CAPÍTULO SETE
O Relógio
Aquele livro me chocava de um jeito que não sei explicar. Tinha dias que antes de dormir me remexia na cama por horas pensando no que aqueles dois rapazes fizeram. Às partes quentes faziam minhas bochechas ficarem ruborizadas e eu tropeçava nas palavras sem querer, nervoso demais por narrar isso em voz alta para o Conde.
A última cena quente foi dos dois em um vagão de trem, eles transaram às escondidas. Não é uma loucura?
A minha parte favorita foi a do espelho, quando o mais velho o tocou e o fez perceber o quanto o outro era bonito. Essa cena me desestruturou completamente. Tanto é que quando acabou, não conseguia olhar para o rosto do Conde. Senti muita vergonha, porque meu corpo teimou em reagir.
“Se precisar se aliviar, pode ir, Icarus. Não precisa ter vergonha, é uma reação natural do seu corpo”, disse o Conde certo dia. Mas, obviamente não me toquei. Não tinha esse hábito, na verdade, sequer me lembro de ter feito isso alguma vez. Sinto vergonha de tocar meu pênis com propósitos sexuais, portanto, preferia evitar.
— Você estava certo sobre uma coisa, Icarus. — O Conde interrompeu minha leitura para dizer, nós estávamos no final do livro, quando o casal se encontrava em uma época futurista onde é permitido casais do mesmo gênero. Uma época que nunca vai existir, eu imagino.
— Estava? — Indaguei surpreso.
— Eu também não acho certo dois irmãos de sangue se envolverem assim. Mas acredite essas coisas acontecem na vida real também, há diversos tipos de incestos, alguns até mesmo são permitidos em alguns países. — Não conseguia imaginar como era possível familiares se envolverem assim. Permaneci atento, ouvindo o Conde. — No entanto, nesse livro nós descobrimos que eles não são irmãos de sangue e esse é um dos pontos que me levam a perceber os motivos pelos quais os dois se apaixonaram. — Ele fez uma pausa mínima para direcionar seus pensamentos. — Primeiro, estavam destinados. Segundo, eles nunca foram de fato uterinos. Há uma diferença entre irmãos biológicos e afetivos. Como, por exemplo, meu irmão, Gilliard. Jamais poderia vê-lo de outra maneira senão como meu amigo, meu irmão, meu General. Já minha falecida esposa, além de ser a minha mulher, também era minha amiga, como uma irmã. Entende?
Os personagens tinham todo um sentimento familiar um pelo outro, mas acima de tudo eram dois homens que se amavam. E por não serem de fato irmãos, esse sentimento desabrochou ainda mais. Eu entendia agora… Fico feliz por não ter desistido dessa história.
— Agora entendo, senhor. — Falei assentindo e encarando o livro sobre minhas mãos.
A essa altura da leitura, os personagens principais, criados como família, descobriram que não possuíam nenhum laço de sangue. E mesmo que fossem o que eles sentissem, parecia anular qualquer traço fraternal, por deus, eles estavam tão apaixonados. Os momentos juntos eram tão intensos que… Não tem como fortalecer a ideia de que eram irmãos, pois eles se desejavam demais para isso.
Confesso que fiquei aliviado pelo mais novo ser adotado, não gosto nem de cogitar a hipótese de me envolver sexualmente com um familiar. Incesto está totalmente anulado para mim, não é algo que seja capaz de entender ou concordar, mas respeitarei quem praticar. Afinal cada um tem sua história, seu coração e seus amores.
— Senhor, se importa se pararmos a leitura mais cedo hoje? Sinto-me cansado. — Pedi, sem de fato sentir-me assim, mas sobretudo estava estranho. Não sei explicar, esse livro tem me deixado muito esquisito. E a cada dia tenho a sensação de conhecer essa história, de que já sabia de tudo que iria acontecer.
Já faz sete dias que estou aqui e leio para o Conde todas as noites, ou quase todas – às vezes ele fica muito cansado do dia cheio de pendências do povoado e encontra indisposição para nossa leitura. Por isso, lemos gradualmente, no mínimo, um capítulo por noite.
Ele cita a ideia de um romance que gostaria de escrever, parece ser algo para sua esposa. Ouço as ideias e anoto tudo num papel para discutirmos as possibilidades depois.
Diante do meu pedido falso, olhou-me desconfiado e seguidamente assentiu em concordância.
— Tudo bem, você pode ir. — Com sua permissão, coloquei-me de pé rapidamente.
— Obrigado senhor. Boa noite. — Sai dali suando frio. Me sentia enjoado, um ponto dentro da minha cabeça latejava.
Ryu já não estava mais dormindo comigo, após três noites aqui já me senti melhor para enfrentar o fato de dormir sozinho. E o coitadinho estava começando a ter dores nas costas por dormir no chão, percebendo o desconforto deixei-o ir para casa.
Tenho tido noites melhores de sono, embora às vezes a insônia me atormente. Escovei os dentes na bacia do meu quarto, posteriormente tirei toda minha roupa e vesti a camisola de dormir. Não demorei para me enfiar debaixo da coberta, pensando sobre tudo, sobre o livro, meus sonhos com o Conde a sensação constante de já conhecer aquela história, aqueles toques, as juras de amor, todas as promessas… Tudo.
Essa situação me deixava confuso e sensível, logo indisposto para continuar a ler.
Cansado, lentamente senti minhas pálpebras se fecharem, de repente, escancarei meus olhos ao ouvir o barulho de algo caindo.
Minha santinha, o que poderia ser? Julgando que Ryu, Dalva e Caetano não dormem na casa, fui logo pegando o canivete que o cocheiro me deu um dia desses. O vi segurando um para fazer um cigarro de palha, devido ao meu interesse pela arte esculpida no cabo do objeto, ele presenteou-me com esse.
Peguei a arma branca e fui até a porta ouvindo passos pesados mais e mais próximos. Meu coração acelerou de um jeito que comecei a tremer. Tinha alguém vindo… Minha santa protetora!
Pensando em como me defender, era melhor surpreender do que ser pego desprevenido. Por isso, os passos se aproximaram o suficiente abri a porta de uma vez e o indivíduo levou um susto, fui para cima e nós levamos um tombo. Caí em cima dele e me movi de imediato, tentando não dar a oportunidade de ser atacado.
— Icarus? Pelo amor de deus, Icarus! Sou eu! — O Conde gritou assustado, lutando para segurar meus pulsos. — Misericórdia, menino, não tenho mais idade para levar susto!
Meu queixo caiu, era mesmo o Conde embaixo de mim, e eu sentado em cima dele usando uma simples camisola sem nenhuma roupa íntima por baixo, ele idem.
— Conde do céu! — Sai de cima dele o mais rápido possível, me atrapalhando todo ao procurar o canivete no chão pouco iluminado. — Me perdoe senhor, é que fez um barulho e fiquei morrendo de medo.
Em seguida ajudei o mesmo a se levantar, morrendo de medo de tê-lo machucado quando caímos.
— Ficou louco? Não pode sair atacando qualquer um, garoto. — Ele me repreendeu.
