CAPÍTULO UM

Escrito em sua alma

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Sexta, 13 de Janeiro de 2113
Aproximadamente às 10h
Marché aux Puces, Saint-Ouen, França
JULIETA EVETTE

— Não acredita que possam ler seu destino? — Vovó me olhou de forma rude, tão brava por contradizer suas crenças. Mas por tudo que é sagrado, como uma mulher em uma tenda com uma falsa bola de cristal e cartas com desenhos bizarros poderia ditar o meu futuro ou até mais do que isso? Não, não dava para acreditar.

Entretanto, Dona Inês não se deu por vencida, apertando minha mão com uma força – que não imaginava que ela tinha –, a velha senhora me puxou em direção a tenda tão antiquada, como usualmente eram as de épocas distantes da nossa.

Como sei disso em pleno século vinte e dois? Isso é fácil, sou uma historiadora e tudo que pertenceu aos séculos passados me fascinam de uma maneira inexplicável. E por esse mesmo fato, me faz acreditar que a mulher por trás de todo esse pano de camurça é uma grande farsa. E minha adorável avó está prestes a gastar seu dinheiro com ela.

Com tanta atração no famoso Mercado das Pulgas – uma feira antiquada que virou uma tradição de séculos na nossa família – e vovó se encantou justamente por isso… Uma farsa de mulher que promete contar-nos o que quisermos saber se apenas tocar a nossa mão.

Marché aux Puces de Saint-Ouen é basicamente um mercado das pulgas e como bem diz seu significado, é o maior mercado de antiguidades do mundo e recebe uma quantidade incontável de visitantes por ano. Funciona todas as sextas e domingos, pela manhã, em um grande espaço que toma uma praça entre Marais e a Bastilha. Aos domingos, o mercado fica mais cheio, mas também é mais agradável, pois é nesse dia que muitos vendedores típicos de Paris aparecem com seus produtos.

E esse lugar tão tradicional sempre atraiu a mim e minha avó, exatamente como um dia meus pais também eram atraídos até aqui – com o intuito de encher nossa casa com bugigangas velhas, trazendo histórias vivas para nos contar.

Se tem uma coisa que eu amo é agregar memórias a objetos e guardá-los em uma caixinha onde poderei sempre prestigiá-los.

Esse mercado é muito importante para mim, até minha adorável avó insistir em desvendar seu “futuro”.

— Vovó, sabemos muito bem que é impossível que alguém possa prever o destino. — Não é que não acreditava cem por cento, é que estava com medo. Vovó é uma mulher de setenta anos de idade, infelizmente os projetos científicos de revitalização da vida humana ainda eram apenas especulações em desenvolvimento. Não havia uma maneira de prolongar a vida, logo não poderia descartar a realidade de que minha avozinha estava se aproximando da temida morte. O que me deixava com receio do que sairia da boca da tal cigana caso vovó perguntasse sobre isso.

E se essa maluca lhe dissesse que vovó morreria em breve? Consequentemente, minha doce velhinha iria para casa desolada. Afinal, por mais que afirmemos tantas vezes que desejamos morrer, quando estamos diante da morte recuamos assustados. E se tem uma coisa que Inês Evette aprecia, é a vida; mesmo que o vovô a tenha deixado tão cedo por um infortúnio acidente.

A velha me olhou feio e ralhou brava:

— Como ousas duvidar do destino, minha neta? Quer que ele lhe castigue? Pois, vamos! Se não quer saber o que lhe está destinado, o problema é seu, mas certamente pagarei muito bem para saber quando irei reencontrar meu amado Charles.

Obviamente ela estava se referindo ao meu falecido avô, achei tão puro da parte dela que não pirracei mais. Em nome do amor, eu poderia fazer esse sacrifício. Não me julgue, como uma historiadora bem vivida acredito mais em fatos que condizem com a realidade e provas físicas; por isso alguém com poderes sobrenaturais, capaz de ler a minha alma é demais para mim. Confesso que já pensei em acreditar em certas coisas místicas e respeito quem acredita fielmente em sua existência e prática, mas não se aplica a mim. No entanto, em prol do amor, até posso me deixar enganar por uma mulher trapaceira apenas para satisfazer minha avó.

