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Me encontre em meio a minha dor
10 ANOS ATRÁS
Sábado, 22 de fevereiro de 2014
Kalliope 14 anos | Leonidas 12 anos
Dor. Era tudo que Laura Antonelli conseguia enxergar nos olhos daquela criança. Uma amargura lasciva a ponto de ser palpável. Leonidas estava sentado no chão, com as costas apoiadas na parede repleta de trepadeiras na varandinha charmosa da fazenda de seus avós maternos.
— Você gosta de suco de laranja, Leo? — Perguntou a mulher que se abaixou na altura do rapaz. — Fiz para você. Está bem geladinho, é um paraíso nesse calor. — Laura ofereceu, exibindo a bandeja de copos para o rapaz.
O menino manteve-se abraçado aos joelhos e sequer desviou os olhos para dar atenção à mulher, concentrou-se em mirar o pequeno jardim à sua frente onde sua mãe erguia a enteada para que alcançasse o fruto mais maduro, localizado nas galhas mais altas da laranjeira. Elas se davam tão bem, Kalliope era a filha que sua mãe tanto merecia e isso lhe causava o mais puro ódio.
Não é que ele não gostasse de laranjas, mas o perfume adocicado das flores de laranjeiras trazia à tona as lembranças desse lugar, onde por tanto tempo viveu seus melhores momentos na companhia de seu pai. Paulo Vitorino costumava explorar esses mesmos jardins na companhia dos filhos, visto que essa é a fazenda onde seus sogros vivem. Agora estão de visita num típico domingo à tarde, após juntos desfrutarem de um bom almoço nostálgico de casa de vó. Entretanto, duas pessoas ali presentes, não eram peças do quebra-cabeça favorito do menino.
Leonidas costumava adorar a Fazenda Canto do Pássaro, era olhar para o gramado que se via jogando bola com seu irmão mais velho e o amado pai. Como é de se esperar, via seu genitor como um exemplo para si. Perdê-lo foi como sofrer uma amnésia severa, esquecendo-se completamente de quem era e como deveria se portar.
Sua mãe agora namora uma mulher e moram juntos de Laura e sua filha, devido à grande mudança, vieram apresentar os novos integrantes da família para seus avós e toda essa situação está o matando de dentro para fora. Ele só queria não existir. Pensava estar preso num tipo de pesadelo tortuoso e só queria acordar.
Estar aqui doía como o inferno. Eram memórias invadindo sua mente e fazendo-o engolir a força, o choro lhe apertava com nó grosso em sua garganta. A piscina, os cachorros caramelos, o pomar, as flores, bolos de laranja saindo do forno e a panela de doce de mamão para raspar, o faziam enfrentar uma dor física lasciva.
Paulo estava em todo canto e agora Laura parecia ter sido selecionada para o substituir pouco a pouco. Leonidas carrega consigo a tola convicção de que sua mãe insistia na necessidade de uma família, tornando ainda mais doloroso o confronto com a realidade de tentar substituir alguém insubstituível. Era um desrespeito com Paulo. Óbvio que não era essa a intenção de Marilia, mas era isso o que ocorria dentro da cabeça do rapazinho.
Leonidas até se esforçava para não encarar os fatos de tal maneira, mas às vezes parecia impossível. Talvez se seu irmão estivesse aqui, as coisas seriam melhores. Contudo, assim que seu pai veio a óbito, o rapaz fugiu, tomou a decisão de morar com os avós paternos em outro estado e nunca mais procurou pelo irmão mais novo. É certo que Leandro é 10 anos mais velho e estava numa fase completamente diferente, mas havia descartado a sua família como se nunca tivessem significado nada. Embora preferisse o pai em algumas ocasiões, amava muito a sua mãe e não conseguia imaginar abandoná-la.
Não negaria que a atitude do irmão o fez questionar se o certo seria agir como ele, desaparecendo no mapa. Será que era um meio mais viável de acabar com a dor? Ele esperava que sim, que seu irmão, o seu herói sem capa, não estivesse sofrendo como ele estava.
Não dava para suportar, não importa quanto tempo se passasse, viver em um mundo sem o seu pai era uma sentença. Esses sentimentos certamente o tornavam amargo.
— Leonidas? — Laura chamou sua atenção e cometeu o terrível erro de tocar suavemente no braço do menino, que imediatamente reagiu como uma fera selvagem.
— Me deixe em paz! — Leonidas rosnou, seus olhos se tornaram sombrios, seu rosto petrificou-se em uma expressão agressiva.
