CAPÍTULO DEZESSETE
Milhões de pedacinhos
Segunda, 1º de Maio de 1899
Em algum lugar no oceano, de volta para casa
Talvez nós nunca possamos entender o significado de algo tão complexo, mas de fato nós sonhávamos com realidades que não se faziam existentes no atual momento. Uma vida da qual nós dois já pertencemos um ao outro e outras em que até mesmo éramos livres para nos pertencer.
É por isso que são sonhos, por serem impossíveis.
Encontrei o Conde muitos anos atrás, em minhas ilusões pecaminosas dos quais não poderia relatar a ninguém, seria enforcado ou até mesmo queimado vivo. E não duvidaria que minha própria família pudesse me submeter a essa sentença, já que sobretudo, servimos a um país com regras absolutamente claras.
Fantasiava suas mãos em meu corpo, Conde. Com seus lábios macios sobre a minha pele candente, deitávamos diante de uma lareira de fogo vivo, queimando de forma calorosa. Meus lábios sobre seu ouvido, gemendo de forma graciosa enquanto você se fazia presente dentro de mim. Empurrando forte, até o fundo, como se pudesse tomar minha alma numa conexão intensa.
E você a levou…
A minha alma.
Tomou-a contigo todas as vezes que me tocou e percebo como está sempre lhe pertenceu. Em todas as encarnações que tivemos o privilégio de viver.
Às vezes, em meus sonhos proféticos de amor, nós estamos nos braços um do outro, é sublime. No entanto, às vezes estamos tão distantes que não é possível descrever a dor que possui nosso ser. Gostaria de retornar apressadamente para seus braços, mas você está fora do meu alcance.
Conformado estou, és minha sina. Por você, serei condenado às piores chamas do inferno. Em prol do que sinto e por que quando estou entre seus braços, existir finalmente faz sentindo, somos metades que se encontraram.
Nós somos milhões de pedacinhos, Heinrich, e estou lutando para reencaixar todos eles. E se fomos abençoados com tamanha dádiva, não tenha dúvidas, não irei desistir. Lutarei brevemente até meu último suspiro. E caso não consiga, ao menos, poderei morrer em paz. Sabendo que te amei intensamente e que todas as nossas noites valiam a pena.
Que a verdade sobre nós, a verdade não contada, existiu. Em mais vidas do que imaginávamos poder viver.
Gostaria de saber quantas vezes teremos que reviver esses mesmos erros para consertá-los e finalmente desfrutar dos nossos acertos?
E percebo que apenas uma chance é o que terei de mudar a ordem dos fatos e nos salvar.
Mas o destino não cobraria tão barato para afrontar o universo e desregular a ordem das coisas…
E isso é o que estou prestes a descobrir.
Voltar para Anmak era dar início daquilo que nos esperava. Abraço o livro com força e imploro para o Homem do Céu, caso ele realmente exista, que me dê forças e sabedoria para nos salvar.
Queima e teima o medo dentro de mim.
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[dezenove dias antes]
Sábado, 15 de Abril de 1899
Aproximadamente às 11h
Ilha Anjou, Rio de Janeiro, Brasil
Quando acordei no dia seguinte após ter chorado até dormir, Heinrich não estava ao meu lado, mas estava ali no quarto; sentado em uma poltrona, observando-me com o semblante de arrependimento. Ele havia ficado alterado e pela primeira vez na vida me machucou. Não sei em quem o tapa está doendo mais agora, se é em mim, ou nele.
No entanto, sinto seu arrependimento daqui, queimando ao nosso redor, um muro prestes a se erguer e impedir que cheguemos ao alcance um do outro. Meus olhos estão inchados e fico ali paralisado, apenas piscando-os devagar, tentando assimilar como raios viemos parar aqui? Sem saber o que fazer ou dizer. Não quero expulsá-lo daqui novamente, tão pouco desejo que isso seja nosso fim.
Doeu, ontem deveria ser uma noite especial para nós, mas ele estava muito bem acompanhado e percebo que tem amigos de sobra aqui no Rio. O Conde não precisava de mim e preferiria que tivesse me deixado em casa, para poupar-me de tanto desconforto.
Gostaria que o ontem não tivesse existido para nós dois. Ou que fosse apagado de nossas memórias. No entanto, certas coisas são fadadas a acontecer. Não tem como fugir. Mas certamente tem como superar.
Não romantizo sua atitude, foi tão errado, foi muito doloroso. No entanto, confesso que um dia estivemos em papéis invertidos, quando lhe estapeei a cara ao ser demitido do casarão. Poderia ser eu em seu lugar ontem, qualquer um pode perder a cabeça, principalmente quando o álcool está envolvido. Isso não quer dizer que sua atitude estava correta, não tem uma justificativa. Mas entendo, e o perdoo. Sei que em seu estado sóbrio, jamais teria feito isso comigo. Conheço o homem que amo e é nisso que tento me agarrar.
Sento-me na cama com cautela e vejo seus olhos tão vermelhos, como se segurasse o choro e isso me machuca. Minha santinha, eu amo esse homem, não quero vê-lo assim.
— Heinri-
— Não, não diz nada, Icarus. — Vai logo interrompendo-me. — Eu te machuquei. Entende o quanto isso é sério? Icarus, levantei a mão para você e te machuquei, de verdade.
