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Me encontre renascida como uma fênix

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Quarta, 8 de maio de 2024

Ouviu o ronco baixo do motor da motocicleta chegar ao estacionamento. Seus batimentos cardíacos aumentaram, as mãos começaram a suar. Kalli não estava dentro da piscina, e sim sentada em uma espreguiçadeira, abraçando sua barriga, sentia uma queimação horrorosa no estômago. Estava trajando um biquíni rosa e uma toalha azul jogada nos ombros. Teve um dia estressante de trabalho, tudo que precisava agora era de piscina e a companhia de um certo carinha…

— O que está fazendo fora da água? — Questionou Leonidas assim que entrou no ginásio. — Cê tá bem, Antonelli?

— É só uma dor de estômago. — Kalli fez pouco caso, mas a verdade é que mal estava suportando. Tinha medo de ir ao médico descobrir uma gastrite ou até pior, uma úlcera.

Leonidas jogou sua mochila no chão e foi rapidamente até a garota, abaixando-se para ver seu rosto, segurou o queixo da mesma, analisando. A moça não impediu.

— Porra, Kalli, não é só uma dor de estômago, está pálida de dor. — Constatou, preocupado. — Eu te levo no pronto-socorro.

— Não. — Kalli se afastou bruscamente. — Está tudo bem. Já aconteceu antes e vai passar. É só ansiedade.

— Isso não está certo. — Leonidas negou, irritadiço. — Vamos pro hospital.

— Para com isso, Leonidas! Eu disse que está tudo bem. — Se pôs de pé e se afastou do garoto, jogou a toalha na espreguiçadeira e foi em direção à piscina. — Eu só preciso de água. — Dito isso, saltou, mergulhando fundo e não demorando a voltar para a superfície.

Sem muito tato para a situação, Leonidas fez o de costume, se despiu e sentou-se na borda da piscina com os pés dentro da água aquecida.

— Eu costumava sentir meu coração acelerado, a respiração pesada, quando estava sobrecarregado e exigindo demais do meu corpo. — Observou o rapaz. —  É um caminho perigoso.

— É o que os médicos chamam de crise de ansiedade, isso sim. — Contrapôs a dentista. — Ei, relaxa, e vem nadar comigo, por favor.

— Vou assim que você se sentar aqui, e me contar o que está acontecendo. — Gesticulou para o espaço ao seu lado.

— Rá-rá. Que engraçado. Não vai rolar. Se quer ficar aí, beleza. Pois fique. — Deu de ombros como uma criança mimada.

Leonidas observou a moça mergulhar e começar a executar uma sequência de nados. Não podia negar, era lindo de se ver aquele corpo deslizando na água, principalmente com a coleção de biquínis e maiôs de Kalliope que, honestamente, valorizavam muito seu corpo. Exibiam as curvas certas. As cicatrizes do acidente, embora tão negativas, sequer afetaram sua beleza, pelo contrário, a deixou ainda mais bonita, mais sexy, como tatuagens.

Quem ele queria negar? Aquela mulher o atraia para o cacete e esses encontros na piscina estavam começando a desviar a atenção para a outra cabeça de Leonidas (se é que me entende). E bom, não era a impressão que ele queria causar.

Para sua surpresa, seus pensamentos foram cortados quando Kalli agarrou seu pé debaixo da água e emergiu.

— Vamos fazer assim, eu te pergunto uma coisa, você responde. Depois é a sua vez de perguntar e eu responder. — Sugeriu, não sabendo se era uma boa ideia.

Um jogo.

Um clichêzinho dos filmes românticos que ela adorava assistir na adolescência.

Puta que pariu, Leonidas não conteve o sorriso sacana.

— Como dizia a poeta contemporânea chamada Dra. Kalliope Antonelli: “tá”. — Riu libertinamente. — Eu topo, fadinha.

Kalli mostrou a língua para o rapaz e saiu da piscina, sentou-se ao seu lado, com os pés submersos na água.

— Eu só estou estressada com o trabalho, às vezes quando me sinto assim, meu estômago entra em crise, me fazendo sentir dores e queimação. Satisfeito? — Encarou o músico.

— Hm, isso você já tinha falado.