— Leonidas, eu só…
— Eu disse para me deixar sozinho! — O menino gritou empurrando Laura e fazendo-a cair para o lado, a bandeja em sua mão desequilibrou e foi ao chão, estraçalhando os copos de vidro. — Vá se ferrar com a porra do seu suco de laranja!
Sua explosão de fúria ecoa pelo jardim, atraindo a atenção de todos e deixando Laura chocada e atordoada com a intensidade de suas palavras. Ela fica em silêncio por um momento, processando a profundidade da dor e do sofrimento que Leonidas está enfrentando. Doía no fundo da alma, ver uma criança passando por essa situação.
— LEONIDAS! — Ouviu sua mãe gritar em repreensão enquanto corria na direção do alvoroço.
Laura pensou em ser mais rápida, não queria que a mãe do menino o repreendesse por sua causa, só causaria mais afastamento entre eles. Na tentativa de se erguer, sua mão escorrega na cerâmica molhada de suco e um caco de vidro lhe perfura. A mulher grita de dor e Leonidas fica em choque, com os olhos completamente arregalados.
— Ai, meu deus, Laura! — Marilia se choca ao ver o sangue escorrendo.
Do outro lado da varanda, seus avós sentados em uma das mesas de piquenique encaravam a cena boquiabertos, seu avô arrastou a cadeira com os joelhos ao se colocar de pé, pasmo.
A dentista segurava as lágrimas nos olhos devido à dor da perfuração. Sua mão tremia enquanto a namorada tentava avaliar a gravidade do ferimento.
Uma expressão de choque e arrependimento toma o rosto do rapaz, fazendo-o perceber o que havia feito, mais uma vez feriu alguém inocente que só estava tentando ser legal. Quando não proferia palavras, apelava para atitudes irreversíveis. Diante dos rostos ao seu redor, ele pode enxergar mais uma vez o que causava nas pessoas que amava: a mais pura decepção.
Todos os olhares estavam sob ele, repreendendo, odiando-o por se tornar um pesadelo em suas vidas. Já não bastava terem perdido alguém tão querido, Leonidas tinha que se esforçar para ser uma pessoa horrível, tornando tudo mais difícil, mais doloroso. O pior disso tudo é ainda ouvir as seguintes frases: “seu pai estaria tão decepcionado”.
Decepção… Leonidas Vitorino é um desgosto.
— Eu sinto muito… — Sussurrou, baixo demais, mesmo assim Laura o ouviu. — Me desculpe. Eu não queria… Eu não queria que isso acontecesse. Eu não queria machucar você.
O desespero tomou conta do menino que ardia em remorso. A madrasta notou seu olhar de pesar, encarando o sangue que pingava no chão e manchava o vestido que trajava.
— Está tudo bem, Leonidas. — Laura disse já sendo acudida pela namorada que se dispôs a erguê-la do chão. — Foi uma atitude impulsiva, mas você não fez por querer. Sei que não fez.
Queria machucá-la? Não sabia de fato a resposta, considerando que queria que todos e tudo ao seu redor explodissem. O luto vem de maneira única para cada pessoa, mas parecia que para ele era pior.
— Vou pegar a caixa de primeiros socorros. — Disse seu avô, de repente, no mesmo instante se infiltrando dentro da casa e rumando até a cozinha.
— Está tudo bem, Leonidas. Sei que você está passando por um momento difícil. Mas precisamos encontrar uma maneira de lidar com isso juntos. — Laura pensou que poderia aproveitar o sentimento que o domava para conseguir uma resposta positiva.
— Não, não está tudo bem! Leonidas, isso é inadmissível! Não dá para tolerar agressões, ainda mais contra uma mulher! Pelo amor de deus! Eu não te criei assim! Não te gerei por nove meses para que você fosse me causar tamanha a decepção de bater em uma mulher. — Disparou Marilia, colérica. Laura conteve a namorada, tocando gentilmente seu ombro, evitando que ela fizesse aquilo que mais temesse.
— Mari, tá tudo bem, por favor, não briga com ele. — Suplicou.
E mesmo assim Laura o defendia, e Leonidas detestava que o fizesse, porque seu pai faria o mesmo por si. Ela não tinha esse direito. No entanto, não conseguia enxergar que essa era Laura sendo Laura, uma mãe como qualquer outra. Alguém que, uma vez estando com sua mãe, queria se aproximar dele e incluí-lo numa possível família. Não porque ele perdeu o pai, e sim porque deveriam cuidar uns dos outros, é o que as famílias fazem. E após enfrentar uma separação tão dolorosa e finalmente encontrar alguém incrível como Marilia, Laura só queria que tudo desse certo. Só queria ser feliz e sua felicidade estendia-se em ver todos ao seu redor bem.
