CAPÍTULO TREZE

Consequências do impulso

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Quinta, 23 de Março de 1899
Aproximadamente às 9h
Casarão do Conde de Anmak

O dia era só mais um ensolarado, o sol se fazia presente, brilhando no centro do céu e nos dando a sensação térmica de 45 graus célsius. Estávamos no começo do outono, mas o verão se recusava a nos abandonar. O sol esmorecia conforme o passar dos dias, o vento voltará com força, o frio vai começar a dar as caras – aquecendo-se para a próxima estação, o inverno.

Não posso negar, levaria meses, mas já estava ansioso pela primavera. Quero voltar a ver o nosso casarão florido, sentir aquela alegria deliciosa que a primavera traz, o sol estará quente na medida certa, o que significa que dá para ir até à praia com o meu Conde. A nossa praia.

Embora o outono seja igualmente belo, me encontrava tão ansioso pela estação das flores que comecei a escrever meu próprio romance em um bloco de anotações que peguei emprestado no escritório do Conde. Me fazia falta um diário, já que o meu último acabou e até hoje não consegui encontrar um novo caderno para expressar meus sentimentos e pensamentos mais profundos.

Me contentei a escrever implicitamente sobre o amor. Sobre meu Conde e todas essas sensações novas que me despertava e curiosamente descobri que uma parte de mim se irradiava ao escrever, como se minha alma necessitasse disso. Talvez eu tenha nascido para ser um escritor e o Conde fosse de fato a minha sina.

Aprendi que o destino existia para mim, todo o clichê de almas gêmeas era real – concluo isso toda vez que o olho para Heinrich e meu coração dispara. Não posso evitar essa vontade insana dentro de mim, ler os livros juntos só me fez identificar com certeza todos meus sentimentos por ele, toda a coincidência a nosso redor nos tornava destinados.

“Escreva, escreva, Icarus!” — Gritava meu coração.

Em nome do sol queimando minha pele, em nome de tudo que é vivo nessa terra. Fale sobre ele. Sobre você. Sobre o clima ao nosso redor. Mas escreva. Essas palavras não serão as mesmas amanhã, tão pouco esse momento, o agora, o segundo e minuto, o ontem e o hoje.

Perambulando com meus pensamentos nas nuvens, fiz todo o caminho ao sair da casa e ir para os fundos do quintal à procura do meu Conde, conforme havia me solicitado.

Caminhei pela passagem terrosa, sentindo pedras pontudas contra a sola das minhas botinas. Curioso, olhava tudo ao meu redor, vendo o quanto fascinante era as plantações do casarão, principalmente o pomar. As folhas das árvores estão começando a ficar amarronzadas, é triste e poético saber que aos poucos, vão cair.

Ora, como poderia desejar a primavera se é diante desse início desse outono quente que me encontro? É preciso aproveitar cada estágio da nossa natureza, visto que cada momento é sagrado. É um trabalho bem feito. Até mesmo as tempestades, embora violentas, possuem um caos fascinante. Desse modo, por que não aproveitar tudo que o momento atual tem a nos oferecer?

Tão inspirador.

De repente, minha atenção captura uma movimentação. E ali está ele, conversando com um dos guardas que agora cuidam dos arredores do casarão, enquanto Costelinha o segue distraidamente, cheirando tudo ao seu redor. O soldado se despede e afasta-se, ele fica ali sozinho, imagino que ainda a minha espera. Tiro alguns minutos para apreciar sua existência.

Se até o outono me inspirava, não faz ideia do que Heinrich era capaz de me proporcionar. Era algo quente que começava no meu coração, surgia devagarinho, crescendo com timidez e quando me dava conta, meu corpo inteiro parecia um clarão. Quente. Forte. Oh minha santinha. Eu estou tão apaixonado. Como nos livros que lemos.

Havia tantas certezas e incertezas dentro de mim, que sequer parecia que alguns dias atrás nós dois quase ruímos.

Oh, aqueles sentimentos

Os erros que precisávamos esquecer.

[alguns dias atrás]

Quinta, 23 de Fevereiro de 1899
Aproximadamente às 20h
Casarão do Conde de Anmak

Os dias seguintes ao festival se passaram plenos. Gilliard não veio me ameaçar novamente e não tive mais notícias de Ingrid. E quer saber? Prefiro assim. Opto por me afastar dela, visto que o que me fez é imperdoável.

A boa notícia mesmo era que cada dia estava mais próximo do meu Conde. Agora eu escapo para sua cama todas as noites, nós lemos e conversamos muito sobre tudo no mundo, ele me conta histórias, me ensina tantas coisas fascinantes que fico impressionado. Depois nos beijamos por longos minutos e dormimos nos braços um do outro.

Ryu vem cedo todas as manhã e me acorda antes de todos na casa – cúmplice como é de nós dois –, assim ninguém descobre.

De uma coisa tenho certeza, minhas noites de sono são bem melhores agora. Dormir sozinho era uma conquista para mim, mas também um desafio doloroso, já que a solidão nunca me caiu bem. Agora, durmo sorrindo e acordo radioso por receber os beijos e carinhos matinais do homem que amo.

Embora a cada dia seja mais difícil, já que sentimos mais desejo um pelo outro e gostamos dessa brincadeira de provocar com mãos bobas debaixo das cobertas, antes de dormir. O que não era ruim, pelo contrário. É delicioso.

Pelo dia, continuei ajudando Jane e Liana, mas agora quando a tardezinha vinha o Conde me chamava até seu escritório e aproveitávamos esse momento para continuar a escrever o livro dele até sermos chamados para o jantar. E como amo vê-lo tão filosófico me soprando palavras incríveis de uma narração estonteante e afobado vou digitando com fervor, ouvindo o barulhinho das teclas sendo pressionadas e o papel sendo marcado com a combinação de letras que formam uma palavra, seguidamente frases, parágrafos e capítulos fascinantes.

Escrever e ler para o Conde também me inspirava. E agora que sou um datilógrafo, realmente consigo sentir o peso da minha profissão. Uma palavra errada e eu teria que transcrever tudo de novo e acredite, no início isso aconteceu e muito. Me obrigando a deixar nossa cama quente – e os braços do meu homem – e ir passar a madrugada reescrevendo. Além disso, é preciso organização de cada página digitada. Sem falar que, é muito complicado digitar tudo tão rápido enquanto ele fala. Se eu perder a essência de uma frase, céus… Tudo irá ruir.