Determinada, sua mão fofa e enrugada agarrou a minha e dispôs-se a me puxar na direção da tenta. Nós nos afastamos aos poucos da multidão elétrica que corria pela feira.

Caminho totalmente contrário ao que eu realmente gostaria de percorrer.

— Não vou dar um centavo para contribuir com essa falsidade! — Balbuciei baixinho encarando a placa majestosamente escrita à mão:

Pelo visto, não tinha tantas pessoas preocupadas em ter seus destinos desvendados ou suas almas gêmeas apontadas. Assim como a grande parte dos clientes presentes, estava mais ansiosa em ver os produtos oferecidos nas outras tendas da feira. Se tratava de objetos perdidos de milhares de séculos passados. Tem de todas as épocas e tudo que quero é um relógio de bolso, como os velhos homens tinham antes do século vinte e um. Não se fazem mais coisas assim, logo alguém passaria na minha frente por culpa da vovó. E adivinha? Eu quem insisti para ela vir me fazer companhia, já que compartilhamos o mesmo gosto por velharia.

Após ter a passagem liberada por um segurança alto e carrancudo suando atrás de um terno preto, no atual momento estou caminhando por um minúsculo corredor de cortinas cor de vinho que caem do chão ao teto, flores delicadamente bordadas com linha dourada enfeitavam o pano vintage. Um gosto antiquado de dar inveja, confesso. Conforme nos aproximamos do centro da tenda, uma fumaça branca – quase transparente – nos envolve sutilmente até revelar ela…

Madame Moira.

Talvez fosse um tipo de presságio, um alerta para que eu saísse dali o mais rápido possível, pois quando seus olhos claros quanto gelo encontraram os meus, um tremor percorreu todo meu corpo e cada pelinho eriçou.

Tive medo, receios, calafrios e meu coração parecia tão apertado quanto o nó na minha garganta.

Principalmente, porque, no fundo da existência do meu ser, tive aquela sensação familiar, como se em algum momento passado tivéssemos nos encontrado antes.

Um déjà-vu.

Diante de meus olhos, as íris da moça – jovem e bela demais para ser denominada uma vidente tão experiente – tornaram-se levemente lilases, ainda em tonalidade extremamente clara, apenas assumiu uma coloração diferente, assim como a neblina da tenda que também tornou-se púrpura rodeando-me. O truque dessa bruxa é do bom, viu.

— Julieta Evette. Enfim, nos encontramos novamente.

Foi a primeira coisa que ela me disse enquanto eu petrificava da cabeça aos pés.

Como ela sabe o meu nome?

— Não leu a placa? Sou uma vidente, posso desvendar seus pensamentos mais secretos. — Disse-me simplesmente, como se de fato de ler a minha mente não fosse assustador.

Esperava tudo menos encontrar a Jean Grey em carne e osso.

Vovó apertou minha mão igualmente em choque. Pude sentir quando abriu um sorriso cheio entusiasmado. Não julgo, estar diante de alguém tão misterioso nos deixa assim, se você se deixar fascinar por esse tipo de mistério. E obviamente minha avó tinha crenças em videntes, cartomantes, bruxas, espíritas, médiuns e toda essa baboseira maluca, como bem podem perceber.

— Ela é mais incrível do que imaginei! É um prazer conhecê-la Madame Moira, sou a…

— Sra. Inês Evette, eu sei muito bem, minha querida. Por favor, sente-se. Será um prazer imenso lhe atender. Veio buscar informações sobre seu falecido Charlie, não é mesmo?

Vovó se sentou, mas permaneci ali, intacta. Não sabia o que era aquela sensação dentro de mim, mas parecia como se…

Como se eu soubesse que nada seria mais como antes.

— Julieta? Querida? — De repente ouvi minha avó me chamar, pisquei os olhos com força e devagar encontrei o olhar dela. — Não vai se sentar?

