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Me encontre no fundo azul

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Domingo, 19 de maio de 2024

Kalli acordou embolada na coberta e no corpo do homem por quem estava apaixonada, Juca dormia sob seus pés. A cena fez um sorriso genuíno surgir em seu rosto. Leonidas roncava baixinho, não era alto nem incômodo, era provavelmente resultado do cansaço. Afinal, passaram a noite em claro, exercitando-se muito, logo após fazerem um show de duas horas. Já passava das 11h da manhã e em algumas horas ela teria que cumprir horário no hospital.

Levantou-se com demasiado cuidado, Juca rolou na cama, se espreguiçando e bocejando. Kalli foi até o banheiro do rapaz e se viu obrigada a usar enxaguante bucal na ausência de uma escova, era o fim do mundo para a dentista ficar sem escovar os dentes. O seu reflexo no espelho parecia tão diferente, uma mulher que ela ainda desconhecia. Alguém que foi tocada. Podia sentir cada local que ele beijou, tocou e acariciou e suas digitais estavam gravadas em sua pele como tatuagem.

Riu de si mesma, deparando-se com uma versão bobalhona e apaixonada, que lhe causava sensações muito gostosas. Saiu do quarto na companhia de Juca, deu um pouco de ração ao animal após ser guiada pelo mesmo até a área de limpeza onde se deparou com o pote de ração. Depois tomou liberdade de ir para a cozinha fazer alguma coisa.

Kalli adorava cozinhar, mas não tinha muita oportunidade de fazê-lo devido à rotina. Sua mãe tinha uma empregada para isso, o que era deveras útil na ocasião. Aprendeu a cozinhar com a avó quando passava as férias com a mesma, Kalli tinha uma caixa cheia de livros de receitas escritas pela falecida mulher. Mas sabia se virar de cabeça, pegou alguns ingredientes na despensa, na intenção de fazer um brunch que serviria de café e almoço, considerando o horário.

Fez ovos mexidos com queijo, picou mangas e maçãs, torrou alguns pães adormecidos com manteiga e alho, passou um cafezinho e serviu uma tigela com iogurte. Montou a mesa de café da manhã e quando estava acabando a porta da frente se abriu.

— Que cheiro bom! — Marilia disse, sendo recebida por Juca.

Kalliope sentiu a alma sair do corpo, ficou gélida na hora. Havia se esquecido completamente que Marilia poderia chegar a qualquer momento.

— Oh… — A mulher espantou-se quando notou a presença da ex-enteada em seu apartamento. — Kalliope, como você mudou! — Marilia abriu um sorriso imenso, dando passadas rápidas até a moça, trocando um abraço apertado. — Meu deus, você está simplesmente linda!

— Marilia. — Kalli não sabia onde enfiar a cara, mas manteve a postura, mesmo abraçando sua “futura sogra” vestindo apenas uma camisa, sem sutiã, descabelada e desprovida de maquiagem. — Que vergonha, por favor, me desculpe.

— Que isso, querida. Sinta-se em casa, Leonidas avisou que viria. — Marilia lhe ofereceu seu sorriso mais genuíno. — Eu tô com uma fome! Nossa, você fez isso?

— Fiz, sim, tem comida o suficiente, quer tomar café? Leonidas ainda está dormindo, deve estar muito cansado. — Contou, guiando a dona do apartamento até sua própria sacada.

— Obrigada, querida, você continua sendo um anjo. Eu aceito sim.

Sentaram-se na varandinha gostosa e começaram a desfrutar da refeição enquanto colocavam a conversa em dia. Marilia continuava sendo a mesma, ainda trabalhava como gerente do principal banco de Vera Marine. Contou sobre como viu o filho se tornar maduro diante dos anos. Não tocaram no assunto do acidente, apenas aproveitaram a companhia uma da outra.

— Ele canta tão bem, Marilia. Você tinha que ver o carisma dele no palco, me admira que Leonidas prefira trabalhar apenas como produtor, ele daria um artista e tanto. — Comentou com a mulher, falando apaixonadamente do rapaz.

