CAPÍTULO OITO
O som era do meu coração
Essa noite não diferiu de tantas outras que tive durante minha adolescência, sonhei com meu Heinrich, aquele de diversas nuances. Foi um sonho simples, ele estava dormindo ao meu lado e eu observava seu rosto. Como naquele dia que dormimos juntos, a diferença é o cabelo dele, que estava desigual.
Mesmo assim, era ele. Tão meu…
— Icarus? — Ryu me chamou e lentamente fui despertando do sono pesado que me encontrava, gemendo dolorido de forma espontânea, o que me fez sorrir antes de abrir os olhos ao me lembrar do porque meu traseiro estava tão dolorido.
O Conde e eu fizemos amor.
Meu sorriso ficou enorme e abri os olhos encontrando o rosto de Ryu, sua expressão era séria, talvez triste. E isso fez meu sorriso se desfazer demoradamente.
— O Conde solicita sua presença. — Ryu avisou, seguidamente o vi pegar minha mala debaixo da cama e isso me deixou em estado de alerta. — Ele está no escritório. Venha se vestir.
Confuso e ainda atordoado por acabar de acordar, apenas me vesti de forma rápida. Será que finalmente vou viajar com ele? Ou estamos sendo atacados? Esse último pensamento me fez ficar mais alerta, apenas calcei os sapatos e sai do quarto às pressas caminhando até o escritório que já bem conhecia o caminho.
Caetano passou por mim meio cabisbaixo e fiquei automaticamente tenso, meus passos se tornaram mais largos para alcançar logo as portas duplas que estavam abertas, esperando-me.
— Senhor? Mandou me chamar? — Bati suavemente na madeira aberta, o Conde estava de costas para mim, parado diante da janela imensa de seu escritório, encarando o além.
— Feche a porta. — Ele ordenou e prontamente acatei, entrando no recinto e fechando as portas pesadas. — Sente-se.
Ele está estranho, como se ontem não tivesse acontecido. Como se eu tivesse sonhado com tudo aquilo. Mas não, a dor no meu corpo, a mancha arroxeada no meu pescoço era real demais.
Imediatamente me sentei na poltrona de frente para sua escrivaninha e só após isso ele se moveu, batendo o bastão no chão, ocupou a poltrona maior de frente para mim, mas não me dirigiu o seu olhar, apenas encarou os papéis bem posicionados sobre a mesa.
— Caetano vai te levar para casa, seus serviços como meu criado terminam aqui. — Suas palavras firmes me surpreenderam, conforme entendia seu significando, fui soltando meus ombros devagar, sentindo a dor da facada em meu coração.
— O que está falando? — Indaguei baixo, com um nó se formando na minha garganta. Num impulso levantei, encarando-o surpreso. — O senhor está brincando? Pois, se estiver… isso não tem graça alguma.
— Eu não brinco, Icarus. Não te quero mais aqui. — Outra facada, ainda mais forte e vacilei em respirar, meu coração parecia estar sobre a palma de uma mão que o apertava com força. — Quero que volte para sua família. Passei a noite pensando nisso, minha decisão está tomada. Quero que vá embora! Não torne tudo mais difícil.
Eu ri, ri mesmo, sem graça. Incrédulo.
— Não torne tudo mais difícil? — Repeti colérico. — Como ousa? — Meus passos foram duros, contornei a mesa e parei ao lado dele, meus punhos estavam cerrados. Raiva e mágoa me possuíam. — Quer que eu vá embora? Então olha na minha cara, se tem coragem! Diga-me olhando em meus olhos!
— Icarus…
— Não vem com essa de Icarus, seu insensível! Você me usou, é isso? — O tom ácido de minha voz parecia uma faca que cortava até a mim. — Agora que meteu esse seu pau dentro de mim, está me mandando embora como se eu fosse uma vadia qualquer que, após se submeter aos seus caprichos, será dispensada? Ousa-te olhar na minha cara e me dizer que não é isso. — Gritei, desrespeitando-o completamente.
Estava tão magoado e desacreditado que naquele momento sua posição de Conde não me importava. As lágrimas quentes que escorreram dos meus olhos, mais parecem cacos de vidro.
O Conde havia me levado além do paraíso para soltar minha mão e deixar que eu caísse na direção do poço de espinhos.
E toda queda é fatal, sem exceções.
— Não te dou o direito de falar assim comigo. — Ele levantou possesso e me encarou de perto. — Não leve as coisas para esse lado, Icarus. Não complique ainda mais, por favor! Mas se quer ir embora pensando que é uma vadia, então vá! Não me importo.
Minha mão estalou contra um lado de sua face com força, de imediato ele ficou chocado e até eu fiquei por fazer isso. Minha palma ardeu e o Conde ficou paralisado, com o rosto virado devido ao impacto, suas mãos se fechando com força e sua pele ficando imediatamente vermelha.
