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Me encontre reescrevendo nossas memórias
Quinta, 9 de maio de 2024
“Traga um casaco”, foi assim que Leonidas fez Kalli sorrir após sair de uma cirurgia de 12 horas e estar mais que cansada, exausta. Reuniu suas últimas forças, deixou o hospital e foi direto para casa. Tomou um banho rápido e colocou um despertador no celular. Conseguiu tirar uma soneca de duas horas antes de finalmente se arrumar para se encontrar com o rapaz.
Optou por um simples vestido modelo midi na cor preta, que possuía uma fenda em sua perna esquerda, exibindo suas cicatrizes como uma bela tatuagem merece. Escolheu um salto simples e fino, uma bolsa tiracolo combinando com o vestido, joias singelas para apenas dar um toque especial. Fez uma maquiagem suave, passou o típico batom vermelho que já deveria ter se tornado parte de seus lábios há muito tempo. Ajeitou os fios levemente ondulados em um coque despojado e, é claro, não se esqueceu de pegar um sobretudo para cobrir-se do frio, como solicitado pelo anfitrião do rolê.
Deu uma última olhada no espelho enquanto borrifava um perfume; Kalliope não se sentia desagradavelmente perfeita essa noite. Sentia-se, na verdade, uma verdadeira dama da noite, envolta em simplicidade e uma singularidade única. Se sentia mulher, e isso era o suficiente. Trabalhou e estudou hoje, estava cansada, é verdade, mas tirar um tempo para diversão não a deixava angustiada como antes, sentindo que estava sabotando seu futuro ao não aproveitar o tempo estudando. Não, não dessa vez. Hoje permitiria ser feliz, sem cobranças, deixaria a perfeição em sua escrivaninha em meio aos gigantes livros esquecidos.
Despediu-se de sua mãe, dando-lhe um beijo, Laura estava no sofá assistindo a um dorama sul-coreano.
— Você está linda, querida. Divirta-se. — Disse a dentista, com um olhar esperançoso em ver Kalliope finalmente agindo como uma jovem cheia de vida.
Saiu de casa às 19h15min da noite e foi deixada na entrada do teatro poucos minutos depois, pelo motorista de sua mãe. Caminhou distraidamente até o saguão do prédio, onde os telespectadores se entrosavam aguardando a liberação das portas do salão principal.
Kalliope parou diante do cartaz cujo exibia o tema da orquestra de hoje, “As Quatro Estações de Vivaldi”, ficou animada diante da possibilidade de ouvir um dos clássicos mais aclamados. Certamente seria um evento, já que as músicas românticas e dramáticas do compositor eram conhecidas por serem espetaculares. Fazia todo sentido que Leonidas tivesse a convidado, sendo um amante de música como é.
O espetáculo refere-se a uma série de quatro concertos para violino e orquestra, compostos por Antonio Vivaldi no século XVIII. Cada concerto representa uma estação do ano: primavera, verão, outono e inverno. Sendo conhecidos por sua expressividade musical e pela maneira como Vivaldi retrata os diferentes aspectos atmosféricos e emocionais de cada estação. Por exemplo: no concerto da primavera, ouvem-se passagens musicais que evocam o florescimento da natureza, enquanto no concerto de inverno, há uma sensação de frio e desolação. É simplesmente fascinante.
A excitação estava no ar, as pessoas bem vestidas, ansiosas pelo evento. Kalli começou a se sentir em outra época, considerando o fato do local parecer mais um castelo. A arquitetura foi fielmente mantida intacta e as manutenções necessárias no decorrer dos anos, não afetaram sua essência.
“Cheguei”, parou de frente a área gourmet e enviou a mensagem para Leonidas, sem acreditar que haviam trocado os números de telefone. É, pelo visto essa amizade é para valer mesmo. Não tinha como voltar atrás e, honestamente, não queria.
— Você que é a Kalli? — Um rapaz cabeludo e barbudo se aproximou com cuidado perguntando. Apesar da surpresa, a dentista identificou o uniforme formal dos funcionários do evento. Kalli riu mentalmente ao associar sua aparência desleixada ao personagem do filme Náufrago.
— Sim, sou eu.
— Tudo bem? Me chamo Abel, o Leonidas me mandou. — Trocaram um aperto de mãos, Kalli constatou o fato no crachá dourado preso como um broche no paletó do rapaz. Abel Rionegro. — Ele me pediu para te buscar.
— Prazer, Kalliope. — Sorriu gentil. — Ué, mas para onde?
— Não posso dizer. — Abel deu de ombros.
— Ora, mas não deveríamos ir para o salão central? — Questionou, estranhando a situação.
— Não sei, ele só me disse para te levar até ele. — Abel realmente parecia não saber o que Leonidas estava aprontando, e, se sabia, não queria revelar a Kalliope.
— Então tá. — Concordou por fim, tinha uma quantidade exorbitante de pessoas ali, não é como se ele fosse sequestrá-la. — Espero não causar problemas.
— Ah, se tem uma coisa que o Leonidas sabe é causar problemas. Mas não se preocupe. — Disse o rapaz, guiando-a na direção da portinha com o aviso nítido: “entrada permitida apenas aos funcionários”. Kalliope se sentiu uma fora da lei ao atravessá-la, mas até que gostava da audácia.