Minha atenção alternou entre ela e a cigana, balancei a cabeça minimamente, finalmente voltei a mim, recuperando o controle da minha mente.

— Vovó, e-eu… Eu vou te esperar lá fora. — Disse-lhe com um nó apertando tanto a minha garganta que obrigava-me a gaguejar.

E sei perfeitamente que ela sabe que percebi que havia algo incompreensível entre nós. Contudo, ainda sou descrença diante de seu suposto dom. Estava tão pronta quanto determinada para ir, no entanto, quando pensei em mover minhas pernas, a cigana se levantou rapidamente. O que me fez entender que ela ainda não poderia permitir que eu saísse, e não só não permitiria como fez de tudo para impedir.

— Mas você já vai? Não gostaria de ler seu destino?

Reuni coragem para encará-la nos olhos e dizer:

— Ah, faça-me o favor, não participarei de seu círculo de farsas. Licença, tenho mais o que fazer. — Respondi, seca e rude, dando-lhe as costas.

— Julieta Evette! — Vovó me chamou atenção pela rudez, ao mesmo tempo que senti a mão gélida envolver meu pulso. Um choque frio se instalou na minha corrente sanguínea e deslizou pelas minhas veias, possuindo rapidamente todo meu corpo, devido à pulsação acelerada do meu coração.

Não negue o que lhe está predestinado, Icarus Campelo!

Tenho certeza que perdi totalmente a tonalidade viva da minha pele, por um momento era como se eu fosse o Jack segurando a ponta da proa. Me afundando lentamente no mar frio, tornando-me um iceberg. Julgava já não ter mais voz. Mas ela simplesmente saiu, fraca e abatida:

— O que pensa que está fazendo? Me solte, sua… — Pretendia correr, mas minhas pernas estavam desligadas, apesar de que ainda me mantivessem firmemente de pé. Meus instintos foram interrompidos ao encontrar seus olhos lilases em uma tonalidade mais escura, definitivamente na cor púrpura e eles brilhavam feito joias.

Ametistas.

Duas esferas reluzentes, era impossível não me afundar naquele olhar enfeitiçado.

— Me perdoe, mas não posso permitir que saia daqui sem levar o que lhe foi destinado a buscar… — Ela disse em sua voz suave tão envolvente.

Em questão de segundos um filme se passou em minha mente, tão nitidamente…

Começou com o som de patas de cavalo batendo fortemente contra o solo terroso, o cheiro de terra molhada invadiu minhas narinas, recentemente umedecida pelo sereno da madrugada.

Havia uma única certeza dentro de mim: algo ruim estava prestes a acontecer.

A luz pálida da lua tocava meu rosto enquanto tentava recobrar a consciência, tão bela, a esfera prateada me passava uma mensagem. Minha alma soube que estava diante do meu último suspiro.

O corvo nos seguia, pousando de galho em galho, confirmando as minhas suspeitas. Como bem sabemos, os corvos não costumam perambular pela noite. Não discordo que a ave negra é certamente magnífica, carregava significados bons e ruins e com absoluta certeza, ele não me trazia boas notícias agora. Oh, não.

O cavalo foi perdendo a velocidade gradualmente e só assim me dei conta do quão rápido estávamos galopando antes, o animal relinchou quando suas rédeas foram bruscamente puxadas e num solavanco, parou.

Estávamos em um bosque, minha visão era turva e o motivo queimava na minha nuca. Uma ardência que escorria quente e viscosamente por toda a ovulação do topo da minha cabeça, traçava a testa, descia pelo nariz e pingava da ponta ao chão, fazendo uma trilha de gotas de sangue pelo caminho que percorremos.

“Você comerá meus olhos, maldito corvo? Quando eu já não estiver mais nesse mundo insano?”, me indaguei mentalmente, questionando na sequência como poderia tirar sarro da situação. Além do corvo que assistia minha decadência, os ponteiros de um relógio ressoavam em minha mente, como um devaneio. Era o sinal de que meu tempo estava acabando.

