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Me encontre no passado só mais uma vez

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Sexta, 13 de dezembro de 2024

13 de dezembro. Essa data lhe perseguia.

Anos atrás marcou o evento catatônico que quase levou ela e Leonidas à morte. Com esse pensamento horrível, segurou a mão do rapaz. Ali estavam, cerca de sete anos depois, novamente em um carro. Agora como um casal, movidos pela força do amor que sentiam um pelo outro. Não mais inimigos. Não mais falsos irmãos inconformados. Leonidas já não estava mais em pedaços. Kalliope e a solidão mesclada à perfeição se divorciaram, finalmente era feliz.

Será que realmente precisavam fazer isso? Era como se a simples ideia fosse destruir tudo que construíram juntos. É como caminhar para a forca, sabendo que é seu último suspiro.

— Não sei se quero fazer isso. — Kalli murmurou em estado sombrio enquanto observavam as luzes neon na imensa placa de donuts.

— Eu também não quero, Kalli. Mas precisamos. Sabe uma coisa que meu pai me ensinou? — A garota olhou para ele, diante da luzinha acesa no teto do carro, sentindo a mão dele segurar a sua com firmeza. — O ódio só mata quem o sente. Esse sentimento só destrói você mesma, só acontece dentro de você e consome os seus detalhes mais belos. Perdoar não é fácil, mas, às vezes, precisamos esclarecer as coisas para conseguir seguir em frente sem arrependimentos. Enquanto gastamos as nossas energias odiando alguém, a vida daquela pessoa está seguindo em frente e acredite em mim, ela não queima felicidade por você, como faz por ela. Por isso, perdoar envolve a libertação única e exclusivamente sua.

Tudo que o rapaz falou fazia sentido, Kalli podia enxergar a razão, mas a emoção teimava em cegá-la.

— Não estou pedindo para perdoar a Laura, isso não cabe a mim. Estou pedindo apenas que resolva as pendências, para que isso não roube a sua felicidade. — Esclareceu o rapaz.

Se sentia no direito de tentar amenizar a situação. Afinal, quem queria enganar? A culpa pelo que aconteceu o envolvia num abraço sufocante. Laura brigou com a garota por sua causa. Ele quis voltar para a vida de Kalliope e nunca desejou gerar uma relação negativa entre mãe e filha. Talvez isso soe egoísta? Sim. Mas de forma alguma estava pensando somente em seu benefício próprio. Acima de tudo, a felicidade da garota era sua prioridade. Seu dever era ajudá-la. Por mais péssima que Laura seja, brigar com a mãe destruiu parte de Kalliope e agora ela tem que bater o martelo. Se toda essa situação funcionaria ou não, já não lhe dizia respeito.

Leonidas conhecia bem as consequências de perder alguém que tanto ama e de importância crucial. Não podia deixar Kalli passar por isso, não quando a mãe dela estava viva e bem. Não quando se tem uma chance! Coisa que a vida arrancou dele. E a mulher ao seu lado sabia muito bem disso, Kalli observava os olhos do rapaz e se lembrava do relato da morte de Paulo, contado na piscina do antigo prédio que os uniu. Ela viu a dor nua e crua. Como que por telepatia, pode compreendê-lo. Leonidas não queria aquilo para ela.

Kalli concordou cuidadosamente, analisando os conselhos. Saboreando e entendendo os sentimentos dentro dela.

— Não sei se vou conseguir perdoá-la, Leonidas. Não sei se ela é uma pessoa digna de continuar pertencendo a minha vida. — A mulher suspirou, afetada.

Como poderia viver almoços de domingo em família após ouvir aquelas palavras? Como encararia Laura de modo amoroso? Como permitiria o envolvimento dela com seus filhos? Parece que os sentimentos bons foram dizimados a apenas mágoas.

— Ao menos esclareça as coisas, Kalli. Põe pra fora tudo que te corrói. O que realmente quero é que você não se cale, que jamais abaixe a cabeça para quer que seja. Resolva essa situação para não sofrer mais. Se arrepende pelo que fez e não pelo que deveria ter falado e acabou engolindo. — Seu namorado lhe dava conselhos que serviam para ele mesmo. Leonidas dizia o que precisava ouvir, afinal estava no mesmo barco que Kalliope, se sentindo do mesmo modo.

