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Me encontre cantando sobre você
Sábado, 18 de maio de 2024
Leonidas e o piano pareciam apenas um, seus dedos percorriam as teclas com sutileza e, ao mesmo tempo, ferocidade. Estava envolvido na canção, as teclas respondiam ao seu toque com uma sensibilidade única. Pressioná-las é como fazer contato com uma extensão de si mesmo, imergindo-o sua alma numa leveza, apertando-as com firmeza ora com delicadeza, o que dependia da peça ou da intenção da canção. E essa intensidade divergente o permitia transmitir seus sentimentos mais profundos.
O músico não conseguia parar aquele intricado quebra-cabeça de sons harmoniosos, a combinação de notas e acordes o fazia criar progressões musicais que evocam até a última emoção do seu ser. Estava imerso, dando voz ao seu coração. Enquanto os dedos dançam pelas teclas e se entregava ao fluxo da música, envolvendo-se completamente na sonoridade que estava criando, seus pensamentos voaram até Kalliope. Ele imaginou seu sorriso, seu cheiro, a pele macia, as curvas que ele agarrou com força. O jeito que se uniu a ela naquela piscina. A forma como ela o recebeu, pulando em seus braços e fazendo juras de amor que, mesmo se um dia sofresse de amnésia, duvidaria que se esquecesse.
Estava tão concentrado em pôr seus sentimentos para fora que se esqueceu completamente de Joaquim, seu aluno, qual deveria apenas ver como se tocava o refrão em questão corretamente.
— Acho que dessa vez eu entendi, senhor Leonidas. — Disse o garoto, impressionado com seu professor e o fazendo libertar-se do transe imersivo.
— Foi mal, carinha. Acabei me empolgando. — O músico riu, cessando a canção.
— Será que um dia vou me sentir assim tocando? — Questionou o rapaz, que ao contrário do musicista, não tinha a menor vontade de estar ali. Mas seus pais insistiram que ele deveria aprender a tocar tal instrumento, mais como uma atividade para preencher seus dias do que um passatempo. — O senhor parecia tão apaixonado.
— É, eu acho que estou, mas não somente pelo piano. — Confessou Leonidas, com um sorriso inevitável no rosto. — Encare o piano como um desafio, sim? Talvez se sinta menos pressionado. Você não precisa amar para tocar, carinha.
— Tudo bem, senhor Leonidas. — O garoto assentiu, meio cabisbaixo e começou a pressionar as teclas, executando o que a pouco o professor o ensinou.
Leonidas se sentia pouco animado diante do rapaz desinteressado, mas ser professor indica que nem sempre lesionara para entusiasmados por seu ofício. Controvérsia, havia outros alunos imensamente apaixonados pela música e que ficavam tão eufóricos que Leonidas mal podia ensiná-los e já estavam pondo em prática.
Acompanhou o desempenho do menino, exibindo uma careta entre um acorde desafinado e outro, mentoreando algumas melhorias. E finalmente, seu expediente do sábado chegou ao fim ao meio-dia. Leonidas pilotou sua motocicleta pelas ruas movimentadas de Vera Marine até os prédios luxuosos da zona sul.
Assim que entrou no condomínio, deu aquela conferida na janela do quarto de Kalliope, não vendo nenhuma movimentação interessante. Provavelmente ela sequer estava em casa, rumou para o apartamento de sua mãe e enquanto aguardava o elevador ser içado, recebeu uma notificação de e-mail em seu celular.
Leonidas deparou-se com uma notícia muito esperada, a imobiliária havia acabado de dar um sinal positivo com relação aos dois imóveis que se interessou. Um era um apartamento no subúrbio perto da BlackCat, o estúdio de tatuagem e salão de beleza de suas melhores amigas. A outra opção era mais próxima das montanhas ao leste da cidade, uma casa geminada com um pequeno quintal para o Juca – essa era uma opção tentadora e inesperada.
— É isso ai, cara! — Comemorou socando o ar e exibindo um sorriso imenso no rosto.
Chegou à porta do seu apartamento e a destrancou com sua digital, já ouvindo o chorinho de Juca ao notar sua presença.
— Garotão. — Abaixou-se assim que a porta abriu, aceitando seu cãozinho amoroso nos braços, recebendo “lambeijos” na cara e rindo de um rabinho que chacoalhava para lá e pra cá. — Também te amo.
Deixou a mochila jogada no sofá da sala e foi guiado até a cozinha pelo cheiro delicioso que vinha dela. Mesmo que não fosse boa em cozinhar, a receita de macarrão com salsicha da dona Marilia era simplesmente perfeita.
— Mãe, adivinha só? — Entrou no cômodo já falando. — Consegui carta-branca para aqueles imóveis que estava olhando, não é demais?
A mulher estava em seu estilo dona de casa, o que era extremamente raro de se presenciar. Marilia nunca ficava em casa, estava sempre ocupada com o trabalho. Mas aqui estava, usando blusa furada, shorts de dormir, pés descalços e um coque desarrumado.
— Sério, querido? Que notícia nada boa para sua mãe. — Marilia fez um bico, pouco contente. — Não tô pronta para deixar você voar.
