CAPÍTULO DEZENOVE

Erros, acertos e consequências

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Terça, 2 de Maio de 1899
03:40 da manhã
Casarão do Conde de Anmak

“Você vai se casar? Mas… e o Conde?”, a voz de Ryu ecoava em minha mente durante a insônia que me devorava impiedosamente. No bilhete de meus pais havia apenas um convite para ir jantar com eles assim que voltasse para Anmak. No entanto, conforme Julieta escreveu, já sabia o que me esperava.

E pego-me abandonando os braços do Conde mais uma noite para ir até à biblioteca acender a lamparina e reler o que ela me escreveu. Estou diante dos piores momentos da minha vida. Preciso analisar todas as minhas ações da primeira versão que vivi, para finalmente entender e concluir quais foram os meus erros.

Preciso mudar o futuro, mas antes preciso entender o passado.

Na primeira versão da minha vida nesse exato dia e momento eu estava muito feliz, acordando nos braços do meu Conde após uma viagem cheia de altos e baixos. Finalmente me sentindo em casa e com todas as nossas desavenças resolvidas. E sim, me sinto assim também, mas nada pode sobrepor minhas preocupações.

Chorar não era mais uma opção. Não mudaria nada. Na verdade, minha insônia fazia-me pensar excessivamente na solução dos meus erros. Esse era o principal, o desfecho da primeira história que levou-me a uma morte cruel. Minhas decisões não diziam respeito apenas a mim, mas ao Conde também.

Na verdade, tudo que farei de agora em diante, é por ele. Pelo nosso amor e nosso segredo. E sem dúvidas pelas nossas próximas vidas.

Até então, pretendo não me casar. Mas se for preciso em prol de mudar tudo e proteger nós dois, cometerei esse sacrifício… O comum para nossa sociedade é que jovens como eu se casem cedo. Recusar o matrimônio trará olhos curiosos para minha vida que pode comprometer os meus segredos com o Conde.

Naturalmente, a sociedade se preocupa mais com as mulheres que não se casam. Mas isso não quer dizer que os homens não sejam questionados e pressionados a isso também. Tudo que não se submete a suas imposições, é desconfiável. Sobretudo, o que mais chamaria atenção é a minha proximidade com o Conde. As pessoas vão se questionar… E o Conde é de suma importância, as pessoas se importam com suas atitudes e modo de viver, mesmo não sendo da conta delas. É assim que as coisas funcionam, metendo o dedo na vida alheia. Não tinha como ir contra esse fato, ele tem uma imagem a preservar.

Era esse um de vários motivos pelos quais teria que cogitar o sim para o casamento.

Após continuar lendo e ainda sem saber o que fazer, arrasto-me de volta para o quarto, considerando que o céu possuía uma cor alaranjada no horizonte, indicando que a manhã se deslocava até nós.

Sigiloso, me deito na cama com cuidado e fico o observando dormir enquanto penso como posso salvar nós dois. Como se seu rosto extremamente belo e cheio de calmaria pudesse me ditar as respostas que não consigo encontrar. Toco suavemente sua bochecha, deslizando as pontas dos meus dedos pela barba por fazer. Ele é tão lindo que perco o ar de meus pulmões.

Não quero perdê-lo, mas sinto que esse é o maior sacrifício que serei obrigado a cumprir.

— Pequeno? — Sua voz me surpreende baixinho e meus olhos vão de sua boca até seus olhos bem abertos me observando. — Eu estava sonhando contigo.

Ergo as sobrancelhas surpreso.

— E como foi o seu sonho? — Perguntei baixinho também.

Em resposta, Heinrich vem em minha direção, colando seus lábios nos meus, me prendendo contra o colchão, subindo sobre meu corpo e domando-me. Ele me beija com vontade, e nosso mau hálito não é um problema agora que a necessidade grita.

É tão intenso, fico surpreso sempre que acontece. Quando ele me toca e sinto o desejo nítido, é como se me chamasse. Minha pele se arrepia inteiramente, sinto um calor intenso preenchendo a minha alma. O reconheço, o aceito, o quero. E meu corpo responde nitidamente enquanto arfo contra sua boca e sinto-me enrijecer rapidamente.

Com seus toques suaves, seu beijo violento, sinto sua mão subir por minha panturrilha. É suave na medida certa, até chegar em minha coxa e ele aperta possessivo. Sinto que sou seu aprendiz e ele é meu mestre.

— Você precisava de mim. No meu sonho. — Ele conta, ao deslizar a boca pelo meu pescoço, marcando tudo com sua saliva quente. — Você precisava saber o quanto eu o amo.

A coincidência do seu sonho com a minha realidade não terá a minha atenção agora. Foco só no que estou sentindo com tão pouco.

— Senhor! — Eu clamo enquanto suspiro, ergo meu quadril para me esfregar contra seu falo já duro. Minha santinha, como eu amo e me arrepio todo com isso. — Preciso de você agora!

— Porra, Icarus! — Ele geme e me dá uma mordida forte no pescoço.

Só queria esquecer essa bagunça e por um momento aproveitar o meu Heinrich enquanto ainda o tenho. Por isso, deixo o forte desejo tomar conta de mim, ganhar força a cada segundo e desço minha mão por seu abdômen erguendo a camisola que traja para dormir. O Conde fica estático e fecha os olhos da maneira mais pacífica possível, em puro deleite enquanto meu polegar esfrega a fenda molhada do seu íntimo em movimentos intensos demais.

Seu mastro semi ereto fica definitivamente rijo, na minha mão e sinto nitidamente. Devagar passo a língua por seus lábios, deixando-os molhados. Vejo suas expressões de deleite e, merda, como isso é lindo. Noto seus braços cada um ao lado da minha cabeça mantendo seu tronco erguido tremendo de tanto tesão.

— Icarus… Amor… Ahh… — E choraminga, sinto meu íntimo pulsar de tanta euforia que me causa. E me sinto tão… vivo quando estou com ele, me sinto eu.

Meu mundo é aqui. Sem ele, não sou nada. Não importa a decisão que eu tome, minha lua sempre será Heinrich Vollard e sempre orbitarei ao seu redor.

