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Me encontre explodindo

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Sábado, 20 de julho de 2024

Leonidas e o Dr. Olavo Belline estavam jogando handebol, juntos na praia, enquanto Kalliope os observava particularmente sorridente por ver seu pai e seu homem se dando tão bem. Eles passavam horas a fio conversando e rindo. A dentista pegou algumas conversas por alto, Leonidas contando os sonhos para o sogro, o jeito que ele falava apaixonadamente sobre a música e o encantado futuro com ela.

Estavam na casa de praia de seu pai, aproveitando o fim das férias de julho e o tão almejado recesso que recebeu do estágio. Kalli já havia contado ao pai sobre o relacionamento com Leonidas.

No início ele ficou receoso, devido ao passado, mas diferente de sua mãe, o cirurgião-dentista conseguia compreender a situação como um todo e embora Leonidas tivesse cometido o erro de dirigir o carro com Kalliope para fora da festa, quem de fato causou o acidente foi o motorista bêbado. Não era fácil, mas Olavo estava se esforçando para aceitar o rapaz, afinal via nitidamente o quanto sua filha estava apaixonada por ele.

As atitudes e falas de Leonidas lhe provavam que não era mais aquela criança rebelde. Olavo esperou tanto tempo para ver sua filha feliz que não tardou a apoiá-la. Convidou-os para se juntar às férias da família, assim podia conhecer Leonidas melhor enquanto matava saudades da menina.

Kalli estava jogada em uma toalha de praia, tomando vitamina D diretamente da fonte, ela finalmente podia usufruir do sol com um pouco mais de liberdade. Sua pele cicatrizada estava mais forte, embora ainda sensível. É claro que precisava de quilômetros de protetor solar e não podia arriscar ficar muito tempo, tinha que optar pelo sol da manhazinha e o do crepúsculo, que são mais fraquinhos. Comparado a prisão de anos sem luz solar, isso já era mais que o suficiente para a garota. Estava a poucos passos da casa e um guarda-sol disposto a protegê-la diante de qualquer sensação mais dolorosa.

Os raios solares estavam moderados e brilhantes, tornando a imersão praiana ainda mais deliciosa. Não havia uma única nuvem no céu, o azul era tão nítido que parecia uma pintura. Ela viu um tucano sobrevoar as palmeiras próximas da praia. Alguns macaquinhos saíram da floresta em bando, carregando filhotinhos nas costas e desfrutando das frutas tropicais do local. Pássaros cruzavam o céu como um flash. A água de coco geladinha parecia ser uma fonte provinda de deuses. Isso é o que chamava de férias.

— Quando vocês pretendem se casar? — Quis saber sua madrasta, Adriana, mais conhecida pelo apelido de Drika.

A joia reluzia no dedo anelar de Kalli e parecia muito pesada para carregar, ela cutucava com o polegar, angustiada com o círculo se fechando. Já fazia cerca de três meses que estava se relacionando com Leonidas e não contara a sua mãe que ficou noiva do homem que ela repudiava.

O quanto Kalliope estava ferrada? Ela podia sentir a catástrofe se aproximando.

— Nem tão cedo, Leonidas quis pular o pedido de namoro, mas tinha a intenção de vivermos um longo noivado antes de finalmente nos casarmos. — Explicou prontamente.

— Ele quis adicionar uma camada a mais de seriedade ao relacionamento de vocês. — Concluiu Drika. — Acho isso tão lindo, ele quer realmente a ter seja como for… é raro um homem ser tão decidido.

— Sim. — Kalli movia a mão contra o sol, observando o diamante reluzir. — É o que quero também. Gosto de como as coisas são…

— Mas… tem algo te incomodando. — Drika virou-se para a moça, encarando seu rosto.

Kalli suspirou fundo e fechou os olhos.

— Minha mãe. — Revelou, baixo.

— Eu sei, Laura vai virar uma fera.

— Sim. Não tô pronta para enfrentar isso. Leonidas entende, sabe? Ele já está morando na casa nova há um mês, sozinho, com as caixas fechadas, porque está me esperando para começarmos a decorar nossa casinha juntos. Eu me sinto péssima por falhar com ele. — A dentista passou a mão nos cabelos, sentindo a frustração dominá-la. — Mas é como se eu soubesse, dentro de mim, que enfrentar a minha mãe é o meu maior ponto fraco.

— Kalliope, não se machuque assim, é tão cruel. Essa não é uma situação fácil.

Anos atrás Adriana estava nesse mesmo lugar, machucando-a si mesma devido a decisões que a vida lhe obrigara a tomar. Como se divorciar de um homem que agredia física e psicologicamente, denunciá-lo para as autoridades e se escondendo em um abrigo para mulheres em situação de violência doméstica com risco de morte. Logo após ter sido internada em estado grave, as consequências da última surra que levou do ex-marido, foi além de físicos…, levando a morte do bebê que carregava no ventre. Mesmo diante de tanto sofrimento e sabendo que não era culpada, ela ainda se martirizava por tudo. Foi preciso muitos anos de terapia e o apoio do marido atual para superar cada ferida.

O que mais a machucava era lembrar-se perfeitamente da sua família lhe dando as costas, mesmo quando sofria abusos diante de testemunhas. E quando ela ficou sozinha, nem mesmo sua mãe se dispôs a ajudá-la. É como se dissessem: “foi você que escolheu mal o seu marido, a culpa é sua”, quando tudo que ela precisava era de um abraço.