Avançaram por um corredor extenso, algumas portas estavam fechadas e outras abertas, com funcionários transitando de um lado para o outro. Era toda a equipe técnica e os camarins dos músicos. Kalli foi guiada até um elevador, uma moça discutindo com os fones saiu de dentro dele às pressas, sem sequer notá-los. Embarcaram na caixa metálica e viu Abel apertar o botão do último andar, Kalli não quis mais aborrecê-lo. Era claramente uma surpresa e não queria estragar tudo. Aproveitou a deixa para conferir sua aparência no espelho, não havia nada fora do lugar, estava linda.
Se deu conta que, desde que reencontrou Leonidas, passou a se sentir menos angustiada. Toda a perfeição que lhe sufocava, parecia ter se dissipado um pouquinho. Ela sequer percebeu… parecia tão natural apenas se sentir mais feliz com a presença do rapaz. Isso a assustou, mas o pensamento foi interrompido pelas portas que se abriram e para o terraço do prédio.
Luzinhas solares rodeavam a varandinha charmosa, acesas após passarem o dia todo absorvendo a luz do sol. Um jardim simples sofisticado enfeitava o ambiente, algumas rosas-vermelhas lhe chamavam a atenção. Havia um belo vitral voltado para o centro do palco, balaústres limitavam uma charmosa sacada que dava vista particular para o espetáculo. Certamente estava em uma área premium, reservada para encontros mais íntimos e especiais.
Não, isso não era um encontro. Leonidas não era doido. E nem ela, por lhe ocorrer esse pensamento. Falando no dito cujo, estava à sua espera, trajando um dos paletós dos funcionários. E como ele ficava lindo com roupa formal, parecia os CEOs das fanfics mais aclamadas.
Kalli tentou esconder seu sorrisinho de admiração e tirou a sorte pela intervenção de Abel.
— Está entregue, você fica me devendo uma. — Abel sorriu diabólico segurando as portas do elevador abertas. — Espero não encontrar seu corpo no quartinho da limpeza, Kalli.
A mencionada arregalou os olhos em um falso espanto.
— Cai fora daqui, Abel! — Ralhou Leonidas empurrando o rapaz para dentro da caixa metálica.
— Eu tenho um daqueles chaveiros de autodefesa, não se preocupe, Abel. E muito obrigada. — Gritou para o rapaz e mal pode ouvi-lo em resposta, as portas se fecharam.
— Quem estava me devendo favor era ele. — Ralhou seu vizinho, reclamando — Você veio mesmo! — Comentou o rapaz, virando-se para ela, todo animado.
— Fiquei muito empolgada ao ver que irão tocar Vivaldi.
— Ele é maravilhoso, não é? É um dos meus concertos favoritos. — Confessou Leonidas, encarando a moça dos pés à cabeça. — Nossa! Tá linda.
— Ah… obrigada. — Kalli sentiu o rosto inteiro queimar. — Você fica bem de terno.
— Eu sei! — Ele brincou, risonho. — Mas é sério, você se tornou uma mulher incrivelmente bela. O homem que tiver o privilégio de ser seu, vai ser um puta sortudo.
— Entendi, Leonidas. Agora pode me explicar o que significa tudo isso? — Ela estava claramente fugindo do rapaz e isso fez ele ficar com um sorrisinho no rosto.
— Bom, pensei que, já que estamos escrevendo novas memórias, por que não as tornar inesquecíveis? — Deu de ombros, como se fosse simples.
Kalli se sentiu uma boba, porque o idiota do seu coração deu batidas erradas. Ficou muito envergonhada, sentindo-se especial demais nas mãos de um rapaz. Precisou se esforçar muito para lembrar que Leonidas é seu amigo, e só isso, não dava para se sentir assim por um cara que um dia foi seu “irmão”. Não, não mesmo. Ainda mais depois de tudo de ruim que lhes aconteceu. Com essa conclusão, Kalli sorriu simples, sem muita empolgação.
Ela caminhou calmamente até o parapeito do terraço e encontrou a vista de Vera Marine iluminada pela noite fresca.
— Uau. — Sussurrou boquiaberta.
A brisa fria a fez arrepiar, envolveu o próprio corpo num abraço, sentiu a presença de Leonidas ao seu lado, mirando a vastidão do horizonte consigo. Dava para ver o cais, com os navios e barquinhos ancorados. Essa noite tinha até um cruzeiro, provavelmente partiria daqui para uma de suas aventuras pelo Atlântico Sul. Os prédios da zona sul eram altos e muito iluminados, Kalli não soube como reconhecer o seu no meio da escuridão. Ela vagou o olhar pelo subúrbio ao norte, onde casinhas mais amontoadas estavam acesas. As empresas de grande porte estavam focalizadas no oeste, juntamente das paradisíacas praias de Vera Marine, um destino turístico para os amantes do mar. Lá, no fundo, ao leste podiam avistar as montanhas altas e as nuvens esbranquiçadas que cobriam parte do céu. E além delas, quase sumindo, pode ver as luzinhas distantes de Calisto. Olhando assim, o mundo parecia não ser tão grande.