No entanto, Leonidas Vitorino não queria nada disso. Ele não queria uma família. Não queria uma irmã. Não queria outra mãe. Tudo o que realmente queria é o seu pai de volta. A vida, por vezes cruel, nos arranca aquilo que mais amamos e nos envolve num sufocante ciclo de dor.
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Naquele dia desastroso, o clima ficou severamente deplorável, sua mãe já havia falado um monte na sua cabeça, mesmo que Leonidas soubesse que o que havia feito era muito grave. Já havia pedido desculpas novamente e se encontrava calmo, frio e distante, perdido em seus próprios pensamentos. Todavia, era o olhar de Kalliope que mais lhe acusava, a maneira cruel como ela lia na face do menino o rótulo de assassino, mesmo que não tivesse matado ninguém.
Leonidas não poderia julgá-la, agiria da mesma forma se alguém machucasse sua família. O rosto de Laura permaneceu pacífico para si, mesmo possuindo uma mão enfaixada com pontos de sutura que precisou levar de sua nova sogra, que para sua sorte era uma enfermeira aposentada. E aquele maldito corte era um lembrete constante do que Leonidas havia feito e isso iria persegui-lo para sempre.
Chegaram ao apartamento da cirurgiã-dentista e Marilia se dispôs a cuidar da namorada machucada, os adolescentes foram deixados sozinhos na sala.
Se encararam por alguns instantes, podia-se notar o ódio fervilhando as veias de Kalliope. Suas pálpebras tremiam, mas isso não era o suficiente para intimidar o destemido Leonidas Vitorino.
O rapaz planejou deixar o recinto, mas viu a filha de sua madrasta avançar e ficar cara a cara consigo.
— Você pode ser o quão idiota quiser, Leonidas. Grite palavrões, responda de maneira grossa, estrague as minhas coisas, quebre o que quiser na casa, recuse-se a comer, beber, viver… faça a merda que quiser, mas não vou tolerar que machuque as pessoas. — Resmoneou, o nariz enrugado assim como a testa e as sobrancelhas arqueadas. Coragem, era o que resumia Kalli naquele momento, pois na maioria do tempo ela tinha medo do seu irmão de consideração. — Da próxima vez que você machucar alguém, sou eu quem vou te ferir. Posso parecer boba, mas não sou fraca. E se for preciso, chamo a polícia para você. O reformatório lhe cairá bem.
Leonidas ouviu tudo atentamente, se encararam com ódio, a guerra fora selada no segundo que se conheceram, mas até o momento Kalli se demonstrou o cordeirinho e Leonidas o felino que brinca com as refeições. Um sorriso esbaldando sarcasmo surgiu em seus lábios.
— Você quase… quase me intimidou, irmãzinha. Mas sério, a performance de garotinha má não combina com você. Deixe o papel de vilão para mim, falou? — Respondeu, cheio de sarcasmo.
Kalli tremeu de ódio, mas escolheu não revidar, não valeria a pena iniciar uma briga e causar mais problemas aos seus pais. Leonidas deu-lhe as costas e sumiu do seu campo de visão.
Ele poderia não acreditar, mas Kalliope acreditava nela mesma o suficiente para levar sua intimidação a sério. Felizmente, por um longo tempo sua ameaça nunca precisou ser cumprida, Leonidas aprendeu com os danos da sua explosão e nunca mais se descontrolou a ponto de ferir alguém fisicamente…
Até aquele catastrófico dia.
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DIAS ATUAIS
Segunda, 6 de maio de 2024
Meia-noite.
15 minutos de atraso. Segurou a respiração debaixo d’água. Sentia-se uma verdadeira idiota por confiar na promessa feita por aquele garoto. Odiava o fato de estar decepcionada por Leonidas não vir. É certo que faziam duas semanas que nadavam juntos e ele não falhou nenhuma vez sequer, até agora… Kalli queria se estapear.
Um minuto depois emergiu e assim que alcançou a superfície, deparou-se com o rapaz na ponta da piscina, desfazendo-se de suas vestes.
A sensação de decepção foi imediatamente substituída por um frio na barriga, e a ansiedade de passar as próximas horas com seu mais novo “colega” fazia-a sentir-se como uma adolescente. Era surpreendente demais o fato de que estavam fielmente comprometidos com a natação (para não dizer um com o outro).
Kalli não era boba, ela estava plenamente ciente disso… e estava dando espaço.