— Você não aceitou a resposta, então a reafirmei. É a verdade. O que quer que eu diga? Sim, Leonidas, você tem razão. Eu me sobrecarrego e meu corpo tá me cobrando parcelado. É isso e ponto final, isso não vai mudar, preciso continuar. A minha esperança é que no futuro eu seja uma excelente profissional a ponto de ter tempo para mim mesma. — Tagarelou Kalli, desabafando.

Há muito tempo não falava assim com alguém. Depois que saiu da escola, perdeu todas suas amigas, não que tivesse muitas. Para completar, sua única melhor amiga restante mudou-se do país. Sendo assim, não tinha com quem conversar além dos seus pais que, pasmem, são tão ocupados quanto ela.

— Tô satisfeito agora, não com o fato de você ter que trabalhar feito doida e colocar sua saúde em risco. Mas satisfeito por você falar. — Confessou Leonidas, apoiando as mãos esplanadas atrás do seu corpo e batendo levemente os pés na água. — Sua vez.

— Ok. — Kalli pestanejou, revirando em sua mente o que realmente gostaria de saber sobre Leonidas, encarou a tinta preta eternizada em seu antebraço. — Poderia me contar o significado das tuas tatuagens?

Aquilo era muito íntimo, mas Leonidas gostou de saber que Kalli tinha curiosidade em coisas tão pessoais sobre ele e melhor ainda, ela reparava em sua pele. Não hesitou em começar a explicar.

— A bússola fiz logo depois que terminei as sessões de fisioterapia, tinha muito claro os passos que queria traçar para o meu futuro. Foi a minha primeira tatuagem, assim quando estou confuso, volto o olhar para o meu braço e me lembro da direção que preciso seguir. Deste modo nunca fico perdido. — Explicou sereno, mostrando a arte em seu antebraço esquerdo.

— Uau… — Kalli admirou os olhos verdes do rapaz, impressionada com o significado daquele desenho. Não esperava por algo tão poético. — E essa? — Perguntou, tocando o desenho que rodeava seu bíceps e tríceps direito, sentindo o contato rápido com a pele quente do rapaz. Era claramente uma partitura, mas ela queria ouvir sobre o significado, mesmo que talvez fosse óbvio.

Clair de Lune[1]. — O sorriso no rosto do rapaz era sutil e bonito. — A partitura do piano balada. Uma música que tem o poder extraordinário de me acalmar. É quase como se fosse o meu primeiro amor.

— Nossa, que profundo. — Kalli ficou impressionada.

— E essa é pro meu pai. — Mostrou o Chevette 76 desenhado no centro de suas costas, entre as omoplatas. — Uma pena que meu irmão foi embora com o carro e eu nunca mais o vi. Queria que fosse meu, mas vou me contentar com a tatuagem.

— Essa é a minha favorita. — Determinou Kalli, passando a ponta do dedo por cima da linha do desenho, causando arrepios internos no rapaz. Parece que o apelido de “fada do dente” era bem apropriado, já que as mãos de Kalliope eram tão suaves quanto se poderia esperar das de uma fada. — Aposto que ele teria gostado.

— Não tenho certeza se ele aprovaria tatuagens, mas diante das circunstâncias, talvez sim. — Deu risada. — Agora é a minha vez de novo.

Kalli sentiu uma apreensão diante da declaração, como se Leonidas estivesse planejando algo. No entanto, agora que já havia se colocado nessa situação, não tinha para onde correr.

— Beleza, manda.

Leonidas encarou o braço esquerdo da moça, cheia daquelas cicatrizes roxas e azuis. Se sentia pronto para falar sobre isso…, mas será que Kalliope queria? Não era íntimo demais? Certamente seria cutucar o passado. E honestamente, era o que Leonidas queria, falar sobre o que aconteceu, pôr os pingos nos ‘is’. Ele queria alcançar novos horizontes no relacionamento com ela e para isso precisavam colocar uma pedra sobre o passado.

— Me fala… — Tentou dizer, mas sua consciência o paralisou, engoliu seco. Sabia que não teria volta, estava com medo.

Kalli encarou seus olhos, tentando entender suas intenções implícitas. O músico optou por usar gestos, já que lhe faltava coragem. Sua mão pouco trêmula foi em direção ao braço esquerdo da moça e fez menção de tocar a pele enrugada, Kalliope enrijeceu. Ficaram paralisados.