Sua mãe amava a mulher que amaldiçoava sua existência e isso o fazia questionar tantas coisas. Será que Marilia realmente o ama? Como alguém pode amar a pessoa que deseja a morte do seu filho? Não fazia sentido… A cada segundo o amor das duas soava mais doentio.

E agora estava aqui. A pedido delas. Pronto para entrar por aquela porta e encarar seus demônios. Aquele mesmo lugar onde anos atrás conheceu uma garotinha de cabelo trançado e lhe deu um diário de presente.

Por tanto tempo desejou que elas encontrassem a felicidade juntas, mas o problema é a bolha que criaram ao redor de única e exclusivamente o umbigo delas.

Kalli e Leonidas não cabem dentro dessa bolha.

Dias atrás Laura foi até o seu trabalho no concerto. Abel foi o chamar pasmo, temendo que a cirurgiã-dentista fosse arrumar o maior barraco. No entanto, Laura foi fria e pacífica. Ela não mencionou o acidente, tão pouco proferiu palavras odiosas ao rapaz, apenas suportou sua presença para fazer seu pedido de convencer Kalliope de se encontrar com ela e Marilia naquela loja de donuts onde tudo começou.

No início, Kalli ficou receosa, mas Leonidas a encorajou a vir para poderem resolver essa rixa de uma vez por todas. Se é que isso é possível, depois de todo o mal que fizeram aos dois. Depois de tudo que Kalli teve que ouvir da boca da própria mãe. Ele se sentia mal, não podia negar. Mas via, além de machucar a mulher que amava, sabia que essa situação era necessária para seguirem em frente.

E em nome de seu benefício próprio, ela o faria.

— Quando estiver pronta, baby. — Determinou Leonidas, à sua espera.

Ficaram ouvindo as músicas aleatórias na rádio do carro, enquanto Kalli sentia o estômago se revirando de tanta ansiedade. Suas mãos estavam frias e suavam, o que ela detestava. Ficou limpando-as no pano da calça jeans. Bebeu quase uma garrafinha inteira de água.

Encarou o fluxo de clientes dentro da loja temática, sua favorita quando criança. Faz quantos anos que ela não comia um donut? Seu sabor favorito era o de frutas-vermelhas. Bem, talvez estivesse tentada a entrar só para revisitar o sabor delicioso.

— Vamos? — Chamou o noivo, subitamente.

Juntos, cacete.

Juntos, cacete. — Ela repetiu como um mantra.

Saiu do carro ao mesmo tempo que Leonidas, fechou a porta do Chevette com cuidado e passou por trás do veículo para encontrá-lo. Suas mãos se uniram automaticamente, com seus dedos fortemente entrelaçados ao da mulher e caminharam em direção ao confronto.

Kalli usava um tênis branco confortável, calça wide leg de lavagem clara, uma blusa estampada com um gatinho escrevendo em uma máquina de datilografia, pertencente ao último álbum lançado de sua cantora favorita, o “The Tortured Poets Department”. Ela encarou os pés enquanto era guiada pelo namorado, que estava inteiro de preto, usando vans nos pés, calça jeans casual e o moletom do @orfeuoficial. Focou nos detalhes para evitar o que estava prestes a acontecer.

Leonidas empurrou a porta de entrada, o sininho tocou no fundo da loja e a atendente agora desconhecida por Kalliope os saldou, o traje obrigatório de marinheira fora mantido, o que a fez sorrir. Caminhou pela mágica decoração rosa com granulados coloridos até a última mesa do estabelecimento.

Até que seus passos cessaram, o rapaz apertou a mão dela com ainda mais força, parecia o fim do mundo. E talvez fosse.

— Kalli. — Ouviu a voz de sua mãe, após tantos meses.

— Oi, filho. — Marilia abraçou o rapaz, mas ele não soltou a sua mão, retribuiu apenas com o braço disponível.

— E aí, dona Marilia. — Leonidas abriu um sorrisão inevitável para a mãe. Porra, ele a amava tanto que não podia se segurar. Sentia tanta a falta da mulher. Foi uma barra sair de casa e terem o contato abalado devido ao envolvimento com Laura.

