CAPÍTULO TRÊS

Atendo ao teu chamado

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— Aquiete-se, não tem o que temer. Quando voltar, tudo estará como você deixou. Sinto sua ansiedade daqui. — Ela disse, como se o que estou prestes a fazer fosse algo simples.

Fechei meus olhos com força, apertando as pálpebras uma contra a outra. Mexer com tempo pode gerar uma imensa bagunça. Bem dizia, Newton: “Toda ação tem sua reação”. Temia a intensidade das minhas. Quais seriam as consequências?

Sendo sincera, tinha um medo sim, de voltar no tempo e não conseguir consertar essa desgraça que nos espera. De ser novamente destinada ao fogo e novamente perder o amor da minha vida. E a minha pobre alma novamente cairia em um círculo vicioso de não evoluir e colidir-se com chamados que me puxam para trás.

Mas engulo o medo, como um bolo que desce sufocando a garganta.

Olho para ela, olho o chá, seguidamente o relógio e vou.

Toda vez que fecho meus olhos para dormir, meu corpo falha miseravelmente na tentativa inútil de descansar. Meus sonhos não são meros devaneios, são visões noturnas, pendências de um passado do qual minha alma pertenceu. E você está sempre nele, fazendo jus a nossas almas que pertencem um ao outro.

Metades que se encontram e se repelem na mesma velocidade. Basta um toque e isso ressoa por séculos, tornando nosso encontro mais impossível do que fora antes. Nossas palavras, juras de amor, repercutem por todos esses anos até a minha atual realidade. Seus toques fazem um caminho de digitais por minha pele, sinto arder, queimar onde quer que tenha me tocado.

Agora entendo os sonhos que venho tendo por toda minha vida até o momento.

Começou com fogo.

O fogo em todos os lados e as chamas alcançavam minha pele. Não queimava de fato, mas podia sentir a ardência.

No início, pensava que fosse algo superficial. Apenas um código a ser decifrado, algo espiritual. Mas, quando abro meus olhos e vejo seu rosto através do fogo… É assustador de tão real. Parado diante da fogueira, olhando-me enquanto queimo e pago pelos nossos pecados. No fundo dos seus olhos vejo toda a dor que ele tenta ao máximo esconder por todo esse tempo, vejo todas as lágrimas que não derramou em seus piores momentos e todos os demônios que o devoravam quando o encontrei pela primeira vez.

Sua dor está ressoando por séculos e choro enquanto durmo, por sentí-la tão intensamente, como se removessem minha pele com uma faca, assim como se preparam aves abatidas.

Foi no século XIX, me localizo no tempo através dos conhecimentos como profissional, cujo carrego como cicatrizes na alma.

Nós nos amamos, Conde e criado, mas eles foram descobertos, colocaram um fim no que julgavam ser pecado e salvaram sua coroa; me cortaram e me destruíram diante de seus olhos. E nesse momento, sei o que destino preparou para nós, a oportunidade de mudar aquilo que pior nos aconteceu.

Meu espírito foi feito com uma marca, talvez fosse complexo demais para se explicar agora, mas minha alma é um eco. Por isso, não importa quantas vidas eu viva, sempre serei assombrada por memórias daquelas que já vivi.

Após dezenas de anos continuo ouvindo seu pedido, meu Conde.

Atendo ao seu chamado.

E vou até você.

Eu volto, por nós.

[cinco dias antes]

Terça, 17 de Janeiro de 2113
Aproximadamente às 9h
Museu de Anmak
Ilha do Campeche (Florianópolis, SC – Brasil)

Cruzei o oceano em busca de informações sobre você, sobre mim, sobre nós e a ilha que lhe pertencia, já não mais existente. Se fosse voltar no tempo para concretizar as coisas e evitar uma tragédia, precisava ir preparada, e não bastava o pouco conhecimento sobre os fatos que nos aconteceram, não. Precisava ir a fundo, como uma boa historiadora faria. Respostas, por menores que fossem, eram indispensáveis. Seu rosto, tão nítido na minha mente, era minha esperança, assim como a minha bússola.

