23:58

Me encontre no carma

0 0
DIAS ATUAIS
Segunda, 13 de maio de 2024

Três dias. Apenas três míseros dias foi o que teve longe de Leonidas. Ignorou todas as mensagens enviadas pelo rapaz, que demoraram a aparecer em seu telefone. Evitou a piscina a todo custo, mesmo que sofresse de insônia. Kalliope se isolou em sua própria bolha de dor, culpa e arrependimentos.

Engraçado que em seu desejo mais sincero, suplicava para esquecer-se daquele rapaz. E quanto mais desejava isso, mais não conseguia afastá-lo de seus pensamentos. O que resultou em crises de pânico escondida no armário do hospital. Levou muito tempo para Kalli conseguir parar de chorar.

Sua mãe não largava do seu pé, temendo o que poderia ter acontecido, já que encontrou o rosto da filha inchado, entregando o fato de que havia chorado. Kalli fez o possível para desviar a atenção de sua mãe. Não planejava contar sobre Leonidas, embora sentisse que devesse, mas sabia o que ouviria. Sua mãe surtaria, mandaria se afastar imediatamente.

Estava conformada em seguir em frente e abandonar de vez a ideia de Leonidas pertencer ao seu mundo. No entanto, os propósitos alheios eram totalmente contrários. Três dias depois da discussão, seu celular vibrou seguidas vezes, enquanto tentava se concentrar num dos livros didáticos que estudava.

Leonidas às 00:43 “Nós podemos conversar?”

Leonidas às 00:44 “Não me ignore.”

Leonidas às 00:46 “Eu vi que a luz do seu quarto está acesa.”

Leonidas às 00:55 “Estou na porta do seu apartamento.”

Leonidas às 00:55 “Se não vier, vou tocar a campainha.”

A última mensagem fez seu coração gelar, só a possibilidade de sua mãe atender a porta e dar de cara com o ex-enteado que fez da sua vida o verdadeiro caos, fazia Kalli estremecer. Imediatamente calçou suas pantufas, vestiu seu roupão às pressas e rumou até a porta sem fazer muito barulho. Se Laura a ouvisse, não ficaria preocupada, pois já estava acostumada com o fato de que a filha nadava a essa hora.

Quando estava diante da imensa porta de madeira, seu coração ficou ainda mais apertado. Não tinha coragem de alcançar a maçaneta. Seu celular vibrou no bolso do roupão e Leonidas ouviu do outro lado.

— Abre a porta, por favor. — Implorou, falando baixo.

Kalli sentiu um calafrio percorrer sua espinha e seguidamente raiva. Não sabia porque, mas foi a faísca que precisava para colocar sua digital na fechadura inteligente e sair porta afora, empurrando Leonidas com raiva e fechando a porta atrás de si.

— O que está fazendo aqui? — Rosnou enfurecida, encurralando Leonidas contra a parede do outro lado hall de entrada. — Pirou de vez? Já imaginou o estrago que causaria se minha mãe te pegasse aqui?

— Você não respondeu às minhas mensagens. Não apareceu na piscina. — O rapaz a enfrentou, encarando-a.

— Não ficou claro que não queria te ver? — Os anos haviam dado coragem a Kalliope que nunca era boa nas brigas.

— Você pediu um tempo. Ou seja, nós ainda não terminamos. — Havia nexo no seu ponto e era nisso que iria se agarrar.

— Ok, Leonidas, nós terminamos. Não somos mais amigos. Agora vê se me esquece. — Kalli já ia virar de costas, mas Leonidas avançou se colocando à sua frente para impedi-la.

— Eu não aceito.

— Foda-se. — Um palavrão raro escapou da boca de Kalli.

— Vamos conversar? Por favor. É a última chance que eu te peço.

— Não.

— Kalliope, eu quero te dar todas as respostas.

— Não quero ouvir. Vai embora.

Leonidas se pegou desesperado apelando para o que estava dentro da sua mochila, a abriu puxando as extremidades e quase estourando o zíper. Pegou a pelúcia de Rocket em mãos e estendeu para Kalli que encarou o objeto com descrença.

Não pode acreditar que o havia guardado até hoje. Isso aqueceu o coração da garota enfurecida, fazendo a calmaria abraçar seu ser. Era uma lembrança tão feliz.

