23:57
Me encontre em meio às chamas
Sexta, 10 de maio de 2024
Leonidas, por favor, me ajude…
Acordou suado, num sobressalto. Seu coração batia descontroladamente em seu peito. Foi um pesadelo horrível. Kalliope estava na água e estava se afogando, Leonidas dava braçadas fortes ao seu encontro, mas por mais que se esforçasse tanto, não podia alcançá-la, sua maldita perna defeituosa o impedia. Só pode assistir seu desespero, enquanto a mulher que amava morria afogada. Seu subconsciente era um grande filho da puta, fazendo-o sangrar de maneira lasciva.
Juca o observava do outro lado do quarto, com a expressão afoita e um assobio fino de preocupação soando.
— Tá tudo bem, garotão… — Sua voz falhou, jogou-se contra o travesseiro e fechou os olhos com força. Aquelas malditas lágrimas retornaram e ele não conseguia as fazer parar.
“Por que você entrou naquele maldito carro?”
O cachorro pulou na cama, deitando a cabeça na barriga de seu tutor enquanto uma de suas patinhas o cutucava, o animalzinho sentia sua angústia e tentava ajudá-lo. Leonidas apenas colocou a mão sobre a cabeça felpuda, aceitando o consolo enquanto sofria um tipo de febre infernal que rasgava seu corpo ao meio.
As lágrimas escorriam de seus olhos, como uma tempestade inundando a sua alma. Corriam por sua face e entravam em seu ouvido, causando-lhe um desconforto agonizante. Seu choro era um tsunami incapaz de apagar as chamas dentro de si. Sua dor transbordava em um lamento dilacerante que preenchia seu quarto. Era uma melodia triste e angustiante que ecoava através do vazio de sua existência.
Aquela pergunta maldita perambulava em seu interior até hoje.
E nada da resposta… ele não sabia o que estava fazendo quando colocou Kalliope dentro daquele carro e deu partida, há 6 anos atrás. Parecia estar fora de si. Não sabia o que seus delírios carregados de ira pretendiam ao fazer aquilo.
A madrugada avançava com fúria, seus olhos estavam tão cansados de chorar. Não conseguia sequer dormir sem sonhar com a garota. As lágrimas não cessavam. Elas não podiam.
Sua perna doía e trazia consigo as lembranças traiçoeiras, trazendo à tona tudo aquilo o que se esforçou tanto para esquecer. Suas cicatrizes doíam até os ossos. Ele sentiu algo lhe atravessando, impiedosamente, como no dia da Grande Catástrofe.
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6 ANOS ATRÁS
A Grande Catástrofe
Quinta, 13 de dezembro de 2018
— Filhão, preciso me juntar a sessão de fotos, manobra o carro pra mim? — Pediu Marilia, assim que chegaram ao estacionamento da Escola Estadual Vera Marine.
A mulher ofereceu as chaves ao rapaz, cujo já sabia dirigir aos 16 anos. Marilia fez questão de ensiná-lo, era o sonho do menino desde de muito pequeno. Mas Paulo não estava aqui para fazê-lo, então quis dar esse presente ao filho, que majestosamente dominou a arte de dirigir.
Leonidas não tinha permissão para conduzir veículos fora das aulas com sua mãe, isso era óbvio, mas às vezes ela o deixava pegar o carro e fazer uma gracinha, como estacionar, tirar da garagem, movê-lo a curtas distâncias. Geralmente ele só podia dirigir com mais liberdade no interior, onde seus avós moravam e onde recebia as tais aulas.
No atual momento, ele apenas faria uma baliza para encaixar o carro entre os outros dispostos no estacionamento de sua escola.
— Tranquilo. — Respondeu à mãe, com uma piscadela charmosa.
— Lindo! — Sua mãe sorriu apertando sua bochecha e saiu do automóvel. — Me devolve as chaves quando entrar. — Ouviu a voz abafada gritar do lado de fora.
— Sim, senhora. — Respondeu alto.
O rapaz deslizou do banco do passageiro para o do motorista facilmente e, com uma maestria invejável fez o que sua mãe pediu, guardando as chaves no bolso do seu smoking após acionar o alarme do carro.
Leonidas caminhou em direção ao estágio da escola, onde uma música cheia de batidas soava, atraindo os convidados para a festa de formatura dos alunos do terceiro ano do ensino médio.