A mulher não queria estar na pele da garota diante de si, mas compreendia a situação. Quando Olavo se separou e demonstrou interesse em sua secretária, vulgo, Adriana, ela sentiu tanto medo de contar as pessoas. Era a típica história do empresário e a assistente. E odiava assumir esse lugar, onde seria julgada e diminuída como mulher e profissional. Portanto, de certa forma, podia compreender os medos da menina, mesmo diante de uma situação tão divergente.

— Não, não é. — Kalli suspirou, perdida. — E não tô pronta… para perder a minha mãe. Se é que um dia eu a tive.

— Você não vai perdê-la, Kalli. Ela é sua mãe. — Drika tentou confortá-la. — Pode até ficar com raiva no começo, mas dê um tempo a ela e tudo vai se ajeitar. Ninguém abandona um filho assim.

Será que não? Kalli achava que sim, sua mãe nunca mais olharia para sua face. E ela estava se conformando com isso, só não estava pronta para enfrentar o pior.

Ao menos, Adriana esperava que suas palavras fossem a realidade de Kalliope. Após meses se recuperando sozinha, sua mãe se aproximou novamente sem mencionar o ocorrido. Sua família fingiu que nada daquilo tinha acontecido. Drika não quis afastá-los, não tinha forças para isso, portanto apenas seguiu em frente com eles.

— É, talvez… eu vou ter que colocar a prova.

— Sim, não dá para fugir por mais tempo.

— Eu sei.

Calaram-se por alguns instantes, apenas aproveitando o sol e a água de coco fresca. Imergiram em seus próprios pensamentos. A madrasta da dentista queria ajudá-la, ser mais presente, mais amiga. Admirava muito Kalliope, sempre foi aceita e respeitada por ela. Eram uma família, afinal.

— Quero que saiba que pode contar comigo, Kalli. Antes que compreenda de maneira errada, não estou tentando substituir a sua mãe. Mas sou sua família, uma amiga que pode contar. No que precisar de ajuda, seja com o casamento, com a casa nova, conselhos matrimoniais… entende? Tô aqui. — Sorriu fraco, temendo ser mal interpretada.

Kalli sorriu para a mulher, envolvendo-a num abraço.

— Obrigada, de verdade. — Agradeceu, compreendendo as intenções da mesma.

Foram interrompidas por uma aparição repentina.

— Kalli? Kalli?

Seu irmãozinho, Luiz, veio correndo ao seu encontro acompanhado de Juca, que estava a própria areia ambulante. Os dois se tornaram inseparáveis assim que se conheceram. O que foi ótimo, já que o menino ganhou companhia.

— Olha o que achei para você. — O menino havia encontrado uma conchinha linda e vazia, a regra era clara, se não tivesse nenhum morador poderiam pegá-la e adicioná-la à coleção dos irmãos. — Essa não vai pro nosso jarro de conchinhas e sim para sua casa nova com o Leoni.

Seu irmão amou ainda mais ganhar um cunhado tão legal, o rapaz estava o ensinando a tocar ukulele. Luiz estava adorando as aulas com um professor tão majestoso. Kalli adorava as noites ao redor da fogueira ouvindo “Riptide” do Vance Joy – uma de suas canções favoritas – sendo tocada pelo irmão e o namorado no instrumento delicioso enquanto todos cantarolavam a letra alegremente.

— Maninho, que fofo. — A mais velha pegou a estrutura marinha áspera e fascinante, analisando-a com cuidado, admirando as cores holográficas em seu interior. — Muito obrigada mesmo, vai ficar tão lindo.

O adolescente exibiu um sorriso grande para a irmã.

— Eu posso levar as suas alianças no dia do casamento? — Perguntou com os olhos brilhantes.

— Luiz… isso é tão fofo. — A mais velha o agarrou num abraço, fazendo-o sentar-se entre suas pernas e ficando agarrada ao irmão. — É claro que sim, só que até lá acho que você vai ter ultrapassado minha altura. Vai ser um pajem muito grandinho.

Se casaria em quê? 5 anos, quem sabe?

— E tem problema? — Preocupou-se o rapazinho.

— É claro que não.

— É que eu gosto muito do Leonidas, ele é bem legal. — Sorriu imenso para a irmã, exibindo uma fileira de dentes que precisavam urgente de um aparelho. O mal de ser dentista é começar a ver melhorias na boca de todo mundo ao seu redor.

— Assim fico com ciúmes. — Kalli fechou a cara, falsamente enciumada.

— Eu amo você infinitamente mais, não tenha dúvidas. — Garantiu o rapaz, apertado a irmã num abraço de coala.

— Eu também te amo.

— Ah! E avisa o Leonidas que eu sei lutar judô. — Socou uma mão fechada em punho contra a palma da outra, exibindo uma expressão raivosa.

Kalli e Drika caíram na gargalhada.

— Meu herói. — Brincou, risonha.

— Luiz! — Sua mãe chamou a atenção.

— O quê, mãe? Não posso proteger minha irmã mais velha? — Indagou o jovem, indignado.

A mulher negou, balançando a cabeça, desacreditada.

Kalli encheu o irmão de beijos.

— Quer entrar na água?

— Vamos!

— Vem, Juca! — A dentista chamou o cachorro, que correu juntamente dos irmãos em direção à água salgada.

 

 

Domingo, 21 de julho de 2024

Os últimos três dias juntos foram imensamente divertidos. Passearam de escuna, pescaram, nadaram, brincaram na praia. Leonidas teve aulas de surfe com uma surfista profissional e acabou fazendo uma amiga. Já Kalli pôde desfrutar da companhia do irmão e do pai, qual viam com menos frequência. Fez caminhadas ao anoitecer com o namorado e corridas matinais na beira da praia ao amanhecer. O que poderia dizer? Estava vivendo seus dias mais dourados.