— Rocket Raccoon. — Pegou o objeto em mãos, caindo na armadilha. Seus olhos ficaram marejados e um sorriso bobo apareceu em seus lábios. Droga!

— Você conhece as regras. Não pode ser má comigo enquanto estiver segurando o Rock. — Desafiou Leonidas, temendo que Kalli pudesse atirar o bicho longe e sumir de sua vida de uma vez por todas.

Mas seu plano arquitetado havia funcionado e isso o pegou de surpresa.

— Não faça eu me arrepender, Leonidas. — Enxergou tanta dor nos olhos da moça que quase cogitou deixá-la em paz de vez. Mas como poderia? Simplesmente não era capaz disso. Havia um lado egoísta gritando dentro de si. — Última chance.

— Eu sei.

Kalli ponderou a decisão por alguns segundos. Leonidas estava diante de si, com aqueles lindos olhos verdes, tão destacados pela melanina em sua pele. O maxilar bem desenhado, cujo possuía uma camada densa e bem-feita de barba, que, honestamente, o deixava irresistível. Os lábios volumosos eram como um convite que ela se esforçava ao máximo para ignorar. Eram detalhes que faziam seu coração errar as batidas e isso a assustava tanto. Todos esses sentimentos desconhecidos a faziam aceitar a proposta só para entendê-los.

Como todo ser humano, Kalli queria respostas.

— Me dê dez minutos e te encontro na piscina. — Declarou, inserta de sua decisão e movida pela busca por esclarecimentos.

— Estou te esperando. — Leonidas respondeu de imediato, rumando em direção aos elevadores antes que ela mudasse de ideia.

 

 

Kalliope trocou o pijama pelo primeiro biquíni que encontrou, vestiu-se roboticamente com os pensamentos nublados. A pelúcia de guaxinim parecia a encarar, como se os castanhos olhos esbugalhados do ursinho a pressionassem. Deixou Leonidas com uma promessa e agora precisava cumpri-la. Seus princípios a impediam de voltar atrás, faltava-lhe coragem. Colocou um short casual, jogou a toalha no ombro e pegou o Rocket Raccoon.

O trajeto até a piscina do prédio foi marcado pela taquicardia do seu coração desesperado no peito. Encarou seu reflexo no espelho do elevador, indagando-se: onde é que estava com a cabeça?

Não tinha tempo para arrependimentos, as portas metálicas se abriram e ela rumou até o ginásio sem notar o mundo ao seu redor. Estava frio lá fora e só se deu conta disso quando foi atingida pela diferença térmica calorosa do mormaço da água aquecida. Como de costume, as luzes principais estavam apagadas e apenas a luz azul da piscina iluminava o ambiente.

Leonidas estava na água, de costas na extremidade contrária. Kalli vislumbrou a tatuagem do Chevette 76 entre suas omoplatas. Lembrou-se da noite que ele explicou detalhadamente o significado de cada um dos desenhos gravados em sua pele. Só para que Kalliope compreendesse tudo que se passava dentro de seu coração.

Voltando seus pensamentos para a realidade arrebatadora que se infiltrará, sem saber muito o que fazer, Kalli colocou o guaxinim sentado em uma espreguiçadeira juntamente de sua toalha e os shorts que retirou para entrar na água. Caminhou até a borda e entrou com cuidado, afundando como uma âncora e empurrando seguidamente os pés contra o fundo da piscina para retornar à superfície. De início não nadou até Leonidas, precisou de alguns minutos para se recompor e encarar finalmente o que estava por vir.

O rapaz se manteve à sua espera, afinal estava quase infartando, sabendo tudo o que planejou dizer a Kalliope. No seu tempo, ela nadou ao seu encontro, ficaram lado a lado, apoiados na margem e encarando a pintura de uma baleia-azul que enfeitava a parede nos fundos do ginásio.

— Faz a pergunta de novo. — Pediu Leonidas, a voz baixa e um nó lhe apertando a garganta. — Aquela pergunta.

Kalli sabia perfeitamente do que se tratava e ficou muito espantada. Não queria fazer isso novamente. Depois de explodir, lembrou-se da noite que contou sobre as queimaduras e Leonidas disse que não estava pronto para falar do acidente. Insensivelmente, Kalli havia o forçado no meio da briga de três dias atrás e se arrependia muito por isso.