O pior é que o canivete ainda estava fechado, ou seja, completamente inútil. Teria morrido se fosse alguém mal-intencionado.
— Antes eu atacar, do que ser atacado, senhor. — Minha lógica fazia todo sentido para mim, as chances de não ser o Conde eram muito maiores. — Mas… — Olhei para ele confuso. — O que o senhor está fazendo aqui a essa hora?
O Conde desfez uma cara de tensão para algo mais preocupante.
— Ah, é que… não consigo dormir. — Ele disse e fiz um ‘o’ perfeito com a minha boca diante da descoberta de não ser o único que sofre de insônia. — E assim tive a ideia idiota de vir ver se você estava bem. Mas pelo visto, também não consegue dormir.
— Tenho problemas para dormir desde que me mudei para cá. — Confessei.
— É sério? E por quê?
— Não sei, mas às vezes tenho insônia. Acho que minha cabeça pensa demais.
— A minha também. — Ele confessou com um suspiro longo e exausto. — Posso dormir com você? Quer dizer, podemos deitar e conversar até ficar com sono? Gina e eu fazíamos isso, sinto falta. Às vezes é tão doloroso ficar tão sozinho.
Não era comum o Conde se abrir e isso me pegou totalmente desprevenido. Ele queria dividir a minha cama. Minha nossa senhora, nunca dormi com um homem antes, nem com meu pai. Mas se tratando do Conde, não podia negar. Até porque sua ideia era atrativa.
— Podemos falar sobre o livro. — Sugeri, estava curioso sobre as histórias que nasceram da sua mente. Para mim o Conde é a pessoa mais criativa e inteligente que já conheci.
— É uma ótima ideia.
Decididos, entramos no meu quarto e timidamente nos deitamos na minha cama. A conversa fluiu naturalmente.
Nós falamos sobre tudo, os personagens, os cenários, os locais, o enredo e por fim quando o céu começou a tomar a tonalidade laranja, encontramos o sono. Quando dei por mim, era manhã e Ryu estava paralisado ao pé da minha cama enquanto, eu, estava aninhado ao peitoral do Conde, protegido enquanto dormia, sendo embalado pelo cheiro forte da colônia noturna dele.
Minha nossa senhora.
— O que é isso? — Ryu sussurrou chocado.
— Ele teve insônia e nós passamos a noite em claro conversando sobre o livro. — Sussurro de volta e o Conde ressona audível, mas pela minha santinha… O rosto dele é tão pacífico enquanto dorme mostra toda sua beleza tão pura. Ele é tão bonito que fico sem ar. — Ainda estou com sono… — Resmunguei sentindo meus olhos arderem.
Todavia, conformado, Ryu me deixou dormir mais um pouco. Quando ele saiu do quarto, observei o rosto do Conde adormecido mais de perto. Não contive a vontade de acariciar seus fios sedosos, por isso, deixei meus dedos se enfiarem em seu couro cabeludo e fiz um carinho suave.
Não demorei a dormir novamente e quando acordei o Conde não estava ali. Já era a hora do almoço e ele havia saído. Passei o dia ajudando Dalva a trocar as cortinas do casarão, depois fiz anotações das ideias que discuti com o Conde de madrugada. Unindo tudo que temos para o futuro livro. Em breve começaremos a escrever e isso me deixa tão ansioso.
Eu estava lendo um livro em cima de uma macieira quando vi Ryu passar por mim como um furacão e segurando um bastão.
— O que está acontecendo? — Gritei e comecei a descer da árvore para conseguir alcançá-lo.
— Tem um cachorro rodeando a casa. — Ele gritou de volta. — Vou dar um jeito nesse sarnento antes que ele ataque o galinheiro.
Apressadamente, disparei-me a correr atrás do japonês. Não iria permitir sob hipótese alguma, que Ryu matasse um animal indefeso.
— Ryu! — Até tentei chamá-lo, mas o danado era mais rápido do que eu.
Quando cheguei no jardim frontal do casarão, vi o cachorro rosnando para o rapaz enquanto o mesmo avançava colérico, gritando para o animal ir embora.
— Minha santinha! — Praguejei em espanto, aquele pelo caramelo era único! — COSTELINHA! — Gritei a plenos pulmões. — COSTELINHA! RYU, PARA! É O MEU CACHORRO!
Corri na direção do meu vira-lata que assim que ouviu a minha voz, disparou por baixo das pernas do Ryu e veio correndo na minha direção. O rapaz com o toco de madeira na mão, virou-se em espanto, enquanto apenas me preocupei em abaixar-me para pegar meu cachorrinho no colo e o abraçar fortemente. Costelinha até chorava de felicidade, lambendo meu rosto e inquieto em meus braços.
— Amigão, não acredito que fugiu para vir atrás de mim! — Eu ri, acariciando-o euforicamente. — Eu sei! Desculpa. Também amo você.
— Você só pode estar brincando que esse cachorro é seu, Icarus Campelo! — Ryu praguejou desacreditado e impressionado. Largou a madeira de lado e veio até nós, Costelinha se encolheu olhando-o com suspeita.
— Pode confiar, amigão. Não parece, mas o Ryu é gente boa. — Confortei meu bichano e Ryu finalmente pode acariciá-lo, mesmo que o Costelinha ainda o olhasse com desconfiança e mostrasse as presas, levemente irritado. Ele o ameaçou, é claro que não vai se esquecer disso tão cedo.
— O Conde não vai gostar nada disso. — Negou, balançando a cabeça.
Com essa fala me dei conta de que precisaria convencê-lo a deixar o Costelinha ficar, se eu o levasse para casa, ele voltaria novamente.
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— Não!
— Conde, por favor!
— Icarus, não! Já disse que não, detesto cães por que eles latem demais, atacam o galinheiro, defecam onde não devem, enchem de pulgas, fedem, etc. — O Conde dizia, caminhando pelo corredor de quartos e indo até o seu. — Não!
— O Costelinha não é assim, ele é um cão muito bonzinho e me responsabilizo por ele. Já cuidava dele lá em casa. — Eu estava aflito, louco para ouvir um sim. O que faria com o Costelinha, afinal?
— Icarus, está me irritando. — O Conde entregou a bengala para Dalva, que preparava seu banho e começou a se despir na minha frente.
— O Costelinha é tudo para mim! Nós andávamos a cidade inteira juntos, caminhávamos na praia todas as manhãs, não é surpresa que ele tenha fugido e me encontrado. Por favor, meu senhor. Olha, o Costelinha realmente não deve ser bom de morder e tudo mais, mas ele é um cão alerta muito astuto, sabe? Ninguém entrava na minha casa se ele não deixasse…
— ICARUS! — Ele gritou e isso me fez tremer.
— S-senhor… — Engoli seco e corrigi a minha postura na hora. Olhei para Dalva que estava com a expressão aterrorizada, olhei para o ofurô exalando a fumaça da água quente, o Conde só com as calças e uma camiseta, a qual ele usa por baixo de suas camisas sociais. — Me desculpe. Com licença. Vou dar um jeito no Costelinha.