Portanto, sim, era muito difícil, mas sobretudo fascinante. Estava amando o que estava fazendo, o resultado é a dor nas juntas de meus dedos, o que me obrigou a marcar uma consulta com Lorde Balfour que também é nosso médico. Na verdade, o único, com formação e tudo mais. Ele se tornou lorde justamente por fundar o hospital de Anmak. Uma contribuição de extrema importância para nossa comunidade. Portanto, o título lhe é bem merecido.

Enfim, ele me recomendou alguns alongamentos antes de digitar e é claro, ter um descanso. Já que minhas escapadas pela madrugada estavam sendo em excesso e logo prejudicando-me. Coisa que meu Heinrich não gostou de saber e me proibiu de trabalhar em excesso, principalmente nesse horário.

E quer saber, resumindo, a minha vida no casarão estava perfeita. Além de tudo isso também tínhamos os novos guardas que patrulhavam a casa do Conde garantido nossa proteção, me sentia mais seguro com a custódia extra. E nada no mundo se compara a sensação deliciosa de receber meus primeiros salários – do qual boa parte enviei para minha família. Era muito dinheiro, mais do que pensei que fosse receber.

Com o meu primeiro salário bem pago, comprei sapatos novos, um perfume e loção para pele, tudo para ficar mais bonito para meu Conde. E ele adorou o novo cheirinho, embora preferisse o meu natural.

No entanto, antes que o mês de Março chegasse, algumas notícias um tanto grandes também chegaram. Tais essas que estou diante agora.

Após um dos nossos casuais jantares na companhia dos visitantes de Anmak, o Conde se direcionou a mim e a Ryu.

— Ryu, Icarus? — O Conde nos chamou assim que terminamos de jantar. — Vocês podem vir até meu escritório, por favor? Temos um assunto importante para tratar.

Sempre que o Conde fala assim, fico tenso dos pés à cabeça. Ele usa uma conotação tão séria que parece que algo ruim está por vir. O que nem sempre é o caso. Ele parece ter percebido isso de imediato, considerando que logo abriu um sorriso mínimo para nos confortar.

— Não se preocupe, não são más notícias.  — Garantiu, para nosso alívio imediato.

— É claro que lhe acompanho, senhor. Dalva, avise a Liana que vou me atrasar, mas que ela pode se deitar sem mim. — Disse Ryu para a cozinheira.

Após nos despedir e desejar boa noite a todos, Ryu e eu imediatamente fomos até o escritório do Conde em seu encalço, curiosos com o que ele tinha a tratar. E a curiosidade é um sentimento que me deixa muito inquieto.

— Feche a porta quando entrar. — Heinrich pediu, o que me fez ficar ainda mais tenso, como fui o último a atravessar as portas duplas, as fechei para nos dar privacidade assim como ele pediu.

O Conde se sentou sobre sua típica poltrona e, de frente para si, sobre sua escrivaninha, havia uma caixa um tanto bonita. Não era muito grande, mas possuía cores impressionantes. Como se a caixa em si, fosse uma obra de arte, o que a cada segundo tenho mais certeza de que seja.

— Eu sinto que são ótimas notícias. — Ele disse e passou as mãos sobre a caixa bonita, sorrindo minimamente ao conseguir sentir toda a textura grossa da tinta que a cobria em uma pintura extraordinária. — Icarus, você pode abrir a caixa e ler o que estiver em seu interior, por favor?

— Sim, senhor.

Imediatamente me coloco ao lado de Heinrich, abro a caixa pintada com cuidado, seu interior é ainda mais bonito, toda aveludada pela cor azul, tão azul quanto o céu de uma tarde sem nuvens. Minha cor favorita, assim como a do meu Conde.

O que impressiona mesmo é o que há dentro. O que primeiramente chama minha atenção é um broche extremamente delicado, havia curvas singelas formando uma espécie de borboleta, dourado como ouro, mas com uma pedra azul anil no centro que brilhava incrivelmente esbelta. Junto do broche há um pergaminho enrolado, o pego primeiro, solto o laço azul que o envolve e aos poucos vou desfazendo suas voltas para ler.

Deixo um suspiro decepcionado escapar quando percebo que eu não conseguia entender nadinha do que estava escrito ali.

— Ah… Senhor… Está em uma língua que desconheço. — Informo a ele, não compreendendo uma palavra sequer. — Suponho que seja francês.

— Uma grande amiga minha quem me mandou. A mesma que pintou os retratos da minha família que estão dispostos no casarão. Tente ler da maneira que consegue, Icarus. Eu vou entender. — Ele pediu.

Esforço-me ao máximo para conseguir ler a combinação de palavras estranhas para mim.

— Comte Heinrich Vollard, c’est avec grand honneur que nous vous invitons à l’Exposition d’Art de Paris au Musée Jean-Baptiste Debret. Nous présenterons trois de ses meilleures œuvres dans une vente aux enchères qui vise à venir em aide aux enfants nécessiteux de l’Orphelinat Lumière du Matin.  L’événement aura lieu le 13 avril 1899 sur l’île de Anjou, située près de l’état de Rio de Janeiro.  Gracieusement, votre vieille amie Vivienne Fleur de La Roche. — (Conde Heinrich Vollard, é com grande honra que convidamos você para a Exposição de Arte de Paris no Museu Jean-Baptiste Debret. Exibiremos três de suas melhores obras em um leilão que tem o objetivo de ajudar as crianças carentes do Orfanato Lumière du Matin. O evento ocorrerá no dia 13 de abril de 1899 na Ilha Anjou[1], localizada próxima ao estado do Rio de Janeiro. Graciosamente, sua velha amiga Vivienne Fleur de La Roche).

Na verdade, eu precisei reler umas cinco vezes até que, com as dicas que o Conde me dava, consegui formular palavras cada vez melhores até que reconhecesse por completo. E ele até mesmo disse que eu tinha facilidade para aprender francês, fiquei muito entusiasmo com isso.

— Fui convocado para exibir a minha arte em um leilão de um museu na Ilha Anjou, aquela que foi colonizada por franceses, próxima ao Rio de Janeiro. Ouvi dizer que é um lugar verdadeiramente mágico, tanto quando a deliciosa Paris. Usarão os ganhos para arrecadar dinheiro para as crianças órfãs. Não é magnífico? Vivienne havia mencionado que me convidaria para tal ano passado, quando estive em Anjou, mas não imaginei que levaria a sério. — O sorriso do Conde estava imenso, dava para perceber o quanto ele estava feliz por isso. — Icarus e Ryu, essa é uma grande notícia! Nós vamos para Anjou!

