CAPÍTULO VINTE
Coloco uma máscara para te encontrar
Sexta-feira, 5 de Maio de 1899
Aproximadamente às 9h
Propriedade do Conde de Anmak
— Vocês vão gostar! Essas casas são bem confortáveis, além de grandes o suficiente para uma família com vários filhos, já que contamos com três quartos. Ou seja, poderão viver aqui para sempre se precisar. — Ryu dizia enquanto guiava eu e a minha futura esposa até uma das casas atrás do casarão, as que são destinadas aos empregados.
Era seu presente de casamento – do Conde para mim e minha noiva. Generoso, não?
— Ainda penso em viver na minha casa, Sr. Oshiro, lá no vilarejo. — Kassia diz toda tímida como é, sei que ela quer viver lá, mas não será possível.
Primeiro, não tenho planos de viver longe do meu Heinrich, e, segundo, é muito mais perto do meu trabalho. O Conde precisa de mim o tempo todo devido a suas limitações. E sabemos que esse é o menor dos meus motivos para ficar.
Entretanto, aqui é mais longe do trabalho dela, mas nada que não possa ser resolvido com uma carroça ou cavalo. Por fim, estávamos divididos, embora pouco falássemos a respeito.
— É realmente maior do que a minha. — Disse, parecendo cogitar aceitar a oferta após entrar na casa e andar por alguns cômodos, apenas fiquei ali na cozinha observando a paisagem que tínhamos da floresta que nos rodeia. — O que você acha, Icarus? — Ela se vira para mim, parecendo animada.
Inicialmente pareço surpreso, depois raspo a garganta e caminho até a sala analisando tudo. Bem, já que finalmente pediu minha opinião, estava na hora de a expor.
— Eu gosto da casa. É perfeita. Mas… Kassia, sei que não conversamos sobre isso, contudo. Eu realmente não posso mais viver no vilarejo, o Conde precisa de mim. — Explico e ao invés de vê-la ficar decepcionada, ela demonstra compreensão ao anuir devagar em concordância.
— Viverei onde você achar melhor que vivamos. — Conclui e em seguida olha para Ryu. — Acredito que isso significa que vamos ficar com a casa.
— Está tudo bem mesmo? Podemos usar sua casa como mais uma renda extra. — Torno a falar com ela, com medo que esteja satisfazendo minhas vontades e ignorando as suas.
— Está tudo bem de verdade, Icarus. Gosto daqui. É um lugar seguro. Eu posso ter um jardim maior para minhas ervas medicinais. Tem espaço para as crianças crescerem. — Ela diz sonhadora enquanto quase tenho um infarto quando fala ‘crianças’.
Não. Não. Isso não vai acontecer. Todavia, acredito que seja assustador demais já lhe dizer que não quero filhos tão cedo, mais especificamente nunca.
Filhos só me prenderam mais a ela, coisa que para nosso bem é melhor que não aconteça.
— Acho melhor deixá-los a sós para discutir sobre isso. — Ryu diz diante do clima tenso, depois vem até mim e deixa as chaves nas minhas mãos, dando-me um aperto no ombro de modo a me passar algum conforto. — O Conde foi bem claro, a casa agora é de vocês. Por isso, podem decidir calmamente. Ainda têm alguns dias antes do casamento.
Assim Ryu nos deixa e meu único olhar é de tristeza, Heinrich tem me evitado e isso machuca nós dois. Por mais que tenha me apoiado, a realidade é outra. Minha decisão nos fere a ponto dele não suportar minha presença. O respeito e entendo, mas continua doendo.
Abrir mão dele e de nós… não consigo ver onde acertei na minha escolha. Ficar longe dele só está me machucando mais. E essa casa me faz pensar no fato claro de que ele está me afastando o máximo possível.
— Você… ainda pode desistir, Icarus. — Kassia quebra o silêncio e meu rosto se ergueu para encarar os seus. Ela luta para não chorar, seu rosto está vermelho, os olhos igualmente. E isso também dói, saber que também estou sendo a causa da dor dela.
— Não tenho motivos para desistir, Kassia. — Respondo firmemente, tentando passar a confiança que não tenho.
— Para de mentir para nós dois!
Arregalo os olhos quando ouço sua voz alterada.
— Kassia, e-eu..
— Eu não sou idiota, Icarus. Vejo o quando está odiando tudo. Você sequer consegue olhar para mim. Eu sei muito bem que não devo exigir nada, mas como pode se casar com uma mulher que não consegue sequer encarar seu rosto? — Consigo notar nitidamente o nó que sufoca sua garganta. Meus olhos apenas encaram os seus, tão espantado quanto, sem saber o que dizer. — Todas as escolhas sobre o casamento visivelmente te machucam. Você está tão infeliz que tudo isso parece mais um velório.
Sua voz falha quando repentinamente desabafa e vejo seu queixo tremer, Kassia me dá as costas no momento que as lágrimas explodem e finalmente escorrem pelas maçãs de seu rosto. Ouço um soluço e me encontro estático. Paralisado. Ciente de que estou quebrando mais de uma pessoa com essa história.
Saber que faço nosso casamento parecer fúnebre é ainda mais chocante, já que deveria ser o momento mais especial da vida dela. Ao menos da vida dela…
Porém, não voltaria atrás e farei o que for preciso para que a dor amenize para os dois.
