23:50
Para os amargurados que teimam em
confundir desejo com ódio.
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Me encontre entre o fogo e a água
O passado.
A uma curta distância, a garota inconsciente estava sendo consumida pelas chamas. O rapaz, cujas veias estavam possuídas por caos, observava as labaredas reluzindo sob sua pele. Dançavam graciosamente enquanto a consumiam com sutileza, marcavam-na para sempre.
Mesmo diante do momento temerário, não poderia negar a beleza no lume, tal compara-se ao seu poder de destruição. Mais que isso, as chamas partiam do caos dentro de si. Sombra e fogo davam as mãos, queimando-a lenta e impiedosamente, fazendo-o implorar por aquela vida.
Lutou contra a gravidade, mas a dor era excruciante e tudo que lhe restava era sua voz, suplicou para que o fogo não levasse seu grande amor. A verdade é que o rapaz não queria morrer, seu único almejo era tomar sua amada em seus braços e fugir para longe. Um lugar onde a dor não exista e erros não poderiam ser cometidos.
Onde vidas não seriam arrancadas por culpa de suas próprias mãos.
Desejou com todas as forças existir.
Clamou com solicitude pela alma daquela garota.
“Leve a mim, mas não ela…”
Engraçado como alguns seres humanos só se dão conta do valor da vida quando estão prestes a perdê-la.
Seus desejos inexplorados escapavam por entre seus dedos…
“Por favor, me deixe amá-la…”
Sua súplica era inútil!
Como poderia cessar o incêndio de tamanha dimensão? Clamou por perdão e encheu-se de arrependimento. Lembrou-se do homem cuja vida foi arrancada de seu peito e pensou o que seu pai teria feito de diferente se soubesse que iria morrer.
Leonidas se recusou a aceitar o trágico fim. Mas a figura do Diabo escondido em meio as árvores, era um lembrete que dessa vez não escaparia ileso. O tinhoso sorria como se tivesse ganho na loteria enquanto o assistia definhar. Posto isto, ele pode compreender:
Morrer é assustador.
Morrer te faz querer viver.
Mesmo que seja tarde demais.
Naquele momento fez uma promessa: se sobrevivesse, faria tudo diferente. Se tornaria um ser humano melhor. Um que seja digno da dádiva de existir, de ser amado, que faça jus a tudo de bom que recebe. Ele iria até o fim da terra para se redimir.
Promessas… do que adianta fazê-las se não tem a menor intenção de cumpri-las?
Riu de si mesmo, diante de suas próprias mentiras. Leonidas Vitorino não merece uma segunda chance. Feche os olhos para a morte, dê a sua vida para a garota que tanto ama, a única digna da chance de sobreviver.
Uma vida pela outra, não parecia justo?
Embora estivesse dividido entre sobreviver e implorar pela salvação daquela garota. Entre um apagão de dor e outro, não pode evitar trazê-la aos seus pensamentos…
E ela veio, com sorrisinhos e gentilezas que o aborrecia.
Não importa o quão perverso pudesse ser, ela sempre enxergava a bondade do seu coração.
O futuro era claro como água, límpido, simples, fácil…
Em seu despertar, deparou-se com dias que se resumiam ao puro inferno. Contudo, só precisava de se reencontrar em meio a todo o caos em sua vida, só por alguns segundos queria achar as peças do quebra-cabeça bagunçado e perdido em seu interior. Com esse pensamento, Kalli pulou na água, sem sequer remover os saltos agulha.
“KALLIOPE!”, ignorou o grito de seu subconsciente.
Havia algo na água silenciosa que a acalmava, como se diluíssem suas preocupações e a levasse a um estado de tranquilidade. E, bom… funcionou, por um momento, todas as suas preocupações desapareceram, e ela se permitiu apenas existir, presente no momento.
Tudo que precisava era alguns segundos de quietude para a angústia incessante que se apoderava do seu ser. Era um grito consciente e silencioso. Ela foi ao encontro do cessar-fogo contra si mesma.
Kalliope, deixou o corpo em posição fetal, os joelhos pararam na altura dos seios e gentilmente os abraçou. Ela desceu gradualmente até o fundo da piscina, ciente que em alguns segundos deveria emergir.
Se concentrou em segurar a respiração.
Houve paz. Sua mente era um vazio branco calmante.
Não havia solidão, nem estresse, tão pouco ansiedade. Nenhuma cobrança sequer. Era maravilhoso. Um tipo de Nirvana.
E como num filme, foi arrancada de seus sonhos…
Quando estava prestes a retornar para a superfície, algo caiu sobre a água como uma bola de canhão, seus olhos se abriram arregalados encarando o borrão que nadava em sua direção.
Era ele.
O seu pior pesadelo.
Leonidas Vitorino.
Parece que após tentar matá-la, o Diabo resolveu salvá-la.
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