— Eu sei, já fui a alguns shows dele. Meu filho nasceu para a música. Mas eu entendo, sabe? É nítido como ele se sente mais confortável compondo e produzindo. Ele fará sucesso igualmente, escreve o que estou falando. — Disse Marilia, como uma mãe babona.

— Não duvido disso nem por um segundo.

Era como se nada de ruim tivesse acontecido, as duas sempre se deram bem, não seria diferente agora. Kalli se sentiu confortável diante da mulher.

— Sabe, fiquei muito feliz quando soube que vocês estão juntos. Sério, Kalli, você é a nora dos meus sonhos. Confio o coração do meu filho a você de olhos fechados. Só queria que soubesse disso. — Marilia segurou a mão da moça, deixando-a emocionada.

— Marilia, nossa, muito obrigada de verdade. Isso é muito importante para nós.

Certamente a dentista não esperava essa reação.

— Depois de tudo que passaram, vocês merecem apenas a mais pura felicidade. — A mulher sorriu gentil e as lágrimas beirando seus olhos entregou o quanto estava emocionada.

Kalli sentia como se uma pulga a mordiscasse atrás da orelha. O incômodo era devido a algo que somente ela sabia, talvez Marilia nem desconfiasse… ela ponderou se deveria falar ou não. Temia que esse segredo pudesse afetar seu relacionamento com Leonidas. Vinha procurando meios de contar para ele, mas nunca conseguia. Como poderia dizer?

— Desculpe-me, Marilia, mas preciso falar…

— O que foi, querida?

— Tenho medo que esse segredo afete a mim e Leonidas, algo que não quero permitir, não mais e não dessa vez. — Confessou, tensa e sentindo seus ossos tremerem. — Preciso te pedir uma coisa.

De certa forma tinha direito de comentar sobre isso, não? Envolvia a todos.

Marilia consertou a postura, ficando instantaneamente tensa.

— O que quiser. — A mulher concordou.

Kalli olhou ao seu redor, constatando que Leonidas não estava por perto, então sussurrou:

— Preciso que conte ao Leonidas que você e minha mãe reataram.

A mandíbula de Marilia enrijeceu diante da revelação. O óbvio havia sido constatado, Kalli sabia de seu envolvimento com Laura. Afinal, haviam sido descuidadas diversas vezes. Seu retorno ao luxuoso apartamento no condomínio Solar Palace tinha a ver única e exclusivamente com seu namoro secreto. Ela só não contava que Leonidas e Kalliope iriam se reencontrar… que fossem se apaixonar… pensava que jamais teria que revelar seu relacionamento aos filhos, cujo, uma vez, odiaram a relação. Voltar com Laura poderia soar egoísta, mas ela ainda merecia ser feliz e agora com Leonidas e Kalliope crescidos, não havia razões para impedi-las.

— Amo Leonidas e gostaria de ter lhe contado, mas não diz respeito a mim. Isso é entre vocês dois e não quero que fique magoada comigo. Não quero causar nenhum atrito na relação de vocês, principalmente agora que sei o quão bem tem se dado. — Kalli prosseguiu, explicando-se.

— Você tem razão. — Marilia assumiu, ora ela seria uma mentirosa se dissesse que gostou de Kalliope falar isso consigo, no entanto, tinha que reconhecer as intenções da menina. — Não daria para esconder isso por mais tempo.

Já se faziam 2 anos que viviam às escondidas.

Kalli assentiu, concordando com a mesma. Sua própria mãe não havia contado, a garota apenas percebeu algumas vezes a companhia secreta da mãe quando chegava em casa fora do horário usual. Permaneceu calada por todo esse tempo, já que não se sentia no direito de confrontá-la ou julgá-la. Desejava apenas a felicidade Laura e isso apenas Marilia era capaz de proporcionar.

— E se me permite, Kalliope, também tenho algo a dizer. — Foi a vez da dentista ficar tensa. — Se está preocupada com a sua felicidade com meu filho, sugiro que volte suas apreensões ao fato óbvio que Laura jamais aceitaria essa relação. Ela repugna a existência de Leonidas. Não sei nem como conseguimos fingir que meu filho não existe.