Ninguém virá te salvar, pobre alma.

Não conseguia respirar, de medo. Meu corpo estava destroçado, por dor. Como se tivesse lutado bravamente para evitar essa catástrofe.

 Você é pesado, sabia? Mas serei mais rápido que ele. Se não te matar agora, serei eu a estar morto quando os primeiros raios de sol atravessavam as montanhas. — O homem de voz trêmula disse e meu corpo desabou do cavalo, mais especificamente fui empurrado para o chão, urrei de dor e o lamento ecoou pela floresta.  Desculpe-me, por simplesmente não sentir pena nesse momento.

Seja de quem for essa voz, no fundo da minha alma, sabia que já havia ouvido antes. Tinha consciência de que o meu assassino era-me conhecido.

O homem agarrou o meu pé e começou a me arrastar para onde desejava, mal conseguia gritar enquanto pequenos galhos e pedras pelo caminho rasgavam as partes expostas da minha pele.

 Não se preocupe, direi a sua família que foi condenado à fogueira pela acusação de bruxaria. Todos vão acreditar já que vivia roubando as flores daquele bosque e enfurnava-se na casa daquela velha que serve o diabo. — Ralhou o homem em tom rude.  Você o levou para o fundo do poço, Campelo. Sua alma certamente pertence ao caído.

Não tinha ideia do que ele estava falando e certamente não tive tempo para raciocinar. Tão pouco tinha forças para lutar. Entre um apagão e outro, via flashes de tudo ao meu redor; e às vezes via seu rosto vindo à tona na minha mente, tão belo a ponto de me tirar o último fôlego. Como se ele fosse a minha esperança.

No centro da clareira, fui amarrado a um tronco, havia madeira e feno ao meu redor. Alguém gritava por meu nome, só sabia que estava buscando por mim, sua voz fazia meu coração acelerar. O corvo me observava da árvore de frente para mim, encarando-me com seus belos olhos negros, que vez ou outra reluzia a cor violeta. A ave carregava lamúria no olhar, sua presença me era familiar, talvez fossemos velhos amigos. E não ousou dar um pio sequer, senão seria condenado à fogueira junto comigo. Ou estava apenas prestando luto para mim? Não teria como saber, prefiro acreditar na primeira hipótese que me faz concluir que embora fosse encarregado de me avisar sobre algo tão ruim, ainda era capaz de nutrir bons sentimentos e quem sabe trazer-me um bom presságio.

Deixando a ave de lado, reparei que havia um cheiro acentuado irritando meu nariz, levou um tempo para perceber que aquela substância molhada sobre minha pele era álcool.

— Faça! Ele está se aproximando, não temos tempo! — Uma voz feminina surgiu para encorajá-lo.

— Adeus, Icarus Campelo. Queime eternamente, desgraçado. Antecipo-te o teu inferno!

Observei a tocha flamejante vir na minha direção e como um fantástico show, incendiou-me com fome.

O fogo queima o que lhe é dado como combustível.

E, de repente, tudo ardia como o inferno do qual de fato me submeteram, meus gritos eram levados pelo vento e ecoavam pela madrugada. Quando ele nos alcançou, pude ouvir seus gritos também, retumbando em sintonia com os meus, suplicando por mim. Vi seus olhos, seu desespero, suas lágrimas e naquele momento ele pode me enxergar tão nitidamente como jamais havia visto antes.

 Icarus…

Era tarde demais, meu espírito foi levado pela brisa fresca. O topo das árvores me rodeavam, a grama verde regada pelo orvalho se tornou uma cama macia para repousar e dormir. Os flashes lunares tentavam a todo custo cegar meus olhos com sua luz prateada tão brilhante. Raios de sol no espelho, minha alma estava sendo tomada pelas estrelas. Voei até a lua e jurei nunca mais voltar. 

E mesmo assim, diante dos meus últimos suspiros agonizantes, o vi queimar suas mãos para me socorrer e chorar diante do meu rosto. Suas lágrimas caiam na minha direção enquanto ele me suplicava por perdão.