Minha família, por parte brasileira, descende de Santa Catarina, já estive aqui antes quando criança. Minha irmã e eu viemos com nossos avós, rever a família do outro lado do oceano, conhecer aqueles que nos amam e mandam cartões de feliz aniversário sem nunca terem sequer visto meu rosto.

Meu pai também é brasileiro, mamãe o conheceu em Porto Alegre, quando ela estava de passagem pela capital do Rio Grande do Sul. Mas meu avô materno, Charlie, é francês; vovó o conheceu quando ela foi cursar moda em Paris e por ali ficou, cansando-se com o charmoso homem que conquistou seu coração. Meus pais também eram apaixonados por Paris, portanto, ali ficou sendo nosso país, nosso lugar no mundo. Mas quando venho a Florianópolis, sinto-me em casa e percebo que faço parte daqui.

Minha alma estava certa.

Enquanto caminhava pela trilha em direção ao museu que homenageia Anmak, as pessoas transitam de um lado para o outro. O sol estava escaldante nesse dia, apenas tinha pressa em chegar ao meu destino, localizado no topo da Trilha da Volta Norte. Como de comum para uma historiadora atrás de um mistério, já havia entrado em contato com a coordenação do museu. Alguém chamado por Théoden Bard, estagiário, iria ser meu guia e me contar tudo o que não sabia sobre a ilha fantástica que um dia existiu. E coincidentemente ele é o único que poderia me guiar, já que possuímos uma única língua em comum, o inglês. Embora seja brasileira, não sabia a minha língua de origem, já que o meu idioma é francês.

O que consegui reunir, veio dos meus sonhos que mais se parecem um filme. A península Anmak era uma ilha que se tornou o império governado pelos condes portugueses descendentes da família Vollard.

A ilha foi descoberta por um acaso quando Tyrone Vollard e sua embarcação precisaram ancorar na ilha desconhecida, mas que era bem próxima de Florianópolis. Vollard era um homem rico, influente e de grande importância. Obviamente, após fazer um acordo com o Imperador D. Pedro II, teve a autorização de popularizar a ilha. Tyrone com suas boas intenções começou a dar vida à península que chamou de Anmak, sua flora exótica não passou despercebida.

Anmak é famosa por suas plantas e flores medicinais. Não encontrei artigos explicando a fundo, mas se tornou alvo de cientistas devido à flora que carregavam um DNA desconhecido, que poderia ser usado na medicina, se fossem explorados com propriedade.

Obviamente Tyrone Vollard foi esperto em construir seu próprio laboratório e contratar seus próprios cientistas, para explorar tudo de forma sigilosa. Isso não quer dizer que não passou por maus bocados, diversas vezes ameaçaram tomar sua terra e ele lutou bravamente ao lado de seu povo para mantê-la.

Fato é que Anmak sofreu muitos ataques, e a península passou a estar sob grande ameaça. Tanto em prol de possuírem as plantas, quanto disputas por território. Um desses ataques Icarus era criança, por sorte, não sei de que maneira, Anmak conseguiu se proteger quando finalmente fez uma aliança forte com familiares de sua terra natal. E por fim, os ataques cessaram.

Mas deixou sequelas. Que ligam o rapaz que fui no passado ao Conde para quem servi, obviamente ele era herdeiro de Tyrone.

Anmak tinha um laboratório muito competente. Possuíam alianças boas, navios de importação e exportação. Muito bem governado, mas era carente no exército armado, não possuíam artilharia pesada, por isso eram facilmente vencidos. E quando se tratava de interesses e dinheiro, não faltavam inimigos para aquela península.

Agora o que realmente sei é que Anmak não existe mais, e já faz um bom tempo. Mas a cidade de Florianópolis, continua bela. Uma cidade beira-mar muito paradisíaca, com aquela sensação gostosa que vem do oceano. O museu em questão fazia-se presente no pico de uma montanha, onde normalmente as pessoas fazem trilha e por um acaso se esbarravam com a simpática construção entre as árvores.