O julgamento veio instantaneamente, como Marilia conseguia ficar com alguém que odiava a existência do ser que deveria ser o mais importante em sua vida. Leonidas poderia ter mudado durante todos esses anos, mas certamente algumas pessoas mantinham o egoísmo no talo, tal qual suas mães. Kalliope entendia o amor, só não entendia como amar alguém poderia estar acima de seus próprios filhos. Suas mães não davam a mínima para os dois. E isso era só mais uma confirmação anotada por ela.

Kalli assumiu uma expressão ríspida, não gostando do tom de Marilia. Como se quisesse se vingar pela intromissão da garota. Bom, talvez ela tenha merecido, mas não deixaria barato.

— Preocupe-se com Leonidas e deixe que com a minha mãe lido eu. — Respondeu friamente, faíscas foram lançadas ao ar. Era uma vez uma época que Kalliope Antonelli engolia sapos à força.

As duas se encararam intensamente, até que o clima tenso foi cortado pela súbita presença de Leonidas, que surgiu sorridente caminhando em direção às mulheres.

— Eu tô sonhando ou as mulheres da minha vida estão tomando café juntinhas? — O rapaz deu um beijo no rosto da mãe e um selar na boca de Kalli.

— Você não tem vergonha na cara de me deixar conhecer minha nora nesses termos? Exijo um jantar formal de apresentação. — Brincou Marilia, falsamente brava.

O rapaz riu, tombando a cabeça para trás.

— Você está certa, mãe. Vamos formalizar tudo em breve.

— Acho ótimo! — Marilia declarou, colocando-se de pé. — Obrigada pelo café, Kalli, querida. Fico muito feliz pela relação de vocês, saibam que tem o meu completo apoio. — Embora a situação de segundos atrás, Kalli pode notar a sinceridade da mulher. Como se sentisse muito pelo desentendimento.

A dentista não queria uma rivalidade com a mulher, ficou igualmente arrependida pelo ocorrido. No entanto, não podiam falar sobre isso agora.

— Obrigada, Marilia, me desculpe pela intromissão.

— Que nada, disse e repito, você é bem-vinda, sinta-se em casa. — Sorriu observando o casal juntos. — Vou deixá-los a sós. — Virou-se apenas para gritar: — Vocês dois me devem um jantar.

— Sim, dona Marilia.

— Que mané, dona, o quê, moleque? — A ouviam de longe, gritando em repreensão.

O casal riu baixinho, então Leonidas agarrou o rosto da dentista e lhe encheu de beijos.

— Bom dia, fada do dente.

— Bom dia, Orfeu. Fiz café para você, mas o ovo já esfriou.

— Vou comer assim mesmo, como a refeição 5 estrelas que é a comida feita pela minha sereia. — O rapaz foi logo se servindo e começando a devorar tudo com uma fome de leão. — Eu sei que é só um ovo, mas estou impressionado. — Disse de boca cheia. — Quando te conheci você não sabia nem fazer miojo.

— Até parece. — Kalli cruzou os braços, indignada.

— Sério, eu que fazia pipoca para você, fritava ovo…

— Não enche.

— Será que agora temos uma fada das panelas?

— Nem se eu nascer de novo vou virar sua empregada. — Brincou, ainda de braços cruzados, não apenas para demonstrar indignação, mas para tapar seus mamilos atiçados pela presença provocante do rapaz. Leonidas estava sem camisa e usando apenas aquele shortinho de dormir que era a verdadeira definição de pecado para si.

O rapaz riu.

— Jamais faria de você a minha empregada, mas se quiser que eu seja seu serviçal, gatinha, viro cozinheiro 5 estrelas Michelin só para você. — E deu-lhe uma piscadela diante da cantada de 5 centavos.

— Me poupe. — Revirou os olhos para o rapaz e depois riram.

