23:59
Me encontre abdicando a perfeição
8 ANOS ATRÁS
Sábado, 17 de setembro de 2016
Kalliope 16 anos | Leonidas 14 anos
Depois do desastre completo em seu aniversário de 14 anos devido à presença ilustre do seu irmão-postiço, Kalliope nunca mais quis uma festa. No entanto, aceitou a proposta de Marilia de levar seus amigos para uma noite de acampamento na fazenda de seus pais para comemorar seus 16 anos. O local era perfeito, tinha uma área gourmet completa para um típico churrasco, um quintal vasto para as barracas, piscina, gramado, lugar apropriado para acenderem uma fogueira e se quisessem viver uma aventura podiam fazer uma viagem rápida na cidadezinha em direção a uma bela cachoeira, o que certamente fariam no domingo.
E, de fato, estava sendo perfeito, melhor do que Kalli havia imaginado.
Laura alugou uma van para trazer todos, assim que chegaram montaram as barracas, jogaram vôlei na piscina e Vovô Espedito acendeu a fogueira para assarem linguiça e marshmallow.
Kalli escolheu seus amigos favoritos. Luiza – a melhor amiga –, Amanda, Pâmela, Estela, Otávio e Rodrigo. E é claro, Leonidas fora obrigado a vir, não por escolha de Kalliope. Simplesmente não poderiam deixá-lo sozinho em casa.
Portanto, lá estava ele, no escuro da varanda, próximo ao grupinho de amigos, fingindo tocar violão. Enquanto isso os adultos assavam carne e bebiam cerveja a uma distância considerável, afinal compreendiam que as crianças precisavam de privacidade, que por sinal, estava sendo muito bem aproveitada…
Após se sentirem cheios, se sentaram em círculo e uma garrafa de cerveja vazia foi posicionada no centro deles. Kalli havia acabado de girar a garrafa que apontou para ela e Otávio.
— E então, o que vai ser, Kalliope? — Questionou o dito cujo, um tanto quanto animado diante da possibilidade de beijá-la na despensa penumbra. — Pergunta constrangedora. Selinho. Ou beijo de língua na despensa?
Kalliope sentiu seu rosto pegar fogo, a ansiedade estava causando calafrios em seu corpo inteiro. Otávio era bem bonitinho, o que significava que sim, era um bom partido para perder o BV. E Amanda havia voltado da despensa um tanto feliz após beijá-lo, portanto, ele era experiente.
— Despensa. — Disse simplesmente e se colocando de pé.
A galera vibrou diante da decisão e Otávio recebeu tapas nas costas provindas de Rodrigo.
— Eu vou logo em seguida. — Ofereceu uma piscadela para Kalli que apenas o encarou surpresa e caminhou em passos inseguros para dentro da casa.
Atravessou a sala e a cozinha até chegar à bendita despensa, um espaço minúsculo entre prateleiras e estava deveras escura por desprover de janelas.
Leonidas observava tudo sorrateiramente e quando ouviu Kalliope falar daquele modo, sentiu seu sangue ferver. Como assim ela beijaria o galinha do Otávio? Principalmente quando ele fazia comentários tão desagradáveis sobre os corpos das meninas. Não deu um soco nele antes por respeito ao pedido de Marilia, para que não estragasse a festa de Kalliope. Mas o jeito que ele falou com Rodrigo sobre como a bunda de Kalli havia ficado maior, fez o estômago de Leonidas revirar.
Num impulso simplesmente incontrolável, caminhou sutilmente pela varanda escura até a luz acesa da janela da cozinha deixada aberta. Assim que viu a irmã-postiça se trancar na despensa, pulou-a sem dificuldades, passou por cima da pia e ficou escorado em um canto da cozinha esperando Otávio aparecer. Assim que ele surgiu, o agarrou pela camisa e jogou contra a parede.
— Você pensou mesmo que eu iria deixar você chegar perto da Kalli? — Leonidas riu, debochado. — Vou te dar duas opções ou você dá o fora daqui…
— Cara, deixa de ser babaca! — Otávio o empurrou. — Na moral, não preciso disso para beijar uma garota. Quer a Kalli para você? Ela é sua!