O Conde até ficou em pé, seu sorriso estava tão grande que me fazia sorrir também. Não pela notícia, mas sim por sua alegria. Seguidamente, o peso da notícia logo me atinge.

Minha nossa senhora dos lugares incríveis. Eu vou para a Ilha Anjou com o meu Conde. ANJOU! Um lugar um tanto distante da Santa Catarina. Outro estado do Brasil! Um pedacinho da França em solo brasileiro. Minha santinha…

— Nós vamos para a Ilha Anjou!? — Quase gritei eufórico, dei pulinhos de alegria enquanto o Conde afirmava que sim, iríamos viajar.

Heinrich adora o Brasil, disso eu já estava convicto. Em nossas conversas sempre demonstrou o fascínio pelos estados brasileiros que já visitou, inclusive já havia passado uma temporada por lá. Penso que se não fosse por Anmak, ele teria se tornado um nômade e se manteria viajando.

Enquanto comemoramos com abraços e tudo mais, levamos um tempo para perceber que Ryu não estava com a mesma animação. Na verdade, estava sim sorrindo enquanto assistia nosso alvoroço, mas só. Será que não quer ir? Tinha algo de errado?

— Ryu? O que foi? Não gostou da notícia? — Heinrich perguntou quando também notou, paralisando suas emoções para direcionar a atenção ao seu criado.

— É claro que gostei, Milorde. — Ryu riu baixinho e aos poucos seu rosto ficou sério. — Mas creio que não poderei lhes acompanhar nessa viagem. E a razão é algo do qual precisamos conversar.

No mesmo momento me afasto de Heinrich, já guardando tudo de volta na caixa bonita. Parecia algo realmente sério, por isso deveria deixar os dois a sós. O Conde sentou-se novamente, assumindo uma postura séria para ouvi-lo.

— Vou deixar vocês a sós.

— Não, Icarus, por favor, fique. Você também precisa ouvir o que tenho a dizer. — Ryu conteve-me ao segurar meu pulso e olhar-me com gentileza. — Afinal, você é o meu melhor amigo.

Ouvir o japonês dizer que éramos melhores amigos me deixava com o coração quentinho. É tão bom saber que ele confiava em mim e que compartilharia um assunto aparentemente importante comigo.

Sendo assim, sentei-me na cadeira ao lado dele e fiquei pronto para ouvir o que tinha a dizer.

— Milorde, por muito tempo recusei qualquer descanso que tenha me oferecido. Mas chegou o momento de usar esse recesso. — Ryu começou a dizer, olhou para cada um de nós antes de prosseguir. — Temo que preciso passar alguns meses em Paris para ficar ao lado de minha esposa, partirei com Jane e Raul na próxima semana, se o senhor estiver de acordo. Devo voltar em três meses, assim que Liana conseguir finalizar os estudos. Sei que nunca lhe pedi algo assim e também sei o quanto precisa de mim aqui no casarão, mas creio que Icarus possa me substituir muito bem durante minha ausência, quer dizer, pode até mesmo contratar um ajudante se for necessário-

— Ryu? — O Conde o interrompeu, Ryu estava ofegante de tanto frenesi. Desatou a falar igualzinho faço quando estou nervoso.

— Sim, Milorde? — Engoliu seco, um tanto preocupado.

— É claro que estou de acordo, Ryu. Por deus, você é livre. Você é como família para mim, de fato me conforta saber que não está nos deixando para sempre. De coração, gostaria que essa frase soasse menos egoísta, mas realmente preciso de você. — Heinrich sorriu e por fim apertou a mão de Ryu sobre a mesa. — Vá com sua esposa e não se preocupe com nada.

Ryu finalmente soltou os ombros e expirou o ar com tanto alívio que até eu respirei mais leve.

— Obrigado, Milorde. Não faz ideia do quanto sou grato pelo senhor. É como família para mim também. E não se preocupe, eu voltarei, com toda certeza. — Agora meu amigo estava sorrindo de orelha a orelha.

— Espero que aproveite ao máximo da França, você é jovem, Ryu, precisa viver. — Disse o Conde, o apoiando e confortando ainda mais, só conseguia olhar orgulhoso para os dois.

— É tão bom ver que você e Liana vão passar mais tempo juntos, deu para perceber o quanto sentem a falta um do outro. — Disse olhando meu amigo gentilmente.

Foi aí que Ryu sorriu ainda mais e olhou-nos com expectativa. O que me deixou curioso.

— Na verdade, tenho uma segunda coisa para anunciar. — Avisou, o que nos fez encará-lo afinco. — Liana e eu vamos ter o nosso primeiro filho.

— Minha nossa senhora dos bebês! — Dei um pulo levantando-me da cadeira. — Vocês vão ter um bebê!? Meu Deus, Ryu! Estou muito feliz! Parabéns!

Abraço-o com tanta força que Ryu até geme de dor, enquanto gargalhamos de felicidade. Meu casal vai ter um bebezinho, é uma informação feliz demais, não consigo conter tanta alegria. E não demora para o Conde se juntar a nós, também feliz pelo nosso japonês.

— Você é mesmo um homem agora, Ryu! Como um filho meu. Estou muito feliz por você e sua esposa. Será um ótimo pai. — Acredito que é essas palavras que mais emocionam Ryu, dá para ver quanta consideração tem pelo Conde. Os dois acabam trocando um abraço caloroso, como pai e filho. E fico admirando, totalmente feliz por meu amigo.

Agora entendo por que ele irá para Paris, vai cuidar de sua esposa e seu bebê. Tão lindo.

O que quer dizer que… Em breve, seremos só eu e meu Conde no casarão. E também muito em breve, seremos nós dois na Ilha Anjou.

Não consigo acreditar nos próximos dias que nos aguardavam.

Estava habituado a despedidas e mesmo assim nunca gostei delas. Não gostava de ir dar tchau para meu pai enquanto ele entrava no navio e partia para longe, onde por meses eu e minha família não o veríamos. O mar é um lugar perigoso. Nunca se sabe quando uma tempestade – ou algo pior – vai vir, o oceano é cheio de surpresas e mistérios. Por isso, quando criança, sempre pedia para meu pai não ir.

Mas ele explicava-me que era necessário, afinal era dali que tirava todo o dinheiro que sustentava nossa família e mantinha nossa casa. Era necessário deixá-lo ir. Mas isso não quer dizer que não possa ficar triste, pois ficava. Mesmo muito pequeno, já podia entender que aquela poderia ser a última vez que o veria. Não dava para garantir que voltaria, por essa razão era sempre um alívio imenso quando ele descia do barco e caminhava na nossa direção, perfeitamente vivo.