Passaram o restante do tempo disponível de Kalli juntos, assistindo a um filme aleatório no aplicativo de streaming. Depois esperou a garota passar em casa para se vestir para então encontrá-la no estacionamento, levá-la ao hospital em sua moto, deixando-a para o expediente de trabalho.

Trocaram beijos e promessas que marcavam um típico encontro no fundo da fadada piscina azul de seu prédio.

 

Sábado, 25 de maio de 2024

— Não é muito grande, senhor Leonidas, mas o valor é muito acessível, compensa demais. — Disse o consultor imobiliário que os guiava na visita ao apartamento minúsculo no subúrbio de Vera Marine. A loja das amigas de Leonidas ficava na rua de trás, mas o apê em si era deveras desanimador. Não havia gostado do jeito como o cara do andar debaixo encarou Kalliope.

— O que você acha, baby?

Baby.

Oh, sim, um dos mais novos jeitos de chamar Kalliope. Toda vez que ele dizia, sentia suas bochechas esquentarem.

— Embora minúsculo, se ajeitado com carinho vai ficar muito confortável. — Comentou a garota.

A opinião da mesma era deveras importante para o rapaz.

— Mas acho que Juca não curtiu muito não. — Salientou, vendo o animal murmurar baixo e deitar-se desanimadamente num canto da sala.

— Ele se acostuma. — O consultor falou com um sorriso amarelo no rosto. — Já deram uma olhada em tudo? Querem ir para a outra casa agora?

— Vamos lá. — Concordou o rapaz.

Entraram no carro adesivado da imobiliária e rumaram para o leste de Vera Marine, onde gradualmente a população estendia-se. Casas grandes e sofisticadas estavam sendo construídas no local, pouco a pouco a habitação da cidade aumentava. O bairro novo era tranquilo e agradável, Leonidas apreciava todo o verde ao seu redor, considerando ser próximo das montanhas. Alguns terrenos ainda vazios atiçaram a curiosidade do rapaz. Seu sonho de verdade mesmo era construir uma casa grande, encher de cachorros, gatos, ter um quintal com alguns pés de frutas… aos poucos conquistaria isso e com Kalliope ao seu lado seria ainda melhor.

Em certa área, casinhas geminadas foram estrategicamente construídas por construtoras. Todas em modelos idênticos. Eram pouco maiores que um apartamento, mas consideravelmente mais particular e com a possibilidade de ter até mesmo um mini quintal.

Entraram na construção recém-feita de mãos dadas – Leonidas recusava-se a passar um segundo sequer sem a tocar e Kalli adorava isso. Analisaram cada cantinho apontado pelo consultor com cautela.

— Nossa, eu gostei muito. Tem mais espaço. — Comentou Kalliope, admirada.

— O aluguel é mais caro, porém vale muito a pena o investimento. Vocês podem até começar uma família aqui. — Disse o rapaz da imobiliária, fazendo Kalliope encarar Leonidas com surpresa.

O músico sentia uma fisgada no bolso, seu salário merrequinha de estagiário o fazia sofrer. Teria que conseguir mais shows, que honestamente, também não ajudavam muito financeiramente. Crescer em meio ao luxo provindo dos seus pais o escondeu da realidade árdua de ser adulto e pobre. Mas isso certamente não ficaria assim para sempre, ele daria o seu melhor para ser mais sucedido e fornecer uma vida confortável a sua futura esposa.

— Nós não moramos juntos…

— Mas bem que poderíamos, né… — Atirou Leonidas, piscando para a moça.

— Bem… se decidirem, já tem espaço o suficiente. E olha só, o cachorro aprovou. — Apontou o vendedor para o quintal visto da vidraça da sala, Juca corria de um lado para o outro na grama verde.

Leonidas sorriu.

— Ele adora um gramado.

Juca rolou na grama feito louco, aproveitando a dose de ar fresco e natureza que muitas vezes o apartamento lhe impedia de ter.

— É, acho que vou cair de cara numa dívida imensa só para dar uma casa ao meu cachorro. — Concluiu, por alto.

— Não vai se arrepender, senhor Leonidas. — Garantiu o homem, doido para bater sua meta de vendas.