Foi fácil demais, o cara era um tremendo medroso. Nada que a fama de Leonidas não tenha resolvido por si só, afinal, era conhecido por brigar na escola. E da última vez fez um estrago na cara de um cara.
Otávio deixou a cozinha às pressas, Leonidas já estava prestes a pular a janela de volta para a varanda com um sorrisinho vitorioso no rosto quando um pensamento lhe ocorreu: mais uma vez estava estragando as experiências únicas na vida de Kalliope. Era covardia demais deixá-la esperando no armário, provavelmente deveria estar morrendo de ansiedade pelo tão esperado primeiro beijo. Não era segredo que ela nunca havia beijado ninguém antes, bom… ele fez uma promessa a Marilia e não queria mais uma vez quebrá-la.
Não custava nada avisar que Otávio havia amarelado. Assim, Leonidas foi até a despensa e entrou. Não teve tempo nem de pensar em falar, Kalliope o agarrou pelo colarinho e colou seus lábios nos dele.
A regra número um do jogo era clara, nada de conversar, apenas beijar. E foi o que ela fez, após morrer de tanto esperar.
Regra número dois: nada de tocar.
No entanto, ele não conseguiu se segurar, não quando Kalliope pressionava seus lábios macios contra os seus, agarrou a cintura da moça e a pressionou contra as prateleiras. Kalli usava um top simples e saia jeans, o que significa que sua pele da cintura estava exposta, permitindo uma troca de calores deliciosa da mão dele em suas laterais.
Era seu primeiro beijo, então não sabiam como proceder. Como usar a língua? Bem, Leonidas ficou surpreso em ver que Kalliope estava muito bem formada no assunto, ela passou a língua sutilmente por seus lábios, pedindo permissão para entrar, ele cedeu sutilmente e os músculos molhados se esbarraram fazendo-os soltar suspiros intensos.
Beijar era muito bom. E “Otávio” sabia mesmo como fazer isso.
Um esbarrar de dentes o fizeram soltar risadinhas, mas isso não os impediu de continuarem experimentando aquela novidade. Aproveitaram os lábios um do outro por um bom tempo e Leonidas até experimentou dar uma mordidinha fraquinha. Kalliope pareceu gostar, pois agarrou seus ombros, aprofundando o beijo.
No fim das contas, foi bom e deveras molhado, um errinho aqui e outro ali, mas não foi ruim como muitos delatavam. Foi surpreendente e inesperado.
Assim que cessaram os beijos, Leonidas sentiu o rosto em chamas, completamente envergonhado por beijar a garota que deveria ser sua irmã e pior ainda, por ter gostado tanto. Apenas a deixou ali, saindo do quartinho completamente perplexo. Seu coração batia tão forte que parecia ser um lutador premiado de boxe. Não pulou a janela, foi direto para o seu quarto, onde se jogou na cama e ficou encarando o teto, buscando pelas respostas no universo incompreensível ao seu redor.
Ele já desconfiava, mas teve certeza naquele dia.
Estava apaixonado por aquela que deveria ser sua irmã.
E esse era um segredo que Leonidas estava destinado a morrer levando consigo.
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— Nossa, você demorou? O que aconteceu? — Luiza perguntou quando Kalli se sentou em seu lugar na rodinha.
Seus lábios estavam inchados e vermelhos, as bochechas ruborizadas, Kalliope estava um caos após seu primeiro e inesquecível beijo.
— Como assim? — Ela trocou um olhar desconfiado com todos, incluindo Otávio que obviamente contou o que Leonidas havia feito.
— Merda! — Bradou Otávio, horrorizado. — Você beijou o seu irmão.
— Não!
— Pior que só pode ser isso. — Deduziu Rodrigo.
— Meu deus, que nojo! — Pâmela fez uma cara horrível.
— Eu não acredito! — Ralhou Estela.
— Mas, tipo, vocês não são irmãos de verdade, né? — Luiza tentou ajudar a melhor amiga que estava com lágrimas nos olhos.