Ele não estava errado. Machucou. Bem como se feriu no processo. Em seu lugar também me sentiria igualmente arrependido.
— E-eu sei, m-mas…
— Não existe mais, pequeno. Realmente te machuquei quando por todos esses meses juntos, jurei jamais fazê-lo novamente em nenhuma condição. Prometi a mim mesmo que te protegeria, meu bem. Mas… quem sou eu?
— Heinrich, por favor, esquece isso.
Todas aquelas palavras eram tão pesadas, um tom tão forte de arrependimento que estava ficando amedrontado. Cada suspirar pesado parecia vir de uma dor excruciante. Seus olhos estavam tão rubros que me espantava imensamente.
— Esquecer que tirei sangue da sua boca com apenas um tapa? Não, não dá para esquecer. Não dá para colocar a culpa no fato de estar bêbado, jamais deveria levantar a mão para você, sob nenhuma hipótese, Icarus. — Por mais que tente narrar, é impossível expor o quanto amargurado ele estava. Constatava o arrependimento tão nítido que isso me fazia sentir tão entristecido quanto ele.
Meu amor, soube naquele momento que poderia te perdoar. Não me orgulho das minhas últimas escolhas e sei que elas contribuíram para isso acontecer. Não poderia me abster, tinha uma parcela de culpa em tudo isso.
Fico calado, tudo isso dói. Sinto como se qualquer palavra impensada pudesse estragar tudo.
— Levante-se. — Ele pede de repente e uma lágrima escapa de seus olhos.
O mesmo caminha até o pé da minha cama com determinação, coloco-me de pé devagar, meio receoso pelo que vai acontecer. Heinrich vem com suas mãos nuas e trêmulas até meu rosto, toca com cuidado onde está dolorido e deposita selares tão suaves que pareciam ser seu pedido silencioso por perdão.
Distribui mais selares pelo lado bofeteado, ele não pode ver e eu ainda não vi também, mas sei que está inchado e marcado. Contudo, nada disso importa, senão eu e meu Conde nos sentir bem novamente.
— Só prometa que não fará novamente. — Eu peço, cabisbaixo e ele se mantém calado fazendo um carinho em mim.
Após um tempo, finalmente fala:
— Eu sinto muito, Icarus. Você é uma pessoa maravilhosa, não merece isso. Mesmo que tenha cometido seus erros, não tenho direito de lhe bater. Espero sinceramente que me perdoe por isso. Envergonho-me muito do que te fiz, jamais pensei que chegaria a esse nível. Por isso, quero que entenda como me sinto por ter feito…
Inicialmente não entendi o que quis dizer com o seu discurso, mas quando Heinrich saca da lateral do seu corpo um punhal. Gradualmente sinto meus olhos arregalarem e meu sangue ficar frio.
— Heinrich, o que está fazendo? — Minha indagação é totalmente ignorada.
O Conde coloca o objeto pontiagudo contra seu peitoral, no local onde abaixo da camada de pele, ossos e carne, há o seu coração pulsando firmemente. Ele me olha com intensidade, pegando minhas mãos e levando-as com as suas para segurar a base daquele punhal contra seu coração. Eu estava tremendo tanto, totalmente apavorado.
— Prefiro morrer do que te machucar. Por isso, me prometa, Icarus, que da próxima vez que levantar a mão para você, irá por si só enfiar essa adaga no fundo do meu coração e eliminar minha existência! — Ditou o Conde cheio de firmeza, sua atitude era a mais sóbria possível. Eu não estava sonhando, meu homem estava mesmo com um punhal contra seu coração.
Se acontecesse novamente, jamais teria coragem de matá-lo. Estando em Anmak, apenas o deixaria e voltaria para a casa dos meus pais. Contudo, diferente dos outros homens estúpidos, estava diante do meu Heinrich e ele não era assim. Não faria isso comigo novamente sob nenhuma hipótese.
— Para com isso! Olha que está falando, Heinrich!?
— Prometa! — Ele deu um solavanco e fiquei muito assustado sabendo que aquilo não era uma brincadeira e podia feri-lo ou até matá-lo de verdade, sem querer.
Desesperado, enquanto suas mãos apertam as minhas sobre a arma branca, me rendo:
— Sim, eu prometo! Eu prometo! — Grito e ele finalmente afrouxa suas mãos e tomando o controle do objeto letal, o jogo pelo chão do quarto, para bem longe de nós.
Uma mancha de sangue surge na sua camisa azul-claro e isso atinge-me em cheio. Este momento me abalou tanto que sou eu quem abraço Heinrich com força, mesmo estando ainda muito magoado, mas não por esse motivo. Meus dedos tocam seus fios de cabelo da nuca e faço um carinho em sua mullet sentindo meu coração disparado dentro do meu tórax. Só queria acalmá-lo e confortá-lo de que está tudo bem.
Queria sentir aquele alívio imenso apossando-se de meu coração.
— Me desculpa, pequeno… — Ele sussurra a todo instante.
— Te perdoo. — É o que respondo.
— Permita-me ver que não tem nenhuma mágoa… — Diz afastando nosso abraço para poder observar meu rosto. Talvez eu entenda a segunda intenção em suas palavras, mas é aí que chego ao meu limite nisso tudo. Ainda estou profundamente magoado.