O casal caminhava tranquilamente pela areia molhada da praia enquanto eram seguidos por Juca, que corria próximo a eles e cheirava tudo que encontrava pelos cantinhos. Era uma de suas típicas caminhadas matinais quais fizeram fielmente nos últimos três dias.

— Então está decidido. Você vai contar para sua mãe e vai se mudar para morar comigo? — Resumiu Leonidas, após Kalliope anunciar a decisão.

— Sim.

— E tem certeza de que é isso que quer? — Indagou, preocupado.

Desde o pedido de casamento, Leonidas tem a sentiu mais distante. O que o fez questionar se apressar as coisas desse modo foi um erro. Ele só achou mais simbólico nomear a relação como noivado ao invés de namoro. Suas intenções com a dentista sempre foram claras, a queria como sua mulher, faria dela sua esposa…, mas talvez, devesse ter esperado mais… talvez devesse ter perguntado a Kalli antes. Bem, ele não queria errar com ela. Mas talvez o tenha feito sem a intenção.

Leonidas nunca teve uma namorada, antes de Kalliope só se relacionava com mulheres mais velhas. Solteironas, divorciadas e solitárias, eram casos de uma noite só, companhias maduras e excelentes. Nunca entendeu porque não conseguia se apaixonar por outras pessoas, talvez porque seu coração nunca tenha superado Kalliope. Ele esperava que algo mais forte do que a existência da garota, pudesse chegar em sua vida e o abalasse a ponto de fazê-lo viver um novo amor. Para sua sorte isso não aconteceu e agora tinha em seus braços a mulher que tanto desejou.

— É claro que sim, quero contar pra minha mãe. — Respondeu Kalliope.

— Disso não temos como fugir. Me refiro a morar comigo.

Pararam em determinado ponto da praia e ficaram de frente um para o outro. Como assim ele estava com dúvida com relação a isso. Nesse momento, ela percebeu como o rapaz estava se sentindo diante de todo o mistério em seu interior, imersa em seu universo particular com trancas e cadeados o deixando para fora. E não era isso que queria fazê-lo sentir.

— Fui precipitado, não foi? Desculpa. Não te perguntei sobre o futuro que planejou para si mesma. Quer dizer, não quero que desista de você, nunca, jamais. Não quero que se molde a mim, como acontecem em tantos relacionamentos. Amo sua singularidade e me apaixonei por você por ser exatamente assim, única. Um ser humano diferente do meu. E quero que possamos seguir com nossos propósitos pessoais, independente do nosso relacionamento. Me desculpe se estraguei tudo quando agi pela emoção. Pensei que estávamos na mesma página… — Leonidas desatou a falar, mostrando toda sua insegurança, seus medos. Kalli ficou em choque, negando cada palavra.

— Leonidas, eu quero você. — Respondeu de imediato, deixando claro enquanto uma expressão assustadora domou seu rosto. — Você não fez nada de errado. Esse é o futuro que almejei para mim, do contrário teria negado seu pedido. Quero ser uma profissional excelente, conquistar minha liberdade financeira fazendo o que gosto, ter um marido que me ame e respeite de verdade, uma casa, filhos. Eu quero até o Juca… — Riu sem graça. — E você deixou claro que não vamos nos casar amanhã, feito doidos. Embora, precise confessar que aceitaria isso fácil, fácil. Vamos viver o nosso “namoro-noivado”. Entendo a sua intenção e estou muito feliz assim. Se quer uma prova? Sim, eu aceito me casar com você. — Pôs em palavras novamente, deixando claro.

O rapaz suspirou, sentindo a angústia que passava da garota para ele. Finalmente encontrou quietude, as inseguranças dentro de si, confiando na mulher à sua frente. Se sentindo um tolo por não fazer isso antes e acumulado toda essa incerteza.

— O problema é com sua mãe e a possível reação negativa dela?

— Sim.

— Eu vou com você. Vamos fazer isso juntos.

— Não… precisa ser eu. Sua presença só pioraria tudo.

— Porra! — O rapaz xingou, irritado, chutando um bocado de areia.

Kalli segurou a mão dele, contendo-o. Leonidas relaxou instantaneamente.

— Mas vou precisar de você quando tudo isso acabar. — Segurou o rosto do rapaz, fazendo-o olhar para si.

— Eu estarei aqui. — Garantiu, segurando sua cintura.

— Sei que estou sofrendo por antecedência, Leonidas. E isso está arrancando uma energia enorme de mim. Me desculpe… você me pediu para ser sua mulher e a primeira coisa que faço é te afastar de mim. — Seus olhos começaram a arder, ela não sabia o porquê, mas queria tanto chorar. — Não sei o que está acontecendo. Estou colapsando… — Sua própria fala foi cortada por um soluço, o inevitável aconteceu. Ela transbordou.

Era tanta cobrança. Tanta expectativa. O universo doloroso que criou por dentro a partir do momento que percebeu que teria que contar a sua mãe o que estava acontecendo. Falar para Olavo foi fácil e simples. Embora ela estivesse morrendo de ansiedade, seu pai foi pacífico do início ao fim. Dando espaço de fala para Kalliope, procurando entender seus sentimentos antes de envolver as memórias sombrias do passado. Kalli o encontrou no consultório, foram tomar sorvete juntos e ela simplesmente contou, como deveria ser. Fácil e simples. Imediatamente ele quis conhecer Leonidas e o aceitou, fazendo-a sentir um tremendo alívio.

Entretanto, ela sabia, no fundo do seu ser, que Laura Antonelli não receberia essa informação desse modo. Ninguém nunca está pronto para enfrentar a própria mãe. Ninguém poderia se sentir bem sabendo que perderia uma das pessoas que mais importava em sua vida.