Ignorando a tudo e todos, movida pela mais pura definição de ódio, Kalli marchou em passos duros para dentro da casa, procurando Leonidas por todos os cantos até encontrá-lo no lugar mais óbvio, seu quarto. Ela abriu a porta com tanta raiva que se chocou contra a parede, fazendo o rapaz despertar de seu nirvana num pulo e encará-la assustado.
— Kalli, espera, eu-
Kalliope o acertou com um tapa forte na cara. As lágrimas beiravam seus olhos e conforme se acumulavam ficavam mais grossas. Ele viu quando elas rolaram por sua face vermelha, havia tanta dor, tanto rancor que não era possível descrever.
— Nunca mais encosta em mim. — Gritou mesmo com a voz falha e saiu do quarto.
Leonidas ficou parado ali, sentindo uma mistura de decepção e paixão que jamais pensou sentir na vida. Segurando o lato bofeteado, abriu um sorriso genuíno.
É, ele definitivamente está apaixonado.
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DIAS ATUAIS
Terça, 14 de maio de 2024
A impressora deslizou os papéis para fora e Kalliope os reuniu em mãos. Seu olhar estava perdido no negatoscópio fixado na parede à sua frente, iluminando o raio-x do seu paciente, embora tivesse dado nota da gravidade do caso à sua frente, seus pensamentos vagavam para outra realidade.
Seu corpo estava diferente, parecia ter sofrido uma abdução e agora era uma nova pessoa. Os extraterrestres modificaram cada pequena célula do seu corpo, o vírus Leonidas Vitorino atacava seu organismo e seus glóbulos brancos não podiam se defender. Não existia um antídoto.
Era como se ainda estivesse naquela piscina, as mãos do rapaz segurando seu corpo, pressionando seus ossos, fundindo-se ao seu esqueleto. A sensação dos lábios alheios contra os seus ainda era clara e causava um formigamento ansioso, a fazia salivar por um desejo insano por mais. Mas o que seria esse mais? Aquela eletricidade que percorreu seu corpo deixou um rastro de destruição. Kalliope temeu não sobreviver aos danos da catástrofe.
— Dra. Antonelli?
O que deveria fazer? Como poderia seguir em frente? Era por isso que não davam certo como irmãos, as tentativas de amizade eram caóticas, o único jeito de tê-lo em sua vida era como um namorado? NA-MO-RA-DO? Sua mente pifou de vez, o diagnóstico era claro: a paciente entrou em colapso.
— Dra. Antonelli? — Sentiu o toque sutil do seu chefe e deu um pequeno salto, assustada. — Dra. Antonelli, a senhorita está bem?
— Me desculpe, Dr. Gouveia. Onde estávamos? — Kalli ajustou sua postura e retornou para o leito do paciente que estava com a cabeça enfaixada para mobilizar sua mandíbula em processo de reparação.
— Poderia explicar ao paciente o procedimento que vamos realizar, por favor?
— Sim, claro. Sr. Santos, faremos uma cirurgia de enxerto ósseo para realizar a reconstrução de defeitos na sua mandíbula após a perda óssea pela qual passou devido à doença periodontal severa. Nós utilizamos o enxerto ósseo autógeno, o que significa que será retirado do senhor. Colheremos o material de sua crista ilíaca, é uma crista óssea localizada na parte superior da sua pelve. — Kalli apontou o osso pélvico do paciente no raio-x iluminado. — Para realizarmos o enxerto o senhor passará por uma cirurgia preliminar para remoção do material necessário para enxertar. A cirurgia de reconstrução em si envolverá a remoção do tecido periodontal infectado e a reconstrução da mandíbula usando enxerto ósseo autógeno, seguida por implantes dentários para restaurar a função mastigatória e estética do senhor.
O Dr. Gouveia sentiu um orgulho imenso da explicação excelente de sua aprendiz. Embora deveras debilitado, o paciente assentiu levemente e uniu as mãos em forma de agradecimento. A cirurgia prometia devolver sua qualidade de vida que voltaria a ser confortável e consequentemente poderia voltar a falar.
— Precisamos da sua assinatura para autorizar os procedimentos. Quaisquer dúvidas que surgirem, por favor, não deixe de anotá-las para podermos saná-las. — Disse a Dra. Antonelli, segurando cuidadosamente a prancheta para que o paciente deixasse sua assinatura.