Encontrava-me em um estado tão possesso e tão arrependido de ter lhe batido que, por mais que quisesse, não queria nem conseguia pedir perdão. Respirei ofegante, enquanto um rio de lágrimas escorriam por meus olhos.
— Vá. Caetano te espera lá embaixo, Ryu fez suas malas. — Ele disse tocando o lado que bofeteei.
— Não! Eu não vou te deixar! — Gritei com todas as minhas forças.
— Eu não te quero. — Ele bradou na minha cara.
Tremi, chorando. Meu coração se resumia a cacos.
— Por que, senhor? Em que eu errei? — Chorei baixinho e sua resposta foi uma expressão de dor. Não consegui acreditar que ele não me queria. Portanto, avancei, abraçando-o com força, mas ele negou-me novamente, afastando meus braços.
— Não posso te submeter a isso, Icarus. Não suportaria se te machucassem por minha causa. Então vá! O que fizemos foi um tremendo erro. — Afirmou e de imediato neguei freneticamente.
Como ele tinha coragem de me falar isso? Como?
Não existia a mínima possibilidade de ser um erro amá-lo.
— Um erro? Você está louco? Senhor…
— Vai. Embora. — Cuidadosa e duramente repetiu.
Respirei fundo, totalmente quebrado.
— É isso mesmo que o senhor quer?
Por dentro, eu estava implorando para reconsiderar seu impulso e me pedir desculpas, afirmando estar louco. Mas não, sua decisão foi mesmo muito bem pensada.
E como pude pensar que agora seria diferente. Que seríamos um casal, iríamos fazer sexo gostoso várias vezes, nos beijar o tempo todo, nos conhecer melhor a cada dia e fazer o que estamos acostumados: ler e escrever juntos.
Eu o faria feliz e ele idem.
Entretanto, estava tremendamente enganado e agora percebo isso, quando diante da minha última pergunta ele apenas assentiu.
Foi tudo uma grande ilusão, a projeção da minha mente tola e apaixonada.
— Te garanto que a partir do momento que eu sair por aquela porta, esqueça que existo, esqueça o que aconteceu. Estarei morto para você! Por que é isso que o senhor está fazendo comigo, me matando! — Meu tom de voz aumentava e eu chorava enquanto lhe dizia isso.
— É exatamente isso que vou fazer. — Ele teve a coragem de responder, friamente. — Você é jovem, vai superar.
Gritei de dor em resposta, triste, quebrado, morrendo de raiva e meus pulsos golpearam seu peitoral com força. O esmurrei, querendo que ele sentisse toda aquela dor também. Ridiculamente, como se socos pudessem fazê-lo mudar de ideia.
— Monstro! Você é um monstro! Eu te odeio! — Ele aceitou meus socos e por um momento me abraçou para me conter, mas nós não temos forças nesse momento.
Cansado, escorreguei para o chão, fiquei ajoelhado diante de si, chorando. Humilhado. E ali permaneço, ele paralisado e eu morrendo lentamente aos seus pés.
Ryu apareceu e me ajudou a levantar. Quando me dei conta, estava sentado no coche, Costelinha ao meu lado e com o amigo que fiz aqui segurando meu rosto, dizendo que o Conde só estava com medo, por isso tomou essa decisão, mas que ele tinha certeza que ele iria voltar atrás, precisava só lhe dar tempo e aguentar firme.
Todavia, não ouvi Ryu e tão pouco consegui acreditar nele.
A carroça moveu-se e pela janelinha vi o casarão tornar-se menor, com o homem que amava na varanda me vendo partir. O olhei chorando até virar a curva na estrada e sua figura desaparecer. Tudo ficou para trás e aquela foi a última imagem que guardei do meu amor…
Meu Conde na varanda me deixando ir embora, pois não me queria.
Comigo encolhido, Caetano dirigiu pelo caminho familiar e pelo visto minha família já estava ciente de minha chegada, concluo isso ao ver minha mãe esperando-me parada diante da entrada da nossa casa, sua expressão exalava preocupação. Quando a vi, me senti ainda pior.
Me senti sujo, usado. Tive nojo de mim. Vergonha.
Seu filho voltava imundo para casa, após entregar o corpo para um homem que apenas o usou. Era impossível não pensar assim e isso me machucava tanto. Me sentia como aquele garoto ingênuo que tinha sonhos com um homem e se odiava por isso.
E no fim, eu não passava disso. Um garoto ingênuo.
Estava quebrado como nunca.
Era assim que as pessoas dos livros se sentem quando seus corações são partidos pelo seu grande amor?
Assim que desci da sege, cai chorando nos braços de minha mãe, compulsivo. Ela me abraçou e me embalou com todo seu amor. E me odiei menos por isso, pois ela ainda amava o seu filho desonrado.
— Tá tudo bem, meu meninu. O’tô aqui. Ocê’tá em casa, meu doce. — Ela dizia enquanto eu molhava seu vestido velho e rasgado.