— Kassia, por favor, não chore. Eu sinto muito, de verdade. — Tento dizer, mas a vejo negar ao balançar a cabeça ainda de costas para mim.
— Icarus, eu não escolhi isso. Garanto-te que não queria lhe causar dor. Sempre fui a tola garotinha que sonhava com contos de fadas, com um homem que me amaria de verdade. Mas a minha realidade é totalmente contrária.
— Você quer que te livre de se casar comigo? Pois, se for o caso, posso resolver isso facilmente.
— Não. — Ela diz baixo e finalmente se vira para que encare seu rosto imerso em lágrimas. — Eu gosto de você, Icarus. Só dói demais saber que não me vê assim. Isso me faz ter medo de que nunca me amará, mesmo casados.
No fundo, conseguia entender seus sentimentos. Receava que eu nunca me apaixonasse por ela e fico impressionado com a sua capacidade de compreender esse fato. Eu nunca, nunca mesmo a amarei como amo Heinrich Vollard. E jamais poderia confessar isso para a mulher diante de mim, não aguentava mais feri-la dessa maneira. Não suportava mais ver meu Conde sofrendo. E essa dor… Ela nunca vai passar. Vai estar sempre apertando meus pulmões, me sufocando.
Por isso, faço o que está ao meu alcance, o que meus instintos me dizem para fazer. Em passos rápidos e longos me coloco diante de Kassia. Ela fita meus olhos um pouco receosa e eu encaro os seus. Não poderia dizer em palavras, não sou capaz de mentir para ela assim.
Escolho passar a confiança que precisa com atitudes. Seguro sua mão e trago-a suavemente para mim, primeiro a mão esquerda em sua cintura e depois a direita; e aproximo meu rosto do seu, seus olhos grandes observam tudo respirando pesadamente e ela realmente não imagina que eu vá até o fim. Mas vou.
Encosto meus lábios nos dela e calmamente início um beijo. É inicialmente casto e lentamente toma intensidade.
E bem, eu não sinto absolutamente nada.
É como se meu coração parasse naquele momento, como se eu fosse outra pessoa que não fosse o Icarus do Heinrich.
Torno-me o Icarus de Kassia, qual está fazendo isso para que pare de sofrer.
Enquanto ela sente tudo, por nós dois. Seu coração bate forte, acelera ao ponto de me fazer conseguir senti-lo e ouvi-lo. E ela é tão tímida enquanto me beija, me faz finalmente perceber que é seu primeiro beijo e tento ajudar da maneira que consigo.
No final das contas não é tão ruim, foi um beijo bom, só não tinha sentimentos dentro de mim. E não dura muito, já que ela precisa respirar. Já eu, poderia segurar o ar dentro de mim até causar minha morte.
Quando nos afastamos, ela me olha nos olhos e completamente em choque leva sua mão até seus lábios, tocando-os com delicadeza. Eu sei qual é essa sensação de pela primeira vez na vida ser beijado pela pessoa que gosta.
E funciona. Ela sorri minimamente e não diz mais nada.
Beijar Kassia não era horrível a ponto de me fazer querer morrer, o que é horrível é o fato de beijar outra pessoa sem ser o homem que eu amo; me faz querer morrer e não posso evitar desejar isso.
Contudo, poderia aguentar. Não era o fim do mundo, principalmente se usasse uma máscara e vivesse com ela quando estivesse diante dela.
Eu sinto muito, Kassia, mas é o máximo que posso oferecer. Era desconfortável, mas necessário.
— Vamos, minhas irmãs vão me matar se nós demorarmos mais. — Digo segurando sua mão e ela concorda quando saímos juntos.
Caminhamos calmamente até a entrada do casarão onde meu pai esperava-a com minhas irmãs na carroça. Ryu está conversando com ele e seus olhos caem sobre nossas mãos entrelaçadas.
Antes de subir no veículo, Kassia me dá um selar de despedida, agora que quebramos essa barreira e a coragem lhe apareceu. Sorridente e com minhas irmãs quase gritando de alegria, acena-me enquanto se distancia. Ela está feliz e esse é o único conforto que sinto.
Sei o que Ryu está pensando, como claramente tudo isso vai acabar mal.
Quem vai se machucar mais?
Heinrich, Kassia ou eu?
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Os próximos dois dias não diferiram, o Conde me mantinha ocupado demais com afazeres fora do casarão. Ficava o dia todo o mais distante possível de mim e contando com os últimos dias, já eram quatro dias consecutivos sem falar com ele. Não o via nem de longe, já que evitei até mesmo as refeições que tínhamos juntos.
A situação era tão pesada que até Dalva começou a reparar que tinha algo errado, mas por fim se deu por vencida com o fato de que eu poderia estar preocupado com meu casamento.
Não demoro a ficar ansioso para finalmente saber quando o Conde tornaria a falar comigo. Eu sentia saudades dele inteiro e o sexo era o de menos. Sentia saudades de olhar para ele, de ouvi-lo rir, contar suas histórias enquanto eu escrevia, ler para ele. Tudo. O seu calor, a sua voz… Sentia falta da sua existência e não tinha nada que pudesse ser feito para aproximá-lo de mim. Precisava respeitar seu espaço, sua dor. Enquanto isso meu casamento seguia sendo preparado, cada dia mais próximo de acontecer. Por isso, me vi obrigado a pensar na realidade que me esperava.