— Leonidas, você veio! — Kalli recebeu o irmão na entrada do estágio, já meio alterada por alguns drinks que havia experimentado. Não estava bêbada de fato, só feliz a ponto de sequer se incomodar com a presença da pessoa que geralmente estraga tudo em sua vida. Não curtia ficar bêbada, mas agora tinha 18 anos e sua mãe deixava experimentar álcool e ela estava tão feliz que não podia evitar.
Kalli envolveu o rapaz num abraço, o mesmo revirou os olhos e se recusou a retribuir.
— Tá bêbada. — Resmungou em desaprovação.
— Não, eu não estou bêbada, estou feliz e linda. — Ela rodopiou exibindo o estonteante vestido de cetim azul. Não poderia negar, estava simplesmente maravilhado com a beleza de sua irmã. — Olha que lindo o colar que meu pai me deu de presente.
Exibiu as joias feitas especialmente para si. Leonidas deu de ombros, Kalliope claramente não estava muito normal. Se estava bêbada, era de felicidade.
Diante das joias tão belas e certamente caríssimas, Leonidas decidiu que o presente que comprara para ela era muito simples. Uma tornozeleira com pingentes de peixinhos, estrelas-do-mar, golfinhos e sereias. Escolheu pensando nela e sua paixão pela água, mas era uma bijuteria barata demais. Não chegava aos pés dos diamantes do Dr. Belline. Suas mãos estavam enfiadas em seus bolsos, ele apertou a correntinha entre os dedos até que ela se arrebentasse. Assim não tinha o risco de voltar atrás e entregar aquele presente idiota.
Uma das amigas de Kalli chega a puxando pelo braço e ela só tem tempo de dar um beijinho na bochecha do rapaz.
— Aproveita a festa. — Disse sendo arrastada para longe.
Que diabos é isso?
Ela nunca o tocava, quanto mais abraçar e beijar.
Ignorou os fatos e se infiltrou na festança, encontrando alguns de seus amigos. Tudo que queria era estar em casa jogando seu vídeo game sem se preocupar com porra nenhuma. A formatura de Kalli era um evento feito apenas para tirá-lo do sério. Vez ou outra, sua mãe deixava escapar um comentário desagradável, que envolvia questionar se um dia veria seu filho se formando. Leonidas acabará de completar a terceira reprovação consecutiva no nono ano do ensino fundamental.
Ele e a irmã-postiça têm 2 anos de diferença, sendo Kalli a mais velha. Na época dos fatos, Kalli havia completado 18 anos enquanto Leonidas continha 16.
O rapaz tinha muita dificuldade na escola, Kalli até tentou ajudar algumas vezes, mas sem sucesso. Seu gênio difícil nunca permitiu. Como no caso de qualquer família com irmãos, Leonidas estava sempre sendo comparado com a irmã mais velha e isso o deixava mais irritado do que naturalmente já era.
Fazia um bom tempo que Kalli passara a ser neutra com ele, evitando proximidade e permanecer no mesmo espaço por mais de 5 minutos. A relação entre eles era distante e sempre que ficavam muito tempo juntos, Leonidas iniciava um confronto.
Nos últimos meses, não tiveram muitos conflitos, e Leonidas não precisava de razão para irritar a irmã. Entretanto, quando ouviu Kalliope tendo uma conversa com Marilia, suplicando para que entendesse seus motivos para não deixar Leonidas ir à formatura, o rapaz achou conveniente vir a todo custo, só para irritá-la. No fim das contas, Laura não permitiu que a filha excluísse o irmão, o que facilitou o passe livre. Não pretendia fazer nenhuma maluquice hoje, como quando eram mais novos e ele distribuiu xerox do diário de Kalli para os convidados. Ele só veio por desaforo.
Era normal que irmãos se pregassem peças, mas isso quando se tratava de brincadeirinhas inocentes. Leonidas sempre era perverso, insensível, maldoso e sabia disso. Eram justamente suas supostas brincadeiras que causavam todo o caos na casa da Dra. Antonelli. Precisou se esforçar muito para conter sua mente diabólica, só dessa vez não aprontaria nada.
