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Me encontre quebrada em milhões de cacos
Segunda, 29 de julho de 2024
O coração da mocinha foi finalmente quebrado, nada novo sob o sol. A reviravolta desse livro é uma merda. Kalli riu mentalmente de sua tragédia ridícula. E no final, não foi o rapaz que magoou a moça. Ah, não, deixemos a sua maior fraqueza ser a mãe da garota.
Sua mãe é quem havia quebrado seu coração e Kalli não via uma luz, ela não sabia como lidar com toda aquela dor. Sua cabeça estava nublada, seus olhos inchados de tanto chorar, a voz rouca, o corpo inteiro doía. E ela tinha que cessar a crise de choro para retornar ao bloco cirúrgico.
Mas ela é durona e aguentava o tranco. Se esforçaria o suficiente para fingir que tudo isso era um mundo alternativo criado por sua mente doentia.
Sorria, Kalliope, mesmo quando deseja estar morta. Curvada contra o corrimão da escada e agarrando-se ao apoio como se drenasse energia de algo inanimado, ela aumentou o volume dos fones de ouvido.
“I Can Do It With a Broken Heart” de Taylor Swift, sua cantora favorita, foi a canção que começou a tocar. Fazendo-a gargalhar em meio ao choro pela coincidência. Tão “Down Bad”, ela quis chorar mais ainda com o pensamento.
I cry a lot, but I am so productive, it’s an art / Eu choro bastante, mas sou muito produtiva, é uma arte
You know you’re good when you can even do it with a broken heart / Você sabe que é boa quando consegue fazer isso com o coração partido
Recitou a letra da cantora como um mantra e respirou fundo diversas vezes, até ser obrigada a seguir em frente quando seu pager bip soou, alertando-a sobre a cirurgia de emergência. Foi correndo até o centro cirúrgico, um paciente foi trazido de outro estado após um acidente horrível. Ela tinha ossos faciais para reconstruir e deixou toda a sua raiva e tristeza esvair-se em seu talento nato.
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AINDA NO DIA QUE SUA MÃE QUEBROU SEU CORAÇÃO
Terça, 23 de julho de 2024
Passava da meia-noite. Desde que havia reencontrando-a naquela piscina, nunca havia enfrentado uma tempestade como essa.
Leonidas não podia soltá-la. Ele a abraçava com força, sentindo-a tremer em seus braços, chorando de um modo que nunca presenciou alguém chorar antes.
Quantas horas se passaram? Ele não sabia, não conseguia sequer voltar o rosto para o relógio na parede do ginásio. O zelador apareceu na porta do local, ouvindo o choro da mulher, mas Leonidas acenou com a cabeça e o senhor entendeu perfeitamente, deixando-os a sós.
Kalliope chorou até adormecer em seus braços, ainda trajando roupas de banho e cobrindo ambos os corpos com apenas uma toalha úmida. As palavras destinadas a ela, cortavam até mesmo ele. Temeu por Kalli. Como sobreviveriam a isso?
Cerca de 4 horas da manhã sentiu a moça despertar.
— Você pode me levar para a casa do meu pai? — Ela pediu com a voz falha.
— Sim, é claro.
Prontamente se levantou, chamou um táxi e colocou-a no carro rumo a casa do dentista. Fez tudo remotamente, ajudando-a e tocando-a com tamanho cuidado, como se ela tivesse ossos de vidro.
Durante o percurso, ligou para o sogro, fazendo-o acordar assustado. Chegaram ao apartamento do homem com Kalliope seminua, ainda úmida, cheirando a cloro e claramente destruída.
— O que aconteceu? — Questionou Olavo abrindo a porta e dando passagem.
Nenhum dos dois teve coragem de responder e só pela expressão em seus rostos, o cirurgião-dentista pôde concluir do que se tratava.
— Kalli? — Leonidas chamou-a com cuidado.
— Desculpa, só preciso ficar sozinha.
— Por favor, não faça isso…
— Leonidas. — Ela disse, dura, fria, impenetrável.
