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Me encontre inteira em seus braços

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Terça, 30 de julho de 2024

Leonidas tocava o violão com tanta fúria que seus dedos estavam na carne viva, mas ele não podia parar. Não enquanto seu coração sangrava daquele modo. Não quando a dor era tudo que o mantinha vivo. A trilha sonora acústica da tristeza que o dominava veio banhada de ódio, mesclando-se às canções que perambulava em sua mente, vagando entre “Snuff” do Slipknot, “Save Me” do Hanson, “How You Remind Me” do Nickelback ou “Cartas pra Você” do NX Zero, como se mesclar as músicas tão distintas fosse possível.

Estava tão quebrado que não conseguia sequer tocar uma canção. O que você fez, Kalliope? Roubou dele o que mais amava…

A verdade é que antes dela estava tudo bem, mas agora, após se envolver em sua névoa mística, viver se tornou impossível. Encarar o seu reflexo é repugnante. A sua existência tornava-se uma maldição para ele mesmo. Talvez o chamem de dramático e diminuam sua masculinidade por se sentir tão soturno diante do possível fim de um relacionamento onde ele amou e se apaixonou com tanta força. E se for o caso, foda-se.

Foda-se se ele a ama.

Foda-se se é dramático.

Foda-se se isso é pouco masculino.

Leonidas não dava a mínima.

Ele só queria sentir a sua dor por direito, se permitir ficar em pedaços, pois é assim que ele está agora. De joelhos, implorando ao bom Deus que a traga de volta. Como ele poderia não implorar? Nada em sua vida fez tanto sentido, se não existir pelo amor. Porra, ele é um músico que canta sobre paixão todas as noites. Ele é movido por criatividade e emoção.

Mas uma vida sem Kalliope soava vã… é tão escuro e vazia. Pode ouvir o eco, era o barulho do seu coração trincando.

As letras das canções que atuavam como seu sincero desabafo ornavam perfeitamente com a sua dor. Elas começavam a se encaixar dentro de si, combinadas ao seu padecimento. Mais do que isso, elas passaram a ser suas…

Imerso nos sentimentos melancólicos e na criatura lúgubre arranhando a sua mente, Leonidas resgatou um caderninho da gaveta de sua escrivaninha. Tinha a capa preta de couro falso, gasto e arranhado. As folhas em seu interior estavam amareladas e o cheiro de mofo por consequência de tanto tempo guardado. Alcançou uma caneta e voltou a se sentar, usando de apoio uma caixa de papelão com utensílios da mudança qual desempenhou o papel de mesa.

E assim deixou fluir para fora do seu peito. Absolutamente tudo. Dedilhava o violão, cantarolando mentalmente enquanto escrevia internamente a letra da canção provinda de sua alma em forma de desabafo.

 

Rascunho de Leonidas (Orfeu): ‘Venha e Me Salve

Faz uma semana que vi seu coração se partir ao meio
A sua voz dolorida dizendo
Que tudo você queria era não me ver
Eu bebo garrafas e mais garrafas de solidão
Sozinho com os meus pecados
Não suporto lidar comigo
Se estou vivo agora é por você

Eu sei que não mereço te ter
Sem o seu amor eu sou só escuridão
Eu preciso de você
Preciso da sua luz
Como posso voltar ao que era antes sem você?
Amor, você me mudou inteiro
Você deu razão aos meus piores dias

Quebro o meu reflexo no espelho
Nem a música pode me salvar
Eu só queria estar ao seu lado
Você disse que era para sempre
Você levou tudo consigo
Tenho que encarar a fera dentro de mim
Eu só quero que isso pare
Eu só quero não sangrar

Então venha agora e conserte o meu coração
Venha e me salve
Estou de joelhos
Outro dia sozinho é mais do que posso suportar
Quando tudo que preciso é ouvir a sua voz
Mas tenho que conviver com todo mal que eu fiz
Sabendo que essas são as únicas lembranças que te deixei

Por favor, me diga uma última palavra
Me salve
Me diga que lhe deixei mais do que cicatrizes

Diga que irá pensar em mim como algo além de um monstro
Pois é assim que você se lembra de mim
Do que realmente sou
De tudo que eu te fiz

Porra, eu te amo com meu corpo inteiro
Amo você e não estou suportando te ver partir
Eu amo você
E ouvir isso deve ser péssimo
Você não vai lutar por mim?
Viver comigo deve ter quase te matado

Eu te amo
Lute por nós
Eu…
Não me deixe aqui sozinho
Estou te dizendo
Não posso suportar
Tudo que me resta é escrever essa música fodida
O meu erro foi te entregar um coração que vale a pena partir

 

Ele queria socar paredes, destruir o universo, pular de um precipício, gritar…, mas se contentava com a carne dos seus dedos contra as cordas do instrumento. Dava-se por satisfeito em arrancar sangue de suas próprias mãos.