Por isso, naquele dia, uma terça qualquer do início do mês de Março, acordei cedo e nossos visitantes estavam de partida. O casarão estava agitado com todo mundo para lá e para cá, arrumando suas malas para a longa viagem que fariam.

Ajudei Jane a carregar algumas malas até a carruagem enquanto Ryu levava as suas próprias e as de Liana. Um homem contratado como cocheiro os levaria para o porto onde pegariam um barco até a Bahia, onde outra embarcação os levariam para o destino ansiado: a Europa. Meses de viajem o aguardavam no Oceano Atlântico…

Nunca pensei que sofreria tanto com despedidas, mas só restaram lágrimas quando abraçávamos àqueles que estavam partindo.

— Dalva vai te auxiliar a cuidar de tudo. Obrigado por me substituir, Icarus. Você tem se demonstrando meu verdadeiro amigo e nunca tive um relacionamento assim antes. — Foi Ryu quem me disse, me deixando totalmente emocionado. — Tem se tornado um irmão para mim. O irmão que nunca tive.

Ryu sabe que tenho um coração mole, não dou conta de ouvir coisas assim sem me emocionar. Enquanto abraço o meu praticamente irmão com força, apenas consigo desejar que partam em segurança e voltem igualmente em paz.

— Não se preocupe, quando retornar encontrará tudo em perfeita ordem. Cuidarei bem do nosso Conde. — Garanti dando-lhe mais um abraço apertado. — Cuide bem de Liana e meu sobrinho. Sou muito grato pela sua amizade, Ryu, é como um irmão para mim também. Mas, por favor, volte logo.

Ryu riu e me garantiu que iria voltar. É claro que ele iria, afinal ele ama esse lugar, gosta do seu trabalho. E pelo que percebi, Liana está bem habituada agora, o passado ficou no passado, afinal. Eles não tinham mais espaço para lembranças ruins, um bebê está a caminho e precisa receber boas energias.

— Não se preocupe, quando eu voltar ainda estarei de barriga, você vai poder aproveitar muito os chutes do seu sobrinho ou sobrinha. — Disse Liana, toda risonha e feliz, me deixando passar a mão para sentir o pequeno volume de seu ventre. — Foi incrível te conhecer Icarus, você é importante para Ryu, portanto, também é importante para mim e nosso filho.

— Obrigado, Liana. Você é maravilhosa e, ah, não se esqueça que vovó Campelo prometeu que iria fazer o seu parto. Você deixou aquela velha senhora muito ansiosa para isso!

Nós dois rimos, Liana acabou conhecendo minha família um dia quando me acompanhou em uma visita e vovó ficou tão animada em fazer o parto de uma pessoa que se tornou tão especial para mim. É claro que a futura mamãe também amou a ideia, já que minha avó é uma das melhores parteiras da nossa península.

— Não sou maluca de não estar aqui para parir essa criança nas mãos da sua adorável avó. — Liana disse, convicta da importância disso para minha velhinha. — Até logo, Icarus. — Ela fez um carinho no meu rosto e em seguida subiu no coche, seguidamente foi a vez de me despedir de Jane.

Ah, agora sim, seria capaz de chorar. Quando a veria novamente? No final do ano, provavelmente. Jane raramente voltava para casa. E ela tem muitas pendências em Paris, juntamente ao seu noivo.

— Eu amei te conhecer, Icarus e não se esqueça do que prometemos, uh? — Jane me mostrou seu dedo mindinho, fazendo-me lembrar do dia que juramos ser melhores amigos para sempre.

— Não me esquecerei nunca. — Cruzo meu dedo mindinho ao dela. — Vou aguardar ansiosamente por suas cartas.

— E eu pelas suas. — Ela me abraçou com carinho.  — Obrigada por cuidar do meu pai, Icarus. Eu te vejo em breve.

— Nos vemos em breve, Milady. Faça boa viagem. — Sorri animado, seguidamente me despedi de Raul, depois disso se despediram de Dalva, Caetano e nosso Conde. Por fim eles todos estavam prontos para partir. — Boa viagem. Vá e voltem em segurança.

Enquanto acenava e a carruagem se afastava, soltei um suspiro pesado sentindo as lágrimas se acumulando em meus olhos. Em poucos meses eu havia me apegado imensamente aquelas pessoas, só me restava desejar que elas ficassem bem e que em breve voltassem para o casarão.

Sozinhos, Dalva e Caetano agora poderiam trabalhar menos e o Conde exigiu que eles pudessem tirar mais tempo de folga – o que levou os dois a fazerem uma curta viagem para rever seus parentes ainda vivos. Os dois já não são jovens mais e trabalham tanto para o bem-estar do Conde, mereciam um descanso.

— Eu já vou indo, Icarus, mas deixei tudo separadinho. Você não vai ter dificuldade para cozinhar e não lhe faltará nada. Em breve estaremos de volta, vai ser só alguns dias. — Disse Dalva pela milésima vez, totalmente preocupada comigo, já que terei que assumir todos os cuidados com Heinrich.

E sim, isso me assustava, mas estava totalmente seguro que conseguiria cuidar de tudo muito bem.

— Não se preocupe, Dalva. Eu já disse que sei cozinhar, cresci rodeado de mulheres, portanto, garanto-te que o Conde vai ficar bem em minhas mãos. — Tranquilizo a velha senhora que me olha toda sorridente.

— Você é um anjo, sabia? Sou grata por sua existência todos os dias, meu menino. — Ela aperta minhas bochechas e me enche de beijinhos. Depois diz o pé do meu ouvido, mimando-me como ela sempre faz: — Deixei uma torta de abacaxi, rosquinha de nata e bolo de limão, só para você. Já que nosso Conde não gosta de doce.

Eu caio na risada apertando ela em um abraço firme enquanto guio-a até a carroça onde Caetano a espera.

— Você é a melhor! — Ajudo a senhora a subir no veículo e pela segunda vez no dia aceno para pessoas queridas que estão de partida por um curto período de tempo. — Divirta-se e façam boa viagem!

Costelinha sai em disparada atrás da carroça, ele se apegou muito ao Caetano, tadinho. Quando eles se vão, eu volto pensativo para casa. Já tenso, imaginando o porque o Conde havia insistindo tanto para que Dalva e Caetano passassem uns dias fora.

E a insegurança me abraça com força.

