23:54

Me encontre através da música

0 0
11 ANOS ATRÁS
Sexta, 9 de agosto de 2013
Kalliope 13 anos | Leonidas 11 anos

Sua mãe tinha uma namorada e por mais que isso soasse estranho para Kalli, estava ansiosa para conhecê-la. Desde a separação de seus pais, há cerca de 5 anos, não tinha visto sua mãe sorrir daquele modo e era nisso que havia se apegado. E foi assim que os Vitorino entraram na sua vida.

É claro que há meses estavam tendo conversas um tanto profundas, onde sua mãe explicava a capacidade do coração humano de amar as pessoas, independente de quem elas são. Kalli era uma típica menina que sonhava com os contos de fadas, portanto, ficou fascinada com o discurso de sua mãe. Ela tinha sua própria versão do relacionamento incomum, princesas namoravam princesas e estava tudo bem. Parecia um universo cor de rosa, cheio de perfeições. A versão de amor que lhe foi apresentada, soava lindo.

A falta de príncipe encantado não a assustava, pelo contrário, a deixava mais fascinada com a capacidade de princesas serem capazes de proteger a si mesmas. Tinha algo mais “romântico” que isso? Ser a sua própria salvadora.

E o grande dia de conhecer a princesa da sua mãe, chegou.

— Você entende como isso é importante para a mamãe, não é? — Conferiu Laura, ativando o alarme do carro e pegando a filha pela mão para guiá-la para dentro do estabelecimento.

— Sim, mãe. Você ama a Marilia e é muito importante que eu tenha paciência com o filho dela, o Leo. — Recitou o que tanto havia conversado com sua mãe antes do tão esperado dia. Estavam a caminho da loja favorita de Kalli, a Capitão Donuts, onde deveriam se encontrar com os Vitorino.

— Boa garota. — Recebeu um sorriso sincero de sua mãe e isso deixou Kalli orgulhosa.

Estava um poço de ansiedade, se tinha uma coisa que adorava era fazer novos amigos e ela não era boba, entendia que se dar bem com essas pessoas faria sua mãe feliz. Laura empurrou a porta de vidro do estabelecimento, o típico sininho soou nos fundos da loja e uma atendente vestida com o uniforme de marinheira sorriu acolhedor.

— Bem-vinda, maruja. — E colocou a mão na testa, como os soldados se cumprimentam. — Nossa, você está linda hoje.

— Muito obrigada, Alicia. — Saudou a mulher que já lhe era conhecida. Nos encontros com seu pai, ele sempre a traz aqui, portanto eram conhecidas.

E de fato, Kalliope estava linda naquela blusa azul, calça jeans nova e sandálias cor de rosa com glitter, seu cabelo loiro-escuro estava trançado num belíssimo rabo-de-peixe, feito por sua mãe. Tudo para causar uma boa impressão às pessoas que iria conhecer, sem falar que a ideia de visitar essa loja requeria uma vestimenta a altura. Afinal, a temática do estabelecimento era famosa por fisgar o coração dos mais jovens. Kalli tem 13 anos, já é bem grandinha, mas ainda assim fica apaixonada por tudo que soava mágico.

Sua mãe a guiou até a última mesa da loja, pouco movimentada pelo horário. Uma mulher de olhos verdes, cabelo mediano e escuro a esperavam usando um terninho azul muito sofisticado.

— Você deve ser a Kalliope, meu nome é Marilia. — A moça foi logo dizendo, abrindo um sorriso acolhedor.

— Oi, você é a namorada da minha mãe. — Constatou a espertinha.

— Sou sim. E quero que conheça um carinha muito legal. Filho, vem. — O menino estava encolhido no banco, com os braços cruzados contra o peito e a cara fechada. Sua mãe precisou puxá-lo para acatar ao pedido. — Leonidas, diga “oi” para a Kalli.

Leonidas encarou Kalliope com tanto ódio que suspirou amedrontada e agarrou a mão de sua mãe. A garota o observou dos pés à cabeça, sua pele possuía a tonalidade média, os olhos intensamente verdes como os da mãe, seu cabelo estava aparado bem curtinho – o que o deixava quase calvo –, cílios vultosos demarcavam o olhar intenso, sobrancelhas grossas, magrelo e trajava uma blusa verde-musgo com a estampa de um cachorro sendo abduzido por uma nave extraterrestre, calça jeans clara e tênis com estampa de carros. Kalli o achou um fofinho.

— Leonidas, por favor, dê o presente que compramos para a Kalli. — Pediu sua mãe, gentilmente. O rapazinho cabeçudo atirou o embrulho estampado com unicórnios no chão e em seguida cuspiu. — Leonidas! — Sua mãe gritou em repreensão.