Inicialmente tudo ocorrera bem, Laura, Kalli e a família do pai da moça vieram para a colação de grau. Ficou combinado que Leonidas e Marilia viriam apenas na festa. Assim foi feito. O rapaz se concentrou na companhia dos amigos, ficaram zanzando pelo salão implicando com as garotas e comendo tudo que viam pela frente.
Até que os olhos de Leonidas pairaram sobre Kalliope, finalmente a encontrou no meio de tanta gente. E não pode se segurar ao vê-la discutindo com um rapaz. Ele já sabia que estava rolando alguma coisa entre eles, pois embora não estudassem no mesmo horário letivo, Leonidas constantemente conseguia ouvir as conversas de sua irmã com as amigas.
E aquele era o tal Marcos que ela tanto gostava. O cara estava bem nervoso, não dava para ouvir o que discutiam. Leonidas ficou a certa distância e só se mexeu quando Marcos segurou a menina pela mão e a forçou para dentro da escola. Ele os seguiu com cuidado para não ser percebido, o casal atravessou a instituição e saiu para o pátio onde Kalliope finalmente conseguiu se soltar.
— Eu já disse que não quero discutir agora, é a nossa formatura, vamos nos divertir. — A ouviu argumentar, ela tentou se afastar, mas o menino apenas a encurralou contra uma parede e tentou beijá-la à força.
Kalliope o estapeou e empurrou, mas Marcos continuava insistindo.
Quando a mão dele agarrou um dos seios de sua irmã contra a vontade dela, Leonidas sentiu o sangue ferver.
— Solta ela, agora! — Praticamente rosnou para o rapaz, que se sobressaltou com a surpresa. — Eu disse para tirar as suas malditas mãos dela! — Avançou, raivoso.
Kalliope aproveitou a deixa para se livrar das garras de Marcos e ir na direção do irmão, qual já se colocou contra seu corpo, impedindo-o de chegar até o rapaz.
— Leonidas, o que está fazendo aqui? Por favor, vamos embora.
— Se acha o cara por obrigar uma garota a te beijar, não é? Seu otário. Por que não enfrenta alguém a sua altura? É muito mais fácil forçar uma menina, não é? Seu frangote do caralho. — Leonidas começou a gritar exaltado, como sempre acontecia.
O rapaz era marcado por suas explosões que sempre terminavam em destruição. Em casa ele quebrava tudo. Na escola sempre terminava em briga. Leonidas já fez um colega de classe ir parar no hospital após lhe dar uma surra. Uma coisa era fato: ele só perdia a cabeça quando era provocado.
— Me enfrente, seu canalha filho da puta. Eu te quebro com uma facilidade impressionante. — Leonidas gritava e Kalliope o empurrava para longe, o que era demasiadamente difícil, já que o rapaz havia ficado muito mais alto e forte.
— Para, por favor.
— Eu não fiz nada, cara. — Marcos deu risada, se fazendo de inocente. — Desculpa se você está chateado por não poder foder com sua irmãzinha.
— Cala a sua maldita, boca! — Leonidas tentou se livrar de Kalliope, quase a empurrando, todavia ela conseguiu contê-lo, agarrando o rosto do rapaz e o fazendo olhar para si.
— Leonidas, olha para mim, por favor, vamos sair daqui… sim? Vem. Deixa esse idiota para lá, não vale a pena. — Começou a dizer, na tentativa de o acalmá-lo e tirá-lo dali. — Por favor, vamos para casa.
Marcos aproveitou a deixa para dar o fora, antes que sobrasse para si.
— Ele… ele estava tentando…
— Ele não conseguiu. Você o impediu.
— Temos que chamar a polícia.
— Não, está tudo bem.
— Se eu não estivesse aqui, ele poderia ter te… puta que pariu… não quero nem imaginar. — O rosto dele estava completamente transtornado.
— Leonidas, não aconteceu nada. — A garota insistiu, mesmo que o irmão tivesse razão, não queria discutir isso agora. Tudo que almejava é que o menino ficasse bem, que nada de ruim acontecesse. — Por favor, vamos voltar para a festa e pedir às nossas mães para nos levar para casa, sim?
Leonidas assentiu, se acalmando aos poucos.
— Vou te levar até o carro, daí chamo nossas mães.