Ele não brigou com Marilia quando ela contou sobre reatar com a ex, ficou chateado pela mentira, mas cacete, ele estava tão apaixonado por Kalliope que pode compreender o amor de sua mãe. Faria o mesmo se fosse preciso. Só não mentiria… afinal, foi claro com a mulher, assim que Kalli quis se envolver consigo, foi logo contando para ela.

— Por favor, sentem-se. — Pediu Laura.

Kalli e Leonidas deslizaram para o lado oposto da mesa, ficando cada um de frente para sua respectiva mãe.

— Parece um déjà-vu, não é? — Marilia riu, tentando descontrair.

— Nossa, sim, mas invertemos os papéis. — Leonidas concordou, despretensiosamente.

— A gente até trouxe um presente para a casa de vocês. — Contou Marilia, revelando uma sacola daquelas de compras em shopping.

Receoso, Leonidas aceitou em um falso bom grado e encontrou um porta-retrato. Uma foto em família surgiu diante de seus olhos. Ele se lembrava desse dia, foi no sítio dos seus avós, no dia do aniversário de 16 anos de Kalli, quando estavam prestes a voltar para casa, seu avô pegou a máquina fotográfica e registrou uma rara foto em família. Kalli ao lado de Laura, meio emburrada devido ao acontecimento na despensa da casa e Leonidas abraçando a mãe. Eram uma família linda, como propaganda de margarina, no entanto, cada presente naquela mesa sabia que não eram tão felizes quanto aparentavam. Era a porra de uma ilusão.

— Uau, obrigado. — Agradeceu novamente agindo como um falso. — Olha como você sempre foi gatinha, amor.

Kalli apenas esticou os lábios, pouco feliz com a imagem ilusória.

Laura exibiu uma expressão de desconforto, para ela ainda era novidade os dois serem um casal. O enxergavam como irmãos, em seu mundinho particular totalmente enganoso.

O pior de tudo foi perceber que possivelmente era uma afronta contra o casal.

— Bom, vamos o que interessa. Qual o motivo da reunião em família? — Leonidas foi logo cortando todo o lenga-lenga.

— Não querem pedir algo antes? — Sugeriu sua mãe.

— Não mesmo. Manda a real para a gente, dona Marilia.

— Não gosto quando me chama assim. — Ela cruzou os braços irritada.

— Mãe! — Repreendeu, fazendo-a compreender que estava saindo do assunto.

— Tudo bem… você conta ou eu, meu bem? — Marilia voltou-se para Laura.

— Fica à vontade.

— Certo. — Marilia respirou fundo, olhou para os dois e soltou: — Vamos nos casar. — Com um sorriso imenso, como se a notícia fosse maravilhosa. Poderia até ser, mas certamente não para os mais jovens à sua frente.

Kalli manteve-se neutra, como se já esperasse, controvérsia a luz de Leonidas foi se apagando e isso ficou visível em seu rosto.

— Oh! — Indagou surpreso. — Era isso?

— Sim, não gostou? — Marilia perguntou, muxoxa.

— Meus parabéns. Desejo o melhor as duas. — E mais uma vez ele precisava agir falso, contra sua vontade. Desejava, sim, a felicidade da mãe, mas puta a merda, em que universo elas vivem?

Ele só estava agindo de tal modo para evitar uma briga, mas ao que parece elas estavam tornando isso impossível.

— Obrigada, querido. Isso é muito importante para mim.

Leonidas engoliu em seco e mirou o cardápio esquecido na mesa, perambulando o que fazer diante da situação tão constrangedora. Até Laura abrir a maldita boca, não satisfeita com toda a merda que criaram.

— Não vai dizer nada, filha? — Questionou e sua mão tentou capturar a da moça, que ao perceber o movimento puxou sua mão livre bruscamente para si, olhou para a mãe como se fosse o próprio demônio, havia sangue no lugar de lágrimas, sua face inteira pegava fogo.