Com o pouco de informação que tinha, fui até a singela instituição. Do alto da montanha só se via mar, toda a extensão do Oceano Atlântico Sul que parecia não ter fim, o mesmo que engoliu a ilha em questão. As gaivotas sobrevoavam ao longe, me trazendo uma sensação deliciosa. Definitivamente, o local trazia uma calmaria para a alma.

Levada pelo clima agradável, subi os poucos degraus de madeira para dentro da casinha singela cheia de memórias da tal ilha.

— Julieta Evette? — Um homem alto e de etnia afro me abordou bem na entrada, diante de um painel com desenhos que expõe algumas das plantas medicinais de Anmak em forma de ilustrações muito bem feitas. — Sou Théoden Bard, o estagiário.

— Sr. Bard, sim, sou eu, Julieta de Paris. — Nós trocamos um aperto de mãos.

— Prazer em conhecê-la, mas pode me chamar de Theo. — Disse simpático. — Historiadora de romances, certo? Sou um caçador de ilhas. — Théoden riu baixinho, todo charmoso. As covinhas em suas bochechas são encantadoras. — Vamos entrar? — Acenei brevemente quando ele gesticulou com a mão, atravessamos o arco de entrada e deixei ele me guiar. — Não tem muito o que dizer sobre Anmak, estou curioso pela sua pesquisa, confesso, senhorita.

— Bem, só fiquei curiosa, não estou atrás de um romance em especial, mas seria bom se descobrisse um. — Menti. — Talvez possa sanar umas dúvidas mais específicas. Como, por exemplo, quem era o Conde em torno de mil oitocentos e oitenta.

Théoden ergueu uma sobrancelha e assumiu uma expressão pensativa, provavelmente seu cérebro genial estava vasculhando seus “arquivos” atrás da resposta.

— Provavelmente… Heinrich… Isso! Heinrich Vollard. Creio que ele estava comandando no ano citado, mas seu reinado já estava no fim, se eu não estiver enganado. — Théoden começou a me explicar fielmente, ele de fato sabia sobre o que estava falando. Amo quando os historiadores têm plena segurança ao contar algo. — Depois dele veio seu genro Raul Fortunato, seguidamente de seu neto Saulo Fortunato, em seguida devida as más escolhas de Saulo, houve uma decadência certeira de Anmak. Ele quebrou alianças e desafiou inimigos demais, a península faliu. Obrigando-o a entregar a ilha para o governo de Florianópolis e seguidamente aconteceu a catástrofe natural que, infelizmente, aniquilou a ilha tão preciosa.

Ainda estava assimilando tudo, mas certamente aquele nome me deixou paralisada.

— Heinrich Vollard. — Sussurrei meio avoada, algo quente fervia dentro de mim quando recitava esse nome, deixá-lo escapar por meus lábios intensificava essa sensação.

Será que esse é o nome dele?

Era quase como se minha alma gritasse sim.

É o homem com quem venho tendo sonhos, que toca meu corpo nu me faz arrepiar inteira, cuja voz faz meu coração queimar de paixão. É ele quem me chama.

— O que sabemos é que o Conde Vollard II sofreu ataques muito cruéis no começo do seu governo. Seu irmão mais novo – o qual não sabemos o nome – era o responsável pelo exército de Anmak. Entretanto, suas estratégias defensivas eram mínimas, pois, realmente só utilizavam armas para defesa que os próprios construíam. Sendo assim, não era nada comparado aos de seus inimigos que tiraram vantagem disso. O último e mais sangrento ataque foi o pior, mas o irmão do Conde conseguiu chegar a tempo, antes que executassem o Conde, com essa nova aliança eles puderam se defender.

Ouvia tudo atentamente, enquanto Théoden parecia muito empolgado em relatar tudo que ele havia descoberto em suas pesquisas e “caça a ilha”.