— Sim, tudo bem. — Kalliope concordou, imaginando que isso de fato aconteceria. Na verdade, seu plano era trazer suas mães até eles, assim ela poderia pedir a Marilia para levá-lo embora e voltaria para sua festa como se nada tivesse acontecido.
Caminharam lado a lado até o estacionamento e ela ficou surpresa quando viu o rapaz destravar o carro de Marilia com a chave que estava a sua posse.
— Entra no carro, eu já volto. — Leonidas abriu a porta do passageiro para a garota, que prontamente entrou, receando que qualquer atitude ou palavra mal pensada pudesse fazer o garoto explodir.
— Não demora. — Pediu, enquanto ele fechava a porta para si.
Quando estava passando por trás do carro, algo lhe ocorreu a cabeça… Leonidas simplesmente queria a tirar dali. Não sabe o quê ou por quê. Geralmente não compreendia as razões de sua mente. E se Marcos os tiver seguido? E se em sua ausência Kalliope desaparecesse, fosse violada, morta… o pensamento intrusivo o fez simplesmente pegar as chaves novamente, entrar no carro, ocupar o assento do motorista e encaixar a chave na ignição.
Anos atrás ele não pode fazer nada pela vida do seu pai, mas era seu dever proteger Kalliope e não falharia nisso.
— O que está fazendo? — A menina se exaltou ao perceber as atitudes do rapaz.
Leonidas não poupou tempo, girou a chave e ligou o motor.
— LEONIDAS?
O carro cantou pneu quando foi arrancado bruscamente do estacionamento e guiado para fora da escola. Passou às pressas pelo porteiro, que não se incomodou muito com a situação, achando o comportamento daquele carro dentro do normal. Leonidas pegou estrada sem sequer saber para onde iriam.
— LEONIDAS?
— Eu mesmo posso te tirar daqui.
— Não, não, não… vamos voltar.
— Não.
— Leonidas, você está me deixando assustada.
— Calma, Kalli, só quero te tirar daqui.
— Você tem 16 anos e está dirigindo um carro. Quer nos matar?
— Não. Só quero te levar para um lugar seguro.
— Vamos voltar, não conto para a Marilia o que você fez.
— Kalliope, nós não vamos voltar.
— Está me sequestrando?
— Se você quer pensar assim, tudo bem. É para sua própria segurança.
— Você me salvou de um possível abusador, ok. Muito obrigada, Leonidas, mas por favor, não faça isso.
— Sabe, é isso que dá agir como uma vadia.
— O quê? — Indagou, horrorizada.
— Você fica bêbada e deixa qualquer um fazer o que quiser consigo.
— Leonidas, o que está falando? Ficou louco?
— NÃO!
— Por que está dizendo isso? O que fiz para você? Sempre encontra um jeito de estragar tudo para mim.
— Choramingue o quanto quiser, mas não vou deixar você voltar para aquela festa ridícula. Coloca a porra do cinto!
— Coloca você, seu otário! Eu vou me jogar porta afora, acredite, coragem não me falta. Para a porra do carro, agora!
A essa altura já haviam alcançado a rodovia da cidade, cujo estava tranquila e sem movimentação.
— Fica quieta.
— PARA O CARRO!
— Não vou parar.
— PARA AGORA!
Kalli destravou sua porta e escancarou, ameaçando pular.
Leonidas parou o carro de forma brusca, Kalliope precisou se segurar contra o painel e quase bateu a cabeça no vidro devido à falta do cinto de segurança. A garota precisou de alguns segundos para assimilar o que estava sentindo. Era para estar na sua festa de formatura, cumprindo tudo que fantasiou por anos com suas amigas. E mais uma vez, Leonidas arrancara seus momentos mais almejados.
— Eu te odeio, Leonidas! — Kalli soltou, sentindo o ódio dominar seu ser. — Eu te odeio com toda a minha alma! Te odeio todo meu coração! — Kalli gritava, esmurrando o painel do carro. — Eu quero que você desapareça da minha vida! Simplesmente suma, tá me ouvindo!? Eu tô tão cansada de você. Para mim seria melhor se você não existisse! Não vai fazer a menor falta. Olha o inferno que você faz da vida das nossas mães. Por que você não morre de uma vez? — Kalli desabafou, apontando o dedo com raiva para o rapaz, cuspindo todo seu ódio guardado por tantos anos.