— Faz a pergunta, eu tô pronto. — Leonidas garantiu.

Engolindo seco, acatou:

— Por que você entrou naquele maldito carro?

Leonidas fechou as pálpebras com força, sentindo-as tremer com o gesto. Seus traumas lhe abraçavam, era tanto para se sentir. Culpa, arrependimento, memórias…, mas precisava enfrentar isso, o que mais ansiava era poder seguir em frente.

Quando decidiu se aproximar de Kalliope, sabia que hora ou outra teria que exorcizar os demônios entre eles e isso envolvia encarar os fantasmas do passado. Para mantê-la ao seu lado e fazer isso dar certo, precisava esclarecer tudo de uma vez por todas. E seria sua última tentativa. Se ela o rejeitasse após isso, lhe daria um adeus definitivo.

— Não teve um motivo aparente. Senti medo de deixá-la sozinha depois do que Marcos havia feito. Não queria que algo pior acontecesse na minha ausência. Eu pensei que era meu dever te proteger. Como homem, como seu suposto irmão… foi uma decisão impulsiva, eu assumo e não me orgulho disso. Mais uma vez escolhi lidar com meus problemas da pior maneira possível e tive que pagar as consequências das más escolhas que fiz. Não queria te matar, Kalliope, não sou um assassino, mesmo que a morte do meu pai tenha me abalado tanto, não foi a ponto de depreciar a vida de alguém. Mas quase causei a nossa morte nos colocando naquele local, naquela hora… Por muito tempo me odiei muito por isso. Ter me permitido agir de forma imprudente me destruiu. Me arrependo todos os dias… queria ter uma explicação lógica, mas não tenho. — Confessou, seus olhos ardiam, mas se prometeu que não choraria mais. — Sinto muito que essa resposta possa não te agradar. Sei que não é o que esperava ouvir, mas é a verdade que lhe ofereço.

O olhar de Kalli vagou pela piscina, a verdade dele era essa, fez o que achava ser o certo para protegê-la, só não contava que se colocariam em uma situação tão fatal como aquele imprevisto. Kalli assentiu lentamente, absorvendo os fatos.

— Não se trata do que quero ouvir, o fato é que essa é a verdade, Leonidas. Não tenho que me opor e nem aceitar. É a verdade e ponto final.

Leonidas assentiu, grato.

— Você me odeia?

Kalli quase esqueceu de respirar. Se concentrou nas batidas descompassadas de seu coração. Os pés balançando suavemente, no fundo da piscina.

— Não, Leonidas.

O rapaz sentiu um alívio imenso em ouvir isso.

— Você me perdoa, Kalliope? Digo, de verdade mesmo. Me perdoa a ponto de seguir em frente sabendo o que aconteceu no passado?

Não dava para apagar e perdoar não significa esquecer, se quisessem ficar bem, juntos ou não, precisavam aceitar os fatos e conviver com o que aconteceu.

A verdade é que Kalliope não precisava pensar muito, já sabia a resposta. Sempre soube, porque ela estava lá afinal. Leonidas pode tê-la colocado naquele carro e dirigido para longe, onde justamente era o local e hora errada, mas ainda assim, ele não era o motorista bêbado. Ele não tentou matá-la. Foi um terrível acidente e eles já sofreram demais as consequências disso, tudo que queria era paz entre ela e seu arqui-inimigo.

— Sim. — Respondeu e finalmente olhou nos olhos de Leonidas, viu o alívio imenso que sua alma recebeu. — E você? Me perdoa? Pelas coisas horríveis que te disse no dia do acidente, não eram nenhum pouco, verdade, Leonidas. Eu nunca quis que você morresse, nem que desaparecesse… Eu só… estava com tanta raiva de você que disse aquelas coisas horríveis. Atrai aquela desgraça até nós, foram os poderes das minhas palavras. E deveria ter morrido por desejar a sua morte. Eu sinto muito de verdade.

— Kalli, não… — Leonidas tentou interrompê-la, mas ela sinalizou para que parasse e a deixasse continuar.

