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Me encontre sempre à meia-noite

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O amor começa assim…

Primeiro a ansiedade gerada pelas borboletas no estômago. Depois você se pega pensando o dia inteiro naquela pessoa. Conta os segundos para se encontrarem. Sorri feito boba na presença dele. Sente o coração palpitar de um jeito surreal. Se pega desejando provar o sabor dos seus lábios. Desejando tocá-lo, sentir a sua pele, ouvir os seus gemidos, unir-se em um só corpo, fazê-lo alcançar o céu enquanto grita seu nome. E só lhe resta a febre… o calor incandescente que se recusa a abandonar seu corpo. Arrepios inesperados e inevitáveis. Desejo ardente. Você se pega apaixonada por tudo que ele diz e faz. E de repente, respirar tornou-se mais agradável quando feito com ele. Seu coração está ligado diretamente ao daquela pessoa. Todas as coisas que você sempre amou ser e fazer, se tornam ainda mais significativas diante do apoio do olhar orgulhoso da pessoa que ama. Se antes já era feliz com as escolhas da sua vida, agora ele acentuava ainda mais. Leonidas fazia mais do que completá-la, ele era parte essencial da sua felicidade.

O amor é complexo demais para sentir menos do que intensidade. E se você consegue dar espaço um para o outro no relacionamento, se respeitam, são sempre confidentes e dão espaço para serem, existirem em sua singularidade e em seu próprio tempo, então toda a negatividade é anulada, resultando apenas um relacionamento que a sociedade julgava ser impossível.

Seres humanos são complexos e por mais que almejassem, não poderia compreender outra pessoa por completo. Só precisavam se permitir existir, sendo quem eram, sem abdicar seus gostos e sonhos pessoais. Sem anularem os momentos separados, cujo poderiam ser com os amigos, ou apenas degustando da solidão. Enfrentariam dias de sol, assim como tempestades particulares. Havia batalhas conjugais assim como pessoais. Afinal, eram dois seres ligados por um relacionamento, mas com um mundo inteiro existindo ao seu redor.

É preciso uma maturidade incansável para viver um relacionamento saudável. Honestamente, fidelidade e respeito são para pouquíssimos. Amar de verdade, respeitando a existência de um outro ser humano sem o controlar ao seu modo, é uma anomalia incapaz de ser exercida pela raça humana. Mas existem exceções e Kalliope tinha certeza que ela e Leonidas eram uma.

Talvez seja tolo pensar que o universo os uniu. Talvez seja petulância adolescente acreditar em destino. Mas como ela poderia negar tudo o que lhe aconteceu? Como poderia negá-lo se o nome dele está tatuado em sua pele? Seriam loucos? Não havia dúvida que sim e ela só tinha uma única opção: correr em direção à loucura.

Passava o dia exercendo sua profissão, moldando sua carreira, construindo o seu império e a sua liberdade financeira. E à noite, encontrava-se com o rapaz que cuidava do seu coração, no sofá da sala de uma casa que era deles, trocando carícias e cuidados que somente os dois entendiam. Kalliope Antonelli nunca precisou de amor para se tornar completa, mas mentiria se negasse que a felicidade é muito mais gostosa nos braços do homem que ama. Meia-noite adiante. Horas, dias, meses, anos… sem se cansar. Talvez essa seja a maneira correta de amar alguém.

E de repente, você se encontra completamente realizada e dona do seu destino, envolta a uma névoa inebriante de realizações e amores.

Tudo começa com encontros despretensiosos à meia-noite.

 

Terça, 13 de maio de 2025

Os cabelos da moça batiam no meio de suas costas, Kalli estava usando aquele vestidinho azul-bebê, com florezinhas brancas de miolo amarelo estampadas no tecido. Leonidas adorava vê-la nele, salientava suas curvas de um jeito irresistível. Fazia parecer-se uma menina-mulher, delicada e sensual. Com os pés descalços, trazia consigo uma fatia do delicioso bolo de cenoura com calda de chocolate que ela mesma havia feito e os dois não conseguiam parar de comer. Em seu ombro, estava pousada a mais nova integrante da família, a pequena Gigi, uma calopsita amarela de bochechas vermelhinhas que chegou há pouco para completá-los.

Passou um dos pratinhos para Leonidas enquanto o outro era para si, com a atenção presa na TV, voltou a ocupar o lugar ao lado do rapaz. Seu cabelo também estava maior no topo de seu corte casual, formando cachos super enrolados que a garota adorava e fazia questão de ajudá-lo a cuidar. Kalli estava cruzando os dedos para que seus futuros filhos tenham os cachos do pai, era lindo demais. Imagina só uma garotinha de cabelo cumprido e ondulado? Ela suspirava só com a projeção de sua mente.