Com minha mão livre, levanto a minha camisola também e uno as partes em chamas de nossos corpos, segurando-os com firmeza e tocando-os com maestria.

— Icarus! — Ele chama de novo, desesperado toma as rédeas da situação e passando a segurar a nossa união ele mesmo. Com seu braço em volta de mim, segurando minha cintura tão firme, consegue a firmeza necessária para girar na cama e me deixar por cima. — Se mexe! — Diz dando um tapa na minha nádega esquerda, me fazendo dar um arfar pela surpresa. O local arde, mas atendo de imediato o que foi pedido.

Estoco contra sua mão, com meus joelhos dobrados ao lado de seu quadril e meus braços sustentando meu corpo, ondulo e mexo para frente e para trás. Meu íntimo derrapa firme contra o seu e as veias sensíveis uma contra a outra, úmidos fazendo uma bagunça imensa.

Gememos descomunal, manhosos, intensos, clamando um pelo outro. E por alguns minutos isso é delicioso o suficiente, mas me faz ansiar por mais e mais. Ele também sente meu desejo. Nunca é o suficiente, sempre precisamos de ir além.

Afasto sua mão com praticamente um tapa e liberto as ereções presas por ela. Seguro seu falo que nesse momento pinga de tanta lubrificação e coloco-o em mim de uma vez, acabando com essa expectativa que me ferrava de ansiedade. Assento com força e as lágrimas caem pelo desconforto inicial. O Conde imediatamente se senta e segura minhas bandas as afastando para facilitar os movimentos. A única lubrificação vinha de si próprio.

— Não quer o óleo-

— Não! — O interrompi rudemente. — Quero assim! Sentir você me rasgando! Quero essa dor…

Queria senti-lo por inteiro e ter certeza de que nós somos reais. Isso não é um sonho e nem uma leitura erótica descrita pela Julieta do futuro.

Isso somos nós!

Eu e meu Heinrich de verdade!

Aqui e agora.

Seguro seu rosto fazendo-o encarar meus olhos, ele se move junto comigo. Vai tão, tão fundo. Mantive-me empurrando o quadril para baixo, ele metendo o seu para cima e o resultado é o choque de peles ecoando no quarto. E os movimentos vão criando intensidade. E não deixamos de olhar nos olhos do outro.

O suor vem. As respirações descompassadas. Os gemidos. As lágrimas. A busca incansável pelo êxtase.

E a tristeza se faz presente na primeira de uma sequência de despedidas.

— Eu te amo, Heinrich! Eu amo você. Amo você. Amo você. Amo… Amo… Você… Heinri… — Gemendo como louco, sussurrando enquanto choro e sento com raiva, tentando me livrar das sensações ruins. Do ódio que sinto por tudo que está acontecendo.

Quero destruir cada uma dessas lágrimas, eu as odeio. Se elas fossem vidro, as lançaria contra as paredes para explodirem em milhões de cacos. E talvez assim pudesse perceber o quanto me pareço com os estilhaços no chão.

Ele surra meu ponto sensível com força e tapa minha boca quando grito e gozo fortemente, apertando-o dentro de mim, sentindo-o jorrar ao mesmo tempo. Puxo seu cabelo sem dó, me contorcendo em deleite.

Nossas testas encostadas, os movimentos mais suaves agora, pulmão queimando, suor escorrendo, coração quase explodindo, sensação arrepiante de alívio, ainda olhamos encaramos a alma um do outro através dos olhos e quando liberta minha boca nos unimos nossos lábios de forma desesperada e apenas ficamos assim respirando nós

— Eu te amo tanto, Icarus. — Ele sussurra enchendo-me de beijinhos no pescoço, mesmo suado, apertando minhas nádegas e as gordurinhas da cintura ao quadril. — Como isso pode doer e me fazer feliz ao mesmo tempo?

Não respondo, não sei o que dizer. Apenas continuo os carinhos em sua nuca, puxando levemente suas mullets. Não digo nada, pois me sinto do mesmo jeito, se abrir a boca irei chorar. O abraço mais forte, em resposta.

Mas ele precisa expor seus sentimentos, vejo essa necessidade nos seus olhos marejados.

— Por que parece uma despedida?

Isso me faz respirar fundo e prender o ar dentro dos meus pulmões, fecho meus olhos na mesma hora e deito minha cabeça em seu ombro.

Eu queria estar naquela sala de hotel que sempre me vem em sonho, com nossos gatos gordos, nossas luzes coloridas, enfeites natalinos, usando suéteres de crochê, corações amarelos, transando feito loucos, comendo bolinhos e ouvindo discos de vinil. Em um mundo onde podemos nos amar sem medo de sermos atacados ou mortos por isso.

Em cima da nossa torre, vendo todas as estrelas do céu, com a nossa filha. Escrevendo cada detalhe, fotografando cada instante para acordarmos e nos lembrarmos todos os dias.

Caminhando em volta do nosso castelo enquanto nosso povo vive feliz, em paz e união. Com ele fazendo magia com as mãos só para me impressionar e eu ensinando como seguir os rastros dos animais pela floresta.

Mas a minha realidade é muito mais dolorida.

— Icarus? — Ele estranha e tenta me afastar para ver meu rosto, mas mantenho-me estático com força. Minha garganta fecha e meus olhos queimam. — Anjo? O que está acontecendo?

E ele continua sem respostas enquanto tremo em seus braços, lutando internamente para não chorar.

— Você está estranho desde Paris. O que você sabe que eu não sei? — Ele insiste.

Oh, Heinrich, se você soubesse ao menos a metade… Talvez, só o começo…

Por que tem que doer tanto?

Luto fortemente para não desabar e contar tudo de uma vez. Por favor, minha santinha, me dê forças. Eu não vou conseguir. Não sou forte o suficiente.

— Campelo! Estou preocupado, o que está acontecendo? Você vai me deixar? Isso é mesmo uma despedida? — Vejo seu desespero e só então me afasto para encarar seu rosto e ver nitidamente sua expressão desesperada.

O que eu faço?

O que eu digo?

As lágrimas escorrem.

