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Me encontre envolta ao caos
Quinta, 18 de abril de 2024
Música.
A temporada de concertos clássicos estava de volta à graciosa cidade de Vera Marine, despertando no rapaz fascinado pela música uma ansiedade gostosa e eletrizante. Leonidas era agraciado pelo presente de trabalhar como estagiário para a Orquestra Filantrópica de Vera Marine. A instituição era responsável por manter o hábito cultural de levar a música para a vida dos moradores da cidade. Além de ser referência aos amantes de tal arte, os quais desejam aprender a arte de tocar tais instrumentos.
Quando não estavam em temporada de apresentação, atuava como técnico musical, garantido a performance dos eventos. Fora de época Leonidas era responsável por dar aulas de piano para o público infantil de 7 a 12 anos. O que particularmente adorava, era fã de crianças e, honestamente, o tipo de pessoa com quem mais se dava bem.
A iluminação penumbra revelava que as únicas presenças na sala de estudos da faculdade eram a sua e a do zelador que o encarava com ódio encostado ao batente da porta.
— Me desculpa mesmo, seu Geraldo. Eu perdi a hora. — Disse se levantando de supetão e atirando seus materiais para dentro da mochila. Leonidas preferia estudar na faculdade do que em casa, não entendia exatamente o porquê, talvez tivesse a ver com o fato de terem se mudado há três meses de volta para o apartamento requintado de sua mãe, ele não se identificava com nada naquela casa. Nem a presença de seu cachorro o fazia sentir-se melhor.
— Vai chegar um dia que você acabará preso nesse prédio. — O zelador ralhou, com o teor rude.
— Acho impossível, o senhor faz seu trabalho direitinho, é uma benção na minha vida. — Sorriu exagerado para o velho que revirou os olhos. — Boa noite, seu Geraldo.
— Some! — O velho lhe exibiu os dentes, como um cachorro rosnando.
Já eram onze da noite, hora de se arrastar para casa de uma vez por todas. Rumou em direção ao estacionamento da faculdade, os corredores estavam pouco iluminados e o zelador o seguia por garantia. Parecia um filme de terror.
E mesmo que voltar para casa fosse um porre, Leonidas estava feliz e nada estragaria isso. Afinal, há poucos meses conseguiu esse estágio remunerado, não esperava trabalhar em uma orquestra, mas apreciou a possibilidade quando surgiu. Sabia que era capaz de coisa muito maior sendo um produtor musical, mas por enquanto, estava pra lá de satisfeito. Era a definição de emprego dos sonhos, envolvendo o que ele mais amava, além de ser simples, calmo e fácil. Bom demais. E se precisasse sair da orquestra e ir direto pra noitada fazer um freela como cantor de bar, era tranquilo, não ficava exausto.
Assim que chegou ao estacionamento vazio, vestiu sua jaqueta de couro, calçou luvas de meio-dedo nas mãos e enroscou um cachecol no pescoço. Nesse horário da noite é frio demais, a última coisa que desejava era ficar resfriado. Subiu em sua moto após encaixar o capacete na cabeça e travá-lo abaixo do queixo. Deu partida, saindo de Calisto e voltando para Vera Marine, rumando em direção ao sul, onde os prédios mais sofisticados ficavam.
Leonidas não via a hora de se mudar pro subúrbio, morar próximo dos amigos e ter seu próprio apartamento. Seria simples, pequeno, mas certamente o suficiente para lhe dar conforto e ao seu cachorro, Juca. Já imaginava como seria o local, o violão num canto da sala, o teclado em outro, refeições requentadas no micro-ondas, seu quarto inteiro pintado de preto – sua cor favorita –, roupas sujas espalhadas por todo canto… sorriu só de imaginar como seria feliz vivendo com sua própria bagunça sem ninguém pra encher o saco.
“Continue sonhando, Leonidas”, pensou, “você vai conquistar isso em breve”.
Pilotou todo o percurso perdido em seus próprios planos, divagando sobre o apê dos sonhos, os contratos de cantor que teria que cumprir nas próximas semanas. Pela primeira vez na vida, Leonidas Vitorino pode concluir que estava bem. Digo, bem de verdade, se sentia ótimo.