Não aguentava mais as coisas absurdas que ele fazia.
Leonidas não conseguia se mexer, o peso das suas decisões caia por sobre seus ombros naquele momento. Durante os anos que foram obrigados a conviverem juntos, até chegaram a trocar algumas ofensas, mas não como as que Kalliope lhe dizia agora. Era ódio puro e verdadeiro, vindo de alguém por quem, na verdade, tinha sentimentos. Foi como proferir golpes de faca contra seu coração. Leonidas começou a sangrar por dentro.
Tudo ficou quieto, a brisa quente da noite os envolveu, os corações batiam com violência, as respirações ofegantes. Respiraram fundo em busca de sanidade.
— Kalli, desculpa, eu só…
— Não podemos ficar parados aqui, é perigoso. Estaciona no acostamento e liga para a mamãe. — Ordenou com firmeza.
Estava cansada dos pedidos de desculpas de Leonidas, não queria ouvir isso pela milésima vez na vida. É muito fácil errar o tempo todo e depois só pedir desculpas, mas sem a intenção de mudar suas atitudes. Portanto, não eram desculpas de fato. Não havia arrependimentos e agora que completou 18 anos iria se mudar da casa da mãe de uma vez por todas para finalmente ficar livre dele. Kalliope só não sabia quando isso iria acontecer, já que precisava de dinheiro.
Prontamente, o rapaz ligou o carro e Kalliope fechou a sua porta, antes escancarada, quando pensou em colocar o cinto, o som de uma buzina incessante soou, cortando o silêncio pacífico da noite. Foi tão rápido que não havia nada que o rapaz pudesse fazer, mesmo estando com o veículo ligado.
Leonidas constatou os faróis na janela atrás de Kalliope e a encarou com um horror indescritível nos olhos.
Suas mãos tentaram se agarrar uma à outra, ou foi um delírio? Não sabe ao certo.
— Não.
Foi tudo que conseguiu dizer antes de serem atingidos.
***
Sentiu o cheiro sufocante de fumaça e acordou sobressaltado. Inicialmente estava zonzo, tudo estava embaçado e não conseguia compreender o que estava acontecendo.
Flashes do ocorrido inundavam sua mente pouco a pouco, era praticamente impossível descrever o que havia acontecido. O carro desgovernado os atingiu, Kalliope foi jogada contra Leonidas e o carro arremessado para o lado, onde girou duas vezes antes de se chocar contra uma árvore e cair de cabeça para baixo. Para piorar, o veículo que outrora chocou-se contra o seu os acertou com tudo novamente, danificando ainda mais o carro de Marilia e ficando praticamente por cima do veículo em questão.
O corpo de Leonidas foi arrancado do automóvel e lançado para longe, caindo bruscamente contra as árvores ladeando a estrada.
— Kalli? — Murmurou sôfrego, assim que assumiu sua consciência.
Tentou se mexer e urros pavorosos foram arrancados de seus lábios. Suas costelas estavam fraturadas, não havia dúvidas e a dificuldade para respirar provavelmente comprova a teoria de que qualquer movimento brusco perfuraria seus pulmões.
Buscou a sua fonte maior de dor, cujo constava-se em sua perna direita, a qual havia sido empalada na coxa por um galho robusto que provavelmente quebrou-se com o seu impacto, assim o perfurando. Leonidas jogou a cabeça para trás enquanto gritava de desespero e dor.
— KALLIOPE? — Buscou pela menina, mas só ouviu os murmúrios distantes do homem no carro alheio. — Kalli?
O cheiro de gasolina chegou a suas narinas, um dos carros, senão os dois, estavam com vazamento e o barulho de descargas elétricas suaves fez Leonidas entrar em alerta.
Ele buscou vestígios ao seu redor.
Onde ela está?
Cadê ela?
Foi quando a viu esmagada debaixo de todas aquelas ferragens, estava onde antes havia um para-brisa, entre o chão e os bancos da frente. Seu rosto estava voltado para a saída, permitindo que Leonidas constatasse seus olhos fechados e o sangue viscoso que escorria por sua testa.
Havia muita fumaça e o crepitar dos veículos danificados. Tanto caos que Leonidas não sabia dizer o que estava acontecendo.