Contudo, me vem à imagem do meu Heinrich tirando sua própria vida… E não posso deixar isso acontecer! Por essa razão, mantenho-me firme.

— E-eu nunca vou te deixar. — Minha voz saí um fiasco, denunciando o choro silencioso que ele não consegue ver. Suspiro e soluço ao mesmo tempo, Heinrich encara-me totalmente assustado, sem saber o que dizer, sei que está começando a entender tudo.

Estou convicto que não devo prometer nada a ele, pois posso muito bem não poder cumprir. Logo, não afirmo que é uma promessa, mas dentro de mim, prometo a nós dois.

— Não, não vai me deixar. Mas também não vai ser meu. Não é? — Ele acerta precisamente e isso me faz cair no choro e o faço com vontade. O Conde entende tudo. E me abraça fortemente, passando suas mãos por minhas costas e consolando-me. — Por favor, não chora assim. Por favor. Shhh… Está tudo bem, pequeno. Está tudo bem.

Persiste em me consolar enquanto estremeço em seus braços. Preciso fazer um esforço imenso para parar de chorar. Decido, que ele merece saber. Por essa razão, eu digo, não a verdade completa, mas parte dela.

— Meus pais… e-eles… e-eu… me arranjaram uma noiva e hoje à noite é o jantar. E… eu prometi que iria recusar, eu sei, Heinrich. Prometi que não me casaria e ficaria com você… — Solucei alto, interrompendo minha própria fala.

— Mas sei que não pode cumprir essa promessa. É pelo nosso bem, Icarus. Sempre soube que quando esse momento chegasse, precisaria abrir mão de você. — E foi exatamente isso que me disse na nossa primeira vida e é exatamente isso que repete para mim.

Julieta, meu Deus…

No livro dela, eu sou tão imaturo, um apaixonado seguindo as minhas emoções e esse foi o meu erro. E embora o Conde tenha me dito essas mesmas palavras, ele deixou a decisão nas minhas mãos. E isso causou a minha morte.

Não fui capaz de tomar uma decisão sábia por nós, insistir em ser conduzido pela febre delirante da paixão. E isso nos matou.

Meu erro. Minhas escolhas. Minhas consequências.

Percebo que meu único acerto sempre foi amá-lo incondicionalmente. E embora tenha sido uma desgraça, não me arrependo de tê-lo escolhido. Não consigo me lamentar por morrer por ele, a não ser pelo fato de que, seguidamente, sofreu tanto que se matou.

Heinrich… sou eu quem causei sua ruína, eu quem te levou para o túmulo. E isso refletiu para sempre, tanto que virou um Eco em nossas almas.

— Mas eu não quero ficar sem você. — Digo desesperado.

— Se a infidelidade não for um problema para você, também não será para mim. Aceito-te como você for, Icarus. Inteiro ou pela metade. Casado ou solteiro. Nada pode mudar meu desejo por você. Nada. Eu vou continuar te amando, vou continuar querendo te foder inteiro. Entendeu? Se você assim quiser… — Não digo nada, estou surpreso demais por já saber suas falas idênticas ao que li. — No entanto, viver sobre uma máscara é perigoso. Te conheço, Icarus, você não consegue sustentar isso. Você é puro e verdadeiro demais.

E nisso estava certo, não sou capaz de trair e viver como se isso não fosse nada. Não suportaria carregar isso. E me pergunto como Ingrid consegue tão facilmente.

— Não sei o que fazer. Não me vejo casado com nenhuma outra pessoa além de você, não desejo nenhuma outra pessoa, Heinrich. O que eu faço? Por favor, me diga… Isso está me matando… — Abraço-o novamente escondendo meu rosto na curvatura do seu pescoço.

— Isso também me machuca, amor. Muito. — Ele confessa com sua voz afetada. — Dói te ver assim, Icarus. Mas isso tudo é muito maior do que nós dois. A decisão está na sua mão, continuarei te amando independente do que decida.

Heinrich não pode escolher por mim, disso sei bem. Isso também não mudava de uma versão para a outra. Tinha que encontrar a resposta no meu coração. Afinal, tínhamos que sobretudo proteger o nosso segredo, considerando que isso causar a nossa morte.

Voltei no tempo para tentar ficar com ele, amá-lo e parece que quanto mais tento, mais distante essa possibilidade fica.

— Vai dar tudo certo, amor. Você é meu. Sempre será. — Ele diz e choro em seus braços até dormir de tanto cansaço pelas noites não dormidas.

Quando acordo já é hora de almoçar e Ryu auxilia-me a arrumar para mais um dia, informando que o Conde precisou sair. Devido à sua ausência havia muito trabalho o esperando, pendências e problemas a serem resolvidas, por isso optou por trabalhar no prédio da prefeitura. Mas me deixou uma tarefa. Levar uma caixa para Mongo, encomendas que ele fez ao Conde para que lhe trouxesse de Anjou.

Durante o almoço encontro-me fugindo de Dalva que me perguntou o que eu estava fazendo dormindo no quarto do Conde. Graças a minha santinha, Ryu arrumou uma desculpa para mim. Distraio-me um pouco com Liana que já está em seus cinco meses de gestação, com uma barriguinha charmosa.

— Vocês já estão pensando nos nomes para o meu sobrinho ou sobrinha? — Pergunto todo animado, me sentindo parte da própria família.

— Se for menino será Samuel. — Liana diz olhando para o marido.

— Mas se for uma linda e bela menininha, como a minha esposa maravilhosa, será Olívia. — Ryu responde todo apaixonado, dando um selinho nos lábios da sua esposa.

— São lindos nomes. — Digo sorridente e os dois concordam, acariciando a barriga oval.

Vejo Dalva olhando apaixonada para os dois e me pego da mesma maneira. Sinto paz ao ver o quanto os dois estão e são felizes. Percebo que o Campos Elísios é apenas uma cicatriz que definitivamente ficou no passado.

E, sinceramente? Agradeço ao Homem do Céu por isso, por ajudá-los a superar e ter a felicidade que merecem.

E não consigo evitar, pergunto-me se um dia terei um final feliz também.