— Eu sei, é lindo para cacete. E frio. — Estremeceu Leonidas, mesmo agasalhado. — Vou ligar o aquecedor. Perto da sacada é mais quente.
Assim que Leonidas se afastou, Kalliope virou-se bruscamente para ele.
— Leonidas? — Chamou, o coração disparado. — Só quero que fique bem claro, somos amigos.
O rapaz ergueu uma das sobrancelhas em uma expressão de desentendimento.
— Isso é óbvio, Kalli. Por que eu pensaria o contrário?
Porque meu coração bate de um jeito estranho por você.
— Nada. Só quis deixar claro.
O rapaz riu soprado.
— Está com medo.
— Não.
— Está sim. — Um passo de coragem em sua direção.
Kalliope correspondeu dando um passo em falso para trás.
— A gente era irmão.
Leonidas quase gargalhou.
— A gente nunca foi irmão.
Kalliope ficou simplesmente sem reação. Não houve palavras para rebater. Os instrumentos começaram a ser tocados, a primavera de Vivaldi esbarrou-se contra as paredes firmes daquela atmosfera tensa.
— O concerto. — Kalli se fez de boba e cruzou o terraço em passos longos e rápidos até a sacada particular do evento.
Ficou maravilhada ao encontrar a orquestra reunida no centro do palco com aqueles instrumentos simplesmente fascinantes e tocando com toda a alma. Ela se sentou na simpática poltrona estofada e deixou sua bolsa na mesinha redonda, seu olhar ficou preso na apresentação sentindo cada uma daquelas emoções.
Leonidas sentou-se de frente para si, vislumbrando a presença da garota, pouco se importando com o espetáculo. Ele só conseguia assistir à beleza daquela mulher, suas expressões, os sentimentos que as músicas afloraram nela. Sua pele estava arrepiada e não era de frio.
Assistir a um concerto é uma experiência multissensorial que evoca uma ampla gama de sensações e emoções. Desde o momento em que você entra na sala até o fim, há uma sensação de excitação no ar. Quando as luzes se apagam e a música começa, há uma onda de euforia que penetra seu coração. A música ao vivo eleva seu espírito para uma condição além da descrição de palavras. Algumas das músicas são tocadas de maneira tão sangrenta que nos leva ao estado de arrebatamento. Ver os músicos tão talentosos nos desperta um sentimento de admiração inexplicável. A habilidade técnica e a paixão que os artistas demonstram em seus instrumentos são verdadeiramente inspiradoras. Nos faz viajar desde alegria a tristeza, do drama ao amor. É uma experiência compartilhada que une as pessoas através da música.
Ficaram tão envolvidos nas emoções que se esqueceram do leve atrito que tiveram minutos antes. Como ela poderia brigar com ele, afinal? Kalliope não esperava por isso, um espaço reservado só para si, tornando tudo tão especial e mágico. Ela amou ver o brilho nos olhos de Leonidas, enquanto contemplava as músicas.
Não trocaram muitas palavras a não ser a respeito do espetáculo, seus olhares se encontravam em alguns momentos, mas geralmente se admiravam às escondidas. Antigamente essa paz entre os dois soaria impossível. Mas agora… eram praticamente outras pessoas.
Kalliope não conseguiu conter algumas lágrimas, a melancolia do inverno a envolveu como um abraço doloroso. O que Leonidas usou de pretexto para passar o braço em volta de seu corpo e Kalli aproveitou para deitar a cabeça em seu ombro.
E quando começou a tocar a segunda canção do inverno, Leonidas decidiu que era uma melodia para dançar com uma garota. Era lenta, dramática, levemente entusiasmada, mas ainda assim, bela.
— Por favor. — Implorou pela terceira vez.
— Leonidas, eu não sei dançar.
— Não precisa saber. Me deixe fazer as coisas do jeito certo, fada do dente. Que saco. — Insistiu, sendo um chato.
Kalli revirou os olhos e lhe ofereceu a mão. Ele a pegou como se faz com uma verdadeira dama, dando-lhe um beijo nas costas da mão que lhe foi oferecida. Caminharam até o centro do terraço e permitiu que ele a envolvesse em seus braços. Dançaram lentamente, com sua cabeça deitada no ombro do rapaz e o corpo dele embalando o dela. Sentiu-se como se nada no universo importasse mais. Ela só podia se concentrar na sensação da palma quente de Leonidas em suas costas e o coração dele martelando seus ossos. Não havia passado, nem futuro, as cicatrizes não mais existiam, estavam focados no presente e em como a sensação de estarem nos braços um do outro o completavam.
Não ousaram trocar uma palavra sequer, como se isso fosse quebrar todas as barreiras que não estavam prontos para enfrentar. Quando a melodia mudou o tom e ficou mais intensa, Kalli se afastou sutilmente para encarar aqueles intensos olhos verdes.
— Obrigada por fazer tudo isso.