— É sério? Você me tira da minha casa, me faz abrir mão de uma sexta com o meu noivo, na frente da nossa TV, com nosso cachorro para me fazer vir aqui ouvir que vai se casar com a Marilia? — Kalli soltou a mão do rapaz para ficar de pé, apoiando os punhos fechados sob a mesa. — Faça-me o favor, Laura. Eu não acredito que a mulher doce que sempre admirei cada dia se mostra um verdadeiro desgosto. Você sequer pediu desculpas pelas coisas horríveis que disse a mim e para Leonidas. Ah, — virou-se para a mãe do rapaz — e devo te lembrar que dentre as várias frases doentias dela, inclui amaldiçoar a vida do seu próprio filho. Ah, o que foi? É assustador saber que a mulher com quem vai se casar prefere ver seu filho num caixão. Me desculpa, mesmo querida, não queria abalar seus sentimentos.

— Isso não abala meus sentimentos, Kalliope. Eu amo a sua mãe. — Marilia rebate na hora.

— Mãe… — Leonidas reage, claramente afetado pela declaração da mulher.

Kalli ri, alto e debochado.

— Leonidas a gente não deveria ter perdido nosso tempo. — Kalli pegou a mão do rapaz novamente, o puxando para que ficasse de pé. — Pega a porra do seu porta-retrato e o mundinho fantasioso doentio de vocês e vão se foder.

— Kalliope! — Laura rebate, afetada pela falta de educação da filha.

— O que foi? Não me diz que vai bancar a mãezinha agora e me corrigir?

— Não faça isso… — Laura pediu, com lágrimas beirando os olhos.

— Não fazer o quê? Exercer o meu direito de fala? Foi-se o tempo que Leonidas e eu aceitávamos tudo calados. — Kalli riu novamente, revirando os olhos diante da situação hilária. — E pensar que eu até sonhei com a nossa reconciliação, mãe. Eu pensei que iria entrar aqui e tudo ficaria bem. Por que, porra, eu não quero te perder. Mas acho que você já me abdicou há muito tempo. Eu estou lutando por nada.

— Não é verdade. Eu nunca vou deixar de te amar, sou a sua mãe. — Laura tentou, juro que ela tentou.

— Para de repetir essas frases decoradas do comercial de dia das mães, Laura. Eu mereço muito mais que isso! — Kalli estava fria e impenetrável, não abaixaria a cabeça, não sentiria pena, não hoje.

Se isso era uma vingança, pois que seja. Ela estava vestida de vermelho, mais especificamente, vestida de vingança. Possuía provas nuas e cruas. Nada iria a impedir.

— Se é desculpas que precisa, tudo bem. Me desculpe. — Aquilo soou mais falso que uma nota de 1 real.

Kalli ficava a cada segundo mais impressionada com a capacidade da mulher. Seja o que for que tenha acontecido entre elas, era irreversível.

— Laura, querida, seu tempo já passou. Agora eu sou uma mulher adulta e se você me machuca, tem consequências. Não vou mais passar nenhum minuto na presença de vocês duas, não vou mais me submeter aos seus caprichos disfarçados de amor. Vocês se merecem. E vou me afastar antes que tenha mais do que queimaduras na minha pele. Antes que Leonidas tenha mais que uma perna quase arrancada. Por favor, sejam muito felizes, pois depois de comprovar tudo isso, eu com certeza estarei muito feliz ao lado do homem que amo. Sem culpa. Sem arrependimentos. Você não me deu escolha, mãe. Adeus.

Deu as costas para as mulheres, soltando a mão do rapaz e correndo em direção a saída da loja.

— Kalli, por favor, não faça isso. — Laura gritou e os poucos presentes na loja voltaram seus olhares para a confusão. — Me dá só mais uma chance.

A garota ignorou-a completamente, deixando o estabelecimento.

Leonidas virou-se para as mulheres diante dele, respirou fundo e deixou as palavras saírem…

— Eu faço das palavras da Kalli as minhas, mãe. Poxa, você ama uma pessoa que não gosta de mim e vendo que claramente não se importava com o fato, não me resta muitas opções.

— Filho, por favor, não vou sobreviver sem você. — Os olhos da mulher escorriam lágrimas.

— Sabe onde me encontrar, mãe. Eu te amo muito, dona Marilia.

— Traz a Kalli de volta, vamos resolver. — Pediu subitamente.

— Não tenho direito de fazer isso com ela. E, na verdade, eu a apoio. Ela é uma mulher agora, tem direito de decidir quem quer ou não em sua vida. Sinto muito, Laura. Tchau, mãe.