— Vamos? — Ryu me pergunta de repente, acordando-me de meus pensamentos. — Posso ir com você até a hospedagem de Mongo.

— Claro, vamos sim. — Digo por fim, assim nos despedimos das moças na cozinha e seguimos até a saída do casarão onde Caetano nós esperava com dois cavalos já selados.

Montamos nos animais e passamos pelos guardas cavalgando rumo a descida da colina onde jaz a casa que Mongo está ficando, sinto um arrepio gélido na minha espinha. Como se alguém nos observasse. E, na verdade, eu sei que sim. Estou ciente que essa pessoa está vigiando Mongo e sua família. Sei que por entre as árvores da estrada, ali está ele.

Meu assassino.

Desço do cavalo sem me preocupar, Mongo já nos esperava, portanto, já vai logo abrindo a porta e nos recebendo calorosamente. Juntos, carregamos o baú para dentro de sua casa onde acabo por ver sua avó e sua irmã, curvo-me para elas em cumprimento.

— Anjou é encantador, não é, Icarus? — Mongo me pergunta com seu sotaque engraçado.

— É definitivamente mágico, Mongo. Toda aquela arte por todos os lugares, me senti em um conto de fadas. — Falei inspirado. — Suponho que você não foi o único a visitar Paris, caro Ryu.

— Eu tenho certeza disso, caro Icarus. — O japonês devolve dando risada. — Você tinha que ver os automóveis lá em Paris, são carros mecânicos. Se movem sem a ajuda de um animal. Quase fui atropelado por um.

— O mesmo aconteceu comigo. — Mongo conta rindo. E os dois desatam a falar sobre o assunto.

Bayo – a avó de Mongo que me deu uma pedra alegando ser protetora – me observa de longe e dá sorrisos felizes. Acabo me desligando da conversa e prestando atenção nela que está na cozinha de frente para a porta dos fundos da casa, onde temos acesso a um jardim.

Aquela típica e familiar sensação de frio percorre meu corpo e a imagem de Julieta vem à minha mente. Calmamente, caminho até Bayo e ela me recebe segurando em minhas mãos.

A senhora olha no fundo dos meus olhos e sorri. Toca meu rosto com cuidado e leva minhas mãos até seus lábios deixando um beijo gentil. É incrível o mistério que a cerca, a calmaria que me passa e o amor que recebo de uma completa desconhecida.

Mongo logo vem até nós, dizendo algo para sua avó, pelo tom parece que ele está chamando sua atenção. A velha o olha feio, devolvendo algo no mesmo tom. E seguidamente parece pedir algo a ele.

— Vovó teve uma visão sobre você. — Ele me informa e vejo Ryu ao lado de Mongo erguer as sobrancelhas. — Ela tem carinho por você. Gosta de ti.

— Oh. — Olho surpreso para a velhinha e ergo minhas sobrancelhas. — E o que a senhora viu? — Olho desconfiado para Mongo. — Ela pode mesmo ver o futuro?

— Alguns não acreditam, mas sim, vovó tem um dom. Nossos ancestrais, que já se foram, entram em contato com ela e lhe revela coisas que nós humanos não sabemos e às vezes não somos capazes de entender. — O africano explica-me e fico mais curioso. Já li sobre a possibilidade de existirem pessoas como Bayo, uma médium.

— Eu quero saber, Mongo. — Confirmo.

Desse modo se dispõe a falar com ela em sua língua e por fim, finalmente me diz, traduzindo enquanto ela fala:

— Suas decisões causarão desolação, agora que sabes de sua morte, poderá mudar o seu destino se escolher com sabedoria. Inicialmente, será obrigado a ignorar seu coração, dando espaço para a voz da razão. Sua sábia escolha está te trazendo tristeza, mas seu novo futuro já está escrito. Ela te vê na felicidade, Icarus, onde céu e mar se encontram e se tornam apenas um. Você está com as pessoas que tanto ama. Seu novo futuro. — Mongo diz, enquanto a senhora olha em meus olhos e acaricia minhas mãos. — Mas cuidado, uma mísera escolha errada e tudo poderá desabar. Não desvie do seu caminho. Mantenha suas sábias decisões e deixe que o destino trate do resto. Confie no destino.

Um calor imenso preenche meu corpo e conheço essa sensação. É alívio, conforto e esperança. Minha única reação é abraçar essa mulher diante de mim com todas as minhas forças. É que às vezes tudo que precisamos é de ouvir uma palavra amiga de que vamos conseguir.

E eu sabia que muita coisa iria me acontecer e demoraria para encontrar a felicidade novamente. Mas aconteceria

Eu vou conseguir.

Confie no destino.

Mantenha suas sábias decisões.

Não desvie do seu caminho.

Escolha errado e assista seu fim…

Minha santinha…

Agradeço a Bayo e Mongo que me pede desculpas por isso, mas apenas demonstro toda minha gratidão mostrando que não tinha nenhum problema, pelo contrário, as visões de sua avó me traziam esperança. Sou grato pelos conselhos sábios e as revelações avassaladoras.

— Icarus? — Mongo me chama de repente e segura meu braço levemente, antes que eu suba no cavalo. Quando lhe dou atenção, ele olha tudo ao nosso redor e diz. — Deixarei Anmak em breve, não diga nada ao Conde, mas sinto que não sou bem-vindo. É mais seguro que não venha mais aqui, Icarus.

— Mongo, o que está dizendo? — O olho realmente preocupado, fico até assustado com isso. — Alguém está tentando machucar vocês? O Conde precisa saber, Mongo! Vocês são sócios…

— Não! Ele não precisa. É pior do que poderíamos imaginar e não quero uma briga. Em breve, irei para Santa Catarina, outro amigo irá nos acolher. Vai ser melhor para todos. Só não quero lhe causar problemas, por isso lhe digo: sinto muito, mas evite vir aqui, pelo seu próprio bem. — E com isso, Mongo abraça-me, mostrando que eu não estava sendo expulso, pelo contrário, ele estava mesmo tentando me proteger.

— Mongo… — Murmuro muxoxo.

— Vai ficar tudo bem. — Mongo faz carinhos em minhas costas. — A luz com que vês os outros, é a luz com que os outros te vêem a ti. — Guardo seu provérbio em meu coração.

