CAPÍTULO DEZESSEIS

Em alto-mar

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Sábado, 08 de Abril de 1899
Aproximadamente às 8h
Em mar aberto

Havia algumas certezas em minha alma e uma delas era o fato inegável de como amo o oceano. Será que era por ser filho de pescador? Não sei, uma força maior me ligava ao anil. Como se uma sereia das profundezas do mar me chamasse de encontro à imensidão azul, não para que me afogue, é claro; mas sim para mergulhar na vasta profundeza e desbravar seus tesouros escondidos.

A essa altura, céu e mar encontram-se, escreveria mais se pudesse. Preencheria essas páginas até que por fim acabassem, apenas apreciando incondicionalmente essa beleza surreal. É como se minha alma precisasse minutar tal magnitude.

No entanto, aqui estou, com a brisa bagunçando meus fios de cabelo, o barco deslizando sobre o mar, os homens trabalhando arduamente atrás de mim – tentando controlar as velas que eram açoitadas pelo vento forte. Rezando todos os dias para não encontrarmos uma tempestade.

Observo a imensidão azul, enquanto meu estômago dá mais uma revirada violenta. Juro, nunca irei me acostumar com o balançar potente, é como estar em uma banheira flutuante.

Mesmo a sete dias de distância da minha terra natal, percorrido muito mais de 414 milhas náuticas, não havia me acostumado e parece que tão pouco me adaptei ao fato de navegar.

Havia tantas coisas que chamavam minha atenção, mas não pude aproveitar ao todo da viagem, encontrando-me em uma triste realidade da qual é o tédio profundo. E com ele veio até mesmo o bloqueio criativo, o que significa que nem sempre conseguia expressar-me com escrita.

Contudo, no fundo do meu coração, podia sentir o chamado. Quem diria que eu encontraria minha vocação junto ao Conde de Anmak, o Icarus ladrãozinho daquele dia do laboratório não estava preparado para o que lhe esperava.

Respiro fundo e tento focar meu olhar fixamente em um ponto, assim esperando que a vertigem passe. Minha santinha… definitivamente, não tem como aproveitar a viagem e a inspiração que me causava estando tão cansado. Quando o sol finalmente queima minha pele – e isso é incômodo –, levanto-me e caminho grogue de volta para os quartos.

A essa altura o Conde já deve ter terminado o café da manhã e está voltando para o quarto para me ver. Saldo a tripulação com quem me esbarro no caminho que percorro. Já conheço o nome de todos, mas infelizmente, não me socializei muito, embora navegar fosse simplesmente magnífico, não era de todo tão agradável – já que não estava acostumado e obviamente não me afeiçoei até hoje.

Assim que passei minha primeira uma hora no barco, o enjoo me atingiu, vem e volta com força. Mas tenho sido bem cuidado por todos. Lady Balfour se atenta tanto como se fosse minha própria mãe, no entanto, tenho falhado com meu Conde já que não tenho disposição para acompanhá-lo em seus afazeres.

Todos os planos que fizemos para ocupar nossos dias, afundaram oceano abaixo.

Entro em nosso quarto encontrando-o como deixei, vazio. A primeira coisa que faço é deixar meu bloco de anotações na pequena mesa, seguidamente retiro o sobretudo que estou usando por cima da roupa de dormir e por fim arrasto-me para a beliche, ficando na cama do Conde – que é embaixo. Felizmente as embarcações não são luxuosas ao ponto de termos uma cama de casal e seria estranho se o Conde dividisse o leito com um criado.

No entanto, antes de dormir, sempre escapo para os braços de Heinrich. Conversamos até o sono vir e depois volto para minha própria cama – em cima da dele. De manhã, tornamos a dividir o colchão estreito, gosto de iniciar o dia em seu aconchego. Mas quando fico realmente mal durante o dia, permaneço na cama debaixo para alcançar mais facilmente o balde para vomitar.

É que nada tem parado em meu estômago, nem mesmo as sopas de Lady Balfour fazem, com a promessa que me faria melhorar. Além de serem horríveis – o que se torna um martírio, o simples fato de engolir – não ajudam em nada, mas é a única coisa que tem conseguido parar no meu estômago por mais tempo.

O Conde está preocupado, vejo as rugas franzidas em sua testa enquanto conta os segundos para chegarmos logo ao nosso destino, onde finalmente terei meu encontro com a terra firme. Creio que deve ser difícil me ver assim tão debilitado.

Reviro-me na cama suando frio, meu corpo está fraco demais, já que minha alimentação está comprometida. E não demora para o que não foi digerido da sopa da noite passada escape para fora de mim, sento-me rapidamente sobre a cama e alçando o balde despejando tudo ali dentro em urros. Meu corpo fazia tanto esforço para despejar tudo para fora que já estava dolorido e com a garganta ferida. O Conde abre a porta no ato, vendo-me em mais um dos momentos dos quais não gostaria que presenciasse.

O quão horrível é a pessoa que você gosta vendo-lhe vomitar e com a aparência em estado deplorável? Como queria apagar essa visão da sua mente.

— Pensei que tivesse melhorado. — Ele diz tristonho e vem até mim e agarro-me ao balde despejando mais um pouco da água que consiste em ser o meu vômito. — Icarus, sinto muito. — O Conde diz quando massageia minhas costas e eu tossia fortemente. Parecia que estava doente, como uma virose. Mas era só enjoo.

— Não, eu quem sinto muito, senhor. — Digo-lhe, Heinrich sabe melhor do que ninguém o quanto fico chateado por não estar bem para passar os dias com ele.

— Shh, pequeno. Não se culpe. Minha primeira viagem também não foi uma das melhores, acontece. — Ele tenta me consolar, mas não adianta muito. — Trouxe alguns bolinhos, mas suponho que não vai conseguir comer. Mas tenta, pode te ajudar se engolir um pouco.