O rapaz cogitou deixa-las para sempre, mas então algo em seu coração o fez virar-se para ambas as mulheres.

— Procure-a quando estiver disposta a abrir seu coração, Laura. Eu digo de verdade, sabe? Quando você finalmente puder compreender os sentimentos de Kalliope. Eu sei que ela te ouviria, te perdoaria e as coisas entrariam nos eixos. Ninguém merece viver sem a presença daquele que ama. E acho que vocês vão querer conhecer os nossos filhos. Eu ficaria feliz se todos nós pudéssemos ser finalmente uma família de verdade… enfim, talvez eu me arrependa disso depois. — Olhou no fundo dos olhos cheios de lágrimas de sua sogra.

Leonidas não era bobo, ele sabia que Kalliope logo sentiria saudades da mãe, que precisaria dela em diversos momentos de sua vida. E tinha esperanças que o coração de gelo da mulher a fizesse voltar atrás e pedir perdão a filha. Ele acreditava e vislumbrava um futuro onde estariam todos juntos e felizes, como uma família deve ser. E apenas por isso disse aquelas últimas palavras para Laura.

— Agora sim, adeus. — Finalizou com a sensação de missão cumprida. O rapaz as deixou, correndo para alcançar a moça que o esperava do lado de fora.

Assim que abriu a porta, deu de cara com o vento forte que chicoteava os cabelos da moça para todos os lados, fazendo-a sentir o sabor da liberdade. E doía, sim, estava sendo rasgada ao meio por cortar laços com a mulher que lhe gerou no ventre. Mas bem dizem que se até mesmo seus pais te fazem mal, então deve-se cortar o mal pela raiz. Ela não teria medo de se afastar de Laura, não quando ela trazia tantas coisas ruins para si. E não era apenas sobre Leonidas, era totalmente sobre a relação das duas.

As manipulações, as exigências. A falta de amor e carinho. A falta de uma mãe. As coisas que ela disse para Kalliope, eram palavras irrefutáveis e ao que tudo indica, sua mãe não se arrependia.

Kalli sabia que o sofrimento da mãe no casamento com Olavo, fez com que ela desejasse furiosamente ser amada por alguém que ela também amasse por inteiro. E essa necessidade tão grande a fez ficar obcecada pelo amor de Marilia e nada além dele. Mas agora, juntas e sem problemas envolvendo seus filhos, elas finalmente iriam ter espaço para compreender o mundo ao seu redor e com isso voltarem sua atenção aos filhos.

Por muito tempo Kalli esteve lutando sozinha, abaixando a cabeça e aceitando tudo que Laura impunha à sua vida. Mas agora faria suas próprias escolhas.

Talvez num futuro elas voltassem a se ver, afinal, nada permanece o mesmo para sempre. Se até Leonidas mudou, Laura poderia fazer o mesmo. E bom, caro leitor, por mais que odiemos Laura e Marilia a essa altura, eu preciso te dizer que a tempestade vai passar. Na mesma intensidade que o amor machuca, ele também cura. E uma vez mãe e filho unidos por um cordão umbilical, estarão ligados para sempre pelos vestígios de amor em seus seres.

Todavia, Kalli não ficaria esperando, não mesmo. Ela tinha um futuro inteiro pela frente e estava abraçando-a nesse exato momento.

— Vamos sair daqui.

Leonidas nem sequer respondeu, apenas a puxou pela mão em direção ao carro.

— Vai, vai, vai! — Kalli gritou, enquanto ele pisava fundo no acelerador e arrancava o carro da vaga de estacionamento.

O vento invadiu o carro através das janelas escancaradas, Kalli gritou com toda a força em seus pulmões e sem derramar uma lágrima.

Pôs tudo para fora de si.

Quando olhou para o rapaz, ele a encarava com uma expressão perplexa.

Simplesmente caíram na gargalhada, sem motivo aparente, apenas riram.

— Para onde?

— Vamos para casa, vou pedir um delivery agorinha. Quero aquele donut de frutas-vermelhas e para ontem! — Declarou a moça com os cabelos ao vento.

— Esse momento merece uma música.

— E dessa vez eu escolho.