— Espero que possamos nos encontrar novamente. — Digo, afastando-me aos poucos.

— Nós vamos. — Ele me garante. — Fique em paz, amigo.

E assim nos separamos e penso se é mesmo a última vez que o verei.

Vou embora assustado, perdendo toda a felicidade que Bayo me passou. Como eu não vou contar isso para o Conde? Seria muito difícil. O que estaria acontecendo com os Makalani? Que rixa poderia ter tamanha força que os faria fugir acanhados?

Parecia que a resposta estava diante da minha cara, mas não conseguia encontrá-la.

Distante o suficiente da casa de Mongo, Oshiro me olha estranho e praticamente consigo ler seus pensamentos. Entretanto, ele os verbaliza:

— O que diabos foi aquilo? — Diz meio assustado. — Icarus, eu arrepiei todo. Por Deus.

— Também não sei, Ryu. Só sei que me sinto melhor com aquelas palavras. Mas, ao mesmo tempo, fico alarmado com as coisas que Mongo me disse depois. — Digo enquanto cavalgamos devagar.

— É melhor seguirmos o que ele falou. — Diz Ryu, sabemos que violar o pedido de Mongo pode ser muito perigoso. Afinal, não tínhamos ideia do que estava acontecendo.

— Não vamos contar ao Conde? E se alguém perigoso estiver por aí? — Estremeço assustado.

— Não é da nossa conta, Campelo. Se alguém deve contar algo ao Conde, esse alguém é o próprio Mongo. — Ryu diz e encerramos o assunto de vez, concordo com ele. Embora quisesse tanto contar para o Conde, a fim de proteger meu amigo.

O que estava acontecendo em Anmak?

Passei o resto do dia perturbado com o que Mongo disse, será que tinha a ver com a presença que eu sentia? Sempre observando-me? Julieta havia me avisado que seria assim. Será que o meu assassino estava atrás de Mongo também?

Tratei de relatar tudo no meu diário. Passando horas escrevendo até dar a hora de me aprontar para o jantar na casa dos meus pais. Dalva já ciente, ajuda-me a arrumar com um terno simples, penteando meu cabelo e dizendo que eu tinha que parecer bonito para a noiva cujo recusaria da forma mais educada possível.

Quando pronto, me encaro no espelho sentindo a ansiedade tencionar os músculos e o coração começar a acelerar.

— Você está lindo, meu menino. Ela vai ficar apaixonada! — Dalva diz, fazendo-me ficar envergonhado. — Faça elogios para ela, jovens moças gostam de ser elogiadas.

Rio baixinho e sem graça concordando.

— Obrigado, Dalva querida, você é uma segunda avó para mim. — Dou um selar sobre sua testa e ela sorri toda apaixonada me chamando de netinho.

Apenas sigo firme na minha decisão e quando deixo o casarão, Heinrich ainda não voltou, me causando um aperto no peito. Mas infelizmente não posso esperar mais, apenas tomo rumo para o meu destino.

— Boa sorte, amigo. — Ryu diz quando me faz companhia até a carruagem. Nós trocamos um abraço e respirando fundo subo no veículo.

Caetano me leva de carroça para o vilarejo. E assim que chego meu pai sai de casa para me receber.

— Ocê’tá bonito por dimais, meu fio. — Papai me saúda com uns tapas nas costas, típico do seu jeito característico. — Anjou foi bão?

— Foi sim, papai. Realmente bom. — Caetano me ajuda a pegar as caixas com os presentes que trouxe. Meu pai leva tudo para a varanda e despeço-me do cocheiro.

Subo os poucos degraus da sacada na entrada da minha casa, deparando-me com um Costelinha desesperado de saudades, até mesmo choramingando e rodopiando para todos os lados.

— Garotão, também senti sua falta. Hoje vamos voltar para casa, ok? — Acariciei o topo de sua cabeça enquanto recebia lambidas por toda parte.

Diante da porta ouço conversas e risadas das mulheres lá dentro e gelo dos pés à cabeça, me encontrando paralisado. Sou capaz de ouvir o desespero nos meus batimentos e me sinto tonto quando fecho meus olhos com força… E tudo vem como uma avalanche de memórias…

A primeira vez que estive diante dessa situação foi surpreendente. Após voltar de Anjou com o Conde, me senti bem. Estávamos bem. Parecia que nada no universo poderia nos separar. Mas não foi assim que aconteceu, quando vim para o jantar que meus pais me convidaram, não sabia o que me esperava atrás dessa porta.

Mas agora eu sei.

Sei tão bem que mesmo assim não me sinto preparado, na verdade, tenho aquela mesma vontade de correr que senti na primeira vez. E sim, corri feito um cão apavorado após gritar para minha família e a moça que receberia como noiva, que eu amava outra pessoa e que não me casaria com nenhuma outra.

Erros.

Encare-os, Icarus.

Minha família ficou em choque enquanto eu desabava em lágrimas. O Icarus Campelo da primeira vida, fugiu e foi em direção ao mar para gritar aos céus que amava um homem.

E justamente Ingrid foi atrás de mim, aproveitando-se da minha fragilidade emocional. Sim, agora você sabe qual foi o meu primeiro erro. Confiar na minha irmã que desde então, tem se mostrado ser uma víbora.

“A luz com que vês os outros, é a luz com que os outros te vêem a ti.”

Tudo o que você ama no outro está também dentro de você, o mesmo vale para as coisas contrárias. Sendo assim, se você olha para seu próximo e vê bondade nele, há bondade em você.

E não há bondade em Ingrid Campelo.

Na minha primeira vida meu erro crucial foi confiar a Ingrid meu segredo, não com todas as palavras, mas o suficiente para conseguir o que ela queria. Diante da Praia do Coral, onde costumávamos ir, revelei-lhe que estava apaixonado por alguém que eles não aceitariam. Ingrid usou sua inteligência para concluir tudo, ela ficou de olho em mim por dias até que ligou os fatos.