Mas por que pedia-me perdão?

Fato era que no segundo que nos tornamos um, jurei que sempre o perdoaria por quaisquer erros que ele cometesse. Portanto, o perdão que ele implorava, já havia sido concedido há muito tempo. Não o culpava pela minha morte, mas culpo a mim mesmo por tal fatalidade. Pelos erros que cometi terem me levado para longe de ti.

E sua lástima ecoava pelos séculos que se passou e chegava aos meus atuais ouvidos.

Gostaria de ter lhe sussurrado o quanto o amava, antes de finalmente entregar minha alma para a morte.

A lua me acolheu com desvelo, como uma mãe abraça o filho amedrontado. O satélite tão apreciado pelos olhos humanos, guardou a minha alma. Finalmente tive paz. No entanto, ainda o vejo.

Vejo-te nitidamente em meus sonhos mais secretos. E não posso contar para ninguém sobre isso. Sobre nós. Embora tenha se passado séculos, ainda somos um segredo que ninguém desvendou.

Ainda amava-te e a minha alma era prova disso.

— Nos veremos novamente, meu amor. Em nossa próxima vida, serei seu, mon petit.

Quando a visão finalmente acabou, eu estava ofegante e minhas pernas cederam. Desabei de joelhos dobrados, mãos no chão e coração a mil. Era como se… Tudo aquilo fosse parte de mim. E não havia questionamentos sem respostas perambulando minha mente, tudo era claro como os olhos de Madame Moira.

O homem condenado à fogueira, denominado Icarus Campelo, era eu. Um dia minha alma foi Icarus Campelo. E nós dois tivemos um fim extremamente cruel, assassinado vivo, queimado em uma fogueira enquanto o amor da minha vida assistia.

Os gritos ricocheteiam em meus ouvidos e ainda podia sentir minha pele arder com as chamas.

— O-o que v-você fez? Sua bruxa! — Gritei eufórica.

— Eu não fiz nada. Pelo contrário, desejo-lhe fazer-te o bem. Você é minha obra-prima, Julieta e quero concertar os erros que lhe submeti. Por capricho. Talvez diversão. Talvez ambição por tragédia. Cruel, como muitos me denominam.

Do que ela estava falando? Divagava como uma louca! Nada que saia de sua boca tinha sentido algum. Ódio, me tomou por completo. Não diria que era apenas pela bruxa diante de mim, mas também pela injustiça na visão que me foi revelada.

— Também cometi erros e por causa disso a linha da vida está comprometida e não posso deixar que vocês desapareçam.

— Pare de me balbuciar mentiras, sua bruxa maldita. Seja sincera comigo, me enfeitiçou com o seu veneno podre! —  Os insultos raivosos saiam um atrás do outro e com tamanho ódio dentro de mim, não podia os segurar.

— Julieta, por favor, deixe-me te explicar. Não é nada disso que está alegando. — Ela tentou se defender.

E se não fosse pela sinceridade em suas palavras e gestos, se não fosse a expressão nítida de arrependimento e talvez sofrimento, teria ido embora definitivamente e não falado mais nada. Por isso, dei-lhe uma pequena chance:

— Então o que foi isso? — Meu corpo inteiro tremia e não tinha forças para me reerguer.

— Apenas li o que está escrito na sua alma. Ela anseia por algo… Não é vingança. Não. Ela quer atender a um chamado. Um eco que vem ressoando por todos esses séculos. Julieta… Permita-me ajudá-la. Te imploro.

Seus olhos estavam diante dos meus, ela me encarava com sinceridade e sua voz exalava o mesmo, uma confiança que podia sentir e inevitavelmente fazia-me acreditar em suas palavras. E me odeio por meu coração ingênuo acreditar.

Mas numa súbita mudança, simplesmente me recuso a continuar diante dessa maluca.

— Chega! Me deixe em paz! Você é maluca! — Gritei para que ela se afastasse, mas ela não temeu.

— Julieta… — Ela insinuou que iria tocar em mim e me desviei bruscamente.