Após se despedirem, os doutores saíram do quarto rumo ao seu departamento.
— Você foi muito bem, Dra. Antonelli. — Elogiou seu chefe. — Mas sinto que está um pouco aérea. Por favor, não deixe que problemas pessoais te atrapalhem a essa altura do estágio. A senhorita está desempenhando uma excelente performance.
— Me desculpe, Dr. Gouveia. Isso não vai se repetir.
— Tire folga amanhã, não quero que perca o ritmo, então… apenas descanse, doutora. — Aconselhou o cirurgião-dentista.
— Não, eu não preciso de folga, doutor. — Kalli se desesperou, temendo que tal atitude fosse impactar negativamente em seu desempenho. Ela não podia parar. Não tinha espaço para folgas.
— Kalliope. — Ele chamou sua atenção. — Tire um dia de folga. Isso não é uma discussão. Te vejo no consultório.
Sentindo-se como uma derrotada, Kalli fez os relatórios pendentes enquanto ouvia música em seus fones de ouvido. Era uma playlist compartilhada com seu pai, um jeito memorável de compartilhar momentos com ele, no entanto, Kalli gostava tanto das músicas que as ouvia frequentemente. A playlist em questão se chamava Flashbacks e era recheada de Boleros do século XX.
A voz de Paul Rodgers da banda Bad Company soava em seus ouvidos, embalando Kalliope na nostálgica canção “Feel Like Makin’ Love”, e a melodia não seria um problema se a letra não soasse tão calorosa. Parecia combinar perfeitamente com o caos em sua vida. Ou melhor: com as sensações volúpias que Leonidas a fez sentir com um só beijo.
Baby, quando eu penso em você, eu penso sobre amor
Querida, eu não vivo sem você e seu amor
Se eu tivesse aqueles sonhos dourados de ontem
Eu te envolveria no céu, mas eles morreram pelo caminho
E se eu tivesse o sol e a lua, e se eles estivessem brilhando
Eu lhe daria ambos, noite e dia, amo satisfazê-la
Estou com vontade de fazer…
Estou com vontade de fazer amor, vontade de fazer amor
Estou com vontade de fazer amor, vontade de fazer amor com você
A canção a levou novamente até aquela noite, até aquele beijo delicioso, até a sensação de raios elétricos percorrendo por todo seu corpo. Kalli se sentiu excitada, não podia negar, Leonidas despertou algo proibido dentro dela. Algo que há muito não sentia, mas que almejava do fundo do seu ser.
Aquele maldito beijo aos seus 16 anos, na despensa da avó de Leonidas, havia a abalado completamente. Mesmo que seus amigos não acreditassem, negou com todas as forças que havia beijado Leonidas, eles não acreditaram e pôr fim a deixaram em paz. Precisou de um esforço sobrenatural para fingir que nada havia acontecido, pois se apaixonar pelo seu “irmão” era certamente impossível. Mas não agora… Leonidas não passava de um velho amigo. Alguém que ressurgiu em sua vida e poderia atar os laços que quiser com ele. Não era mais “proibido”.
Quem ela queria enganar?
Ela queria Leonidas. E de preferência nu. Entre suas pernas…
Sua concentração foi interrompida por um vibrar do seu celular, o nome de Leonidas saltou na tela e Kalli segurou o ar nos pulmões. “Você está trabalhando, não deixe seu chefe te pegar em mais um vacilo”, disse a si mesma. Não era coincidência demais? Se a droga do destino existe mesmo, avise a ele que Kalliope não era sua fã.
No entanto, a curiosidade falou mais forte, ela desbloqueou o dispositivo com o reconhecimento facial e clicou na mensagem, dando de cara com uma foto um tanto tentadora quanto fofa.
Leonidas estava sentado em um sofá, sem camisa, suado, com um sorriso lindo no rosto, o sol iluminando sua face e o seu cachorro, Juca, com as patas sobre seus ombros, olhando para o celular e dando aquele típico sorriso canino com a língua para fora, fazendo Kalli suspirar de fofura. Sentiu um combo de emoções entre ser uma grande idiota e uma depravada ao invejar um cachorro.