— Esse último ataque cruel ficou conhecido como Campos Elísios[1], muitos habitantes de Anmak morreram cruelmente assassinados, incluindo a Condessa. — Essa informação realmente fez meu coração doer, Heinrich teve sua esposa assassinada em um dos ataques que a península sofreu, é uma forma muito cruel de morrer. — O General de Anmak conseguiu fazer um acordo com os Ingleses, foram eles que os ajudaram na batalha final e consequentemente a vencer, ainda que fosse tarde demais. De qualquer forma, embora tenha causado tanta dor emocional para o Conde, depois disso Anmak evoluiu demasiadamente, consequentemente podendo se defender. Os próximos anos foram de ouro, Raul assumiu o posto após se casar com a filha do Conde, no entanto… Como dito anteriormente, nas mãos do seu filho tudo ruiu. O restante você já deve saber. Anmak não permaneceu por tantos séculos. O pouco que temos foi de quem se mudou de lá para terra firme e pode compartilhar essas histórias. E tudo que temos aqui foi o que recuperamos no alto-mar quando a ilha foi destruída em uma noite de tempestade.

Observava os objetos, eram todos comuns, como pertences de alguém que foram achados aleatoriamente. Espelhos, livros, relógios, vasos… Mas esses objetos, simples ou não, foram parte de Anmak, por isso podemos contar uma história.

Fiquei calada observando tudo por alguns minutos, até que diante de um corredor que levava para a sala de administração, Théoden parou diante de mim, seu rosto carregava uma expressão confusa.

— Olha, sei que veio atrás de algo sim. Não deveria lhe falar sobre isso, mas você veio de Paris até aqui, então… — O encarei ansiosa por suas palavras, ele olhou para os lados como se procurasse pela presença de alguém e não encontrou, o museu tinha poucos funcionários e eles estavam devidamente ocupados. — Tem um diário, não está completo e estava muito destruído. Ele foi encontrado junto à ossada de Heinrich Vollard muito antes de Anmak ser destruída. A família do Conde exigiu que seu corpo fosse desenterrado e levado para Portugal, onde de fato foi enterrado ao lado de sua família, por isso, quando o Conde subitamente tirou sua própria vida aproximadamente no ano de mil novecentos… o enterraram na ilha, fizeram a transferência depois de um tempo. Encontraram o diário, o qual alguém colocou junto do seu corpo.

Meu coração acelerou, primeiramente porque Heinrich se suicidou… o que imediatamente me leva a concluir que, após a minha morte ele tirou sua vida. Meu coração dói, uma dor crônica, por saber que diante da minha morte – que o causou tanto sofrimento –, ele não encontrou mais razões para viver.

Além disso, o choque em relação ao diário misterioso me deixa realmente nervosa.

Segurando minha mão, Théoden me puxou até uma porta onde nós descemos uma escada estreita até o porão do museu, e se não fosse por ele, ainda estaria estagnada no mesmo lugar, sofrendo as consequências dessa notícia.

Ainda sem dizer uma palavra, apenas observei quando ele parou diante de um cofre, a trava fez reconhecimento digital de seu rosto e a porta de metal se abriu, de lá tirou o tal diário envolto por uma embalagem que o protegia, o depositou gentilmente sobre a mesa e calmamente o abriu.

— Do que se trata? — Perguntei curiosa enquanto me aproximava.

— O diário não foi escrito pelo Conde e sim por um de seus criados. O nome dele é… — Théoden me olhou um tanto desconfiado, balançou a cabeça em negação como se estivesse pensando em uma coisa absurda. — O nome dele é Icarus Campelo, por mais assustadora que seja a coincidência, citou em seu e-mail que buscava notícias sobre esse nome. E julgando ser uma historiadora de romances… É-é m-muita…

Coincidência.

Destino.

Conclui mentalmente a frase inacabada do estagiário.

Um nó apertou minha garganta.

Fiquei sem ar. Paralisada.

Era acaso demais.

Provavelmente estava fazendo parte de uma daquelas pegadinhas da TV e a madame armou tudo, ou toda essa loucura é de fato real.