Kalliope precisava sair dali, é tudo que conseguia concluir. Mas não havia nada a seu favor, não conseguia se livrar da porra daquele galho em sua perna e o mínimo movimento o fazia arfar de dor devido às costelas fraturadas.
— Não… por favor… não… — Tentou se levantar, mas apenas resultou em mais dor. Não sabia quantas vezes seguidas desmaiou no processo. Não conseguia se mexer. Era impossível simplesmente arrancar aquela droga de perna dali. — Kalli, sai daí. ABRE A PORRA DOS OLHOS! — Gritou para a noite, a única capaz de ouvi-lo. — Deus, por favor… me ajuda…
Mesmo que ela acordasse, duvidaria que conseguiria sair dali, estava obviamente presa entre as ferragens. Ele só precisava que ela abrisse os olhos até que o socorro chegasse. Apenas isso.
Sob seus ombros, repousava o fardo de suas escolhas. E estava pesado, era a porra do próprio Everest em suas costas em formato de culpa. Bastou dar um segundo para sua mente que as palavras de Kalli retornaram para si como uma lâmina afiada deslizando sob sua pele de forma tortuosa.
“Eu te odeio, Leonidas! Eu te odeio com toda a minha alma! Te odeio todo meu coração! Eu quero que você desapareça da minha vida! Simplesmente suma, tá me ouvindo!? Eu tô tão cansada de você. Para mim seria melhor se você não existisse! Não vai fazer a menor falta. Olha o inferno que você faz da vida das nossas mães. Por que você não morre de uma vez?”
Aquelas palavras só precisaram de um segundo para se concretizarem, o destino estava ouvindo-a. Kalliope desejou a morte de alguém e tudo que conseguiu foi ser alvo em seu lugar. Leonidas só queria ter poder o suficiente para trocar de lugar com ela. Afinal, ela estava certa, ele deveria morrer.
Mas por que diante da morte, não queria encontrá-la?
Tateou os bolsos do seu terno a procura do celular, não tinha esperanças de encontrar o aparelho, mas para seu completo alívio estava em um dos seus bolsos e com a tela inteira quebrada. O que não o impediu de abrir o aplicativo de chamadas e discar o número da emergência.
— Um, nove, zero, qual sua emergência? — A voz do atendente soou do outro lado da linha telefônica.
— Por favor, mande alguém rápido, sofremos um acidente na rodovia 31 de Vera Marine. Minha amiga está muito ferida…
— Senhor pode me explicar o que aconteceu?
— Um carro colidiu no nosso.
— Por favor, senhor, tente se manter calmo e me passe detalhes do ocorrido.
— Ela está inconsciente e eu preso numa árvore. O cara que bateu na gente não para de gritar.
— A ajuda está a caminho, senhor, por favor, permaneça comigo.
— Eu tenho que tentar acordá-la.
— Senhor, não se mexa, os socorristas estão a caminho e são especializados para ajudar sua amiga.
— Tem cheiro de gasolina.
— Estamos a 5 minutos de distância, senhor.
Leonidas apenas finalizou a ligação, precisava a todo custo se libertar para ajudar Kalli. 5 minutos era o mesmo que uma eternidade diante dessa situação.
— Por favor, abra os olhos. — Chorou copiosamente.
Os gritos apavorantes do motorista ferido ganhavam mais força a cada segundo. Leonidas gritava para Kalliope, mas ela permanecia imóvel e a cada segundo mais sangue parecia escorrer de sua cabeça.
— Você tem que acordar… tem que se levantar… — Insistia em meio aos delírios de dor. — Por favor, Kalli.
Um tempo depois, ouviu um murmúrio baixo demais:
— Leonidas… Leoni…
— Kalli, sai daí. — Gritou desesperado.
A garota estava fraca demais para compreendê-lo.
Uma faísca provinda de fios rompidos, caiu gentilmente sob a gasolina exposta. E faíscas contêm energia térmica concentrada o suficiente para iniciar uma reação química. A reação instantânea aconteceu, o fogo encontrou a vida e começou a se espalhar com velocidade.
A lataria começou a esquentar, os materiais inflamáveis começaram a ser consumidos e o carro, que estava em contato direto com o chão, foi o principal alvo.
Ele tentou alcançá-la, mas vislumbrava apenas sua mão esticada na direção da moça. Não podia se mexer, apenas assistir ao fogo.