 

Naquele dia, Leonidas voltou para casa com um contrato de aluguel em mãos. Levaram um vinho barato e docinho – do jeito que Kalliope gostava – e pediram a melhor pizza da cidade para comerem no ginásio do condomínio.

Passava da meia-noite, estavam sentados juntos, fazia frio, portanto não nadariam hoje. Juca corria em volta da piscina, ora mastigando um dos seus brinquedos em um cantinho por aí.

Era uma agradável noite juntos, um ritual que jamais ousariam deixar de cumprir.

— Vou sentir falta dos nossos encontros na piscina. — Comentou Kalliope, tristonha.

— Eu também. Mas podemos combinar de dormir na minha mãe só para virmos aqui. — Sugeriu o rapaz.

Kalli adorou a solução.

Como poderiam deixar de se encontrarem na água que selou seus destinos o unindo de uma maneira tão intensa. Kalli podia vislumbrar como se fantasmas translúcidos atuassem uma cena diante de seus olhos, a primeira vez que se viram após tantos anos. Leonidas pulando na piscina para salvá-la de uma hipotética tentativa de suicídio. O jeito como ela se jogou em seus braços assim que assumiu para si mesma que estava apaixonada por ele. Eram lembranças preciosas.

— Não estava tentando me matar naquele dia. — Comentou subitamente.

— Eu sei. — Garantiu a moça.

— Mas estava tentando alguma coisa no intuito de cessar a minha mente doentia. — Desabafou. — Eu faço acompanhamento psiquiátrico desde o acidente. Mas isso não é algo que eu conte para as pessoas.

Na verdade, Kalli sentia vergonha disso e não sabia explicar exatamente o motivo. Acho que batia de frente a sua cobrança em ser perfeita. Aparentemente em sua cabeça limitadora, perfeição profissional e desequilíbrio emocional não combinavam.

Nem mesmo Laura sabia disso, ela não entenderia. Foi uma decisão secreta entre Kalliope e o pai.

— Sério? — Leonidas indagou preocupado, para ouvi-la revelar isso, deverá ter bastante importância. — Mas isso é bom.

E ali estava o apoio que Kalliope desejava receber, tinha medo de contar para mãe e ser criticada ou até mal compreendida por isso. Certamente, isso jamais aconteceria com o namorado. Leonidas torcia por ela, a compreendia. Finalmente havia conquistado um relacionamento saudável e isso a fazia se sentir tão aliviada. Depois de anos se matando por dentro, perdendo seu tempo com os caras errados, o certo sempre esteve diante dela e possuía intensos olhos verdes.

A definição de paz era o que a definia por dentro.

— Não vai pensar que namora uma garota do CAPS, né?

— Bom, se você for uma ex-paciente do CAPS, não dou a mínima. Gosto de você doidinha assim. — Revelou o rapaz, fazendo-a rir.

— É louco demais encontrar alguém assim, que te aceita e te compreende. Que não te cobra absolutamente nada… você me fez surpreendentemente feliz, Leonidas. E espero ser a velhinha ao seu lado, segurando sua mão. — Confessou, apaixonada.

— E limpando a minha bunda. — Adicionou o rapaz, fazendo-a encher de tapas por quebrar o clima romântico.

— Eu te odeio.

— Não odeia nada.

— Não mesmo! — Kalli ralhou brava. — É, eu vou ser a velhinha que limpa sua bunda.

— E eu o velhinho que lambe a sua dentadura. — Leonidas disse rindo. Recebeu mais tapas da garota e precisou abraçá-la para contê-la.

— Para seu conhecimento existe algo chamado implante dentário e fica perfeito. — Era uma vez uma época que os velhos tinham a boca murcha e precisavam usar uma dentadura nojenta.

— Eu sei, fada do dente, uma vez sereia, pra sempre sereia. Velha ou não, você vai continuar sendo linda. — Declarou, brega como o amor exige.