Dou-lhe as costas e começo a caminhar apressadamente para fora do recinto.
— Icarus? — Diante do seu chamado, parei bruscamente.
— Sim, meu senhor?
— Me banhe. — Sua ordem foi clara e em tom sério.
— C-como?
— Disse para me ajudar no banho. Acaso ficou surdo? — Fechei meus olhos com força quando o Conde começou a remover o restante de suas roupas. — Você pode ir, Dalva. O Icarus vai me ajudar.
— Sim, Milorde. — Dalva prontamente veio até mim, entregando-me a toalha e caneco que segurava por todo esse tempo. — Seja cuidadoso, menino. E para de falar nesse cachorro.
— Sim, senhora. — Assenti, olhando para o chão, mas incapaz de olhar para o Conde, que agora completamente nu, entrava no ofurô e resmungava de alívio quando a água quente o relaxava.
Fiquei estático por longos minutos, meu corpo não respondia aos meus comandos.
— Icarus? O que está esperando? — Ele me chamou e fiquei ainda mais paralisado. — Icarus?
— E-eu… — Consegui dar um passo.
— Tem algum problema?
— Não, senhor.
— Portanto, venha? Ou está esperando a água esfriar? Espero que não me faça ficar ainda mais irritado hoje. — Ele resmungou, de mau-humor.
Novamente murmurei um pedido de desculpas e finalmente fiz minhas pernas se mexerem, em passos longos fui até o ofurô e me sentei no pequeno banco disposto ali – cujo auxiliava Dalva a banhar nosso senhorio.
— Pode começar, é só pegar a bucha e o sabão. — Ele ditou, mas eu já sabia, não é? Sei muito bem como banhar.
Quando olhei para ele, para as suas costas largas, os ombros, a nuca, o cabelo… e o mais aterrorizante, o princípio das suas cicatrizes. Não consegui. Percebi que não era capaz. Aquele era meu limite.
— Me perdoe, mas eu não posso. — Disse, quando me levantei e sai correndo dali, ouvindo-o gritar-me.
Pronto, a minha demissão estava a caminho.
Passei por Dalva que ainda descia as escadas, ela também me chamou, mas apenas foquei em correr porta afora para bem longe daquela casa. Escondi-me no pomar, que a essa hora já estava sendo envolvido pelo manto da noite. Encostei-me a uma árvore e fechei os olhos com todas as minhas forças.
— Não. Não. Não. Droga! — Gritei irritadiço e tentei mudar o foco dos meus pensamentos para qualquer coisa que não fosse a pele brilhante daquele homem e consequentemente o calor que crescia a cada segundo que a lembrança recente me vinha à memória. Sem mencionar o tormento que era encarar aquelas cicatrizes.
Não voltei para casa, até que fosse tarde o suficiente para ter certeza de que todos estivessem dormindo. Meu estômago roncava de tanta fome, havia trago Costelinha comigo, que por todo esse tempo ficou amarrado no fundo da propriedade, servido de água e comida. O Conde não saberia, já que se encontrava recolhido.
Costelinha e eu fomos até a cozinha, onde ataquei o restante de um bolo que Dalva havia assado essa manhã. Bebi um pouco de leite e dei um pouco de comida para o cão. Posteriormente, o peguei no colo já que o animal estava deveras curioso em cheirar todos os cantinhos do casarão. Fui para meu quarto com o auxílio da iluminação de um candelabro.
— Esse é meu quarto, Costela, não é grande? Parece do tamanho da nossa casa, eu sei. O Conde foi muito legal comigo, tem até um quadro, olha que lindo… — Levei o cãozinho até o quadro da noite na parede, eu amava essa arte com tanto fervor. — Olha, todas as-
— Fui eu quem pintei, sabia?
Meu coração literalmente parou, apertei Costelinha e girei nos calcanhares para encarar o Conde no canto do meu quarto, sentado na cadeira que deveria estar junto da escrivaninha, usando um dos seus luxuosos roupões para cobrir seu pijama.
— Já faz horas, Campelo. Você me deixou preocupado.
— Costelinha! — Repreendi o cachorro que rosnava para o senhorio. — C-conde?
— Qual o problema, uh? Você nunca viu um homem pelado, é isso? Ou o grande problema é que começou a imaginar aquelas coisas que lemos todas as noites? — O Conde foi dizendo, aproximando sorrateiramente de mim, enquanto isso meu rosto inteiro assumia a coloração avermelhada, meu sangue queimava.
— M-me desculpa, senhor. Não é nada disso. Eu juro. — Minha voz vacilava, estava trêmula.
— Shhh. — Sibilou, parando diante de mim, balançou a cabeça em negação e abriu um sorriso ladino. — Você não consegue jogar limpo comigo, não é?
— Jogar? Não sabia que era um jogo. — Rebati, minha expressão cada vez mais confusa. Quanto mais próximo o Conde ficava, mais eu tinha que afastar o cachorro em meus braços, inclinando-o para o lado e fitando amedrontado os olhos escuros do Conde. A primeira bola fora do meu cachorro no casarão é que ele não gosta nenhum pouquinho do Conde Vollard.
— Deveria ser mais sincero consigo mesmo, não precisa ter vergonha. — Para mim, as palavras dele já não faziam sentido algum. — Nem preciso comentar que me deixou bastante irritado hoje, me deu as costas, não me respondeu corretamente e me aterrorizou a respeito desse cachorro assim que botei os pés dentro de casa…
— S-sim, me desculpa, isso não vai se repetir. Garanto. — Baixei a cabeça e falei totalmente comovido. — Amanhã, levo o Costelinha de volta para casa, prometo.
O Conde acenou uma única vez, seguidamente dando passos em falso para trás. Eu estava tremendo, só não entendi o motivo.
— O cachorro fica.
Arregalei meus olhos em espanto, enquanto meu rosto assumia a expressão eufórica de alegria.
— S-senhor, isso é-
— Acredito fortemente que não preciso sequer dizer que, no sinal do menor problema, eu mesmo dou um fim nessa peste. — O Conde é quem rosna dessa vez, quando fala entredentes.
— S-sim, senhor.
— Boa noite, Icarus Campelo. — Desejou-me e caminhou rigorosamente até a porta.
— Boa noite, meu senhor.
Ele virou-se para fechar a porta e disse:
— É bom que não falte na leitura de amanhã, ou te obrigo a me banhar novamente, e — ele ergueu o dedo indicativo, salientando —, nem ouse pensar em fugir.
Ele não pode resistir em dar um último sorriso malicioso, antes de fechar a porta e finalmente deixar meu quarto. Fiquei ali, paralisado e perplexo demais para me mover. Por tudo que é mais sagrado, eu jamais faltaria a uma leitura novamente.
Costelinha lambeu meu rosto, como se comemorasse a nossa vitória. Mas eu ainda estava enebriado de vergonha. Não era essa a impressão que queria passar para o Conde. Ter vacilado na hora daquele banho, foi uma péssima escolha. O que faria para provar que ele estava errado?