— Que nada, fadinha. O maior presente é te ver sorrir assim…
Kalli sentiu o corpo inteiro queimar, empurrou de leve o rapaz, envergonhada demais para continuar o encarando daquele modo. Não tinham coragem de sustentar mais do que essa troca de palavras. Com os corações candentes, retornaram para seus lugares aos sorrisos bobos. Kalli vestiu seu casaco e voltou a escorar a cabeça no ombro do rapaz, deram as mãos e prosseguiram assistindo o evento.
Quando o concerto terminou, Kalli voltou a admirar a noite à espera de Leonidas, que foi cumprir seu papel com a equipe técnica. Pensou como poderia lidar com tudo aquilo que estava sentindo. O que significava? Não fazia ideia. Um dia Leonidas era seu pior inimigo, e agora, cada palavra que saia da boca dele a fascinava, cada olhar a deixava de pernas bambas, cada toque lhe arrepiava a alma.
Quem queria enganar? Não se sentia como meros amigos. Ela cogitava a possibilidade de fugir dessa situação antes que fosse tarde demais. No entanto, não tinha forças. Algo muito maior a empurrava na direção daquele homem e temia o que fosse acontecer se colidissem. E suas confirmações ganhavam forças cada vez que ele chamava seu nome.
Quando deixaram o prédio, já estava vazio e os poucos funcionários ali presentes ajeitavam tudo para deixarem o expediente e ir para casa. Kalli pode se despedir de Abel e em seguida foram para o estacionamento, passando apenas pelos seguranças que fechavam o local. Assim que chegaram na motocicleta de Leonidas, a dentista alcançou seu celular.
— Vou ligar para o motorista da minha mãe. — Avisou, procurando o nome do motorista em meio aos seus contatos.
— Que mané motorista o quê! — Leonidas ralhou, oferecendo um capacete a moça. — Vamos voltar para casa juntos na minha garotona aqui.
Os globos oculares de Kalli quase saltaram para fora das órbitas.
— Nunca! Vou ligar pro Rodolfo. — Kalli apertou o botão de chamada e teve o celular arrancado da sua mão, Leonidas finalizou a ligação antes de ser atendida.
— Você vem comigo. — Determinou, incontestavelmente.
— Não vou subir nisso! Eu trabalho num hospital, tem noção do que vejo na sala de emergência? E pior, quantas cirurgias já fiz em pessoas que quase perderam o maxilar em acidentes? — Kalli apontou para “a coisa” como se fosse um monstro.
— Ei, não fala assim da minha princesa, ok? Por acaso não confia em mim na direção? Só para ficar claro, eu fui para a autoescola e passei de fato no exame, ok?
— Ahm… não confio mesmo. Gosto de estar viva, obrigada.
— Para com isso, fada do dente. Não vai acontecer nada. Você vai ver como é tranquilo. — A forma como Leonidas pediu isso mexeu com Kalli, fazendo-a se sentir mal por não confiar nele.
A verdade era que o passado batia à porta, deixando Kalliope morrendo de medo. Entretanto, ela não podia falar sobre isso, não agora. Só tinha uma opção, encarar seus traumas e confiar em Leonidas. Não queria decepcioná-lo, não hoje. Não quando ele fez de tudo para lhe dar uma noite perfeita.
— Promete?
— Eu odeio fazer promessas, mas por você, sim, eu prometo. — Garantiu, olhando no fundo dos olhos dela, demonstrando toda sua confiança possível.
Kalli abriu um sorriso satisfeita.
— Ok.
Leonidas relaxou a expressão de indignação e ajudou a dentista a colocar o capacete da maneira correta, verificou umas cinco vezes se o capacete dela estava de fato bem preso. Kalli o observou subir na Honda Shadow, uma linda moto custom que combinava perfeitamente com o rapaz, uma vez que era apaixonado por modelos antigos de veículos.
Ele se sentou na motocicleta e estendeu a mão para ajudar a donzela a subir. Nem precisou falar, Kalli foi logo o abraçando com tanta força que tirou o ar de seus pulmões.
— Eu ainda preciso respirar, Kalliope. — Grunhiu.
— Desculpa. — A dentista afrouxou o aperto e estremeceu quando sentiu a moto ranger abaixo de si. — Deus, eu não quero morrer!
— E você não vai, fadinha. Na verdade, vai se sentir tão viva quanto nunca.
Leonidas deu partida e a noite os envolveu com seu véu frio, o vento forte da madrugada parecia proferir golpes contra seus corpos. Kalli sentiu o coração tão acelerado que parecia que iria explodir a qualquer momento, mas para sua surpresa só precisou de alguns metros de distância do estacionamento para começar a relaxar, percebendo o quanto era tranquilo.
Era um trajeto simples de motocicleta, mas para Kalliope uma oportunidade de ver o mundo de outra forma. Uma nova experiência recheada de novidades e sensações nunca experimentadas antes. Seus traumas não tiveram espaço naquele momento. A combinação de adrenalina, liberdade e conexão com a cidade ao seu redor era maior do que quaisquer medos. Era como se estivesse se fundido à máquina, se sentia parte dela, uma sensação poderosa se apossava de si. O motor acelerando, a sensação de inclinação nas curvas sutis… Era tão gostoso que podia compreender porque Leonidas gostava de motocicletas.