— Estou faminto e fraco, não tenho muita opção. — Digo por fim, aceitando os bolinhos de chuva, adorava-os.

Salivei de vontade de comê-los, na verdade, a comida do navio me atraia muita atenção, o chefe era dos bons… No entanto, não podia comer nadinha. E por fim comi os bolinhos, eles eram quase do tamanho da minha mão e acabaram com três mordidas. Logo estariam fora de mim, não demoraria muito.

— Beba água também, precisa se hidratar. — O Conde pega a jarra em nosso quarto e bebo um copo cheio.

Até que ficar saciado é bom, por isso deitei-me na cama satisfeito. Heinrich se senta ao meu lado, segurando meu tornozelo nu, fazendo-me carinhos gentis. Estou usando apenas uma camisola e nem faço questão de tirar, já que passo o dia inteiro na cama.

— Já estamos chegando. Mais um ou dois dias e estaremos ancorando no Porto da Ilha Anjou. — Seu sorriso era de pura animação, gosto de ver Heinrich assim, feliz. Ele não é mais aquele homem sombrio que conheci lá na área restrita de Anmak.

Eu também estava ansioso para chegarmos à terra firme, onde finalmente teremos alguns dias ditosos. Heinrich contou-me um pouco sobre a história do nosso destino.

Em 12 de outubro de 1711, uma esquadra comandada pelo corsário René Duguay-Trouin e apoiada pelo rei da França, invadiu o Rio de Janeiro e ocupou a cidade por dois meses. No fim das contas, o Brasil conseguiu expulsá-los, durante sua fuga acabaram se depararam com uma ilha desabitada próxima ao estado e tomaram-na para si.

Por muito tempo essa ilha não foi de grande importância até que Jean-Baptiste Debret ou De Bret – um pintor, desenhista e professor francês – fundou um Museu com o intuito de exibir sua arte para turistas de todo mundo que visitavam-na. Assim a ilha ganhou seu nome e sobretudo se tornou uma referência da arte francesa e um pedacinho da França no Brasil. Tão mágico quanto Paris.

Além disso, mais tarde, De Bret fundou uma academia de Artes e Ofícios no Rio de Janeiro – integrando a Missão Artística Francesa. É claro que Heinrich é um admirador do artista em questão.

Também aprendi algumas frases em francês, já que o principal público do evento são franceses que vivem nessa ilha ou vieram designadamente para o evento de Vivienne. Considerando que acompanharei o Conde o tempo todo, achamos importante que eu soubesse algo que poderiam ajudar-me numa comunicação básica. Não sei se fico mais apaixonado pelo seu empenho em me ensinar ou a forma que fica lindo quando está concentrado assim, tão apaixonante. E ele falando francês? O próprio apocalipse da paixão para mim.

Olhando para ele, pensando em nós, me vem à memória uma fala que Heinrich compartilhou comigo quando estivemos pela primeira vez na nossa praia. E indago-o:

— Você disse que uma mulher contou-te que eu estaria lá, na árvore do laboratório. Igual ao seu sonho. Essa mulher… Quem é? Ela vive em Anjou? — Sei que ele percebe a curiosidade em meu tom.

— Sim, a cartomante. Lembra daquela feira antiquada qual lhe falei? — Ele perguntou e assenti para prosseguir. — Nessa época, tem uma feira em Anjou e alguns visitantes oferecem seus produtos ou serviços. Contudo, nunca mais a vi, entretanto, também não fui ao Mercado das Pulgas de novo. Foi lá que encontrei sua tenda. Ela contou-me sobre você, quando sequer falei sobre o que sonhei.

— Uau. — Suspiro impressionado como sempre faço quando ouço essa história.

Acho que acredito nessas coisas. Não sei. É meio estranho pensar que uma pessoa pode simplesmente olhar para você e enxergar absolutamente tudo. Não era para as cartas dizerem para ela, já que era uma cartomante? Ou seria uma vidente? Realmente não entendo, parece ser algo a mais que isso.

— E você acredita nessas coisas?

— Não acreditava, mas fui até ela porque precisava saber de alguma maneira, antes de me casar. Felizmente, a resposta dela não me deixou tão contente, já que ainda não tinha ideia de quanto iria encontrar você. Mas deu-me uma certa esperança que ficou enterrada dentro de mim por muitos anos. — Enquanto fala, seu olhar se perde através da janela do nosso quarto. Meu Conde esperou tanto por mim, às vezes sinto essa dor por isso, queria ter chegado antes. — Bom, suponho que devo-a um agradecimento.

— Gostaria de conhecê-la. — Confesso de cara, destinos e visões deixavam-me fascinado. Quero saber como é isso. Preciso perguntá-la se eu e meu Heinrich seremos felizes para sempre. Embora tenha plena certeza de que não é assim tão fácil.

— Vou te levar até ela. Mas saiba que é perigoso, Icarus. Não acredite em tudo que ela disser. — Ele me alerta e apenas concordo balançando a cabeça. Não demora para ele respirar fundo e olhar-me mais intensamente. — Aproveitando esse assunto, acredito que seja o momento perfeito para devolver-lhe algo que lhe pertence.

E ele pega esse algo em seu bolso, aquele relógio. Sim, o mesmo que deixou cair para mim, o que nos uniu de diversas maneiras. Incluindo a minha primeira tentativa de devolver o objeto para ele.

— Icarus, isso é seu, o dei para você. — Ele pega minha mão e coloca o objeto dourado sobre ela. — Por favor, guarde isso consigo. — E fecha meus dedos sobre o objeto frio, beijando o topo da minha mão no final. Apenas aceito sem pestanejar, um tanto emocionado, já que o relógio tinha um sentimento tão importante para mim. Ele me unia ao meu Heinrich.