Não consegui dormir naquela noite, mesmo com o Costelinha me fazendo companhia. Me revirei na cama, explodindo em pensamentos. Precisava entender o que estava acontecendo dentro de mim, parecia que um vento muito forte havia invadido a janela e bagunçado todos os papéis sob a mesa, quando eles voaram ao ar.
Precisava ser sincero comigo mesmo. O Conde plantou a dúvida e me deixou aqui para queimar. A verdade é que…
Eu fiquei excitado.
E seguidamente, amedrontado, pelas cicatrizes em suas costas. As emoções foram tão intensas que não pude lidar com elas, por nunca ter sentido nada semelhante antes.
No banho. Senti desejo pelo Conde.
Um homem. Meu senhorio.
Eu só conseguia sentir tanta vergonha de mim, que chegava a me odiar.
Puxei meus fios de cabelo com força e obriguei-me a esquecer cada segundo do que aconteceu, e nos próximos dias, não tive escolha, senão evitar o Conde a todo custo. No entanto, pareceu mais fácil quando na manhã seguinte, subitamente, Ryu veio me avisar que o Conde precisou ir para Florianópolis, resolver alguns problemas que surgiram.
Realmente surgiu um imprevisto ou o Conde de Anmak estava fugindo? Ontem à noite ele pareceu realmente afetado com o que aconteceu. Não sou tão ingênuo quanto aparento.
Talvez eu não fosse o único precisando ser sincero consigo mesmo.
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Passei os dias lendo na companhia de Costelinha, que agora era amado por todos na casa, inclusive adorava acompanhar o Caetano em suas idas à cidade. Foi bom ter esse tempo só para mim, consegui organizar meus pensamentos e sentimentos. Embora, pela noite não tenha conseguido dormir em paz, meus sonhos eram confusos, a única certeza que tinha era de estar sonhando com ele.
E ele agora, tinha um rosto, o que tornava tudo pior.
Me forcei a acreditar que era uma projeção da minha mente, que agora havia associado o homem dos meus sonhos com o meu senhorio.
Tudo isso, me fez concluir que sou jovem, isso significa que não soube lidar com o que senti, mas não quer dizer que sentia atração sexual pelo meu Conde. Foi tudo um tremendo engano. Foram hormônios… E já passou.
Agora estou revigorado, pronto para enfrentar o Conde cara a cara.
Quase cinco dias depois, ele chegou, estava por um triz de anoitecer. Já havia me banhado no intuito de me deitar cedo para ler na companhia substituta do Costelinha. O jantar já estava pronto, mas tínhamos que esperar o Conde para comer.
Sua figura prepotente entrou na casa, usando seu típico terno e batendo sua bengala no chão, foi quando tudo desabou diante dos meus olhos. Meu coração ficou tão acelerado em vê-lo. Saudades, era o sentimento que gritava em meu peito. E agora, não tinha para onde fugir, estava sendo sincero comigo mesmo.
Senti tanta falta dele que doía.
Mas isso não significa nada além de carinho e admiração. Heinrich é como um amigo para mim. Óbvio que dentro dos limites que nossa relação de chefe e empregado, estabelecia.
Para minha surpresa, ele estava todo animado me procurando pela casa.
Antes que dirigisse a palavra a mim, tomei a decisão que iria esquecer o que aconteceu no dia do banho. E que jamais tornaria a acontecer novamente.
— Icarus! Tive uma ideia magnífica nesta tarde enquanto ancorava na Praia do Coral. — Ele falou verdadeiramente empolgado. — Precisamos discutir essa ideia. Creio que vai ter o desfecho que precisamos.
— Não senhores, nada de discutir livros sem tomar banho e jantar. — Dalva disse toda cuidadosa, como ela era.
Assim o Conde foi se banhar e coloquei a mesa com a ajuda de Ryu, durante o jantar, a conversa sobre o livro fluiu. Ele me contou sua ideia genial e ouvi tão impressionado com sua criatividade. Nesse momento, foi como se nada tivesse acontecido antes da sua viagem e é tão melhor assim. Por fim, quando terminamos, o Conde me chamou para passear, ele queria me mostrar um lugar para ver o sol se pôr e fui de bom grado.
O sol estava se pondo mais tarde, sem nenhum motivo científico aparente, desse modo tínhamos vinte minutos para chegar até lá e assistir ao espetáculo. Caetano preparou dois cavalos, já andei de cavalo antes, contudo ainda não perdi o medo. Mas o Conde manteve uma corda do meu ligado ao seu, o que me passou certa tranquilidade para cavalgar ao seu lado.
Meu senhor parecia melhor, ele já não se assemelhava mais com aquele homem triste que conheci. Ele aparentava estar mais vivo, mais feliz e cheio de determinação com seus projetos.
Atento, fui ditando o caminho para ele, enquanto me apontava qual sentido era o certo, em poucos minutos nós saímos de entre as árvores para uma praia deserta e paradisíaca da nossa ilha.
A grama ia cessando gradualmente conforme nos aproximávamos da areia, deixamos os cavalos a uma certa distância e tiramos nossos sapatos para poder pisar diretamente na areia macia. O Conde segurou o meu pulso enquanto andávamos lado a lado na direção do mar. Ainda assim, não deixou seu bastão de lado. Nossos pés e o objeto de ferro se afundavam na areia fina, eu amo essa sensação.
Paramos de andar quando a água do mar tão gelada nos fez estremecer de frio.
— Costumava vir aqui para ver o pôr do sol quando era moleque. — Ele me contou. — É o meu esconderijo, já que ninguém vem aqui.
O local não fica muito distante de sua propriedade, acredito que essa praia é só dele.
— É tão bonito, senhor. — Falei admirado olhando a paisagem, sendo os seus olhos, narrei: — O céu parece uma pintura, há um degradê de cores, azul, rosa, laranja, amarelo e um meio sol, visto que a outra metade já foi engolida pelo oceano. Atrás de nós, uma lua fraca como uma nuvem, gradualmente ganha forma e as estrelas começam a aparecer. O dia lentamente passa por sua metamorfose, trazendo-nos a noite de mais um dia que se foi.
Minha inspiração era tanta, o Conde me desperta um lado criativo do qual não sabia existir. Olhando para o oceano, deixei as palavras fluírem para fora de mim e não me dei conta que seu olhar pairava sobre meu ser.
— Queria tanto poder te ver. — Ele confessou e fiquei calado sentindo meu rosto queimar, continuei encarando o oceano.
Ele me faz sentir assim, como um sutil e belo pôr do sol. Uma pintura que preenche uma tela branca. Um artista para ser descoberto. Sou alguém quando estou com ele. Passo a ter significado e razões. O Conde me deu um propósito.
Pensar em tudo de bom que ele vem se tornado para mim, me faz lembrar do dia que nos conhecemos. Decidi que esse era o momento certo para falar sobre um objeto que está em meu bolso há um tempo…
— Senhor, posso te perguntar uma coisa? — Finalmente tomei coragem para pedir. Heinrich olhou-me bastante interessado e com um aceno singelo entendi que podia prosseguir. Inspirei fundo, encarando o azul do céu e o oceano se tornarem um e falei: — Naquele dia do laboratório, quando nos conhecemos, o senhor sabia que eu estava ali, não sabia?