Descobriu que eu estava tendo um caso com o Conde. E destruiu a minha vida. Ingrid não é a minha assassina, mas faz parte da minha morte. Sim, a minha própria irmã. Logo, ela é tão culpada quanto quem de fato me matou.

— Fio? — Meu pai me chama e estala seus dedos diante de meus olhos, me acordando do transe. — Icaru? Cê tá bem?

— Pai, sim. Estou ótimo. Vamos entrar? — Digo, consertando-me. — Já volto, Costelinha. — Coloco-me de pé, já que estava abaixado, acariciando meu cachorro e recomponho-me.

— Vamo. Tem arguém que precisamo te apresenta. — Ele conta a novidade que deveria me surpreender. E bom, em outra vida, realmente me surpreendeu.

“Alguém? Do que se trata papai?”, havia perguntado, mas agora, já sei. Por isso, estou convicto, preparado para o que me espera. Só não estou seguro da minha decisão.

Quando atravesso o arco da porta de entrada da humilde casa da minha família, ainda não sei o que decidir.

Me casar ou não?

Tic-tac…

A hora é agora. Os ponteiros não vão parar por mim. É a minha última chance.

No entanto, quando entro, dou de cara com o olhar fatal de Ingrid, se divertindo com a minha ingenuidade, por ganhar mais uma vantagem sobre mim. Com os holofotes direcionados a minha pessoa e meu suposto casamento, lhe daria tempo de sobra para aproveitar sua relação pecaminosa com o General de Anmak.

Ingrid, a moça bonita que comete erros terríveis quando ninguém está olhando. Uma cobra pronta para te dar o bote. Ela é sigilosa, silenciosa e age escondida pela sombra. Um verdadeiro demônio.

Como os meus pais – seres tão bons – conseguiram gerar um ser humano tão podre?

Ingrid era tudo, menos a minha irmã.

Seu olhar inocente me enganou da primeira vez, mas isso não se repetirá. A encaro da mesma forma, já convicto que querendo ou não, ela também é uma assassina. Cúmplice. Culpada.

E é destruidor. Dói demais alguém que eu tanto amo ser a pior pessoa existente. Diante de Ingrid e da coincidência de fatos que Julieta me narrou. Finalmente encontro a minha decisão…

Mamãe vem me abraçar, assim como Ivana e seu marido que me cumprimentam. Minhas irmãs mais novas e vovó que insiste em apertar minhas bochechas alegando que elas estão maiores. De fato, eu tinha ganhado mais peso.

— Fio, queremo te apresentar uma pessoa. — Mamãe se coloca ao lado da garota que estava ali timidamente na sala, como um objeto fora do lugar, tentando de alguma maneira se encaixar. Ela estava tão tímida que seu rosto assumiu totalmente uma cor avermelhada. — Sua noiva.

Eu a conheço, sim, crescemos juntos. E me lembro de como ficou decepcionada quando reagi tão mal. Estava apavorado. Mas hoje, mesmo queimando de tristeza, não acontecerá novamente. Abro meu sorriso sincero, dou um passo em sua direção curvando-me para saudá-la, ouço minha mãe dar um suspiro de alívio. Mas constato o olhar de surpresa da minha irmã.

Ela realmente esperava que eu fosse surtar, pobre Ingrid, tomando do próprio veneno.

A essa altura eu já estava gritando com meus pais e fugindo às pressas da minha casa. Mas dessa vez não sou aquele Icarus emocionado do passado. Aprendi com as minhas falhas.

Kassia trajava um lindo vestido amarelo âmbar com detalhes brancos, sim, ela é bonita e muito. Isso não posso negar. Seus traços são tão delicados e sua beleza suave. Seus fios de cabelo tão claros caíam ao redor do seu rosto em cascatas de ondas leves e bem feitas. Uma bela mulher que certamente merecia um homem à altura.

Infelizmente, eu não era esse homem. Mas isso não parecia estar sendo considerado.

E nesse momento, meu coração já sabe o que fazer.

Pelo Conde.

Por mim.

E pelo nosso segredo…

Eu mudo o futuro.

— Oi, Kassia. — Pego sua mão e dou um leve selar. Imediatamente me afasto enquanto ouço murmúrios de surpresa das minhas irmãs.

— O-oi, Icarus… — Sua voz sai um fio trêmulo extremamente baixo.

Olho para meus pais e minhas avós e atuo o melhor possível.

— Noiva? Não havíamos conversado sobre isso? — Encaro seus rostos tentando segurar minha raiva.

— Eu sei fio, mas as coisas mudo enquanto cê tava em Anjou. — Papai disse vindo até mim. — Está decidido, tu vai casar com essa moça, Icaru.

— Papai, nós mal nos conhecemos. — Eu sussurro e sinto Kassia encolher os ombros, envergonhada.

— Mai ocês vai cunhecê após o casório, fio. Vai pode ter sentimento por ela. Todo mundo casa assim. — Diz minha mãe.

Porque as pessoas insistem em nos obrigar a fazer o que os outros fazem, como se isso tornasse as coisas obrigatórias? Eu não sou todo mundo! Não é uma regra. Não é uma lei. Mas como poderia lutar contra meus próprios pais?

— Kassia é moça que cresceu com suas irmã. Nois conhecemo a famia dela, Icaru. Ela é bonita e prendada. — Diz vovó sorrindo para a moça que fica mais vermelha a cada segundo.

— Foi o pai dela que pediu, irmão. — Irene solta de repente e todo mundo olha feio para a garota que na mesma hora se encolhe arrependida, fico confuso sobre o que está acontecendo.

Olho para todos na sala tentando entender o que se passa. Logo, Kassia finalmente dá um passo na minha direção.

— N-nós podemos… hmm… conversar? — Ela pergunta extremamente tímida, num tom de voz tão baixo. Ela nunca havia falado assim comigo. Sempre que conversámos, demonstrava segurança. Mas agora toda sua confiança parecia ter caído terra abaixo.

Respiro fundo sentindo-me bem confuso e definitivamente queria as respostas de tudo isso. Respostas que Julieta e eu não tínhamos. Só por isso assenti firme, concordando com seu pedido.