A sensação de liberdade era palpável e ia além do vento contra seus corpos. O fato de estar a céu aberto trazia a experiência contrária de se estar em um carro, lhe proporcionava uma visão mais ampla de detalhes na cidade que nunca havia notado antes. Os cheiros, as mudanças de temperatura e das sutilezas do terreno eram muito mais conscientes desse modo.
Por outro lado, percebeu que como motorista, Leonidas precisava de muita concentração e habilidade. A exposição aos perigos da estrada, necessitava um estado de sempre alerta e pensamentos antecipados com relação ao trânsito ao seu redor. Aquele famoso ditado que você dirige mais para os outros do que para si mesmo. Uma puta responsabilidade e Kalli o admirou pelo demasiado cuidado.
Caramba, não conseguia acreditar que estava em uma moto com o rapaz. Depois de tudo o que viveram… aqui jazia ela, tentando contra sua própria vida novamente. Será que era um tipo de suicida? Não era um bom momento se entregar a esse tipo de pensamento.
Para sua sorte, chegaram rápido ao prédio e a garota chateou-se com isso. O porteiro estranhou quando recebeu cumprimentos de Leonidas e Kalli ao mesmo tempo. Ele trabalha aqui desde a época que os dois tentaram ser uma família e muitas vezes presenciou brigas sangrentas entre eles.
— A cara dele foi hilária. — Leonidas riu, tirando o seu capacete para posteriormente ajudar Kalli com o seu. Encaixou ambos nos retrovisores da moto.
— A simples ideia de nós dois coexistirmos num mesmo espaço é tão absurdo… — Kalli soltou num fio baixo.
Leonidas não gostou de como isso soou. Durante toda a noite o sorriso da garota foi o seu maior presente e agora se deparava com uma expressão dolorosa dominando o seu rosto. O que maldição ele disse de errado? Leonidas não fazia ideia, só sabia que algo muito obscuro apossava-se de Kalliope naquele momento. Sentiu um calafrio que eriçou todos os seus pelos, como se já soubesse que estava por vir.
O céu fechou e uma tempestade ameaçava desabar sobre a piscina.
Todos os medos, gatilhos e inseguranças de Kalli vieram à tona. Desde que deu espaço para Leonidas voltar para sua vida, apenas fechou os olhos e se entregou. Esquecendo-se totalmente do lado racional. O porteiro e sua reação esperada fez Kalliope pensar em sua mãe, em Marilia e como elas reagiriam diante disso. O quanto poderia os odiar por simplesmente resolverem ser amigos depois de todo o inferno que causaram em suas vidas quando eram mais novos.
E isso trouxe as memórias ruins à tona. A tentativa do rapaz de substituir o que aconteceu acabou de cair por terra.
Tudo que conseguia ver era Leonidas destruindo a sua vida, cada pequena alegria, cada momento, cada aniversário, natal, páscoa… tudo. A adolescência de Kalli foi simplesmente marcada por traumas, uma infelicidade tão grande que por diversas vezes a fez desejar não existir. Como quando sua mãe lhe pediu gentilmente para mudar-se por um tempo para a casa de seu pai, na tentativa estúpida de ajudar Leonidas a se sentir melhor, talvez menos incomodado com a presença da menina. Adivinha? Não deu certo. E no fim, não fez diferença no gênio difícil do enteado. Kalli sofreu bullying na escola nova, foi empurrada da escada, fraturou uma costela e quase teve um pulmão perfurado, por fim, teve que voltar para a casa da mãe.
Quando Kalli diz que fez de tudo para conviver em harmonia com o irmão-postiço, não era mentira. Embora o detestasse por motivos óbvios, era uma excelente filha e fazia de tudo para evitar os conflitos com o rapaz. Até mesmo abdicou o direito de ter uma mãe para que ela pudesse tentar ser uma madrasta boa para Leonidas.
A verdade é que naquela época só sentia ódio por Leonidas, por assolar tudo de bom em sua vida. Aniversários, destruídos. Amizades, afastadas. Cada comemoração, arruinada. Cada pequena alegria, arrancadas com força de si. Não podiam viajar porque Leonidas não queria ir. Pedia para ficar com os avós nas férias e sua mãe não permitia, para que não deixasse Leonidas sozinho. Tudo girava em torno do garoto problemático.
E não conseguia nem citar a sua formatura do ensino médio… a gota d’água. A “Grande Catástrofe” que os marcaram física e emocionalmente para sempre. O erro mais irreversível de Leonidas Vitorino.
E quando pensava que não poderia se sentir pior, Kalli experimentou a culpa por se sentir aliviada quando Marilia deixou sua mãe. Após seus filhos se ferirem tão gravemente que simplesmente não viram outra alternativa, senão terminarem o relacionamento. A “Grande Catástrofe” foi o fator decisivo, não podiam mais viver assim, após 5 anos insistindo naquela relação e vendo seus filhos sofrerem as consequências.