Às vezes, sinto uma sensação estranha dentro de mim, quando vejo, penso ou toco no relógio. Como se… o tivesse tocado muito antes do meu Conde ter me dado. É como se seu significado fosse maior do que nós dois pensamos ser. Acredito que essa sensação é devido a tudo que nos aconteceu, essa ligação através de um simples objeto.

Mas às vezes, eu juro, por mais insano que seja… Vejo-me segurando esse mesmo relógio, em outra dimensão. É mais uma sensação do que de fato uma visão. Mas é o suficiente para deixar-me desconfiado. A vida tende a ter situações quais não sabemos explicar o significado, não é? Viver é tão maluco.

— Obrigado. — Sussurro, abrindo um sorriso que o deixa feliz.

Encaro o rosto dele por alguns minutos silenciosos, observando seu maxilar bem desenhado, os lábios simétricos tão atrativos, o cabelo meio bagunçado que assumiu esses dias por estar em alto-mar. Aperto o relógio em minha mão, sentindo um calor em meu coração.

Ele enxerga nitidamente as verdadeiras intenções por trás do meu olhar e vem para mim… Gradualmente subindo sob meu corpo e encaixando-se entre minhas pernas que se abrem para recebê-lo. Abandono o relógio sobre o colchão para que minhas mãos agarrem seu rosto e o traga até a minha boca.

Nosso beijo é intenso, assim como o momento que criamos. Mesmo que esteja inseguro em relação ao meu gosto, já que a pouco estava vomitando água. Mas suponho que o bolinho resolveu isso, visto que ele chupa meus lábios com vontade e mordisca com delicadeza. Pelo menos tomei aquele banho gelado logo cedo, sempre ficando limpinho e cheiroso para ele.

— Suas mãos. — Falei ofegante quando encontrei brechas durante o beijo. — Preciso delas.

Ele sorri, largo e bonito, tão safado quanto eu. Sinto sua palma sobre minha coxa interna, ele aperta sem dó e com muita vontade, fazendo-me contorcer de desejo. Gosto tanto quando a marca de seus dedos ficam sobre minha pele, como uma tatuagem arroxeada, me faz arrepiar quente quando as vejo. Lembrando-me de seus toques desesperados por mim.

— E elas necessitam tocá-lo, Petit. — Minha santinha, esse apelido me incendeia. E Heinrich me toca, bem onde desejo, agarrando onde mais preciso ser tocado. Com meu falo tornando-se rijo gradualmente, trazendo sensações sutis que vão ganhando intensidade. Fecho as pálpebras e entrego-me as emoções extremamente sensíveis, enquanto ele tateia cada veia saliente pulsante, subindo até a parte mais vulnerável e circulando seu polegar. — Você gosta dos meus toques?

Com meus olhos fechados e arqueando as costas, o meu ‘sim’ vem em absoluta concordância é quase inaudível. E ele fica irritado, sinto isso quando o tapa ardente é explanado com força contra minha coxa. Também gosto da cópia vermelha de sua mão na minha pele, ardendo em punição.

— Não ouvi, Icarus!

— S-sim! — Gemi, no mesmo instante tapando minha boca para que os gemidos não soassem tão altos e fôssemos descobertos. — S-sim, senhor!

E ele me pega de surpresa quando segura meus tornozelos e impulsiona-me para o lado. Entendendo seu pedido implícito, facilito as coisas para si e ele me gira na cama com tanta facilidade, colocando-me de bruços. Suas mãos sobem em sincronia por minhas pernas até às nádegas e ele empurra a vestimenta para cima, expondo-me.

Recebo mordidas em ambas as minhas bandas e sei exatamente o que vai fazer. E como imaginado, sua língua vem por todo o caminho até chegar naquele ponto sensível, continuando a subir até o encontro da minha coluna vertical. Quase choro de tanto prazer. Ondulo lentamente, roçando-me contra o lençol e consequentemente tornando a lambida muito mais gostosa. E quando sinto que ele repetirá o movimento…

— Milorde? — Um dos guardas bate na porta e levo um susto. — O capitão solicita sua presença.

— Estou indo, soldado. — Heinrich responde com firmeza. Solto um suspiro de chateação, pensando que nossa brincadeira chegaria ao fim. E como estava enganado. — É bom que esteja sensível, pequeno. Não temos muito tempo.

Erguendo meu quadril, ele abocanha minha intimidade e pelo céu… Sua boca toma-me com tanta intensidade que preciso agarrar-me ao travesseiro, mordendo-o para sufocar os gemidos. Gosto de como sua língua dança enquanto meu falo está tão alocado em sua cavidade bucal.

— Está tudo bem, senhor? — O guarda provavelmente ouve minhas lamúrias e fico perturbado com a possibilidade de sermos descobertos.

— Está sim, Icarus só está vomitando novamente. Saio em alguns minutos. — O Conde mente, enquanto toca-me com firmeza e volta a me abocanhar com vontade. O jeito que a ponta da sua língua brinca com meus pontos sensíveis, é tão surreal que me faz tremer inteiro. Gosto do quanto sua boca é molhada. Gosto de como ele consegue engolir-me quase todo.

Ele faz com tanta intensidade, mas tanta que sinto meu corpo começar a tremer e convulsionar. Ele alterna entre boca e mãos, uma vez subindo sobre meu corpo para morder minha nuca.

— Venha para mim, pequeno. Oh… Tão molhado… — O Conde sussurra em meu ouvido enquanto um barulho viscoso soa constantemente no quarto, conforme sua mão vai e vem. Ele desce novamente, acariciando com a língua no local pulsante entre minhas nádegas e bombeia-me com movimentos ainda mais rápido.

— Senhor, eu vou… — Murmurei já anunciando meu orgasmo precoce e certeiro. Não é todos os dias que conseguimos fazer isso no navio, na verdade, foram pouquíssimas vezes. Portanto, estávamos começando a ficar desesperados.