— Mãe… não vou te abandonar. — Leonidas abraçou a mulher por trás, apoiando o queixo em seu ombro para vislumbrar o que ela estava cozinhando. — Macarrão com salsicha. Amo.
— E eu quase perdi o ponto de cozimento do macarrão, incrível a minha zero capacidade de cozinhar. — Sorriu triste.
— Mãe, eu amo seu macarrão com salsicha, juro. — Deu beijos na bochecha da mulher para animá-la.
O relacionamento entre os dois melhorou em proporções consideráveis desde o acidente. Mesmo que Marilia tivesse perdido seu grande amor e sua carteira de motorista por causa das atitudes do filho, sua felicidade constava-se em tê-lo vivo ao seu lado. Nada no mundo valeria mais do que isso.
— É triste vê-lo partindo, mas fico muito feliz por você, meu filho. De verdade. — Salientou a mulher, sorrindo e levando a colher com molho pro rapaz provar. — Bom?
— Perfeito, dona Marilia. — Deu mais um selar na bochecha da mesma.
— Dona não, rapaz. Eu sou uma adolescente de 42 anos, me respeite. — Argumentou, magoada.
O músico gargalhou, soltando a mãe para dar atenção a Juca, que escalava suas pernas e latia.
— Eu sei, seu almoço, amigão. — Foi em direção à lavanderia para colocar ração no pote do animal. — Ei, mãe, eu tava pensando… a senhora vai estar em casa hoje à noite? — Disse alto para ser ouvido na cozinha.
— Nops, reunião das garotas na casa da Claudia e você sabe como não tenho um pingo de controle quando se trata de vinho. Vou dormir por lá. — Avisou, enquanto arrumava a mesa de dois lugares da varanda para almoçarem. — Por que, querido?
— Talvez eu traga alguém…
Marilia parou tudo que estava fazendo para olhá-lo desconfiada.
— Minha casa não é motel. — Ralhou, falsamente brava.
Na verdade, ela nem ligava, estava surtando por dentro por saber que seu filho estava saindo com alguém. Por todos esses anos, Leonidas nunca lhe apresentou uma namorada. Quando tinha espaço para falar sobre isso com o filho, ele apenas dizia que vivia casos de uma noite só. Afinal, um cantor de bar é deveras almejado.
Após o acidente, ela descobriu a paixão de Leonidas por sua ex-enteada, fato que a surpreendeu muito, pois nunca havia notado esses sentimentos. Acompanhou a primeira desilusão amorosa do filho, que durou longos anos. E agora, finalmente ele havia seguido em frente. Não poderia estar mais feliz por ele.
— Não é mesmo, eu sei. Mas é coisa séria. Quer dizer, ainda não oficializamos, mas os propósitos são bem claros. E não é como se você não a conhecesse… — Explicou Leonidas, fazendo sua mãe semicerrar os olhos em curiosidade.
— Do que você tá falando, moleque? Desembucha antes que eu arranque o mistério no tapa. — Brincou, enquanto levava a panela de macarronada para o centro da mesa.
— Mãe?
— Que foi?
— Eu e a Kalli nos resolvemos.
— É O QUÊ, LEONIDAS? — A mulher gritou, completamente pasma, sentiu o sangue esfriar na hora.
— Mãe do céu, senta. — Correu para acudir a mulher que ficou tão pálida quanto um papel, Marilia se sentou na cadeira da varanda com as pernas bambas. — A senhora tá bem?
— Acho que estou sonhando…
— Não, mãe. É verdade. Kalli e eu estamos juntos. — Constatou novamente, Marilia o observava como se o que estivesse falando fosse grego. Ela precisou de alguns segundos para assimilar a notícia.
— Minha nossa senhora… — Ralhou a mulher, hiperventilando. — Eu acho que eu vou… ai meu deus… — Marilia começou a chorar.
— Mãe? — Leonidas ficou surpreso e abraçou a mulher, de joelhos entre suas pernas. — O que foi, dona Marilia?
— Filho… eu… tô muito feliz por você. — Confessou chorosa.
— É sério? — Leonidas ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Sim. Ela sempre foi seu grande amor e por muito tempo fiquei com o coração apertado em vê-lo sofrer por ter te afastado dela. É claro, os motivos eram inevitáveis. Mas eu só queria que você fosse feliz. — Confessou com a voz trêmula.
A verdade é que Marilia era a única culpada por todo o inferno que Leonidas enfrentou na adolescência. Quando seu filho mais precisava de sua atenção, ela pensou que isso seria resolvido seguindo em frente, forçando-o a aceitar uma nova família quando, na verdade, só estava garantindo a sua felicidade enquanto seu filho precisava desesperadamente de ajuda psicológica. Marilia foi uma péssima mãe para ele e se arrepende disso todos os dias. Não havia nada que pudesse fazer para devolvê-lo à sua juventude roubada pela dor do luto.
Depois do acidente, voltou sua atenção ao rapaz e, juntos, recolheram os caquinhos e se refizeram aos poucos. A relação que jurava jamais ter cura, se tornou inesperadamente boa. Eram grandes amigos agora, Leonidas estava bem, embora ainda lhe restassem arrependimentos, culpas e um coração partido.