Juca o observava do outro lado do cômodo vazio e cheio de caixas que ele não teve coragem de desfazer, mesmo a dias vivendo aqui sozinho, na casa que veria chamar de lar com sua futura esposa.

E se ela não voltar?

E se finalmente Kalliope percebeu que o amor por ele é um erro tremendo. Que Leonidas é o único culpado pelo acidente que quase lhes arrancou a vida. Que ele é um merda que não merece perdão e tão pouco amor.

É, ele não merecia nada daquela porra.

O instrumento foi arrancado de suas mãos por uma força muito maior, sendo atirado contra a parede branca e intacta. O barulho fez Juca levantar assustado e correr para debaixo da escrivaninha de seu computador.

O rapaz respirava com dificuldade, ofegante e irado.

Foi o fino choro de Juca, carregado de melancolia, que fez seu coração se encher de remorso, encarou o violão caído ao chão e danificado. Se sentiu mais merda do que antes. Levantou-se e foi na direção do animal trêmulo.

— Me perdoe, garotão. — Pediu, sendo recebido pelo bichinho assustado, que aceitou os carinhos de desculpa. — Não queria te assustar. Perdão.

O animal aproveitou o calor da mão humana, se esquecendo completamente do que havia acontecido. O homem ficou acariciando-o por alguns minutos, até que Juca levantou-se em alerta com as orelhas erguidas.

— O que foi?

O cachorro saiu em disparada, Leonidas o seguiu prontamente, curioso para entender o tormento do bicho. Juca começou a chorar na porta da sala. Ouviu barulhos abafados vindos da rua, faltava segundos para a meia-noite, o que o fez ficar em alerta. Abriu a porta principal, deixando Juca sair em disparada para o quintal, o mesmo começou a latir e arranhar a lataria do portão.

O músico deu um passo para fora, tendo seu dorso nu bombardeado por pelas gotículas minúsculas da chuva fininha cujo mais pareciam pequenas agulhadas contra sua pele quente. Ficou paralisado, pensando o que poderia ser, quando lhe ocorreu pegar uma faca na cozinha, foi surpreendido por uma voz.

— Leonidas? — Três toques sutis foram proferidos contra a lataria do portão.

A voz doce e suave, que estava gravada dentro do seu ser. Era a canção que tanto desejou ouvir. Sua melodia salvadora, “Clair de Lune”. Não podia ser… Deus o havia ouvido rápido demais. Algo tão bom assim não era digno de lhe acontecer.

— Leonidas, sou eu, Kalli. — A voz alertou, como se ele já não soubesse.

Porra, sentia a eletricidade no ar, a presença dela mudava tudo ao seu redor.

Imediatamente correu ao portão, se embaralhando com as chaves para, por fim, conseguir destrancar e escancará-lo.

Juca o atropelou em disparada, pulando sobre as pernas da moça, choramingando enquanto matava a saudade da mesma. A mulher ria enquanto recebia os “lambeijos” e todo aquele amor.

— Que saudade, garotão.

Leonidas apenas assistia à cena, petrificado. Seu corpo inteiro travou, cada músculo enrijeceu, virou concreto. Ele duvidaria até mesmo da sua capacidade de respirar. Seu coração, pobre coitado, desistiu de bombear seu sangue.

Ela estava ali.

Ela voltou para seus braços.

Fazendo um favor ao casal, Olavo chamou Juca, que abandonou a dentista para correr ao seu encontro, o que fez Kalliope parar para encarar os olhos verdes que tanto amava, vendo-o após uma semana distanciados.

— Oi. — Sorriu sem graça, sem saber por onde começar, o que poderia dizer… havia ensaiado um discurso em sua mente o caminho todo para agora lhe escapar as palavras.

A culpa planejava torturá-la, impiedosa como sempre.

— Você está se molhando, vai ficar resfriada… — Foi o que Leonidas soltou, sem nem mesmo compreender o porquê.

Kalli ergueu as sobrancelhas em confusão, diante da frase inesperada e sem sentido.

— Eu estou em casa, Leoni. Voltei para você. Por favor, me des-

Leonidas não conseguiu mais se conter, correu até a moça em apenas três longas passadas e agarrou-a em seus braços, erguendo seus pés do chão, apertando-a com força o suficiente para fundir seus ossos.

Sim, Leonidas, isso é real.

Ela é real.

Você não está sonhando.