O Conde também mirava o oceano, embora tivesse certeza que ele não pudesse de fato ver. Deve ser apenas uma imensa confusão azul para ele.
— Senti você ali. — Ele contou. — Quando se perde a visão, outros sentidos se tornam mais aguçados e depois de tudo que passei fiquei muito bom em “ver” o que as pessoas com dois olhos saudáveis normalmente não conseguem. Não sei te explicar exatamente, mas sim, vi você, Icarus. E sabia que não era um invasor, não tinha a intenção de me machucar.
Saber que não estava enganado me aliviava, o Conde estava mesmo convicto sobre mim lá no jardim, ele distinguiu a minha presença. Já havia me atentado a suas habilidades mais aguçadas, já que perdeu a sua visão.
Deslizo minha mão para dentro do bolso da calça e alcanço o relógio que deixou cair naquele dia. Até hoje não o devolvi e ele também não me pediu de volta.
— Posso tocar a sua mão? — Pedi permissão me virando para ele, o Conde ficou tenso e pensou em negar, sei que sim, mas não o fez. Contrário disso, retirou a luva de sua palma esquerda e deixou sua pele nua.
Logo, alcancei sua mão, cheia de cicatrizes, seus dedos são longos e a palma é grande. Minha mão é consideravelmente menor que a dele. Coloquei o relógio sob a palma aberta e fechei seus dedos em volta dele.
— Não sei porque o senhor deixou isso cair. Também não sei se de fato me deu isso. Só supus que está na hora de devolver. Isso te pertence.
O Conde pareceu surpreso e encarou sua mão enquanto lhe devolvia o relógio, apertou o objeto reconhecendo-o. Ele sorriu pequeno, apenas esticando os lábios.
— Queria que você levasse uma parte de mim. — Ele disse e o vento passava por nós e bagunçava seus fios emaranhados, fazendo-os dançarem sobre o topo de sua cabeça.
— Por quê?
— Você não estava ali por minha causa. Apenas estava naquele lugar por algum propósito, tremendo de medo. Não sei explicar sobre o que senti naquele dia, Icarus. Só sabia que… Era você. — Suas palavras me eram um tanto confusas e uni as sobrancelhas tentando raciocinar. — Na verdade, sabia que você estaria lá.
Agora realmente estou mais confuso possível.
— Como poderia saber? — Questionei demonstrando toda a confusão que suas afirmações me causavam.
— Uma moça me garantiu. — Havia insegurança em sua voz, como se ele mesmo não acreditasse.
Ok, continuo encarando seu rosto tentando ler as respostas na sua face; mas nada, o Conde é uma incógnita que não consigo resolver.
— Que moça?
— Eu não quero falar sobre isso. — Ele se afastou de repente, dando-me as costas e caminhando pela areia na direção dos cavalos.
Mas isso não iria ficar assim, não mesmo. Precisava de respostas e as terei ainda hoje. Meu coração era minha bússola qual apontava-o, teimava dentro de mim que deveria cavar mais fundo. E foi exatamente o que fiz.
— Conde! Espera!
Corri até ele, que virou-se de repente, fazendo meu corpo quase se chocar contra o seu. O Conde largou seu bastão e me segurou pelos antebraços com força e raiva. Ele encarou-me com mágoa, podia ver toda a dor nítida em seus olhos.
A primeira coisa que se passou na minha cabeça, era a interrogação de como despertei tanta mágoa dentro dele sem sequer de fato tê-lo magoado?
A resposta veio na sequência…
— Você me fez esperar uma vida inteira! Uma vida inteira, Icarus! Tenho quase cinquenta anos agora! Minha vida acabou, eu acabei, já vivi e já morri. Agora sou cego! Manco! Frio! Torto! Deformado! — Ele gritou na minha cara e continuou. — Eu te esperei por anos! Acordava todos os dias e ia até aquela mesma árvore na esperança de te encontrar. Contei para meu pai, alegando que eras uma moça e ele respondeu que eu estava louco. Mas continuei indo, indo e você não estava lá! Nunca esteve! Não pude mais esperar e me casei com a Gina, contei sobre você. E quando Juliano nasceu me fez escolher entre você e ela. Eu a escolhi. Escolhi! Mas nunca me esqueci de você. E você esperou que eu ficasse cego, esperou minhas mãos se tornarem trêmulas, meu corpo fraco e deformado, para me aparecer no corpo de um moleque de dezoito anos! Portanto, vá para o inferno, sinceramente, vá para o maldito inferno!
Ele me empurrou por impulso, devido a todos os sentimentos extremos que estava sentindo naquele momento. Caí e permanecei no chão com a sensação de ter perdido absolutamente tudo. Como se minha alma tivesse deixado meu corpo naquele instante.
Que merda é essa que está acontecendo?
Sabe que quando o chão se desfaz sobre seus pés e você se sente flutuando, perdido? Era como me sentia. Como se a gravidade nunca tivesse existido.
Ouvia um zumbido no fundo do meu coração e o Conde se tremia inteiro na minha frente. Lágrimas escorriam de seus olhos, deslizavam por seu rosto perfeito e imaculado. O vi, enxerguei sua face, seu coração.
Sentado ali, caído, sem entender nada… Meu coração disparou no meu peito e pude ouvir os meus próprios batimentos. Tum-tum, tic-tac o relógio estava caído no chão próximo ao meu corpo.
Tic-tac.
Tum-tum-tum.
A verdade vem pelo rio, a verdade te rasga como uma faca. Você está preparado?
É intenso.
Ele é intenso.
Eu sou também.
Nós somos intensos.
E a verdade sobre nós, também é.
O Conde gemeu de dor, seguidamente, caiu ajoelhado e encarou suas próprias mãos. Ele sorriu, Heinrich sorriu pela primeira vez desde que conheci e olhou para o oceano. Ele mostrou seus dentes brancos perfeitos num sorriso quadrangular. Era tão bonito que doía, amassava meu pobre coração.
— Quando tinha quinze anos tive uma febre que quase me matou, enquanto morria, juro por deus, eu te vi. Você apareceu para mim numa tarde de um dia qualquer enquanto observava a pintura do céu diante de um pôr do sol, bem aqui onde costumava estar. Vi seu rosto, seus olhos e seu sorriso. Os mesmos quais não posso ver agora. Seus fios de cabelo loiro escuro. Seus olhos esverdeados. Sua energia revigorante quanto o céu de uma tarde sem nuvem. Você sorri de uma maneira única, suas bochechas ficam maiores e seus olhos se resumem a risquinhos adoráveis. Seu dente é torto na frente e eu realmente não sei te dizer o que é mais charmoso, o dentinho ou os seus olhos sorridentes. Talvez ambos. Talvez tudo. Sei que você é baixinho e magrelo. E só sei de tudo isso, por que você me veio em sonho. E isso é a prova que te conto a verdade, pois como bem sabes, sou cego. E nenhuma outra pessoa no mundo seria capaz de descrever detalhes tão únicos de você, senão alguém que o ame verdadeiramente.