Ele não percebe e vem em direção da minha boca com suas mãos apertando minha cintura, o desejo nítido se manifestando. E poderíamos fazer sim uma boa transa de reconciliação, mas não quero. Não suportaria ser frágil que sufocaria tudo que aconteceu e com gemidos. Não posso romantizar tudo isso com sexo. Não mentir para ele e tão pouco me enganar. As atitudes dele machucaram-me em dimensões imensas e agora só me resta expor isso.
— Não, Heinrich. — Digo firme, desviando-me de sua boca e afastando suas mãos do meu corpo. Talvez essa seja a primeira vez que o recuso depois da nossa reconciliação em Anmak, donde voltei para sua casa e inicialmente não conseguia fazer sexo.
Seus olhos encaram os meus ainda confusos, tentando assimilar o que está acontecendo, o que você perdeu, não é? O que perdeu quando me tornei apenas uma sombra atrás de si?
Caminho até a cama e me sento, encarando um ponto qualquer no quarto, tentando pensar muito bem nas minhas palavras antes de as dizer.
— Não me perdoou completamente? — Ele quebrou o silêncio.
Eu solto uma risadinha baixa e nasalada.
— Você não se dá conta mesmo? Você nem percebe, Heinrich. — Minha voz carrega tristeza. — Onde eu estava na noite passada assim que chegamos no museu?
Vejo que seus ombros ficaram tensos, Heinrich tenta encarar-me para entender o que se procede. Mas ele realmente não se dá conta do que fez e isso machuca-me um pouco mais.
— Comigo? — Questiona, o faz porque não sabe a resposta certa, está com medo de dizer qualquer palavra e estragar tudo ainda mais.
— Deveria ser a nossa noite. O evento que tanto planeamos e esperamos. Conversamos várias e várias vezes sobre isso e… vejamos… no segundo seguinte que pisamos naquele lugar, deixei de existir para você. — Houve silêncio entre nós enquanto tentávamos peneirar minhas palavras mentalmente antes de as dizer. E ele parecia preocupado em compreender-me. — Fui menosprezado, esquecido e me tornei a maldita de uma sombra. Enquanto aquela vagabunda te beijava na boca diante dos meus olhos e você não só gostou como deixou! Um completo desgraçado! E para piorar ficou a noite inteira grudado nela! Dançou com ela e parecia um filho da puta apaixonado! Quando sai de perto de você, cansado de andar para lá e para cá como uma maldita sombra, você sequer notou. Agora lhe questiono se não teria feito o mesmo que eu e ido embora na primeira oportunidade? — No final das contas, joguei toda a merda para o alto e apenas descarreguei, sentindo até meus pulmões cansados quando paro para encará-lo.
— Icarus, eu não-
— Você não percebeu. — Finalizo sua frase ao interromper. — Como eu disse. Você quebrou meu coração em milhões de pedacinhos. Sabe o que é não existir para você? Todas as suas promessas desceram pelo ralo, grande Conde de Anmak. Todas as palavras bonitas, confessando nosso relacionamento eram um bando de mentiras. Foi isso que você me provou.
— Icarus, por favor, não diga isso. Você sabe a veracidade dos meus sentimentos por você. — Ele rebate, irritado por dizer o contrário. Mas continuo firme.
— Quem sabe devesse cogitar rever seus afetos por aquela mulher. Talvez devesse pensar bem antes de dizer que me ama e precisa de mim ao seu lado. Eu não sou de ferro, Heinrich. Posso ser chamado de imaturo, mas essa situação me feriu em uma imensidão indescritível. Não posso suportar isso. Sabe? Não me arrependo de ir embora e te deixado sozinho. Era melhor que assistir vocês dois…
— Icarus-
— Sabe o que dói tanto quanto um tapa? — O interrompi, mas ele não respondeu, engoliu seco e abaixou a cabeça. — Responda. — Sou eu quem exige dessa vez.
— Não, não sei. — Ele responde com a voz baixa.
— Vê-lo beijando outra pessoa, deixando-me de lado, totalmente menosprezado. Doeu para caralho. — Digo e esse é o fim de minhas palavras. Não o olho mais e assim permaneço enquanto nós dois assimilamos todo meu desabafo.
Anjou amanheceu sem luzes solares essa manhã. A linda ilha já não brilha mais como antes. Parece que a escuridão se arrasta entre nós dois e o muro fica a cada segundo mais sólido.
Poderia perdoá-lo pela bofetada num momento de descontrole, mas não podia o perdoar tão facilmente pelas demais coisas.
Posso esperar quanto tempo quiser. Não me importo que o Conde matasse a saudade de seus amigos, mas não foi só isso, fui realmente esquecido em um lugar desconhecido com pessoas desconhecidas. Onde a maioria falava uma língua desconhecida. Foi horrível.
— Sinto muito pela minha arrogância e egocentrismo. — Ele diz, calmo. Acredito que não tenha muito o que se explicar. — Estava muito feliz em reencontrar aquelas pessoas. São importantes para mim, como Conde, são amigos de muitos anos. Pessoas que me fazem bem. Mas apenas como Conde. Você é muito importante para mim, para o Heinrich.
Nada do que dissesse amenizaria o fato, só me machucava mais saber que outras pessoas o faziam muito mais bem do que eu, ao ponto de ser esquecido – comparado a intensidade a qual essas pessoas fornecem conforto para ele. Não é que não possa se sentir assim por outras pessoas, o problema é deixar de existir diante delas.