O gelo atingiu seu coração, a situação possuía tamanha intensidade que não restava nada a ele. Precisava deixá-la. Sozinha. Coisa que havia prometido nunca fazer, mas que agora ela o pedia.
— Não se preocupe, cuidarei bem dela. — Garantiu Olavo.
— Obrigado. Por favor, me ligue se for necessário. — Pediu ao pai da garota, que mantinha a porta aberta para sua saída.
Leonidas deu uma última olhada na namorada que sequer conseguia levar seu olhar ao encontro do dele. Sua aparência era mórbida, abraçada à toalha, tremendo, com o rosto inchado e sombrio.
Sua mulher estava morta e ele não podia fazer nada sobre isso.
Leonidas odiou o amor naquele momento com todas as suas forças.
Se deu conta que possivelmente estava em um de seus pesadelos. Foi como se seus dedos escorregassem por entre os dela. Ele só pode assistir enquanto ela despencava em direção ao abismo.
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Podemos melhorar as coisas?
Porque estou perdendo a esperança
Ainda ouço sua voz
Então me diga como viver neste mundo
Diga-me como respirar e não sentir dor
Diga-me, porque eu acredito em algo
Diga-me, quando a luz apagar
Que, mesmo no escuro, podemos encontrar uma saída
Diga-me agora, porque eu acredito em algo
Eu acredito em nós
us, james bay
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DIAS ATUAIS
No fim do dia, retornou para a casa do pai, onde passou a última semana desde a briga com a mãe. Estava evitando as mensagens do noivo, evitando o mundo, até mesmo a sua família. Tudo que fazia era chegar na casa do pai, trancar-se no minúsculo quartinho de empregada que lhe foi cedido e chorar até dormir. Evitava até mesmo comer, não sabia se sentia mais raiva da mãe ou de si mesma por se permitir ser quebrada com tanta facilidade.
Seu irmão fazia de tudo para alegrá-la, trazendo livros, videogame, filmes… Kalli não conseguia expulsá-lo do quarto. Sentia que o garoto precisava de companhia e não queria magoá-lo. Mas hoje, Luiz não veio. Provavelmente cansado de ficar imerso em sua bolha de sofrimento. Afinal, passar tanto tempo próximo à energia melancólica, começa a te fazer se sentir triste.
Para piorar, não conseguia dormir e o prédio do seu pai não tinha uma piscina. Ficou se revirando na cama, pensando em todas as mensagens de Leonidas não respondidas. Ele não merecia isso, mas Kalli não podia evitar. Ela não conseguia pensar em absolutamente nada.
Eram 3h41min da manhã quando ouviu baterem à porta. Fechou os olhos rapidamente, fingindo dormir quando a mesma foi aberta. Seu pai entrou com cuidado, tocando o ombro da moça e dizendo:
— Eu sei muito bem quando está fingindo estar dormindo. — Contou, fazendo-a respirar fundo e abrir os olhos, derrotada.
Kalli sentou-se na cama, abraçada aos joelhos dobrados contra os seios.
— Você também tem insônia?
— Só quando minha filha está precisando de mim. — Confessou o homem, num tom de voz triste.
— Desculpa.
— Pelo quê? Pare de se desculpar por nada.
— Eu sou um fardo.
— Acho que você já passou dessa fase, mocinha. 24 anos, não?
— É, tem razão. — Revirou os olhos, Kalli se sentia mais como uma adolescente enfrentando seu primeiro coração partido.
— E por ter exatamente essa idade, não posso permitir que continue caindo em direção ao fundo do poço, Kalliope. Está tomando um caminho muito perigoso. Seu noivo esteve aqui hoje e teve medo de forçar uma visita, ele foi embora, sem saber o que fazer. Apenas respeitando o seu pedido implícito por “espaço”. — Seu pai gesticulou aspas com os dedos. — Leonidas é o homem que você escolheu para amar e ele precisa fazer parte da sua dor, ele precisa enfrentar a tempestade contigo, então não o afaste, o permita. Quando retornar a si, pode descobrir que isso foi fatal.