— Kalli… — O rapaz apertou-a em seus braços, fazendo-a enterrar a cabeça em seu peito. Sentiu as lágrimas quentes tocando sua pele após serem absorvidas pelo tecido de sua blusa. — Por favor… me diga… me diga o que fazer…

Vê-la chorando era sua própria morte. Leonidas se sentiu impotente. Seu coração estava apertado. Ele só queria envolvê-la numa bolha de proteção. No entanto, sabia que o amor não resolvia tudo. Mesmo que em um relacionamento, eram pessoas únicas e enfrentariam problemas únicos. Tudo que poderia fazer é estar ali para ela, ajudando-a enfrentar cada batalha. E ele odiava saber que as coisas funcionavam de tal modo. Se pudesse, apenas arrancaria a dor dela e a colocaria em si.

— Só me abraça. — Disse com a voz trêmula. — Me abraça forte e não me solta.

— Eu tô aqui. Não vou te soltar nem que o mundo se parta ao meio. — Garantiu, circulando-a mais e mais contra si. — Eu te pedi para ser a minha mulher, o que significa que serei o seu homem. E quando precisar de espaço para lidar com a sua própria merda, eu vou dar. Mas também serei o seu alicerce. Então, não me afaste, Kalliope. Permita-me desempenhar o meu papel.

— Vou aprender a fazer isso. — Garantiu, soluçando. — Eu estive há tanto tempo sozinha que me esqueci de como os relacionamentos funcionam.

— Sou novo nisso também, fada do dente. — Confessou rindo soprado. — Vamos aprender juntos, do nosso jeito.

— Do nosso jeito. — Repetiu, enxugando suas lágrimas. — Aí, nossa, desculpa, tem meleca na sua blusa.

O rapaz riu.

— Eu amo até a sua meleca.

A confissão fez Kalli não conseguiu conter o riso fraco.

— Fica tranquila, fada do dente, pode chorar em mim. Eu não pretendo te soltar por uma melequinha. — Puxou-a de volta para seus braços. — Só quero que deixe a dor em seu peito sair, farei o possível para substituir esses olhos tristes por sorrisos imensos.

— Nada como um Leonidas na minha vida. — Kalli sorriu, deleitando-se do calor dos braços do homem que amava.

— É isso aí.

Ficaram ali, abraçados, sentindo o vento fresco e salgado trazido pelo mar, com Juca latindo e correndo ao redor. Kalli sentiu que o seu novo universo era exatamente tudo que precisava. Já não estava mais sozinha e tinha que aprender a viver sabendo disso. Era um admirável mundo novo. Nessa piscina ela se jogaria de cabeça.

 

Há muita fumaça para ver
Está muito quebrado para sentir
Bem, eu te amo, eu te amo
E todas as suas partes
pieces, andrew belle

 

 

Aquela maldita tempestade ganhava mais força a cada segundo, atormentando-a. Falar com Leonidas sobre isso havia ajudado, mas não queria dizer que sua mente havia cessado com as sessões de tortura.

O céu no horizonte, ameaçava trazer a chuva à tona a piscina.

Kalli acordou no meio da noite, sobressaltada. Foi um pesadelo? Não sabia dizer, sua mente não guardou registros. Também não é como se tivesse conseguido dormir, deveria ter cochilado pelo quê? 10 minutos. Sua lombar ardia por estar deitada nessa cama há tantas horas quando claramente não tinha a intenção de dormir.

Ficou observando o rosto do homem ao seu lado, ele dormia de forma tão pacífica que acalmava seu coração. Kalliope detestava estar passando por isso, queria voltar a se sentir bem para que pudesse desfrutar de cada segundo ao lado do rapaz. Exausta de tais pensamentos e cobranças, retirou o braço dele com cuidado de cima de seu corpo e deslizou para fora da cama. Sequer calçou os chinelos, atravessou a casa de praia tateando o escuro.

Foi para o primeiro andar da casa, passou pela cozinha e abriu a porta de correr para a varanda. Tomou todo o devido cuidado para não acordar o restante da família que estava dormindo no andar de cima da casa. O frio da madrugada a recebeu de bom grado, como um abraço. Sentou-se na cadeira de balanço da varanda e ficou admirando a maré alta quebrando-se em ondas contra o rochedo. Calisto tinha praias fascinantes.

Juca despertou ao ouvir a movimentação, Kalli ouviu as unhas das patinhas soando contra a madeira até repousar aos seus pés. Sorriu sentindo o pelo macio roçando suas canelas. O cãozinho era a companhia perfeita, calmo e silencioso. Sem perguntas para tirá-la do sério. No entanto, não ficou mais do que 20 minutos sozinha, logo descobriu uma presença se aproximando.

— Tá tudo bem, filha? — Seu pai surgiu, despertado pelo caminhar da filha na madeira que cobria o chão. — Te ouvi levantar, fiz chocolate quente com marshmallow.

— Não queria incomodar.

— Você não me incomoda. — O homem sentou-se ao seu lado no balanço.

Kalli aceitou a caneca com gosto, bebericou com cuidado a bebida quente, degustando do sabor doce tão almejado. O calor aqueceu sua alma, lembranças de sua infância vieram à tona. Não era a primeira vez que seu pai lhe fazia um chocolate quente noturno.

— Ficou estranha por todos esses dias… — Comentou o homem, procurando os óculos costumeiro em seu rosto para ajustar e dando-se conta que não estava o usando.

— Desculpa, está difícil esconder minha agonia. O senhor já deve imaginar do que se trata. — Confessou despretensiosamente, já ciente de que seu pai conhecia muito bem seu coração.

