julieta do futuro voltar no tempo para que possamos ficar juntos, se o destino mostra-me que inevitavelmente vamos precisar nos separar.
Uma lágrima escorreu pela minha bochecha quente e ela apenas abriu caminho para que mais outras caíssem. Foram cerca de vinte dias no mar, dessa vez uma viagem mais longa, no entanto menos difícil para mim, considerando que com o medicamento que Lorde Balfour me deu, fez com que tivesse menos enjoos. Com alguns dias já estava adaptado e não precisei mais do medicamento.
Passava meus dias no mar lendo compulsivamente o livro que a Julieta do futuro havia me escrito, deixando até mesmo o Conde de lado para conseguir dedicar-me à tarefa insana de escrever toda nossa história no meu novo diário, enquanto fazia anotações sobre o livro em outro bloco de notas.
Era assustador a maneira como tudo se assemelhava. Não restava mais dúvidas, era tudo verdade. Tudo era perfeitamente idêntico até meu atual momento, todos meus desejos e pensamentos. Todas as cenas em que o Conde me tocava, havia acontecido. Assim como as vezes que nos amamos e nós quebramos.
Queria gritar, mas a voz não saía e só me restava às lágrimas. Por noites chorei enquanto dormia, tendo pesadelos horripilantes. O Conde acordava com minha inquietação e eu chorava por horas em seus braços até dormir de novo. E todas essas noites ele ficava assustado, sem respostas. Enquanto a dor me assombrava.
Só queria não me sentir tão sozinho, mas não podia contar para ele. A essa altura já havia percebido que havia algo muito errado…
E pensar que na primeira versão da nossa vida, nossa volta de Anjou havia sido a mais feliz possível. Essa é a primeira coisa que mudei, visto que do contrário, apenas me mantive afastado de Heinrich.
Não vi mais a Julieta, porém sonhei com sua vida diversas vezes. E sonhei novamente com uma provável outra vida que pertencemos, onde subíamos em uma torre para observar as estrelas. Era bom sonhar conosco, mas ao mesmo tempo doía saber que nossa realidade era outra.
O Conde estava exausto, rodeando-me para entender o que estava acontecendo comigo. Lorde Balfour também se preocupou, pensando que eu estava entrando em uma fase deprimente. Mas eu não estava. Contudo, não deixava de estar profundamente triste, conforme o livro chegava ao fim, mais doloroso ficava.
Eles me queimaram vivo…
E quando leio sobre a minha morte, é demais para mim. Aquele navio se torna um cubículo sufocante e a vontade que tenho é de pular no mar e afogar-me de uma vez. Eu lia, em maioria, pela noite. Com o Conde dormindo na beliche e a lamparina fraquinha acesa do outro lado do quarto que iluminava a digitação da Julieta.
E chorei, em silêncio, sufocando meu grito no fundo da minha alma quando me dei conta de toda nossa verdade… Li e reli o livro no mínimo umas três vezes e chorei aos prantos em todas elas.
Entendi, meu Conde, porque nos tornamos um Eco.
E tudo fazia muito sentido agora. Tanto que deixava-me estático, sem fome, sem sono, imaginando quando os erros estariam diante de mim para que pudesse desfazê-los.
Minha única chance de te amar.
E para isso teriam que ser tão doloroso para nós dois.
Ninguém disse que seria tão fácil te amar, mas também não me alertaram o quanto poderia doer.
O que me dava forças era sua existência e o que sentimos um pelo outro. Você me fazia ter vontade de realmente nos salvar. Nosso amor merecia uma chance de vingar. E o que sentimos era tão sincero e bonito, que Julieta Evette – há séculos de distância de nós –, sentiu e resolveu lutar pelo nosso amor.
E é só por isso que aquela se tornou minha última lágrima com o mar presenciando minha dor e levando-a para bem longe de Anmak, onde todo esse sofrimento não era mais bem-vindo. Icarus Campelo precisava ser forte, necessitava dar espaço para a luta da sua alma. Precisava ser cuidadoso e alcançar o objetivo.
Apertei a pedra que Bayo me deu, agora pendurada no meu pescoço junto a medalha de meu pai. Percebendo que ela tentou me alertar naquele dia do festival de verão. Não sei o que ela é, mas sabia exatamente o eu estava destinado.