Cruzou os portões do condomínio atrás de um dos comuns carros de luxo que se via por ali, o porteiro acenou para si, o reconhecendo de imediato. Leonidas estacionou a motocicleta em sua vaga demarcada, desligou o motor e tirou o capacete, prendendo-o junto a corrente na garupa da moto. Caminhou até os elevadores do prédio B, enquanto aguardava deu uma olhada ao redor do estacionamento despretensiosamente, avistou uma mulher vestida de vermelho.
Para ser sincero, o vestido era muito elegante, o que não deveria ser incomum de se ver por aqui, afinal, era um condomínio de luxo. O que o intrigou era a figura que caminhava até o ginásio. O que alguém vestido assim faria a essa hora na piscina?
Demorou para perceber e quando se deu conta de quem se tratava, levou um baque. Não podia ser? A vida só poderia estar de sacanagem.
Mas, sim, era inegavelmente, ela.
Como ele tinha certeza? Não sabia ao certo se era o perfume envolvente que ficou no ar. Ele só sabia. Como se houvesse um mapa dentro do seu coração.
Fazia muito tempo que não a via… desde que a “catástrofe” aconteceu, sua mãe abandonou o apartamento de luxo e mudou-se para o centro da cidade, próximo ao banco onde trabalhava. Nunca mais a viu, tão pouco teve notícias, não trocaram uma palavra sequer. E quando resolveram regressar ao luxuoso condomínio Solar Palace, não esperava que fossem se esbarrar. Cogitava fielmente a possibilidade de terem se mudado dali devido às memórias, justo como sua mãe havia feito. No entanto, estava enganado…
Um gosto amargo domou sua boca, sentiu tanta coisa naquele instante que não poderia descrever. Ignorando seu lado racional, seus pés moveram-se sem sua permissão, traçando o mesmo caminho que o alvo de sua mente. Quando se deu conta, estava diante da porta do ginásio, vendo-a parada diante da piscina.
Só não esperava pelo que viria a seguir.
Leonidas viu Kalliope pular na piscina.
Caralho, ele viu e um grito rompeu de sua garganta:
— KALLIOPE!
Não teve tempo de pensar em nenhuma de suas atitudes. Apavorado, Leonidas invadiu o local e correu aos trancos em direção à piscina, nem notou quando se despiu de sua jaqueta de couro e seguidamente atirou-se na água. Não foi difícil visualizar o borrão vermelho no fundo azul, nadou até a moça e a eagarrou pelo braço, trazendo-a para a superfície como se seu coração dependesse disso: vê-la viva…
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Sexta, 19 de abril de 2024
Leonidas piscou os olhos de maneira atordoada, deu o maior perdido na aula de História da Música III, havia caído no sono por 40 minutos e o professor ainda estava falando. Mal pode dormir essa noite, não depois de dar de cara com o fantasma mais temido de seu passado. Sua perna voltou a doer, como um lembrete doloroso da noite que mudou sua vida. Seu médico insistia em dizer que algumas crises de dor poderiam ser psicológicas, o rapaz sempre fez pouco caso, mas depois do que presenciou, tinha certeza que sim. Não tinha outra justificativa para voltar a doer tanto. Estava tremendo de ansiedade pelo que sua mente tanto ansiava fazer. Havia tomado a decisão…
Falaria com ela.
Pediria desculpas… por tudo.
Era isso, Leonidas viu o reencontro como uma oportunidade tecida pelo destino, realizaria o que tanto ansiava desde os fatos: desculpar-se. Ele sentia tanto e vê-la ontem apenas trouxe seu arrependimento à tona. Além de quê, seria um tremendo mentiroso se não assumisse que queria entender o que Kalliope estava fazendo no fundo daquela piscina, usando aquele vestido e com a maquiagem toda borrada. Pensando bem, realmente não parecia uma tentativa de suicídio, recordava-se do quanto a jovem sabia nadar com maestria, tanto é que foi ela quem ensinou Leonidas, em um dos poucos cessar-fogo que tiveram.
Se sentiu um tremendo idiota ao se lembrar de quando Kalliope costumava assustar a todos ao desaparecer no fundo da piscina, conseguia passar quase um minuto prendendo a respiração. Leonidas se desesperou ao imaginar que a garota estava, na verdade, tentando contra a própria vida. Por que havia feito isso? Que mico!
E agora… as consequências eram todas suas, visto que ela não saia da sua cabeça, aqueles olhos tristes pareciam querer lhe confiar algo. Esperava não estar equivocado, seria o maior papelão tentar se aproximar e levar um baita passa-fora. Se bem que não poderia esperar nada além disso, não depois do que causou a ela.