E quando o fim chegou, Kalli se viu filha de sua mãe novamente. Vista, querida, amada… Afinal, Laura não tinha outra opção senão cuidar da filha gravemente ferida pelo poder das suas escolhas, qual foi se envolver com Marilia sabendo das dificuldades que seu filho passava. Mas, Kalli teve sua vida de volta, isso é o que importava. Era egoísta demais de sua parte? Cruel, como Leonidas Vitorino? Ela não sentiu culpa na época, não quando estava enfaixada e lutando para sobreviver num quarto de hospital. A culpa veio mais tarde, quando processou tudo o que aconteceu.
Sua mãe se tornou sua, era fato, mas infeliz por perder a mulher que amava.
A realidade é que depois de tanto tempo vivendo uma vida tão triste, Kalliope nunca mais conseguiu ser feliz. E agora, Leonidas simplesmente ressurgiu dos mortos, a fazendo sorrir com uma facilidade impressionante. Era tão injusto…
O ódio tomou conta de Kalliope e ela se viu incapaz de aceitar tudo de bom que Leonidas trouxera nos últimos dias. Se viu cega, muda e surda. Se recusava a aceitar aqueles sentimentos dentro de si.
E Leonidas viu os olhos castanhos da garota se tornarem coléricos. No fundo do seu ser, soube que, o que Kalli tenha visto na noite a caminho para casa, era mais cruel que o demônio.
Ela viu Leonidas.
Aquele que lutou tanto para enterrar…
— O que foi? — Leonidas indagou sentindo um aperto no peito. — Tá tudo bem? Te traumatizei com a moto? E olha pilotei numa boa. Não furei nenhum sinal…
— Você não fez nada de errado, Leonidas. — Kalli respondeu, fria.
— Porra. O que aconteceu então?
— Aconteceu que você tá fazendo tudo isso… — Sussurrou dolorosamente.
— Não entendi.
— Desculpe, mas só agora me dei conta. Tem noção que há anos não me sinto assim? Incrível. Feliz. Leonidas, eu me diverti muito… Eu sorri. Amei estar com você em cada segundo… não me senti pressionada, não precisei ser perfeita em cada movimento meu, cada fala… — Os olhos de Kalli estavam ficando úmidos. — E percebo que isso dói. Porque não entendo o motivo de tudo isso. Você implora pra voltar para minha vida. Muda tudo. E a qualquer momento pode surtar e me deixar em pedaços. De novo.
Se encaravam nos olhos, ali estava o muro imenso de mágoas. Aquele cujo lutaram tanto para evitar. Estava tudo vindo à tona, eles não tinham forças para impedir.
Deixe vir. Deixe que este tsunami inunde a piscina e leve tudo…
— Você não confia em mim. — Constatou o rapaz. — Eu já provei tanta coisa e ainda assim você não consegue confiar.
— Eu não consigo mesmo e como poderia? O nosso passado é muito pesado. — A garota negou, balançando a cabeça. — Ninguém muda assim, Leonidas.
— Eu mudei, caralho! — Leonidas se exaltou. — Porra, eu tô aqui de coração aberto para você. Quando é que vai entender que não sou todo mundo?
Um filhote acanhado, sendo encurralado por uma fera. Era como Kalliope se sentia toda vez que Leonidas aparentava ficar nervoso. Seu cérebro entrava em alerta, relembrando-a dos gatilhos de sua infância. Das explosões violentas que presenciou vindos da pessoa à sua frente. O rapaz nunca agrediu ninguém, senão a única vez que feriu Laura sem intenção, mesmo assim se sentia assustada diante de acessos de raiva do tipo.
— Vou embora… — Kalli tenta se afastar.
— Não, você não vai fugir, porra. — A voz dele a conteve. — Kalliope, eu era uma criança que viu o pai morrer, o que esperava? As pessoas podem não mudar, mas amadurecem. E foi isso que aconteceu, passei pela metamorfose de criança inconformada para um homem adulto que sabe o que quer. Me arrependo todos os dias pelo que causei a você e às nossas mães. Quando te encontrei naquele dia, vi uma oportunidade de fazer tudo diferente. Por mais desgraçado que eu fosse, a verdade é que você era a minha família. Era alguém que eu amava, mas tratava mal por birra. Agora tenho a oportunidade de ter você ao meu lado de novo. E vou fazer de tudo por isso.
— Por quê? Eu não entendo, Leonidas. Realmente estou tentando entender, mas isso não faz o menor sentido para mim. — Respondeu Kalli, tentando controlar o choro. — Não vai demorar até que comecemos a brigar. Até que você faça algo irreversível que machuque alguém.
— Não sou esse monstro que você pensa. — Leonidas se defendeu, magoado.
— Honestamente, Leonidas? Eu não sei. — Rebateu a dentista.
— Estou te machucando agora? Fiz algo contra sua vida?
— Não, mas essa é a questão, estou sentada esperando e assistindo para ver quando isso vai acontecer. — Ergueu os braços em rendição. — Isso está fodendo com a minha cabeça, entende?