— Claro, se vocês me dão licença. — Digo olhando para minha família, sinalizo para Kassia caminhar a minha frente e assim ela o faz, indo até à saída enquanto todos murmuram algo. Saio para a varanda e em seguida já fecho a porta. — Vamos caminhar um pouco, tem um bando de curiosos nos rodeando.

Ela apenas concordou.

— Costela, passear! Vamos, vamos! — Chamo o animal sabendo que adoraria fazer uma caminhada e ele prontamente se põe ao meu lado todo animado.

Guio-a pelo caminho até a Praia do Coral, algumas ruas atrás da nossa casa. Típico local onde Ingrid e eu íamos. Mudando meu passado, dessa vez não tem chance alguma da conversa na praia ser meu maior erro.

Kassia segue-me em completo silêncio, abraçando o próprio corpo, claramente tensa.

Quando chegamos na praia, tiro meus sapatos e ela faz o mesmo com suas sapatilhas e só paramos quando estamos diante da maré que sobe lentamente. O pôr do sol é apenas uma lembrança distante, considerando que no horizonte só há alguns poucos raios alaranjados. O resto é piche com pontinhos de luz surgindo pouco a pouco. Uma brisa fria nos beijava, o outono-inverno abraçava nossa ilha.

E eu odiava o calor sufocante assim como estava detestando o atual momento da minha vida.

— Icarus, eu… — Ela para como se criasse coragem para falar. — Você não precisa se casar comigo porque seus pais querem isso. Eu sei que mal nos conhecemos. Não temos sentimentos. — Ela vai logo dizendo, olhando-me preocupada e claramente afetada.

Abaixo a cabeça pensativo e nada digo por um tempo. E ela volta a falar:

— Meu pai morreu. — Ela conta o isso me faz encarar seu rosto com os olhos espantados. O Sr. Morales era dono da única livraria do vilarejo. — Ele estava doente e infelizmente faleceu. Você sabe que minha mãe morreu quando eu era criança, não tenho irmãos e nem família aqui em Anmak. Ele pediu aos seus pais para cuidar de mim, já que eram amigos. Mas sem eu saber, papai escreveu uma carta para os Campelo e nela pediu para que nós dois nos casássemos. Esse foi o último pedido do meu pai. E então, você herdaria a livraria e todos os bens da minha família.

Engoli seco imediatamente desviando meu olhar. O Sr. Morales sabia o quanto eu amava os livros, já que ficava namorando os expostos em sua vitrine… Fora poucas às vezes que falei com aquele senhor, mas de fato ele conhece minha família e o que falam sobre mim – sobre eu ser um bom partido para casamento.

Mas isso… a história de Kassia, comovia-me.

Era o último pedido do seu pai diante do seu leito de morte. Ela estava sozinha agora. Lembro-me bem quando sua mãe faleceu, vítima do ataque que sofremos. Kassia sofreu muito. Vivia lá em casa buscando se distrair com minhas irmãs. Até coloquei uma rosa-branca no túmulo da Sra. Morales, para ela ter paz. Lembro de como era gentil, doava livros infantis para a escola e eu amava os de pintar.

Agora, seu pai a deixou cedo demais. E Kassia era talentosa, não com livros e sim com medicina. Trabalhamos juntos no hospital de Lorde Balfour. Era bastante elogiada pelo seu trabalho como enfermeira, mesmo tão jovem. Certamente, ela não precisava de um marido para sustentá-la, mas esse não era o caso.

Sem seu pai, ela não seria mais respeitada no vilarejo e boatos poderiam manchar sua reputação. Seria difícil e até arriscado conseguir um marido, já que vários poderiam querer se aproveitar da sua herança. E pessoas para se aproveitar da nossa fragilidade é o que mais temos nessa sociedade.

— Kassia, eu sinto muito. — Digo verdadeiramente. É um pesar imenso, não só por ela, mas por nós. — Sei que é complicado. Mas daremos um jeito. Serei um bom marido.

Engoli seco, ela percebe que não estou feliz com a situação. E percebo que ela também não está. Mesmo que, por anos, tenha ouvido o boato que era apaixonada por mim. Mesmo assim, Kassia não está feliz.

— Não faça isso por pena. Você não precisa. Não deve nada ao meu pai, Icarus. — Ela diz com seus olhos se enchendo de lágrimas. — Não desejo um casamento infeliz. E eu vejo… Posso ver nitidamente que não tem sentimentos por mim, casar não está em seus planos-

— Kassia? — A interrompi chamando sua atenção. — Nós vamos nos casar. Está decidido.

Ela fica calada encarando-me com surpresa estampada em sua face, algumas lágrimas escapam de seus olhos. Não sei se é emoção, se é tristeza… Bem, ela não é a única com vontade de chorar. No meu caso posso assumir com absoluta certeza que não se tratava de alegria.

— Tudo bem. — E diz, se dando por vencida. Afinal, não tinha muitas escolhas e sei que não quer se tornar um fardo para minha família, cujo atualmente têm a sua tutela e a responsabilidade de garantir-lhe um futuro decente.

— O resto o tempo irá resolver. Assim como acontece com pessoas que se casam como nós. — Digo e ela apenas anuiu. — Não pense que faço isso pela herança de seu pai, tenho um ótimo emprego servindo o Conde, a biblioteca só nos renderá uma grana extra.

— Não terá que trabalhar sozinho, eu estou trabalhando para me tornar enfermeira chefe. Ganho bem. — Ela explica e concordo, meio que orgulhoso por alguém que conheço conquistar uma boa posição profissional.

O silêncio se instala entre nós e parece nos cortar como faca. É doloroso estar em tua presença, tudo isso dói tanto. Só quero ir para casa chorar.

— Vamos, eles nos esperam para jantar. — Digo, dando as costas e começando a andar.

Antes de alcançar meus sapatos a ouço dizer:

— Obrigada.

E não trocamos mais olhares e nem palavras pelo resto daquela noite. Por mais que me esforçasse, não me sentia feliz. Minha família ficou em festa, comemorando o noivado – se não fosse por minhas irmãs falando sem parar, o clima seria mórbido.

Mas ficou tudo bem, Ingrid ignorou tudo entre nós e começou a planejar com as mulheres da família o meu casamento. E nada disse, não tentei impedi-la, já estava farto e o dia ainda não chegou ao fim.