E agora essa notícia que acendia a fogueira apagada de seu coração. Seu filho estava tão vivo diante de si, o sorriso, a felicidade… era mais do que havia pedido em suas orações.
— Ela me faz muito feliz, mãe. — Afirmou, para que não houvesse dúvidas disso.
— Eu sempre soube que faria. — Marilia acariciou o rosto do filho. Poucas coisas na vida podem deixar uma mãe tão feliz quanto a nora que tanto almejou para seu filho. — Ela deve estar linda, não é?
— Muito. Nem acredito que fisguei uma sereia dessas. — Confessou o rapaz, pegando o celular para mostrar seu papel de parede, onde havia uma foto dela, tirada no dia que foram assistir o concerto.
Foi depois que a apresentação chegou ao fim, ele deixou Kalli sozinha por alguns minutos no terraço. Quando retornou para buscá-la, deparou-se com a moça com as costas apoiadas no parapeito e observando a noite distraidamente. Leonidas clicou às escondidas e passou noites em claro observando aquela fotografia, desejando ter o coração da moça para amar. E por fim, ele conseguiu, o que soava impossível e inacreditável.
— Ai meu deus, você apaixonado é a minha maior fraqueza. — Marilia enxugou as lágrimas, respirou fundo para controlar a emoção que sentia. Amava Kalliope e amava seu filho, não poderia ter recebido notícia melhor. — Me conta, como isso aconteceu, sim? Eu quero todos os detalhes. Quer dizer… quase todos, se é que me compreende.
Leonidas sorriu, tão feliz pela aceitação de sua mãe, imaginava que ela reagiria de uma maneira negativa. Considerando o passado, mas a realidade mais uma vez o surpreendia. Pelo visto os astros se alinharam ao seu favor. Aquela bússola tatuada em seu braço apontava para o destino correto. Sua fada-sereia.
Passaram a tarde toda juntos, conversando sobre Kalliope. O músico delatou o reencontro conturbado para sua confidente, que chorou emocionada, como se assistisse a um filme de romance na sessão da tarde. Sentiu seu coração mais leve por compartilhar a notícia com a mãe, temia que não fosse bem recebida.
E agora que Marilia havia dado sua benção, não havia mais nada que o deixasse inseguro. O caminho estava aberto e tudo que Leonidas tinha que fazer era ser o melhor homem do mundo para sua garota.
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Leonidas às 19:45: “Oi, gatinha, já estou passando o som. Você vem?”
Kalliope às 19:48: “Chego em meia-hora”.
Leonidas às 19:52: “Ansioso para te ver”.
Kalli exibiu um sorriso imenso, sentindo o rosto queimar diante da necessidade do rapaz em vê-la. O motorista de sua mãe estava a 30 minutos da casa de shows onde o rapaz se apresentaria, seu coração parecia estar prestes a explodir no peito. Estava tão ansiosa que cogitava a possibilidade de vomitar e isso a deixava mais nervosa ainda. Focou em admirar as fotos tiradas por sua mãe na sacada do apartamento, exibindo a fantasia que havia escolhido.
Estava vestida de sereia e não viu outra opção melhor senão essa, achou fada muito simples. Se sentia incrivelmente bela e queria apostar nisso com todas as fichas. Além de tudo, não poderia deixar de impressionar o cara por quem está apaixonada.
Sem ser vulgar, optou por uma saia-midi de cetim na cor azul-céu bem clarinho, por cima da saia uma havia um tecido simulando uma rede de pesca cheia de estrelas, conchinhas e pérolas penduradas, tudo em tons de branco e perolado. Seu top no mesmo tom de azul possuía os mesmos detalhes. Optou por uma rasteirinha confortável e simples, além de uma maquiagem pouco carregada, apenas com detalhes de pedrinhas e a simulação de escamas. Deixou o cabelo curto, solto e ondulado e apostou em seu perfume mais suave e cítrico. Se sentia linda e sexy sem ser vulgar. Como Lana Del Rey no Coachella, parecendo surreal demais em seu vestido azul-brilhante.
Despediu-se do motorista assim que chegaram, o segurança no portão conferiu se o nome dela estava na lista de convidados e assim que isso foi verificado, recebeu uma pulseira branco-neon que autorizava sua entrada.
O Fantasy Club era de fato mágico como Kalli havia imaginado, completamente fora do comum a casa de shows estava localizada em Rio Vermelho, cidade vizinha a sua. Era um terreno imenso com piscinas e chafarizes no centro e ao redor ladeado por quiosques temáticos, cada um com sua cor vibrante. A distância entre um e outro era considerável, permitindo assim que cada espaço tocasse seu próprio som. As vestimentas obrigatórias do clube incluía fantasias, como em uma festa de Halloween, só que era assim todos os fins de semanas do ano.
Kalli apenas ouviu falar na boca dos jovens cheios de energia da faculdade, mas nunca o visitou de fato. Ela passou pelo quiosque de nome “Sangue Fresco” onde alguns “vampiros” exibiram caninos afiados enquanto bebiam em bolsas de sangue fake. Ela riu, achando tudo isso hilário. Atravessou a propriedade observando tudo ao seu redor e fascinada com a criatividade exposta nas caricaturas mais inusitadas. Havia borboletas, gnomos, bruxas, cavaleiros, reis, rainhas, sapos, heróis e o que mais a criatividade humana fosse capaz de inventar em termos fantasiosos.