— Você está criando uma ilusão na sua mente, esperando pelo momento que deixarei seu coração em pedaços, isso se chama sabotagem. Isso significa que quando algo muito bom está prestes a acontecer, seus medos e inseguranças vem à tona para te impedir de ser feliz e isso não é sobre mim, Kalliope, é apenas sobre você e não tem nada que eu possa fazer a respeito. Posso te provar as minhas intenções para que confie em mim, mas só você pode aceitá-las ou não. Só você pode mudar como se sente. Não sou mais aquele garoto. Eu quero seu coração inteiro, não me convém deixá-lo em pedaços, me convém te ajudar a reunir os seus caquinhos, se, você quiser a minha ajuda.
— Ah, pronto, agora preciso de um psicólogo. Que sorte a minha, não? Ao que tudo indica tem um bem na minha frente! — A garota riu alto e debochada. — Oh, sim, que venha o herói da cidade salvar o coração da donzela em perigo. Como se você não estivesse quebrado tanto quanto eu.
— Olha, posso estar quebrado, mas sei o que quero e está bem na minha frente. — E ao invés de abusar da ironia, ele falou sério, encarando os olhos dela. — Só posso provar se você deixar.
— Não sei se vale a pena o risco.
O rapaz respirou profundamente, tentando organizar seus pensamentos e quando conseguiu encontrar o fio da meada, soltou os ombros num suspiro longo e assumiu por fim:
— Não dá para aceitar que eu simplesmente gosto de você?
— Você me odiava!
— Eu nunca te odiei!
— VOCÊ TENTOU ME MATAR! — Kalliope gritou, com todas as forças, diante da face do responsável pelas cicatrizes em seu corpo. Deixou que aquilo saísse de si, finalmente. Permitiu que a explosão interna ganhasse força e forma. — Você… — Soluçou alto. — Leonidas, você tentou me matar?
O rapaz ficou simplesmente sem reação, encarando aqueles lindos olhos cheios de lágrimas. Ele não pode acreditar. Simplesmente não podia.
— Kalliope, você… ai meu deus… puta que pariu! — Leonidas passou a mão no rosto, atordoado. — Porra, você acha que tentei te matar?
— É o que minha mãe diz toda vez que lembra da sua existência.
— Ah, ótimo, então não, caralho, você, Kalliope, sabe perfeitamente que eu não tentei de matar. Eu jamais poderia. Eu te amava, porra. — Leonidas rebateu, deixando claro. — Se você está aqui e agora, se deixou que me aproximasse tanto de você, obviamente é porque sabia a verdade.
— Eu sei que você não tentou, foi um acidente…, mas… às vezes eu me pergunto se sim. — Confessou, aos soluços altos que exigiam uma força sobrenatural do seu corpo.
— Puta que pariu!
— O que você queria que eu pensasse, inferno? Você fazia questão de destruir qualquer mínima felicidade em minha vida! Me arrancou os melhores momentos da minha infância. Tirou de mim até mesmo a minha mãe! O que gostaria, vossa excelência, que eu sentisse? — Gritou, abusando do drama e ironia.
— Eu só agia daquela forma para magoar as pessoas, porque estava tão fodidamente quebrado que não suportava ver ninguém ao meu redor feliz. Você sempre foi a porra de uma fadinha saltitante, aquilo me dava asco. A convivência com a nossa família, me quebrava por dentro por me fazer imaginar como seria se meu pai estivesse ali comigo e a minha verdadeira família inteira. — Ouvir suas confissões deixou Kalli tocada, mas não havia muito o que fazer sobre isso. Infelizmente o pai dele havia morrido e esse era um gatilho eterno que enfrentaria. — Mas não importa o quanto babaca fui, Kalli, eu não tentei te matar. Juro pela minha vida.
— Acabou de assumir que sentia nojo de mim, como pode esperar que eu acredite que não tentou contra a minha vida? — Kalli só queria entender porque o garoto insistia em dizer que gostava de si, como poderia amá-la e ter feito o que fez consigo? As peças do quebra-cabeça não estavam se encaixando. Tudo que se lembra era de momentos horríveis entre eles, não havia espaço para amor, respeito… nada além de ódio e rancor. — Leonidas, tudo que fizemos foi ser a sua família. Foi estar ao seu lado num momento difícil. Mas você insistiu em fazer escolhas ruins e não venha nos culpar agora. Você pode não ter tentado me matar propositalmente, mas aconteceu. E a prova disso tudo está em nossos corpos.
— Não estou culpando ninguém! Eu não queria uma família, Kalli, eu só queria o meu pai de volta e sinto muito ter feito você passar por todo aquele inferno porque eu estava de luto. Sinto muito que o meu pior momento esteja cravado em sua pele para sempre… — As palavras de Leonidas vinham do fundo do seu ser, carregavam toda a verdade jamais dita.
— Para de culpar a morte do seu pai, Leonidas! Assume de uma vez por todas que era puramente você. As suas escolhas, caramba!
“Sim, Kalliope, eu escolhi causar aquele acidente para matar a garota por quem estava apaixonado”, Leonidas respondeu mentalmente, num sarcasmo afiado. No entanto, não ousou dizer. Estava perdendo as forças.
As vozes alteradas já chamavam a atenção dos moradores do térreo. O porteiro ficou a uma certa distância, observando a briga e pronto para intervir caso as coisas piorassem. Já havia até deixado o número da polícia pronto no seu telefone.