— Me desculpa, por ter um acesso de fúria no dia em que você se esforçou tanto por nós e trazido a toda essa dor novamente. Parte do que te aconteceu é minha culpa, Leonidas. Eu sinto muito mesmo. Por favor, se for capaz, me perdoe.

A garota percebeu a crueldade velada por trás das palavras que foram ditas. Embora pudessem ser poderosas, também podiam deixar corações em ruínas. Podiam causar estragos irreversíveis. As palavras podiam ferir alguém que amava profundamente.

Dava para ver a culpa dolorosa que a garota carregou por todos esses anos, como se o acidente fosse o carma lhe atingindo em cheio, fazendo-a pagar por cada palavra de ódio que ela lançou contra o rapaz. Cada vez que relembrava as coisas horríveis que dissera a ele, era uma certeza vívida da causa da tragédia que sua imprudência causara, um eco doloroso de arrependimento que ressoava em sua alma. Ela mereceu o que lhe aconteceu, nada mais era do que um acerto de contas do destino contra ela.

De quem era a culpa, afinal? Será mesmo que era apenas de Leonidas? Ou Kalliope, Marilia e Laura também eram culpadas? Talvez a separação dos Antonelli Belline. Quem sabe a morte repentina de Paulo Vitorino. Ou a partida inesperada de seu irmão, Leandro. Marilia e Laura insistindo na relação tóxica dos filhos, crentes que era só uma fase, quando o menino precisava de uma atenção maior e até mesmo médica. Todos contribuíram de alguma forma para aquele acontecimento, quer queiram ou não. Era apenas o resultado de tantas más escolhas. A bomba que todos construíram. Aquele acidente era inevitável. O melhor a se fazer, talvez fosse não culpar ninguém.

— Kalliope… — Leonidas ficou boquiaberto. Nunca culpou a irmã-postiça, nem por um segundo sequer. — Não tem nada o que desculpar. Mas se precisa disso para conseguir tranquilizar sua consciência, eu já te perdoei faz muito tempo… — Leonidas avançou, sua mão buscou a cintura de Kalli que gentilmente virou-se para si. — Eu quem preciso de libertação, da culpa consciente que carrego de ter arruinado os melhores anos da sua vida. E peço desculpas por tentar retornar após cometer tantos estragos. Não tenho direito algum, mas anseio aqui dentro de mim poder te dar dias melhores. Dias tão bons que farão os ruins se tornarem nulos.

Percebendo a tonalidade das palavras, Kalli começou a se assustar, o jeito com que Leonidas estava falando, a forma que estava a tocando… a sua alma refletida no seu olhar, suplicando para deixá-lo entrar em seu coração. Ela planejou se afastar, mas ele a segurava com tanta força. Estava gélida dos pés à cabeça. Era como se previsse o que estava por vir, mas nada certamente a preparou para isso.

— Kalliope, eu gosto de você. — Sussurrou, finalmente libertando aqueles sentimentos que por tanto tempo guardou. Não era a primeira vez que ouvia isso e dessa vez soava diferente. Parecia como uma verdade que Kalli lutava para negar com todas as forças. — Eu te odiava porque te amava. Enquanto crescíamos, me apaixonei por você. E quando estava morrendo naquela estrada, foi o seu rosto que eu vi. Me odiava por ser apaixonado pela pessoa que deveria ser minha irmã e isso me fez descontar todas aquelas coisas em você. Talvez eu tenha uma maneira peculiar de demonstrar amor, mas espero que possa ver a verdade por trás das minhas intenções.

— Pare. — Kalli o empurrou de leve. — Pare. Agora!

Assustada, tentou se afastar, mas a nadadora parecia ter perdido as suas habilidades, deu braçadas vãs, tentando fugir de Leonidas que a perseguia a certa distância. Kalli engoliu água no processo e precisou recorrer à beira da piscina, segurando-se para não se afogar de desespero.

— Não, não, não… — Balbuciou desacreditada, tossindo. — Você não pode fazer isso comigo. Não tem esse direito.

— Sei que sente o mesmo por mim. — Acusou Leonidas. — Nunca reparou o jeito que fica desconcertada quando te toco? Porque é que não consegue se afastar de mim, mesmo quando se esforça tanto? A razão de nunca termos conseguido nos sentir como irmãos? Essa necessidade insana que você tem de estar perto de mim? O desejo incontrolável do relógio correr mais rápido só para os ponteiros chegarem à meia-noite e a gente se encontrar aqui na piscina? Tudo isso e muito mais, Kalli. Eu não saio dos seus pensamentos, porque estou cravado no fundo da sua alma.