Após uns 15 minutos perdida na festa, encontrou o quiosque que Leonidas se apresentaria. O nome “Amor & Nostalgia” a intrigou, Kalli ponderou o que poderia significar até compreender ao ouvir o artista no palco cantando músicas brasileiras e antigas que variam entre o legendário Raça Negra, Chitãozinho e Xororó a Rick & Renner. Ao que tudo indicava, esse quiosque era um imenso karaokê comunitário. A energia das pessoas era caótica, todos cantarolando em pleno pulmões enquanto tentavam se manter em pé com canecas de cerveja nas mãos transbordando pelos ares.
— Puta a merda. — Kalliope foi arrancada de seus devaneios ao ouvir a voz familiar soltando mais um típico palavrão. — Acho melhor a gente pular a festa, quero essa sereia no meu barco para ontem.
— Leonidas. — Sorriu ao deparar-se com nada mais nada menos do que Capitão Jack Sparrow em pessoa. — Meu deus… juro que se tivéssemos combinado não seria tão perfeito.
Sim, o rapaz estava perfeitamente caracterizado de pirata. Usando a típica bandana, lápis preto cobrindo os olhos, sem todo aquele cabelão já que o de Leonidas era curto, usava uma camisa branco de linho com um velho colete por cima, botas e calças marrom desgastadas. Kalli riu enquanto era envolvida em seus braços, trocaram selares cuidadosos devido a todo o gloss em seus lábios.
— Fada do dente, você tá linda demais. — Sorriu todo apaixonado, pegando-a pela mão para girá-la entre seus dedos, apreciando toda a produção da moça.
— Essa noite eu sou apenas sereia. — Brincou, já acostumada em ser chamada por seres místicos. — Você ficou um tremendo gostoso de capitão.
— Shh, não fala nada ou não vou conseguir me segurar. — Brincou, encarando-a de maneira sexy. — Vem, você precisa conhecer meu pessoal.
Se infiltraram no quiosque-bar que estava lotado de gente bebendo e cantando a plenos pulmões. Ela praticamente não conseguiu se segurar ao ver Abel – amigo de Leonidas que trabalha na orquestra com ele – vestido de nada mais nada menos do que de Chuck Noland, o protagonista do filme Náufrago. Como ele havia lido seus pensamentos? Era simplesmente hilário. Abel estava com o cabelo bagunçado e exibia uma saliente barriguinha de cerveja em uma tanguinha como a do Tarzan, ele só não era uma tentativa falha dele por estar carregando consigo uma bola de voleibol com o formato de uma mão pintada em vermelho, fiel à referência de Wilson, com os olhos e boca desenhados e pino da bola desempenhando o papel de nariz.
— Abel, isso ficou ótimo. — Foi logo dizendo, risonha.
— Eu sei, essa fantasia nunca falha. — O rapaz riu, entregando a bola para Leonidas e então abraçando Kalliope surpreendentemente. — Você está uma gata, se eu não gostasse da mesma coisa que você… Leonidas teria problemas.
— Abel! — Kalli riu alto. — Você é ótimo.
O rapaz pegou Kalli pela mão e a arrastou até as mesas mais afastadas da confusão no centro do bar. Só pararam quando estavam diante de duas mulheres muito bonitas.
— Gente, essa daqui é a Kalli, namorada do Leoni. — Apresentou aos berros, enquanto era alcançada pelo “namorado” já irritado por ter sua garota roubada de si. Abel podia ser tímido e reservado na maior parte do tempo, mas quando bêbado, era incontrolável.
A mulher de pele preta e fios volumosos se levantou exibindo um sorriso acolhedor para Kalliope, ela usava joias douradas que deixavam claro sua fantasia de Cleópatra. O tom vibrante criava um destaque lindo em sua pele escura, valorizando ainda mais a sua figura encantadora, o que fazia jus ao personagem, já que Cleópatra era conhecida por sua beleza e elegância.
— Oi, eu sou a Sonya e essa é a minha namorada Maxine. — Apresentou a mulher. Sonya, uma mulher plus size, usava um vestido decotado que realçava sua figura curvilínea, fazendo Kalli ficar sem palavras. O seu arquétipo era nítido, tratava-se de uma mulher bela e empoderada.
— Pode me chamar de Max. — Disse a garota ao seu lado, trajando uma fantasia de mulher gato, o que fez Kalli amar a coincidência proposital, não era Cleópatra que vivia com seu gato no encalço? A mulher possuía fios extremamente azul-egípcio, na altura dos ombros, seu corpo era esguio, pele escura e tinha vários piercings nas orelhas e face.
— É um prazer conhecê-las. — Kalli sorriu simpática, mas por dentro estava cheia de inseguranças.
— Não aguentávamos mais ouvir o Leoni falando de você. — Disse Sonya.
— É Kalliope para cá, Kalli para lá. — Max revirou os olhos.
— Já tem o quê? Uns 100 anos, né? — Sonya rebateu.
Kalliope sentiu seu rosto pegando fogo, ela queria ser um avestruz naquele momento, para sua sorte sentiu o toque de Leonidas atrás de si.