No entanto, nem minha mãe era capaz de me fazer sentir melhor. Costelinha voltou para o cercadinho em volta da varandinha da minha casa. Caetano deixou minhas malas e subiu a colina de volta para o casarão. E foi assim que tudo terminou.
Mamãe teve que ir trabalhar e fiquei sozinho em casa, chorava e adormecia repetidamente o dia todo, até que de noite todos chegaram. Entretanto, não conseguia falar com ninguém, só queria ficar ali deitado sofrendo uma dor que ninguém conhecia. Insistiam um tanto para eu ir comer, mas não conseguia sequer olhar para as minhas irmãs.
E assim os poucos dias seguintes se passaram, vovó me obrigava a comer, banhar e fazer minhas necessidades básicas. Completando três dias meu pai veio me dar uma prensa e me lembrar que na minha vida não tinha espaço para ficar de cama por uma decepção. Éramos pobres demais para esse luxo. Ele não sabia como estava me sentindo e logo não o culpei por me fazer sentir pior. Sendo assim, tratei de cumprir suas ordens, segundo ele a minha vida continuava e tristeza não enchia barriga.
De fato, a minha vida continuava seguindo, nossos estômagos roncando, nossos corpos cansados, portanto, não havia tempo para derramar lágrimas pelo Conde. Por esses motivos, tratei de tomar jeito, voltar para a vida que levava antes dele aparecer e terminar de me ferrar inteiro.
Lady Balfour me convocou até sua casa e fui com minha mãe, ela conversou comigo e me animou um pouco, disse que poderia trabalhar como auxiliar das enfermeiras no hospital voluntário que o seu marido, Lorde Fabien Balfour, administra.
A carta que o Conde enviou para meus pais foi bem clara para todos, havia sido dispensado por segurança. Sei que sentia estar sob constante ameaça e não queria que me machucasse. Meu salário por um mês de serviço veio generosamente em dobro, junto da carta de demissão. Ele foi todo compreensivo, o que me fez detestá-lo mais.
Não era de todo mentira, alguns dias de reflexão me fizeram entender que ele estava com medo de eu ter o mesmo destino que sua família e seus empregados naquele dia de Campos Elísios. Mas nada justificava suas palavras, nem excluía o fato de que usou meu corpo e depois despachou-me como se fosse uma rameira.
Nada poderia justificar quebrar meu coração dessa maneira.
Havia um som constante na minha alma.
O som era do meu coração, se quebrando e ecoando numa vasta escuridão.
Guardo nossas memórias e me junto às estrelas que nos assistiam naquela noite. Ali permaneço, arrastando-me pelos dias que se passaram e sobrevivendo com a lembrança quente daquele momento tão verdadeiro que tivemos.
Me obriguei a esquecer o Conde. Mas ele não me permitia esquecê-lo. E olha que tinha muita coisa para ocupar minha mente. O trabalho no hospital – ajudando as enfermeiras a cuidar dos doentes. A animação de minhas irmãs porque Ivana vai se casar – isso significa que sou obrigado a participar das provas de vestido, escolha de panos e doces. Meus familiares me animavam, mas quando estava sozinho ou quando ia dormir, céus… Chorava tanto, doía muito.
E no final das contas o Conde me arrastou para seu túmulo.
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6 de Janeiro de 1899
Casarão do Conde
Anmak, Florianópolis, Santa Catarina
RYU OSHIRO
Ser um criado implica que você precisa garantir o bem-estar do seu senhor. Significa que deverá se sacrificar por ele e pôr à prova toda sua gratidão e devoção. Precisará guardar seus segredos e entendê-lo mesmo quando seus atos contradizem suas crenças.
Quando o Campo Elísios destruiu nossas almas, eu, Dalva e Caetano mantivemos nossas palavras de servir ao Conde. É como um casamento, na tristeza ou na pobreza, na saúde ou na doença.
Anteriormente, quando o Conde Heinrich comprou minha liberdade, jurei que lhe serviria em todos esses dias em que eu fosse considerado livre, em troca ele me deu um propósito e uma vida.
Alegra-me servi-lo. E para demonstrar minha gratidão, consigo conviver com o fato de que me tiraram uma de minhas mãos, sou capaz de continuar servindo-o quando durmo e acordo com medo de sermos atacados novamente.
Cuido do meu mestre, mesmo quando ele já se assemelha a um morto. Acompanhei sua decadência quando sua família e seus empregados foram torturados e mortos. O assisti chorar pela desgraça que foi submetido e por anos me juntei a Dalva em suas orações, caí de joelhos e implorei ao Deus onipotente que trouxesse a luz de volta para o meu senhorio.
Por outro lado, também precisei orar por mim, para ser forte o suficiente e não desabar. Quando fechava meus olhos, os pesadelos me devoram com impiedade. Mas além do Conde, havia a minha dor e sobretudo a dor da minha recente esposa.