— O quê? — Indagou incrédula. — Não…

Leonidas estava louco, perdeu as estribeiras. Não tinha nenhum sentido. Aquilo tudo não era real, era um pesadelo. Kalli se beliscou debaixo d’água. Abriu e fechou os olhos e não acordou.

— Não pode ser. — Sussurrou para si mesma como se tivesse feito uma descoberta capaz de curar o câncer do mundo.

Tudo que ouviu fazia tanto sentido dentro que se assustou ainda mais. Cada ponto de Leonidas parecia ser confirmado como se fosse claro como a água. Simples como respirar. Kalli perder o fôlego com os olhos arregalados.

Não podia acreditar que isso era o que chamavam de destino. Que a vida era ordinária o suficiente para fazer suas mães terem se encontrado no passado, os dois terem se tornado inimigos, para então se apaixonarem um pelo outro.

Lembrou-se do instante que conheceu Leonidas naquela loja de donuts, de como os olhos dele sempre tão verdes a atraiam. Não poderia dar-se conta de tais sentimentos naquela época.

“Desculpa se você está chateado por não poder foder com sua irmãzinha”, a voz irritante do garoto que a beijou as forças na sua formatura dizia a verdade. A raiva que Leonidas sentiu ao vê-la beijando outro. Não, não era ingenuamente ciúmes ou superproteção de típicos irmãos, até porque como ele mesmo disse: “A gente nunca foi irmão.”

E até o comentário idiota que fez sobre sua aparência quando se conheceram: “Você é feia e ridícula”, na verdade era só birra de um rapazinho que acaba de ver uma garota bonita e, por ser criança, não sabia como agir.

O jeito que ele se sentiu ao cantar aquela canção para ela após espalhar cópias do seu diário. “Ninguém sabe como é ser o homem mau, ser o homem triste, por trás de olhos verdes”, foi como ele finalizou aquela canção, adicionando os detalhes que somente alguém como Kalliope poderia compreendê-lo.

Cada detalhe tomou posse do seu corpo como uma avalanche.

“Não sei se quero ser seu amigo…”

“Eu nunca te esqueci, Kalli.”

“Você se tornou uma mulher incrivelmente bela. O homem que tiver o privilégio de ser seu, vai ser um puta sortudo.”

“Já que estamos escrevendo novas memórias, por que não as tornar inesquecíveis?”

“Eu odeio fazer promessas, mas por você, sim, eu prometo.”

“Eu quero seu coração inteiro, não me convém deixá-lo em pedaços…”

“… posso estar quebrado, mas sei o que quero e está bem na minha frente.”

“Não dá para aceitar que eu simplesmente gosto de você?”

“Eu nunca te odiei!”

“Eu pensei que era meu dever te proteger.”

“Me odiava por ser apaixonado pela pessoa que deveria ser minha irmã e isso me fez descontar todas aquelas coisas em você.”

“Sei que sente o mesmo por mim…”

Não se conformava que o ódio que sentiam era amor reprimido.

Não. Não. E não.

Depois de todo o inferno que viveu nas mãos de Leonidas. Estava apaixonada por ele? Essa era a resposta que almejou descobrir? Não podia ser…

— Me deixe provar. — Pediu Leonidas, sussurrando em seu ouvido.

Quando é que ele chegou aqui? Quando é que começou a tocá-la dessa forma tão tentadora? Quando é que Kalliope apenas permitiu? A água tornava tudo mais instigante, macio, quente… Os lábios dele estão em seu pescoço agora, deslizam de forma úmida e ardente, a língua dele está tomando cada gotícula de água que escorre pelo seu pescoço.

Kalli não consegue respirar, mas barulhos indescritíveis escapam de seus lábios. Seu coração estava na boca e Leonidas prestes a beijá-lo.

— Me deixe provar, Kalliope. — O Diabo cochichava em seu ouvido.