Théoden percebeu o choque nítido no meu rosto. Senti cada ossinho do meu corpo tremer violentamente. Diante das conjuras absurdas que me cercam, esse diário obviamente era meu.

— Olha, Srta. Evette, tem coisas que nós não precisamos de explicação, não é mesmo? Não sei o que te trouxe aqui e nem sei reagir a isso, portanto, vamos fingir que tudo isso não é louco. — Théoden soltou uma risada baixinha para descontrair. — No diário, tudo aponta um pouco, implicitamente, que o Conde e o criado viveram um romance. Não tem um final, Icarus parou de escrever cedo demais, ele parecia dedicar-se a relatar eventos importantes no diário, mas de repente parou e a última data do dia que ele escreveu está borrada, mas condiz com o ano de mil novecentos.

O que bate com o mesmo ano que o Conde tirou sua vida, associo de imediato.

— Ele morreu. E em seguida, o Conde tirou sua própria vida. Um clássico, como Romeu e Julieta, tão violento e infeliz quanto. — Em choque, balbuciei. Estava paralisada, as palavras apenas escaparam da minha boca. Théoden arregalou os olhos para mim, havia uma afirmação na minha voz, não uma suposição. Sim, eu estava certa. — Está mais que claro. Naquela época, não era aceito, sob nenhuma hipótese, um relacionamento homossexual. Mesmo que, um dos envolvidos fosse o Conde. Matar Icarus é mais fácil do que matar o Conde de Anmak, não acha?

Théoden assentiu levemente, de acordo ou apenas em choque, assim como eu.

Romeu e Julieta, os amantes que não puderam viver seu grande amor. Julieta fez de tudo para viver esse sentimento, até mesmo fraudar a própria morte, para que no final o próprio Romeu, enganado por sua façanha, falecesse em seu nome.

A nossa grande diferença, é que a Julieta morre de verdade, restando a Romeu apunhalar seu próprio coração com um punhal. É assim que acaba.

Trágico. Uma verdadeira tragédia. Assim como o Conde e Icarus.

A Julieta e eu somos muito parecidas agora e não é só no nome em comum. Nós lamentamos eternamente pela morte de nosso amado.

Aproximei-me do caderno já pegando minhas luvas no bolso da minha mochila. Com todo cuidado do mundo fui até o “meu” diário, a capa era esculpida por madeira de verdade, no entanto, estava em um estado deplorável. A encadernação molhou-se e estufou, mas ainda assim, podia ver a beleza que um dia possuiu, um estilo vintage elegante. Na madeira estava devidamente esculpida, como um desenho, uma Fênix.

Definitivamente, me encantaria por algo assim. Talvez eu realmente seja Icarus Campelo.

Passei o dedo suavemente pelo traço marcado da Fênix, em seguida abri a capa, no final da folha da contracapa Icarus assinou seu nome com sua bela letra. Infelizmente, não poderia ler português. Sabia inglês, francês, espanhol, e até um pouco de latim e alemão, mas não sabia a minha língua materna. As poucas palavrinhas que sei, vovó me ensinou.

Folheando o diário percebi que de fato não sabia ler absolutamente nada. Algumas folhas estavam manchadas, rasgadas, páginas faltando, outras esfarelando, e principalmente as que se molharam ficaram borradas pela tinta.

Suspirei completamente chateada.

— Eu… Não sei nada de português. — Confessei para Théoden, fechando o diário.

Théoden arqueou as sobrancelhas surpreso. Ele sabe da minha descendência brasileira e impressiona perceber que não sei o idioma.

— Também tenho certeza que não poderia levar isso para meu hotel e te devolver amanhã. — Me afasto pensativa, não tinha alternativa. — De qualquer forma, obrigada, Theo. Sei muito bem que não tem permissão de me mostrar isso, tão pouco me confiar um segredo como este.

— Vejo que isso é importante para você. Minha intuição me diz que você veio atrás disso. — Ele revelou sua observação cuidadosa, Théoden também tinha os famosos “olhos de águia”.