— Parem de constrangê-la…
— Fica calado que foi a gente que te ouviu chorando por anos por causa dela. — Sonya ralhou, brava.
— Kalliope! Béeeeeeh… — Abel fez uma imitação fajuta, berrando como um bezerro, o que arrancou risadas altas de todos os presentes, inclusive Kalli.
— Meu amor, a gente tá só aquecendo. — Alertou Maxine. — Senta aqui, gata.
Kalli foi puxada para a cadeira vazia ao seu lado, assim os 5 se sentaram em conjunto. Inicialmente sentia-se pouco desconcertada, convenhamos, Kalliope não era do tipo sociável. Pegou-se sendo encarada por Max que a observava com afinco. Seus olhos viraram dois risquinhos enquanto a analisava.
— Eu tenho a sensação que já te vi em algum lugar… — Comentou por fim.
Uma luzinha se acendeu no topo da cabeça da dentista na hora.
— Ah, meu deus! — Kalli ralhou, surpresa. — Você é do estúdio de piercings.
— E você é a garota que furou os mamilos por perder uma aposta.
— Sim! — As duas caíram na risada e trocaram um abraço desengonçado. — Seu cabelo era rosa-pink na época.
— E você não era tão loira. — Constatou Max.
— É O QUÊ? — Leonidas ralhou espantado. — Como é que porra de piercing no mamilo?
— Sim, você nunca percebeu? — Kalli virou-se para ele como se fosse óbvio.
— NÃO!?
— Putz, Leonidas, achei que vocês já tivessem transado tipo umas 50 mil vezes para compensar os anos perdidos. — Brincou Abel, revelando um lado ousado que Kalli desconhecia.
Se Leonidas fosse um objeto seria uma chaleira apitando por ter água fervente dentro de si. Embora tivessem transado caoticamente dias atrás, sequer retirou a parte de cima do biquini de Kalli, o que fazia se sentir um verdadeiro idiota agora.
— Deve ser por que uso argolinha justamente para não ficar tão nítido, o reto faz parecer que tenho três mamilos de cada lado. — Kalli explicou, risonha. — O que significa convidar todos os pares de olhos existentes na terra a olharem para meus seios alienígenas.
— Eu simplesmente não consigo acreditar… — Leonidas estava inconsolável, porra, só de imaginar Kalliope com piercing nos mamilos… bom, é melhor nem concluir esse pensamento. — Como isso aconteceu?
— Simplesmente numa das raras vezes que decidi beber com o pessoal da faculdade, perdi uma aposta idiota de bêbados e foi desafiada a cometer atos de índole duvidáveis. Dentro das opções escolhi a que não me faria perder o meu réu primário, ou seja, os pobrezinhos dos meus mamilos. — Confessou, fazendo Sonya encará-la boquiaberta.
— Que loucura, menina! — A mulher bateu as palmas das mãos na mesa, causando um agito.
— Mas ficaram lindos, não foi? — Max perguntou, já sabendo que fazia um trabalho excelente. — Você foi muito corajosa, mesmo bêbada.
— Até que fui, não é? No final, adorei o resultado. Foi a coisa mais ousada que fiz em 24 anos de vida. — Kalli riu, negando ao balançar a cabeça.
— Como assim você nunca me contou que a Kalli foi no BlackCat? — Leonidas questinou a amiga.
— Leoni, eu nem sabia que era a Kalli. Tinha uma porrada de bêbados no meu estúdio, nem me preocupei com nomes, apenas fiz o que fui paga para fazer. — Defendeu-se, erguendo as mãos em rendição.
— Apenas um brinde aos mamilos de Kalliope. — Ofereceu Abel, interrompendo o alvoroço com a garrafa de cerveja na mão.
Kalli e Leonidas apenas agarraram copos aleatórios na mesa para participarem. O rapaz ainda inconformado por não ter notado algo tão óbvio.
— Você vai ver só quando formos para casa hoje à noite. — Prometeu, entredentes, fazendo Kalli sentir um arrepio gostoso percorrer seu corpo. Ela riu da irritação do rapaz e voltou sua atenção às pessoas na mesa.
Ficam conversando e rindo as alturas sobre os assuntos mais aleatórios da vida, começaram tentando se conhecer melhor. Sonya contou que é cabelereira no BlackCat e juntamente da namorada abriram o estúdio, Max é responsável pelas tatuagens e piercings. Abel revelou que não sabia o que estava fazendo da vida, mas que gostava de música e provavelmente seria um precursor instrumental. Kalli pode contar sobre sua formação odontológica e seus planos para o futuro.
Não demorou muito para que o assunto mudasse o percurso, Kalli pôde constatar os amigos do rapaz pegando no pé dele, contando sobre as vergonhas que Leonidas já passou na vida. Como errar letras de canções, entrar em brigas, ter as roupas roubadas e um monte de TMI que Kalli preferia não ter ouvido. Aparentemente eles esperaram muito tempo para finalmente escorraçar ele na frente de uma namorada.
“Se você sobreviver à sessão de mancadas de Leonidas Vitorino, significa que é a garota certa para ele”, foram as palavras de Sonya enquanto Leonidas resmungava por falarem tão mal dele.