Não poderia fugir do fato de ter relações sexuais com minha esposa e isso me preocupava, já que não sinto desejo por nenhuma mulher. Sem falar que tinha toda a questão de moças serem virgens e toda uma delicadeza necessária. Sinceramente, meu pavor era ter que fazer isso com Kassia e se pudesse não fazer, não faria. Mas ela não merecia isso…
E sei o quanto a machucaria ser rejeitada. Era necessário fingir e para isso é preciso ter maestria. Questiono-me quantos homens no mundo são como eu e casados também, precisando viver uma vida de farsa porque não podem ser quem realmente são e tão pouco amar quem eles gostariam.
Heinrich viveu assim por anos e ele era meu espelho, era nele que buscava força. Mas em sua ausência, era preciso recorrer a outra pessoa e esse alguém era meu único melhor amigo, qual me entendia por completo. Ryu Oshiro.
Dois dias antes do meu casamento, sequestrei Ryu de seus afazeres e o arrastei até a Praia que o Conde e eu chamávamos de nossa. Após deixar os cavalos presos a uma árvore, nós dois nos sentamos no meio da praia e ali ficamos observando o mar enquanto meu amigo sanava todas as minhas dúvidas.
Na verdade, não perguntei tanto. Apenas expliquei que não sabia nada sobre o corpo de uma mulher. Assim, ele me disse o que precisava saber.
— Seja paciente e sobretudo carinhoso. Nem tudo é só chegar se enfiando, não. As mulheres não gostam disso, a não ser que te peça. Tem toda uma preparação antes de finalmente penetrá-la. E não comece forte demais, vá devagar, a deixe sentir, gradualmente vá aumentando a velocidade, conforme sentir permissão ou ela ceder. Torture-a, no sentido positivo e prazeroso do ato. Deixe-a implorar. Normalmente elas preferem ser tocadas primeiro, admiradas como uma obra de arte, com carinho e desejo. Explorar, sabe? — Ele dizia e mesmo com Ryu sendo tão claro, não conseguia imaginar como faria isso em minha esposa. Sequer me considero capaz.
— Não, na verdade, não sei, Ryu. Não sei nem se conseguirei ficar… Hm, você sabe. — Resmungo, mas, no fundo, estava surtando de preocupação.
— Duro? — Ele completa, só para ter certeza.
— É. — Minha santinha, que vergonha.
— Se você não ficar excitado com ela, precisa pensar em algo que o deixe assim. Não é difícil, você tem motivos de sobra. — E eu sabia o que ele queria dizer com isso.
Minha mente seria capaz de trair Kassia dessa forma? E pior ainda, trair meu Conde enquanto me deito com outra pessoa? Não teria jeito, se eu não ficasse rijo por causa dela, teria que usar o Heinrich a meu favor. E se quisesse que esse casamento desse certo, teria que trair meu Heinrich. Não por vontade. Meus desejos, nossos desejos… já não eram mais prioridades para nós dois.
— Olha, Icarus, sua realidade é essa. Consigo compreender seus motivos por estar fazendo isso, vejo o quanto se esforça para não machucar essa garota. E me pergunto o tempo todo por que você não desiste dessa maluquice, mas não sou você e se persiste nisso tem suas razões, como seu amigo confio totalmente que são plausíveis. Sua realidade é essa, ponto final. E sinceramente, se for necessário, imagine sim, o Conde, só tenha cuidado. E por favor, não a faça sofrer. Ela não merece. Ela não tem culpa. Toque-a como se ela fosse ele, por que merece ser tocada assim e acreditar que esses toques são para ela. Kassia não precisa saber da verdade, Icarus. Não precisa. — Oshiro parecia realmente preocupado com minha futura esposa.
Ele estava certo. Coberto de razão, da cabeça aos pés.
Minha realidade é uma droga.
Era complexo demais e tinha uma parte de mim que concordava com Ryu. Mas eu devo fazer esse casamento ser real, tenho que fazer todo o sacrifício valer a pena, então teria que me submeter a isso. Por isso, concordo com meu melhor amigo. Não poderia estar nos braços do homem que eu amo, mas poderia fazer Kassia se sentir amada, mesmo que fosse mentira.
E quem é que não mente? Todos escondem seus segredos, todos possuem sua máscara e por mais que se esforce muito, não tem como fugir.
Foi nesse momento que percebi que amar Heinrich implica em ser mentiroso. Não para o mal, era uma mentira necessária e mesmo que estivesse só com ele, precisaria continuar mentindo, para nos proteger.
E foi assim que a mentira se tornou parte de quem sou. E tive que aprender a aceitar isso.
— Você está certo, Ryu. Farei isso, pode confiar em mim. — Digo-lhe, encarando o oceano à minha frente. Após pouco refletir, mais dúvidas vieram. — E se eu… tocá-la do modo errado?
— Bom, tente ser sutil. O corpo dela é sensível como o seu, embora sejam de sexo oposto. Mas você sabe a intensidade que gosta de ser tocado e use isso ao seu favor. Porém, acho mais prático perguntá-la como gosta de ser tocada, pedir que te ensine, sabe? Também é válido perguntar se está sendo bom, como ela está se sentindo. Não precisa ter medo, não é um monstro e sim uma mulher. — Ryu fala tudo com tanta sabedoria que me deixa impressionado. Até me faz pensar que vai ser fácil.