Estavam maratonando os maravilhosos filmes do Studio Ghibli no aplicativo de streaming, o filme da vez era “A Viagem de Chihiro”. Eram 22h47min da noite, passaram o dia imersos em seus próprios afazeres e agora desfrutavam da presença um do outro. Juca estava deitado no tapete felpudo da sala, determinado a destruir a nova pelúcia que Sonya lhe presenteou.

Um ano juntos.

O fatídico dia 13 os perseguia, em maio do ano passado estavam dando seu primeiro beijo dentro daquela piscina e assim ficou demarcada a data comemorativa do grande amor.

Leonidas mal prestava atenção no filme, seus olhos estavam sob a mulher ao seu lado, rindo das piadas cômicas e mastigando os pedacinhos de bolo. Ele esperou a tela dos créditos subirem para finalmente atender o chamado do seu coração. E como ele estava ansioso por isso.

— Kalli? — Chamou quando viu a moça passar o dedo na cobertura deixada acumulada num canto do prato e levar a boca. Sorriu achando fofo, a moça é uma formiguinha, não desperdiçava uma grama de açúcar.

— Oi? — Respondeu, distraída.

— Se troca, vamos dar uma voltinha. — Anunciou, fazendo-a quase ter um treco.

— Como assim Leonidas? Já são 11 da noite!

— Eu sei e se formos rápidos chegamos antes da meia-noite. — Kalli ficou paralisada, encarando-o sem compreender. — Confia em mim e use um biquíni.

Foi quando o queixo dela caiu, fazendo sua boca se abrir em choque. É só somar um mais um, Kalli. Hoje é seu aniversário de namoro. Dãwm.

— Aí meu deus! — Exaltou-se completamente animada.

— Eu já entreguei tudo, vai logo.

Kalli pegou Gigi cuidadosamente pelo dedo – recebendo uma picada de punição – e entregou ao rapaz, para assim sair em disparada pela casa até o quarto do casal, abriu o guarda-roupa às pressas, indo direto na sua gaveta de roupas de banho. Escolheu um biquíni aleatório e colocou um conjunto moletom por cima. Calçou tênis esportivos e deixou o cabelo do jeito que estava. Enquanto esperava o rapaz se arrumar, ficou no quintal observando o céu estrelado. Sentia os batimentos acelerados de ansiedade.

Ele trouxe consigo uma mochila, a qual passou para as costas de Kalliope e o violão que seria carregado pela moça também, já que iriam de moto. O Chevette estava na oficina após apresentar umas pequenas falhas rotineiras.

Kalli estava surtando na presença inesperada do instrumento inseparável de Leonidas. Mas conteve suas emoções, mais ansiosa pelo momento que ele revelaria tudo do que qualquer outra coisa.

Subiram na moto e Leonidas deu partida pela cidade abraçada pela noite, pouco iluminada e fria. Rumaram por um caminho conhecido, Kalli se manteve atenta a tudo. Até pararem diante da entrada de prédios sofisticados do lado sul de Vera Marine.

Solar Palace, hello again.

Juventino estava ao lado do porteiro como quando Kalliope deixou às pressas o condomínio para finalmente começar sua vida ao lado do rapaz. Ela cumprimentou os funcionários como se fossem seus melhores amigos, e convenhamos talvez fossem. Trocaram uma conversa rápida sobre como as coisas iam. Juventino contou com um sorriso orgulhoso no rosto que havia se tornado avô.

Depois de terem a presença liberada pelo porteiro, mesmo quebrando as regras, caminharam até o prédio azul, qual sempre foi alvo de suas meias-noites.

Entraram no ginásio sentindo o típico mormaço os envolver, Kalli abriu um sorriso imenso, como ela sentiu falta desse lugar. Fazia tantos meses que não nadava e era tão gostoso praticar isso. Agora, ela mal tinha insônia, ia dormir sempre feliz ao lado do homem que ama. E convenhamos, na maioria de suas noites adormecia exausta após um longo dia de estudos, trabalho e noites banhadas de luxúria junto ao rapaz.

— Que saudade. — Comentou por alto, tirando a mochila e a deixando em uma espreguiçadeira. — Faz tanto tempo, mas tudo continua igual.

— Não vejo a hora de termos a nossa própria piscina em casa.