Degustaram do silêncio por um tempo, ouvindo o barulho suave da bomba da piscina, vendo Juca divertindo-se com seus brinquedos. Ele tentava arrancar a coleira nova em seu pescoço. Na verdade, sempre odiou o acessório.

— Tadinho, deve estar apertando-o. — Comentou Kalli, observando o animal.

— Ei, Juca, vem cá! — O rapaz chamou-o.

O animal ergueu a cabeça curioso, então correu até o dono, Leonidas afastou-se da garota para acariciar a cabeça do cãozinho.

— Nunca vi ele usando coleira antes. — Observou a moça.

— Meu avô deu de presente, não quis fazer desfeita. Pode tirar dele, por favor. — Pediu gentilmente.

Kalli levou as mãos a coleira de couro azul, não estava apertado, mas assim que soltou a fivela do objeto, algo se soltou e foi parar em sua mão.

Leonidas era um grande mentiroso.

Céus.

Leonidas Vitorino era um tremendo golpe.

Um golpe que Kalliope queria, propositalmente, cair.

Seus olhos encheram-se de lágrimas e ela pode ouvir seus próprios batimentos cardíacos.

Na palma de sua mão havia um anel.

— Não pode ser…

— Sim, Kalliope. — O rapaz ajoelhou-se perante a moça, sentada em uma espreguiçadeira, diante da piscina que os uniu.

— Leonidas… — Murmurou surpresa.

— Quero que a nossa vida comece agora, não quero perder mais nenhum segundo sem você. Sei que somos jovens e temos poucas certezas sobre a vida, mas tenho certeza absoluta que te quero, Kalliope, para sempre, mesmo que isso soe doido e impossível. Mas o nosso amor é feito por nós dois e é forte o suficiente para me fazer acreditar na duração dele. Eu poderia simplesmente te pedir para ser a minha namorada, mas acho que o mais apropriado é passar os próximos anos como seu noivo. Então eu te peço, venha morar comigo, vamos começar uma família com o Juca. Entregue-se ao nosso amor. Esteja ao meu lado, Kalliope Antonelli, como a minha mulher.

Kalli encarou os olhos verdes do rapaz completamente pasma, era como se estivesse dentro daquela piscina, nadando na mais pura magia do amor. Ela não queria acordar. Certamente não tinha planejado isso para sua vida, assim como não planejou apaixonar-se por Leonidas. A vida batia a porta surpreendendo-a. Seu futuro profissional estava traçado e a cada dia mais próxima do sucesso que tanto almeja para si. Sua vida financeira uma hora ou outra melhoraria. E agora, o setor romântico batia a porta. Seu coração gritava a resposta dentro de seu peito. Como ela poderia ousar não o ouvir? Ela só saberia a resposta para suas dúvidas e preocupações se arriscasse.

— Sim. Mil vezes, sim, Leonidas. — Levantou-se rapidamente, juntamente do rapaz que lhe deu um abraço de arrancá-la do chão.

Eram só eles ali, a piscina azul, o condomínio onde moravam, o cachorro da família e promessas que só dizem respeito a eles. Leonidas deslizou o anel prateado com uma pedra brilhante no topo para o dedo anelar da mão esquerda da mulher que amava.

Se o coração de Kalli nunca havia explodido antes, acaba de acontecer agora.

Ela jogou-se nos braços do rapaz e o beijou profundamente.

— A gente precisa comemorar do jeito certo. — Leonidas disse de repente, pegando-a no colo e correndo em direção à piscina.

— NÃO! — Kalli gritou, mas era tarde demais, caíram no fundo da água.

Juca, vendo seus humanos tão animados, jogou-se na piscina também, nadando em volta do casal risonho e aos beijos.

Se encontraram no fundo azul.

Sussurraram promessas tão intensas e únicas que nós, meros leitores, não temos o direito de ler.

 

 

você me faz sentir como se estivesse viva
você me faz ver as estrelas tarde da noite
você me ama no meu pior
mas não podemos ficar juntos
e não podemos ficar separados
vamos girar para sempre
com dois corações partidos
eu acordo e você está me abraçando apertado
você é meu universo
spinning, tom odell

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