Meu destino final era a fogueira, mas recusava-me a aceitá-la como meu fim. Se morrerei, será nos braços do meu amado Heinrich em um futuro onde nós dois já nos amamos o suficiente para finalmente iniciar uma nova história juntos em outra vida. Morrendo e renascendo.
— Você parece melhor. — O Conde percebe enquanto viro-me para ele e seguro suas mãos enluvadas.
— É tão bom estar em casa. — Digo, embora minha única felicidade é estar em seus braços. — Não se preocupe, aos poucos me sinto melhor.
— Fico tão aliviado, Icarus. Tive medo que pudesse estar doente. — Seus olhos demonstravam toda sua preocupação comigo.
Ao longo, ouvimos o sino da igreja ser tocado, anunciando a chegada do Conde. As pessoas eram um burburinho distante, todos nos esperavam lá fora.
— Não se sinta mais assim. Vamos, vamos… — Puxo-o pela mão, saindo do nosso quarto e assumindo minha devida pose de empregado. — Todos querem ver o Conde de Anmak!
Até mesmo os que desejam nos ver mortos…
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No porto só encontro minhas duas irmãs mais novas, Ingrid e Irene já que eram as únicas em casa para correrem com a notícia da nossa chegada e vieram a tempo. Abraço-as e prometo uma visita para entregar os presentes.
Caetano nos espera com a sege pronta para subir colina acima e nos levar para casa. E assim, durante a trajetória, fico atento a tudo observando o caminho familiar e sentindo meu coração disparar conforme aproximo-me do casarão. E virando a típica curva acentuada, ali estamos, com a saudade gritando no peito.
O que mais me alegra é ver Ryu, Liana e Dalva nos esperando ansiosos.
— Ryu! Ryu Oshiro! — Chamo-o eufórico correndo na sua direção e ele na minha, trocamos um abraço imensamente apertado até rodopiando pelo jardim. — Que saudades de você! Como foi a viagem? — Não dá tempo nem de responder, é tanta euforia que logo vou indo na direção de Liana para abraçá-la também. — Liana! Meu deus, como está o bebezinho? Nossa, sua barriga está maior!
Tudo é tão alegre, abraço Dalva também que aperta minhas bochechas e enche-me de beijinhos, mimando-me. Como senti saudades dessas pessoas, a minha segunda família.
Nas primeiras horas de volta nós conversamos e rimos sem parar enquanto matava saudades dos bolos e tortas de Dalva. E o resto da tarde Oshiro ajudou-me a organizar minhas coisas enquanto o Conde descansava. Aproveitei para ouvir Ryu contar de sua viagem até Paris.
Mas tudo muda quando pergunta sobre mim e o Conde. Nunca conversamos sobre isso depois que Oshiro nos pegou no flagra e finalmente descobri que ele já sabia do meu relacionamento há tempos.
— Anjou foi péssimo para nós dois. Mas estamos bem. — Falo, meio cabisbaixo e ele parece perceber isso.
— Tem certeza? Não tem nada que queira me contar, o Conde estava bastante preocupado contigo. — Observou, insistindo.
Como queria contar tudo para ele, desde a Madame, até a Julieta do futuro, o livro… Meu assassino… Meus erros… O Eco. Mas eu não podia, simplesmente não podia.
— Sim, tenho certeza, Ryu. — Digo tentando passar mais segurança, desvio do seu olhar ao terminar de dobrar uma pilha de roupas. — Alguma novidade em Anmak enquanto estávamos fora?
— Não, tudo está como sempre. — Ele diz e meu coração acelera, eu sei o que vem a seguir. Ryu ergue as sobrancelhas e diz: — Ah! Quase me esqueci! Seus pais enviaram isso! — Ele tira um bilhete de seu bolso e entrega-me. Provavelmente uma de minhas irmãs mais novas escreveu. — Parece importante.
Exatamente como Julieta escreveu… a semelhança fazia todos os meus ossos tremerem.
Apavorado, pego o bilhete e não preciso lê-lo para saber do que se trata. Julieta já havia me contato em seu livro, assim como foi-me provado sua veracidade segundos atrás, em todas as ações e falas de Ryu.
Já sabia o que me esperava.
Era algo que poderia mudar meu destino definitivamente.
Mais precisamente, mudar meus erros.
— É agora que tudo muda, Ryu. — Digo e ele fica confuso. — Eu tenho um jantar de noivado. Meus pais querem me casar.
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