O encarava paralisado, ouvindo tudo com atenção, completamente chocado. Ele me descrevia exatamente como eu era. Suas palavras emanavam uma sinceridade que me arrepiava inteiro e tocava minha alma. Meus dedos roçavam a areia, pelo fato de estar rendido, com meus braços caídos entre minhas pernas ajoelhadas. Era como se tivesse perdido tudo e, ao mesmo tempo, encontrado.
Podia enxergar claramente o que ele narrava, um adolescente delirando de febre, sonhando com um garoto.
E conseguia ver muito além…
— Sua alma era tão similar à minha que encontrava-me e reconhecia-me no seu ser. O garoto do meu sonho mais parecia um anjo, com essas características e a roupa branca, qualquer um que visse diria que você é mesmo um. O cenário mudava, surgiam flores exóticas e uma árvore. Você subia e esticava a mão para eu subir também. Reconheço essa árvore, é aquela mesma do jardim da área restrita. Quando estava lá no topo contigo, você me beijava, dizendo que ficaria bem e nós iríamos nos encontrar. E tolo acreditei em um delírio febril. Quando acordei, descobri que sobrevivi a pneumonia. Por isso, prometi a mim mesmo que iria te encontrar, Icarus.
Engoli seco, incrédulo, ouvindo suas verdades atentamente. Ele acreditou que eu era real, não Fapenas um delírio. E embora minha existência realmente seja real, havia se decepcionado comigo diante do meu tardar em cruzar meu caminho.
— Te esperei por tantos anos, mas quando fiz dezenove, meu pai me obrigou a casar. Já não podia mais ignorar os meus deveres por sua causa. Anmak precisava de mim. Pouco antes do meu casamento, encontrei uma cartomante e ela me disse que o garoto do meu sonho viria até mim. Ela me deu esse relógio e disse que deveria salvá-lo.
Heinrich fechou seus olhos e derramou mais lágrimas, chorou cheio de dor. Mas ainda tinha mais a me dizer:
— E agora você está aqui. Eu deixei o relógio cair para você, estava desacreditado quando senti a sua presença ali. Não podia simplesmente correr até ti e dizer-te: o vi enquanto morria de febre e te esperei uma vida inteira. Precisava deixar algo que pudesse fazer com que nossos caminhos cruzassem novamente. Mas meu irmão facilitou tudo quando quis te levar como escravo e te salvei de um destino cruel. Você se tornou meu criado. Você está aqui, Icarus. Mas eu não estou mais… Morri faz tanto tempo.
Cheguei tarde demais.
Essa é a minha primeira conclusão. Mesmo que não fosse minha culpa, pois se soubesse teria chegado muito antes. Já seria dele há muito tempo.
Ainda que tudo dentro de mim, fosse, naquele momento, vazio – surpreso demais para sentir ou pensar em algo com propriedade – acreditei em suas palavras. Por mais maluco que soe, também passei por isso.
Eu também sonhei com ele.
E nos meus sonhos ele parecia diferente do Conde à minha frente. Não era essa versão dele, mas era ele. E espero por esse homem, sim, anseio pelo meu grande amor. E agora ele está aqui na minha frente. Meu Conde com idade para ser meu pai e estraçalhado, fora e internamente.
Mas é o meu homem.
É ele.
Não preciso de mais nada. Só preciso que seja ele.
— Senhor… — Um soluço escapou de meus lábios, não sabia quais atitudes tomar, o que dizer ou o que fazer. Só sabia que estava diante dele. — Perdão. Perdoe-me. Heinrich, perdoe-me.
Meu corpo rastejou até o seu e ele virou o rosto, negando-me. Não cessei, não podia. Enquanto o céu tornava-se gradualmente escuro e o sol dava lugar para as estrelas, não detive-me. Por que finalmente te achei.
Ajoelhado, minhas mãos foram diretamente para seu rosto e segurei com firmeza fazendo ele olhar-me, limpei suas lágrimas quentes que escorriam tão viscosas. Era como se todos os meus sonhos com ele se tornassem reais, não poderia existir uma versão melhor dele do que essa diante de mim. Mesmo quebrado, morto e machucado. Ali dentro ainda estava o meu amor. Nossas almas podem se tocar agora, conforme sempre pertenceram-se.
— Eu tenho sonhado com você por todos os dias da minha existência até aqui. E agora que te encontrei, não há nenhuma condição física, emocional e nem ninguém que possa me afastar do que sinto por você. Queria ter chegado antes, mas alguma força maior do que nos quis assim, estou aqui agora, senhor, e sou seu. — Peguei a sua mão nua e coloquei sobre meu coração para que sentisse o quanto estou vivo. Desejando que meu pulsar cheio de vitalidade pudesse convencê-lo dos meus sentimentos. — Eu sou inteiramente seu, você não pode me aceitar assim?
Heinrich colou sua testa na minha e respirou fundo, ainda trêmulo, ainda chorando. Ainda tão meu. Sua mão agora segurava meu maxilar, travando meu rosto colado ao seu.
— Não é que não queira, Icarus. — Ele olhou dentro dos meus olhos. — É que não posso. Não tenho direito de te trazer para meu túmulo ou para a vida ameaçada em que vivo. Icarus, você só tem dezoito anos, tem uma vida inteira pela frente, lugares para conhecer, amores para viver. Sou só um morto-vivo.
— Como você pode dizer isso? — Bradei irritado, magoado. — Você pode ser o homem a quem sirvo, mas você não pode me dizer o que quero ou não! O senhor não pode decidir o que sinto! E eu quero você, Heinrich. Com todas as suas cicatrizes e defeitos! Eu. Te. Quero. Assim. Não existe idade, não existe nada dessas merdas que você está falando. Só existe eu, você e o que sentimos. Portanto, se você não quer me levar para seu túmulo, ao menos permita que eu te traga para minha superfície.
— Icarus… — Ele sussurrou triste.
— Me ame. — Aproximei meu corpo do seu, impulsivamente me sentei sobre seu colo, segurei o seu rosto com mais firmeza. — Me ame como nós dois somos. — Foi quando nossos lábios se esbarraram pela primeira vez. — Me ame, meu Conde. Não lute contra o que o destino armou para nós. Me ame, por favor.
Suas mãos também impulsivas finalmente reagiram, ele me tocou, elas agarraram minha cintura e escorreram para minhas costas. Heinrich me laçou num abraço firme. Sua respiração mais ofegante, suas lágrimas cessando.
— Eu amo. — Ele finalmente respondeu, mesmo que sua voz tenha falhado.
Meu sorriso se abriu imenso. Ele me ama.
O que mais preciso, além disso?
Nada.
Nos conhecemos não tem nem um mês, mas descobrimos que nos amamos muito antes de existirmos. Era algo além da nossa capacidade de compreensão. Mas tínhamos provas que só pertencem a nós. Não temos razões para lutar contra isso.