Não sou bobo, suas intenções são nítidas, ele quer passar um tempo sozinho comigo. Protegidos no casarão, planejando nossa tão esperada viagem até Anjou. E é claro, nós finalmente podemos avançar um passo… Nós podemos fazer sexo.

E é exatamente isso que me assusta. A possibilidade de fazer sexo com ele novamente. É por isso que desapareço após Dalva ir embora, enquanto Heinrich estava ocupado com Lucien e Fabien no escritório falando sobre a situação do laboratório e do hospital da nossa península.

Agradecendo por isso, aproveito para ir até meu próprio quarto – o qual tenho frequentado bem menos – e me olho no espelho, um tanto preocupado e inseguro com a minha aparência.

Viver no casarão – trabalhando bem menos com meu físico e aproveitando bem mais a comida farta –, me fez ganhar peso e isso me traz uma insegurança surreal. No espelho, só consigo enxergar minhas bochechas imensas e minha barriga estranha, toda irregular até mesmo com a roupa cobrindo-a.

E céus, realmente ganhei peso, estava assustado com a realidade que antes havia passado despercebido. Na verdade, sempre fui muito magro como é o padrão de beleza exigido pela sociedade, tanto que as amigas da vovó e da minha mãe, viviam dizendo que se engordasse deixaria de ser bonito. Ficar gordo ofuscaria toda minha beleza. Antes, eu não conseguia engordar por que não comia besteiras em casa, mas aqui no casarão tem doce o tempo todo.

E logo eu que sempre tive uma boa autoestima, me sentia péssimo por não estar nos padrões. E nem estava incomodado em ter um peso extra, me deixava mais vigoroso, minha bunda ficava maior, fato que adoro – tenho certeza que é um bônus e tanto para meu Heinrich. Mas não era o ideal, logo não era bonito.

De frente ao espelho, novamente preocupado com os padrões de beleza indicados, removo minha roupa numa velocidade surreal, ficando totalmente nu. Assim o baque realmente me atinge. A quantidade de gordura e celulites espalhadas por meu corpo, me deixando tão feio e gordo me faz perceber que não quero que Heinrich tenha isso.

O que vou fazer?

Certamente não tenho tempo para pensar nisso, pois o Conde já solicita minha presença. Ouço-o chamar, fazendo com que me vista desesperadamente. Saio com pressa e ainda abotoando os botões de minhas vestes, corro pela casa traçando o caminho até o escritório.

O que encontro ali é algo que realmente me faz ficar paralisado. Há velas acesas no centro da escrivaninha, Heinrich está segurando um vaso com flores de uma cor púrpura tão intensa, enquanto usa seu melhor terno de cor azul-marinho, na mesa há um conjunto charmoso de taças, talheres e pratos; e, é claro, um dos melhores vinhos suaves que o Conde tem e tanto ama beber.

— O q-que está a-acontecendo? — Pergunto, chocado e engolindo seco.

— Fiz isso para nós. Quer dizer, ao menos tentei. Ryu me ajudou com a louça, Lucien trouxe a comida cujo pedi casualmente, sem levantar suspeitas. Virei-me como pude. Espero que não tenha nada extremamente fora do lugar. — Bom, na verdade, a garrafa de vinho estava na beirada, quase caindo no chão, mas quem se importa com isso quando estou diante do fato que o Heinrich Vollard fez um almoço romântico para mim?

Meu senhorio sorriu apaixonado, havia se esforçado tanto por mim e eu bobo preocupado com um detalhe tão fútil como a gordura do meu corpo. Ele me amava, e muito. Certamente nenhuma outra pessoa no mundo teria tanto empenho em fazer tudo isso para mim.

— E pedi sobremesa também, sei que o meu Icarus ama doces. Se eu fosse um homem normal, já teria o surpreendido com momentos muito melhores, mas infelizmente é isso que posso oferecer. Apenas um almoço simples, com uma preparação um tanto desastrosa, com as paredes dessa velha casa mantendo nosso segredo seguro. E sim, um almoço, realmente não queria tentar bolar um jantar fracassado. Você merece tanto, meu pequeno Icarus, muito mais do posso te oferecer.

Lentamente se aproximou enquanto falava, parando diante de mim com o buquê de Laélia Purpurata[2] que possuíam uma delicadeza surreal. Aceitei suas palavras assim como aceitei as flores já plantadas em um vaso chique. Essa espécie tem como hábito comportamento epífita, caule do tipo pseudobulbo, folhas oblongas e atinge cerca de sessenta centímetros de altura. Suas flores de coloração branca e púrpura são muito apreciadas. Sei sobre jardinagem por passar tempo demais com a nossa falecida curandeira, ela me ensinava sobre tantas espécies.

Mas diga-me se não é tão apaixonante que ele tenha até mesmo se preocupado até com as flores?

Me apaixonei pelo homem certo.

— Heinrich… Você é tudo o que preciso. Não preciso que me ofereçam mais nada. — É o que consigo dizer, tentando segurar para não chorar.

Seu sorriso se abre ainda mais, grande e feliz, totalmente satisfeito com a minha resposta. Meu Conde toca meu rosto com cuidado, usando sua mão sem luvas, deixando-me sentir sua pele.

— Você gostou das flores? Fabien trouxe do jardim de Lady Balfour, preferi te dar assim, sei que você não gostaria de um buquê que em seguida fosse morrer. O vaso lhe permite cuidar e cultivar do meu presente.

Minha santinha, como posso resistir à perfeição desse homem que me conhece tão bem? É óbvio que ele acertou, aquelas flores se tornariam tudo para mim. Uma lembrança do meu Conde. Cuidaria delas com a minha própria vida.

— Eu amei as flores, senhor. São realmente lindas e muito especiais.

Heinrich ficava tão lindo quando sorridente, provavelmente estava imaginando o quanto aliviado está se sentir sabendo que arrasou na sua surpresa. Admira-me que tenha planejado e conseguido organizar tudo isso.

— Sendo assim, preciso saber se você aceita almoçar comigo, Icarus Campelo? — Ele finalmente pergunta, fazendo-me corar. — E sim, esse é um encontro romântico, caso ainda tenha dúvidas.

Um encontro romântico? Isso certamente me deixou sem ar, um encontro de verdade. O primeiro da minha vida.

— Eu aceito, meu Conde.

E após a minha resposta, não perdemos mais tempo.