— Não deveria se desculpar por não conseguir esconder algo que está machucando-a, querida. — Kalli crispou os lábios ao ouvir a verdade que mais parecia uma chinelada na cara. — Estou aqui para o que precisar.

— Eu sei, pai. Obrigada mesmo.

— Falo sério, Kalliope. Se sua mãe se irritar… se as coisas não derem certo com Leonidas, em algum momento, você tem para onde ir. Estarei pronto para receber a minha filha de volta. Saiba disso para que possa tomar decisões sem medo de errar. Você não precisa se prender a situações que te fazem sofrer em nome de nada e nem de ninguém. — O jeito que Olavo falava dava a impressão de que ele já esteve nessa posição e, portanto, detestaria vê-la passar por isso.

— Pai… — Sussurrou emocionada, deixou o copo sobre a mesinha à sua frente, passou os braços envolta do corpo acolhedor.

— Porque a gente erra. Oh, se sim. Mesmo quando amamos profundamente, ainda, sim, erramos. A gente acha que conhece as pessoas, mas não conhecemos nem a nós mesmos. Por isso, se me permite te aconselhar, agora que vai viver uma vida a dois… nunca vá dormir de costas um para o outro. Converse com o seu marido. Resolva os seus problemas. O segredo para um casamento bem-sucedido está na amizade e no respeito mútuo.

Kalli assentiu, absorvendo os conselhos do homem já vivido. Ele sabia muito bem do que estava falando e seria idiotice de sua parte não o ouvir.

— Amo muito o senhor. — Kalliope sussurrou.

— Também te amo, filha. E por isso, preciso saber… — Olavo corrigiu sua postura para encarar o rosto da garota. — Você ama mesmo esse rapaz? Está certa sobre o que quer? Ele te trata bem?

O que poderia fazer, afinal, senão garantir a segurança de sua filha? Havia adorado Leonidas, os dois conseguiam manter diálogos super inteligentes e voltados a um futuro que sempre sonhou para sua filha. Era claro os sentimentos do rapaz, mas como qualquer genitor, tinha medo. Imagina só descobrir que apoiou um relacionamento onde no fim das contas sua filha sofreu maus-tratos. Como era o caso de sua mulher, Adriana, antes casada com um completo monstro que a violentou física e psicologicamente.

— Pai, o Leonidas me trata como uma deusa. — Garantiu a ele. — Eu sei que, por trás de tudo, sempre tem a cobrança e a culpa do nosso passado. Eu vejo o quanto ele se esforça para não dizer uma palavra errada, não tomar nenhuma ação que nos colocaria próximos a algo daquele teor novamente. E se tem uma coisa que me tranquiliza é saber que ele não é mais aquela criança quebrada pronto para destruir a todos. Então, sim, pai, ele me trata com muito amor.

— Ótimo. — Olavo concordou com a expressão séria.

— Pode confiar nele e nos meus sentimentos. Estou muito apaixonada por ele, o amo de verdade e, sim, estou certa sobre meu futuro com ele. Mas também, não sou burra e nem cega, não aceitaria nada menos do que amor e respeito de alguém com quem pretendo me casar. — Explicou-se, mostrando que não era ingênua quanto alguns poderiam achar.

Sabia que seu pai não a via assim, mas o restante da sociedade sempre enxerga mulheres apaixonadas como burras. Kalliope sabia muito bem o que estava fazendo com sua vida e não era nada que não tivesse escolhido racionalmente. Porra, ela tinha 24 anos de idade. É adulta a bastante tempo e sempre foi madura, sábia, decidida… A única no direito de julgar suas escolhas, era ela mesma.

— É bom saber disso. Me desculpe por questioná-la.

— Você só está desempenhando seu papel de pai, está tudo bem. — Apertou o homem em seus braços. — A única coisa que me deixa angustiada é essa situação com a minha mãe.

— É, não vai ser fácil. — A expressão e fala do homem não a deixava muito esperançosa.

— Não mesmo.

— Eu posso estar com você, se preferir. — Sugeriu de prontidão.

— Não, de forma alguma! — Balançou a cabeça freneticamente. — É algo que preciso fazer sozinha. Recusei até mesmo a ajuda de Leonidas.

— Não precisa fazer isso sozinha, filha. Não mesmo. — O homem negou, preocupado. Ele conhecia a fúria de sua ex-mulher melhor do que ninguém.

— Pai, sei que vou conseguir. Só precisava reunir um pouquinho de coragem. — Confortou-o.

Olavo franziu a testa, preocupado. Sentia um aperto no coração.

— Queria conseguir te proteger do mundo.

— Já passamos dessa fase. — Kalli sorriu fraco.

— Eu sei, agora você é uma mulher.

— E tenho que lutar as minhas batalhas.

— Estarei aqui para ajudar com os ferimentos. — Garantiu, acariciando o topo da cabeça da menina.

— Sempre estará. — Afirmou, aconchegando-se nos braços de seu pai como uma garotinha que um dia foi.

Ficaram abraçados por um tempo, assistindo à madrugada escura unir-se ao mar em apenas um tom de azul. Poucas estrelas iluminavam o céu e algumas nuvens faziam-se presentes. O cheiro de maresia e o barulho da água era simplesmente a definição de paraíso.

— Filha, eu sinto muito. — Olavo soltou, repentinamente.

— Pelo quê? — Kalli afastou-se para encará-lo.

— Por não estar presente quando mais precisou de mim. — Soltou baixo e carregado de pesar. — Como quando sua mãe mandou você para morar comigo, mas minha vida estava de cabeça para baixo por causa da minha nova família.

— Nunca o culpei por nada, tão pouco senti que me abandonou. Pelo contrário, você sempre esteve ali por mim. — Respondeu, sem entender o que o pai sentia.