Laura encarou a cena desacreditada, porém já familiarizada com o gênio difícil do menino. Marilia fez questão de apresentá-los antes justamente por isso. Previamente alertou a filha que ele poderia ser complicado. Kalli ficou simplesmente em choque, nunca se deparou com uma criança tão mal criada. Ainda assim, deu uma chance ao menino.

— Obrigada pelo presente. — Disse gentil, pegando o embrulho e evitando a parte molhada pela saliva, abriu com cuidado e se deparou com um lindo diário de ursinho com um cadeado e chavinha de plástico. — Nossa! Muito obrigada, mesmo! Era meu sonho ter um diário. — Falou empolgada, exibindo o diário fofo para a mãe, que sorriu para a menina e trocou um olhar cúmplice com a namorada. Afinal, haviam planejado a situação para que tudo ocorresse bem.

— É ridículo. — Ralhou Leonidas.

— É lindo! — Kalli contrapôs.

— Vamos pedir alguns donuts? — Perguntou Laura interrompendo a situação com empolgação demais na voz, o garotinho apenas revirou os olhos, sem paciência.

A família ocupou a mesa, Mari e Laura de um lado e as crianças no lado oposto. Fizeram o pedido e ficaram conversando com eles, tentando fazê-los se conhecerem melhor. Até que Kalli ficou quieta e murcha, quando o menino desatou a lhe dar beliscões escondidos embaixo da mesa. Ela tentou ignorar a dor incômoda, fez tudo que pode para não atrapalhar aquele momento tão importante para sua mãe.

E quando elas estavam no caixa pagando a conta, Leonidas virou-se para a garota e disse:

— Você é feia e ridícula.

Kalli levou um baita puxão de cabelo, ele simplesmente envolveu a mão na sua trança e puxou com toda a força, fazendo lágrimas beirar seus olhos.

— Babaca! — Ralhou para o menino, detestando-o.

Leonidas caiu na gargalhada, soando maldoso. A menina nunca pensou que odiaria alguém mais do que Marcos – o garoto mais maldoso de sua turma.

Ter os pais separados era horrível, não poderia negar. Embora tê-los brigando em casa fosse ainda pior. Kalli estava começando a ponderar se a sua concepção de horrível não estava deveras equivocada, considerando que diante de si, estava o pior pesadelo que poderia ter imaginado. Mas tudo bem, logo seriam como irmãos e as coisas ficariam melhores.

Ela só não imaginava que dali em diante só pioraria.

Dias após começar a preencher as páginas daquele diário, mais especificamente no dia 13 de setembro, aniversário de Kalli, Leonidas visitou sua casa, roubou o diário, fez cópias na impressora da mãe e espalhou na festa de Kalli.

Todos seus amigos ficaram rindo da garota, principalmente por descobrirem a paixonite dela por um garoto de sua sala. Ela havia escrito o nome dele repetidas vezes em várias páginas inteiras. A frase “Eu amo Igor” parecia ter se tornado o maior arrependimento de sua vida.

Quando todos começaram a rir, Kalli saiu em disparada para seu quarto e escondeu-se dentro de seu armário. Estava tão irritada que poderia gritar milhões de palavrões. Respirou profundo o suficiente para expandir sua caixa torácica no máximo, como nos exercícios de respiração que fazia antes das aulas de natação.

Seu rosto era o caos esculpido em vermelho. As lágrimas que lutou tanto para segurar, eclodiram de seus olhos sem a sua permissão, fazendo-a chorar copiosamente com soluços altos. Estava devastada, quebrada, arruinada… realmente acreditou que por essa noite, o seu aniversário, Leonidas iria dar uma trégua. Por alguns minutos pensou que ele estava sendo legal, lhe dando uma nova cópia de A Marca de Uma Lágrima[1] para compensar o que havia destruído ao jogar dentro do aquário numa de suas típicas briguinhas.

Era ridiculamente infantil a maneira como os adolescentes travavam uma guerra contra o outro e a cada desavença, mais um limite era avançado. Eram a definição de bomba em construção e quando explodisse o estrago seria feio, totalmente irreversível. Ambos sabiam muito bem disso, Kalli se esforçava ao máximo para se dar bem com o mais novo, mas Leonidas Vitorino jamais esteve disposto a mudar seu jeito para evitar catástrofes, não era um garoto legal e tinha alergia só de pensar em ser educado, bonzinho e pedir desculpas.

— Trouxe um pedaço de bolo para você.

Cerca de 30 minutos depois do ocorrido, Kalli ouviu a voz de Leonidas.

— Foi mal, achei que seria engraçado. — O garoto realmente se sentia arrependido por arruinar a festa de Kalliope. — Por que não volta para a sala? Seus amigos estão te esperando.