— O Leonidas simplesmente levou o maior tropeção nos cabos e rolou para fora do palco de cara nos peitos de uma garota, que eram tão imensos que amorteceu a queda. Ela moeu ele no soco. Nunca vi uma garota bater com tanta maestria, parecia uma lutadora de boxe premiada. — Contou Maxine, enquanto o grupo ria.
— Fui do paraíso ao inferno em dois segundos, incrível. — Brincou o rapaz, a essa altura já estava conformado com seu destino e entrou na onda, relembrando as memórias com seus amigos. — A conversa tá boa e eu sei que sou uma piada ambulante, mas preciso cumprir com meu trabalho.
O rapaz se levantou, abaixou-se para deixar um selar suave nos lábios de Kalliope.
— Meus olhos estarão sobre você. — Falou só para constatar.
— E os meus nos seus, fadinha. Eu te vejo em duas horas. — Assegurou.
— Vai lá e dá o seu melhor. — Deram mais um selar de despedidas.
Assim que o rapaz se afastou, Kalli ouviu um “hmmmmm” sacana dos presentes na mesa, fazendo-a instantaneamente ficar vermelha.
— Vocês são tão fofos juntos. — Sonya comentou, bebericando sua cerveja.
— Parece loucura, né? — Kalli encolheu os ombros e provou do drink docinho de coco que Leonidas pegou no bar para si.
— E não dizem por aí que toda loucura tem sua razão? — Abel deu de ombros sorrindo para Kalli. — Nunca vi o Leoni tão apaixonado assim… Juro.
— É verdade, você fisgou o coração dele de jeito, Kalliope. — Disse Max.
“E ele o meu”, pensou Kalli tocando as bochechas de sua face e constatando o esperado, estavam quentes. Lembrou-se de todas as suas meias-noites com o rapaz e em como sua vida havia ganhado notas acentuadas de felicidade nos últimos dias. Nem parecia mais aquela mulher frustrada de meses atrás, pulando em uma piscina usando um belo vestido vermelho na intenção de cessar a angústia em seu peito. Ela não era infeliz antes de Leonidas, só estava sobrecarregada exigindo uma perfeição inexistente. Kalliope era um ser humano e limites precisavam ser denominados para garantir a sua saúde mental. Voltar a amar outro ser humano a fez perceber como pequenas pausas podem fazê-la se sentir mais leve. A alegria quando compartilhada era muito mais gostosa. Se sentia uma mulher inteiramente realizada, havia alcançado isso com seu próprio esforço e era só o começo. Se isso é loucura, pois bem, chame do que quiser, pois ela é certamente louca.
Um barulho no palco atraiu a atenção da moça, arrancando-a de seus devaneios, o microfone chiou ao ser encaixado no apoio.
— Boa noite, galera! Vocês podem me dar atenção por um minutinho? — Gentilmente, Leonidas pediu, boa parte do público o acatou. — Meu nome é Leonidas do @orfeuoficial e hoje vou cantar umas canções bacanas para vocês. Tudo que precisam fazer é curtir, deixa a preocupação de lado, porque hoje é dia de amar e cantar como se o mundo estivesse acabando!
A galera começou a dar atenção total a ele, comemorando e gritando em agito. Kalliope ficou surpresa com o carisma do rapaz, ele sabia o que estava fazendo. Leonidas começou a dedilhar o violão despretensiosamente enquanto finalizava seu discurso.
— A gente vai começar assim, ó: “Ela dormiu no calor dos meus braços, e eu acordei sem saber se era um sonho…”
Na mesma hora um coro alto começou a soar no bar, as pessoas começaram a cantar “À Sua Maneira” do Capital Inicial com todas as forças. Ali estava a nostalgia gostosa que a temática prometia.
— Vamos para perto do palco. — Max a puxou juntamente de Sonya.
Não demorou muito para Kalliope se ver cantando e dançando com as novas amigas. As músicas eram de fato deliciosas, focadas no rock e MPB, todos sabiam a letra de cor e sorteado, afinal cresceram ouvindo essas canções por aí.
Leonidas era surreal no palco, o jeito que ele tocava, a banda atrás dele dando mais emoção nas músicas, até a forma com que ele segura o microfone e fecha os olhos, faziam Kalliope sentir algo quente a envolvendo. Ora ele pulava pelo palco, agarrado ao microfone, dando seu sangue pela música, outrora chacoalhava a cabeça, dançando com o público imerso na loucura que é ser um astro. Era sexy e sedutor, como um maldito deus.
A voz dele era poderosa, tão singular que tornava as canções unicamente dele. Era rouca e sedutora, bem como uma divindade do rock. Ela poderia ouvi-lo cantar horas a fio e ainda, sim, ficaria encantada com cada nota que ele conseguia alcançar.
Inicialmente ele ficou no nacional, depois as canções animadas voltaram-se para internacional, todas as canções cujas letras estavam na ponta da língua. As músicas foram escolhidas a dedo e eram boas para cacete. Bon Jovi, Nirvana, The Rolling Stones…
O público suava ao som de sua voz, entregavam-se a Orfeu de corpo e alma. No entanto, somente uma única alma no meio daquela multidão eufórica, o encantava de volta.