Nesse caso, me entrego.
— Me faz seu. — Continuei e me movi, mexendo-me sobre seu colo. — Entra dentro de mim.
O primeiro gemido escapou de seus lábios, ele me segurou com mais força e continuei movendo-me sentindo a dureza se formar dentro de sua calça. A mesma reação acontecia em meu corpo, enquanto meu coração explodia com a noite e as estrelas brilhavam com mais intensidade.
Quanto mais rigoroso ele ficava melhor era para me mexer, assim podia começar a sentir sua silhueta sendo pressionada contra a minha própria, isso me deixava igualmente aceso, fisgava-me de dor tamanha era a vontade de senti-lo por inteiro.
— Eu te quero. — Ele disse quando suas mãos vieram para minha camisa e começou a desfazer um por um dos botões, aumento a velocidade enquanto pouco a pouco minha pele nua se revela.
Também não fiquei quieto, subi minhas mãos do seu abdômen até seus ombros as colocando por baixo do tecido grosso do paletó, empurrei a peça de roupa por seus braços até que ficasse sem. Com meu dorso nu, sua boca veio para meu pescoço e ele beijou minha derme sensível, seus dentes se cravam ali enquanto succionava ao mesmo tempo.
Ele me lambeu, sua língua desceu por meu pomo-de-adão até meu peito esquerdo, a pontinha do músculo viscoso rodeou minha auréola, gemi descomunal quando finalmente ele chupou meu mamilo e prendeu o pontinho pequenino entre seus dentes.
Me derreti inteiro e tive que fazer um esforço enorme para alcançar os botões da sua camisa e desfazer um por um até ele ficar nu em cima. Quando isso aconteceu, Heinrich me abraçou com força fazendo nossos peitorais nus se chocarem.
Céus, foi a melhor sensação possível, sua pele quentinha na minha, seus mamilos esbarrando nos meus, gemi tão alto e mais alto ainda quando sua mão enfiou-se entre nossos abdomens e com uma facilidade imensa desfez o botão da minha calça e a inseriu dentro dos panos que me cobriam.
Minhas mãos foram diretamente para seus fios onde agarrei com força um bocado de sua mullet, ao mesmo tempo, sua mão grande e quente finalmente segurou a parte mais ardente do meu corpo. Me arrepiei inteiro com a sensação, seu polegar rodeou o local úmido e tremi fortemente em seus braços.
Era demais para mim, nunca fui tocado antes e tão pouco já havia feito sexo, logo não ia aguentar tanto tempo e meu único objetivo era ter ele dentro de mim. Não importava mais nada, só isso. Eu só queria que ele se sentisse vivo comigo.
— Não! — Protestei quando mexeu sua mão por toda a extensão e senti meu corpo convulsionar.
— Confia em mim! — Ele ordenou e não aguentei, finquei minhas unhas curtas em seus ombros e fechei meus olhos com força. Não queria permitir, mas não tinha forças para me segurar. — Goza. — Sua voz grossa ordenou ao pé do meu ouvido.
Tinha medo de me desfazer e tudo isso acabar, resumindo-se a apenas isso. Tão pouco comparado a erupção de sentimentos dento de nós. Não! Não queria que acabasse. Também quero fazer meu Conde delirar.
— Não quero que acabe assim. — Protestei cerrando os dentes de tanto esforço que estava fazendo para não me render ao meu orgasmo prematuro.
— Acredite em mim, não saio daqui até realizar seu pedido.
Oh…
Bastou essa certeza para que num solavanco explodisse no primeiro orgasmo da minha vida inteira. Me derramei contra a mão que me tocava com maestria e ouví-lo gemer em pura satisfação, não tive tempo de raciocinar, no segundo seguinte ele me derrubou contra o chão e me deitei.
— Tire sua calça imediatamente.
Atordoado, ele não me deixou sequer curtir a sensação de alívio, com meu corpo tremendo horrores, cheio de espasmos do orgasmo, mole como manteiga, tirei minha calça rapidamente erguendo meu quadril devido à posição que me encontrava.
Não havia percebido estarmos sobre a grama e não sobre a areia, havíamos caminhado até aqui quando ele me deu as costas e tentou fugir. E ainda tenho tempo de pensar: graças a deus que segui meu coração e insiti em descobrir o que estava acontecendo.
O Conde retirou o restante de suas roupas num piscar de olhos e seu corpo veio para cima do meu. Naquele momento meu corpo respondia de forma natural como se soubesse exatamente o que fazer, abri minhas pernas para que se acomodasse entre elas e agarrei seu corpo num abraço, podendo senti-lo sobre mim, minhas mãos deslizaram por suas costas e pude constatar suas cicatrizes naquele local, as mesmas que me assustaram noites atrás quando recebi a ordem de banhá-lo.
Ryu havia dito que o Conde foi açoitado quando houve o ataque, é verdade. Haviam chicoteado suas costas. Finalmente pude encará-las sem medo, meus dedos trilharam as cicatrizes como se quisessem apagá-las dali.
Contudo, não havia espaço para lembrar de algo tão ruim naquele momento, por que ele se afastou, ficou de joelhos entre minhas pernas e me expus mais para si. O vi deslizar sua mão suja em si mesmo, entendi por que me permitiu aliviar-me primeiro: precisava de lubrificação para penetrar-me.
Seus olhos correram por todo meu corpo enquanto se bombeava e sei o quanto ele está chateado por não conseguir me ver, mas não o deixo desistir por isso. Deslizo minha mão por seu abdômen até tocá-lo lá embaixo, para posteriormente guiá-lo para o local que tanto desejei que invadisse.
— Me faça seu, meu senhor. — Pedi mais uma vez naquela noite enquanto sentia sua maciez tocar o ponto entre minhas nádegas.
Ele o fez, forçou-se contra aquele local extremamente apertado e senti meus olhos se encherem de lágrimas enquanto me invadia. Doía tanto, mas tanto que não sei descrever. Seguidamente, fez aquilo que tanto desejei, o Conde me beijou e entrou dentro de mim pela primeira vez, ambos ao mesmo tempo.
Quebrando todas as barreiras, pulando todas as etapas, direcionando nossos corações para o estado que eles realmente estavam e até pouco não havíamos percebido.
Estamos apaixonados.
Sempre estivemos, só precisávamos ver, tocar e estar diante um do outro para que todas as nossas dúvidas fossem sanadas, e todo o desejo entre nós comprovasse que o amor transcende o espaço, tempo, idade e até mesmo questões básicas de saber da existência de um ser.
Ele permitiu que a minha dor prazerosa ecoasse dentro da sua boca num gemido pecaminoso, enquanto nossas línguas se tocavam timidamente e seu membro me rasgava.
A dor era boa. Sua boca está melhor ainda. Enquanto meus músculos internos esmagavam-no, podia senti-lo perfeitamente dentro de mim. Exatamente como tinha que ser. Com amor. Com um desejo fervente. Desespero incontrolável. A nossa primeira vez.