— Não…

— Apenas uma prova e se não se sentir assim, saio da sua vida de uma vez por todas… — O calor do hálito de Leonidas estava tão próximo aos seus lábios, os dedos dele apertavam os ossos da sua bacia de um jeito tão deleitoso.

Ela fechou os olhos como se dissesse “sim”.

Sentiu os lábios macios tocando os seus e uma eletricidade incomum a percorreu inteira, arrepiando cada pelinho do seu corpo.

Kalli ofegou e pressionou sua boca contra a dele.

Bastou isso para lhe agarrar pela nuca e devorá-lo com um beijo.

Suas bocas se abriram, as línguas se abraçaram, era quente, úmido e corria uma eletricidade jamais sentida. Se beijaram com tanta fúria, como tinha que ser. Com ódio. Com cólera. Deixando tudo que um dia os tornaram inimigos se esvaziar naquela água, lavando para longe todo o rancor e deixando entrar aqueles sentimentos arrebatadores que lutaram tanto para esconder.

Não era Leonidas, era ciência – tentou se convencer de tal farsa. Os lábios são uma região de maior densidade de terminações nervosas, seus múltiplos receptores possuem grande capacidade para perceber, explorar e transmitir informações deverás errôneas para seu cérebro. A saliva de Leonidas era um veneno que agia como um afrodisíaco que ativava desejos obscuros escondidos dentro de Kalliope.

Ondas de dopamina, serotonina, epinefrina e ocitocina mergulharam o seu ser na mais profunda piscina de êxtase. Era como uma música. Um concerto. Uma poesia. Beijar Leonidas era arte.

Beijar era um fenômeno irresistível.

Quanto tempo era possível durar um beijo? Kalli não fazia ideia, mas quando se afastaram com selares sutis que finalizaram o beijo catastrófico, seus lábios estavam dormentes.

Leonidas olhou no fundo dos olhos castanhos de Kalli, reconhecendo o que sabia que a muito sentia. Era amor e isso é inquestionável.

— Você é apaixonada por mim, Kalliope. — Com um sorriso perverso, soltou-se do corpo da garota, afastando-se.

Kalli parecia que iria ter um troço, ficou simplesmente paralisada, sentindo o rosto inteiro pegar fogo, experimentando o estrago que o furacão Leonidas causou em seu corpo. Seu coração? Pobre coitado, era um soldado ferido que perdeu a guerra.

— Boa noite, Leonidas. — Desejou automaticamente e ergueu-se para fora da piscina.

Em passos rápidos, abraçada ao próprio corpo, correu em direção a sua toalha, pegou ser short e abandonou o traidor chamado Rocket Raccoon. Deixou o ginásio às pressas, como se sua vida dependesse disso.

Kalli não sabia como havia ido parar no seu quarto, só sabia que havia deixado um rastro de água pela casa e escorregou pelo menos umas três vezes. Disparou até o banheiro e encarou seu rosto no espelho, seus lábios estavam inchados e avermelhados.

Um beijo.

Um único beijo havia sugado a sua alma inteira para dentro do corpo de Leonidas. Nada no mundo nunca fez sentido como isso. Ela se sentiu como Jacob quando avistou os olhos de Renesmee. A gravidade da Terra não a prendia mais ao lugar em que estava. Agora era o homem de olhos verdes que a mantinha ali.

Uma ligação sobre-humana entrelaçava seu destino ao dele.

Kalliope se deu conta de uma coisa: lutar contra Leonidas Vitorino certamente era idiotice. E quando pensou que não havia mais nada que a pudesse quebrar inteira, seu celular vibrou esquecido em sua escrivaninha.

Leonidas às 02h13min: “Só queria que soubesse, que esse não foi o nosso primeiro beijo. Eu sei. Você sabe. E despensa da minha avó também…”

Maldito seja Leonidas Vitorino.

 

perdê-lo foi um triste azul,
como eu nunca tinha sentido
sentir saudades dele era cinza,
totalmente sozinha
esquecê-lo foi como tentar conhecer alguém
que você nunca encontrou
tocá-lo era como perceber
que tudo que você sempre quis
estava bem ali na sua frente
memorizá-lo foi tão fácil como
saber todas as palavras
da sua velha música favorita
mas amá-lo era vermelho
vermelho ardente
red, taylor swift

Indique para um amigo