— Se eu tivesse… droga! — Olavo negou, balançando a cabeça negativamente. — Se eu tivesse cuidado de você, não viveria o inferno que viveu com Leonidas quando crianças, não… teria entrado naquele carro.

— Por favor, não se culpe, pai. Eu não o culpo. Jamais passou pela minha cabeça. — A mulher ficou inconsolada em notar o remorso que seu pai carregou silenciosamente por tantos anos, o rosto dele resultava em uma expressão dolorosa. — Sei que o acidente foi uma coisa horrível, mas me trouxe muitas outras coisas também após renascer das cinzas. Desgraças acontecem, sempre vão acontecer e a gente precisa encontrar uma maneira de seguir em frente. A minha nova fase com o Leonidas é o encerramento daquele ciclo. Não quero que ninguém ao meu redor fique revisitando essas memórias. Quero incluí-lo nessa nova fase cheia de alegria. Seja feliz comigo, pai. O que passou, passou.

— Você tem razão. — O homem sorriu fraco, ouvindo palavras tão maduras. — Vocês dois estão aqui, vivos, felizes e bem. Isso é tudo que importa.

— Sim. E pai, quando mais precisei, você estava comigo, segurando minha mão enquanto meu corpo lutava pela recuperação da minha pele. — Segurou a mão do homem, notando o quanto a pele dele havia envelhecido. Suas mãos estavam mais flácidas. O tempo é incontrolável. — Sei muito bem com quem posso contar, pai. Sei exatamente quem quero na minha vida.

O acidente trouxe a prova quem de fato lhe amava, mostrou a importância de Kalliope para várias pessoas, fazendo-a arrancar de vez aqueles que pouco se importavam com ela. O que foi bom.

— Não quero que se machuque novamente. — Olavo delatou seu medo.

— Não posso garantir nada, afinal, a vida é como é. Mas posso te garantir que Leonidas não é um erro. Ele é meu acerto, pai. E não vai mais me ferir de nenhum modo.

O cirurgião-dentista assentiu, satisfeito com as palavras da filha.

— Promete que vai me ligar se precisar de alguém?

— Juro de mindinho. — E ofereceu o dedo em questão ao homem que, sorrindo soprado, abraçou seu mindinho ao dela, selando a promessa.

Kalli sentiu-se mais leve, como se tivesse se livrado de um caminhão de areia em suas costas. No dia seguinte, ela e Leonidas voltaram cedo para casa e após um longo expediente cirúrgico no hospital. Kalli voltou para casa determinada lutar a sua guerra.

Enfrentaria todos os seus demônios exibindo os dentes.

 

 

Segunda, 22 de julho de 2024

— Que anel bonito. — Sua mãe comentou, quebrando o silêncio do jantar. As duas comiam na imensa mesa próxima à sala. Um momento raro na família Antonelli.

— Sim, é mesmo. — Kalli sentia o sangue-frio, seu coração dava batidas lentas.

— Você tem estado distante, querida, está tudo bem? — Observou Laura.

— Sim, está tudo ótimo. — Sorriu falsamente.

— Tem certeza?

— Sim, mãe, mas acho que… — Reuniu toda a coragem e respirou fundo. — Nós precisamos conversar.

O telefone de Laura começa a tocar.

— Só um minuto. É o toque do consultório. — Levantou-se da mesa para atender ao dispositivo.

Kalli conhecia bem aquele maldito toque que insistia em soar nos momentos mais importunos. Afastou o prato de si, após mal tocar na refeição, estava nervosa demais até para comer. Duvidava que seu estômago sustentasse uma refeição.

— Mas que droga! — Ralhou a mulher, irritadiça. — Surgiu uma emergência envolvendo um implante recém-feito, preciso ir imediatamente ao consultório. Sinto muito querida, conversamos depois?

— Sim, claro, mãe. — Confirmou sorrindo frio.

A mulher deixou um beijo no topo de sua cabeça, alcançou a bolsa jogada no sofá e deixou o apartamento às pressas. Salva pelo gongo, mas não se sentia feliz. Queria acabar com isso logo.

Kalli juntou os pratos e lavou a louça após o jantar. Passou as horas seguintes estudando no quarto, ou ao menos fingindo, já que a angústia em seu peito a deixava totalmente desconecta.

Até que recebeu uma mensagem que a animou.

Leonidas às 23:24: “Me encontre na piscina.”

Kalli sorriu boba, sentindo o coração acelerar só de ler o nome dele na tela. Foi correndo ao closet vestir um maiô e desceu até o térreo do condomínio. Caminhou até o ginásio, encontrando o namorado no local à sua espera. Como faziam dias a fio, meses atrás.

— O que está fazendo aqui?

— Um professor faltou e pensei se não poderia aproveitar para passar o tempo nadando com a minha futura esposa. — Sorriu apaixonado, beijando-a. — Você tem estado tão tensa, sei que isso te ajuda.

— Você me conhece muito bem.

— É o meu dever. — Piscou para a moça. — Mas… você não contou, não é? — Checou, só por garantia.

Kalli negou, balançando a cabeça, fazendo seus fios balançarem ao seu redor.

— Foi literalmente por um triz. Mas tudo bem, não passará de amanhã. — Garantiu ao rapaz, circulando seus braços ao redor do pescoço do mesmo. — Não fique preocupado, tá bom? Vou te contar na mesma hora.

— Tudo bem. — Leonidas concordou, sorrindo fraco.