Ela passou o dia todo revendo aquele vídeo, que a essa altura já estava na memória do seu celular. Mais que isso, havia entrado no perfil do tal Orfeu Oficial e o destrinchado de cima a baixo. A trilha sonora do seu dia era ouvir Leonidas cantar. E aquela versão, dele cantando com toda sua alma, era a favorita de Kalli. Pensando nisso, ela se sentiu confortável para abrir mais espaço para ele. Isso significava que queria contar sobre as suas cicatrizes, aquelas que não comentava sobre com ninguém.

Kalliope assentiu suavemente, permitindo o toque.

A verdade é que não recebia muitos toques alheios, então era novidade para ela também. Tocar a si mesma e ser tocada por outra pessoa eram coisas completamente divergentes. E como esperado, uma variedade indescritível de sensações a surpreenderam.

A palma imensa e grossa do rapaz finalmente encostou na sua e o toque quente demais a surpreendeu. Parecia brasa. Era quente, muito quente. E isso tinha um motivo, sua pele se tornou extremamente sensitiva às sensações térmicas. Alguns locais eram muito sensíveis fazendo-a se arrepiar, outros amortecidos, quase não sentia nada. Todavia, havia aqueles pontos doloridos, mas Leonidas estava sendo extremamente delicado. Para ele, era outra experiência, outra sensação.

A pele queimada cicatrizada apresentava uma textura irregular em alguns pontos, eram sensações extremas, algumas partes suaves e outras ásperas, onduladas devido à formação de tecido cicatricial. Dava para perceber que em alguns lugares a pele era bastante rígida, provavelmente foram locais onde os danos foram mais profundos.

Seus dedos tatearam com cuidado, com medo de que um toque brusco demais causasse dor ou rasgasse a pele sequelada. Embora o trauma tivesse sido imenso, Kalliope não se sentiu desconfortável, não com Leonidas lhe tocando. Mesmo que ele fosse ou não culpado. Nenhuma lembrança dolorosa lhe ocorreu. Na verdade, sentiu-se extremamente bem, sem vergonha ou medo.

Controvérsia, no rosto do rapaz encontrou culpa e remorso. E talvez não quisesse mais que ele se sentisse assim. Embora as escolhas de Leonidas tenham causado isso, no fundo, Kalli nunca o culpou.

— Não dói mais. — Respondeu aos sussurros a pergunta que imaginou que seria feita para si, se ele tivesse coragem o suficiente. Na verdade, era uma dúvida comum entre aqueles que descobriam suas cicatrizes.

— Mas já doeram muito, não é? — Os olhos de Leonidas estavam carregados da mais profunda tristeza.

— Como o inferno. Não dá nem para descrever… — Suspirou fundo, observando as queimaduras enquanto Leonidas afastava sua mão e a ouvia.

— Me conta tudo, Kalli. Eu quero saber. Me deixe saber. — Suplicou, como se fosse necessário. Tudo que Kalliope mais almejava era corta-se ao meio para que ele tivesse acesso a tudo dentro de si. Tudo aquilo que guardou por tantos anos. Todas as palavras que não disseram um ao outro. O sentimento era mútuo, Leonidas desejava profundamente o mesmo.

Se Kalli se abrisse, não teria volta. E ela esperava que ele logo fizesse o mesmo.

— Eu vou tentar. — Concordou a moça.

— Estou te ouvindo. — Leonidas levou sua mão até a da garota, entrelaçaram os dedos sem muita força e se dispôs a ouvi-la com toda atenção do mundo.

Ele esperou o tempo dela, sem a pressionar. Afinal não seria fácil ter que reviver essas memórias, mas valia a pena, por ele.

— Uma das coisas que eu mais amava, era a sensação do sol na minha pele. — A voz dela estava emaranhada, contudo, se esforçou para não deixar isso transparecer. — Honestamente, não sei quando vou sentir isso de novo.