Assim que os ponteiros do relógio indicaram 22h45min, Leonidas deixou a sala de aula e deu o fora da faculdade. Na velocidade da luz, cruzou as salas até o estacionamento para, assim como ontem e todos os dias, pilotar até o conjunto de prédios requintados ao sul de Vera Marine.
A decisão de fazer faculdade em Calisto, a cidade vizinha, causava-lhe grande arrependimento agora. Atravessar o percurso de praticamente duas cidades, o fazia gastar 1 hora de viagem, a porra de um baita tempo desperdiçado. Ele acelerou o motor o máximo possível. O frio cortava seus lábios, já maltratados por seus dentes frontais, os quais havia mordiscado o dia todo.
Quase se esqueceu de desejar boa noite ao porteiro quando cruzou o portão, imerso em seu objetivo. Assim que desceu da motocicleta caminhou em passos rígidos até o ginásio do condomínio, parando de frente a porta de vidro. O interior estava devidamente pouco iluminado, com as luzes principais desligadas e as de cor ciano acesas, deixando a atmosfera ainda mais aquática. De longe, pode ver uma toalha rosa jogada sobre uma espreguiçadeira e um corpo deslizando sob a superfície da água.
Era ela.
Kalliope.
Seu coração se apertou, tinha tanto a lhe dizer…, mas estava com medo, parecia um cão abandonado. Subitamente virou de costas, mas não foi capaz de dar um passo para longe dali. Sua decisão era meramente idiotice. É como jogar gasolina sobre uma fogueira prestes a apagar. Se esforçou ao máximo, mas seus sentimentos não lhe deram outra opção senão girar nos calcanhares e empurrar finalmente a porta pesada de vidro, adentrando o recinto aquecido pelo mormaço da piscina. Caminhou de maneira receosa até a beira, jogando sua mochila no chão e começando a se despir.
O tempo todo sua mente lhe alertava do erro, o perigo, mas não poderia lutar contra seus desejos. Tudo que queria era ficar numa boa com a garota que um dia foi sua “família”, alguém que fez de tudo por ele, mesmo quando a feriu tão profundamente, Kalli esteve presente e sentia que era ela quem precisava de alguém agora e seria essa pessoa se permitisse.
Enquanto removia seus coturnos, atirando-os para os lados, a dito cuja percebeu sua presença, ficando de pé sobre a água com a cabeça para fora. Pode ouvir o murmúrio em reprovação: “fala sério”, negou repetidamente ao mover a cabeça de um lado para o outro em completa negação.
Leonidas a ignorou e quando finalmente ficou apenas de cueca, saltou na água mergulhando até suas costelas quase se esbarrarem no fundo. Suavemente deslizou até Kalli, emergindo de frente para a moça.
— Bandeira branca, loira. — Avisou, visto que sua expressão era de puro ódio. — É sério. Ou eu não posso nadar na piscina do meu prédio?
— Tá de brincadeira, não é? — Kalli bradou, irritadiça e ameaçou dar-lhe as costas, mas foi impedida quando Leonidas agarrou seu pulso.
— Me desculpa. — E saiu assim, sem pensar, sem permissão, seu coração parecia estar sob a palma de uma mão que o apertava com força. Riu mentalmente do carma diante de si, depois de tudo o que fez, tudo que jurou e gritou… estava nas mãos de Kalliope Antonelli. — Me perdoa de verdade, Kalli. Eu não vou ficar fazendo rodeios, porra, vim aqui com o propósito claro de me desculpar por tudo que te fiz quando éramos crianças.
Kalli segurou a respiração com força, não conseguia acreditar no que estava diante de seus olhos. Leonidas Vitorino e um pedido de desculpas, essas duas coisas juntas não faziam sentido algum. E bem, era surpreendente ouvir isso vindo do garoto que arruinou os melhores momentos da sua adolescência.
Leonidas é literalmente cicatrizes profundas em si. Metaforicamente era também uma daquelas feridas bem feias que constantemente se rompem e sangram novamente. Com o passar dos anos e com a ajuda da distância, uma casca-grossa começou a se formar sobre essa ruptura, mas permanecia ali, prestes a ceder e sangrar a qualquer momento. E Kalli já sabia que iria doer. Oh, se iria.
É, talvez fosse um pouco tarde demais para pedir desculpas…
E considerando que, o rapaz era uma bomba em constante ameaça de explosão, se atravesse se aproximar demais certamente explodiria.