Leonidas a ouviu gritar antes dela perder a consciência.
Jamais se esqueceu daqueles gritos.
Ecoavam em sua mente toda vez que ele fechava os olhos.
Ele se manteve acordado até o último segundo, até ouvir as sirenes soando de longe. Até não aguentar mais de tanta dor e desespero.
Em seus pesadelos mais reconfortantes, Leonidas se colocava de pé, tirava Kalliope do carro em seus braços e esperava pelo socorro no meio da estrada vazia, com a lua e as estrelas sendo testemunhas de suas vidas, com a explosão do mundo ao seu redor, mas a certeza de que a sua amada estava em seus braços. Ainda nesse pesadelo, eles são resgatados em segurança. Ficam vivos. E bem. Num universo onde as suas escolhas, não matavam a pessoa que mais amava no mundo.
Bom, a verdade, você já sabe e foi extremamente mais cruel que isso…
***
A uma curta distância, a garota inconsciente estava sendo consumida pelas chamas. O rapaz, cujas veias estavam possuídas por caos, observava as labaredas reluzindo sob sua pele. Dançavam graciosamente enquanto a consumiam com sutileza, marcavam-na para sempre.
Mesmo diante do momento temerário, não poderia negar a beleza no lume, tal compara-se ao seu poder de destruição. Mais que isso, as chamas partiam do caos dentro de si. Sombra e fogo davam as mãos, queimando-a lenta e impiedosamente, fazendo-o implorar por aquela vida.
Lutou contra a gravidade, mas a dor era excruciante e tudo que lhe restava era sua voz, implorando para que o fogo não levasse seu grande amor. A verdade é que o rapaz não queria morrer, seu único almejo era tomar sua amada em seus braços e fugir para longe. Um lugar onde a dor não exista e erros não poderiam ser cometidos.
Onde vidas não seriam arrancadas, por culpa de suas próprias mãos.
Desejou com todas as forças existir.
Clamou com solicitude pela alma daquela garota.
Era cruel como o mito de Orfeu e Eurídice, assim como o filho de Apolo, Leonidas, cometia um grave erro. Ele olhou para trás e sua amada foi capturada pela morte.
“Leve a mim, mas não ela…”
Engraçado como alguns seres humanos só se dão conta do valor da vida quando estão prestes a perdê-la.
Seus desejos inexplorados escapavam por entre seus dedos…
“Por favor, me deixe amá-la…”
Sua súplica era inútil!
Como poderia cessar um incêndio de tamanha dimensão? Clamou por perdão e encheu-se de arrependimento. Lembrou-se do homem cuja vida foi arrancada de seu peito e pensou o que seu pai teria feito de diferente se soubesse que iria morrer.
Leonidas se recusou a aceitar o trágico fim. Mas a figura do Diabo escondido em meio às árvores, era um lembrete que dessa vez não escaparia ileso. O tinhoso sorria como se tivesse ganhado na loteria enquanto o assistia definhar.
Quis gritar para a morte. Em fúria, o amaldiçoou.
“Você vai levar a minha alma, seu filho da puta?”
Posto isto, ele pôde compreender:
Morrer é assustador.
Morrer te faz querer viver.
Mesmo que seja tarde demais.
Naquele momento fez uma promessa: se sobrevivesse, faria tudo diferente. Se tornaria um ser humano melhor. Um que seja digno da dádiva de existir, de ser amado, que faça jus a tudo de bom que recebe. Ele iria até o fim da terra para se redimir.
E como Orfeu, iria até o inferno por Kalli.
Promessas… do que adianta fazê-las se não tem a menor intenção de cumpri-las?
Riu de si mesmo, diante de suas próprias mentiras, Leonidas Vitorino não merece uma segunda chance. Feche os olhos para a morte, dê a sua vida para a garota que tanto ama, a única digna da chance de sobreviver.
Uma vida pela outra, não parecia justo?
Embora estivesse dividido entre sobreviver e implorar pela salvação daquela garota. Entre um apagão de dor e outro, não pode evitar trazê-la aos seus pensamentos…
E ela veio, com sorrisinhos e gentilezas que o aborrecia.