“Quando acordei do coma induzido, descobri que havia queimado quase 50% do meu corpo, tendo meu lado esquerdo como alvo. Foi sorte meu rosto ter sido o único local que escapou das chamas. Havia sofrido outros ferimentos, no entanto, estavam estabilizados e eram o menor dos meus problemas. O tratamento inicial é desumano, não tem nada a ver com os médicos, que, deixando claro, eram excelentes. Mas, sim, a condição. Parece que depois que acaba, você ainda continua queimando por muito tempo…

Não queria nem sair do quarto, não queria ver ninguém, não suportava me olhar no espelho. O fato de quase não poder me mover e ter que encarar aquele quarto sem graça, me despertava um desespero insano de pelo menos me levantar. Não conseguia nem dobrar o braço, tão pouco a perna, cada conquista era única. Como um bebê dando seus primeiros passos. Até comer era difícil. Foi uma festa quando me alimentei pela primeira vez sozinha.

Aos poucos fui avançando, até sair no corredor e andar até a janela para ver alguns poucos pássaros, as folhinhas das árvores e o tráfego lá embaixo… aquilo renovava a minha alma. Me fazia ter esperanças que todo aquele sofrimento iria passar um dia…

Vivia dopada, mas ainda assim não era suficiente para suportar a dor. Os dias de cirurgia eram os mais difíceis, mas também eram um bálsamo. Meu momento favorito era quando as enfermeiras podiam me dar banho e isso significava lavar o cabelo. Lavar o cabelo, algo tão básico e impossível naquele momento. Eu nunca pensei que perderia a cabeça por não lavar meu cabelo. No entanto, não podia molhar o curativo nem em sonhos, era um risco imenso. Por isso só molhávamos no dia da cirurgia.

As enfermeiras me acordavam de madrugada para dar tempo de lavar antes da operação, as quais passei por várias, não dá nem para contar. E os banhos eram definitivamente uma missão. Me tornei a bebezinha das enfermeiras, ficávamos fazendo piada do fato delas terem que limpar a minha bunda.

A verdade é que esses momentos me deixavam tão feliz, não dá para explicar. Cada pequeno detalhe me fazia sorrir. Os band-aid coloridos que colocavam em mim depois dos vários tubinhos de sangue que tinha que tirar. O chocolatinho que me deixaram comer mesmo sem poder. Meu pai e as suas playlists dos anos 90. As ligações de vídeo com meus avós. Os enxertos eram os dias mais difíceis e os mais felizes ao mesmo tempo. Tem noção que sou feita de retalhos de mim mesma? É louco demais…

Tive infecção no hospital. Reação alérgica. Honestamente? Pensei que não sobreviveria. Qualquer obstáculo se tornava um risco iminente de morte. Contudo, a pele cicatrizava muito rápido, eu dormia de um jeito e acordava de outro. Ver a cicatrização me enchia de esperança e felicidade. Aos poucos aquela sensação de estar morta ao me olhar no espelho, foi se dissipando lentamente.

Várias vezes questionei o universo porque isso estava acontecendo comigo. Não era nenhum pouco justo. O mais contraditório de tudo isso, é que o processo é doloroso, mas cura. E quando o pior passou, o pior voltou. Minha pele começou a hipertrofiar.”

— O que é isso?

— Significa que a pele cresceu excessivamente em resposta à queimadura. É quando as cicatrizes ficam mais espessas, robustas, vermelhas. Algumas são muito dolorosas, coçam para caramba e é simplesmente feio. Outras afetam até mesmo a mobilidade da área, sem mencionar o desconforto físico e emocional que causam na gente. Ainda tenho algumas aqui… e aqui… — Kalli apontou as deformidades de sua pele cicatrizada, exemplificando ao rapaz. As suas já não eram tão feias devido ao tratamento que as fizeram melhorar bastante. Na verdade, ela mesma já não se importava, achava cada detalhe da sua pele queimada bonita.

Depois prosseguiu:

“Jurava que não ia acontecer comigo, porque fiz de tudo para evitar. Respirava em função do tratamento, que era justamente para evitar esse tipo de problema. Usava uma malha com placas de silicone por dentro, dia e noite. E caramba, a gente vive num país tropical, os verões eram tão difíceis…

A minha pele não respirava, sentia como se estivesse literalmente cozinhando. Era uma sensação extrema. Sair de casa era um castigo. E escolhi não desistir da faculdade, comecei a estudar mesmo durante o processo de cura.