Incrível, como em tão pouco tempo, sexo se tornou uma necessidade crucial para nós dois. Não conseguimos mais ficar sem as mãos um do outro. E quando ficamos parece o fim. É como se nossa alma ficasse energizada quando estamos unidos. Nós precisamos de amor para sobreviver, assim como precisamos de oxigênio.

Ele volta com a boca no local prestes a explodir, não demora mais nenhum segundo para me desmanchar na cavidade quentinha, movendo-me devagar, todo manhoso e satisfeito.

— Bom garoto. — Dá um último selar no local e lambe os lábios, tomando qualquer gotinha que tenha escapado. Por fim, afasta-se, colocando o cobertor sobre meu corpo enquanto fecho meus olhos e respiro calmamente. — Nos vemos mais tarde, anjo.

Ele ajeita suas roupas tentando disfarçar a ereção entre suas pernas e em seguida deixa-me sozinho novamente, saindo do quarto para acatar o chamado do capitão. Só me resta lidar com minha respiração ofegante e meu sorriso cafajeste no rosto.

Ocasionalmente, tudo isso parece um sonho muito louco, muito mesmo. Mas amo ser assim, tão Heinrich e Icarus. Confidentes, ardentes, que se entregaram de corpo e alma. Amo amar Heinrich. Adoro o nosso amo, nosso sexo intenso demais. Uma entrega silenciosa de almas.

É que nós dois somos assim, com desejo tão forte queimando que poucos toques são capazes de nos levar ao êxtase extremo. Estou delirando e sorrindo feito um desgraçado.

— Icarus? — Sou surpreendido quando a porta se abre novamente e é Lady Balfour que vem até mim, super preocupada. — O Conde me disse que você estava passando mal novamente.

Minha santinha… Dois minutos atrás ela nos pegaria no flagra. De vez em quando, Lady Balfour esquece de bater na porta, já tão acostumada a encontrar-me sozinho que nem se dá ao trabalho. Ajeito-me na cama dando-lhe um sorriso simples.

— Estou me sentindo melhor, não fique tão preocupada. — Tento confortá-la enquanto a mesma coloca a mão sobre minha testa para conferir minha temperatura.

— Você está quente. Mas não está com febre de novo. Isso é bom. Quando chegarmos no Rio, Fabien vai até uma farmácia comprar o medicamento para se sentir melhor.

Felizmente nosso médico, não havia trago as pastilhas para o enjoo, mas tentou me ajudar quando passou a receita da sopa para Lady Balfour.

— Agradeço imensamente a preocupação de ambos, Lady Balfour. Espero que os dias em Anjou sejam longos, porque definitivamente não quero voltar para o barco tão cedo. — Preciso desesperadamente de uns dias em terra firme.

— Não se preocupe, vamos aproveitar cada segundo. — Ela me garante toda sorridente. — Já que se sente melhor, que tal sair dessa cama e dar uma volta comigo? Poderia me ajudar com alguns afazeres.

— Será ótimo, senhorita. — Concordo de imediato, não demorando a trocar minha camisola por roupas decentes.

Assim passo o dia todo com Lady Balfour, até me sentir enjoado novamente e ser obrigado a voltar para o quarto. Nem o pequeno Carlos ficava tão enjoado como eu, por isso, às vezes sinto vergonha de ser praticamente o único passando mal. Não deixo isso incomodar demais, por isso tranco-me e poupo as pessoas de me verem assim.

Imploro a minha santinha para que a ilha esteja mais próximo do que pregamos.

Terça, 11 de Abril de 1899
Aproximadamente às 15h
Ilha Anjou, Rio de Janeiro, Brasil

Os dias no navio pareciam ser os mesmos, nada de novo acontecia. Quer dizer, às vezes sim, como no dia que avistamos uma baleia próxima a nós, ou quando estava jogando xadrez com o Carlos e ele ganhava todas as partidas. Por vezes até consegui ler com Lady Balfour ou o Conde. Também ajudei na cozinha nos dias que me senti menos enjoado.

Tirando meu desconfortável enjoo, era sobretudo tranquilo. Nos últimos dias, parecia já ter me acostumado ao balançar do oceano e até aprendi lições sobre como conduzir um barco com algumas instruções do capitão. E finalmente nós vimos a silhueta da ilha carioca conforme nos aproximávamos. Meu coração batia forte cada vez mais próximo da terra desconhecida, estava tão ansioso que era perigoso vomitar novamente.

O barco estava a todo vapor, os marinheiros para lá e para cá ajeitando tudo para ancorar. Obviamente lá no cais os guardas – do Porto onde desembarcaremos – já nos observavam reconhecendo o Pégasos. Tínhamos autorização para ancorar ali. E assim foi feito, para seguidamente descermos para terra firme.

Já era tarde do dia, o que significa que o céu estava laranja, o sol um pouco quente e tudo tinha uma sensação de magia. Tão surreal, tão… Francês – como ouvi dizer que era.

Ai, minha santinha, como era fantástico.

Uma carruagem já nos esperava pronto para nos levar até o hotel onde ficaremos hospedados por alguns dias. Observo tudo pela janelinha durante o trajeto, reparando as mulheres charmosas com seus penteados altos e seus vestidos rodados. Algumas com seus filhos no encalço, outras com o guarda-chuva da mesma cor do vestido, tapando o sol sobre suas cabeças. Também haviam jardins, praças, carroças e mais carroças, além dos típicos cavalos. Ao contrário de Anmak, ali parecia tudo um tanto evoluído.