Isso tudo me faz questionar se ele realmente me ama, ou, se tudo isso, nós, é um tremendo engano.
Uma emoção, passageira.
Uma diversão.
Nada.
— Não foi isso que disse quando entrou enraivado por aquela porta ontem. Você disse que me contratou para isso. Portanto, não precisa de mim como Icarus e sim da minha sombra atrás de ti. — Rio falsamente e completo: — Como bônus, aqueço sua cama, não é, Milorde?
— Icarus Campelo! — Ele chama a minha atenção, bravo. — Há um limite de palavras e você já ultrapassou as suas. Mesmo que estejamos conversando como duas pessoas, ainda sou o mais velho, sou seu lorde, ainda me deve respeito.
Levanto-me e em passos firmes fico diante dele, diante de seu rosto, mesmo que para isso precise ficar na ponta dos pés.
— Não vem com esse papo para cima de mim. Estamos falando de igual para igual, Heinrich e o que eu disse é a mais pura verdade. Sou só uma puta que geme para você, não é? Assume, logo, seu merda! — Meu tom de voz vai aumentando gradualmente, é só a minha mágoa, meu coração machucado.
— Cala a boca. — O Conde ordena, com raiva. — Você sabe muito bem que está errado, Campelo. Não piore as coisas. Você é quem amo! O homem que esperei por uma vida inteira!
— Se sou esse homem, porque beijou aquela mulher na minha frente? — Grito de volta.
— Eu não amo a Vivienne! — Ele grita de volta. E nós dois encaramos o rosto um do outro com raiva. — Ela faz essas coisas malucas! Ela é assim! Ela beija os homens solteiros como se fosse um aperto de mãos! Se você ainda não percebeu, Icarus, eu sou cego! Não consigo adivinhar quando uma mulher vem para cima de mim com tudo e me beija! Mas não tem nenhum significado para mim. Não eram seus lábios, meu anjo.
— Não me chama desses apelidinhos quando estivermos discutindo! — Rosnei entre dentes, era golpe baixo.
Respiro devagar, sem reação, tentando assimilar tudo. Me empenhando para enxergar em seus olhos o Heinrich que conheço, em quem posso acreditar e confiar.
— Eu prometo, pela minha alma ou toda confiança por mim que lhe resta. Eu amo você. — Ele reforça, seus ombros caem quando os liberta da tensão. Seus olhos pairam sobre os meus e quase posso adivinhar seu desejo nítido de poder me enxergar com clareza.
Suas palavras me convencem um pouco, mas a minha raiva e mágoa ainda não passou.
— Isso não justifica ter me esquecido totalmente naquele lugar que ninguém me conhecia! A maioria das pessoas falavam uma língua diferente! Era um mar de desconhecidos. — Rebati.
— Já esteve com pessoas que você gosta? Se sim, você deve ter percebido que quando começamos a conversar, nos esquecemos um pouco do mundo lá fora, o álcool também ajuda. — Ele começou a dizer e respirou devagar. — Passo a minha vida naquela ilha, trancado em minha casa e não posso me divertir com meus conhecidos?
Eu rio nasalado, ok. Cansei de discutir.
— Ok. Já aconteceu, não é? Nossos planos desceram rio abaixo. Quer ficar com seus amigos franceses? Pois, fique. — Dou de ombros me afastando do mesmo. — Só lembre de não me arrastar de volta para um lugar desconhecido do qual não necessite de mim.
— Você tem razão. — Ele concorda.
Alguns minutos de silêncio se fazem presentes entre nós e percebo que estamos longe de ficar bem. Talvez um tempo seja necessário agora. Principalmente quando ele abre a boca novamente e confessa:
— Eu já dormi com a Vivienne. — Ele diz e abaixa a cabeça. — Só pensei que é válido ser totalmente sincero. Eu estava tão vulnerável. Fiquei sete anos sem ninguém, Icarus. Dois anos atrás eu e Vivienne tentamos consolar a dor um do outro dessa maneira. Mas foi só isso.
Fecho meus olhos sentindo meu coração pulsar de dor, ele estava enganado, não precisava saber disso. Era o passado dele, em seu direito de fazer o que quiser. Mas não posso garantir que consigo lidar com essa realidade. As lágrimas se juntam em meus olhos, uma a uma começam a escorrer pelo meu rosto. Não digo nada, pois sou incapaz. Mas eu queria sumir!
— Não vamos ficar de bem, tão cedo, não é? — Ele conclui.
— Não sei. — Minha voz saí falha.
Mais silêncio.
— Eu preciso ir. Vivienne me convidou até sua casa para tomar um chá. — E essa fala me faz levantar e arregalar meus olhos. — Estamos falando se negócios e suas conexões me serão úteis.
— V-você vai? — Pergunto, chocado.
O que eu esperava, afinal? Que ele abandonasse até mesmo seus negócios com essa mulher por minha causa? É claro que ele não vai e tão pouco deixará de ir a esse encontro.
— Vou. É importante manter o elo com ela e seus contatos. — Explicou.
Mas que tipo de elo se tratava? O elo de fodê-la?
— Heinrich, por favor, não faça isso comigo. — Finalmente choro, abraçando meu próprio corpo que parecia que iria quebrar-se no meio, tamanha a dor que sentia em minha barriga.