O almoço se estendeu por toda a tarde, nós dois realmente tínhamos tanto para conversar que quando começamos é difícil parar, ouvir as aventuras do meu Heinrich era o melhor diálogo que poderíamos ter. Suas viagens e experiências me fascinam um bocado. E atento, tentava acompanhar tudo e absorver o máximo de conhecimento possível que tinha para me oferecer.

A comida estava deliciosa, embora não gostasse de bebidas alcoólicas como vinho, mas bebi um pouco para provar; já a sobremesa havia devorado tudo sozinho – tentando não pensar no meu peso em excesso adquirido nos últimos meses. E por fim, já era noite quando percebemos, desse modo, encarreguei-me de arrumar a bagunça que fizemos. Mas antes, preparei um banho para o Conde para seguidamente ir ajeitar o escritório e lavar a louça.

E é claro, guardei minha adorável plantinha no meu quarto, sob a escrivaninha que tinha ali, o que deu tanta cor e vida para o ambiente. Sempre que olhasse para ela, lembraria do nosso primeiro encontro, um mágico almoço.

Conforme a hora de dormir se aproximava, mais nervoso eu ficava. No jantar – o qual pude esquentar uma refeição pronta de Dalva –, comecei a deixar que meu nervosismo realmente falasse mais alto fazendo com que meu silêncio fosse incômodo.

— Tem algum problema? Você está tão quieto, pequeno. — O Conde observou, o que me deixou ainda mais apreensivo, eu não sabia pontuar o que estava de fato me incomodando.

Era mesmo minha aparência? Talvez o medo de não ser bom no sexo? Não sei. Mas estava ali, me sufocando como um espinho de peixe entalado na garganta.

— Está tudo bem, senhor. Só estou pensativo quanto ao livro. — Menti descaradamente.

E ele pareceu acreditar, já que soou convincente.

Quando terminamos o jantar, caminhamos até seu quarto, ainda envolvidos no silêncio causado por mim, deixando as coisas desconfortáveis entre nós. Mas era esse o costume, o nosso momento, quando íamos dormir. Deste modo, não tinha nada fora dos eixos até agora.

Uma vez no quarto, fui até ele para ajudá-lo a retirar seu paletó – como já era de costume – e assim que a peça deslizou para fora de seus braços, fui surpreendido por sua ação repentina, quando Heinrich virou-se rapidamente e agarrou meu corpo com suas mãos, prensando-me ali mesmo, contra uma das paredes de seu quarto.

— Agora somos só você e eu, Icarus. — Me encarou nos olhos quando disse com seu timbre de voz tão grave, tão sedutor, que caramba… Perdi o fio da meada. Sua boca veio ao encontro do meu pescoço, deslizou seu nariz por minha derme, depositando um leve selar no final. O desgraçado sabia do meu ponto fraco. — Ah, Icarus… Esperei tanto por esse momento! Por favor, diga-me que também me quer.

— H-heinrich… — Seu nome demorou a escapar, conforme mais nervoso eu ficava. De uma coisa tenho certeza, é claro que o quero. Isso não é necessário nem sequer pensar. — Eu te quero.

Confessei e não sei se foi o meu maior erro, pois embora o quisesse, tinha algo assustador dentro de mim que me deixava inquieto. Não pude dar atenção a isso quando ele veio com seus lábios macios e quentes, devorou minha boca num beijo extremamente intenso.

Não tinha como não me entregar a esse momento, não enquanto me segura com possessão, fazendo-me sentir tão dele. Ele me faz esquecer do mundo enquanto me beija.

Heinrich me quer, sim, ele quer aquilo novamente. Nós dois nus. Ele dentro de mim. Nossa alma gritando gloriosamente pela nossa união.

E teria acontecido…

Se eu não tivesse estragado tudo.

Se aquela sensação dolorosa dentro de mim não tivesse se expandido com força. As lembranças da nossa primeira vez vieram num flash, o quanto gostei, me senti especial e criei expectativas que nunca foram atendidas. Pelo contrário, foram destruídas impiedosamente, de uma maneira que me marcou como uma cicatriz. E cicatrizes estão sob constante ameaça de se romperem e sangrarem novamente.

E finalmente entendo, não era o meu sobrepeso que me preocupava. Era minha insegurança, meu medo de ser abandonado novamente, o impulso daquela noite mal pensada, a dor de ser magoado fortemente. Eu não estava pronto para fazer sexo, pensando bem, acho que nunca estive.

Embora tenha sido mágico, não era o momento ideal.

Dando-me conta disso, é inevitável o que acontece a seguir.

— Para! Para! — Grito e o empurro de cima do meu corpo, visto que a essa altura estávamos sobre a cama.

De início, Heinrich se afasta imediatamente, assustado com minha reação repentina e me encara ainda mais assustado. É quando me dou conta do que estava acontecendo, é inevitável não chorar.

E choro. Choro muito.

Arrependido, assustado, com medo de perder o meu Heinrich. Se eu não estivesse disposto a me entregar assim, penso que logo não iria me querer mais. E ele é meu grande amor, não consigo viver sem a sua existência de forma presente na minha vida.

— Pequeno, está chorando? Icarus, pelo amor de Deus, o que está acontecendo? Te assustei? Te machuquei? — Heinrich imediatamente volta até mim, enquanto meu corpo se encolhe na cama feito um feto.

Não quero falar, não consigo.

Não quero quebrar o coração dele.

Não quero ter que colocar todas as minhas inseguranças para fora, concretizar o estúpido medo que estou sentindo e por fim quebrá-lo inteiro com a verdade inevitável de que não confio mais no meu Heinrich.

— Icarus, me desculpa, eu-

— Não encosta em mim. — É tudo que consigo dizer quando tenta uma nova aproximação.

Afasto-me de maneira brusca, amedrontado demais, tentando fazer minha cabeça se acalmar. Estava assustado e confuso, era impossível não magoá-lo. E a decepção chega ao rosto do meu Conde, quando definitivamente se afasta do meu corpo.

Por longos minutos, choro compulsivamente enquanto meu coração também se quebra. Começo a imaginar que é o nosso fim. Quando mal consigo olha-lo envergonhado dos meus sentimentos confusos que fizeram-me agir como se ele fosse um monstro, abusando de mim.

O que definitivamente não estava acontecendo.

Cautelosamente, Heinrich se sentou ao meu lado enquanto acalmava-me, meu corpo travado relaxava lentamente e só assim consegui me sentar ao lado dele, ainda ofegante e com a respiração irregular devido ao choro compulsivo.

— Se sente melhor? — Ele perguntou, sem jeito, com a voz totalmente trêmula.