Após jantar, nos reunimos na sala para dar os presentes que trouxe para cada um. E até Kassia ganhou um presente, o anel de noivado que pertenceu a minha avó, minha mãe e agora era dela. E sim, tive que colocar sem seu dedo ajoelhado diante de todo mundo. Minhas irmãs aplaudiram apaixonadas e românticas como são.

“Icarus é tão romântico”, diziam bobinhas. Se soubessem do que estou abrindo mão, não ficariam tão deslumbradas.

— Espero que seja muito feliz no seu casamento, irmãozinho. — Ingrid disse quando teve oportunidade, com seu sorriso de víbora.

— Não conte com um convite para meu casamento, desejo se quer ver sua cara de cobra cascavel no dia mais importante da minha vida. — Minto sobre a última parte, mas falo ríspido no início, olhando-a com nojo e me certifico de falar baixo enquanto ela apenas solta uma risada maléfica.

— Será um prazer. — Diz simples e claramente incomodada.

Não digo mais nada, dou-lhe as costas, ela só merece meu desprezo.

Apenas sinto alívio por mudar o que aconteceu. Será que era o suficiente? Eu estava livre da morte? Algo dentro de mim, dizia que não. Era só o começo dos meus problemas. O pior é que agora precisarei usar minha intuição, conforme mudo o passado e faço um novo futuro. Não tendo mais as coordenadas de Julieta.

Praticamente não me despedi de ninguém quando fui embora tarde da noite, foi Ryu que veio me buscar e não precisei trocar nenhuma palavra, pela minha feição soube que iria me casar.

Minha escolha foi tomada.

A volta para o casarão foi silenciosa e não conseguia parar de pensar em Heinrich. Como queria e precisava dele. Como seus braços e suas palavras poderiam tirar essa dor dentro de mim.

E em como quebraria inteiramente os nossos corações.

Quando desci da carruagem, Oshiro segurou meu ombro e olhou-me cabisbaixo.

— Entendo seus motivos e sinto muito, Icarus. Sinto muito de verdade. — E sei que meu melhor amigo me entendia, só o abraço dizendo um obrigado enquanto trilhamos caminhos diferentes. — Vou levar o Costelinha comigo, boa noite.

Não pude respondê-lo. Ele não fica magoado, apenas assovia para o cachorro se dispõe a segui-lo e vai para sua casa. Entro no casarão. Tudo está pouco iluminado e silencioso.

Recordo-me de como cheguei aqui aos prantos dizendo o que meus pais haviam armado para mim; agora me lembro mais precisamente de como ele me consolou e disse que tudo ia ficar bem. Nós não íamos nos separar. Nada iria. Como sei onde ele está, vou até o escritório e paro de frente para a porta, encontrando-o sentado na poltrona, no recinto pouco iluminado por um candelabro e bebendo seu vinho tinto. E ele sabe que estou presente, podemos nos sentir como uma conexão direta, sem necessitar de fato de nossos sentidos humanos.

E bem aqui, nós dois fizemos sexo mais uma vez após ele me acalmar e consolar. Mas nessa nova versão, sei que isso não vai acontecer.

— Voltou tarde. — Observou com a voz fraca e rouca. Provavelmente sabia o que isso significava.

— Desculpe a demora. — Não consigo caminhar até ele. Meu corpo treme. Uma força maior me impede, a decepção comigo mesmo, minha mágoa.

— Só quero saber uma coisa. Qual foi a sua decisão? — O Conde vai direito ao ponto e dessa vez não me diz palavras reconfortantes. Na verdade, pelo reflexo do espelho próximo a ele, consigo ver seu maxilar trancar de tensão.

— Me casarei na semana que vem, senhor. — Minha voz saí trêmula, meu queixo faz meus dentes baterem um contra o outro enquanto sinto frio. — Sinto muito, Heinrich. Eu sinto muito.

— Icarus. — Ele diz erguendo uma das mãos em sinal para me calar. — Fez o necessário para nos proteger. Confio em você. Mas agora, preciso ficar sozinho…

A surpresa me atinge com um baque, sinto minhas pernas trêmulas. Ele quer ficar a sós para lidar com sua dor. E não tenho condições de pedir o contrário. Não me sinto no direito de pedir para ficar com ele.

Estávamos definitivamente quebrados demais para ajudar o outro a se erguer.

— Sim, senhor.

Saio imediatamente dali, desço a escada e no primeiro andar da casa ouço um grito carregado de ódio, seguido do barulho de algo se espatifando. E aquilo me faz cair de joelhos, tocando meu peitoral, sentindo uma dor tão forte que me dava ânsia. Corro até a cozinha pegando um dos baldes ali deixados e no caminho para meu quarto roubo uma garrafa de whisky do Conde.

Estava cego de raiva, tristeza, mágoa… E sim, iria me afogar na bebida alcoólica para que tudo isso passe e não tenha que lidar com os meus pensamentos dolorosos. Tranco-me em meu quarto sentindo minha respiração falhar e ali escorro até me sentar no chão com minha cabeça entre as pernas.

Grito. Vômito. Choro. Enquanto sou atacado por uma crise respiratória.

Quando passa, não penso duas vezes em beber o álcool horrível, desce queimando pela minha garganta e depois que a garrafa está vazia. Só Deus sabe o que aconteceu, a única coisa que me lembro é de acordar com Ryu esmurrando minha porta e o sol no meio do céu, tão frio quanto meu coração, sufocado por nuvens cinzentas dos dias frios. E eu no chão, largado como um moribundo, com a terrível lembrança em minha mente de que daqui a seis dias estarei me casando com uma mulher. Ao invés de permanecer nos braços do meu Conde.

Pelos menos havia funcionado, o álcool nocauteou minha mente, paralisando aqueles sentimentos sufocantes e toda a dor. Restou apenas o vazio. E agora uma ressaca horrorosa, a primeira da minha vida.

Só havia um conforto dentro de mim: o fato de ter consertado meu primeiro e maior erro.

Mas agora, só me restavam as consequências dele.

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