Após ditar tudo o que tenho que fazer e tudo que acontece, fico mais aliviado em não ir totalmente cético para esse momento. Kassia não tinha culpa de nada e no mínimo merecia um bom homem que a fizesse sentir amada. E sei como as mulheres têm expectativas de serem bem tratadas e desejadas nesse momento, por várias vezes acabei ouvindo minhas irmãs falando sobre isso.
— Se nada der certo, sei de uns truques. — Ryu acaba por rir, descontraindo o momento e trombando meu ombro do seu.
Olho desconfiado para ele.
— Truques? Ryu! Você é muito safado. Como você sabe essas coisas todas? Já esteve com tantas outras mulheres? — Fui direto ao ponto e o sorriso do mesmo falhou gradualmente. Quando vejo sua felicidade se desmanchar, concluo que algo ruim aconteceu.
— Não foi porque queria. Na verdade, só estive dentro de uma única mulher, a minha esposa. Anos depois que nos casamos. — Ergo as sobrancelhas surpreso quando ele me releva, mas sabia o que tinha acontecido. Liana ficou grávida do abusador e consequentemente traumatizada. Ryu precisou ajudá-la a desconstruir essa dor aos poucos, até que fosse capaz de vê-lo como ele é, o homem que ama de verdade e jamais a machucaria. — Mas… lembra que fui escravo por muito tempo antes do Conde comprar minha liberdade?
Balanço a cabeça concordando, ele havia me contado isso.
— A mulher que eu servia e suas filhas costumavam… hm… me obrigar a fazer coisas e não podia falar para ninguém. Como elas tinham medo de ficarem grávidas, não me obrigavam a penetrá-las, mas faziam dezenas de outras coisas que… Ninguém precisa saber. — Ryu cutucava a areia úmida com um pedaço de galho, perdido em memórias sombrias. — Era horrível, Icarus. Horrível! E muitas das vezes só conseguia ficar muito assustado, era só um adolescente ingênuo. Consequentemente, não ficava excitado como elas desejavam e era preciso que fizessem coisas para meu corpo reagir. Não é a mesma coisa, não sentia prazer como sinto com a Liana. Mas é como se você tocasse do jeito certo e consequentemente causasse um resultado. Claro, elas só faziam isso depois de rirem e me humilharem o suficiente… Concluindo, tem pontos em nossos corpos que se bem estimulado poderá resultar em uma ereção, mesmo que você não a deseje e poderá levar até o êxtase. Bem, sou grato por isso, pois quanto antes conseguissem o que queriam, mais rápido me deixavam em paz.
— Ryu… — Mordo meu lábio sentindo que poderia começar a chorar a qualquer momento, sem saber o que dizer e com medo, apenas o abraço com força.
Não poderia imaginar como se sentia. É absurdo pensar que existam “pessoas” que se achem no direito de violar nosso corpo. Não desejava isso nem mesmo para meu pior inimigo.
Eu não queria estar com Kassia, mas também não queria chegar a esse nível de forçar meu corpo a fazer algo que claramente não quero. Logo, a sugestão de Ryu não era válida para mim. E embora seja triste demais e deixe-me com raiva dessas mulheres, fico grato por confiar tanto em mim para me revelar suas memórias mais sombrias.
— Está tudo bem, Icarus. Tudo isso é passado, já superei. Não vale a pena, sabe? Escolhi seguir em frente e é isso. O passado é apenas uma cicatriz que não posso apagar, mas que já se cicatrizou. Hoje, sou tão feliz que não tem mais espaço para esses fantasmas. — Ele retribui o abraço e depois nos afastamos. — Não pensei que poderia ser tão a favor de um romance entre dois homens, no entanto, aprendi a amar vocês dois de um jeito inexplicável. E vê-los como são: humanos. Merecem o amor, sei que vocês vão dar um jeito de ficarem juntos e você ainda vai ser feliz, baixinho.
— Está tentando me fazer chorar, senhor grandão? — Empurro o ombro do japonês dessa vez, fazendo-o rir quando percebe o quanto a última palavra me afetou, embora eu seja apenas pouquíssimos centímetros menor que o citado. E ele empurra meu ombro de volta, risonhos repetimos isso mais algumas vezes até que paramos. Nos encaramos quando digo: — Obrigado, Ryu. Por tudo.
— Saí pra lá, sem essa de obrigado, moleque. Nós somos amigos. Você sabe que pode contar comigo sempre. — Ele diz com seu sorrisão de coelho.
— Mesmo assim, preciso agradecer, você faz por mim o que ninguém faz e é tão bom poder me sentir normal conversando abertamente sobre quem eu sou. — Enquanto digo enfio a mão no meu bolso da calça e pego a pulseira de conchas que um dia pertenceu à Ingrid e agora seria da única pessoa que mostrou ser verdadeiramente meu amigo. — Quero que fique com isso.
Pego o pulso dele e encaixo a pulseira ali.