Ele cantava para ela, seus olhos devorando-a sem sequer remover as roupas. Kalliope não conseguia desgrudar seus olhares, ela deixou sua alma nua para ele e convidou-o a tomá-la para si. Ele não precisava nem ir ao inferno para isso. Ela já era dele, sempre foi e não o perderia por nada no mundo.
Orfeu voltou para o nacional, passou por Legião Urbana, Charlie Brown Jr, NX Zero e outras canções que Kalli nem teve tempo de lembrar o nome, pois estava preocupada demais em cantar com a galera. Até ele tocar “O Segundo Sol” de Cássia Eller, o jeito que fez isso olhando para Kalli, sabendo que era uma das músicas que a garota mais amava. Ele cantava para si. Não era mais um show para uma plateia, era para ela.
“Quando o segundo Sol chegar
Para realinhar as órbitas dos planetas
Derrubando com assombro exemplar
O que os astrônomos diriam se tratar
De um outro cometa”
Sua alma parecia levitar, ela já não mais sabia o que era real ou não. Estava imersa naquela névoa entorpecente. As pessoas já não existiam, eram apenas eles dois.
Assim que finalizou a canção, já suado e ofegante, o rapaz fez uma pausa para tomar uma garrafinha inteira de água.
— Vocês estão gostando? — Ele perguntou ao público.
— SIM! — Responderam num forte uníssono.
— MANDA A VER JACK SPARROW! — Alguém berrou com a voz falha de tanto esforço.
Leonidas riu.
— Querem mais?
— MAIS! MAIS! MAIS!
— Galera, preciso confessar uma coisa, vocês são bons para um caralho! — Leonidas soltou, dedilhando o violão com mais força. O público o aclamou. — Mas preciso pedir licença a vocês, a partir de agora esse show passa a ter dona. É que eu tô apaixonado, galera. Tô muito apaixonado por uma fada-sereia. E só quero que ela saiba tudo que eu sinto através dessas músicas. — Então ele apontou o dedo na direção da garota, que ficou completamente estagnada. — Kalliope, eu poderia te dizer de diversas formas o quanto eu gosto de você, poderia cantar mil canções e mais umas cem, mas não seriam o suficiente. Nesta noite, tentarei dizer pelo menos um terço do que gostaria que você soubesse…
Acho que isso foi o mais próximo que sentiu de o coração explodir.
Ao invés de ficarem desanimados, pelo contrário, o público o aplaudiu com mais afinco. Gritaram frases incompreensíveis para o casal, o barulho da muvuca não permitindo que Kalliope compreendesse. Afinal, era o quiosque-bar do “Amor & Nostalgia” o que tornava impossível não ter almas apaixonadas ali.
Kalli ficou desacreditada, sorrindo feito boba enquanto Leonidas lhe dava uma piscadela e começava a tocar “Menina Veneno” do Ritchie. E céus, como ela adorava a nostalgia daquela canção. Não encontrou outra alternativa, se não mover seu corpo suavemente no embalo da música, sustentando o olhar do homem apaixonado no palco, cantando com ele.
Alguns casais dançavam e se beijavam ao seu redor diante das músicas mais românticas. Sonya e Max eram uma delas. Abel dançava com a parte crucial de sua fantasia – vulgo sua bola –, mas estava de olho em um carinha fantasiado de pinguim. Kalli pode estar dançando sozinha, mas mentalmente, os braços do homem que amava rodeavam seu corpo, guiando os movimentos.
Olhos conectados, almas destinadas, corações apaixonados, ela sussurrou resposta a cada uma das canções que ele declarou a ela.
“Estranho seria se eu não me apaixonasse por você.”
“Minha doce criança…”
Meu Orfeu.
“Eu não quero perder seu amor essa noite.”
Você não vai me perder.
“Te amando como nunca amei antes, você é a salvação que preciso.”
Serei a sua salvadora.
“Oh, baby, estou pronto para amar.”
Então venha e me mostre.
“Eu adoraria que você me quisesse, do jeito que te quero, do jeito que deveria ser.”
Eu te quero, Leonidas.
“Amor, você é tudo que eu quero quando você está nos meus braços, estamos no paraíso.”
Você é meu paraíso.
“Mais que palavras é tudo que você tem que fazer para tornar isso real. Você não teria que dizer que me ama porque eu já saberia.”
É tão nítido quanto as estrelas.
“Preciso de você essa noite.”
Sou sua.
“Então, por favor, não vá, eu estou implorando pra você ficar.”
Jamais o deixarei.
De fato, o mundo parecia pequeno demais para eles naquela noite. Resumia-se a vontade insana de estarem entre quatro paredes, concretizando todos aqueles sentimentos singulares e calorosos com seus corpos.
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— Amiga, meu deus, o que foi aquilo? Esse cara está muito apaixonado por você. — Sonya comentou.
Enquanto esperavam Leonidas descer do palco ao fim do seu show lendário. Todos ao seu redor pareciam exaustos e roucos, mas prontos para beber um barril de energético e curtir a madrugada no Fantasy Club.
— Eu sei… — Kalli sussurrou ainda perplexa com tudo que havia acontecido.