Kalli ouviu o conselho do pai e sentiu o coração ainda mais apertado, definitivamente isso não estava em seus planos. Saber que estava fazendo Leonidas sofrer tanto, parecia matá-la lentamente. Engraçado, tudo o que ela mais precisava era dele e do seu abraço reparador.
— Eu não sei se tenho forças.
— Vá sem forças mesmo. Se arraste, mas não ceda a tristeza. Nós somos os únicos responsáveis pela nossa própria ruína. Leonidas pode até tentar te tirar desse abismo, mas se você não quiser sair, os esforços dele serão em vão. Estaria matando vocês dois, pouco a pouco. — Seu pai dizia tais coisas com muita propriedade. Talvez ele soubesse exatamente do que estava falando. — Já teve seu tempo, nós adultos não podemos nos dar ao luxo de tanto, porque a vida continua. Você não é uma mulher fraca, Kalliope. Levanta a bunda da droga dessa cama e vá viver a sua vida. Faça isso com o coração quebrado mesmo, nada como o tempo. — Seu pai tocou as suas cicatrizes, fazendo-a lembrar de tudo que enfrentou e como as palavras dele eram baseadas em comprovações.
Kalli ficou paralisada com lágrimas penduradas em suas pálpebras. Não ousou dizer uma palavra, não havia argumentos contra a razão. Encarou os olhos castanhos do pai, eram exatamente da cor dos seus. Ela não estava sozinha, ele estava ali, Leonidas, Luiz, Drika e Luiza, mesmo que do outro lado do mundo. E Kalli tinha que trabalhar e estudar para um cacete para conquistar os sonhos que planejou para si. Ela não podia se render a opulência de parar e se entregar à tristeza. Então ela faria isso, quebrada ou inteira.
— Amanhã vamos à casa da sua mãe pegar as suas coisas.
Apenas concordou maneando a cabeça.
— Eu te amo, Kalliope. Mas hoje é a última noite que vou permitir que chore sozinha nesse quarto. Estou te levantando, portanto, comece a caminhar nem que seja um passo por vez.
A tonalidade da voz do seu pai era séria e forte o tempo todo, a rispidez era para o seu bem, tapas de realidade em sua face. Assim que o homem a deixou no quarto, se permitiu chorar uma última vez e absorveu cada uma daquelas palavras.
Soluçou até dormir, mas sabendo que não falharia na manhã seguinte.
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Terça, 30 de julho de 2024
Kalli etiquetava a última caixa quando ouviu os pais começarem a discutir na cozinha. As vozes alteradas ativaram instantaneamente as lembranças sombrias em sua mente, como quando presenciava as discussões deles antes da separação.
Sozinha em seu quarto já vazio, ela tapou os ouvidos como fazia naquela época. Seu corpo inteiro tremia e precisou de muito esforço para se acalmar. Num desespero absoluto, pegou o celular e rapidamente entrou no canal de Leonidas, colocando para tocar uma música qualquer, apenas para ver o sorriso e os olhos verdes que eram como um bálsamo para si.
Se pegou trancada em seu closet, ouvindo e sorrindo. Como quando no seu aniversário de 14 anos, quando ele espalhou fragmentos de seu diário na sua festa e depois cantou aquela canção para si.
— O que está fazendo aí? — Seu pai abriu a porta do cubículo, deixando a luz entrar.
— Me despedindo de tudo… — Revelou, enxugando as poucas lágrimas que permitiu derramar. Aceitou a mão do seu pai e levantou-se. — Podemos ir.
— Ótimo. Vamos dar o fora daqui. — Disse Olavo, tão ansioso quanto a filha, para deixar aquele apartamento cheio de lembranças que o magoavam.
Pegaram as últimas caixas e rumaram para fora do quarto, Kalli deparou-se com sua mãe na sala de braços cruzados e expressão inconformada.
— Sério, Kalliope? Precisa de tanto? — Mais uma vez ela diminua os seus sentimentos, fazendo pouco caso e acusando-a de dramática. — Você vai se arrepender. Está trocando sua mãe por um homem que vai te levar a completa ruína. Não dou nem um mês e você vai se arrastar de volta para essa casa, chorando. E eu serei a única coisa que você terá.