Surtei tantas vezes, era intolerável. Entrava em crises devastadoras e tão dolorosas que minha mãe chorava comigo. Eu chorava de calor. Como um recém-nascido incapaz de dizer à mãe qual é o problema. E não tinha nada que pudéssemos fazer sobre isso. Era simplesmente pavoroso. Essas situações acabavam comigo. Me destruíram pouco a pouco por dentro.

Mesmo com as dificuldades, continuei me dedicando ao máximo e fazendo tudo ao meu alcance e além para o meu tratamento e recuperação. Os dias de aplicação de corticoide era o inferno na terra, nunca sofri tanto na vida, nunca senti tanta dor e olha que estava dopada e anestesiada. Doía muito. E tive que enfrentar cada aplicação.

Meus pais sempre me levavam para tomar picolé depois das sessões, me mimavam para ajudar a suportar a dor. Eu aceitava e comia chorando, mas sabendo que estava fazendo de tudo para cuidar de mim. Depois me matava de culpa, por causa do passado… Por muito tempo me machuquei com meus arrependimentos, sentia que era merecedora do que havia acontecido comigo. Sempre encontro um jeito de me sabotar.

Depois de meses, a minha pele começou a piorar muito. Me lembro de várias noites repetidas onde acordava, tomava um banho frio e me olhava no espelho encarando aquelas malditas cicatrizes que a cada segundo ficavam mais altas e vermelhas.

Era uma frustração sem igual. Mas era isso e ponto. Eu sabia que estava dando o meu melhor, estava ciente que não havia mais nada a se fazer além de aceitar o processo e tentar conviver com ele.

Era isso… eu tinha que me aceitar.

Continuei insistindo, esforçando-me ao máximo. Apenas queimados compreendem os desafios intensos da recuperação, o quão árduas as situações podem se tornar… e não é de se esperar o contrário, afinal sentimos literalmente na pele. Uma das valiosas lições que aprendi durante esse processo é que está tudo bem. Nem sempre as coisas acontecerão conforme planejamos, mesmo quando nos empenhamos ao extremo, e está tudo bem.

Dei tempo ao tempo, ele era o melhor remédio. Parece que tudo foi se encaixando, entende? Primeiro as coisas pioram muito para depois voltarem a melhorar, é tudo muito imprevisível.

Tempo, esperança e persistência no tratamento me ensinaram a aceitar que nem tudo está sob meu controle. Adquiri paciência em relação ao meu corpo, compreendendo que ele opera da maneira que sabe, não da maneira que desejo. Surpreendi-me com a capacidade do meu corpo de se regenerar diariamente, dando o seu máximo para se renovar a cada dia. E acho que muita gente não reconhece essa capacidade, sabe?”

Kalliope deu de ombros e sorriu sem graça, encarando a água azul que ondulava sutilmente, os dedos de Leonidas apertavam os seus com força. Foi mais fácil assim, lhe deu o sopro de coragem que precisava para enfrentar isso. E falar sobre o que aconteceu era muito bom, pois a fazia ver o quanto já enfrentou e evoluiu.

— Amo minhas cicatrizes. Elas são uma parte essencial de quem sou. — Ela sorriu enquanto divagava, tocando de leve as elevações em sua perna. — Foi preciso passar por tudo isso, para eu perceber que nosso corpo é feito de muitas histórias. Sempre noto o olhar das pessoas para a minha pele, no quanto essas cicatrizes podem soar assustadoras. Alguns me questionam se não tem uma cirurgia para “melhorar” deixar mais “agradável”. Fico irritada com esse tipo de comentário. Caramba, isso aqui é a minha história, trágica ou não é a minha história! A minha evolução. Meu renascimento. Sou tão grata por cada detalhe da minha pele cicatrizada. Isso é o que meu corpo pode fazer por mim, é simplesmente surreal. Não poderia esperar nada melhor do que isso. Não quero me submeter a cirurgias dolorosas para ficar com a pele bonita. Eu quero as cicatrizes da minha pele queimada. O que as pessoas chamam de defeito é, na verdade, o que me torna única.

Orgulho. Leonidas sentiu um calor o preencher ao ouvir Kalli proferir palavras tão poéticas e maduras. Só alguém que passou por algo assim poderia ter a capacidade de enxergar a vida desse modo. E ele, embora o causador dos ferimentos de Kalliope, podia a compreender completamente. Pois havia passado por uma situação semelhante.