Kalli não respondeu, ela jamais poderia voltar para aquela festa. Ao menos, Leonidas esperou os parabéns para depois aprontar aquilo.

Pedidos de desculpas e arrependimentos, eram as palavras que resumiam Leonidas. Sabendo que Kalliope não falaria consigo tão cedo, ele decidiu cantar uma música, bem baixinho, só para ela. Como quando ouvia músicas na companhia de seu pai, dentro do seu Chevette 76.

No one knows what it’s like / Ninguém sabe como é
To be the bad man / Ser o homem mau
To be the sad man / Ser o homem triste
Behind blue eyes[2] / Por trás de olhos azuis

And no one knows what it’s like / Ninguém sabe como é
To be hated / Ser odiado
To be fated / Ser destinado
To telling only lies / A contar apenas mentiras

But my dreams, they aren’t as empty / Mas meus sonhos não são tão vazios
As my conscience seems to be / Quanto minha consciência parece ser
I have hours, only lonely / Eu tenho horas de pura solidão
My love is vengeance / Meu amor é vingança
That’s never free / Que nunca está livre

No one knows what it’s like / Ninguém sabe como é
To feel these feelings / Sentir esses sentimentos
Like I do / Como eu sinto

As aulas de inglês provaram deveras úteis naquele momento, para ambas as crianças. Dias atrás, o rapaz tocou violão e cantou a música num show de talentos da escola, então sabia o tom e a letra de cor e sorteado.

Aquela canção, a voz baixa e suave, fez o coração de Kalli ser embalado em um caloroso aconchego. Como se lhe soprassem um joelho ralado. Foi o melhor presente de aniversário que Leonidas lhe deu na vida.

Acabou adormecendo no armário e sua mãe a encontrou depois de horas. O pratinho com o pedaço de bolo ficou esquecido do lado de fora e algumas formigas já haviam o descoberto. Daquele dia em diante, se pegava cantarolando mentalmente a letra da canção, desejando que aquela versão de Leonidas fosse a sua realidade. O que obviamente nunca aconteceu, restando a menina se esforçar ao máximo para evitar seu futuro suposto irmão.

Kalliope ficou tão destruída por dentro que depois disso nunca mais ousou escrever em um diário. E os dias seguintes na escola, foram similares ao verdadeiro inferno.

 

 

DIAS ATUAIS
Segunda, 7 de maio de 2024

Estava a caminho do ginásio vestida com a típica saída de praia e a toalha jogada no ombro quando foi surpreendida pela aparição de Juventino, o zelador do condomínio. Ele fez uma curva entre os carros e surgiu conduzindo seu Segway, projetando o corpo para frente e usando os controles do aparelho para guiá-lo na direção desejada.

— Boa noite, senhorita Kalliope.

— Oi, seu Juventino. Tudo bem?

— Tudo uma paz, senhorita, obrigado por perguntar. — O zelador parou ao seu lado, sem sequer precisar descer do condutor elétrico, pegou uma carta que estava quase caindo do bolso de sua calça. — Uma entrega especial. — Ofertou o envelope preto a moça, que de início ficou um pouco suspeita, sem compreender o que o funcionário poderia querer consigo. Todavia, quando viu as iniciais LV de caneta branca assinada no papel, soube que se tratava de Leonidas. Aceitou a entrega com um sorriso inevitável no rosto

— Por essa eu não esperava… — Exalou surpresa, erguendo as sobrancelhas. — Desculpe ter sido incomodado com isso, seu Juventino. Muito obrigada, mesmo. — Agradeceu ao senhorzinho que sorriu gentil, como sempre.

— Não é nenhum incômodo, senhorita. Uma excelente noite.

Juventino seguiu seu caminho e Kalliope se locomoveu até a piscina encarando aquele envelope com tanta curiosidade que mal conseguiu se conter. Havia um volume suspeito dentro do papel, ela ficou passando o polegar por cima tentando decifrar o objeto desconhecido. Sentou em uma das espreguiçadeiras e foi logo abrindo a carta, de onde, primeiramente, pegou um bilhete com uma letra formosa diferente da que conhecia quando eram crianças.

“Desculpe por não poder te encontrar hoje, um amigo meu me pediu para substituí-lo num show. Pedi ao zelador para te entregar, assim você não ficaria magoada, criando teorias absurdas de que desisti da nossa amizade.

Estou torcendo para te ver amanhã.

Queria que você ouvisse um cover que gravei.

Depois me fala se gostou.

Estou pensando em postar na internet.

Seu mais novo amigo, Leonidas.”