Aquela água-viva estava prestes a queimá-la.
Durante os dias que se passaram, trocavam poucas palavras, quando conversavam era sobre coisas banais como o clima, técnicas de natação, temperatura da água… nada que durasse mais de 5 minutos. A cada dia, Leonidas se aproximava um pouquinho mais. O silêncio curava aos poucos os sintomas de rancor entre eles, embora os assuntos pendentes ficassem cada vez mais incômodos de suportar. Era uma dualidade de sentimentos estranhos, nenhum dos dois sabia muito bem como agir. O penhasco entre eles era imenso, inalcançável. Ignorar a situação parecia o mais inteligente a se fazer, até o momento.
Leonidas exibiu sua sunga preta com listras azuis nas laterais, agora vinha preparado para a natação, surpresa é que a água aquecida, mesclada aos exercícios, ajuda muito na dor crônica que ele sente na perna. Algumas vezes, Kalli se pegou ensinando alguns truques para ele, como quando eram crianças. Essa parte trazia uma boa nostalgia, pois eram os únicos momentos que se davam bem.
Após trocarem um cumprimento despretensioso, nadaram um pouco, Kalli reparou que Leonidas estava pouco empenhado e teve certeza quando se deparou com o corpo do rapaz flutuando. Encostou-se ao beiral, sustentando seu corpo dentro da piscina, mantendo apenas a cabeça de fora e o observou. Tinha alguma coisa de errado com ele…
— Pensei que não viria hoje. — Kalli se arrependeu do comentário no instante em que sua voz deixou seus lábios. Estava trêmula de nervosismo, no fundo, no fundo, era mais um pretexto para puxar assunto.
— Eu disse que não pretendia me afastar. — Respondeu, um pouco ríspido, Kalli se contraiu assustada.
O Leonidas do passado era um dos seus maiores gatilhos e isso não passou despercebido. O rapaz mergulhou e nadou até a dentista, apoiando-se igualmente no beiral, lado a lado.
— Não estou te cobrando nem nada, só não esperava que estivesse falando sério. — Deu de ombros.
— Acho que faz duas semanas, né? — Respondeu, dando a entender que já havia provado suas intenções a ela.
— Eu sei… deixa para lá… — Desconcertada, Kalli se soltou do beiral e planeou mergulhar, mas foi contida a tempo pelo rapaz, que segurou sua mão e a puxou gentilmente de volta.
— Para de fugir. — Soltou, simplesmente.
— Fugir?
— Sim, de mim. Você tem medo de mim.
— Será que é por que sempre que estamos juntos acaba em briga? Não quero que um acidente como aquele aconteça de novo. — Kalli confessou, como um desabafo.
— Não vai. — Leonidas garantiu, com a voz firme. Não queria falar naquele assunto, não agora… — Isso foi há não sei quantos mil anos. Eu já disse que não sou mais aquela pessoa. — E novamente Leonidas apertava a mesma tecla, ele só queria trocar de disco logo.
“6 anos”, pensou Kalli. Faz 6 anos…, mas é como se fosse ontem.
— Não faz tanto tempo assim. — A dentista respirou fundo, seu coração estava batendo tão forte, não compreendia todas aquelas sensações que Leonidas lhe causava.
— Me dá uma chance. — Leonidas pediu.
Esse papo emocional deixava Kalli muito surpresa. Ele nunca, jamais, era aberto e tão sincero assim. A nova versão de Leonidas Vitorino a assustava e muito. Era como se a qualquer momento o vulcão fosse entrar em erupção e Kalliope seria devorada por lava fulminante.
— Tá. — Kalli simplesmente deu de ombros, parece que trocaram de lugar, agora ela era a insensível. Mas isso era só um disfarce.
— Então… agora somos “amigos”? — Sugeriu Leonidas.
Kalli arregalou os olhos, totalmente surpresa.
— Eh… bem…
— Não sei se quero ser seu amigo… — Leonidas soltou, removendo a palavra “só” que deveria ficar entre as palavras ser e seu.
Kalliope ficou surpresa com a declaração. Se encararam profundamente, até que ela notou algo no rosto do rapaz que não pode decifrar e isso a deixou ainda mais trêmula. Vitorino estava envergonhado, todo sem jeito. Ok, o que isso significa?
— C-como assim? — Kalli gaguejou e engoliu seco.
Leonidas deu risada.
— É brincadeira. Somos amigos e você não pode se opor a isso, sabe por quê? Eu vou te colocar no pedestal de amiguinha agora mesmo. — Disse o rapaz, em tom de brincadeira.