— Não toque em mim! — Com forças sabe lá de onde, me ergui rapidamente, mas me sentia tonta, prestes a desabar. — Nunca mais!

— Querida- — Vovó começou a falar e simplesmente a interrompi, já tomando caminho para fora da tenda.

— Preciso sair daqui! — Faltava-me ar.

A ausência de oxigênio deixava meu cérebro nublado. Eu não conseguia sentir nada que não fosse puro pandemônio.

Sem pensar duas vezes, corri para fora daquele lugar horrível. Minha cabeça pulsava de dor, bem no meio da testa e a dor aguda se alastrava por um caminho, onde na visão, havia sido apunhalada na cabeça.

Isso é loucura, não conseguia assimilar o que estava acontecendo. Parecia estar presa em um pesadelo. Quando finalmente empurrei a cortina para o lado e o sol beijou minha pele, o ar fresco invadiu meus pulmões e meus pés pareceram reconhecer estarem firmes sobre o solo… pude respirar novamente. Ofegante e indo em direção a fonte que jorrava água no meio da praça, o som tão natural me trazia calmaria. Fechei meus olhos e obriguei-me a concentrar no barulho da água enquanto tentava encontrar a minha sanidade novamente.

Procurei o oceano em minhas memórias e como um antídoto fielmente fez efeito, o som do mar soou na minha mente e vi tão nítido as ondas se quebrando na minha direção. Meus pés pequenos se afundaram mais na areia, estava em uma praia que nunca estive antes, pelo menos não nessa vida.

Era verdade, aquela história de vidas passadas, reencarnação em outro corpo físico… Sentia dentro de mim e a minha consciência recusava-se deixar-me acreditar no contrário.

Nesse momento me dei conta que era totalmente impossível esquecer-me de Icarus Campelo e seus gritos por misericórdia que ecoavam por aquela floresta.

Dois dias depois

Minha vida não era mais a mesma.

Sinto constantemente como se estivesse no lugar errado. Uma necessidade crucial tomava meu ser, eu precisava estar em um lugar que não sabia qual era, fazendo algo que não tenho consciência do que é.

Estava vivendo em outro mundo, a partir do momento que deixei aquela tenda. Minha alma parece ter sido queimada naquela fogueira junto de Icarus. Já não pertencia aos meus atuais dias de sol e lua. Alguma força maior clamava por mim e ao longo de todo meu dia, juro-te, podia ouvir a sua doce voz carregada de dor, implorando-me para voltar para os seus braços.

E mais do que isso… Seu rosto não sai da minha ­mente. Ele.

Seus olhos derramavam lágrimas pela minha alma que deixava-o ali, sozinho, injustamente.

Me sentia como se todos os livros de romance se unissem dentro de mim, encontrava-me completamente apaixonada por um homem que nunca vi e que muito provavelmente não existia. E como esse amor surgiu em mim? Não tenho ideia, só sei que tudo mudou, como havia previsto no segundo seguinte que meus olhos cruzaram-se com o daquela cigana.

O maior problema é que esse suposto amor fazia-me querer morrer apenas para estar nos braços desse homem que clama por meu nome.

Se fecho meus olhos por um segundo, ouço suas súplicas: “Icarus, volte para mim! Não me deixe”. E meu coração fica inquieto, como se realmente quisesse atender ao chamado. Parecia que eu poderia simplesmente atravessar a rua movimentada e encontrá-lo. O que tenho certeza que é impossível.

Duas noites sem dormir tranquilamente, sendo devorada por visões de um passado que nunca tive consciência e tão pouco sei se existiu de fato. Tudo isso pode ser um surto de devaneios desconexos que me condenariam ao manicômio.

— Tem certeza que quer a minha opinião sobre isso? — Adèle perguntou novamente buscando uma decisão mais firme. Minha amiga sempre acreditou nesse papo de alma gêmea e vidas passadas.

Acredito no amor, do contrário não seria uma historiadora de romances. Sim, especializada em romances, porque amava contar tais histórias de amores, tão puros que fazem nossa alma brilhar. Ia atrás dos fatos e contares de romances de séculos passados tão estonteantes quanto o clássico de Romeu e Julieta.