— Fazer o quê, Icarus? É só um chá. — Ele se aproxima com cautela. — O que aconteceu entre mim e Vivianne não se repetirá. Foi só um momento de fraqueza. Agora, só trato de negócios com ela. Já ouviu falar em sexo sem compromisso?
Isso não me dá nenhum alívio. Como se suas palavras não tivessem mais valor algum para mim.
— Fala a verdade, Heinrich. Está indo para transar com ela? — Sou objetivo e insisto em ter sua sinceridade. — Se tiver, avise-me, para eu não continuar fazendo papel de otário.
— Eu acabei de dizer que isso não se repetirá. Por favor, acredite em mim. Preciso que confie em mim, Icarus, ou definitivamente será o nosso fim. — Alerta-me.
E tem razão, sem confiança não existe relacionamento. Existem apenas duas pessoas tentando se ferir sem realmente ter a intenção.
De uma coisa estava cem por cento convicto, amava Heinrich Vollard, mais do que meu coração permitia e não suportaria saber que esteve nos braços de outra pessoa.
— E se ela quiser? E se ela pedir? E se ela avançar? — Disparo com medo, Vivienne é tão linda, parece uma deusa com tanta beleza. Qual homem em sua santa convicção a negaria?
— Então direi a verdade para ela, petit. — Ele disse tocando meu rosto com carinho e erguendo-o ao segurar delicadamente o meu queixo. — Estou profundamente apaixonado por outra pessoa e me recuso a ser desonesto com ela. Você é minha alma gêmea, não há nada que possa me fazer amar-te menos. Nada pode mudar isso, Icarus. Não importa o quanto a gente machuque um ao outro.
Suas palavras me deixam sensível, jamais em minha santa lucidez poderia discordar com o que foi dito pelo homem diante de mim.
Pensativo, mordo meus lábios encarando seu rosto tão perto, queria beijá-lo e expressar meus sentimentos. Mas ainda é cedo, preciso reorganizar minha mente e meu coração. E ele provavelmente precisa fazer o mesmo.
— Perdoe-me por lhe causar tanto desconforto, Icarus. Mas por favor, só peço uma única coisa, se ainda tenho esse direito. Acredite em mim e nos meus sentimentos, mesmo que eu cometa erros abomináveis quanto os de ontem.
Apenas balanço a cabeça concordando, ele acaricia-me nas maçãs do rosto e finalmente sai do quarto, deixando-me sozinho para ir ver a tal francesa. Tento acreditar em suas palavras e em suas intenções, mas meu dia é totalmente perdido quando tudo o que consigo pensar é em Heinrich sozinho com Vivienne.
Ainda posso acreditar nas palavras dele?
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Fiquei a maior parte do tempo no hotel, recusando o pedido de Lady Balfour para acompanhá-la até um ateliê de vestidos. Passar um tempo rodeado de mulheres definitivamente não estava na minha lista de coisas para se fazer no meu atual momento.
Permaneci esperando pelo retorno do Conde e busquei me distrair de alguma maneira. Tentei escrever meus sentimentos confusos, mas falhei. Posteriormente, insisti em ler, mas o tempo todo minha atenção voltava-se para o fato dele estar com uma mulher tão intimidadora. E sendo cego… Bem, ela poderia muito bem se aproveitar dessa brecha para conseguir o que almeja.
Mas ao entardecer, meu Heinrich atravessou a porta de entrada do nosso quarto. Timidamente caminho ao seu encontro, vejo-o retirando o casaco e pendurando-o. Ele olha na minha direção e encaro o seus olhos intensamente.
Só diga-me de uma vez.
Rasgue-me.
— Você fez? — Pergunto, engolindo seco.
— Não, Icarus, eu não transei com Vivienne, se é isso que quer saber. — O Conde responde e em passos firmes vem até mim, fazendo-me olhar para cima devido à nossa mínima diferença de altura. Com seu rosto tão diante do meu, meus batimentos disparam-se. — Quando vai entender que eu o amo de verdade? Que cometo meus erros e me arrependo amargamente. Depois, tudo que penso é como fazer para que nós dois não nos quebremos em mil pedaços?
Fico em silêncio, sentindo as emoções que nos cercam. Ele tem razão, é claro que tem.
Havia uma sombra em seu olhar, um sinal de que alguma coisa tinha acontecido. Algo estava fora dos eixos. E não tinha a ver com Vivienne. Era sobre nós…
— Eu também amo você, Heinrich. Muito. — Respondo com sinceridade e transbordando sentimentos. Vejo-o fechar os olhos e sorrir tão bonito que fico mole de paixão. Aí está o homem que tanto venero. Esse é o sorriso que quero dormir e acordar vendo. A sombra se dissipa. — Perdoe-me por às vezes duvidar dos seus sentimentos. A todo momento, sinto medo. Você é tão magnífico, que não me acho o suficiente para possuir algo tão especial.
— Campelo, cala a boca. Pelo amor de deus, por que se rebaixa tanto? Se eu te amo, é porque você merece esse sentimento. Só por favor, me deixa te amar, permita-me corrigir minhas falhas. — Ele encurrala-me lentamente contra a parede, suas mãos estão ambas ao meu lado e tudo o que consigo sentir é medo.