— Ah, é? Como pretende?
— Falando da minha vida pessoal. — Leonidas ergueu uma sobrancelha numa expressão confiante, jogou os pés contra a parede e saiu nadando de costas, batendo as pernas e os braços suavemente. — Aconteceu um milagre na minha vida. Eu consegui me formar no ensino médio.
Se entreolharam como se a informação não fosse relevante, mas aí Kalli explodiu numa gargalhada alta e Leonidas a acompanhou.
— É sério, Kalli. Me formei no ensino médio!
— Para de ser mentiroso.
— Eu juro. — Fez um “x” com os dedos e selou o juramento com um beijo.
Kalli fez drama, cessando sua risada e assumindo uma careta séria. Leonidas Vitorino levou três bombas seguidas, parecia impossível que um dia ele fosse se formar. Dizia constantemente que não dava a mínima para a escola. Inúmeras vezes Laura pediu para que a filha ajudasse o irmão-postiço, é claro que sem sucesso e sempre terminavam em brigas violentas. Leonidas e Kalli no mesmo lugar era morte na certa.
— Parecia mesmo impossível, mas aconteceu e se liga só, entrei numa faculdade e até consegui um emprego. — Contou ainda no teatrinho dramático do ‘curioso caso da impossível vida acadêmica de Leonidas’.
— Não brinca!
— Juro! Eu trabalho na orquestra filarmônica da nossa cidade. — Confessou, orgulhoso de si mesmo.
Kalli ergueu as sobrancelhas, surpresa. Lembrava-se perfeitamente da paixão do rapaz pela música. Ela mesma implicou com ele inúmeras vezes, quando insistia em passar horas dedilhando o maldito violão só para irritar a menina.
— Uau!? Definitivamente não esperava. Quero dizer, sabia que amava música, só não imaginava que tomaria como profissão, estou impressionada… — Comentou Kalliope.
— Pois é, nem eu. No fim das contas, não consegui fugir do chamado do meu coração. Estou no terceiro ano da faculdade de música e esse é o meu primeiro estágio na área. Não é bem o que queria, mas dá pro gasto. O que quero mesmo é morar sozinho e para isso precisava de um emprego. E sem falar que toda experiência é bem-vinda, é uma merda ter o currículo vazio. — Contou e para sua surpresa encontrou sua vizinha bastante interessada no assunto. Kalliope veio nadando cachorrinho até si, agora se encontravam apoiados na borda do outro lado da piscina.
— E com o que você quer trabalhar de fato? — Quis saber.
— Meu sonho é ser produtor e compositor musical. — Revelou soltando a respiração, como um sonhador. — Eu só preciso da música para ser feliz, mais nada. Nunca sonhei em ser cantor de fato, como muitos imaginam, embora use isso para ganhar mais grana, a questão é, fico feliz mesmo atrás do palco, entende?
— Isso é incrível. — Kalli sorriu, achando Leonidas um fofo quando sonhador. — Então quer dizer que você também canta?
— Sou cantor de bar nas horas vagas, como um freela, saca? — Revelou e viu imediatamente o espanto estampado no rosto da dentista.
— Isso é demais! Nunquinha imaginei que você se apresentaria em público, tinha tanta vergonha disso. — Disse a dentista, surpresa.
Leonidas nunca pensou que isso poderia ser tão surpreendente.
— Eu já superei isso. Na verdade, é muito bom, a música faz o meu coração vibrar. Sei lá, não dá para explicar. As pessoas curtindo meu som… é bom demais. Os bares são sempre bem tranquilos, fico no meu cantinho do palco, tocando meu violão numa boa. — Divagou o rapaz. — Aliás, qualquer dia desses você deveria ir lá curtir.
Kalliope ficou chocada, sua boca até se abriu perplexa.
— Eu entendi direito? Está me chamando para ir num bar? Com você? Para te ver tocando? — Não tinha como ela ficar mais espantada.
— E por que não? Não é isso que os amiguinhos fazem? — Leonidas deu de ombros, despretensiosamente. Mas seu coração estava pegando fogo. “Diga sim, Kalliope, apenas diga sim”. — Ah, espera, esqueci que você é completamente workaholic.
— O quê? Não! — Balançou a cabeça em negação. — Não sou viciada em trabalho.
— É sim. — Leonidas afirmou num ar convencido que irritava a nadadora.
— Não sou. Às vezes eu… saio…
— Ah, é, para onde?
— Eh… para a casa do meu pai. Ou no shopping com meu irmão.
Leonidas gargalhou debochadamente.
— Puxa, Kalli.