Os dois eram feitos das mesmas cicatrizes, forjados da mesma infelicidade. Em meio às cicatrizes compartilhadas, se reconheceram como almas que sobreviveram às mesmas batalhas.

— Kalli, a sua pele é linda. — Disse Leonidas, tocando o braço da moça novamente. — São como tatuagens e são do caralho.

A moça abriu um sorriso imenso. Leonidas não sabia muito o que dizer, mas pelo sorriso no rosto da garota, seu comentário deveria ser o suficiente. Era a história dela e ponto final. Mesmo que compartilhassem um passado doloroso, cada um tinha seu lado da história e dores únicas.

— Estou feliz por você estar aqui agora. — Ela segredou, aos sussurros.

Leonidas a encarou surpreso, por tanto tempo desejou que Kalliope ao menos encarasse sua face sem sentir repulsa. Que pudesse vê-lo com o carinho que sempre carregou em seu ser. Para Leonidas, Kalli era um exemplo de ser humano a se seguir. E mesmo sabendo de toda sua bondade, nunca esperou que seria perdoado pela moça, muito menos ser querido por ela.

— Isso é tão importante para mim. — Confessou, sentindo uma mistura de alívio e embaraço. — Eu… me culpei por muito tempo.

— É importante para mim também… — Kalli respirou fundo, voltou seus olhos castanhos para as orbes verdes do rapaz e cheia de ressentimento, revelou: — Você não foi me ver depois do acidente.

Isso o deixou sem ar. Kalliope sabia que no instante que o acidente ocorrera, Leonidas foi impedido de ter contato com ela. Mas regras nunca foram capazes de contê-lo. Ela esperava mais de alguém que havia cometido tais erros e a ferido tão profundamente, quase provocando sua morte.

— Você queria me ver? — Ele quis saber.

Ela ponderou.

— Na verdade, não. Mas mesmo assim, esperava um pouco de consideração depois do que aconteceu… — Confessou.

— Eu fui, sim, mas você estava dormindo. Foi melhor assim, na minha cabeça você não iria querer me ver nunca mais, nem pintado de ouro… — Confessou, as maçãs de seu rosto estavam quentes.

— Sua mãe te entregou o Rocket? — Kalli quis saber.

— Foi você? — Leonidas semicerrou os olhos, desacreditado.

Kalli sorriu assentindo.

— Ela veio se despedir, disse que não nos veríamos mais, então pedi que te entregasse. Sei lá, acho que não queria que você se esquecesse de mim.

A confissão fez Leonidas ficar muito surpreso, afastou-se para conseguir ver com perfeição o rosto da dentista. Rocket Raccoon era o guaxinim de pelúcia do personagem de Guardiões da Galáxia. Certa vez, foram ao shopping e pegaram a pelúcia juntos em uma máquina. Foi aí que Kalli determinou que enquanto Leonidas estivesse segurando o Rocket, ele não poderia ser maldoso. E sempre funcionava. Eram seus melhores momentos juntos. Sem falar que tinham o favoritismo mútuo nesse universo de heróis em específico. E semelhanças entre os dois, naquela época, eram pouco prováveis.

— Foi você… — Sussurrou em afirmação e incrédulo. — Acordei num dia qualquer e o Rocket estava ao meu lado. Pensei que minha mãe tivesse trago por vontade própria.

Kalli negou balançando a cabeça sutilmente, seus fios curtos respingaram água.

— Foi um pedido meu.

— É. Foi você. — Repetiu desacreditado. — Como fui burro ao ponto de não perceber?

— Você me odiava demais para deduzir isso… — Riu sem graça.

— Não fala assim. — Leonidas baixou os olhos, triste em saber que um dia foi um ser humano tão horrível.

— É a verdade. Mas tudo bem, pelo visto a gente já superou isso. — Kalli deu de ombros e Leonidas sorriu.

— Definitivamente sim.

A dentista respirou fundo e ponderou se deveria ou não continuar o assunto do acidente com Leonidas. Então soltou:

— Aquela noite-

— Por favor, não consigo falar sobre isso hoje. Me desculpa. É o meu limite. — O desespero na voz do músico era tão grande que Kalli morreu de arrependimento de ter começado a falar sobre isso.