— Você vai me fazer ouvir Taylor Swift de novo.

— É eu vou sim.

— Tudo bem. Eu amo te ouvir cantar as músicas dela.

— Acho bom ou esse relacionamento se tornaria tóxico e eu seria obrigada a terminar com você. — Brincou, encarando-o como se ele fosse de outro mundo.

— Calma, amor. Ei, Taylor Swift, eu te amo! — Leonidas gritou desesperado, fazendo a mulher ao seu lado dar gargalhadas.

Usando o celular conectado ao Bluetooth do carro, Kalli percorreu o álbum 1989 (Taylor’s Version) até encontrar a canção desejada.

Ela cantou o refrão de “Clean” a plenos pulmões.

O que a surpreendeu foi que Leonidas sabia a letra e cantou desafinado junto com ela.

 

The water filled my lungs / A água encheu meus pulmões
I screamed so loud, / Gritei bem alto,
But no one heard a thing / Mas ninguém ouviu nada
The rain came pouring down / A chuva caía com força
When I was drowning, / Quando eu estava me afogando
That’s when I could finally breathe / foi aí que finalmente pude respirar
And by morning / E de manhã
Gone was any trace of you, / Não havia mais nenhum vestígio seu,
I think I am finally clean / Acho que finalmente estou limpa

A cena se repetia pela última vez, o carma do dia 13 de dezembro.

Kalli e Leonidas num carro, fugindo. E dessa vez não era contra sua vontade. Sem palavras cruéis. E não teria motoristas bêbados.

Causavam caos e destruição, para depois fugirem, eram como Bonnie e Clyde.

Apenas eles, a liberdade e um grande amor.

Parece que após quase morrer, ela descobriu que estava totalmente viva.

 

e eu não sei o porquê, mas com você eu dançaria
em uma tempestade, com meu melhor vestido
sem medo
fearless, taylor swift

 

 

Quarta, 25 de dezembro de 2024

Era Natal e todos estavam reunidos na sala da casa de praia do Dr. Olavo Belline. Kalli na companhia de Leonidas, Luiz, Drika, sua melhor amiga Luiza e os amigos de seu noivo, Abel, Sonya e Maxine. Já haviam desfrutado da deliciosa ceia, abriram os presentes e agora jogavam conversa fora enquanto bebiam vinho, riam das imitações de Luiz e Abel que se mostraram uma verdadeira dupla de comédia.

Juca roía um imenso osso num cantinho da sala, presente do pai da dentista para o amigo mais querido da família.

Kalli estava sentada no colo do rapaz, focada em revirar sua caixa de e-mails do avesso. Hoje à tarde ela viu Leonidas dando mais uma aula a Luiz, ensinando o rapaz a tocar o instrumento que tanto queria. E isso virou uma chavinha em sua mente, despertando uma memória antiga e esquecida. Fazia tanto tempo… Ela tinha certeza que iria encontrar aquele tal e-mail.

Depois de alguns goles de vinho, um pratinho de pavê e uma taça de pudim, ela foi surpreendida:

— Aí meu deus, eu achei! — Levou a mão a boca, completamente chocada.

O volume das vozes e a música ao seu redor estava alto o suficiente para particularizar a conversa entre eles.

— O que foi? — Leonidas questionou preocupado.

— Você precisa ver isso! Vamos lá fora? Assim não atrapalhamos o pessoal e você pode levar o violão. — Sugeriu a moça, fazendo-o sentir-se em um enigma. Essa fadinha está aprontando algo.

Assim que o rapaz concordou, pediram licença aos convidados e rumaram em direção à praia. Com os pés descalços e vestidos formalmente, caminharam até uma certa distância só para ficarem sozinhos. Se sentaram sob a areia, sentindo a brisa fresca e ouvindo o barulho gostoso vindo do mar. As estrelas eram mais visíveis daqui, tornando-se suas luzes de natal particular.

— Está me deixando curioso, fada do dente.

Antes que o rapaz surtasse de ansiedade, a dentista começou a explicar:

— Contexto: eu tinha uns 15 anos e um trauma gerado por você. Eu não podia escrever em diários, pois tinha um suposto “irmão” que era uma peste. Até que certo dia, uns sentimentos estranhos vieram me visitar e precisei desesperadamente escrever para desabafar. Mas como fazer isso sem deixar cair nas mãos do terrível e temível Leonidas? Bom, eu achei a solução no meu e-mail. — Kalli deu risada, mostrando o celular. — Você está pronto, Sr. Leonidas?