— É especial para mim. Em símbolo da nossa amizade. Tenho uma igual. — Pego a minha no meu bolso e coloco também. Mostro-lhe que tem a outra metade da minha concha. — A concha maior é a que protege a menor. E você é a minha concha maior, Ryu Oshiro. Você me protege e me ajudou em todos os piores momentos que enfrentei nos últimos tempos.
— Isso é tão bonito, Icarus. Agora sou eu quem vou chorar. — E de verdade, Ryu possuía lágrimas nos olhos. — Mas isso está errado, penso que nós revezamos, porque você me ajuda demais também.
Um sorriso se abre no meu rosto e céus, me sinto tão feliz por saber disso. Quando imaginaria que teria um amigo tão sincero quanto Ryu? Quando estava com ele, sentia no meu coração uma alegria quentinha. Esse japonês é tudo para mim.
— Está bem, nós revezamos. Você é minha amizade de alma gêmea. Por isso, é a metade da minha concha, às vezes a concha maior, às vezes a concha menor.
— É, eu sou sim. Mas se continuar com esse papo emocional te jogo no mar, moleque. De roupa e tudo. — Ele tromba de novo contra meu ombro e caio na risada.
Naquele dia nós conversamos até a noite cair e nos obrigar a voltar para casa.
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Quando acordasse no dia seguinte, seria o dia do meu casamento. E acredito que a pior coisa não era mais o fato de me casar e sim a realidade dolorosa de que eu e o Conde havíamos chegado ao fim. Estávamos a praticamente sete dias sem nos ver ou falar, o recado era excessivamente claro. Ele não me queria mais.
E entendia seus motivos. A primeira certeza que tenho é que pediria demissão após o casamento acontecer, Kassia e eu podemos viver no vilarejo e posso trabalhar na biblioteca que herdei de meu falecido sogro. Mas viver assim só machucaria nós dois e isso já seria abuso demais. Era melhor simplesmente seguir em frente como se nada estivesse acontecendo.
Já de noite, terminei de juntar minhas coisas. O Conde havia dito para Ryu que eu podia manter meu quarto no casarão como se fosse meu escritório. Mas mesmo assim, com pesar na minha alma, optei por abandonar o recinto de vez e levar tudo para minha nova casa, por tempo contado. Já que minha decisão não me permitia viver na casa presenteada pelo Conde.
Como estava tarde, os empregados já estavam em suas devidas moradias e o Conde muito provavelmente havia ido dormir. Logo, saí do casarão de uma vez por todas e caminhei até a casa que iria viver com minha esposa. Só a casa de Oshiro ainda possuía uma lamparina acesa, mas o que me chamou atenção foi a luz fraca que vinha da minha.
Alguém estava ali.
Eu tinha visitas.
Entro no local já em estado de alerta, tentando imaginar quem poderia ser. E a resposta vem rápido, quando me aproximo do cômodo onde as luzes das velas de um candelabro dança suavemente e quase caio para trás assustado ao me deparar com sua figura parada no meu quarto.
Ele.
Meu amor. Meu homem. Meu Heinrich.
Meu coração se acelera tão fortemente que parecia que iria esfarelar minhas costelas. Depois de uma semana, sinto que estou tão vivo quanto nunca.
— Sabia que viria. — É a primeira coisa que diz, mas não é o que esperava ouvir depois de tanto tempo sem sequer vê-lo.
Meu deus, meu coração… essa voz, meu deus… estou vibrando de dentro para fora, meus ossos tremem e minhas pernas fraquejam. Meus olhos marejam só de ouvi-lo. Seu cheiro invadiu minhas narinas e me desperta memórias incontroláveis. Seu corpo, sua pele quente, seu coração disparado, seus olhos sobre mim, suas mãos tocando minha derme.
E percebo, Heinrich é meu maior ponto fraco. Ele é meu fim. A saudade física.
— Estava me esperando?
— Sim, eu estava. — Ele toma o restante do vinho dentro de sua taça e a deposita sobre a mesa de cabeceira ao lado da cama. Posteriormente, virou-se devagar, para finalmente encarar o local de onde vem minha voz. — Desculpa. Precisava de um tempo para pensar. Pensei que reagiria melhor, mas infelizmente, não dá. Eu te amo demais para simplesmente fingir que está tudo bem.
Engoli seco, estremecendo. Arrepiando-me dos pés à cabeça. Com medo do significado dessas palavras.
— E-eu… entendo. Você estava certo em tomar o tempo que precisava. Não é de ferro, Heinrich. E não tenho o direito de te machucar assim. — Digo, com minha voz falha. — Se está me deixando, só me resta tornar as coisas mais fáceis possíveis. Por isso, gostaria de pedir a minha demissão.
— Não. — Ele responde na mesma hora. Duro, rude, bravo e com certeza inconformado. — Não, eu não aceito esse pedido! Você vai continuar sendo meu funcionário, Icarus.
— Mas Heinrich-
— Como ousa, seu desgraçado! — Ele avança, enfurecido e de repente me agarra pela blusa, fazendo-me tremer ainda mais. Minha santinha, as minhas pernas vão falhar. — Como ousa pensar em me deixar? — E ele praticamente grita.
Encaro seu rosto em total choque sem entender, mas meu chão caí quando Heinrich chora, ele realmente pranteia e me puxa para si com todas aquelas lágrimas se fazendo presente.
— E-eu pensei que… q-que… não me quisesse mais. Que tivesse percebido que não dava para aceitar isso. — Confesso e toda minha dor exala pela minha voz.