— Não enche! É difícil para mim, tenho que estudar muito. Acordo cedo todos os dias para ir ao hospital. Não é fácil… não é como se eu pudesse ter uma vida. Não ao menos até alcançar meus objetivos. — Divagou suspirando.
— Na moral, sei que leva sério sua profissão, mas poxa… se permite viver um pouco. Vai te fazer um bem danado. Tem noção que você já conquistou muito? Já fez faculdade, faz um estágio bacana. — Era novidade ouvir Leonidas falando assim.
— Pelo visto somos amiguinhos mesmo, já está até me dando sermão. — Kalli fechou a cara, irritadiça.
— Foi só um conselho. — O rapaz deu de ombros recebendo um revirar de olhos.
Kalli não tinha motivos para discordar dos contrapontos postos por Leonidas, portanto se deu por vencida, soltou os ombros numa respiração profunda.
— Tá.
— Tá o quê?
— Tá, eu vou ao seu show. — Revirou os olhos novamente, como se pouco importasse.
— Está falando sério, loira? — Leonidas ficou espantado.
— Arram. Quem sabe um dia… — Era mentira, não planejava ultrapassar a relação deles além das margens dessa piscina. Mas Leonidas sequer percebeu.
— Suas afirmações curtas e implícitas me assustam para um cacete. — Confessou o rapaz, com os olhos arregalados. — Mas sabe de uma coisa? — A curiosidade fez Kalli olhar em seus olhos. — Sinto um orgulho do caramba por você, fada do dente.
Seu rosto se tornou fogo, Kalli baixou os olhos envergonhada. O que ela poderia dizer? Se tem uma coisa que não sabe é receber elogios. E aquele maldito apelido quando dito por ele, causava uma alquimia insana no seu cérebro e embebedava o seu coração. Para quebrar aquela bolha vergonhosa, soltou sem mais nem menos:
— Como você sabe tudo sobre a minha vida, hein? — O pensamento absurdo simplesmente escapou, só agora tinha se dado conta que nem se deu ao trabalho de contar o que conquistou. Leonidas sabia de tudo!
E o rapaz ficou surpreso, foi pega no flagra.
— Bem… digamos que eu entrava no seu Instagram de vez em quando. Só para ver se estava tudo bem, sabe? — Sorriu amarelo, assustado.
A boca da garota se abriu em um ‘o’ perfeito. Ela gaguejou, buscou palavras, tentou, tentou e não soube o que dizer. Leonidas Vitorino a deixou sem palavras. Sem ações. E até sem pensamentos. Pelos céus!
Ele se importava e isso era demais para si. Impulsionou o corpo para trás e ondulou até o lado mais fundo da piscina, ao emergir parou pensativa, apoiando o queixo em suas mãos unidas sob o beiral. À sua frente estava a saída, Kalli encarou a penumbra do lado de fora, pensando como deveria agir diante dessa informação.
Isso muda tudo.
O que significa?
Não demorou para sentir o calor do seu parceiro de natação ao seu lado.
— O que foi? — Leonidas questionou, com muitíssimo cuidado.
— Só estou pensando.
— Eu não sou um psicopata. Juro. Era só… sei lá. — Defendeu-se.
Culpa.
Ele só queria ver se Kalli estava bem. Se conseguiu seguir em frente. Se sobreviveu psicologicamente a todo estrago que causou.
— Eu sei. Não é isso… — Kalliope estava de olhos fechados, ela não podia encarar os olhos verdes de Leonidas.
— Então é o quê? — O rapaz insistiu. Tinha algo ali e ele não seria doido de não pressionar para descobrir o que é.
— Nada.
— Fala.
Kalli ponderou, fechou os olhos com força, sentiu um nó na garganta e não fazia ideia do porquê disso. Reuniu coragem e soltou:
— Você estava triste hoje? Antes de conversarmos. — Engoliu seco após dizer, retraiu-se amedrontada.
Alcançou uma linha extrema com Leonidas, ou ele sai correndo agora…, ou…
— Não chegamos a esse ponto na nossa amizade.
Ele vai correr, meu deus. O coração de Kalli parecia que iria explodir. É agora que ele te deixa. É agora que esse surto de duas semanas acaba e sua vida volta aos trilhos. “Por favor, vá embora Leonidas”. Vá embora antes que esses sentimentos transbordem nessa piscina.
— Leonidas, eu… — Impediu-se de falar mais alguma coisa.
Ele não queria fugir… não queria nem por um segundo que Kalli se afastasse de si. Não queria perdê-la. Só havia uma alternativa…
Abrir seu coração.