Afastaram suas faces para se encararem e colarem finalmente os lábios num beijo cheio de saudade.

Tudo era familiar, acolhedor e calmante. O gosto do beijo dela. Os lábios macios. A língua quente. Os formato dos ossos dela. O jeito que aquele coração saltitava numa batida diferente, só para ele.

Nada no mundo importava mais, estavam juntos e isso não era um sonho alucinógeno. O cheiro da pele dela, o calor, a respiração. Seus lábios macios se movendo contra os seus, as línguas viscosas deslizando uma contra a outra e lhe arrepiando cada pedacinho do seu corpo e alma. Era mesmo Kalliope. Finalmente podia cumprir todas as suas promessas, incluindo não a soltar nunca mais.

Aos sorrisos e selares, deixou-a descer ao chão novamente, ouvindo um raspar de garganta provindo de seu sogro que os observavam.

— Boa noite, Leonidas.

O rapaz riu.

— Ótima noite, senhor Belline.

— Temos um pequeno trabalho pela frente e depois deixo os pombinhos a sós. — Comentou, encostado ao carro e apontando as caixas transbordando pelo seu carro.

— Mãos à obra! — Declarou o rapaz, dando um último selar nos lábios da moça e se dispondo a carregar a mudança em plena meia-noite, sem camisa, sem chinelos e trajando apenas uma calça moletom enquanto o céu garoava.

E cacete, como ele o fez de bom grado, enquanto sentia o perfume da sua mulher o envolver no mais caloroso abraço de saudades. Os sorrisos bobos e ansiosos pelo imenso passo que agora, davam juntos.

É real, chamem todos, pois finalmente está acontecendo: Kalliope Antonelli, antes sua inimiga, agora é a sua garota.

Seu coração encontrou a calmaria.

Não havia nenhuma escuridão ao seu redor.

 

 

Carregaram rapidamente as caixas, transformando a pequena sala de TV num imenso cemitério de papelão. Chegava a 1h da manhã quando Kalli despediu-se do pai no portão de sua nova casa, segurando um guarda-chuva diante do vendaval que caia em Vera Marine e agradecendo por tudo o que ele havia feito por si.

Ela o viu dar partida no carro e rumar em direção a sua casa, entrou para dentro, fechando o portão e trancado a sala. Juca cochilava tranquilamente em sua cama envolta por caixas, Kalli passou por elas sendo guiada pelo barulho vindo do quarto que compartilharia com Leonidas, como um casal. Ele havia acabado de xingar um palavrão após ocorrer uma pequena falha em seu processo de tentar montar uma cama sem as ferramentas adequadas.

— Leoni… — Kalli se aproximou rindo da expressão brava do rapaz. — Deixa isso para lá, não importo de dormir no chão.

— Não vou deixar a minha mulher dormindo nessas condições.

— Mas eu quero. Tudo isso faz parte do processo. Me deixa viver a imersão, por favor. — Abaixou-se diante do rapaz, segurando suas mãos e o impedindo de continuar.

Era uma cama de solteiro, afinal, não dormiriam confortavelmente. Precisariam ir até a cidade amanhã mesmo para comprar uma cama bem grande para dormirem juntinhos. Seria a primeira coisa que adquiririam juntos, dando início a vida a dois.

— Desculpa por isso, prometo que logo vamos ter uma cama confortável, fogão, geladeira… tudo. Vou te dar de tudo, Kalliope. — O rapaz suspirou baixo, realmente afetado por isso.

— Por favor, para com isso. — Levantou o queixo do rapaz, fazendo seus olhos mirarem os seus. — Tudo que preciso agora é de você.

— Não dá para viver de amor, Kalli. — Contrapôs, frustrado.

— E é por isso que vamos juntar nossas economias e ir às compras amanhã, meu bem. — Sorriu, mostrando o quanto podia soar simples, embora soubessem que a realidade era um pouco mais dura até isso.

O rapaz torceu o nariz, mas aos poucos foi relaxando a expressão chateada.

— Porra, você ainda tá triste com todo esse lance de merda com sua mãe, não é? — O rapaz passou as mãos no rosto, visivelmente afetado. — Puta que pariu, não dou uma dentro.

— Shhh. — Kalli sibilou, se sentou sobre as coxas dele, mantendo seus olhos conectados, acariciando a barba do rapaz que cresceu um pouco e precisava ser aparada. — Dá para parar com esses pensamentos? Saia do lado escuro da sua mente, agora. Não vou deixar você mais nenhum segundo neste lugar sombrio.