Duas almas destinadas que se encontraram e se unem diante do céu, mar, estrelas, terra. Tudo.
Ele começou a se mexer saindo quase inteiro e voltando até o fundo novamente, meu Conde gemeu em sincronia comigo. Seus gemidos ficaram presos na minha boca, junto aos meus, abafados e sufocados. Tomava-me com vontade, mostrando o quanto me queria e o quanto desejou por todo esse tempo. Embora estivesse derramando lágrimas de dor, também sentia um prazer absoluto.
Era muito gostoso. Minha intimidade sendo esmagada por nossos ventres, as mãos dele – grandes e fortes – apertando com gosto minhas coxas e nádegas, usando-as como impulso. Tão disposto em seus movimentos certeiros, o Conde afastou o rosto do meu quando precisou aumentar a velocidade, fazendo chocar-se contra um local sensível dentro de mim.
Gritei de prazer agarrando seu pescoço, arranhando-o. Cada vez que aquilo se repetia, como reflexo arqueava minhas costas, gemia loucamente. Ele tremeu junto comigo, não demorou para segurar meu rosto e me fazer encarar sua alma pela vitrine de sua íris.
— Olhe nos meus olhos enquanto te possuo. — Ele exigiu me roubando beijos e o tempo todo de olhos escancarados encarando os meus.
Meu homem. Meu amor destinado.
— Senhor! Heinrich! — Clamei pelo seu nome enquanto meu corpo tremia e pela segunda vez na noite, explodi.
Segundos após meu orgasmo avassalador, senti algo quente preenchendo-me e soube que meu Conde havia se desfeito dentro de mim.
Desabamos. Ele deixou seu peso sobre mim gradualmente enquanto abraçava-o forte. Ainda soltava um gemido longo devido ao seu êxtase. Minhas mãos passeavam por suas costas e ao chegar em suas nádegas apertei-as com força fazendo-o ir até o fundo, ainda sob o nirvana.
Meu sorriso se abriu de orelha a orelha. Nós nos entregamos um para o outro. E todas as estrelas no céu noturno presenciaram isso. O mar quebrava-se em ondas sutis, nossa respiração ofegante era tão audível quanto os grilos e sapos que cantavam escondido no bosque.
Foi surreal. Foi mágico.
E quando pensei que não tinha como ficar melhor, senti seus lábios dando selares suaves sobre a pele suada de meu pescoço, suas mãos passeavam por meu corpo inteiro, acariciando. Fechei os olhos apreciando essa sensação deliciosa.
Tem momentos que desejamos com toda a nossa alma que se tornem eternos.
Heinrich, quero tanto eternizá-lo.
— Você é real. — Seu sussurro saiu sufocado por sua boca enterrada no vão do meu pescoço.
Sorri abrindo meus olhos para encarar seu rosto. Passei a mão por sua testa afastando os fios que se grudaram ali.
— Você também é. — Garanti para nós dois. — Isso não é um sonho, Heinrich. Nos encontramos.
— Você acredita em mim. — Ele sorriu tímido e balancei a cabeça repetidamente, concordando. Qualquer um que ouvisse a nossa história, não acreditaria. Mas nunca fui um qualquer. Por Deus, eu sonhava com esse homem todas as noites.
— Não ouviu o que eu disse, senhor? Também tive sonhos com você. Várias e várias vezes. Em diversos mundos, em diversas formas. Quando te conheci, você me assustou imenso por isso. Porque era o homem com quem sonhava e desejava em segredo. — Não o poupei da verdade, mesmo tão absurdo, mas também coincidente. Era uma linda história de amor.
O Conde riu baixinho, todo desacreditado. Ficamos assim por um tempo, ele deitou sobre meu peitoral enquanto o acariciava.
— Doeu?
— Sim, muito. — Não menti, não.
— Desculpa, eu estava muito desesperado. — Ele confessou risonho.
— Tudo bem, foi muito bom. Foi perfeito, senhor. — Era verdade, posso estar todo dolorido, mas não me arrependo nem um pouquinho. Foi gostoso demais. — Eu gostei.
— Eu também. Gostei muito mesmo. — Ele riu mais alto. Nunca ouvi o Conde rir antes, era um som bom, daqueles que fazem a nossa própria caixa toráxica vibrar. — Desejei isso a minha vida toda e agora que aconteceu foi melhor do que todas as vezes que sonhei ou imaginei.
Mordi os lábios meio envergonhado, consegui satisfazer ele. Consegui fazê-lo se sentir como queria… Vivo. Homem viril. Cheio de energia e desejo por mim.
— Viu, você está vivo. Muito vivo, meu senhor. Você ainda merece ser feliz, ainda tem anos e mais anos de vida pela frente. E viverei todos eles com você. — Meu Conde merecia toda a felicidade que existia nessa terra e além.
Mas ele parecia não estar de acordo comigo ainda, seus pensamentos não mudaram. O que vivemos nesse instante ainda não foi o suficiente para fazê-lo enxergar isso. Meus pensamentos ganham força quando ele se afasta, sentando-se ao meu lado.
— Vamos nos lavar no mar. — Sugeriu quando passou um dos braços por baixo da minha cabeça e o outro por baixo de meus joelhos, ele me carregou na direção do oceano, guiado pelo barulho calmo das ondas baixas.
Aninho-me ao seu peitoral, ouvindo seu coração ainda acelerado, pulsando fortemente. Sorri por saber que seus batimentos eram meus.
Eu te amo, meu senhor.
Nós ficamos abraçados na água gélida e ele me beijou por longos minutos novamente, dessa vez com calmaria e me ensinando a beijar direitinho. Nos beijamos tanto, com nossas mãos correndo pelo corpo do outro que tudo se esquentou novamente, mas como eu estava dolorido, ele une-nos em suas mãos e tocou-nos em conjunto até que extasiássemos de novo. Depois disso, nos vestimos, ajudando um ao outro.
Para andar doía ainda mais, em cima do cavalo nem se fala, ele percebeu minha expressão de dor visível. No entanto, consegui suportar.
Quando chegamos no casarão Ryu, Dalva e Caetano nos esperavam muito preocupados. Era de se esperar que eles imaginassem o pior, considerando as atrocidades pelas quais já foram vítimas nessa casa. Ryu ficou bravo, mas nada disse.
“Nós perdemos a hora conversando sobre o livro e acabamos entrando no mar”, disse o Conde e isso fez a pobre Dalva ficar pálida em choque. A velhinha saiu desesperada para nos preparar um banho quente. Dei graças a Deus por isso, realmente precisava da água quente para relaxar meus músculos.
Controvérsia, Ryu não deixou de encarar o ponto roxo que o Conde deixou exposto em meu pescoço. Temi que perguntasse, mas ele ficou calado e eu também.
Por fim, quando fui dormir, percebi que me sentia outro homem. É como se tudo fizesse sentido. Como se eu tivesse nascido para amar esse ser.
Meu coração parecia que ia explodir.
Minha alma estava radiante.
Nos encontramos, meu senhor.
Você me fez seu.
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