— Eu diria o típico “se você magoar meu amigo, eu te mato”, mas eu acho que pelo jeito que olha para ele, isso é desnecessário. — Max diz, sem filtro, fazendo a dentista quase morrer de vergonha.
— Eu…
— Não precisa dizer nada, amiga, a gente já sabe. — Sonya deu-lhe uma piscadela. — Você pretende ficar mais?
— Não, tenho que ir para casa, amanhã tenho estágio.
— A gente entende, espero que possamos nos ver em breve. — Disse a garota fantasiada de Cleópatra. — Vai para casa e aproveita teu macho, ele deve estar louco por você. — E diz, maneando a cabeça em uma direção apontando Leonidas que vinha caminhando ao seu encontro.
O rapaz estava todo suado e aparentemente exausto, mas exibia um sorriso tão lindo no rosto que Kalli perdeu o fôlego por alguns segundos.
— Você foi simplesmente incrível, Leonidas Vitorino. — Foi logo dizendo, ao se atirar no rapaz que a envolveu em seus braços.
— Fala sério! Depois de toda essa declaração de amor, não espero menos do que vocês dois num altar. — Comenta Max, fazendo Kalliope arregalar os olhos.
— A depender de mim, vocês não demoraram a estarem vestidas de madrinhas. — Disse o rapaz, dando de ombros como se isso fosse óbvio.
— É o quê, Leonidas?
— Vish, esqueci de anunciar a ela que a vaga de “amor da minha vida” foi preenchida por nada mais nada menos que Kalliope Antonelli. — O rapaz brincou, rindo alto e a fazendo dar tapas leves em seu peitoral.
— Vocês dois ficam lindos juntos.
— E, desculpe aí, amigas, mas vou precisar levar essa sereia para o meu barco. — E fez uma careta mostrando a língua para fora, Kalliope sentiu o rosto em chamas.
— É disso que eu gosto. — Max lançou lenha na fogueira. — Vê se aparece no estúdio qualquer dia desses. Adoramos te conhecer.
— Pode deixar, farei o Leonidas me levar lá. Obrigada por tudo, vocês são maravilhosas. — Trocou um abraço com o casal, evitando Abel que estava inteiro molhado de bebidas aleatórias.
— A gente se esbarra por aí, Kalli-mamilos. — Despediu-se Abel, mais bêbado do que nunca, estava até trocando as pernas. A essa altura sua bola – Wilson – já estava flutuando perdida em uma piscina do local.
— Até mais galera. — Leonidas se despediu dos amigos e guiou a garota pelo local, em direção ao estacionamento. — Eu sinto muito, mas terei que te colocar numa moto. — Anunciou, na metade do caminho. Leonidas lamentava por não ter um carro para levá-la adequadamente para casa.
— Relaxa, eu prefiro a moto. — Confessou, fazendo-o erguer as sobrancelhas em surpresa.
— Sério?
— Uhum. — Balançou a cabeça em concordância e não era mentira. Kalliope tinha adorado a primeira vez que andou no veículo com o rapaz. Era tão gostoso e emocionante. — É um ótimo pretexto para ficar agarradinha em você.
Leonidas exibiu um sorriso satisfeito.
— Você não precisa de pretexto algum para agarrar-se a mim. — Constatou o rapaz.
— É, de fato, não mais. Mas mesmo assim, não posso desperdiçar a oportunidade. — Brincou, agarrando-se mais ao corpo dele, enquanto caminhavam, a diferença de altura deixava tudo mais aconchegante, em sua opinião. — Preciso te dizer, você me deixou louca em cima daquele palco, cantando daquele jeito, aquelas músicas… isso é uma conspiração para acabar comigo?
Leonidas parou entre os carros do estacionamento, rindo sacana.
— Não, mas gosto de saber que causei esse efeito.
— O de deixar a minha calcinha encharcada, é isso? — Ela semicerrou os olhos, encarando-o.
— Cacete! — O rapaz ralhou, agarrando-a pela cintura. — Só espera a gente chegar em casa, por favor, é uma proposta tentadora te foder num estacionamento, mas te quero inteira nua e não dá para fazer isso aqui.
— Então é melhor acelerar o motor, Orfeu. — E Kalli o encarou com um olhar severo, fazendo um arrepio percorrer o corpo do rapaz. — Tudo que mais quero é sentir esse “cacete” que tanto fala, dentro de mim.
— Fada do dente, boca suja! Irônico, não? — Ele resmungou entredentes enquanto pegava os capacetes e tentava esconder miseravelmente o efeito causado pela moça, entre suas pernas.
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Kalliope se sentiu como no clipe “Ride” da Lana Del Rey, enquanto o vento chicoteava contra seu corpo e a estrada vazia e escura era pouco iluminada pela lua-cheia, ela abriu os braços e permitiu-se sentir viva. Seu garoto a levava para casa, em direção ao seu quarto… e estavam contando os segundos.
Bem, talvez seu coração explodisse ainda essa noite.
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você me deixa chapado, amor
não importa aonde eu vá,
você é a primeira coisa em minha mente
eu não queria estar aqui sem você
eu só quero estar na luz que te rodeia
eu só preciso te ver,
preciso sentir essa pressa
de novo e de novo e de novo
venha e conserte meu coração
wanderlust, james bay
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