— Por acaso você é burro, Campelo? — Embora dito brutalmente, não foi na intenção de me xingar ou humilhar. — Havia dito da forma mais clara possível que te aceito como você estiver. E isso não mudou, Icarus.
Um alívio imenso percorre meu corpo e um violento tremor me doma. Ele não desistiu de mim. Ele me ama. Me quer. Ele ainda me quer.
— Mas eu precisava pensar em uma solução e por isso me afastei. Quando me dei conta, pensei demais e já estava diante do dia do seu casamento. — Ele revela e isso me faz sorrir minimamente.
— E no que você pensou? — Quis saber.
— Em como reverter essa situação para que seja só meu. Mas infelizmente, por enquanto, terá de ser assim. Você precisa se casar. — Ele diz e apenas concordo, não tinha como fugir. Nem o Conde sabe como impedir essa desgraça, por isso, apenas confio nele.
— E qual a solução? — Insisto, curioso demais para saber quando finalmente serei dele por completo.
Heinrich não fala nada, pelo contrário, sua mão vai direto para o meio de minhas pernas e ele agarra meus testículos, apertando-os com gentileza, fazendo-me soltar um gemido extremamente alto de surpresa. O que isso significa?
— Primeiro, teremos nossa última e definitiva despedida digna. Depois falamos sobre isso, ok? — Ele ordena, todo autoritário com a voz rouca no meu ouvido, o hálito quente de vinho batendo na minha pele.
— Sim, senhor. Me diga o que quer que eu faça e o farei. — Me rendo totalmente.
— Ah, Icarus. Eu quero te sentir hoje. — E sua revelação me faz pulsar, meu membro fica ereto na hora e com sua mão ainda ali ele sobe mais o tato até segurá-lo ainda coberto. — Você vai me foder exatamente como você vai foder sua esposa. Exatamente nesse cômodo e nessa cama. Pra você se lembrar de mim quando estiver com ela, pois não admito que seja de outra maneira, entendeu?
A proposta era suja demais, mas não tinha condições de lhe negar absolutamente nada. E tendo em vista que ainda não sou casado, não havia nenhum peso em minha mente.
Heinrich começa literalmente rasgando minha camisa de botões, os fazendo voarem no quarto ao ter o pano forçado desse jeito. Pela janela aberta entrava uma brisa fresca de uma noite de outono, por isso as persianas amareladas dançavam sutilmente e o sopro suave beijava minha pele nua.
— S-sim, senhor. — Por fim, concordo prontamente, engolindo seco, cheio de expectativas.
— Como pensa que sobrevivi todos esses anos com a Gina? — Ele puxa meu cinto para fora dos passadores da minha calça, seguidamente continuou: — Foi pensando em você, Icarus. Você me dava forças para fazer um papel de bom marido. E eu te imaginava quando estava com ela. Eu sei, é doentio. Mas vejamos, fomos amaldiçoados a viver assim, porque a droga da sociedade nos obriga.
É o que nos restava, precisávamos ferir nossos próprios princípios, mais especificamente excluí-los da nossa existência.
— Mas agora, chega de pensar nisso. Esquece essa porra de casamento, Icarus. E foca só em mim. — São suas últimas palavras antes de se ajoelhar na minha frente e por fim abaixar todas as peças de roupas do meu quadril pra baixo.
Com minha nudez, meu falo rijo salta envergando de tanto tesão que se acumulou em poucas ações. Seguidamente ele segura minhas coxas e sinto sua língua subir por uma delas até minha coxa interna onde dá leves chupões provocativos e mordidas que não marcam. E já imagino o motivo por ser cauteloso quando, na verdade, tem o costume de me deixar bem marcado. Imediatamente evito pensar sobre isso, principalmente porque ele me pediu.
Tranco tudo num quarto escuro da minha mente e permito que faça o que deseja. Sua boca quentinha abriga meus testículos, seguidamente subindo da base até a fenda úmida onde se demora, chupando-me do jeito mais caprichado possível. Fazendo-me segurar seus fios de cabelo e meter contra sua boca com força, conforme me permite.
O Conde não me deixa alcançar meu êxtase, entendo isso quando para e volta para minha boca onde o recebo num beijo intenso. E aproveito os lábios que tanto senti saudades, o calor delicioso. Tudo nele me provoca.
Aos beijos, nós vamos para cama, me pego apressado para tirar sua roupa e vejo uma brecha para estar no comando. Como não sou bobo, aproveito-a. Quando ele está nu, o empurro sobre a cama e nós dois caímos sobre. Fico por cima de seu corpo, agarrando-o, apertando-o com força.
— Caralho. Faz logo, Icarus. — O Conde implora.
— Diz com todas as letras. — Exigi, igualmente faz comigo. E ele grunhe bravo, mantendo sua pose de durão. — Diz logo, senhor! Diz o tanto que quer que eu te devore.
— Desgraçado! — Ele me pega pelo pescoço, trazendo meu rosto para próximo do seu. Fazendo-me encarar seus olhos que exalam a mais pura luxúria. É tão fácil provocá-lo. — Fode a porra da minha bunda, Campelo! Mete logo esse caralho!