Kalliope agarrou os cabelos e deu passadas sem rumo, lágrimas grossas escorriam por suas bochechas. Ela fechou os olhos e tentou se acalmar, sua mente estava colapsando. Seu coração estava em chamas.
— Só me explica, Leonidas… Por que você entrou naquele maldito carro? — Kalli questionou em derrota. Os ombros caídos, sua última gota de energia exaurida do seu corpo.
Leonidas se deparou paralisado pelo fantasma do passado.
Seu coração enviava sinais para sua boca se abrir e responder, mas seu cérebro o impedia de concretizar o ato tão irreversível. Se ele falasse, sobreviveriam? Será que suportaria delatar tal veracidade para si mesmo?
O tempo simplesmente parou.
Quantos minutos se passaram?
Cinco? Dez? Seis malditos anos?
Não sabia o que dizer. Estava espantado demais. A respiração pesada, o coração a mil. A noite incrível que tiveram juntos, terminou em discussão. Leonidas chegou a uma conclusão, não era o melhor momento para prosseguir com essa conversa. Ambos estavam magoados e quanto mais palavras trocassem, pior se tornaria a situação. Era apenas retaliação.
— Eu vou embora. — A dentista suspirou em derrota quando percebeu que o rapaz não lhe responderia.
— Kalli, por favor. — Deu um passo na direção da garota que imediatamente recuou três passos para trás.
— Preciso de um tempo…
— Não destrói tudo o que a gente conquistou neste último mês.
— Ah, é claro. — Kalli riu fraco e debochado. — Esqueci que só você tem o direito de explodir.
— Kalliope…
— Leonidas, entenda de uma vez por todas, quando você explode, queima tudo ao seu redor. E não é um pedido de desculpas que vai ajudar os atingidos a remendar os pedaços. — Olhou para o céu, deixando tudo sair em forma de palavras. — Não quero mais me importar com você a ponto de te dar a minha vida para depois você simplesmente atear fogo em tudo sem se preocupar com quem vai ferir.
— Kalliope… — Leonidas gemeu de dor.
— Não posso deixá-lo me machucar daquele jeito de novo… simplesmente não posso. — Kalli disse sôfrego e aos soluços. — Adeus, Leonidas. — Deu-lhe as costas.
— Por favor, não vai. — Um pedaço do seu ser estava sendo arrancado, Leonidas desmoronava por dentro. — Não me obrigue… não me… não…
— Não sei se sou capaz de ignorar o passado, Leonidas. Eu realmente não sei… — Kalli continuou andando, sem sequer olhar para trás. — Não sei se suporto conviver com você e todas as nossas cicatrizes.
Kalli empurrou as portas duplas na direção das escadas e subiu os degraus o mais rápido possível. Não pode ouvir quando o choro rompeu os lábios de Leonidas.
A noite silenciosa e fria era testemunha da destruição de seu coração, ele perdeu as forças, escorando-se na moto enquanto apertava a mão contra seu peito na tentativa de impedir que seu coração se despedaçasse em milhões de pequenos pedacinhos. Num dos seus típicos surtos violentos, empurrou a moto com o pé, fazendo-a despencar. E isso causou-lhe uma avalanche de dor, devido ao esforço demasiado em sua perna sequelada. Foi ao chão abraçando a perna, gritando.
Dor…
A dor é insuportável, física ou psicológica. Vem em ondas agudas ou leves, constantes ou intermitentes, latejantes ou estáveis. Às vezes, pode ser muito difícil descrevê-la. Podia afirmar com toda certeza que a dor de perder aquela garota pela segunda vez na vida, era maior do que as de qualquer acidente. Ele só queria que esse sentimento cessasse…
— Senhor Leonidas, está tudo bem? Devo chamar uma ambulância? — O porteiro estava diante de si, horrorizado com a cena. — Senhor Leonidas?
Sim, tragam os paramédicos e implorem para ressuscitar seu coração.
Kalli sempre teve esse dom de ser cruel com as palavras em momentos de fúrias. Leonidas já provou do amargor. Era uma dor que temia nunca ser capaz de suportar. E ali, entre a luz e a escuridão, entre o amor e o desespero, ele se viu naquele campo de combate de novo: a batalha consigo mesmo.
Estava chorando copiosamente como nunca havia feito antes na vida.
As sombras ameaçavam consumi-lo.
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e se eu estiver em chamas,
você também se transformará em cinzas?
mesmo no meu pior dia, será que eu mereci
todo o inferno que você me fez passar?
porque eu te amei, juro que te amei
até o dia da minha morte
se eu estou morta para você, por que você está no velório?
xingando meu nome, desejando que eu tivesse ficado
veja como minhas lágrimas ricocheteiam
e eu posso ir aonde eu quiser, menos para casa
você pode ir atrás de mim, buscar por vingança
mas você ainda assim sentiria minha falta profundamente
e eu ainda falo com você quando estou gritando para o céu
e quando você não consegue dormir à noite
você ouve minhas canções de ninar roubadas
my tears ricochet, taylor swift
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