Receio que esse momento chegue ao fim, quando o que mais quero é ele dentro de mim. E todo seu amor se tornando físico em um ato sincero de foder.
Encaro seus lábios enquanto prossegue:
— Posso deixar que diga e pense essas coisas, Icarus. Mas não posso permitir que se tornem reais. Portanto, ouça com atenção: não deixarei você destruir nós dois. Eu vou te amar, e nem você pode me impedir.
Não preciso dizer mais nada, rapidamente o Conde pega-me com força, daquele jeito delicioso que sei que não tem escapatória. Ele encontra meus lábios com os seus e nos beijamos de forma violenta, do mais sincero ódio ao mais sincero amor. Nós somos uma mistura perigosa. E finalmente essa é nossa reconciliação.
Quando me dou conta, estamos pelados e ele está dentro de mim, do jeito que gostamos. Nós transamos, no quarto, na sala, no banheiro, em todos os locais possíveis até minhas pernas perderem as forças e precisar ser carregado para nosso quarto após o banho. E enquanto ele me fodia com força, dizia o quanto amava-me e não tive mais dúvidas, estávamos perdoados.
Nada poderia nos separar, esse era meu mantra.
Mesmo quando quebrássemos em milhões de pedacinhos, colaríamos um a um, visto que conhecemos tão perfeitamente cada mísero átomo que compõe um ao outro.
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Domingo, 16 de Abril de 1899
Aproximadamente às 10h
Praça XVII de Abril
Ilha Anjou, Rio de Janeiro, Brasil
— Façamos o que combinamos, eu vou com Lorde Balfour até a farmácia e você vai com Lady Balfour, nós nos encontramos na praça central daqui a uma hora — Disse-me o Conde, reforçando nosso plano.
— Sim, senhor. Uma hora. Não se atrase. — Respondo-lhe sorridente. — E tenha cuidado, não se afaste de Lorde Balfour.
Quantas coisas podem acontecer em uma hora?
O que pode mudar?
Escondidos aqui na carruagem, Heinrich sorri grande e segura meu rosto com delicadeza, dando-me um selar suave.
Sempre estou tão preocupado. Vivo desconfiado como se de repente alguém fosse surgir de meio as sombras e nos fazer sangrar.
Ontem, após fazermos as pazes e finalizar tudo com muito sexo, passamos o dia anterior juntos, transando mais um pouco – por mais que façamos, não parece ser o suficiente – e tivemos momentos bem românticos. Estamos um grude, como casais recém-casados.
— Não vou me atrasar e tomarei muito cuidado. — Garante-me.
No instante seguinte a carruagem força parada e Heinrich salta para fora, deixando-me o percurso restante sozinho. O veículo de Lady Balfour está à nossa frente e Fabien também saltou para fora como combinado. Vejo meu Conde pela janelinha, ele caminha pela cidade na companhia do Lorde enquanto minha carruagem segue viagem.
Viramos algumas ruas e finalmente chegamos à feira antiquada da qual visitaremos hoje. É nosso último dia em Anjou, visto que amanhã de manhã bem cedo estaremos de volta à Pégasos onde navegaremos por dias de volta a Anmak.
Como Selene também queria ir à feira e o Conde tinha assuntos a resolver com o médico, nós dois resolvemos vir na frente e encontrá-los depois.
— Oh, céus, esse lugar tanto me encanta. — Disse Lady Balfour, observando as pessoas transitando por ali animadamente. — O problema é o calor, não é mais quente que a nossa península?
— Certamente, Milady. — Concordo limpando o suor de minha testa com um paninho que trazia no bolso do terno.
Tinha de tudo na feira, incluindo pessoas de todo o mundo, portanto é normal ver todos os biótipos. Peles de todas as tonalidades, cabelos de diversos tipos e trajando roupas tão divergentes. As pessoas me encantam igualmente os produtos dispostos. Encontrava-me animado, embora me sentisse um pouco avoado e até mesmo tonto. Só esperava não ter contraído nenhuma virose durante os dias que passei aqui.
— Vamos, vamos! Não quero perder tempo. — Disse extasiada.
Juntamente com um de nossos guardas e uma criada de Lady Balfour, nos enfiamos entre as pessoas e permaneço no encalço da madame, fazendo-lhe companhia e dando minha opinião quando solicitada. Selene estava tão apaixonada por tudo que parecia estar comprando decoração suficiente para redecorar toda sua mansão.
Cerca de quase quarenta e cinco minutos depois, finalmente resolve parar em uma cafeteria charmosa para comer, visto que o pequeno Carlos não parava quieto alegando estar com fome. O estabelecimento era próxima à rua da feira, fui com eles, embora não sentisse fome.
Estávamos próximos à praça Central – o que significa que o Conde nos encontraria com facilidade. Nos sentamos de frente a vidraçaria da loja e eu sentia uma sensação estranha na minha cabeça, como se meu fluxo de sangue estivesse pesado e um formigamento atacava minha nuca.
Foi quando meus olhos correram pelo local e finalmente vi a tenda chamativa, era cor púrpura e havia uma placa consideravelmente grande, escrito “Madame Moira – venha ler o seu destino”. Aquilo me atraiu como um ímã e não consegui desviar minha atenção do letreiro caprichosamente feito à mão. É como se algo dentro de mim, puxasse-me para aquele lugar. E meu coração teimava, implorava e gritava para seguir esse instinto.