Nosso hotel era o edifício mais luxuoso que já havia visto em toda minha vida. Era alto e de cor creme, com janelas antiquadas e jardins laterais. Quando descemos, não precisamos sequer nos preocupar com as malas, os empregados as levaram para dentro. O Conde me pediu para guiá-lo até a recepção, onde acertou os detalhes da nossa estadia e na sequência fomos guiados escadaria acima até nosso próprio quarto. E suponho que essa é a parte que mais me choca, aquilo era maior que a minha casa no vilarejo, isso sem dúvidas. Provavelmente dava umas oito casinhas. Nós praticamente tínhamos uma mansão luxuosa para passar a estádia. Só não era tão grande quanto o casarão.

Era sobretudo muito confortável, os móveis com estofado lindo, as cortinas pesadas nas janelas grandes, os quartos com camas gigantes pareciam um desperdício já que o Conde e eu dividiríamos a mesma cama. Porcelanas, estátuas, quadros e jarros de flores enfeitavam tudo e completava a luxúria estonteante.

Caminhei cautelosamente pelo local, observando cada detalhe, desde a decoração até as pedras de mármore.

— Você gostou? — O Conde quis saber quando veio até mim para me abraçar.

— Sim, é tão luxuoso. E tudo isso só para nós dois? Não é muito? Deve ser tão caro, senhor. Julgo que se não fosse por você, jamais pisaria num lugar como este antes. — Falo ainda de queixo caído, observando tudo ao nosso redor.

— Fique tranquilo, não há nada com o que se preocupar. Sempre fico nesse hotel, dessa vez não seria diferente. — Disse, todo confortável em gastar tanto dinheiro. Mas quem sou eu para lhe impedir, se é isso que ele quer. — Vamos desfazer nossas malas.

— Mas já? — Indago meio preguiçoso, nego freneticamente ao balançar a cabeça. — Não mesmo, nós vamos descansar um pouco antes e pedir uma refeição digna. Suponho que um banho de verdade também cairia muito bem.

Estou há dias sem comer uma refeição completa, portanto, esse é meu primeiro desejo estando aqui, principalmente com a certeza de que não vou sentir enjoo e vomitar. Puxo o Conde devagar até uma das camas gigantes e subo nela já dando pulos.

— O que está fazendo? — Heinrich riu alto enquanto eu fazia o papel perfeito de uma criança.

— Venha, seu Conde. Venha pular com o pequeno Icarus. — Gritei sorridente para ele.

O Conde ri e não demora para se juntar a mim, pulando também, de mãos dadas as minhas. Não é porque não somos mais crianças que não podemos agir como algumas às vezes e sentir a contagiante alegria que elas sentem.

Na verdade, Heinrich ficou morrendo de medo que nós quebrássemos a cama, por isso teve que me agarrar para impedir. Dando risada até ficar sem ar, ele jogou-me na cama e nos acalmamos com beijinhos fofos por longos minutos. Posteriormente, deixei-o pedir comida e fui até o banheiro para encher a enorme banheira com água quente e sais de banho.

Tomamos banho juntinhos com toda aquela espuma deliciosa, trocando toques gostosinhos e aproveitando a água quente. No navio os banhos pareciam uma tortura, mesmo que esquentassem a água ainda assim chegava a área de banho quase fria. Estava morrendo de saudades de ter um banho gostoso assim.

Quando terminamos, vestimos roupões e fomos até a sala onde nossa refeição já nos esperava e tinha um cheiro muito atrativo. Nós comemos feijoada e de sobremesa degustei até suspirando das deliciosas rabanadas.

Após isso, não teve outra solução, senão cair na cama e dormir por horas até o nascer de um novo dia. Estávamos exaustos da viagem, embora muitas das vezes não tivéssemos feito nada de mais no navio. No entanto, acordamos cedo e prontos para desbravar toda a ilha francesa.

Só tínhamos um dia antes do evento beneficente de Vivienne, por isso o Conde tinha vários afazeres. Seus quadros, por exemplo, já foram levados logo cedo para o museu. Assim, fomos desbravar o Rio.

O Conde me levou em lojas incríveis dos amigos que fez por aqui, fiquei impressionado de ver ele se comunicando tão animadamente. Conheci várias pessoas, desde lojas de porcelanas até estabelecimentos de jarros de cerâmica. Também passeamos por jardins maravilhosos, almoçamos em restaurantes típicos da cidade e comprei alguns presentes para levar.

Para minhas irmãs um conjunto de colares semelhantes, não era tão caro, era simples. Sei que elas irão gostar. Para mamãe e vovó escolho sapatos confortáveis. E para meu pai um chapéu que sei que ele vai amar.

O Conde até perguntou se eu não iria comprar nada para mim, mas só estava esperando achar algo que me interessava. Por enquanto nada me chamou tanta atenção. Na loja de perfumes foi ele quem ficou animado, como o Conde gosta do perfume francês, até comprou um para mim sem que eu percebesse. Ele havia me perguntado se gostava do cheiro e assim que saímos do estabelecimento entregou-me o pacote.

Achei fofo.

Voltamos exaustos para o hotel, caminhar o dia inteiro nos deixou assim. Novamente fomos juntos para a banheira, ficamos trocando carinhos e conversando sobre o dia que se passou.

No dia seguinte acordamos eufóricos, totalmente ansiosos para o leilão. O tão esperado dia 13 de Abril.

Foi um dia de frio na barriga e estômago revirando, a ansiedade nos domava e dessa vez eu não era a única vítima. Meu Conde também se sentia assim, tanto que evitou comer no almoço. Durante o dia ele apenas se dispôs a resolver assuntos para lá e para cá. Fiquei responsável por cuidar de nossas roupas, garantindo que os trajes estejam perfeitos para a noite de hoje.

Será a primeira vez que eu usaria o fraque feito por Jane. E era tão bonito que não conseguia parar de admirar a peça em questão. O dia parecia longo, mas quando me dei conta, estava em frente ao enorme espelho do banheiro com meu traje bem vestido em meu corpo. Sempre gostei da minha aparência, nunca liguei tanto para tal, mas nesse momento me espantei com tamanha beleza que podia exibir.