— Uhum. — Murmurei positivamente, ainda incapaz de formular frases.

— Eu te machuquei? — Heinrich perguntou, preocupado, engolindo seco de tanta aflição.

Com calma, respiro fundo, ainda temendo expor meus sentimentos e parecer o mais tolo de todos os tempos. Sentia-me infantil diante de Heinrich. Mas não podia continuar ignorando aquela angústia dentro de mim, consumindo-me aos poucos como uma infecção.

— Não me machucou, quer dizer, sim… — Respondi com a voz baixa, apertando minhas mãos unidas, fazendo minhas unhas curtas machucarem a carne da minha palma. — Eu não confio mais em você. Nosso plano de você me conquistar não deu certo. Não me sinto seguro.

Isso o pegou de surpresa, vejo Heinrich agarrar a colcha da cama abaixo de nós e fechar os punhos com força. Vê-lo assim, doía muito. Mas aqui estava as nossas consequências, as quais não podia mais ignorar.

— Não posso fazer sexo com você ainda. Tenho muita vontade sim, Heinrich. Eu quero muito, muito mesmo. Mas eu não consigo… — A essa altura minha voz vacila com força, meu queixo treme diante da vontade imensa de chorar, as lágrimas vêm novamente. — Eu estava com tanto medo disso acontecer. Estava até mesmo confuso. Mas agora, entendo o que está acontecendo dentro de mim.

Paro de falar, com medo das reações do Conde, será que ele era capaz de entender como me sinto?

Só conseguia implorar internamente por sua compreensão, caso contrário, não saberia o que fazer.

— Icarus, nunca te obrigaria a fazer algo do tipo comigo, por Deus. Que tipo de homem você acha que sou? — Sua voz carrega mágoa, decepção e tudo de ruim que me corta como uma faca. — Certamente o pior, um monstro, de fato.

— Não, não, e-eu… Eu sei que não me obrigaria, Heinrich. Você não é um monstro. Mas diga-me, como posso me entregar novamente para você depois do que me fez?

— Achei que tinha me perdoado. — Ele pontuou, ainda mais magoado.

— Perdoei, mas não esqueci. Não tem como esquecer. Tem noção dos dias horríveis que passei, imaginando que só usou o meu corpo? Eu morri pouco a pouco durante o tempo que ficamos afastados e percebi o quanto foi impulsivo da minha parte me entregar para você naquela noite. Penso que se não tivesse feito isso, teríamos sido pacientes, teríamos nos apaixonado aos poucos, sentiria confiança em você, me entregaria não por impulso, mas sim com convicção do que estava fazendo. E talvez se eu tivesse feito isso, você também não teria ficado assustado e assim não teria me mandando embora. Mas nós dois estávamos cegos pela emoção. Dói-me muito assumir que aquela noite tão bonita foi um erro imenso. — Desabafo de uma vez.

— Icarus, por favor, não diga isso… — Heinrich tremulou, vendo seu rosto tão triste pensei até que ele fosse chorar. — Eu sinto muito, Icarus. É claro que você tem razão, por favor, fomos inconsequentes, mas… não tire o significado da melhor noite de nossas vidas.

Fico calado, sentido as lágrimas escorrem por minhas bochechas quentes. Julgo que o significado daquela noite já morreu faz tempo. Não sabia mais o que dizer ou pensar, só conseguia perceber que nossos corações estavam partidos.

— Eu pensei que estava fazendo tudo do jeito certo, nos aproximamos tanto. Mas não foi o suficiente, você ainda está magoado, ainda não confia em mim. — Ele também expôs, tristemente. — O que posso fazer para mudar isso, Icarus? Por favor, me diga. Não é por que quero transar com você, não. Quer dizer, é óbvio que quero fazer sexo contigo, mas não se resume a apenas sexo, isso é só um complemento. Você é infinitamente mais do que isso, Icarus Campelo e eu lamento tanto por tê-lo feito pensar o contrário por tanto tempo. Por favor, Icarus, por favor, me perdoe…

Foi quando percebi que Heinrich era ferro e fogo por mim. No fundo, sempre soube, só estava com medo de me entregar de corpo e alma de novo e tudo se repetir novamente.

Não dá para ser quebrado tão violentamente e esperar que um pouco de cola faça voltar a ser o que era antes. Eu nunca mais serei o mesmo depois de tudo que já vivi, estou plenamente convicto.

— Para de pedir perdão por algo que não podemos apagar. Nós temos que conviver com isso para sempre, ou até se tornar menos vívido em nossa memória e não doer tanto mais.

— Eu vou te pedir perdão quantas vezes for preciso, Icarus. — Deixou claro, não contestei mais.

Respiro fundo, minha cabeça está pulsando de dor. Situações a flor da pele, mexe inteiramente com o nosso corpo. Psicológico e fisicamente.

— Eu não confio em mim também, Heinrich. Não quero cometer o mesmo erro de novo, se você fizer novamente, não sei se vou aguentar, entende? É claro que quero fazer sexo com você também, isso não está óbvio? — Solto meus ombros num suspiro triste e por fim digo: — Podemos ir devagarinho, não? Não me sinto pronto para fazer isso. Mas gosto imensamente da forma que estávamos caminhando. As mãos bobas antes de dormir, os toques intensos, a troca sincera de carinhos, descobrindo o corpo um do outro… Se conhecendo, confiando, sabe? Precisamos reconstruir a nossa confiança e isso requer tempo.

Cansado do círculo que estávamos rondando, finalmente me calo, esperando que pudesse encontrar uma solução melhor ou aceitar a minha.

— Você tem razão. — Ele diz de repente, segura minha mão com a sua, me faz olhar em seu rosto ao erguer minha cabeça segurando meu queixo com delicadeza. — Eu nunca te forçaria a isso, Icarus. Você sabe disso, não é? Por favor, seja sempre sincero comigo, já não posso enxergar suas expressões, como poderia adivinhar que não estava pronto? Se vamos ficar juntos, preciso que me exponha seus sentimentos e deixe-me reconquistar sua confiança.