Não pude sequer tocá-la quando nos casamos. Liana tinha medo de mim, mesmo sabendo quem sou. Como o homem digno que sou, respeitei seu espaço e não a toquei. Ela deu à luz uma criança que não era minha e sim fruto de um estupro, não sabia o que fazer ou o que esperar, só sabia que seria pai, se ela quisesse que eu fosse.
Contudo, o bebê tornou-se uma assombração para ela, devido a isso, com meu coração na mão, precisei pegar aquele ser frágil e o levar para onde pudesse encontrar amor. E não, não entreguei ele para um orfanato, mas ninguém sabe sobre isso.
Entreguei ele para Lady Balfour.
Infortunadamente, o terceiro filho de Lorde Balfour faleceu dias após o nascimento, por causa de uma gripe. Lady Balfour ficou inconsolável, por isso quando o Lorde soube do bebê indesejado de minha esposa, ofereceu para adotá-lo em segredo.
Sua esposa implorava ao céu para trazer seu bebê de volta e quando Lorde Fabien lhe entregou um bastardo, ela o amou. Meu coração encontrou paz, aquela criança inocente receberia o amor que a minha Liana não poderia oferecer. E eu poderia secretamente o ver crescer em Anmak, feliz, saudável e sem o risco de descobrir como foi gerado.
Os anos se passaram e cada dia era mais um dia de superação para nós empregados, embora nossos fantasmas habitassem naquela casa, caminhávamos pelo casarão e as memórias nos devoravam. Mas aguentamos firmes, nosso Conde precisava de nós.
Eu e minha esposa ainda éramos estranhos um para o outro, não podia tocá-la e nem sequer beijá-la, mas calmamente conquistei seu coração assustado, naturalmente nos apaixonamos e afastamos os demônios que assombram nossos corações. Quando ela confiou e entregou-se para mim, a amei como deveria ser amada, toquei-a com desejo, sutileza e ela sentiu todo meu amor e todo o prazer que fui capaz de lhe oferecer.
Meu amor a fez ver através da escuridão novamente, ela voltou a ser a garota adorável que era.
Nós estávamos bem, embora não estivéssemos curados.
Ficamos com o Conde, embora ele nos tenha mandado partir.
Jane nunca gostou de Anmak, mas ela se esforçou quando sua mãe e irmão morreram. Ela tentou ajudar o pai a se manter erguido, mas ele recusou. E toda e qualquer ajuda foi negada. Por fim, ela apareceu com um noivo e disse para seu pai que cuidaria de Anmak quando chegasse a hora.
Heinrich gostou de Raul por que o conhecia, ele o viu crescer, era filho de um de seus amigos de Portugal, mas ele ainda não estava pronto. O jovem noivo de Jane estava prestando serviço no exército e tão cedo teria liberação. O Conde determinou que esperaria e apreciou o esforço e dedicação de sua filha e do noivo.
Por fim, Jane estava afundando com o Conde num luto doloroso e solitário. Consequentemente, ele a mandou para Paris novamente, afim de continuar seus estudos e ficar próxima do homem que, em breve, se casaria com ela. Com a ideia de ter seu ateliê de costura, ela levou minha esposa consigo para estudar também.
E assim o nosso Conde passou os anos sozinho, se culpando, se matando cada dia mais e nós empregados apenas assistimos com nossas mãos atadas e joelhos no chão, clamando por um milagre.
O milagre veio, parecia um anjo, disfarçado de ladrão. Lembro-me do dia que meu Conde saiu de casa morto e voltou mais vivo do que nunca com a notícia de que havia contratado um assistente e ele estava chegando.
Nós arrumamos a casa como nunca e enchemos tudo com novos cheiros e cores. O Conde estava ansioso, animado, embora ainda com a faceta triste presente. Naquela noite ele me convidou para tomar vinho consigo e contou-me que havia previsto a chegada do tal Icarus na sua vida, mas não sabia que demoraria tanto para aparecer.
Achei bonito, acreditei nele. E assim como o Conde, não dormi naquela noite. Ansioso para a chegada do Icarus que prometia mudar nossas vidas. Enquanto preparávamos tudo para sua chegada, não parecia estarmos naquele casarão que um dia foi cenário de horror.
As coisas pareciam se ajustar para recebê-lo, até o clima parecia propício, o jardim estava mais bonito. Dalva e eu nos olhamos com aquela sensação de que Deus atendeu nossas preces, enquanto assistimos o veículo se aproximar e o rapaz descer, fazendo o nosso Conde enaltecer de ansiedade. Entretanto, ao contrário do que esperava, nosso senhor assumiu uma pose toda autoritária, inicialmente vedando seus reais sentimentos.
Mas nós, criados que bem o conhecemos, sabíamos o quanto ele estava feliz por receber o Icarus. E realmente estávamos certos. O filho dos Campelo cumpria seu propósito, nos poucos dias que esteve no casarão, nosso Conde parecia melhor.