É que transcrever essa história faz com que as pessoas que as lê, acreditem no amor verdadeiro e busquem incansavelmente por ele. E não há nada mais belo do que amar alguém de verdade, não é preciso experiência própria para poder concluir. É um fato. O amor Eros entre dois seres humanos sempre será belo demais, quando verdadeiro, não importa quantos anos se passem.

Acreditava sim, em vidas passadas e almas gêmeas, mas essa crença se limitava aos livros. Na vida que realmente vivo, soava impossível. O delírio de uma alma romântica. Um tremendo engano que nos prendia a falsas esperanças.

Mas agora, após ter um pedaço de um passado que foi meu, minhas crenças estão por um fio de se romper para o lado que julgo insano.

O que vi e senti, era real demais para começar a negar como uma tola cética.

— Tem algo dentro de mim, gritando de volta. Não tenho uma explicação lógica para tudo isso, Adèle. Mas tenho certeza que minha alma tem um propósito e está ligado a isto.

— Você quer respondê-lo, não é? Vejo nos seus olhos que você quer voltar e evitar que aquilo aconteça. — Disse minha amiga, claramente lendo isso em mim, o que era de fato verdade. — Talvez seja verdade, Julie, esse homem estava clamando por si e talvez tenha uma maneira de atendê-lo.

— Se pudesse, eu… — Balanço a cabeça negando a loucura, tudo parece tão insano. Aquela cigana colocou a loucura dentro de mim. — Esqueça, isso é demais. Estou delirando.

— Não está não, Julie. Você não está louca, eu mesma acredito nisso tudo mais que você. — De fato, uma amiga para alimentar essa maluquice é tudo que menos precisava. Deveria ter falado com Aillard, ele teria alimentando a ideia de que é uma loucura, ou muito provavelmente me diagnosticariam como louca. — Tem algo aqui que nós duas não podemos compreender. E quer saber? Tem coisas que são tão complexas que não tem explicação. Acredito em você, acredito na história da sua alma e acredito fielmente que você deve se entregar a esse chamado.

Adèle estava tão determinada, me fazia questionar por qual razão acreditava fortemente nisso. Ela era casada, estava esperando sua primeira filha, e obviamente estava satisfeita e realizada com isso. Talvez fosse seus sentimentos por Lohan que a fizesse acreditar no amor do qual eu parecia destinada.

— Adél, estou com medo.

— Quem é que não teria, amiga? Mas, ei? — Chamou minha atenção que deparou-se com seu dedo mindinho estendido na minha direção. — Estou com você nessa, ok? Para sempre, lembra?

Sorri minimamente. Adéle é como um presente divino para mim, uma irmã. Era tão raro encontrar amizades assim, me sentia imensamente grata por sua existência.

— Para sempre. — Cruzei meu mindinho ao dela e demos um selar nos dedos unidos, completando nosso ritual.

— Vamos até ela, a Madame Moira. Deve estar na feira de artefatos ainda. Certamente, ela te deve explicações sobre isso. — Levantou-se animada e determinadamente, não havia escapatória. Eu precisava encarar a minha realidade.

Desde que vi Madame Moira, sonho com uma vida que não me é atual. Sonho e escrevo, como se tivesse achado os diários com histórias de amor que já morreram, mas ainda conseguem acender a chama no coração de quem lê.

E posso afirmar, quanto mais sonho, mais quero. Tornava-se a ambição de uma mulher que nasceu sedenta por história, destinada a servi-la por todos os dias de sua vida.

Me sentia em dívida com Icarus Campello, como se sua morte tivesse sido me confidenciada como um segredo, cujo somente eu sou capaz de fazer justiça em nome da sua vida que lhe foi arrancada tão cruelmente.

Num ato de coragem, em busca de respostas, o meu coração de historiadora me fez ficar de pé num movimento rápido, olhei para minha amiga e disse:

— Vamos até Madame Moira.

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