Leonidas às 11:43 [foto em anexo]
Leonidas às 11:45 “Jucão mandou oi. Acabamos de correr 3 km por aqui.”
Leonidas às 11:46 “Te vejo hoje à noite na piscina?”
As mensagens surgiram na sequência. Leonidas estava agindo como se nada tivesse acontecido, como se fossem amigos, como se não tivessem trocado o maior beijo do século. Kalli surtou, bloqueou o telefone com tanta rapidez que o dispositivo quase foi ao chão, agarrou o maldito aparelho de volta e arremessou para dentro de sua mochila.
Ela finalizou os relatórios com tanto ódio que quase rasurou uma folha. Quando o relógio marcou meio-dia, rumou até o vestuário e pegou seu almoço, dirigiu-se para as escadas da saída de emergência onde podia almoçar com a solidão e tranquilidade enquanto realizava um momento histórico: uma chamada de vídeo com sua melhor e única amiga que estava em outro hemisfério do planeta.
Luiza Santana, foi a única que sobreviveu às intervenções do seu ex-irmão, Leonidas, em sua vida. Todos seus amigos se afastaram sobretudo por causa do rapaz. Entretanto, Luiza teve que se mudar para a Inglaterra ao receber uma excelente proposta de emprego, aceitou uma vaga na Embaixada do Brasil em Londres, onde atua como tradutora. Sua vida ganhou novos ares, rostos, cores, emoções e propósitos.
Se esforçavam para manter o contato virtualmente, considerando que os seus horários não batiam e quase não se falavam. Faziam uma falta imensa uma para a outra, mas entendiam que a vida não era fácil para ninguém e como jovens precisavam se esforçar muito para terem um futuro melhor.
O sonho acaba quando você sai da escola e descobre que a vida se resume a trabalhar, estudar e pagar contas. Não dá tempo de ter amigos, era frustrante, mas Kalliope estava conformada. O pouco tempo que tinha com Luiza era bem aproveitado.
— Adivinha? Marquei encontro com um carinha, que meu deus, amiga, ele é muito gostoso. — Contou a garota de fios escuros, toda empolgada. — Chefe de cozinha! E disse que vai cozinhar para mim, amiga, eu tô vivendo o meu MasterChef!
— Me conte tudo e não me esconda nada! Manda foto! — Kalli ficou toda animada com a vida romântica da amiga dando uma chacoalhada, passaram os vinte minutos seguidos falando do tal chefe de cozinha. Kalli precisava ser honesta, era tão gostoso quanto as fotos dos pratos preparados por ele, dispostas em seu Instagram. Aproveitou-se do fato de que quando Luiza começa a falar não para, para comer metade da sua marmita. — Eu tô tão feliz por você.
— Obrigada amiga. — Ficou toda sorridente. — Agora me fala porque você está parecendo a própria Noiva-Cadáver?
Kalli suspirou.
— Minha aparência tá horrível, né? — Passou a mão livre nos cabelos presos num coque, tentando ajustar os fios desalinhados.
— Amiga, só pela sua cara eu sei que está quase gritando socorro.
O problema de amizades íntimas é a sinceridade. Kalli suspirou e abandonou a marmita num degrau da escada, apoiou o cotovelo na perna e sustentou seu rosto com a mão.
— Amiga, eu acho que…
— Acha o quê?
— Acho que estou gostando de alguém. — Soltou de vez, afinal literalmente não tinha tempo para cerimônias. Em 30 minutos ela precisava encerrar essa ligação e retornar ao expediente.
— COMO É QUE É, MULHER? — Luiza gritou, fazendo o maior auê.
— É sério.
— O que eu perdi?
— Se eu te contar, promete não me matar? — Sorriu amarelo, temendo que existisse uma possibilidade de uma faca virtual apunhalar seu coração vinda da melhor amiga.
— Deixa eu sentar de novo que lá vem bomba. — Luiza voltou para a cadeira de sua escrivaninha, após ter se levantado pelo choque.
— Eu beijei um carinha. E acho que gosto dele. Quer dizer, eu não sei, ele mexe comigo de um jeito inexplicável. Amiga, eu tô muito perdida. — Kalli choramingou.
— Fala quem é, agora!