Não poupei esforços em me tornar próximo do menino, sinceramente sua presença era muito agradável e até me arrisquei contar-lhe o horror que vivemos aqui a sete anos atrás. Embora o tenha abalado, ele não desistiu.
O vi se tornar próximo do Conde e mais que isso, era nítido em seus gestos e olhares que eles estavam apaixonados. Para mim, o fato de dois homens se amarem é absurdo e para compreender isso é preciso de calma e tempo.
Tendo a visão que tive, não parecia tão abominável como as pessoas lá foram pregam. Parecia tão puro e sincero como me sentia pela minha esposa. Na verdade, creio que só fui capaz de entendê-los por que amo alguém assim. Por aceitar minha esposa depois dela ser violada, aceitei suas cicatrizes, aceitei seus defeitos, como ela também me aceitou, porque nos amamos.
Concluo, que independente de quem ela é, ou do que lhe aconteceu, o que realmente importa é seu coração e se ela é capaz de me retribuir.
Logo me encontrei como testemunha dos dois, me vi admirador do romance tímido que nasceu. E tudo me é certeza agora, desde o dia que me peguei desesperado. Era tarde da noite e meu senhor e Icarus haviam desaparecido.
“Eles vão aparecer, Ryu”, Dalva me garantiu quando Caetano voltou da terceira vasculhada ao redor da propriedade e nada. Por fim, sentamos e esperamos, traumatizados.
E quando o Conde e Icarus surgiram, estavam estranhos, porém felizes. Uma energia diferente os rodeava e eu sabia que, no fundo, conhecia aquela sensação. O jeito que se olhavam me transmitia uma emoção muito familiar. Icarus era o mais alegre e vi a mancha roxa no seu pescoço, como um homem muito bem casado, sei o que isso significa.
Hoje entendo perfeitamente esses sentimentos.
Confesso, no começo fiquei chocado demais. É loucura, estava imaginando coisas. Entretanto, os sinais estavam todos na minha frente, era só juntar as peças. Se tratando do meu senhor, guardei o segredo só para mim. Depois do dia que o vi rastejar no chão, ensanguentado, prometi para mim mesmo que cuidaria dele e não permitiria que o machucassem assim novamente – ao menos faria de tudo para evitar.
O segredo deles estava seguro comigo.
Mas não contava com o que estava para acontecer. Não esperava que os fantasmas do meu senhor, iriam torturá-lo. Ele passou a noite acordado, inquieto e pensativo. Quando levantei cedo junto do galo, ele me esperava na porta da cozinha com uma carta em mãos.
“Leve para os pais de Icarus”, sem questionar fui até a casa dos Campelo e entreguei a carta na mão de seu pai que ficou assustado, temendo ser más notícias.
Quando voltei para o casarão, o Conde me designou a tarefa de pedir a Caetano para preparar a carroça, chamar Icarus no escritório e fazer as suas malas. Tive medo de questionar, ele estava sério e decidido. Apenas fui, um tanto atordoado e temendo pela reação de Icarus.
E da maneira mais dolorosa possível para ambos, o Conde cometeu seu erro mandando-o de volta para casa de coração partido. Não sabia de fato o que estava acontecendo entre eles, mas podia sentir a dor de ambos gritando.
Quando voltei ao escritório, encontrei meu senhor impenetrável e Icarus aos cacos. Ajudei o menino a se erguer, o coloquei no veículo o consolando. Tinha certeza que o Conde se arrependeria e mudaria de ideia.
Entretanto, durante dias ele voltou a ser o que era antes de Icarus chegar, mas dessa vez foi pior. O Conde se absteve até de suas tarefas com Anmak, deixando tudo de lado. Ele passava os dias preso no escritório, onde antes passava a maior parte do tempo com Icarus, acariciava os livros que eles leram. O Conde chorou de forma silenciosa e eu compreendi sua dor.
Entendia seus motivos. Ele estava com medo de Icarus se machucar como nós. De perdê-lo. E dessa vez seria pior para seu coração já quebrado.
Jane e o noivo vieram para o Natal, como de costume. Assim como minha adorável esposa que estava mais radiante do que nunca. Infelizmente a filha do Conde não teve o privilégio de rever seu pai como ele era antes da desgraça que lhe aconteceu. Icarus se foi antes dela chegar, portanto, não sabe sobre a existência dele.
Enquanto Jane e Raul mantinham Milorde ocupado, pude aproveitar a presença da minha mulher após tanto tempo longe. Ela não entrava no casarão, por isso ficava na nossa casinha e quando Dalva e Milorde me dão folga, corro até ela. Nós nadamos, andamos de cavalo, fazemos piqueniques na clareira, cozinhamos juntos e é claro matamos a saudade carnal de forma intensa.