Seria essa a cartomante que revelou para Heinrich que eu estava a caminho? A mesma que pediu para que ele me salvasse lá no Laboratório de Anmak? Minha pressão está tão baixa, parece que vou desmaiar.
Subitamente, uma figura aparece de frente a tenda, vestindo branco, com uma transparência fantasmagórica formando sua silhueta. A pessoa sorri para mim e quando pisco meus olhos a única coisa que vejo é um vazio onde ela estava. Isso me assusta. Quem é essa mulher?
Seu rosto vem à tona na minha mente… Eu já a vi antes. Disso tenho plena certeza. No entanto, não posso alegar onde ou quando.
— Icarus? Está me ouvindo? — Meus pensamentos foram desfeitos quando finalmente olho para Lady Balfour que chamava minha atenção de forma preocupante. Pisco meus olhos e lhe direciono meu olhar confuso sem entender o que aconteceu. — Você ficou pálido de repente, está tudo bem?
Engoli seco, havia pedido uma fatia de bolo e ela já estava diante de mim, intocada.
— E-eu… creio que sim, Milady. Eu só… — Pisco meus olhos devagar, assimilando tudo. — Só preciso fazer uma coisa. Já volto.
E assim levanto-me, deixando-a totalmente desamparada e atravesso a rua na direção da tenda que tanto me chama atenção. Enquanto atravesso a entrada e caminho por um curto túnel até seu interior, sinto meu coração disparar e juro pela minha existência que há vozes soando baixo na minha cabeça enquanto minha pressão parece baixar a cada instante. Já estive aqui, muitas vezes, é a certeza mais absoluta que tenho.
“Não negue o que lhe está predestinado, Icarus Campelo!”
“Apenas li o que está escrito na sua alma. Ela anseia por algo… Não é vingança. Não. Ela quer atender a um chamado. Um eco que vem ressoando por todos esses séculos. Julieta… Permita-me ajudá-la. Te imploro.”
As vozes guiam-me, como um caminho para percorrer. Fantasmas surgem diante de meus olhos e dissipam-se em fumaça quando alternam entre suas falas.
“Icarus, volte para mim! Não me deixe!”
“Sua alma é um Eco, Srta. Evette. Tudo sobre você é um Eco absoluto. Nós costumamos dizer que almas como a sua possuem a marca do echo, significa que és uma alma com pendências.”
As vozes ecoam como um Eco.
“Também significa que não terá paz nessa vida ou em qualquer outra enquanto não mudarmos o que aconteceu… Enquanto você não responder aos Ecos. Enquanto não evoluir, essa situação tornará a causar um desequilíbrio em sua jornada.”
“Você precisa ir até esse eco que ecoa, precisa ir até lá para resolver essas pendências. Não será fácil, tão pouco simples, envolverá coisas, situações, escolhas, pessoas… Morte! E, provavelmente, não terão nenhum nexo. Talvez nunca lhe faça sentido.”
“Partir?”
“Para o passado. Quando tudo mudou e começou ao mesmo tempo. Nós vamos nos encontrar novamente no dia dezesseis de abril de mil oitocentos e noventa e nove. Foi quando nos deparamos pela primeira vez, e te prometi que nos veríamos novamente…”
As vozes me mostram a verdade sobre quem sou.
“Olha, sei que veio atrás de algo sim. Não deveria lhe falar sobre isso, mas você veio de Paris até aqui, então…”
“O diário não foi escrito pelo Conde e sim por um de seus criados. O nome dele é… O nome dele é Icarus Campelo, por mais assustadora que seja a coincidência…”
O passado e futuro estão se encontrando agora nesse exato momento, dentro e fora de mim.
“A viagem no tempo pode desencadear uma sequência de fatos. Nós realmente podemos ferrar com o universo. Mas se formos cautelosas, também podemos realinhar tudo, conforme é necessário ser feito.”
“Sendo assim, me mande para lá, por favor. Me deixe voltar para meu Heinrich.”
Perco as forças e desabo no chão assim que encontro a silhueta de uma figura feminina, meus braços circulam-se ao redor do meu estômago e sinto que o ar está me sufocando, só não sei como isso é possível.
“Icarus Campelo, meu Icarus…”, ele me chamava. “Volte para mim, agora! Icarus? Abra seus olhos…”
E eu os abri, para encontrar suas orbes lilases. Diante de mim, estava meu destino e finalmente encontrei o que tanto me esperava.
— Icarus Campelo, te esperei por muito tempo. E aqui estamos, destino e destinado. Soube que viria até mim. E encontrou-me. — Ela sorriu exalando calmaria e gentileza, tanta que me deixei levar, segurando sua mão fria e sentindo um arrepio gélido na minha alma. Com facilidade coloco-me de pé, diante da mulher exuberantemente bonita e excessivamente misteriosa. — Sou a Madame Moira.
— Icarus Campelo. — Sussurrei, ainda em estado de choque e confusão. — Essa não é a primeira vez que nos encontramos, não é?
Ela sorri, rindo baixinho em seguida. Sua mão esquerda paira entre minhas omoplatas e faz um carinho que, por Deus, faz-me voltar a respirar sem dor. A mulher guia-me até a cadeira de frente para sua misteriosa mesa de trabalho onde uma esfera esbranquiçada brilha. A fumaça que antes era branca, agora é púrpura e preenche a sua tenda.