Kalli abriu o envelope e encontrou um pendrive comum dentro dele, Leonidas era tão antiquado, fazia séculos que não via algo como isso. Com a facilidade da internet e tecnologia, os pendrives já ficaram no passado, muito pouco utilizados hoje em dia. Se precisava de um arquivo era só compartilhar pela nuvem. Escrever e enviar cartas, então, nem se fala.

Completamente dominada pela bisbilhotice, deixou a piscina e retornou para o seu quarto. Para sua sorte, seu notebook estava ligado em cima da escrivaninha, só precisou desbloqueá-lo e plugar o pendrive em uma entrada USB.

O nome do dispositivo era ORFEU e certamente não era mera coincidência. Na mitologia grega, Orfeu era filho de Apolo. Kalliope entendeu a referência de imediato, achou fofo a forma de referir-se ao deus da música. Mas o que mais a intrigava, era o fato que ele sabia que Kalliope era fã do mito Orfeu & Eurídice. Ela o descobriu por acaso, sanando sua curiosidade certa vez, quando quis procurar sobre a origem de seu nome. Apolo e Calíope eram pais de Orfeu. Uma coisa levou a outra. Lembrava-se de ter compartilhado a descoberta com Leonidas, contando a ele sobre o deus da música.

Havia um único arquivo na pasta no formato de .mp4, deu duplo clique sobre o ícone de claquete e em poucos segundos a visão do possível quarto de Leonidas surgiu. Uma cadeira gamer vazia, no fundo, a cama bagunçada e um cachorro preto sobre ela mastigava um brinquedo de borracha usando as duas patas para neutralizá-lo. Kalli notou alguns pôsteres de bandas aleatórias e antigas, então seu foco voltou-se ao rapaz de boné que ocupou o lugar de frente a câmera segurando um violão.

— Fala galera, aqui é o Leonidas do @orfeuoficial, essa música é para a geração que cresceu ouvindo Boleros Internacionais, aqueles típicos DVDs com 101 flashbacks. — O rapaz tombou a cabeça para trás rindo da nostalgia e dedilhando suavemente as cordas do violão. — Quem não sabe do que estou falando, só curte o som que é bom pra cacete. Essa canção me faz lembrar do meu pai que vivia ouvindo-a no seu Chevette dos anos 70. E também é uma música que cantei para uma garota certa vez… enfim, eu tô falando demais, se liga nesse som…

Leonidas começou a cantar Behind Blue Eyes, ele fechou os olhos e dedilhou o violão como um maestro. E de fato, ele era o deus da música, sua voz era gostosa, acolhedora, grave, rouca, mas suave e bonita. Fechou os olhos e dedicou-se à canção como se ela fluísse de sua alma.

A lembrança fez os olhos de Kalli encherem de lágrimas, ela dobrou as pernas na direção do tronco, apoiou os pés em sua cadeira e abraçou os joelhos enquanto ouvia o rapaz cantar para si.

Ali estava, aquele garoto que tanto implorou ao universo. Uma versão impossível de Leonidas Vitorino. A letra da canção podia ser compreendida com clareza agora que era adulta. Toda a dor que Leonidas sentia estava nítida naquela melodia. Toda a incógnita que sempre o rodeou. As respostas eram claras.

Ela pode enxergar com nitidez a sua alma e um pouco além dela. Pode notar que compartilhavam as mesmas cicatrizes que fizeram naquela fatídica noite. Eles eram feitos de metades divergentes, no entanto, com detalhes únicos extremamente semelhantes.

Aquele garotinho que tanto atazanou sua vida, cresceu e se tornará um homem tão lindo. O maxilar definido, sedutor, os braços torneados com veias grossas saltando abaixo da pele bronzeada. Kalli sentiu calafrios severos dominando seu corpo e arrepiando sua alma.

Constatou o óbvio: qualquer garota se apaixonaria por ele.

Qualquer uma, até mesmo ela…

 

 

eu desistiria da eternidade para te tocar
porque sei que de alguma forma você me entende
você é o mais próximo que estarei do paraíso
tudo que posso sentir é este momento
e tudo que posso respirar é a sua vida
cedo ou tarde isso acabará
eu só não quero sentir sua falta esta noite
e você não pode lutar contra as lágrimas que não virão
ou o momento de verdade em suas mentiras
quando tudo se parece como nos filmes
você sangra apenas para saber que está vivo
eu não quero que o mundo me veja
porque eu não acho que eles entenderiam
quando tudo é feito para ser quebrado
eu só quero que você saiba quem sou
iris, goo goo dolls

 

[1] A Marca de uma Lágrima é um livro infanto juvenil de Pedro Bandeira.

[2] Behind Blue Eyes é uma canção da banda de rock The Who.

Indique para um amigo