Será que as pessoas vão achar o mesmo? Será que minha beleza será notada?

Finalizando minha arrumação com algumas borrifadas do perfume francês, finalmente saio do banheiro e vou ao encontro do Conde que já está devidamente pronto.

Minha santinha, mesmo que eu narre, não seria o suficiente para descrever tamanha a beleza desse homem. Heinrich também usava um fraque, entretanto, muito mais bonito do que o meu, deixando-o estonteante a ponto de me deixar tonto com tanta beleza. Tão azul quanto o meu, nós dois usamos trajes combinando. Suponho que essas eram as reais intenções de Jane.

— Icarus, você está tão lindo. — Foi ele quem disse enquanto estava paralisado feito um besta, pensando nas palavras certas para elogiá-lo à altura, mas ele foi mais rápido. Eu era só um borrão azul para ele e ainda sim, considerava esse borrão bonito. — Meu anjo, você não faz ideia do quanto me alegra te ter aqui comigo.

O Conde vem até mim e envolve seus braços ao redor da minha cintura, trazendo-me para si e seu rosto vai de encontro a curvatura do meu pescoço onde sou cheirado de forma intensa. Ele inibe um grunhido de pura satisfação e aperta meu corpo em resposta. Conhecendo-o como conheço, sei muito bem o que esses sinais querem dizer. Eu estou bonito e o deixo excitado com meu cheiro. Maldito, como o amo.

Ele não é o único a ter essas sensações, eu também sinto um arrepio profundos no meu corpo, uma vontade de beijá-lo… Mas tudo isso tem que ser controlado agora, afinal, não temos tempo para isso.

— Também estou muito feliz de estar aqui contigo, meu Conde. Essa noite será muito especial, o senhor está bonito o suficiente. Muito bonito. — Elogio sem hesitar, esse penteado para trás me mata. Os fios longos fixados com gel. Eu havia o ajudado com seu cabelo, mas a roupa preferiu vestir sozinho.

— Shh. Os elogios são apenas seus, hoje. — Ele disse colocando seu dedo indicador sobre meus lábios, fico de bochechas quentes instantaneamente. — Está pronto?

— Sim, senhor..

— Vamos, o coche já nos espera. — Ele avisa e juntos saímos do nosso quarto.

Descemos até o saguão do hotel, alguns hóspedes reparam em nós, obviamente nossas vestes diferem, considerando que Jane tinha seu toque único e cheio de referências de todo o mundo. Sinto-me tão privilegiado de poder usar algo feito por ela.

O Conde e eu encontramos nossos guardas e eles vão conosco até o Museu onde ocorrerá o evento de Vivienne.

Como de costume, observo a ilha pela janelinha da carruagem, adoro as luzes da noite, as pessoas transitando, os outros veículos e todas a magia de estar em um lugar desconhecido. Tudo tem um tom encantador. Mas o que me deixa impressionado é o Museu, conforme nos aproximávamos. Tão grande e belo, as luzes iluminavam o jardim pelo qual nos conduz até a escadaria de acesso ao evento. A carruagem para e o ajudante do cocheiro vem até a porta, posiciona a escadinha para descermos. Curvo-me em agradecimento e logo assumo meu lugar ao lado do Conde.

As pessoas chegam a todo instante e lá de dentro já se ouve o burburinho de pessoas, taças e toda uma movimentação. O jazz rola solto, estonteante e muito empolgante, faz-me ter uma vontade imensa de dançar. Subimos os degraus da escada e damos de cara com o salão lotado de pessoas de todos os tipos, jeitos, cores, tudo. Todos trajando roupas excessivamente elegantes e claro, usando uma linguagem muito desconhecida para mim.

Fico animado e sorrio para quem nos encara enquanto passamos pela multidão, várias pessoas retribuem-me e até mesmo reparam em minhas roupas. Gosto dessa atenção.

— Heinrich Vollard? Bonjour, tu es vraiment venu. Comme tu es belle! — Uma mulher parou o Conde que não teve tempo nem de responder, foi logo lascando um beijo na boca dele. Sim, ela acaba de beijar o meu homem na minha frente. De início fico estático, sem saber o que dizer e quando se afasta ela sorri imenso, como se estivesse apaixonada.

O Conde ri sem graça e limpa os cantos de sua boca. A mulher em questão é realmente muito bonita, usando um vestido vermelho com seios enormes sendo apertados pelo corpete e quase saltando para fora do vestido. Seu cabelo está muito bem penteado, alto como uma rainha e ela usa tantas joias, todas brilham intensamente em união com seus olhos azuis. Seus lábios estão pintados de vermelho e exibem um sorriso perfeitamente branco. Ela é tão linda, tão… Céus.

Questiono-me o que isso significa, por que ela estava beijando meu Heinrich? E nesse momento, percebo o quanto difícil pode ser respirar quando seu coração está sendo despedaçado.

— Chère Vivienne, toujours aussi accueillante! — Heinrich diz enquanto a mulher agarra-se a ele, arrastando-o pela multidão.

Preciso me esforçar para segui-los, não perder meu Heinrich e sofrer o incrível poder de ser menosprezado. Já que é exatamente isso que acontece pela maior parte da noite. Heinrich fica tão entretido com seus amigos e com Vivienne em seu encalço que não falou mais comigo e me tornei somente sua sombra.

Naquele momento, não sabia muito bem o que sentir ou o que fazer, a única coisa que me confortava era o fato dela não beijá-lo mais – para meu completo alívio. Mas eles dançam pelo salão, rodopiam para lá e para cá embriagados. Por fim, com meus pés cansados, resolvo me sentar em um dos bancos de bar que eram excessivamente macios. Fiquei alguns minutos ali e logo aceitei uma das taças de bebidas que os garçons me ofereceram.