Haviam comprado o terreno e agora estavam juntando o dinheiro para dar início a obra que levaria tempo e muita grana, mas aos poucos iriam conquistando cada pequena vitória. Sem pressa. Enquanto isso, passavam o tempo se divertindo no laptop de Kalliope, montando a casinha dos sonhos no The Sims 4.

— Eu estou contando os segundos.

Removeram as roupas que trajavam e foram logo correndo para a água azul, não resistindo em darem um pulo no lado mais fundo. Kalli deleitou-se da temperatura quente, executou seus nados em sintonia do rapaz que a acompanhou a todo momento.

Conversaram por um bom tempo na borda da piscina, como faziam no início de tudo. Até que Leonidas lembrou que as horas que tinham ali eram poucas e o relógio familiar numa parede do ginásio, os alertava que era quase duas da manhã.

Saíram da piscina e se enrolaram em toalhas, uniram as espreguiçadeiras para se sentarem juntinhos, colocaram Rocket Raccoon do lado e finalmente Leonidas pegou o violão.

— Ainda vai me matar de ansiedade ou é agora que descubro porque raios nos trouxe aqui? — A garota já estava cogitando roer as unhas.

— Bom, é o nosso aniversário. No dia 13, nos beijamos, no dia 14 você correu para meus braços e eu te amei pela primeira vez dentro dessa piscina. Queria te trazer para o lugar que tudo começou… — Começou a contar enquanto ajustava as cordas do violão. E por fim respirou fundo e revelou: — Quero te mostrar as canções que escrevi no último ano, para você. Das mais bonitas até a única triste. Quero que saiba de tudo, Kalliope.

A mulher segurou a respiração, seus olhos apenas encararam os dele. E mais uma vez Leonidas a fazia ficar sem ar, sem reação, apenas ouvindo o drama que seu coração fazia dentro do seu peito.

O grande dia havia chegado.

O dia que ele finalmente revelaria suas canções para a musa que o inspirou.

— Eu tô pronta. — Declarou, subitamente.

Ela havia esperado tanto por isso, cada dia que passava se perguntava quando é que seu Orfeu iria finalmente revelar o que tanto escrevia naquele caderninho misterioso. E ela sempre soube que eram canções para si, mas ouvir da boca dele e estar prestes a desvendá-las como um tesouro, bem… isso era demais para seu pobre coração apaixonado.

— Você pode acompanhar as letras por aqui.

Entregou o tal caderno para ela, o que fez Kalli quase ter um treco ali mesmo. Ela sabia da importância daquelas folhas em suas mãos. Aceitou de bom grado, como se estivesse prestes a tocar uma pedra muito preciosa, mas, ao mesmo tempo, se sentia uma fora da lei, prestes a desvendar algo que antes tinha que evitar a todo custo.

Passou a mão pela capa, apaixonada pela textura, abriu o caderninho com cuidado e deparou-se com a letra caprichosa de Leonidas, digna de cartas de amor dos filmes antiquados. Ler suas palavras era decifrá-lo de um modo antes inexplorado, ele estava dando a ela um pouco mais do que tinha dentro dele. Algo que ele tem guardado só para si e agora ela era digna de conhecer. A ponta de seu dedo indicador resfolegou contra as palavras demarcadas no papel, fazendo-a sentir a intensidade que foram pressionadas ali. Podia sentir os sentimentos que o envolveram antes mesmo de ouvir a letra combinada a melodia. Era arte. Surreal. Seu coração estava batendo tão forte que mal podia suportá-lo.

— Aí meu deus. — Sussurrou impressionada, havia puro ouro em suas mãos. — Acho que meu coração vai explodir de vez.

— Espero que não, pois há tanto para te mostrar…

— Eu quero tudo, Leoni. Cada pedacinho.

O rapaz sorriu e começou a tocar as cordas do instrumento, fazendo um som acústico e gostoso soar no ambiente que envolvia e amplificava o som de maneira perfeita.

— Ainda não estão prontas, são rascunhos que precisam ter a melodia e a letra trabalhada. Mas pensei se o ideal não seria fazer esse processo com você, então… aqui está, fada do dente, minha Eurídice. Toda a minha alma, nua. Todo meu coração, que lhe pertence… tudo que você me fez sentir, cada vez que olhava para mim, cada vez que me tocou, cada palavra dita, cada vez que senti seu coração bater, e às vezes que o meu disparou por você, cada beijo que trocamos, toda a singular vez que estive dentro de você. Quando me destruiu e reconstruiu. Quando me liberei. Aqui está, cada segundo que te amei até agora…

E isso é só o nosso começo, baby.

Aqui estão todos os nossos encontros à meia-noite.

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