— Sua intuição é ótima. — Revelei por fim, acabando por desabar no sofá meio empoeirado próximo a nós, estava um tanto chateada por não conseguir tantas respostas como pensei que encontraria. Algo que pudesse fazer a diferença… Algo que me mostrasse onde o Conde e eu erramos. Cacete, tenho que voltar no tempo para corrigir sabe-se lá o que.

— Tudo bem, tudo bem, isso vai parecer bem louco agora… — Sua expressão mudou de repente e abanou as mãos estabanado e freneticamente.

Uni as sobrancelhas em confusão, Théoden estava pálido e trêmulo. Ele tinha algo importante para me dizer.

— O que foi, Theo? Vai me dizer mais alguma coisa maluca? Pode falar, fica à vontade, nada vai superar o que estou vivendo. — Garanti-lhe, dando toda a segurança possível de que aceito ficar ainda mais desmiolada com a minha realidade.

— Certo. — Ele engoliu seco e cruzou os braços, encarava o chão com uma seriedade assustadora. — A verdade é que a minha avó é Mãe de Santo e ela sempre me alertou sobre algumas coisas pendentes na minha alma… Ela também me avisou, Julieta, que um dia você me procuraria e que deveria fazer de tudo para ajudá-la. É a minha missão.

— Théoden… — Minha expressão mudou de séria para em choque.

— Me fala a sua verdade, Julieta. Sei que você pode guardar meu segredo, e certamente também posso guardar o seu. — Ele disse se aproximando e sentando do meu lado. — Prometo que não vou rir e nem te julgar.

Olhei para seu rosto bonito, sentia que podia confiar em Théoden e se tem uma coisa que aprendi é confiar na minha intuição, por isso não tive medo quando deixei as palavras escaparem da minha boca. Disse, na verdade, quase tudo. Como se precisasse pô-las para fora.

— Venho sonhando com Icarus Campelo e o Conde já faz muito tempo. Quando pesquisei sobre, completamente fissurada pelos meus sonhos que se repetem, cheguei até aqui. Vim de Paris para Florianópolis em busca de respostas. — Respiro fundo, derrotada, poupando-o dos detalhes. Contei apenas o que convém contar. — Isso é muito, muito importante para mim.

Ele vem de uma família que acredita nessas coisas, ele falou da sua avó… Sendo assim, acredito fortemente que ele não vai me achar maluca.

Théoden ficou calado por um tempo, provavelmente absorvendo tudo, por fim ele se levantou rapidamente, pegou o diário e parou diante de mim com uma expressão determinada.

— Você não pode levar consigo, é verdade. E se pudesse, levaria horas ou até mesmo dias para traduzir tudo. — Ele ditou o óbvio. — Mas tenho autorização para levá-lo, como o representante da história de Anmak, posso fazer isso. Até porque o que está escrito aqui também me intriga de uma maneira inexplicável.

Minha postura automaticamente se ajustou, surpresa e obviamente entendendo o que estava propondo. Théoden estava disposto a me ajudar. E quem sou eu para recusar ajuda quando me encontrava totalmente perdida.

— Então, vamos logo, quanto antes pudermos devolver melhor. — Ele disse e imediatamente guardou o diário em uma caixa segura para transportá-lo sem danificar. Historiadores têm o dever extremo de preservar um tesouro.

— Théoden, não se arrisque por minha causa, não quero lhe causar problemas. Você tem certeza disso? Sabe que não estou em posição de recusar, a não ser que lhe prejudique. — Pontuei ficando de pé e guardando minhas luvas.

O homem sorriu em resposta.

— Não vai me prejudicar. Quero te ajudar, Srta. Evette. Algo na minha alma me diz para fazer isso. Vamos, não quero perder mais tempo.

E assim nós fizemos toda a travessia de volta para o centro de Florianópolis e fomos até meu hotel. Foi exatamente como os meus pais faziam quando estavam diante de um mistério e objetos para desvendar a história que se esconde por trás. Se trancavam em seu escritório e viraram a noite ali.