Enquanto ela repousa em meus braços, sinto meu coração em paz e isso me faz pensar em Milorde e Icarus. Eles encontraram essa mesma paz um no outro.
O natal passou e assim chegou o aniversário do Conde que, como todos os outros aniversários, foi triste. Resumia-se nele desejando não estar vivo, preso no quarto. Nesse dia, Jane se trancou no escritório com o pai e foi quando ele contou sobre o criado que contratou, mas dispensou pelo seu pavor do passado.
Jane me procurou para saber mais sobre isso e só disse o que era propício. Icarus trazia alegria, pois lia e escrevia para seu pai. Ela ficou surpresa por um criado conseguir fazer o que ninguém mais conseguiu por anos.
“Temos que convencê-lo a contratá-lo de volta”, ela me disse. E quem dera fosse tão simples assim, eu mesmo teria o feito.
Continuei cumprindo meu papel, nós passamos pela virada de ano e a situação permanecia a mesma, eu tentando me segurar para não ir até Icarus e trazê-lo de volta. Mas surpreendentemente consegui, de uma maneira inesperada…
— Tome vinho comigo, Ryu. — Ele pediu, como vem pedindo desde o dia que Icarus se foi, quase diariamente depois do jantar.
Aceitava só para o distrair, seus vinhos não são meus favoritos. O senhor gosta de vinhos secos e eu prefiro os doces. Mas aceitava, não era de costume me usar como amigo, por isso, quando ele precisa vou de bom grado.
Como todos os dias, ele ficou calado. De fundo, bem baixinho tocava o disco de vinil da sua cantora clássica favorita, Twyla Willow, mas eu não compreendia uma palavra sequer da letra, visto que seu idioma me é desconhecido. Nós bebíamos em silêncio. Às vezes ele me deixava trocar por um disco de vinil da coleção da falecida Condessa – quais eram meus favoritos –, mas só. Contudo, hoje, foi diferente…
— Sinto tanta falta dele. — O Conde desabafou, repentinamente.
— Eu também, Milorde. — Confessei de imediato, não dando margem para arrependimentos. — Em pouco tempo, Icarus se tornou meu melhor amigo.
O Conde pareceu surpreso, talvez por não ter percebido que me aproximei dele dessa maneira. Mas aconteceu, sou muito grato por isso, afinal, realmente precisava de um amigo aqui dentro. Milorde tem estado mais próximo de mim agora, mas não é a mesma coisa.
Juliano era meu melhor amigo, o único que tive na vida, talvez o mais propício é chamá-lo de irmão. Lembrar-me dele dói.
— Eu estava enganado, Ryu. — Começou a desabafar. — Uma parte de mim, morreu com minha esposa, meu filho e a dor daqueles que sofreram por minha culpa. Mas a outra parte estava esperando o Icarus, ele me traz vida.
Isso me surpreendeu, o senhor nunca falava sobre o que nos aconteceu, era um assunto proibido. Sabia que ele se culpava imensamente, que carregava o fardo de cada pessoa ferida em suas costas, mesmo quando a culpa não é dele.
— Milorde, o que nos aconteceu será uma eterna cicatriz aberta. Mas isso não quer dizer que devemos morrer com aqueles que se foram… — Comecei a dizer sinceramente, ele não tentou me parar, continuei: — Nós sobrevivemos. Penso que devemos viver por aqueles que perderam essa oportunidade. A Condessa, seu filho Juliano e Jane, esperam que o senhor siga em frente e seja feliz.
Ele ficou um bom tempo calado, me encontrava trêmulo de tanta ansiedade. Com seu silêncio, deduzi que podia me expressar e dar minha sincera opinião.
— Sabíamos que naquele dia o senhor não poderia se render e entregar Anmak, se tivesse feito coisas piores poderiam ter nos acontecido. Nós também não podíamos, senhor. Nos rendemos pelo senhor, por Anmak. Escolhemos isso, portanto, por favor, pare de se culpar. Não foi sua culpa. — Disse-lhe com toda a coragem súbita que nasceu em mim. Em todos os lugares do mundo, não só em Anmak, as pessoas estão sob constante ameaça de serem atacadas de maneira tão violenta. — Icarus é jovem, mas também é inteligente. Ele também pode fazer as próprias escolhas. Sendo assim, deixe-o ser o adulto que está determinado a ser.
— Você sabe que não se trata só disso, Ryu. Não quero que ele se machuque. Não vou aguentar perder mais alguém que tanto amo.
O fim de sua frase surpreendeu nós dois.
O Conde o ama mesmo.
Ao perceber sua declaração, ele ficou tenso e ruborizado, até mesmo com um pouco de medo, sabendo que era algo proibido e que eu tenderia a negar.
Mas seu julgamento sobre mim, estava errado.