Não importa o quão perverso pudesse ver, ela sempre enxergava a bondade do seu coração. Será que Kalliope poderia fazê-lo agora? Certamente não. Era impossível. Leonidas merecia cada uma daquelas palavras.
Ele fez da vida dela um verdadeiro inferno.
Inferno esse que a devorava impiedosamente.
Era simplesmente ridículo.
Estavam morrendo e ele pensando o quanto amava Kalliope.
***
Marilia e Laura foram informadas do acidente. Um motorista bêbado perdeu a consciência por alguns segundos e colidiu em cheio o carro onde seus filhos estavam. Os encontraram no hospital quase sem vida. Diante do fim, as amantes desafortunadas se permitiram um último toque, um abraço cheio de dor. Choraram de desespero juntas e finalmente proferiram “adeus” uma à outra.
O pior pesadelo na vida de alguém que tem um filho, se concretizava. A quase morte deles. Limites extremos foram alcançados. Depois de tantos anos, não podiam mais suportar essa relação conturbada, precisavam romper pelo bem de todos e enquanto faziam isso na sala de espera, os médicos lutavam para salvar a vida de Kalliope.
A garota havia sofrido queimaduras graves, para sua sorte a equipe de socorros já estava a caminho e a encontraram a tempo de evitar uma explosão, o que levaria a óbito todos presentes. Além das queimaduras, Kalliope sofreu uma concussão grave na cabeça, mas que a levou para cirurgias que quase tiraram o que sobrou de sua vida. Também teve alguns ossos fraturados – quais eram o menor dos seus problemas.
Leonidas estava estabilizado, foi submetido a uma operação para estancar o sangramento em sua perna e remover o galho que lhe perfurou. Os demais ferimentos que sofreu, já estavam estabilizados e fora de risco. Três dias depois, despertava em um quarto de hospital com sua mãe despedaçada ao seu lado, chorando e segurando sua mão.
— Filho? — Marilia chorou. — Filho, eu estou aqui.
— Onde estamos?
— No hospital. Você e a Kalli se envolveram num acidente.
Leonidas arregalou os olhos, se dando conta das verdades por trás da voz de sua mãe. Foi quando percebeu que realmente estava num quarto hospitalar e as lembranças do que aconteceu invadiram sua mente com uma velocidade arrebatadora.
— Cadê ela? — Gritou assim que recobrou a consciência. — Mãe, cadê a Kalli?
— Filho…
— Mãe! — Leonidas se sentou, exaltado, sendo imediatamente derrubado pela dor excruciante em sua perna. — Fala cadê ela? Mãe… o fogo… A Kalli…
— Ela está em coma, querido.
— Não.
— Filho, fica quieto, por favor.
Leonidas arrancou os fios conectados ao seu corpo e caiu ao tentar se levantar, foi impedido pela equipe de enfermeiros que o sedaram. Marilia estava aos prantos, paralisada num canto do quarto enquanto assistia seu filho perder completamente a cabeça.
— Kalli… Kalli… — Ele sussurrava, entregando-se ao efeito do medicamento.
Não podia acreditar no que estava acontecendo. O mundo ao seu redor parecia distorcer-se em um caleidoscópio de desespero, enquanto testemunhava impotente o estrago causado pelas suas ações. Um poder tão devastador quanto uma tempestade furiosa. Não queria acreditar que era sua culpa, mas era.
Antes de se entregar ao seu subconsciente, Leonidas teve uma epifania que o fez encarar a brutalidade oculta nas entrelinhas de suas atitudes. Mergulhando nas profundezas de sua alma destroçada, confrontando a dolorosa realidade de que suas escolhas, antes tidas num impulso, eram, na verdade, fatos capazes de arrancar a vida de alguém.
Suas ações se tornaram cicatrizes inapagáveis. Leonidas percebeu que, embora as ações pudessem ser poderosas, também podiam deixar corações em ruínas. Podiam causar estragos irreversíveis.
Suas ações podiam ferir alguém que amava profundamente.
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estou de joelhos, eu só vivo por você
repentinamente, o céu está caindo
poderia ser tarde demais para mim?
se eu nunca pedi desculpas
então estou errado, sim, eu estou errado
então eu escuto meu espírito chamando
imaginando se ela está ansiando por mim
e aí eu entendo que não consigo viver sem ela
save me, hanson
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