Pedimos um pouco de Pirão de Peixe, estava morrendo de saudades da comida que só experimentei quando era criança e visitei o Brasil. E ficamos por tantas horas transcrevendo o que Icarus escreveu que quando nos demos conta os primeiros raios de sol atravessavam as persianas esbranquiçadas do meu quarto de hotel.

Subitamente, tudo ficou claro como a água. Ou quase isso, com o pouco que conseguimos. Foi uma descoberta enorme tanto para mim quanto para Théoden e ficamos ali, paralisados. Duas cabeças pensam melhor do que uma, da primeira vez que leu o diário Théoden não compreendeu ao certo, mas agora, juntamente da minha perspectiva, pudemos compreender o que aconteceu.

Icarus Campelo foi de fato queimado vivo, embora o diário não possuísse esse relato, e com toda a certeza ele e o Conde viveram algo que poucos vivem. Um grande e proibido amor. Que resultou em mortes um tanto cruéis.

É como se tudo fizesse sentido dentro de mim, como se esse amor fosse tão presente ali dentro. Como se aquelas palavras resumissem o amor que sinto daqui, a mais de duzentos anos de distância.

Me vi apaixonada por um homem que morreu a anos atrás e sobretudo, encontrei-me desesperada para consertar os erros que cometemos. A verdade doía, mas também me impulsionava a atender ao chamado.

Pois, ecoe até mim, meu Conde, atendo-te ao teu chamado.

Contudo, ainda não estava no passado, me encontrava no futuro. E estávamos tão exaustos que apenas desabamos na cama, sendo obrigada a ignorar todos os sentimentos que as revelações me trouxeram.

Acordei às quatro da tarde com Théoden sacudindo meu ombro enquanto eu chorava encolhida na cama chamando pelo nome de Heinrich Vollard.

[dois dias depois]

Sexta, 20 de Janeiro de 2113
Aproximadamente às 23h
Rue de Bellechasse, Paris, França
JULIETA EVETTE

A capa era um simples papel Kraft, não havia nada de especial naquele livro, se não fosse pelo conteúdo tão revelador. Foi o que deu para ser feito em meio ao desespero, a versão publicada – porque sim, publicaria o livro que escrevi com a minha própria história de outra vida assim como publiquei tantos outros romances que desvendei dentro da minha profissão. Mas enquanto o livro não é de fato físico, imprimi da minha maneira e seguindo um tutorial da internet fiz minha própria encadernação usando uma costura japonesa para fixar as páginas. E assim, o resultado é esse que coloco sobre a mesinha de centro da Madame Moira enquanto seus olhos caem sobre o protótipo.

Minha volta para Paris foi tão conturbada que sequer dormir nas duas noites seguintes ao dia que Théoden e eu desvendamos tudo. Passei horas escrevendo, finalizando o livro, unindo as peças e finalmente fazendo exatamente o que a cigana me pediu, esperando que tudo isso não fosse loucura.

— Aquiete-se, não tem o que temer. Quando voltar, tudo estará como você deixou. Sinto sua ansiedade daqui. — Ela disse, como se o que estou prestes a fazer fosse algo simples.

Acabo por sorrir, sozinha, esticando meus lábios de olhos fechados e sem mostrar os dentes, apenas apreciando a paz de espírito para qual aquelas ervas naquele chá estavam me conduzindo.

— Estou pronta. — Disse, quando dessa vez aceitei uma xícara de chá e a degustei sem cerimônias. Na verdade, ela disse que realmente precisava tomar aquilo, pois conduziria minha alma para outro estado de espírito, essencial para fazer a regressão.

Nós estávamos em um dos quartos de sua casa, a Madame Moira trabalhava dedicadamente no desenho de um relógio que ela traçava no chão, usando a areia que escorria de sua mão para a madeira do piso, formando o desenho. O relógio é um tanto antiquado com a numeração romana. A cigana veio na minha direção quando finalmente depositei a xícara sobre o pírex, após tomar todo o líquido em seu interior.