Ou ele deixava Kalliope entrar na sua vida de vez, ou dava as costas e nunca mais se aproximava dela.
— É que hoje… — Engoliu seco, precisava de muita coragem para dizer. Tentou não pensar nisso e apenas prosseguiu: — Completa 13 anos desde que meu pai se foi. — Confessou e se sentiu tão estranho. Não era comum delatar seus sentimentos para outra pessoa, mas ali estava Leonidas, segredando suas dores para a última pessoa que imaginou contar. Sua mente ficou nublada, não sabia mais o que pensar ou dizer.
Kalliope estava estagnada, encarando os olhos marejados daquele rapaz e pensando como seria mais fácil se simplesmente pegasse aquela dor e colocasse em si, para que Leonidas não pudesse sentir.
Ele nunca havia falado sobre o pai, nunca. E olha que Laura esteve sempre ali naquela época, implorando para que Leonidas a deixasse entrar. E agora, ele cedia esse espaço para Kalli.
— Você quer… quer falar sobre isso?
— Você quer ouvir?
— Sim, eu quero.
Leonidas sorriu fraco, era algo muito profundo e requeria tantas forças que não sabia se seria capaz.
— Meu pai tinha CMH. Cardiomiopatia Hipertrófica. Mas a gente não sabia disso, até aquela maldita noite… Era uma sexta, dia 6 de maio de 2011, às 19 horas e 54 minutos. Eu poderia dizer até os segundos, porque… — Ele parou bruscamente, fechando os olhos como se sentisse uma dor insuportável.
— Porque você estava lá com ele. — Kalliope completou, constatando o pior.
— É, eu estava. — O olhar de Leonidas parecia vazio, encarando alguma coisa no além atrás de Kalli. — Hoje sei que ele teve alguns sintomas como falta de ar, fadiga, tonturas e dor no peito. Minha mãe insistia para ir ao médico, mas ele se recusava, dizendo que era só estresse do trabalho. Meu pai trabalhava demais, levava muito a sério seu compromisso com os alunos. Era professor universitário de matemática. — Leonidas riu. — Não é irônico? Sou filho de matemático e sou péssimo nisso.
Kalli sorriu, pouco sem graça, devido ao clima pesado.
— A CMH é uma condição na qual o músculo cardíaco se torna anormalmente espesso, o que dificulta o bombeamento eficaz de sangue para o resto do corpo. Em casos graves, pode causar arritmias cardíacas potencialmente fatais, como fibrilação ventricular, que pode levar à parada cardíaca e morte súbita… — Os olhos do rapaz estavam vermelhos, sentia todo o horror daquela noite como se anos não tivessem se passado. — Ele simplesmente infartou aos 45 anos.
— Leonidas, não precisa me contar… — Kalli sussurrou quando o viu vacilar, ele estava se esforçando ao máximo para não chorar.
— Eu preciso contar. Eu consigo. — Declarou, raivoso. Sentiu a mão macia de Kalliope envolver a sua e agarrou-se a isso para prosseguir. — Era o aniversário do meu irmão e iriamos comemorar numa lanchonete. Meu pai passou em casa para me pegar, mas esqueceu a carteira no trabalho. Então fomos até a faculdade, entramos e saímos do escritório dele numa boa. Quando estávamos no estacionamento, o telefone dele tocou, ele discutiu com alguém, minha mãe, eu acho… algo sobre estarmos atrasados. O casamento deles tinham algumas faíscas, mas no geral, era bom, ou ao menos, era o que eu pensava. E de repente, enquanto a acalmava dizendo coisas bonitas, ele sentiu uma dor muito forte e simplesmente caiu aos meus pés.
“Eu tinha 9 anos na época, era uma criança pouco esperta para esse tipo de situação. Fiquei lá gritando o nome dele, esperando que acordasse. Fiz o que via nos filmes, tentei reanimá-lo empurrando minhas mãos contra seu peito. Coloquei o ouvido no seu peitoral e… acho que nunca vou me esquecer.
Estava tão silencioso.
Eu soube que meu pai já não estava mais ali.
Foi quando me dei conta que minha mãe gritava ao telefone, ainda em chamada. E eu disse: “Mãe, o pai morreu. Meu pai morreu e eu vi tudo. O coração dele parou”. Inicialmente ela pensou que eu estava enganado, que meu pai só tinha desmaiado. Daí chamou uma ambulância e me mandou esperar ali, me disse para segurar a mão dele e não soltar. Me lembro de como a mão dele ainda estava quente, me fazendo questionar como poderia estar morto.