Kalli sequer lhe dirigiu o olhar, ela ouviu as pragas rogadas a si, apenas para ter certeza que todo o mal desejado pela sua própria mãe cairia por terra. Passou reto até a saída sem olhar para trás.
— Boa noite, Laura. — Desejou seu pai, saindo logo atrás.
A cirurgiã-dentista não gastou saliva o respondendo.
As portas do elevador se fecharam, trancando pai e filha ao redor de caixas e malas. Um déjà-vu lhes ocorrerá. Quando Olavo deixou Laura de uma vez por todas, mesmo muito nova, Kalli ajudou o pai com a mudança. Não era a primeira vez que deixavam aquele apartamento daquele modo.
Kalliope se encarou no típico espelho. Estava com o cabelo desgrenhado, preso num pequeno rabo de cavalo, seu rosto sem maquiagem, as inseparáveis olheiras abaixo de seus olhos. Passou o dia todo em cirurgia para só agora vir fazer sua mudança caótica. Ela estava tão cansada… tudo que queria era estar no aconchego dos braços do homem quais seus batimentos cardíacos eram destinados.
E ela não era a única atormentada por fantasmas, ao seu lado, viu o reflexo do rosto de seu pai. Ele estava triste, claramente afetado pela situação. E sua filha já podia imaginar o porquê.
Impulsivamente, Kalliope levou a mão ao painel de botões e pressionou o vermelho que indicava parada de emergência, fazendo a máquina estagnar antes de tocar o térreo.
— Pai? — Chamou, anestesiada.
— Tá tudo bem, querida?
— Eu nunca questionei…, mas, se não for doloroso demais, pode me contar o que aconteceu? — Olhou para o homem que a encarou de volta com o semblante confuso. — Você e a mamãe. A separação. Eu nunca soube. Nunca entendi. Eu não tenho direito, não diz respeito a mim, mas…
— Eu quero te contar. Muito mesmo, filha. — Respondeu sinceramente.
Olavo sempre quis ter essa conversa. Não era sobre ser ou não a respeito dela. Mas era incluí-la em algo que afetou completamente a sua infância. Era compartilhar sua dor como grandes amigos que foram destinados a serem desde o instante que descobriu sua existência no útero da mulher que um dia amou.
Sentaram-se ali no chão da caixa metálica, encostados a extremidades diferentes para que assim pudessem observar um ao outro.
— Não tem muito mistério. Laura e eu nos conhecemos em meio a rivalidade de nossas famílias que eram dentistas concorrentes em Vera Marine. Foi como Montagues e Capulets e consequentemente Romeu e Julieta com um final trágico diferente. Nos apaixonamos por causa do risco, aquela adrenalina de ir contra tudo e todos.
“No fim das contas, nossa união foi também a união das empresas, fortalecendo ambas. Irônico, não?
Bem, honestamente, não sei onde errei. Para mim ela me amava de verdade. Mas no instante em que nos vimos casados, Laura começou a ficar estranha.
No início, ela disfarçou muito bem, alguns anos e ficamos grávidos. Acaba que filhos, querendo ou não, ajudam a mascarar as coisas. Mas conforme você foi crescendo, a infelicidade de Laura foi tomando espaço. Era simplesmente amargo.
Ela não queria ser tocada. A maioria dos dias não suportava sequer olhar para mim. Foi quando percebi que Laura disse sim para uma prisão. Mesmo que eu desse a minha vida, ela jamais seria feliz comigo.”
Kalli franziu o cenho, tentando entender o motivo. O que aconteceu? O que Olavo não percebeu antes do casamento? Nada fazia sentido…
— Sua mãe não casou comigo por amor, ela o fez só por fazer, porque a sociedade disse para ela que mulheres deveriam se casar com um homem. Quando, na verdade, ela gostava de mulheres…
Kalli segurou a respiração com todas as forças. O rosto do seu pai estava petrificado de dor.