O calo com um tapa em sua cara, embora meu sorriso seja de pura satisfação. E não, não era uma agressão, pelo contrário. Ele gostava. Tanto que me pedia várias vezes durante o sexo. Não era nada forte demais, era apenas uma afronta. Recebo seu sorriso cafajeste e afasto sua palma, beijo o lado bofeteado e depois sigo até seu pescoço marcá-lo com um chupão bem forte.
Desejo com todas as minhas forças que ele se lembre dessa noite por vários dias. Por isso, dou o meu melhor para ser inesquecível.
Minha boca não para e desce até seus mamilos amarronzados. Os chupo com carinho, fazendo-o se derreter inteiro e gemer ainda raivoso.
— Você trouxe, amor? — Pergunto e ele sabe do que me refiro.
— Sim, está no bolso da calça. — Heinrich responde trêmulo enquanto observo as reações de seu rosto, meu polegar brincava com seu mamilo sensível e úmido pela minha própria saliva.
Levanto-me apenas para pegar o pote de óleo de lavanda no bolso de sua calça e assim que o encontro, não perco a oportunidade de encarar seu corpo nu pouco iluminado pela lamparina amarelada e reparar em cada detalhe que adorava.
E como eu o amo.
Com todas as suas cicatrizes.
Elas pareciam combinar tanto com as minhas.
— Pare de me olhar tanto e não perca mais tempo. — Ele me surpreende ao dizer.
— E como sabe que estava te encarando? — Indago enquanto retorno sobre seu corpo.
— Sinto minha pele queimando com seu olhar de desejo. Você tem que entender, Icarus, você me faz sentir coisas demais. É tão fácil te decifrar agora. Você é o melhor livro que já li. — E confessa um tanto romântico. E me pergunto se sou tão fácil assim de ser compreendido.
— Você está falando demais, Conde. — Finjo reclamar enquanto afasto suas pernas, devidamente lambuzado e pulsando de desejo, guio-me até sua entrada apertada. Raramente o Conde me deixa com tanto controle assim, portanto, tenho que aproveitar e dar o meu melhor. — Vamos ver se assim você fala menos e geme mais.
Enfio nele, inteiro. E naquele momento que geme doloroso e agarra minhas nádegas para afundar-me o máximo possível, tudo se quebra ao nosso redor. Com os olhos um no outro, nós encontramos aquela conexão forte em nossas almas interligadas.
E só enxergamos a dor que tudo isso nos causa. O fato irreversível de que hoje é a nossa última noite juntos.
Meto com força, domado pela mágoa em meu coração e ele geme descomunal pra mim, em sintonia com a minha satisfação. E nós dois gememos e choramos. Mas não paramos, nos entregando ao sentimento que nos envolve, enquanto o barulho das peles se chocando e queimando ardentemente prova a nossa mais sincera lamúria por sermos separados.
E não mudamos de posições, não quando ele me abraça tão forte e nós dois nos beijamos afobados. O mundo parecia estar acabando. E as lágrimas vem e ninguém mais sabe quem é que está dizendo eu te amo, só sabemos que foi dito por ambas as bocas.
No final das contas, nós fizemos amor da forma mais dolorosa possível. Se despedindo.
E quando gozamos, é o momento mais difícil. Porque acabou. O que nos resta é nos abraçar e chorar por uma quantidade de horas incontáveis. E leva tempo para ficarmos calmos e tudo parece um sonho.
E se é um devaneio, me belisco para acordar agora. Mas nada acontece. E eu ainda estou aqui, me despedindo do homem que amo.
— Não sei se vou conseguir tocá-la. — Sussurro de repente, como se ele pudesse me mostrar uma saída para minha maior aflição. — É tão egoísta e injusto. Ela não merece isso. Nós dois não merecemos.
É que a vida nunca foi justa e ela cisma vez ou outra de nos lembrar disso da forma mais dolorosa possível. Eu odeio o que estou fazendo, quero que isso fique claro. Odeio ter que me casar com Kassia e arrastá-la para essa farsa. Nem ela e nem o Conde, merecem essas condições às quais estou os submetendo.
Todo esse drama me faz lembrar do que o próprio Heinrich me contou sobre ele e Gina… O fez escolher entre ela ou eu. E Heinrich escolheu ela.
Anos atrás ele tomou exatamente as minhas escolhas atuais. Também precisou afastar nós dois de alguma maneira. Mas encontrou o caminho para meus braços. Ele conseguiu.
— Você não precisa sentir culpa quando estiver com ela. Não ligue para o que disse anteriormente, Icarus. Não estará me traindo. Sei bem o que é estar casado assim; sei como pode se sentir péssimo e não quero isso. Não precisa ser assim, então… Só se permita entregar e sentir. E sim, é natural que consiga sentir prazer com ela, é natural que goste dela. E se por um acaso descobrir que ela é seu grande amor, irei entender e permitir… — Heinrich desabafa e isso me surpreende em níveis inimagináveis.
E nem preciso dizer o quanto me sinto irritado com isso. Não, era impossível que Heinrich não fosse meu grande amor. E nada, nem Kassia poderia mudar isso.