— Tá. Deixa eu criar coragem aqui.
— Fala mulher!
— Leonidas.
— Oi?
— É o Leonidas.
— Leonidas, aquele Leonidas que fodeu com sua vida? Leonidas aquele que era seu irmão? Puta a merda! — Exclamou Luiza, perplexa.
Kalliope não poderia esperar outra reação das pessoas que conheciam sua história com o ex-irmão.
— O legítimo. — Confessou, suspirando fundo.
Luiza fez uma pausa dramática com a mão no peito, boca aberta e a expressão de completo choque. Ela vai matar a Kalli.
— Kalliope Antonelli, eu vou te matar! ONDE É QUE CÊ TAVA COM A CABEÇA? COMO ASSIM VOCÊ TÁ BEIJANDO AQUELE GAROTO IDIOTA? ME EXPLICA AGORA COMO ISSO ACONTECEU! — Luiza estava gritando tanto que Kalli afastou o celular, conferiu se não tinha ninguém subindo aquelas escadas inutilizáveis e ouvindo o escândalo.
— Se acalma para eu poder te explicar.
E foi a vez de Kalli contar tudo desde o começo, Luiza foi relaxando conforme ouvia que Leonidas havia renascido das cinzas e se tornado outra pessoa. Aquilo parecia fantasia, na opinião dela. Mas o jeito que Kalli falava dele, a fez perceber que só podia ser verdade. Já que presenciou diversas situações e desabafos traumáticos da dentista, todas as vezes que ela era engatilhada pelo passado que viveu com o irmão-postiço.
— Uau. — Foi o que disse, simplesmente, após ouvir o relato pouco detalhado do beijo que trocaram. — Amiga, que fanfic é essa?
— É, eu sei, parece loucura.
— É bomba atrás de bomba. Vocês dois são o significado ilustrado da palavra destruição.
— Me sinto assim… destruída após beijá-lo.
— Pela segunda vez na vida, devemos salientar. — Luiza arregalou os olhos atônita. — Puta que pariu, o negócio tá intenso para um cacete!
— Será que é só sexo ou eu realmente gosto dele? — Kalli perguntou-se.
— Você definitivamente gosta dele, e, quer transar com ele. E tá tudo bem, amore! Você tem 24 anos, devo te lembrar. Kalli, nunca vi você falar de alguém assim antes. Se isso não é amor, eu me mato. — Luiza ergueu as mãos em rendição.
— Não se mata não, doida. — Kalli fechou a cara, não gostando da expressão escolhida pela amiga. — É, eu acho que gosto dele. No fundo, sempre gostei, só que a gente só escondia… E agora que sabemos, veio os sentimentos extras, vulgo tesão reprimido. Francamente, não tinha como a vida ser mais filha da puta comigo?
— Kalliope falando palavrão? Ok, devolvam a minha melhor amiga.
— A Maldição de Leonidas Vitorino. — Kalli revirou os olhos.
— Amiga, eu sinto muito, mas não sinto? — Luiza uniu as sobrancelhas em confusão. — Isso, na verdade, é maravilhoso. Você está apaixonada por alguém? Isso é um fenômeno. Vou fechar a janela porque provavelmente vai chover canivete.
— Não está me ajudando… Luiza, só me fala, o que eu faço?
— Mulher, só pega esse gostoso. Agarra ele e seja feliz. É sobre isso, apenas.
— Ficou louca? Imagina só como minha mãe vai se sentir. Até poucos dias ela andava sussurrando por aí que Leonidas tentou me matar.
— Mas não foi isso que aconteceu. É claro ele errou, mas não tentou te matar e sim aquele filho da puta bêbado que desmaiou no volante.
— Sim, eu sei. Mas duvido que ela seja capaz de ver as coisas desse modo. Minha mãe era a maior defensora de Leonidas na vida, mas depois do que ele fez, passou a abominá-lo.
— Kalliope, isso aí não é problema seu.
— Mas já, já vai ser, o que as pessoas sabem fazer com perfeição é colocar seus problemas nas costas alheias.