Toda hora meu olhar ia até Heinrich e me sentia muito triste por ter me trocado tão facilmente pela tal Vivienne. Mas o que realmente me magoa, é vê-lo tão bem com uma mulher tão bonita que pode dar-lhe tudo o que não posso. Eles dançam e ela o faz rir tão bem…

As pessoas os olham e está tudo bem, não há nenhum crime acontecendo. São suas pessoas aparentemente solteiras, de mesma idade e sobretudo, um homem e uma mulher. O maldito padrão imposto pela sociedade.

Espero mesmo que eu vá para o inferno por amar um homem, é melhor do que ir para o céu com esse bando de hipócrita escondidos por trás de dotes religiosos para machucar um ser humano só por não acatar com suas exigências estúpidas.

Não concordo e jamais concordarei. Que me punam por isso. Detesto que usem Deus para nos castigar, se fossem mais inteligentes notariam que o Deus que pregam jamais tomaria essa atitude contra um ser humano. Deus não odeia pessoas como eu, tenho certeza absoluta disso.

Estou fuzilando de ódio e preciso lidar com esses sentimentos sozinho, ou afogando-me em bebidas alcoólicas que nem sei o tipo.

Pourquoi un mignon petit garçon comme celui-ci porte-t-il une belle tenue avec des larmes dans les yeux? — Disse um moço se sentando ao meu lado, a única palavra que entendi foi belle. Quando meu olhar se levantou e encontrei seus olhos, percebi ter uma familiaridade. Além de ser um homem excessivamente bonito.

— E-eu não falo francês. — Digo, sendo que havia treinado tanto essa frase para respondê-la em francês, se fosse necessário. — Quer dizer, eu… Je ne parle pas français.

O senhor bonito riu, e caramba, que sorriso espetacular. Fiquei até vermelho tamanha a intensidade que ele me olhava.

— Você não fala francês, mas eu falo português. Eu disse: por que um lindo garotinho como este, usando um belo traje, está com os olhos cheios de lágrimas? — O homem bonito de terno preto disse e encarei minhas mãos sobre meu colo. Mesmo sabendo a minha língua, ele possuía um sotaque muito presente, que me fez acreditar que era português.

— Não é nada. Estou aqui acompanhando meu lorde. Mas ele está muito ocupado agora e meus pés estão doendo tanto. Posso saber de onde você é? — Pergunto animado em encontrar alguém que saiba falar minha língua.

O jovem me analisou enquanto bebia da sua taça de champagne. Lembrando que também segurava uma, bebi um gole também.

— Sou Thomáz Martins. — Ele se curvou brevemente, ainda sentado. — É um prazer conhecê-lo…

— Icarus Campelo. — Completo sua fala, me apresentando e também fazendo uma breve reverência.

— Icarus Campelo. — Ele repete sorrindo. — Se veio de Santa Catarina e está com seu Lorde, presumo que pertença ao meu querido primo, Heinrich Vollard, uh? Ou talvez aquele médico, Fabien Balfour.

O Conde nunca me falou nada de nenhum primo dele… Fiquei surpreso pela coincidência de conhecer um e abri um sorriso grande.

— É mesmo primo do Conde de Anmak? — Minha voz tem empolgação demais.

— Sim, no entanto, eu vivo em Portugal, onde sou o futuro Lorde da área onde moramos. — Ele revela. Eu estava certo sobre sua origem, e era verdade que Heinrich tinha descendentes de Portugal.

E foi assim que acabei bebendo muitas taças daquela bebida e papeando muito com o Martins. Não teve nada além de uma boa conversa saudável e engraçada, contou-me que ele e Heinrich nunca se deram bem e que muitas das vezes até mesmo brigaram quando jovens, mas que hoje em dia nem se falam.

Conversa vai e conversa vem, o leilão estava prestes a começar e o Conde ainda estava grudado na Vivienne.

— Icarus, foi simplesmente maravilhoso te conhecer. Mas preciso ir, amanhã acordarei cedo e visitarei outras cidades brasileiras. — Martins disse já determinado a ir embora.

— Ah, tudo bem. Foi muito legal te conhecer, Martins. Mas… Você acha que pode me dar uma carona até o hotel onde estou hospedado? É que o Conde vai demorar e estou muito cansado. — Falo expressando toda minha chateação.

— Tem certeza? Não quer falar com ele antes? — Martins se preocupa e me olha desconfiado. — Não quero me meter em problemas com meu primo, Icarus. Embora, não faça mal lhe oferecer uma carona.

— Que nada, o Heinrich não vai se importar, ele não liga. — Com todo aquele álcool, nem percebi que o tratei particularmente como Heinrich e não Conde. Martins também percebeu isso. — Vamos?

— Sim, vamos. — Martins concordou e saímos juntos do museu, esperamos pela sege dele do lado de fora do local.

Um dos nossos guardas acabou me encontrando e veio até mim apressadamente.

— Campelo, onde está indo? — Robert indaga, sem entender o que estou fazendo.

— Diga ao Conde que estou voltando para o hotel. — É tudo que digo, emburrado e com os braços cruzados contra meu peitoral.

— Você deveria acompanhá-lo, Campelo, vamos voltar lá para dentro. — Afasto-me de Robert e nego.

— Primeiramente, você não manda em mim. E segundo, você não deve dizer o que devo ou não fazer. Vai logo avisando o Conde que estou voltando para o hotel, desejo que ele aproveite imensamente a noite!

— Icarus… Tudo bem, sendo assim, eu vou com você. Não posso deixá-lo sozinho assim, tenho ordens para mantê-lo seguro— Disse o soldado com determinação.