— Para ler sobre sua paixonite por mim? Acho que nasci pronto. Não sabe a raiva que senti quando li aquele “eu amo Igor” naquele seu diário. — Relembrou o músico.

Ah claro, a fatídica noite em que ele espalhou cópias do diário da irmã-postiça em sua festa de aniversário, fazendo todos lerem sobre sua paixão secreta. Só de lembrar disso, Leonidas sente culpa e vergonha, ele fez Kalli passar por situações terríveis. E se arrependia amargamente por isso.

— Você foi cruel num nível, Leonidas que olha, melhor não falar sobre isso, foca aqui. — Segurou o celular de forma que ambos pudessem ver a tela.

Kalliope começou a ler:

 

De: [email protected]
Para: [email protected]

Assunto: Um segredo!
Data: 14/01/2015

“Querido E-mail,

Aqui é a Kalli e estou tentando superar a humilhação de ter que escrever num correio eletrônico, por culpa única e exclusiva de Leonidas.

Engraçado que, justamente ele foi a razão que me fez sentir essas coisas e precisar vir aqui.

E-mail, eu preciso te dizer, isso aqui deve morrer comigo. Essas palavras não podem serem lidas em hipótese alguma. É um segredo que vou levar comigo para o túmulo.

Acontece que há alguns anos atrás, eu tinha uns 8 anos na época. Estava assistindo ao MTV na TV, e estava passando um videoclipe de uma loira bonita que havia acabado de lançar o vídeo de sua mais nova canção, “Love Story”. Um dia antes do meu aniversário, era 12 de setembro de 2008.

Fiquei fissurada naquela mulher e desde então, tenho acompanhado suas músicas. Mas o grande problema a que me refiro, não é um videoclipe da TV e sim a minha realidade.

Era um domingo à tarde tranquilo na casa dos avós de Leonidas, minha mãe e Marilia descansavam na rede debaixo das árvores enquanto eu e Leonidas nadamos um pouco. Eu estava lhe ensinando alguns truques quando ele parou para tocar violão. Eu conseguia ouvir as canções até debaixo d’água, foi uma sensação tão gostosa.

Até que tive uma ideia, me aproximei do meu irmão-postiço e pedi a ele para me ensinar a tocar “Love Story”. Ele achou a música melosa e brega, eu apenas ignorei, pois não dava a mínima para o que achava. Eu amava aquela canção e ponto final. Pois foi por meio dela que conheci a minha cantora favorita e dali em diante iniciou-se uma era de fanatismo por ela…, mas, enfim, voltando ao que interessa…

Leonidas não queria me ensinar a princípio, mas logo o lembrei das aulas de natação que lhe forneci de graça e ele voltou atrás em sua decisão.

Prontamente, Leonidas pegou a cifra na internet e começou a dedilhar a canção. Eu senti como se fosse explodir. Não dá para explicar, ele cantarolando baixinho, tocando com cuidado… aparentemente, ouvir um garoto tocando a sua música favorita pode ser um caminho sem volta. Faz seu coração bater de um jeito muito peculiar. Te faz sentir coisas que eu não deveria sentir.

Ele tentou me ensinar, mas claramente era muito difícil para mim. Não me sai muito bem o que arrancou risadas dele. Mas foi um momento tranquilo e divertido, pela primeira vez na vida nós não brigamos. Acho que ele ficou comovido pelo meu interesse por música.

No fim, eu fiquei chateada e me dei por vencida, a música era só para ouvir. Deixa essa história de tocar instrumentos para o Leonidas mesmo.

A questão, e-mail, é que ele colocou a mão dele sobre a minha e me senti como em um clipe da Taylor Swift. Tinha uma gentileza impossível quando se trata dele. O jeito que o calor de nossas mãos nos surpreendeu, pois assim como eu, imediatamente ele me olhou assustado. Nossos olhos se encararam por um instante, até ele desviar pouco envergonhado. Foi exatamente como nos filmes. Como eu não poderia me sentir boba diante disso?