— Para se preocupar com os outros. Você sempre coloca as pessoas acima de você, é por isso que vive se arrastando por aí, vivendo uma vida infeliz. O Leonidas mudou e ele tá super a fim de te fazer feliz, por que não pode permitir isso? Portanto, se tua mãe se incomodar, você pega seu salário de estagiária e vai viver a sua vida. Não me leve a mal, eu amo a Laura, mas ela e a Marilia foram muito negligentes com vocês. Elas tentaram segurar uma situação irreversível por muito tempo, até vocês dois chegarem ao limite e explodirem. Afinal, vocês nunca foram essa porra de irmãos que suas mães exigiram, como se estivessem brincando de casinha. — Percebendo que havia ativado o modo maritaca, Luiza abanou as mãos na frente da câmera e finalizou seu raciocino. — Amiga, só vai atrás da sua felicidade. Você merece.
E ela estava certa, coberta da cabeça aos pés de razão. Kalli continuava com medo. Ela não queria estragar sua relação com a mãe. Feridas cicatrizadas nunca deveriam ser reabertas. Sua última briga com Leonidas era a prova disso.
— Eu tenho tanto medo. — Confessou para a melhor amiga.
— Quem é que não tem? Amar é assustador, mas, ao mesmo tempo, te liberta. A verdade é que vocês dois se gostam desde aquela época. E essa palhaçada de serem “inimigos” era uma maneira ridícula e imatura de lidarem com os sentimentos que tanto temiam. Mas, agora, não tem nada que os impeça. Então, porque você continua perdendo seu tempo falando comigo, mulher? Cai de boca nesse p-
— LUIZA! — Kalli riu apavorada com o linguajar da amiga.
— Desculpa, me empolguei real. Afinal, minha melhor amiga está apaixonada, thanks gods. — Gargalharam juntas.
— Tá, tá, eu entendi.
— Mas é sério, amiga, eu te amo demais para te ver sofrendo assim pela sua mãe. Por anos ficou afastada de você, ignorando tudo que você passou na versão peste de Leonidas. Só te deu atenção quando viu o estrago que o acidente causou. Na moral, vou até parar de falar na Laura para não a odiar.
Kalli ficou muda, ouvindo os conselhos da única pessoa que poderia saber como ela se sentia. Nada melhor do que a visão alheia em sua vida para mostrar as verdades que teima em não enxergar. Sempre colocava a felicidade dos outros acima da sua. Prova disso é aos anos que se submeteu ao suportar os caprichos do antigo Leonidas. Sabendo que se deixasse sua mãe, a magoaria profundamente.
Toda a cobrança em si mesma provinha do resultado da relação distante com sua genitora, Kalli se esforçava ao máximo para ser notada pela mãe e mesmo assim, naquela época não era notada. E hoje, é adulta, o que ela faz ou não, pouco importa para Laura.
— Kalliope?
— Sim?
— Apenas beije esse garoto como se não houvesse amanhã e deixa acontecer.
— Tipo ver no que vai dar?
— Exatamente isso. Me agradeça depois.
— Ok.
— Desculpe, preciso ir agora. Beijos. Te amo.
— Eu também te amo, Lu. Boa sorte com seu chefe de cozinha.
— E boa sorte para você com seu garoto-caos.
Kalli finalizou a ligação com um sorriso de alívio nos lábios, se alguém de fora não via essa relação como um erro, como ela poderia continuar vendo? A conversa com Luiza foi um divisor de águas, o impulso que lhe faltava para assumir o que realmente queria.
Certamente não cabia uma relação como essa na rotina, afinal era uma estudante, estagiária e sua vida girava em torno das salas de cirurgia. Como poderia dar espaço para um romance? Ela não sabia a resposta, mas sabia que estava pouco se fodendo. Uma vez na vida queria se sentir feliz e ela só conseguiu isso com Leonidas Vitorino.
Sem pensar mais nem duas vezes, ela tirou uma selfie com sua marmita pela metade e enviou a seguinte mensagem para Leonidas Vitorino:
Kalli às 12:47 “Me encontre à meia-noite.”
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baby, eu sou a escolhida
porque a placa no seu coração diz
que ele ainda está reservado pra mim
honestamente, quem somos nós
pra lutar contra a alquimia?
the alchemy, taylor swift
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