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Para os amargurados que teimam em
confundir desejo com ódio.

 

 

Me encontre entre o fogo e a água

O passado.

A uma curta distância, a garota inconsciente estava sendo consumida pelas chamas. O rapaz, cujas veias estavam possuídas por caos, observava as labaredas reluzindo sob sua pele. Dançavam graciosamente enquanto a consumiam com sutileza, marcavam-na para sempre.

Mesmo diante do momento temerário, não poderia negar a beleza no lume, tal compara-se ao seu poder de destruição. Mais que isso, as chamas partiam do caos dentro de si. Sombra e fogo davam as mãos, queimando-a lenta e impiedosamente, fazendo-o implorar por aquela vida.

Lutou contra a gravidade, mas a dor era excruciante e tudo que lhe restava era sua voz, suplicou para que o fogo não levasse seu grande amor. A verdade é que o rapaz não queria morrer, seu único almejo era tomar sua amada em seus braços e fugir para longe. Um lugar onde a dor não exista e erros não poderiam ser cometidos.

Onde vidas não seriam arrancadas por culpa de suas próprias mãos.

Desejou com todas as forças existir.

Clamou com solicitude pela alma daquela garota.

“Leve a mim, mas não ela…”

Engraçado como alguns seres humanos só se dão conta do valor da vida quando estão prestes a perdê-la.

Seus desejos inexplorados escapavam por entre seus dedos…

“Por favor, me deixe amá-la…”

Sua súplica era inútil!

Como poderia cessar o incêndio de tamanha dimensão? Clamou por perdão e encheu-se de arrependimento. Lembrou-se do homem cuja vida foi arrancada de seu peito e pensou o que seu pai teria feito de diferente se soubesse que iria morrer.

Leonidas se recusou a aceitar o trágico fim. Mas a figura do Diabo escondido em meio as árvores, era um lembrete que dessa vez não escaparia ileso. O tinhoso sorria como se tivesse ganho na loteria enquanto o assistia definhar. Posto isto, ele pode compreender:

Morrer é assustador.

Morrer te faz querer viver.

Mesmo que seja tarde demais.

Naquele momento fez uma promessa: se sobrevivesse, faria tudo diferente. Se tornaria um ser humano melhor. Um que seja digno da dádiva de existir, de ser amado, que faça jus a tudo de bom que recebe. Ele iria até o fim da terra para se redimir.

Promessas… do que adianta fazê-las se não tem a menor intenção de cumpri-las?

Riu de si mesmo, diante de suas próprias mentiras. Leonidas Vitorino não merece uma segunda chance. Feche os olhos para a morte, dê a sua vida para a garota que tanto ama, a única digna da chance de sobreviver.

Uma vida pela outra, não parecia justo?

Embora estivesse dividido entre sobreviver e implorar pela salvação daquela garota. Entre um apagão de dor e outro, não pode evitar trazê-la aos seus pensamentos…

E ela veio, com sorrisinhos e gentilezas que o aborrecia.

Não importa o quão perverso pudesse ser, ela sempre enxergava a bondade do seu coração.

O futuro era claro como água, límpido, simples, fácil…

Em seu despertar, deparou-se com dias que se resumiam ao puro inferno. Contudo, só precisava de se reencontrar em meio a todo o caos em sua vida, só por alguns segundos queria achar as peças do quebra-cabeça bagunçado e perdido em seu interior. Com esse pensamento, Kalli pulou na água, sem sequer remover os saltos agulha.

“KALLIOPE!”, ignorou o grito de seu subconsciente.

Havia algo na água silenciosa que a acalmava, como se diluíssem suas preocupações e a levasse a um estado de tranquilidade. E, bom… funcionou, por um momento, todas as suas preocupações desapareceram, e ela se permitiu apenas existir, presente no momento.

Tudo que precisava era alguns segundos de quietude para a angústia incessante que se apoderava do seu ser. Era um grito consciente e silencioso. Ela foi ao encontro do cessar-fogo contra si mesma.

Kalliope, deixou o corpo em posição fetal, os joelhos pararam na altura dos seios e gentilmente os abraçou. Ela desceu gradualmente até o fundo da piscina, ciente que em alguns segundos deveria emergir.

Se concentrou em segurar a respiração.

Houve paz. Sua mente era um vazio branco calmante.

Não havia solidão, nem estresse, tão pouco ansiedade. Nenhuma cobrança sequer. Era maravilhoso. Um tipo de Nirvana.

E como num filme, foi arrancada de seus sonhos…

Quando estava prestes a retornar para a superfície, algo caiu sobre a água como uma bola de canhão, seus olhos se abriram arregalados encarando o borrão que nadava em sua direção.

Era ele.

O seu pior pesadelo.

Leonidas Vitorino.

Parece que após tentar matá-la, o Diabo resolveu salvá-la.

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