— Ok. — Respondeu, seca e fria. Impenetrável como se tornou quando se tratava desse rapaz.
— Ok? É só isso? Tamo numa boa? — Leonidas questionou, desconfiado, semicerrando ainda mais seus olhos verdes.
Kalli riu sarcástica e negou com a cabeça.
— Você já veio aqui e pediu suas desculpas, caramba, não pode me deixar em paz agora? Preciso ser mais clara que isso: quero que vá embora! Fique longe de mim, Leonidas. Ou você acha que vou esquecer tudo o que me fez? Não é assim que as coisas funcionam, babaca! — Seu tom de voz foi aumentando a cada frase dita, se tornando cada vez mais agressivo, mais ríspido, como facadas contra Leonidas.
O músico piscou os olhos lentamente, havia tanto ódio esculpido no rosto daquela garota, lágrimas beiravam suas pálpebras, incapazes de serem derramadas, sua pele estava vermelha, ressaltando ainda mais as pequenas efélides espalhadas por ela. Leonidas finalmente conseguiu fazer uma pessoa com o coração tão bom sentir tanto ódio. Era esse seu objetivo, não era? Que sua irmã-postiça tão boazinha o odiasse profundamente.
Será que o colete a prova de balas que trajava emocionalmente era rígido o suficiente para aguentar todos esses disparos? Será que Leonidas estava pronto para se encarar no espelho e lidar com os fantasmas do seu passado? Porque é isso que Kalliope é agora, diante de si, seu reflexo no espelho do passado que ele teimou em deixar para trás.
Inúmeras indagações inundaram sua mente naquele momento, mas nenhuma delas o fez fraquejar, manteve-se firme, encarando seu reflexo.
Um minuto se passou e eles ainda se miravam, um com ódio e o outro com pesar, estavam sob uma piscina de puro rancor. Mas Leonidas não cogitava desistir. Não mesmo.
— Kalli, me desculpa de verdade. — Foi o que conseguiu dizer novamente, sua voz saiu baixa, quase inaudível, carregada de arrependimento. — Se você pudesse ver dentro de mim, saberia o quanto sinto muito. E eu te entendo, sabe? Também me odeio por tudo que fiz! Mas não vou desistir de consertar as coisas.
— Você é burro ou o quê? Não tem como consertar o passado. O que foi feito, está feito. — Kalli respondeu, dando passos para trás dentro da piscina, pronta para fugir dali antes que o choro rompesse por sua garganta. Ou pior: a sua cicatriz que mais parecia uma tatuagem no nome de Leonidas Vitorino. — A única coisa que quero é ficar sozinha para fazer o meu nado. Então, por favor, Leonidas, não tira isso de mim também.
A forma como ela disse a última frase, atingiu-o em cheio. Um golpe contra todos os sentimentos à flor da pele que estavam domando seu peito naquele momento. Surgiu-se a primeira rachadura sob o escudo.
Não dá pra mudar o passado, mas certamente dá para fazer escolhas melhores no futuro, pensou Leonidas.
— Beleza, faz seu nado, loira. Eu vou ficar aqui, nadando também. Tipo uma água-viva, saca? Você nem vai perceber a minha presença, falou? — Sugeriu o rapaz, esquecendo-se de que, embora diáfanas, as águas-vivas eram lascivas. Kalli começou a negar de imediato, balançando a cabeça. — Por favor! Eu juro, se te incomodar, me avisa que vou embora na mesma hora.
Kalli fechou os olhos com força, sentindo a mão de Leonidas encontrar a sua debaixo da água, repeliu inicialmente o contato, mas o rapaz insistiu, agarrando-a pelas pontas dos dedos e firmando o toque conforme lhe era cedido. Kalli não se deu conta que se empunhou ao contato como se sua vida dependesse disso.
— O que você quer, Vitorino? — Murmurou, confusa.
— Eu só não quero te deixar sozinha, beleza? — Leonidas deu um passo para mais perto da garota. — Pode ser?
— Tanto faz. — A loira deu de ombros e puxou bruscamente sua mão, cortando o toque eletrizante.
Leonidas nunca havia tocando-a assim, acho que foi isso que a fez baixar a bola, saber que havia uma pessoa diferente ali, alguém que ela costumava conhecer, mas que já não conhecia mais. Curiosamente, algo dentro dela queria chegar mais perto, só pra ver o que o tempo e as lições da vida fizeram com ele.