— Não, já nos vimos antes. No passado. No futuro. E agora no nosso atual passado-futuro. — Quando estou devidamente sentado, a mulher dá a volta na mesa e ocupa seu lugar de frente para mim. — Não vai fugir de mim dessa vez, não é?
— Fugir? Por que o faria? — Indago ainda bobo e perdido, meus olhos percorrem todo o local observando cada objeto misterioso. Mas o que realmente me chama a atenção é o livro sobre sua mesa. Não tem nada chamativo na capa, pelo contrário, é marrom e extremamente desinteressante. Mesmo assim, chama-me tanta atenção que só conseguia encarar aquele objeto. — Isso é meu.
Surpreendentemente é o que escapa da minha boca sem minha concepção, espanto-me de imediato. Como assim isso é meu? Toco o meio da minha testa sentindo uma fincada forte. O que está acontecendo?
— Não temos muito tempo.
— O-o q-quê? — Eu estava ficando cada segundo mais tonto, sentindo minha consciência oscilar.
— Preste atenção, Icarus. A viagem no tempo tem suas artimanhas e uma delas é o esquecimento. Você não pertence mais a esse tempo, pois morreu há muito tempo, contudo sua morte foi um tremendo erro do destino. É por isso que em um futuro muito distante, nós nos encontramos e você regressou para atender ao seu Eco. Tudo o que realmente precisa saber está nesse livro que você mesmo escreveu para lhe auxiliar nessa jornada. — A Madame dizia com seus olhos vidrados nos meus, ela estende-me o livro e mesmo confuso e obviamente sem entender suas palavras, estico minha mão e pego o que me é oferecido. Assim que toco no livro, minha mente gira e vejo tantos flashes que não consigo assimilar nada.
— M-mas… Eu não entendo o que está acontecendo… V-você… E-eu… — Balbucio atordoado.
— Confie nas vozes, Icarus. Confie no Eco. — Ela disse, isso de Ecos e vozes está me deixando ainda mais confuso. — Todas as respostas estão neste livro. Você se lembra do relógio? O que pedi para ele te entregar?
Boquiaberto assenti lentamente de forma robótica, uma das minhas mãos imediatamente desliza para dentro do bolso da minha calça onde toco o objeto gélido.
Minhas sobrancelhas se uniram e por alguns instantes apenas encarei a capa amarronzada enquanto a ponta de meus dedos delineava o objeto citado pela cigana.
O que está acontecendo? Num segundo eu estava vivendo a minha vida e em outro estou diante de uma maluca.
— Heinrich… V-você conhece Heinrich Vollard? — É a única coisa que consigo raciocinar e perguntar.
A cigana sorri e dá-me um único aceno em concordância.
— Anos atrás disse que vocês iriam se encontrar. — Ela conta, sorrindo tão bonito, como se estivesse feliz por nós. — Tudo vai dar certo, Icarus. Acredito em você e sei que vai conseguir. Confie no seu coração e nas palavras que escreveu para si mesmo. Não importa o quanto impossível pareça, o quanto doloroso tudo se torne, lembre-se que vai passar e no final o amor verdadeiro irá encontrar a calmaria que tanto almeja.
Suas palavras me eram confusas, mas de certa forma sentia conforto em meu coração. Por um segundo, minha mente ficou clara como a água e me levantei determinado. Olhei para o livro, seguidamente para a mulher e concluí que tudo que precisava estava em minhas mãos.
— Nosso tempo vai esgotar, vá. Proteja esse livro, o seu segredo e a sua verdade com a sua própria vida. — Disse a misteriosa mulher. — Sempre estarei contigo, meu filho.
E apenas assenti, sem comandar meu próprio corpo, arrastei-me até a saída, cambaleando no processo. Completamente atordoado, sentido como se estivesse flutuando sobre nuvens. Todas as respostas estão em minhas mãos…
— Icarus? — Quando sou chamado me viro para a encarar na mesma hora. — Essa é sua única chance. A única chance de se salvar, a última chance que tem de amar Heinrich. — Essas são suas últimas palavras, antes que finalmente saia daquele lugar um tanto misterioso.
Lá dentro estava tão quente que quando saí para o ar fresco, sou surpreendido por uma rajada de vento gélida que me estremece dos pés à cabeça. Parado diante da entrada da tenda, volto a encarar o livro que seguro, curiosamente abro a capa. O mundo ao meu redor parece não existir e sinto que estou desligado de tudo. Dentro, na primeira página, há uma carta.
De: Julieta Evette, do futuro
Para: Icarus Campelo, do passado
É o que se lê no destinatário. Sinto um arrepio na minha alma.
— Icarus? — Ouço a voz do Conde e imediatamente ergo meu rosto para encontrá-lo na direção da voz.
Quando olho para Heinrich vindo em minha direção com expressão preocupada e em passos apressados na companhia de Lorde Balfour, vejo atrás dele a mesma mulher vestida de branco. Ela está de frente a uma loja e seu rosto indica algo ali na vitrine. Não tenho tempo de entender, Heinrich segura meus ombros e obriga-me a olhá-lo.
A mulher desaparece.
A primeira coisa que sou capaz de compreender é que aquela mulher…
Sou eu.
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