A ambulância chegou primeiro que a minha mãe e o meu irmão. Eles tentaram o reanimar ali mesmo, no chão do estacionamento aberto, me lembro de implorar a Deus que meu pai abrisse os olhos. Mas acho que Deus não podia fazer nada sobre isso. Não o culpo, nunca culpei. Não acho que Deus mata as pessoas, é outra coisa, é a vida, entende? Ele não seria tão bom se fosse esse cara que o pessoal diz: “Deus sabe o que faz, Deus quis assim”, não, caralho, não é Deus. É a porra da vida e o seu poder de nos fazer sofrer…
Minha mãe e meu irmão ficaram desolados. Só nos restava encontrar as respostas na autópsia, o diagnóstico veio e com ele a notícia de que a doença é hereditária. Negativo para mim, positivo para o meu irmão que imediatamente começou o tratamento adequado. Acho que isso o fez ir embora, ele não conseguia conviver com o fato de perder nosso pai e ainda possuir a doença dele. Não deve ter suportado o desespero da minha mãe em saber que seu filho poderia morrer a qualquer momento, mesmo que os médicos afirmassem que estava tudo sob controle.
Meu irmão já tinha 19 anos quando pegou suas coisas e sumiu no mundo. Minha mãe ficou louca, teve que enfrentar o luto enquanto buscava incansavelmente pelo meu irmão. A última notícia que tivemos é que ele morou um tempo com nossos avós paternos. Depois sumiu de vez.”
— Nós éramos apegados, hoje entendo que a partida dele, seguida a morte de meu pai, além do fato de vê-lo morrer diante dos meus olhos, sendo apenas uma criança, foi o que me destruiu completamente, Kalli. Foi o que fez você conhecer aquela criança amarga que estragou sua vida. — Confessou Leonidas, a garota pode sentir o corpo alheio trêmulo. Aquilo mexia muito com o rapaz, afetava completamente o seu emocional.
Kalli sabia o que dizer, não havia palavras que pudessem serem ditas diante daquele relato tão triste. Movida por um impulso tão forte e certamente incontrolável, envolveu Leonidas em seus braços. Apertou o corpo dele contra o seu e não disse mais nada.
Levou alguns segundos para que ele entendesse o que estava acontecendo e assustado permitiu que seus braços fortes circulassem o corpo da moça, aceitando o abraço de consolo.
Abraçar Kalliope, em meio a água, era definitivamente encontrar conforto quando se está sufocado de dor. É uma respiração profunda em meio a uma crise de pânico. De certa forma, Kalli sentia como se estivessem sintonizados e percebeu que a angústia de Leonidas ficou mais leve quando compartilhada consigo. Ela conseguiu, implicitamente, tirar um pouco daquele fardo.
Sentiu o coração dele bater tão forte contra si, a vibração agitava seus ossos. Se perguntou mentalmente se a arritmia se devia ao pesar. Mas Leonidas sabia que cada um daqueles batimentos, eram para ela.
— Eu sinto tanto, Leonidas. — Sussurrou com um nó lhe apertando a garganta.
— Eu também sinto, Kalli. Eu sinto muito todos os dias. — E não se tratava sobre seu pai, Kalliope sabia que aquele pedido era mais uma vez, por tudo. — Por favor, me perdoe.
— Para de pedir desculpas… — Kalli se afastou com o semblante retorcido de dor.
— Não importa quantas vezes eu peça, nunca será o suficiente. — O rapaz confessou, envolvido por pesar.
— Eu vou voltar a nadar.
E mais uma vez Kalli fugia da tentativa de falar sobre o passado.
Se separaram desconfortáveis, a garota voltou praticar seus nados antes que Leonidas visse as lágrimas em seus olhos. Do outro lado da piscina, era raro que Vitorino permitisse que o choro viesse, dessa vez ele quase não conseguiu impedir. Quase. Não pressionou mais a nadadora, deu-se por satisfeito pela evolução imensa que ocorrera em sua relação essa noite. Não pode se conter em se sentir radiante, afinal…
Um pedacinho daquele muro entre eles começou a ruir.
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cada coisa que eu toco fica doente de tristeza
alguma força te levou porque eu não rezei?
então vou dizer palavras em que não acredito
adeus, adeus, adeus
você era maior que todo o céu
você era mais do que um curto período de tempo
e eu tenho muito o que lamentar
tenho muito o que viver sem
eu nunca vou saber
o que poderia ter sido, teria sido
o que deveria ter sido você
bigger than the whole sky, taylor swift
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