— Não se esqueça do lhe auxiliei, Julieta, é importante que respeite as regras. — Ela tornou a dizer quando veio até mim e me ajudou a remover a manta que cobria a minha nudez, infelizmente precisava ficar nua para fazer o “ritual”, e nesse momento a minha nudez definitivamente não é um problema e tão pouco me incomoda. O que realmente me importa é voltar para Heinrich. Por isso a manta que me cobre escorrega pelo meu corpo e toca o chão, a cigana segura minha mão e cuidadosamente me posiciono no centro do relógio como se fizesse o papel dos ponteiros. — A viagem no tempo pode desencadear uma sequência de fatos. Nós realmente podemos ferrar com o universo. Mas se formos cautelosas, também podemos realinhar tudo, conforme é necessário ser feito.

Quase podia entender do que ela se referia, após compreender toda a história do Icarus percebi muitos buracos que nunca se fecharam e que talvez voltando no tempo pudessem ser preenchidos. Tudo isso me faz concluir que essa loucura é algo que realmente não podia deixar de fazer. Existiam pessoas que dependiam de mim.

— Já está tudo ferrado, madame. Não tem como piorar. — Falo em tom de sarcasmo.

Mas ela olhou seriamente em meus olhos e disse:

— Não brinque com isso, menina. Acredite, tem como tudo ficar pior do que imaginamos. — Ressaltou e apenas assenti em concordância. Não quebraria as regras que ela impôs, sendo basicamente não contar a ninguém sobre o futuro.

— Sendo assim, me mande para lá, por favor. Me deixe voltar para meu Heinrich. — Disse desesperada segurando seu pulso enquanto olhava em seus olhos, mais uma vez eles assumiram a cor lilás.

A madame nada disse, apenas se afastou para pegar uma caixa um tanto bonita, abriu lentamente e o relógio revelou-se para mim. Aquele de bolso que tanto me encantava. Podia ouvir o chamado, sussurros que ecoam em meus ouvidos.

Hipnotizada, a vi pegar o relógio pela corda banhada a ouro, automaticamente estendi minhas mãos unidas em uma concha, o relógio foi colocado com cuidado sobre minha palma e sua superfície gélida me fez arrepiar inteira.

— Basta abri-lo. — Ela disse, posteriormente colocou sua mão sobre a minha e me fez olhar em seus olhos. — Acredito muito em você, menina. E não estará sozinha. Estarei com você em todos os momentos. Espero que um dia possa me perdoe pela confusão que causei. — Obviamente seu pedido por perdão me era confuso, mas não tinha tempo de tentar entender agora. — Nós nos vemos em breve, Icarus Campelo.

Assim que ela libertou minhas mãos, respirei fundo; toquei o relógio com cuidado, ofegante e trêmula abri a tampa sólida e vi quando que num passe de mágica as engrenagens do relógio começaram a funcionar, fazendo os ponteiros de minutos e segundos se movimentarem. Meu coração parou, minha respiração também enquanto assistia seu trabalho mecânico. Olhei uma última vez para a cigana e ela assentiu com um simples aceno de cabeça, confirmando estar fazendo a coisa certa, me dando mais coragem. Vi seu corpo começar a desaparecer, a fumaça púrpura tornou-se azul e me envolveu com sutilidade. Podia ouvir as engrenagens do objeto na minha mão, mais que isso, ao fundo uma voz aumentava na minha mente, um chamado.

Eu olhava para a lua, o topo das árvores estava turvo, o ar que rodeava a clareira estava frio, o fogo que havia me consumido agora se resumia a faíscas que voavam na direção da lua.

“Icarus Campelo, meu Icarus…”, ele me chamava.

“Volte para mim, agora!”

“Icarus?”

“Abra seus olhos…”

E eu os abri…

[1] Campos Elísios: Na mitologia, o local de descanso dos heróis, após sua morte.

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