Subitamente, enquanto reparava as feições agora maduras da menina, soltou uma risadinha baixa.
— O que foi? — Indagou a garota, já brava por ser alvo de risinhos.
— É que seu cabelo costumava ser mais escuro e comprido. — Notou o rapaz.
Lembrava-se perfeitamente que os fios de Kalliope costumavam ser em um tom castanho-claro, mas voltado para o dourado. E eram longos, chegando ao meio de suas costas, agora estavam acima de seus ombros e eram claros como o sol, pouco escurecidos na raiz. Ela ficava muito bonita com as madeixas loiras e o estilo dos fios mais selvagens, considerando que as ondulações traziam mais volume.
— É, eu sei. Achei que era hora de mudar.
— Ficou bonito assim.
— Obrigada.
— De nada. — Ok, isso foi estranho? — E você costumava ser careca.
— Deixei o cabelo crescer, cansei de parecer um fósforo. — Riu, passando a mão nos fios crespos e pouco enrolados, aparado na medida certa e com o corte ainda mais curto e disfarçado nas laterais.
Kalli riu.
— Definitivamente melhor que um cotonete.
— Valeu, eu acho? — Leonidas riu.
Se entreolharam estranhando a situação, visto que a alguns segundos estavam rosnando um para outro como feras selvagens que se cruzam no mato.
Desesperada por finalizar aquele momento embaraçoso, Kalli jogou-se contra a água retornando ao nado, o rapaz acompanhou seu corpo deslizando sobre a água vestida num collant cor verde-água. Sorriu quando percebeu que poderia ficar, portanto, atirou-se contra a água também e nadou borboleta até o fim da piscina, retornando em um nado jacaré e fazendo rodízio entre os nados que sabia.
Kalli deslizava sob a água a uma distância considerável de si, como se esperasse que a qualquer momento uma explosão fosse atingi-la. Leonidas compreendia, precisava recuperar uma confiança quebrada e estava disposto a qualquer coisa para conseguir isso.
Eles nadaram por horas a fio, sem trocar olhares diretos, sem palavras, apenas seus corpos envoltos por água, caos e rixas não resolvidas que imploravam por atenção. Nadavam à meia-noite e um pouco adentro dela.
Eram 2h47min quando a dentista saiu da água e recuperou a toalha que havia deixado ali, secou-se rapidamente e ofereceu-a para Leonidas, que claramente não havia trago uma, visto que usava suas roupas íntimas para nadar.
É necessário salientar que Kalli evitou a todo custo encarar o corpo alheio. Eu disse corpo? Parecia mais um monumento. Leonidas se tornou um homem grande em vários sentidos. Alto e cheio de músculos. Nem parecia aquela criança magrela que, antes da puberdade, era mais baixo que Kalliope. A mudança era tão assustadora quanto tentadora.
Já o rapaz, via diante de seus olhos uma evolução vultosa no corpo da menina, que quando conheceu, mal tinha seios. Agora Kalli tinha curvas nos locais certos e ele não podia reparar mais do que isso sem soar desrespeitoso.
Entretanto, o que realmente os assustou, não foi o amadurecimento de seus corpos. Ambos foram paralisados pelo fato sombrio das cicatrizes em comum que carregavam. Não conseguiram evitar encarar esse detalhe no corpo alheio, sem malícias, na verdade, era um momento doloroso.
Era nítido fora da água, Kalli notou a perna direita de Leonidas, a qual carregava uma cicatriz grossa, profunda e horrenda. Ele mancava quando andava… certamente nunca pensou como ele ficou após o ocorrido.
Do outro lado da moeda, Leonidas encarou as cicatrizes das queimaduras que se localizavam em locais esquerdos do corpo da menina. Concentradas em seu braço, coxa, barriga e parte do seio de Kalliope.
Cicatrizes que ele causou.
Era sua culpa e nada no universo o preparou para esse momento: encarar os danos de suas más escolhas.
Aquela noite… ficou marcada em seus corpos para sempre.
Flashes do acidente inundaram a mente de Leonidas o fazendo dar um passo para trás, como se tivesse sido atingido com força demais.
— Eu… Eu…
Não conseguiu dizer. O que poderia? Não havia nada que pudesse aliviar a dor que ele havia causado. O que estava fazendo aqui? Assombrando Kalli com tanta dor. Trazendo todo o sofrimento à tona de novo. Odiou-se por fazê-la passar por isso. Como não se deu conta? Só estava preocupado com seu próprio ego. Certas coisas não mudam, continuava sendo um filho da puta egoísta.