— Ah, sim, entendo. Desculpa. — Respondeu desajeitada.

— Não, nós podemos chegar nesse assunto, só não hoje. Entende?

— Sim, tudo bem. — Kalli assentiu, sem ressentimentos.

— Depois desse assunto tão doloroso, me sinto na obrigação de desenhar memórias mais felizes com você. — Kalli ouviu atentamente, ergueu uma sobrancelha sem entender o que Leonidas queria dizer. — Começou a temporada de concertos no trabalho. Que tal vir assistir a um comigo? É por minha conta.

Kalli adorava os concertos da Orquestra Filantrópica de Vera Marine, eram realizados num teatro com uma arquitetura incrível que marcava a história da arte da sua cidade. Havia comparecido a alguns shows, mas fazia muitos anos. Saber que esse era o trabalho de Leonidas, tornava tudo ainda mais atrativo.

— Ah, eu não sei…

— Ei, nada de fugir. — Repreendeu Leonidas. — Não aceito não como resposta.

— Er… “não”. — Brincou Kalli e gritou quando o rapaz lhe tascou um beliscão no braço. — Aí! — Massageou o local fazendo uma cara de dor.

— Amanhã, às 20h, a última sessão da noite, você já vai ter chegado do estágio. Ouvimos o concerto e voltamos a tempo de nadar. — Determinou Leonidas, impossibilitando a garota de recusar. Ela só tinha uma opção, ir e pronto.

— O que foi? Esqueceu que não posso falar não? — Kalli fez uma cara emburrada, mas a verdade é que estava contando os segundos para o dia seguinte. — Ah, e eu ouvi a sua música. Pode postar no seu canal, ficou incrível.

Leonidas não sabe explicar o motivo, mas seu rosto ficou quente.

— Tinha me esquecido disso. — Ah, sim, aquela canção que gravou propositalmente para Kalliope e fingiu que era pro seu perfil online.

— É sério, você canta muito bem, fico impressionada. — Confessou a moça com o semblante impressionado.

— Valeu mesmo.

— E quem era o cachorro no fundo do vídeo? — Quis saber, curiosa.

— Putz, um carinha muito importante para mim. — Um sorriso imenso apareceu em seus lábios. — O nome dele é Juca.

— Mentira que você tem um cachorro?! Sua mãe detestava animais. — Lembrou a dentista. Seu sonho era ter uma calopsita, mas sua mãe não deixou na época, por causa de Marilia.

— Mas ela ama o Juquinha. Mima ele que só. Você precisa conhecê-lo, vão se dar bem. — Comentou o rapaz, já imaginando que dia isso iria acontecer. — Ele é um flat-coated retriever. Extremamente amigável, extrovertido e cheio de energia.

— Você gosta dele mesmo. — Notou Kalli, notando a animação que o rapaz falava de seu cãozinho. Os olhos chegavam a brilhar.

Leonidas desatou a falar sobre o animal e após isso terminaram a noite fazendo uma mini guerrinha de água. A forma como riram pareciam muito uma nova memória feliz sendo desenhada.

Mais tarde, deitada em sua cama, Kalli percebeu que não estava mais sentindo dores de estômago. Sentia-se leve e exibia um sorriso bobo no rosto, logo percebeu que o jogo de perguntas e respostas não aconteceu de fato. Foi então que caiu a ficha de que estavam prestes a ultrapassar as margens da piscina.

“Eu nunca te esqueci, Kalli”, foi o que Leonidas sussurrou ao pé de seu ouvido quando se despediram naquela noite.

 

você foi a única a visitar minha escuridão
você era o caminho mais brilhante
você podia ouvir seu coração
diga-me, o que ele disse?
eu era um pássaro, você abriu a gaiola
me senti como uma página branca limpa
você veio
você acende meus dias, meu Sol pessoal
mostrando-me todas as formas em que eu poderia cair
você me fez sentir novo
eu estou batendo, estou chocando diretamente em você
baby, sinta-me bater
crashing into you, vance joy

 

[1] Clair de Lune foi composta em 1905 por Claude Debussy.

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