— Você que sabe. — Dou de ombros pouco me importando. Mas, no fundo, estava grato por alguém conhecido não me deixar sozinho.

Eu não estava bêbado, havia tomado umas quatro taças, mas ainda sentia o controle da minha consciência. Mesmo assim, não conhecia totalmente o Martins e ele poderia ser um baita mentiroso. Com Robert comigo, me sinto mais seguro.

O soldado se afastou dizendo que iria informar nosso outro guarda, seguidamente Thomáz olha-me e pergunta:

— Tem certeza que isso não vai nos meter em encrencas?

— De forma alguma, fique tranquilo.

E assim, Robert volta e nós entramos na carruagem do Martins. O trajeto foi leve como a conversa que tive com ele antes, ficamos falando sobre livros, após informá-lo que era datilógrafo do Conde. Quando chegamos, disse a Martins para visitar Anmak um dia e agradeci pela viagem.

Com Robert atrás de mim, fui para meu quarto com o Conde, só assim ficando finalmente sozinho. Tirei as roupas, estava tão chateado que nem queria mais vê-las na minha frente. E o mesmo se tratava de Heinrich.

Peguei minhas coisas e fui para o quarto ao lado, determinado a ficar longe do Conde por tempo indeterminado. Tranquei a porta para ficar sozinho e me joguei na cama, chorando até dormir.

 

— ICARUS CAMPELO! — Acordei horas mais tarde um tanto espantado com Heinrich esmurrando minha porta.

Em passos bravos e com tontura por ter me levantado rápido demais, vou até à porta e abro enquanto ele ainda me chama e esmurra a porta até ela ser aberta.

— O que diabos tem em sua cabeça, moleque? — Heinrich me agarra pelos braços e me dá um sacode. — Saiu de perto de mim! Pegou carona com um estranho! Se queria ir embora, era só dizer!

— Tire suas mãos de mim! — Puxo meus braços, mas não consigo me soltar, Heinrich provavelmente bebeu e está pouco alterado. — Está me machucando!

— Te contratei para me ajudar e contrário disso age como um imaturo! — Ele grita contra minha cara e encaro-o com ódio. — Tem noção do que poderia ter lhe acontecido se não fosse por Robert ter te acompanhado? Qualquer pessoa poderia ter te levado, te machucado ou sabe-se lá o quê!

— Me perdoe, Milorde, se o senhor estava ocupado demais se atracando com uma mulher ao invés de se preocupar com qualquer outra coisa ao seu redor! E que saber? Eu não me importo! Não me importo nenhum pouco! Está arrependido? Então me demita! Me demita! — Gritei também contra sua cara e o que aconteceu em seguida me surpreendeu totalmente.

Heinrich largou meus braços e me deu um bofetada tão forte que meu corpo caiu contra a cama. Foi bem na minha cara e senti a pele arder como se tivesse pegando fogo, em seguida o gosto de ferrugem invadiu minha boca, era sangue. Eu fiquei alguns minutos estático… pensando se aquilo era mesmo real. Minha mão trêmula custou alcançar o lado acertado e enquanto isso ele ofegava na minha frente.

Eu sei que não foi de propósito, você estava alterado e te provoquei. Mas era inevitável não te odiar naquele momento, não ter meu coração partido. Me permiti sentir, dei liberdade aos meus sentimentos, pois você também errou em me bater.

Nenhum dos dois estava certo, estávamos alterados, magoados. Mas nada justifica… Nada pode desfazer a dor que senti. A decepção amarga escorrendo em forma de lágrimas por minhas bochechas quentes.

É que nós somos tão humanos Heinrich e humanos tendem a errar, é de sua natureza. Não somos perfeitos, meu amor. Nunca seremos.

Petit… — Sua voz sussurrou cheia de decepção. Era, sobretudo, a voz do Heinrich que eu amo. Ele havia se dado conta do que fez.

Mesmo assim, eu estava tão assustado que apenas me afastei com rapidez, arrastando-me até encostar na cabeceira da cama e ali me encolhi como um cachorrinho amedrontado.

— Não encoste em mim! — Eu digo, com a voz alterada pelo nó na minha garganta. De repente, uma súbita coragem dominou meu corpo, coloquei-me de joelhos sobre a cama e chorando, gritei apontando-lhe meu indicador. — Nunca mais, nunca mais mesmo, levante a mão para mim!

— Pequeno, me perdoe, por favor, me perdoe… — Ele tentou se aproximar, mas eu recuei mais, para longe. — Icarus, por favor, eu não queria te machucar.

— SAI DAQUI! — Grito com todas as minhas forças. — Me deixa sozinho! Eu não quero te ver! Não quero ouvir sua voz! Não quero sentir a sua presença!

— Icarus…

E estava doendo em você também, amor. Eu sei. Doeu em nós.

Naquele dia, não me importei com sua dor. E você não tinha condições de consolar a minha. Eu acreditava no seu perdão, Heinrich. Mas precisávamos de um momento, sozinhos. Era informação demais.

Você saiu com um único aceno firme e fechou a porta atrás de si, caí no choro pela segunda vez naquela noite, feito um bebê.

Mas não foi isso que nos destruiu, não.

O pior ainda estava por vir.

Em alto-mar estamos propícios a ser surpreendidos por tempestades, e sabe o que os marinheiros fazem quando um temporal violento os encontram? Eles tendem a se entregar com a ideia que se eles sobreviveriam ou não, só lhes restavam orar para sobreviver.

Nós estamos em alto-mar agora, meu Conde, e precisamos enfrentar o vendaval que nos alcançou.

Será que vamos sobreviver?

Talvez, no fundo, eu sinta o conforto de que tempestades sempre passam… Mas enquanto choro com meu rosto ardendo, parece que nosso barco foi engolido pelo violento mar…

Nessa noite, depois de tanto tempo, dormimos sozinhos.

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