Nunca mais vou ouvir Love Story do mesmo jeito, pois sempre me lembrarei do garotinho de olhos verdes tocando-a para mim. E foi assim que mais uma vez Leonidas estragou tudo na minha vida.

Tenho tanta vergonha disso que só quero esquecer. Ele deveria ser meu “irmão”. Não posso deixar meu coração bater desse modo. Não posso lidar com as minhas bochechas queimando.

Eu e Leonidas nunca vamos ficar juntos.

E cogitar isso me faz querer sair correndo, gritando NÃO!

Assim como disse Taylor: eu não sou uma princesa, isso não é um conto de fadas e não preciso de nenhum príncipe em um cavalo branco[1].

Preciso mesmo é encontrar um meio de tirar ele da minha cabeça e por meio desse manifesto, eu, Kalliope Maria Antonelli Belline, banirei Leonidas Vitorino do meu coração para sempre!”

 

Os dois deram gargalhadas da antiga Kalliope abominando sua primeira paixão, depois as risadas cessaram e Leonidas achou tudo uma fofura.

— Quem é que faz do e-mail seu próprio diário? Isso é perigoso, fada do dente. Imagina só se envia para alguém sem querer?

— O que foi, hein? Sou a moderna da relação. Já reparou que você escreve cartinhas, usa pendrive, caderninho, gosta de veículos antigos, rádios a pilha, CDs e músicas de outras décadas. Você nasceu no ano errado, meu jovem. — Debochou Kalliope, o fazendo rir.

— Tudo bem, não dizem que os opostos se atraem? Deve ter sido isso que fez a gente ficar juntos. O senhorzinho do século passado e a garota futurística.

— A fanfic perfeita. — Kalli concordou, risonha.

Se pegaram admirando os olhos um do outro, até que um fato passou pela cabeça do músico:

— Pelo visto, não fui o único que se apaixonou.

Era exatamente por esse motivo que ela queria tanto encontrar esse e-mail, para mostrar a Leonidas que ele não foi o único que se apaixonou quando criança, aconteceu com Kalli também. Seja o que for, estava escrito nas estrelas. E isso era clichê e brega, mas ambos adoravam. Amar assim parece um filme, e se contassem essa história para Kalli ela jamais acreditaria.

— Não mesmo. Eu consegui de fato expulsar você do meu coração, disfarcei muito bem. Você, no entanto, me fez pagar por cada batimento destinado a mim.

— Eu não sabia como amar alguém… — O músico lamentou, pouco afetado. Leonidas tinha vergonha de lembrar quem ele foi no passado. Seu consolo era saber que enterrou essa versão de Leonidas no dia daquele maldito acidente.

— Isso definitivamente ficou no passado. Vejamos onde estamos agora, eu paguei a minha língua e você… bem, você me ama do jeito certo, Leoni. — A garota o olhou com as estrelas refletindo em seus olhos. — Agora se me permite… poderia por obséquio começar a fazer o que sabe de melhor? Mereço te ouvir cantando aquela música para mim.

O rapaz abriu um sorriso imenso, adorando a ideia.

— Seu pedido é uma ordem, minha fada.

Leonidas deu um selar em seus lábios, sua mão alcançou o instrumento descansando sobre a areia, ele pegou uma palheta no bolso de sua calça e começou a tocar a introdução da música olhando nos olhos de sua noiva. De frente ao mar, com a madrugada sob suas cabeças, com sua família e amigos assistindo tudo de longe, ele fez da letra daquela canção mais uma declaração de amor das milhares que ainda faria para ela.

We were both young when I first saw you / Nós dois éramos jovens quando te vi pela primeira vez
I close my eyes and the flashback starts/ Eu fecho meus olhos e o flashback começa…

É uma história de amor e Kalliope estava dizendo “sim”.

 

e eu estava chorando na escadaria
implorando: Por favor, não vá
e eu disse: Romeu, me leve a um lugar onde possamos ficar sozinhos
eu estarei esperando, tudo o que nos resta fazer é fugir
você será o príncipe e eu serei a princesa
é uma história de amor, baby, apenas diga sim
love story, taylor swift

[1] Menção a canção “White Horse” de Taylor Swift.

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