— Nós somos seres humanos, nascemos para amar e isso não nos limita em nenhum sentido. Podemos amar homens, mulheres ou qualquer outro gênero. Portanto, é natural sentir atração pelas pessoas, não importa como elas se pareçam ou o que são. Entende? — Eu entendia, mas não queria falar sobre isso. Estava claro demais para mim que, embora eu pudesse me atrair por outras pessoas, ainda sim, meu coração estava destinado a amar apenas uma. E esse é Heinrich.
— Meu grande amor sempre será você, meu coração não tem capacidade de amar outro assim, só você, Heinrich. Por favor, não diga isso e pare de se preocupar com meu casamento. Se você sobreviveu por tantos anos, não será diferente para mim. — Digo e ele só continua calado, com as pontas de seus dedos deslizando por minhas costas nuas, num carinho suave. — Kassia é uma boa mulher. Ela merece ser feliz e enquanto não puder ficar com você, me esforçarei para que, ao menos ela, seja feliz.
O Conde me surpreende com um sorriso simples no rosto e decifro isso, ele está orgulhoso de mim.
— É você vai fazê-la feliz, sei que vai. — Ele diz, tão certo sobre isso.
Um silêncio surge entre nós dois e tudo que podemos ouvir é o vento suave lá fora, fazendo as folhas das árvores balançarem, o barulho suave da natureza noturna, o sereno da madrugada caia singelamente sob as folhas. Se eu pudesse, eternizaria esse momento para que nunca chegasse ao fim.
Com o fim da madrugada, viria o dia em que me casaria e por sabe-se lá quanto tempo, não teria os braços de meu Conde novamente.
— Me dê dois anos. — Ele diz, de repente, quebrando o silêncio entre nós. E se ergue para me ver melhor. — Me dê dois anos, Icarus e te levo pra longe daqui.
— Como? — É o que consigo indagar totalmente surpreso. Do que ele estava falando?
— Em dois anos Raul assumirá meu lugar, você e eu forjamos uma viagem. Nós podemos recomeçar em qualquer lugar do mundo. Só nós dois. Forjo sua morte, envio uma carta para sua família alegando que você não sobreviveu a uma virose que atacou o navio. Após isso, seremos só nós dois e um mundo inteiro a nosso dispor. — Ele me segura pela nuca e cola nossas testas, olhando no fundo da minha alma através dos meus olhos. — Só preciso que espere dois anos, Icarus. Só isso.
Notando a seriedade por trás das suas palavras, não preciso pensar duas vezes para respondê-lo:
— Sim, eu te espero! — Digo afoito, me ajoelhando na cama, colando nossos lábios em selares desesperados. — Posso aguentar quanto tempo for preciso para finalmente estar com você, Heinrich. Tudo que faço é por você.
E ele me beija, de novo, mais forte, mais intenso.
— Vamos escrever cartas. — Ele diz de repente, empolgado. — Sim, ao menos uma vez no mês. Vamos escrever cartas um ao outro, podemos dizer qualquer coisa que estamos sentindo. Ryu pode me ajudar, ele está aprendendo a ler e escrever.
A ideia é boa, muito boa. Mas tenho medo de sermos pegos. Por isso, eu mordo meus lábios afoitamente pensando em como podemos manter o conteúdo das cartas em segredo.
— Com uma condição.
— E qual seria? — O Conde me olha curioso
— Assim que lermos, precisamos destruí-las. Podemos queimá-las. Ninguém pode ter acesso a isso, Heinrich. É perigoso demais. — Digo e ele pensa rapidamente, balançando a cabeça em concordância.
— Trato feito.
Após isso, ele ataca meus lábios de novo e fazemos sexo novamente. E de novo e de novo. Selando a promessa, nos despedindo do toque carnal e emocional que por muito tempo não teremos novamente.
Daqui em diante o tempo era o nosso melhor amigo, assim como poderia se tornar nosso pior inimigo.
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No dia seguinte, me caso. E não há nada que possa dizer, além disso. O Conde me deixou pela manhã, de forma que, quando acordei ele era apenas uma lembrança no assolado de madeira, em forma de botões espalhados por todos os cantos.
Botões… Nos tornamos meras lembranças quentes em detalhes. Como um sonho quente de verão. Uma ilusão projetada pela minha mente. E a minha única realidade era o sim que precisava dizer para a mulher extremamente bela diante de mim, no altar.
Vejo-me de frente ao espelho, trajando um terno bege, mas principalmente usando uma máscara cujo a vesti para ir até o altar. Recuso-me a chorar, sigo firme até o momento que mudaria tudo. Cogitando a todo momento, dar meia volta e correr para os braços do meu Conde, onde poderíamos morrer nos braços um do outro, mas pelo menos não teria que nos trair dessa maneira.
No entanto, sigo firme. A única parte do meu traje de noivo que jamais poderei me despedir. E preciso me lembrar das palavras de Julieta, da madame, de Bayo para simplesmente não sair correndo e fugir daquela loucura.
E eu a aceito com todas as letras ditas na frente da cerimônia simplista do meu casamento. E sorrio, exibindo uma felicidade que nunca existiu.
A verdade é que procurava o olhar de apenas um único convidado.
Heinrich.
Mas ele não veio.
— Sinto muito, Icarus. Ele se esforçou, mas não conseguiu vir. — Ryu diz durante a festa com a minha família, em seu jeito gentil de sempre.
E esse era só o primeiro dia de muitos que eu não teria mais Heinrich em minha vida.
[fim da parte um]
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