Fizeram como sempre, jogaram-se contra a água e nadaram por um bom tempo, vez ou outra parando para conversar sobre o dia a dia. Kalli nunca falava tanto com alguém como com noivo. Conversavam sobre absolutamente tudo, cada pequeno pensamento na sua cabeça era compartilhado com ele. E isso a deixava tão feliz, simplesmente poder jogar conversas fora com o homem que amava, sem medo de ser mal interpretada e Leonidas era muito atencioso, se interessava por cada palavrinha que saia da boca dela.

Saíram da piscina em dado momento, Leonidas enxugava o corpo da namorada, secando seus cabelos com cuidado enquanto ela contava em detalhes a cirurgia de realinhamento de um maxilar. O rapaz ficava horrorizado com a descrição sangrenta, mas Kalli parecia tão animada falando disso que a ouviria por horas. As descrições comprovavam ao rapaz que havia escolhido a profissão certa.

— O que pensa que está fazendo? — Uma voz surpresa ecoou pelo ginásio, dura e forte, banhada de raiva.

O casal se sobressaltou, voltando o olhar para a direção da voz, dando de cara com Laura Antonelli os observando simplesmente pálida.

— Se afaste da minha filha agora mesmo! — Disse em tom autoritário, engolindo em seco.

— Mãe… — Kalli começou, sem saber quais palavras usar.

— Eu disse para se afastar da minha filha. — Gritou, avançando em passos rápidos. — Assassino!

Leonidas ficou simplesmente paralisado, não sabendo como reagir diante da mulher. Qualquer palavra, gesto ou até respirar de sua parte poderia piorar a situação.

— Mãe, para! — Kalli se colocou à frente do rapaz.

— O que você está fazendo, Kalliope? — Laura questionou com uma expressão enojada. — Eu pensei que… — Os pensamentos da mulher finalmente uniram os pontos, fazendo-a encará-los de queixo caído. — Aí, meu deus… vocês… eu…

— Eu o amo. — Soltou, sentindo-se tonta com a arritmia.

— COMO É?

— Estou apaixonada por Leonidas e vamos nos casar. — Soltou subitamente, deixando aquilo ser finalmente liberto. — Era isso que queria te contar mais cedo. Esse anel foi o pedido de casamento dele. Vamos morar juntos.

— KALLIOPE! — Laura ralhou boquiaberta, ela levou a mão ao peito, tocando seu coração que havia acabado de ser golpeado por uma lâmina extremamente afiada. — Vo-você… vo-você está tentando me matar?

— Não, mãe. Mas estou tentando viver. Só quero que aceite a minha felicidade.

— Felicidade? Ficou louca? Eu preciso te lembrar que esse lixo de ser humano quase te matou? Você ficou em carne viva, Kalliope. Quase morreu tantas vezes, no acidente, na mesa de cirurgia! Ficou em coma induzido por não suportar as dores… — Enquanto Laura citava, as lembranças tomavam conta do coração da dentista, fazendo-a fraquejar de dor.

— Para, por favor. — Kalli fechou os olhos atormentada. — Não foi culpa dele.

— Não? E quem é que te colocou naquele carro? Praticamente te sequestrou!

Kalli negou, balançando a cabeça freneticamente.

— Você não sabe a história toda.

— Ah, é mesmo? Então me conta, queridinha. — Debochou a mulher.

— Leonidas me salvou de um cara, o que aconteceu depois foi só ele assustado, tentando me proteger. — Laura ria enquanto a garota falava. — Sem mencionar que ele não era o motorista bêbado que dormiu ao volante.

— Não mesmo, era um adolescente irresponsável te sequestrando em um carro que ele não tinha idade o suficiente para dirigir! — Laura gritou, fazendo seu corpo inteiro tremer. Seu rosto estava tão vermelho que parecia o puro fogo.

— Para, por favor… — Kalli sentiu as lágrimas inundarem seus olhos.

— Senhora Antonelli… — Leonidas arriscou, mas foi brutalmente interrompido.

— Não ouse! Não fale comigo! Não se atreva a dirigir a palavra a mim, seu assassino desgraçado! — Laura avançava com raiva, gritando e gesticulando contra o casal.

— PARA! — Kalliope gritou com todas as forças.

— Se afaste da minha filha ou eu estrago o que resta da sua vida medíocre. — E continuou avançando como uma fera.

Leonidas agarrou a cintura da namorada, sem saber o que fazer, querendo simplesmente que esse momento não estivesse acontecendo.

— CALA A BOCA! — Kalli gritou com a força inteira de seu corpo, fazendo sua garganta arder.

Laura se assustou dessa vez, parando finalmente com a agressão verbal.

— Como é, Kalliope?

— Cala a droga da sua boca! Se tem alguém culpado pelo que aconteceu no passado é você! Eu tô cansada de agir como se não existisse, como se não tivesse voz, a senhora vai me ouvir e vai ser agora. — Determinou, ofegante. — Por anos fingiu-se de cega e surda, permitindo que Leonidas e eu vivêssemos um inferno quando éramos adolescentes, mas você insistiu em nos fazer engolir um ao outro por causa do seu amor por Marilia, o que até entendo, não acho que precisava deixá-la, mas precisava ser a minha mãe, uma adulta responsável. A pessoa encarregada de me proteger. Mas a questão é que fiquei órfã quando você insistia em amar Marilia e conquistar seu enteado problemático. Se for para culpar alguém, culpe você. E não vou deixá-lo, mãe. O amo e vou me casar com ele, quer goste ou não. — Laura fazia uma expressão horrenda enquanto ouvia tais palavras. — Você só tem uma opção: me apoiar e estar ao meu lado pelo menos dessa vez.