— Milorde, amar envolve sacrifícios. Amar alguém inclui o risco constante de morrer. Amar é sinônimo de se ferir. Icarus também te ama, por isso acredito que ele é capaz de decidir se o risco vale ou não a pena. — Fui sincero, esperando de coração que ele pudesse me entender.
Nós vivemos num mundo sangrento demais para querer amar e não sofrer as consequências disso. O amor de Milorde e Icarus é um segredo sob constante ameaça de ser descoberto, está sob constante poder de matar ambos. Arriscar este amor é aceitar o fato de que trará consequências imensas se for descoberto por quem não possa compreender.
Significa também viver uma vida limitada, cheia de farsas e mentiras para que esse amor sobreviva. E quando eles estiverem sozinhos e vão poder se entregar a esses sentimentos, sem que ninguém os veja.
A questão é: esse amor vale todo esse risco?
— Você sabe o que sinto por Icarus e entende? — Ele parecia surpreso.
— Não só entendo, Milorde, como torço com todo meu coração para ele voltar. — O Conde ergueu as sobrancelhas surpreso diante do que lhe confessei.
— Por quê?
— Milorde, lhe servir implica desejar a sua felicidade. — Expliquei meus princípios. — E Icarus Campelo te deu um mês inteiro de alegria, depois de sete anos, o senhor voltou a viver. Sendo assim, me ordene e irei trazê-lo de volta para o senhor.
Heinrich me encarou firme, sobretudo em concordância comigo. E não precisou pensar muito.
— Ryu, traga meu menino de volta para mim. — Ele ordenou e me pus de pé imediatamente.
— Sim, Milorde. Amanhã mesmo irei até à casa dos Campelo. Penso que é melhor escrever uma carta explicando sua mudança de ideia para eles. E talvez, também devesse considerar a ideia de Lorde Fabien e colocar alguns guardas para viajar o casarão. — Mesmo que não fosse certo que lhe ditasse o que fazer, o fiz, já indo pegar a pena, o tinteiro e o papel para que esse redigisse a carta.
Pouco após a desgraça que nos aconteceu, Lorde Fabien aconselhou o Conde a ter guardas para viajar o casarão. O senhor gosta de privacidade, mas infelizmente não podemos mais ficar desprevenidos. Ter guardas, não garante muita coisa, mas nos dá porcentagens consideravelmente maiores de sobreviver, escapar e até mesmo revidar.
Assim ele fez, sem pestanejar ou me repreender por minha ousadia. É como se precisasse de um impulso, e meu simples apoio foi o empurrão final.
Fomos dormir um pouco mais tarde do que o usual, meu coração batia ansioso pelo dia seguinte, consequentemente não conseguia dormir.
No fundo da minha mente ouvia um som.
O som era do coração do meu senhor, clamando pelo seu amado.
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Acordei primeiro que o gado e como estava cedo demais, esperei até que fosse quase sete da manhã. Caetano me levou de coche considerando que Icarus deveria voltar conosco.
Deveria.
Quando os cavalos pararam de frente a sua casa, desci já me esbarrando com o seu pai que estava pronto para ir trabalhar.
— Ocê de novo? Tão cedo? — O homem perguntou risonho.
— Milorde me faz resolver suas pendências com rapidez. — Brinquei. — O Icarus está?
— Tá, tá sim, vamo lá. — O senhor disse já me guiando varanda adentro, cumprimentei Costelinha com um carinho no topo de sua cabeça, seguidamente fui para dentro da humilde casinha. Me curvei em comprimento a todos que estavam ali presentes na pequena sala consagrada com a cozinha. — Icaru? Vem cá, moleque.
O homem gritou e fiquei parado sendo observado por duas garotas semelhantes que pareciam ser uma versão mais jovem do Icarus; uma delas parecia estar se aprontando para ir à escola, se eu estiver certo sobre sua vestimenta ser o uniforme. Lembro-me de ir para a escola do vilarejo, Milady me fez estudar quando cheguei em Anmak. Mesmo assim, não sou muito bom em ler e escrever, falhei miseravelmente.
Não demorou para ouvir os poucos passos apressados de Icarus até a sala.
— Sim, papai? — Ele ficou paralisado quando me viu, e por mais que sejamos amigos, não pareceu nenhum pouco feliz em me ver.
— O criado do Conde tá’qui pra ti vê. — O homem informou.
— Icarus, o Conde me pediu para te buscar, ele lhes escreveu isso. — Dei alguns passos até ele e entreguei a carta selada. Icarus encarou o papel e como estava diante de seus pais, não teve outra alternativa senão quebrar o selo e abrir a carta.
— Lê para gente, irmão. — Uma de suas irmãs pediu, curiosa, enquanto ele ainda desdobrava o papel.