Leonidas estava pronto para ir embora, mas algo nos olhos castanhos daquela garota o segurou com todas as forças.
— Não dói mais. — Kalli garantiu, ao notar o olhar penoso que recebia do causador de seus ferimentos. — Na verdade, eu gosto delas. Sei lá, são como tatuagens e são lindas. — Contou, vislumbrando a pele levemente enrugada, onde em alguns locais, Leonidas pode perceber que tons azuis e roxos se ressaltavam. — Fazem parte de mim.
Era isso, aquela pureza, a gentileza, a maneira encantadora que a faz existir. Tudo dentro daquela alma o atraia. Ele desejava a pedra mais preciosa do mundo e se considerava egoísta por isso. Como pode um homem tão ruim possuir algo tão bom?
Por não saber amá-la, acabou a ferindo. É por isso que foram separados naquela noite.
Voltando-se ao que havia acabado de ouvir. Indagou-se internamente como algo daquela natureza poderia se tornar positivo? Não conseguia compreender. Sua limitação física não parecia chegar aos pés das condições da pele de Kalliope. Parecia tão doloroso, era uma marca eterna de um erro que ela não cometeu…
O jeito que o rapaz a encarava, a forma como a guerra silenciosa dentro dele era nítida, fez Kalliope perceber que aquele Leonidas que a feriu, não mais existia e que as cicatrizes que compartilhavam se tornaram vestígios de uma metamorfose para ambos.
A dentista apenas esticou os lábios, num sorriso frio. Não tinha condições mentais de falar sobre aquele assunto. Era incapaz de encarar uma versão benéfica de Leonidas Vitorino, portanto, determinada a ir embora, apenas aceitou a toalha de volta e jogou-a sobre o ombro.
— Eu vou indo.
— Tudo bem. A gente se vê amanhã? No mesmo horário? Meia-noite? — Leonidas desatou a questionar.
“Não, não e não. Não se atreva, Leonidas”, sua mente o repreendeu de imediato. E ele apenas a ignorou, ansioso para receber uma resposta positiva.
Kalli soltou os ombros num suspiro longo e fechou os olhos ao tocar o meio da testa, gesto costumeiro quando algo a incomodava.
— Leonidas…
— Kalli, eu já pedi desculpas e implorei à beça, releva. — A interrompeu, implorando, mais uma vez.
Houve um respirar fundo e alguns segundos de prolongamento, onde o cérebro da garota dava um giro, tomando mais uma decisão para a coleção de erros que já havia cometido.
— Amanhã, meia-noite. — A dentista concordou, já sabendo que se arrependeria. Todavia, não conseguiu evitar um sorrisinho quando viu a alegria estampada no rosto do rapaz. — Tchau, Leonidas.
— Tchau, Kalliope. — Acenou.
Kalli deu-lhe as costas e calçou seus chinelos, deu alguns passos na direção da saída, mas não conseguiu se conter, virou-se subitamente e disse, por fim:
— Leonidas? — O rapaz a encarou. — Valeu por aparecer hoje… e ontem também, aparentemente.
— De boa.
Respirou fundo antes de dizer a última frase consciente:
— Leonidas, valeu mesmo por ficar.
A garota não conseguiu respirar, mas não pode evitar dar um sorriso pequeno.
Ah, droga, águas-vivas!
O problema das águas-vivas é que embora sejam transparentes, se você sequer pensar em esbarrar numa delas… te queimam feio!
— Se prepara, fada do dente, eu não pretendo ir embora de novo. — Constatou com toda a certeza que residia em si.
Kalli riu baixo, negando. Não queria nutrir nenhuma esperança, não queria nem por um segundo confiar seu coração novamente àquele que um dia foi a causa de sua primeira morte. Mas quando voltou a andar e entrou no elevador, seu reflexo no espelho estava sorrindo. Suas bochechas ganharam cor e seu coração batia acelerado e tão forte que ela podia ver seus batimentos sob a pele.
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lembrá-lo vêm em memórias e ecos
digo a mim mesma que agora é a hora, preciso esquecer
mas seguir em frente depois dele é impossível
quando eu ainda vejo tudo em minha cabeça
em vermelho ardente
red, taylor swift
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