— E ela não sabia disso até ter que ir para cama comigo. O nosso noivado foi muito rápido, a gente estava “apaixonado”, hoje sei que era mentira, mas de qualquer forma, estávamos certos de que queríamos nos casar. E naquela época éramos pressionados a evitar sexo antes do casamento. Laura não era virgem, tampouco eu…, mas o relacionamento que tínhamos nos obrigou a manter essas “imposições” medíocres.
“A questão é que ela não gostava de sexo com homens e se viu casada com um. Não tinha outra opção senão muito sofrimento. Ela precisou de muitos anos e muitas brigas para entender isso.
Não sei ao certo, mas essas discussões eram tão vãs, não tinha sentido. Como se soubéssemos que havia algo errado e ficávamos de rodeio tentando encontrar a rachadura certa para cutucar.
Até que um dia, chegou em casa e me chamou para conversar. Você tinha 6 anos, ou algo assim. E Laura revelou que me traiu com uma mulher.”
Olavo limpou o que pareciam lágrimas planeando cair de seus olhos.
— Eu não a culpo pela traição, ela estava se descobrindo e fui apenas o bote expiatório para guiá-la ao seu verdadeiro eu.
“Estava tão quebrado, destruído e amargurado. Tão cansado que apenas disse: tudo bem, vou juntar minhas coisas e procurar um advogado para concretizar-nos o divórcio.
Laura ficou desacreditada, mas apenas concordou.
O fim foi simples e fácil.
Sem brigas.
Meu casamento nunca existiu e o divórcio havia sido decretado no instante que ela disse sim naquele maldito altar.
Acho que não a odiei por ser lésbica e sim por me roubar toda a minha juventude, por me fazer a amar tanto sozinho. Eu amava a nossa casa, amava o casamento, amava a Laura e tive que deixar tudo isso para trás.
Você foi a única coisa que restou daquele amor que senti sozinho por tantos anos.
Embora em pedaços, eu me ergui, conhecer Drika ajudou muito. Ela também estava passando por uma separação muito dolorosa. A gente meio que foi ajudando um ao outro a se erguer. Fomos nos curando até estarmos inteiros para vivermos o que mais queríamos: um casamento saudável onde somos amados e respeitados.”
— Foi isso, filha. Eu sei que quando contamos uma história só dizemos o nosso lado. É inevitável. Mas após anos, consigo ver e entender perfeitamente o quanto Laura estava infeliz, ela sofreu muito, muito mesmo. Não consigo imaginar o inferno que ela viveu presa num relacionamento comigo sendo uma mulher lésbica. O fim era necessário. — Concluiu Olavo.
Kalli segurou as lágrimas com força, seu rosto inteiro ficou bordô, enquanto seu coração era estraçalhado ainda mais, se é que isso era possível. Nunca soube da traição, sequer imaginou a possibilidade de um dos dois terem cometido adultério.
Ela sentiu raiva de Laura. E instantaneamente pena.
Seu pai estava certo, ela viveu um inferno. E causou um inferno a ele também. Mas não era seu dever sentir nada sobre isso, afinal isso cabia apenas a eles. Essa é a verdade que ela quis ouvir e agora tinha que seguir em frente, quer gostasse ou não. Laura continuava sendo sua mãe e diante de si, havia seu pai quebrado pelas lembranças dolorosas que viveu.
— Eu sinto muito…
— Não sinta, Laura e eu somos muito felizes agora. Há males que vem para o bem, Kalli. No início é difícil ver desse modo, por estarmos sofrendo tanto. Mas depois, somos capazes de perceber que houve mais benefícios do que malefícios naquela situação dolorosa que quase nos matou. Pensamos que não vamos sobreviver até que sobrevivemos. É isso que importa.
Kalli se arrastou até ele e foi recebida nos braços do mesmo, pai e filha deixaram o amor paterno os curar. Poderia ter sido doloroso delatar sua história, mas certamente trouxe alívio ao peito do homem. E o melhor de tudo é ter a compreensão de sua filha.
— Nós precisamos ir ou vamos causar problemas ao Juventino. — Lembrou-a, quebrando o silêncio reparador.
— Tem razão. — Kalli concordou, deu um beijo na bochecha do pai e se levantaram. A moça pressionou o botão que fez o elevador voltar a descer.