— Prezado senhor, Icarus Campelo, por essa carta venho humildemente expressar meu profundo arrependimento de tê-lo dispensado de maneira tão precoce. Por essa carta venho lhe pedir, que se for de sua vontade, por favor, retorne para o Casarão e ocupe novamente seu lugar como meu criado e sobretudo meu datilógrafo. Tomei medidas em relação a nossa segurança, de forma que sua família possa confiar que estará seguro comigo. O seu Conde, qual vos escreve, sente profunda falta da maestria que efetuava em seu trabalho. Acredito que não seja possível encontrar outro aio como você. Aguardo o seu retorno. Sinceramente, Heinrich Vollard, Conde de Anmak. — Icarus leu com cuidado, bom como é com as palavras.
— Uau, o Conde de fato prestigia o seu trabalho, irmão. — Sua irmã, aparentemente mais nova, disse.
— Mais isso é uma nutícia boa por dimai, meu doce. — Sua mãe falou toda sorridente. — Meu fio ficou tão borocoxô por ser dispensado, sinhô. Leva ele di’vorta.
— Não. — Icarus falou rude fazendo todos os olhos presentes na casa olharem para ele, sua expressão era a pior possível e podia ver as lágrimas surgindo em seus olhos. Ele veio até mim e me entregou a carta. — Diga ao Conde que já arrumei outro emprego. Não gostaria de voltar a servi-lo novamente. Sinto muito.
— Icarus Campelo! — Sua mãe o repreendeu. — Que isso, meu fio?
— A senhora não ouviu? Ele deixou claro que se fosse de minha vontade poderia voltar, mas eu não quero! — Respondeu birrento, mas sobretudo decidido.
— Respeita sua mãe, cabrito! Num foi essa a educação que te dei! — Seu pai ralhou igualmente bravo. O mesmo voltou a atenção para mim. — Oh, seu sinhô, sinto muito. Meu fio num quê ir. Pede perdão pru Conde, no nome da nossa famia.
Suspirei chateado, porém compreensivo. Icarus estava magoado e não era pouco, podia entender a sua decisão. De certa forma fico feliz por seus pais não o obrigarem a fazer algo que não quer. Ter o coração partido era de fato muito doloroso.
— Icarus, posso falar contigo a sós? Em nome de nossa amizade. — Pedi encarecidamente, ficaria magoado se sua resposta fosse negativa.
Ele olhou para o pai, como se pedisse permissão e o senhor assentiu com um aceno simples. Seguidamente, Icarus indicou o pequeno corredor com a cabeça e começou a andar, apenas o segui até um dos poucos quartos da casa.
— Icarus-
— Ryu, você não vai conseguir me fazer mudar de ideia. — Ele me interrompeu fechando a porta. — Ele se arrependeu? Que ótimo! Mas não é o suficiente! Diga a ele para que se lembre de suas palavras assim como deve se lembrar das minhas. Estou morto para ele, portanto, é bom que me esqueça, pois certamente não me esquecerei de como ele me fez sentir.
O menino sabia ser orgulhoso e duro quando queria, Icarus era um ser humano de várias facetas e nuances, uma mais incrível que a outra. O Conde que o diga.
Para mim nenhum dos dois estavam cem por cento errados, mas não deixavam de estar. Ambos orgulhosos demais e medrosos por causa de algo tão grande que é o que sentem. Conde destruiu o coração do menino com suas palavras duras, por esse motivo entendo que Icarus se sinta assim tão resistente.
E também entendo os motivos para o Conde ter lhe dito tais palavras.
Mas insisti.
— Icarus, não seja assim. Milorde está muito mal, desde que você se foi, ele encontra-se agonizando pelos cantos, sentindo sua falta. — Revelei mais do que o próprio Conde havia permitido.
— Que bom para ele! — Ele bravejou irritado. — Se sentisse mesmo tanta a minha falta, teria vindo ele mesmo!
— Não exija tanto, Icarus. Seja mais compreensível, é nítido que você está sofrendo. Sei bem o que está sentindo-
— Não, Ryu, você não faz ideia. Não sabe de nada que aconteceu. — Ele deixou claro, obviamente era um fato, eu realmente não sabia como ele se sentia, mas não estava tão por fora do que aconteceu. É óbvio que Icarus nem imagina que descobri tudo entre eles. E penso que é melhor manter as coisas no sigilo, por hora. — É melhor você ir. Não mudarei de ideia.
Sei bem que não vai. Não havia nada que eu pudesse fazer e não tentaria convencê-lo do contrário. O Conde escolheu massacrar o coração do pobre menino, essas eram as consequências. Fiz o que estava ao meu alcance e acredito que meus atos poderão, no mínimo, fazer a cabeça desses dois pensarem. E veio rápido, visto que na sequência, Icarus disse:
— Se ele quer mesmo que eu volte, que venha me pedir por ele mesmo, só assim poderei considerar a possibilidade de voltar ou não para o casarão.
Abri um sorriso, achando justo. E assim, deixei a casa dos Campelo levando de volta a carta do Conde, mas também uma condição muito bem feita do garoto um tanto orgulhoso por quem ele se apaixonou.
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