O rapaz ficou surpreso com as palavras que ornavam perfeitamente com a canção triste que escreveu sob Kalliope diante da ideia que ela o deixaria. Sorriu fraco, selando seus lábios contra os dela, arrastando-os ainda abraçados para o colchão no cantinho do quarto vazio, o qual tem dormido por todo esse tempo, à espera de sua Eurídice.

— Eu pensei que… — Leonidas se calou, engolindo seco. — Eu pensei que fosse o fim. Que finalmente iria perceber que nós somos um erro e iria me deixar.

— Leonidas… — Kalli soltou num muxoxo. Segurou o rosto alheio em suas mãos, encarando as írises coloridas e tristes do rapaz. Ela estava diante da nítida dor que o causou. — Nós não somos um erro, por favor, não fala assim. Sei que minhas últimas atitudes contradizem isso, mas acredite quando digo que não vou te deixar. E sinto muito. Aprendi a lição e nunca mais vou te afastar.

É como dizem: “na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença…”, nunca havia parado para notar o verdadeiro significado por trás daquelas palavras que tantos casais pensam ser apenas um script diante de um altar, quando, na verdade, estão prometendo algo muito valioso um ao outro. Kalli e Leonidas não precisavam de um casamento para compreenderem que a vida a dois já vinha com tais tratados mínimos pré-estabelecidos.

— É tudo que eu te peço, Kalli. — Agarrou-se a garota. — Enquanto me amar, por favor, não me deixe. Lute por nós, assim como farei. Mas se um dia você já não se sentir assim, então, por favor, não se obrigue… Você pode me prometer?

Olhando para o rapaz, Kalli pensou como ela poderia um dia deixar de amá-lo quando seu coração batia tão forte por ele. Tudo que sentia era tão imenso, tão grande que assustava. Estava cravado em sua alma como runas em pedras antigas.

— Eu prometo. — Garantiu, mesmo achando as razões impossíveis. — Mas você sabe que deixar de te amar é tipo impossível. Só tem um caminho para você em meu coração, Leonidas, que é me apaixonar ainda mais por você.

— Vou me certificar que isso aconteça todos os dias, fada do dente. — Garantiu para a moça.

Ela sorriu emocionada e o aninhou em seus braços, sentindo o quão vulnerável ele estava agora.

— Você quebrou o violão. — Ela engoliu em seco, notando o instrumento em questão caído no chão do quarto.

— Não era para você ver isso… — O rapaz torceu o nariz.

— O combinado não é a gente deixar o outro entrar mesmo diante da tempestade? — Cobrou o que a pouco decretaram, Leonidas assentiu, derrotado.

Isso fez Leonidas torcer o nariz diante da lembrança do que estava fazendo pouco antes dela chegar.

— Acho que escrevi o que pode ser uma música ou algo assim. É triste demais, não quero te mostrar agora. — Revelou e a tonalidade da sua voz entregava o quanto estava incomodado com a possibilidade de manter esse tipo de assunto.

Kalli ficou espantada e curiosa, mas tinha que concordar que talvez precisassem de um tempo para se recompor.

— Eu espero. Nada como o tempo. — Repetiu a frase de seu pai.

— Obrigado, fada do dente. Eu só quero pensar em nós, na sua presença. Só preciso ouvir o som do seu coração, aí saberei que tudo vai ficar bem. — Desabafou o rapaz, fazendo-a se perguntar se chegaram ao nível de ler a mente um do outro, pois era exatamente isso que ela estava pensando: os batimentos cardíacos dele, sua canção favorita.

— É exatamente disso que eu preciso. — Declarou verbalmente.

— Só quero que se sinta melhor.

— Eu estou começando a sentir isso agora.

Se deitaram sobre os lençóis bagunçados, Kalli o manteve contra seu peito, fazendo a cabeça do homem repousar entre seus seios. Ele começou imediatamente a fazer carinhos em sua pele, descendo e subindo a ponta dos dedos por sua coxa.

Ali estava o som delicioso do coração dela batendo só para si. Fazia uma eletricidade correr por suas veias, despertando-o depois de tempo demais preso debaixo da terra. E para Kalli a sensação de sentir o calor do rapaz e suas carícias era o antídoto que ela precisava para seguir em frente.

No fim das contas, eram dois corações magoados precisando de um pouco de amor para se sentirem melhor. E para ambas as sortes encontravam o conforto necessário um no outro. Iriam ficar bem.

Estavam finalmente recém-inteiros.

O tempo parou só para eles.

Por fim, era o começo.

Estava inteira em seus braços.

 

apesar de seus braços e pernas estarem submersos
o amor será o eco em seus ouvidos
quando tudo isso estiver perdido em pilhagens
meu amor ainda estará lá
requiem on water, imperial mammoth

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