— Eu prometo ser sincero, senhor. — Concordo de imediato e me aproximo para colar minha testa na sua. Sinto-me muito melhor em expor toda a bagunça que estava sentindo. Não dá para lidar com tornados dentro de nós, ou você cospe para fora, ou o deixa revirar tudo ainda mais por dentro. E dores sufocadas, tem o poder imenso de te destruir. — Não sei muito sobre sexo, ler difere da prática. Isso também me deixa inseguro. São muitas coisas, meu corpo, a falta de experiência, o trauma do que nos aconteceu…

— Shhh, te entendo, meu pequeno. Nós vamos com calma, assim como você sugeriu, um passo de cada vez. Como faríamos se não tivéssemos sido tão impulsivos naquela noite. — E por fim ele me entendeu, o que me fez sentir como um bobo por pensar que meu Heinrich me negligenciaria. Pelo contrário, compreendeu exatamente como me sentia e sobretudo sabia como ajudar a me sentir melhor.

— Um passo de cada vez. — Concordo, mais aliviado e agora seguro. — Me desculpa por ter uma crise no meio do momento que tanto almejavamos.

Finalmente estávamos sozinhos no casarão e não podíamos aproveitar isso, já que eu não estava preparado.

— Não tem problema, confesso que estava tão impulsivo quanto naquela noite da praia, por finalmente estarmos sozinhos. — Ele disse rindo e por fim, me deu um selinho suave. — Só quero que entenda, Icarus, que te quero quando estiver pronto para ser meu. Gosto muito de você. Não quero te magoar novamente. — Pegou minhas mãos para levar até seus lábios e selar meus dedos com carinho, me sentia tão amado quando estou com ele e sou tocado assim. — Por favor, acredite em mim quando digo que não faria aquilo novamente. Nunca mais vou te afastar, Icarus. A não ser que você me peça.

— Ficou maluco? Jamais pediria isso, meu Conde. — Isso nos faz rir, vou para o colo dele, me sentando sobre suas coxas e enfiando meus dedos em seus fios sedosos de cabelo. — É claro que acredito em você, meu amor.

— Meu amor? — Ele repete, risonho e apaixonado.

— Sim, meu amor, minha metade, meu homem… — Eu digo todo bobo, sorrindo ao encarar seu rosto e trazendo seus lábios para os meus.

— Ah, merda, você me deixa tão apaixonado, como se eu fosse um adolescente. — Sua fala nos faz rir, embora ainda estejamos nos beijando.

— E você ainda é, meu amor. Você ainda é jovem para mim, cheio de energia, o meu Conde.

— Meu Icarus… — Ele gemeu na minha boca, enquanto suas mãos desciam por minhas costas e agarravam minhas nádegas com vontade, automaticamente me mexi sobre seu colo, derrapando nossas intimidades e fazendo nosso sangue esquentar. — Por favor, deixe-me ao menos te tocar. Como gostamos de fazer, um passo de cada vez.

Não era exatamente esse o combinado? Por que esse homem está perdendo tempo me pedindo?

— Hmmmm… — Mexo-me sobre seu quadril pensativo, resfolegando com as sensações intensas. — Quero sua boca.

— Caralho, Icarus… — Ele geme em resposta, queria sentir sua cavidade quente em mim, como tantas vezes lemos nos livros proibidos. E este era um passo adiante que gostaríamos de dar. — Seu desejo é uma ordem para mim, meu lindo.

Ele não tardou a desabotoar minha calça e com vontade trouxe meu íntimo para fora que ansiosamente já se encontrava duro e úmido, desejando ser tocado. Só esse simples contato faz meu corpo se arrepiar inteiro. E antes que começasse, tirou minha blusa, deixando-me praticamente nu em seu colo.

— Você é lindo, Icarus. É perfeito. E não preciso enxergar para ter certeza. Você não precisa se sentir inseguro comigo. O seu corpo é só um detalhe, estou mais preocupado com o que ele guarda por dentro, pois foi por essa parte que realmente me apaixonei, e minhas palavras ganham mais força levando em consideração o fato de que sou cego, meu bem. — Foi o que meu Conde disse enquanto seus dedos longos desciam do meu peitoral até meu abdômen e por fim agarravam meu falo teso, com vontade. E como acredito nele, minha santinha, ele está cem por cento correto. — Fica de joelhos.

Imediatamente me ajoelhei com minhas pernas lado a lado de seu quadril, fazendo aquela parte ficar diante de seu rosto. Heinrich colou o lado esquerdo do seu rosto na minha virilha, apertou minhas nádegas trazendo-me mais para si, fazendo-me roçar em sua bochecha, subindo e descendo. Ele gemia ansioso em resposta enquanto para mim só me restava tremer de ansiedade e o observar aqui de cima.

— Quero que tome a minha boca até se derramar inteiro dentro dela. — Sua fala me pegou de surpresa e arregalei meus olhos.

— Heinrich! — Gemi extremamente alto e surpreso quando sem mais cerimônias ele abocanhou-me, deslizando seus lábios até a base enquanto uma de suas mãos me puxava mais para si, fazendo-me enterrar inteiro dentro da cavidade quente, viscosa e macia.

Vi o céu e o infinito, enquanto me mexia, para frente e para trás, invadindo e investindo contra o músculo da sua língua. E não é que de uma maneira ou de outra, acabamos fazendo sexo? Mesmo que não fosse do jeito que ele realmente queria. Mas foi do jeitinho que eu quis, que permiti, dentro dos meus limites, respeitando-me. E foi igualmente bom, como teria sido de tivéssemos feito de outra maneira.

Sexo com o meu homem sempre vai ser extraordinário, não importa de que maneira seja consumado, desde que respeitemos os limites um do outro.

Eu tremia inteiro, clamando pelo seu nome, agarrando seus fios com força enquanto meu quadril ia e voltava num ritmo insano. E sim, me derramei intensamente em sua boca enquanto, assim como prometido, ele engolia cada gota do meu prazer.

E enquanto me derretia em sua cama, totalmente cansado, ele não pediu para fazer nada. Apenas comentou que eu poderia retribuir outro dia. O que faria de fato.

Isso era amor. Respeitar-se. Importar-se um com o outro. A cada segundo ao seu lado, me mostrava o verdadeiro significado de ser amado.

— Eu posso te esperar o quanto for preciso, meu pequeno. Portanto, não tenha pressa, quando estiver pronto, tudo vai acontecer naturalmente. — Ele disse me enchendo de beijinhos enquanto apertava-me contra seu corpo. — Tudo vai ficar bem. Prometo.

E agora abraçados e resolvidos, conseguia confiar e acreditar no meu Heinrich.


[1] A Ilha Anjou está localizada próxima ao estado do Rio de Janeiro, a cerca de 483 quilômetros a leste da costa do sul da América do Sul. É uma criação fictícia para o enredo da estória.

[2] Laélia Purpurata é uma orquídea endêmica do sul e sudeste do Brasil.

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