Chegaram no térreo e encontraram o zelador em questão já desesperado pelo possível problema. Carregaram os pertences de Kalliope para o carro do pai que ficou transbordando de caixas. Deram um jeitinho para caber tudo.
Kalli foi buscar uma última bolsa, encarou o elevador mais uma vez, o estacionamento… O ginásio….
A descida foi lenta, esclarecedora e dolorosa, a garota sentia como se estivesse perdendo parte crucial do seu ser. Viveu por tantos anos naquele condomínio, suas melhores e piores memórias estavam ali. Mas o que mais doía era deixar aquela piscina que lhe deu e tirou tudo na mesma proporção.
— Me espera no carro? — Pediu ao pai que apenas assentiu em concordância.
A moça correu até o prédio azul do condomínio, parou diante da porta de vidro, mirando a água celeste ondulante. Estava sem coragem, mas foi mesmo assim. Empurrou a porta pesada e entrou para dentro do recinto penumbra, o mormaço provindo da água quente envolveu sua pele.
Caminhou em passos cautelosos de encontro à piscina. As luzes reluziam em tons de ciano que tanto adorava. Por tanto tempo a natação foi refúgio, a água foi sua pílula de calmaria…, mas agora, precisava seguir seu caminho. Hoje ela deixaria para trás aquela menina perfeita e amedrontada. Renasceria como uma nova mulher.
Não mais a água, esse é um adeus a piscinas.
Voltou o olhar ao relógio digital de dígitos vermelhos.
23 horas e 15 minutos.
45 minutos para a meia-noite.
Dois mil e setecentos segundos.
Um novo dia começaria. Tudo de novo. Uma nova chance de ser feliz.
Não mais presa no ontem, era um girassol acompanhando o sol e o caminho apontado era claro. Não mais o fundo do poço. Adeus a infelicidade e ingratidão. Só havia uma alternativa…
Seguir em frente.
Kalli parou a cinco passos de encontrar a beirada, justamente diante do lado mais fundo. Tomou fôlego e fechou os olhos. As decisões gritavam em sua mente, como uma bússola tatuada no braço. Nadou até a superfície, emergiu, encontrou ar… descobriu que podia respirar.
Imperfeita.
A palavra a libertava como um pássaro.
Abriu os olhos e enxergou pela milésima vez o seu futuro.
Kalliope Antonelli está quebrada em mil pedaços, mas nunca se sentiu tão viva quanto agora. Se a queriam morta, por que não disseram antes? Nada a fazia sentir-se mais viva.
E a solução era clara como água, límpido, simples, fácil…
Um universo novo a aguardava, sem perfeições, cobranças ou solidão.
Sem dor.
Com esse pensamento, Kalli deu as costas para a piscina e correu porta afora, dando de cara com uma garoa repentina que caia sobre Vera Marine.
Sorrindo, cruzou o estacionamento, deu um abraço no porteiro e no zelador que haviam ajudando-a com a mudança, se despedindo até mesmo deles. Dando passos de costas para mirar os edifícios enquanto atravessava o portão, mandou um beijo para o conjunto sofisticado de prédios do Solar Palace. Entrou no carro do pai e disse:
— Para casa, pai.
Para os braços do homem que amava.
Uma casinha pequena e aconchegante com um cachorro correndo no gramado do quintal. Olhos verdes, músico, talentoso e um pecado fervente de tão gostoso. Era como uma tatuagem dourada cravada em seu coração.
A bússola apontava para o leste de Vera Marine.
Para o seu destino.
Leonidas Vitorino.
Nesse livro, Orfeu não olha para trás.
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amando você como eu nunca amei antes
e precisando que você apenas abra a porta
eu nunca pensei que estaria dizendo estas palavras
outro dia sozinho é mais do que posso suportar
você não vai me salvar?
salvação é o que eu preciso
eu apenas quero estar ao seu lado
eu não quero ficar
apenas vagando sem rumo neste mar da vida
você não vai
ouvir, por favor
querida, não saia pela porta
save me, hanson
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