— Com ousa sua ingrata? Quem estava ao seu lado virando madrugadas adentro enquanto você se contorcia naquela cama de hospital? — A mulher cuspia praticamente as palavras, acentuadas com ácido. — Quem pagou o tratamento mais caro para que você pudesse ter uma aparência menos monstruosa?

— Laura… — Leonidas sussurrou, baixo e petrificado. Caralho, como ele estava com raiva por ter que permitir aquilo. Por não ter o direito de intervir.

Kalli abriu a boca sem ar, foi como se tivesse levado um golpe forte e certeiro.

— Eu vou fingir que você não acaba de nomear de tal forma a minha pele recuperada de um acidente horrível. Não, você não seria capaz, não depois de tudo que me viu sofrer. — Eram lágrimas ou sangue escorrendo por sua face quente como lava de vulcão. Laura virou a cara, incapaz de sentir algo além de desgosto. — Ah, sim, claro. A única pessoa ao meu lado precisou da minha quase morte para acordar para o fato de que era a minha mãe.

Laura riu debochadamente.

— Sua merdinha ingrata! — Cuspiu, irada.

Leonidas agiu na hora, saindo de trás de Kalliope para ficar à frente dela, enfrentando a mulher.

— Já chega! Não vou permitir que fale assim com ela. — Disse firme, com a voz no tom mais grave possível.

Laura riu ainda mais.

— Ah, claro, é só essa que me faltava. O assassino da minha filha protegendo-a de mim, a mãe dela. — Caprichou na ironia. — Fica na sua, seu merda.

— Merda é o que você fez comigo na fase da minha vida que mais precisei de você. — Devolveu Kalliope, encarando a mãe com fúria. — Sou muito grata por tudo, mãe. Eu sei o quanto a senhora trabalhou para ser uma profissional em tal patamar. Me deu a melhor educação possível. Dinheiro nunca foi um problema. No momento que quase morri, você decidiu que eu existia e cuidou prontamente de mim. Pagou todo meu tratamento e espero um dia ter dinheiro o suficiente para sanar todas essas dívidas. Mas agora, estou aqui, como sua filha, ao lado do homem que amo com todo meu coração. Te pedindo uma única chance.

— Ah, faça-me o favor… quanto drama, Kalliope. — Debochou. — Que vergonha, nem parece uma pessoa que pari. Você é fraca. É ridícula. E está jogando seu futuro fora por um par de bolas. Por causa de um sonho ilusório de amor. Meu amor, quando você acordar para a realidade, vai sofrer e muito. Quando esse assassino desgraçado te trair com inúmeras vadias, te abandonar grávida e sozinha… ou quem sabe ele te mate antes disso.

— Laura, é melhor parar. — Leonidas avisou, chocado com o limite que ela estava cruzando. Ele temia por Kalliope ao ouvir coisas tão cruéis.

— Não é a verdade que você quer, Kalliope? — Indagou com o semblante sarcástico e cruel. — Eu sou a sua mãe. Sei do que estou falando.

Não é o que dizem? Que as mães sabem de tudo.

— Eu sinto muito se você vê a vida de modo tão triste e medíocre. Mas não projete suas desilusões em cima de mim. — Defendeu-se, enquanto sentia seu coração sangrar diante das palavras ditas por sua própria mãe.

Para Kalli, amar exigia uma coragem imensa. Contudo, sua mente queria fazê-la definhar. Acreditando nas palavras daquele coração infeliz.

— A única coisa que quero saber, Laura, é se vai aceitar meu amor por Leonidas ou vai sair de vez da minha vida. — E jogou suas últimas cartas na mesa, determinada a cessar aquela situação.

Laura ficou calada por alguns segundos, encarando o casal à sua frente, sentindo seu estômago revirar fortemente.

— Me recuso a participar disso. — Negou, balançando a cabeça. — Nunca pensei que me causaria tamanho desgosto, Kalliope. Honestamente, prefiro a morte do que vê-la com esse monstro. Mas pelo visto, ele já a agarrou com suas garras malignas, não posso fazer nada além de assisti-la morrer nas mãos desse assassino.

Kalli recebeu a decisão de sua mãe como uma facada certeira e fatal bem no centro do seu peito.

— Ótimo. — Sorriu friamente.

— Sinto muito, filha.

Não, ela não sentia.

— Acho que não sou sua filha porra nenhuma. — Kalli rosnou como uma loba, mostrando os dentes. — Sai daqui.

A mulher encarou-a com pena.

— SAÍ! — Gritou. — Vá embora!

— Kalli… — Leonidas sussurrou, colocando a mão no ombro da moça, tentando contê-la.

Laura balançou a cabeça em negação, deu as costas ao casal e deixou o ginásio às pressas. Assim que a silhueta da mulher sumiu do seu campo de visão, Kalli foi atingida por um soco no estômago, um grito pavoroso de dor rompeu por seus lábios enquanto seus joelhos perdiam as forças e foi ao chão.

— Não… não… consigo… respirar… — Murmurou enquanto chorava copiosamente, sentindo seu coração esmagado, os pulmões colapsados.

A taça foi ao chão, estilhaçando-se em milhões de cacos. Ela chorou enquanto Leonidas a mantinha em seus braços.

A piscina rachou-se ao meio, a água transbordou para tudo quanto é lado.

Kalliope se agarrava a ele com todas as forças e era como se tateasse o vazio. Foi quando ela descobriu que o amor não cura tudo e isso era uma decepção tão grande.

Arruinada.

Certos venenos eram tão potentes que nem a força de um amor destinado poderia dissipá-lo.

Escuridão, foi o que inundou a sua alma.

 

 

quanta tristeza você achou que eu podia suportar?
quanta tragédia?
até onde você achou que eu iria antes de implodir?
antes de eu me libertar?
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